11 de dezembro de 2019

OS FILHOS DA OUTRA. Retomando o que já é uma tradição, o Nobel da Literatura deste ano ficou envolto em controvérsia. Porque o premiado apoiou, na Guerra dos Balcãs, Slobodan Milosevic, acusado de genocídio. Jennifer Egan, vencedora de um Pulitzer e actual presidente do PEN America, repudiou a escolha de um escritor que «persistentemente colocou em dúvida crimes de guerra minuciosamente documentados». O escritor britânico Hari Kunzru diz que Peter Handke sofre de «uma cegueira ética alarmante». Joyce Carol Oates acusou a academia sueca de ter mais simpatia pelos verdugos que pelas vítimas, e o filósofo esloveno Slavoj Zizek escreveu que foi eleito «um apologista de crimes de guerra». O Times de Londres escreveu, em editorial, que a escolha do austríaco foi «um insulto às vítimas do genocídio». Aleksandar Hemon, escritor de origem bósnia, diz que Handke é «o Bob Dylan dos negacionistas do genocídio». Também houve elogios, mas poucos. O crítico literário Denis Schek afirmou que o prémio foi uma bofetada na correcção política, e houve quem dissesse, sobre o conflito ex-Jugoslávia, que o nobelizado esteve do lado certo da história. Sem surpresa, houve protestos na cerimónia de entrega do prémio, depois da inevitável petição online para revogar a decisão. Como é óbvio, discordo dos pressupostos dos que discordam. Não que me seja indiferente que o escritor tenha apoiado gente da pior espécie, mas a obra literária que ele produziu, que desconheço, não deve ser enaltecida — ou denegrida — porque o autor é um canalha ou um santo. Se o prémio se destina à literatura, premie-se a literatura — e a literatura, como é sabido, está cheia de grandes livros escritos por grandes canalhas, que não se recomendam como seres humanos mas se recomendam como escritores. Mas se afastarmos as obras dos canalhas, sobra quem? Alguns, com certeza, mas desconfio que não muitos. Eis, a propósito, uma passagem de uma entrevista que Miguel Esteves Cardoso deu à revista Ler: «Se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura ficamos com nada. Se se tirarem os bêbados fica-se com zero. Se deixarmos só os livros feitos por pessoas que se portavam bem, tratavam bem a mulher, eram bons amigos e pagavam as contas a horas, ficamos só com merda.» É isto.

7 de dezembro de 2019

A FEZADA DO CLIMA. Apesar de não se falar doutra coisa, as alterações climáticas continuam a ser uma questão de fé: uns crêem, outros não. De ciência fala-se pouco, e quando se fala, duvida-se muito. Com razão. Porque os próprios cientistas parecem mais interessados em passar as suas opiniões que em demonstrar as evidências científicas — ou ditar as suas opiniões sem as fundamentar cientificamente. Por isso estamos onde estamos: de um lado, os que garantem estarmos diante uma catástrofe iminente; do outro, os que acham que tudo não passa de um embuste. Paradoxalmente, Greta Thunberg, o principal rosto do activismo pelo clima, também não ajuda. A ignorância própria da idade e o oportunismo à volta dela confundem mais que esclarecem, e no final ganham os incréus.

29 de novembro de 2019

LULA. Não celebro, nem lamento, a libertação de Lula da Silva. Afinal, não conheço os sarilhos em que se meteu para lhe dar «vivas» ou «morras». Mas há uma coisa que lamento: o funcionamento da justiça brasileira, ao que parece pior que o nosso. Depois, o juiz que lhe sentenciou a prisão foi logo a seguir «promovido» a governante, o que levantou as mais legítimas suspeitas. Como não fosse bastante tornar-se ministro logo após ter metido na cadeia o principal concorrente de Jair Bolsonaro, sabe-se agora que o então juiz Sergio Moro cometeu erros inadmissíveis, que aliados a toda a espécie de tropelias processuais acabaram por ditar a libertação do ex-presidente. Depois há o Presidente, que ainda há uns meses chegou ao Planalto e já é suspeito, ele e a família mais próxima, de patifarias várias, incluindo o envolvimento em esquemas de corrupção — ele que fez do combate à corrupção a grande bandeira da campanha, e, suspeito, levou grande parte dos eleitores a votar nele. Se Lula da Silva foi injustamente condenado a cadeia ou injustamente sentenciado a sair dela, não sei. O que é claro é que no Brasil os políticos decentes não se distinguem dos políticos criminosos, e só não digo que o Brasil vai acabar mal porque se anda, há décadas, a fazer este prognóstico, e nunca se concretizou. Millôr Fernandes escreveu que «o Brasil tem um enorme passado pela frente». Resta saber se também tem futuro.

5 de novembro de 2019

O DESERTO. Não me lembro de ler uma única entrevista de um jovem escritor português (o conceito de jovem pode ir aqui até aos 50) que tenha citado um livro ou autor. Por comparação com os «antigos», que citavam com abundância as leituras que tinham feito e os autores que admiravam, a gente lê estes sujeitos e fica com a ideia de que não leram, que a literatura começou com eles. Sendo um escritor um leitor que escreve, como bem disse Vila-Matas, é estranho. De facto, fica-me sempre a interrogação quando deparo com um caso destes: se não leram, o que os motivou a escrever? Eis um bom caso para um Freud dos tempos modernos. Podia citar os dois ou três do costume (já falei deles em textos anteriores), mas talvez fosse injusto para com quem fica de fora. Todos «consagrados» pela «crítica» e, suponho, por se «venderem» bem em feiras e romarias (hoje praticamente obrigatórias), apesar de obrarem entre o vulgar e o confrangedor. Falo do que me parece a realidade portuguesa, mas o fenómeno talvez seja global. Extensivo, de resto, a outras áreas, nomeadamente à política, um deserto total.

20 de outubro de 2019

HEMINGWAY. Nunca foi um dos meus favoritos, e só concluí O Velho e o Mar depois de um amigo me ter garantido que o tinha lido mais de uma dúzia de vezes. Como suspeitava, não me entusiasmou. Gostei mais de Paris é uma Festa e de O Sol Nasce Sempre, pelo que os cinco títulos restantes que aguardam nas estantes provavelmente ficarão por ler. Mas gostei de visitar a casa-museu de Hemingway, de que me ficaram agradáveis memórias. Indo eu à procura do local, já farto de caminhar e a duvidar que estava no caminho certo, eis que me cruzo com um sósia de Hemingway, que só podia vir de lá. Chegado ao local, calhou-me uma visita guiada num grupo com outro Hemingway, este um pouco menos perfeito mas que passaria por Hemingway caso fosse preciso. Mas o espanto não acabou aí. Manteve-se quando subi, por uma escada íngreme, ao primeiro andar da cabana que Hemingway mandou construir nas traseiras da residência (onde, ao que consta, se isolava para escrever), imaginando-o a subi-las e a descê-las embriagado. Como não há notícia de qualquer incidente neste sobe e desce, deduzo, sem grande convicção, que não tenha havido. Mas custou-me a crer quando desci, tão sóbrio como subi. Afinal, tratei de não me distrair para não me estatelar — e a sobriedade é-me infinitamente mais fácil de gerir que a embriaguez. No caso de Hemingway, talvez a lendária embriaguez, o seu estado normal quando não escrevia, lhe fosse mais eficaz.

4 de outubro de 2019

DOIS MAIS DOIS IGUAL A CINCO. Muito curioso de saber até onde os republicanos estão dispostos a ir para defender o inocente até prova em contrário. Como já disseram nada ver na conversa de Trump com o homólogo ucraniano, onde Trump tentou, não se sabe com que sucesso, chantagear Zelensky, ou vão ter que recuar muito, ou vão ter que mentir muito. Mas nem com uma imaginação prodigiosa poderão afirmar que a conversa entre os dois presidentes se presta a duas interpretações. É claríssimo o que lá está, a não ser que dois mais dois sejam cinco. E é preciso lembrar que o episódio da Ucrânia é mais um dos muitos já conhecidos, porventura o mais grave. E que há mais ucrânias. As conversas com os mandantes russo e saudita, que Trump mandou pôr longe de «olhares indiscretos», e agora também com o primeiro-ministro australiano (à hora a que escrevo já se fala dos primeiros-ministros britânico e italiano e, quem diria, do mandarim chinês), são os casos mais recentes. E que fazem os republicanos diante esta avalanche? Sem mais a que se agarrarem, os poucos que abrem a boca fazem-no para discordar dos factos, como se fosse possível discordar dos factos, ou «justificam» pela enésima vez o que não tem justificação. E depois há Rudy Giuliani, sempre a meter os pés pelas mãos, a jurar uma coisa e o seu contrário — e que, presumo que involuntariamente, vai comprometendo ainda mais o Presidente. Pobre Partido Republicano, que a sobreviver a Trump vai precisar de anos para colar os cacos. A coisa chegou a um ponto que, não fosse ele quem é, seria um caso de polícia. Será, no entanto, uma questão de tempo. Mais tarde do que seria desejável, provavelmente depois de mais alguns danos irremediáveis, a justiça há-de chegar.

4 de setembro de 2019

NOVILÍNGUA. Lembro-me de Ricardo Salgado, já com o BES em queda livre, dizer, nas televisões, que o banco que então dirigia iria dispensar não sei quantos colaboradores. Fiquei a pensar no verbo (dispensar) e no substantivo (colaboradores), expediente na altura pouco usado e que agora se generalizou. Mas se isto me pareceu normal vindo de quem vinha, já me chateia ver os jornalistas repetir a novilíngua dos salgados. Chateia-me que se diga dispensar em vez de despedir, colaboradores em vez de trabalhadores — e a crise mais ou menos generalizada dos media não serve de desculpa, muito menos neste caso concreto. Se há assuntos que não se justificam com as desculpas do costume, este é um deles. Mais que impotência, é puro desleixo, pelo que fariam bem os jornalistas prestar mais atenção a quem tenta vender gato por lebre, pois não o fazendo acabam por ser cúmplices. Fariam bem, já agora, escrever ou falar de modo a serem entendidos pela generalidade dos leitores, ouvintes, telespectadores, que não têm que saber vocabulário técnico. E não falo do jornalismo económico, jurídico ou cultural, embora também a este fizesse bem esforçar-se para chegar ao público em geral. Não é fácil, eu sei. Mas quem sabe realmente o que diz, descobrirá maneira de o dizer de modo a que todos entendam.

21 de agosto de 2019

A GRANDE ILUSÃO. Divido os actuais apoiantes de Trump em quatro grupos distintos: os ingénuos, os mal-informados, os republicanos que acham que mais vale um republicano mau que um democrático bom, e os mentirosos (nalguns casos acumulam). Notem que digo actuais apoiantes, não quem votou nele, que alguns terão mudado de ideias. Quem se revê no Trump racista e supremacista branco? Não duvido que muitos dos seus apoiantes, antigos e actuais, embora não tenham coragem de o dizer. Trump, aliás, tem dito o que tem dito porque sabe que é isso que grande parte quer ouvir, e com certeza que está a contar com eles para a reeleição. É um caminho perigoso, mas Trump já demonstrou que está disposto a trilhar o mais perigoso dos caminhos se isso o salvar da derrota em 2020 e das contas a ajustar com a justiça. E quem se revê nas constantes mentiras, nos mais reles insultos? Acho que todos os ingénuos (poucos), os mal-informados (a grande maioria), os republicanos de que falei, e os mentirosos. Os primeiros porque acreditam no menino Jesus, os segundos porque não sabem como informar-se (ou só lhes interessa o que lhes convier), os restantes porque discordam dos factos (como se fosse possível discordar dos factos) e não hesitam em usar a mentira e a calúnia contra os adversários, a quem acusam de ser inimigos da América e idiotices do género. É um facto que o sistema de freios e contrapesos tem resistido, mas a corrosão é por demais evidente — e por este caminho não tardará que comece a desmoronar-se. Não é só a democracia que está em causa, embora isso já seria bastante. É a civilização como a conhecemos, onde as virtudes compensam largamente os defeitos — e que esta gente, usufruindo dela, vai fazendo o possível para destruir, de forma consciente ou não, em nome de alternativas piores.

12 de agosto de 2019

A PORCARIA. Tirando um caso ou dois, os republicanos em funções no Congresso estão totalmente reféns de Trump. Porque ser contra Trump significa arruinar as carreiras políticas, acobardam-se de um modo nunca visto. Só quem abandonou — ou se prepara para abandonar — a vida política se atreve a desculpar o que não tem desculpa, e são menos do que seria de esperar. Escusado será dizer que em caso de impeachment uns e outros votarão contra, nem que se demonstre que Trump baleou alguém na Quinta Avenida, como em tempos se gabou de poder fazer e ficar impune. Lamento (o Partido Republicano faz falta à democracia americana), mas esta gente não tem coluna vertebral — como, aliás, os políticos em geral. E prometeram eles ajudar o idiota-em-chefe a limpar a porcaria.

16 de julho de 2019

BONIFÁCIO E AS GENERALIZAÇÕES. O que mais me impressionou no texto de Fátima Bonifácio foi ela ter dito o que disse sem fundamentar. Porque eu tinha respeito por ela, custa-me a crer que uma reputada académica não tenha melhores argumentos que o «olhómetro» e o «achómetro», traves-mestras do «pensamento» da historiadora sobre racismo e afins. O que disse Fátima Bonifácio poderia ser dito por um iletrado, e isso é que me chocou. Também não me convenceu quem veio em sua defesa, ora dizendo que ela não disse o que disse, ora dizendo que ela foi mal interpretada, ora dizendo que é uma péssima ideia impedir a liberdade de expressão (inteiramente de acordo neste ponto). O que ela disse, a propósito das quotas raciais nas universidades, e com que estou basicamente de acordo, foi claro e claramente estúpido, que só pode resultar de preconceito, ignorância, ou das duas coisas. E nenhuma delas é aceitável, ainda menos vindo de uma «intelectual consagrada», como lhe chamou o director do Público, que disse ter sido um erro publicar-lhe a prosa e eu discordo. Ainda bem que o texto foi publicado, mesmo que involuntariamente. Como demonstram inúmeros exemplos passados, calar quem pensa de forma que julgamos aberrante tem o efeito contrário do que pretende. A esquerda é, neste aspecto, igual ou pior que a direita? Honestamente, não sei. O que me parece é que um erro não se justifica com outro.

8 de julho de 2019

FACEBOOK (2). Agora que o Facebook é coisa de velho, tornei-me utilizador frequente. Porque descobri pintores cuja obra julgava conhecer praticamente na totalidade (Chagall, Kandinsky, Gauguin, Van Gogh, Picasso) e não era assim, e porque descobri outros que não conhecia ou pouco mais conhecia que os nomes (Paul Klee, Gustav Klimt, Munch, Rembrandt, Tintoretto, El Greco). Mas não foi só a pintura. Descobri quem escreve maravilhosamente, quem pensa excepcionalmente, quem fala de assuntos que me interessam que não vejo em mais lado nenhum. Tornei-me, portanto, um entusiasta, eu que tão mal falei do Facebook — e continuo a falar, embora por outros motivos. Há lá tanta coisa boa que seria estupidez ignorar, burrice não frequentar. Se grande parte do que lá há é do pior, é o preço a pagar.

3 de julho de 2019

FACEBOOK (1). As redes sociais em geral e o Facebook em particular deram voz a quem a não tinha. O resultado está à vista, e não me parece que seja surpreendente: descontando uma minoria, embora uma minoria substancial, as redes sociais vieram pôr a nu o que o homem tem de pior. Revelaram a existência de uma maioria silenciosa que esperava uma oportunidade para liquidar o próximo (como as caixas de comentários dos jornais começaram por demonstrar), apesar de no dia-a-dia nos parecer gente pacata. Publico textos online muito antes das redes sociais, e recordo-me bem dos emails recebidos só com o intuito de me insultar. Graças aos blogues, primeiro, e às redes sociais, depois, esta gente passou a manifestar-se doutra maneira, e talvez porque o que hoje dizem é mais ou menos público, há que insultar o mais grosseiramente possível. Como isto acontece geralmente no Facebook, que há quem diga ser já coisa de velhos (ver texto que publicarei em breve), talvez sejam apenas ressentidos que querem desabafar. Como agora toda a gente tem voz, ou julga ter, é possível que, despejado o veneno, acabe por passar. Como dantes se dizia do vinho, o Facebook, mas não só o Facebook, é o novo ópio do povo. Embora o povo seja aqui invocado como uma espécie de albergue espanhol, onde se diz que cabem todos.

26 de junho de 2019

O PADEIRO DE PORTALEGRE. O discurso de João Miguel Tavares (JMT) no Dia de Portugal causou embaraço à direita e à esquerda — mas, sobretudo, à esquerda. Li o texto e confesso que não percebo porquê. Antes de mais porque, sendo JMT assumidamente de direita, não escandalizaria se tivesse sido proferido por alguém de esquerda, e só não foi aplaudido pela generalidade da direita porque JMT, sendo de direita, vive à margem dos partidos, e nem a direita nem a esquerda partidárias apreciam quem pensa pela sua própria cabeça. Depois há coisas que não entendo. Inês Pedrosa, cuja ultima vez que ouvi falar dela foi a propósito de um episódio pouco edificante que metia estrelas que um determinado crítico literário atribuiu — ou ia atribuir — a um dos seus livros mas não atribuiu (ou atribuiu por pressão não sei de quem), começou por se mostrar escandalizada com a escolha de JMT para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal e se agarrar à circunstância de JMT se ter assumido como um homem comum, que ela interpretou no pior sentido do termo (o homem comum podia muito bem ser, segundo ela, o «padeiro de Portalegre»). Prosseguiu acusando-o de populista, de fazer um discurso antidemocrático, de ofender o país, e de mais umas coisas de que já não me lembro. Infelizmente, a escritora não fundamentou o que disse. Mas a sobranceria com que se aliviou deixou antever que não há nada que possa acrescentar. Está, portanto, dispensada de mais explicações, até porque suspeito que a emenda seria pior que o soneto.

20 de junho de 2019

DESTINO MARCADO. Fiz parte de um júri que decidiu a inocência de um jovem acusado de ter agredido um agente da autoridade. Como não havia provas materiais do que estava acusado, a decisão foi remetida para um júri, que decidiu com base em factos circunstanciais. Havia, realmente, alguns factos circunstanciais considerados credíveis, mas como a dúvida persistia, o júri decidiu, por unanimidade (a decisão tinha que ser por unanimidade), pela não-culpabilidade. Reparem que a terminologia usada não previa a inocência — o arguido era culpado ou não-culpado. Acompanhei, também, neste caso por motivos profissionais, o caso do futebolista americano O. J. Simpson, acusado de matar a esposa, que foi considerado não-culpado graças a uma equipa de advogados que conseguiu pôr em causa tudo o que era evidência, incluindo um teste de ADN, até então uma prova inquestionável. Apesar de mais de cem evidências encaixarem umas nas outras como um puzzle, o júri não conseguiu considerá-lo culpado do que parecia evidente, e o tipo acabou inocentado. Tudo isto para dizer que o Presidente Trump não é, até ver, culpado do que é suspeito, apesar das inúmeras provas materiais e circunstanciais indicarem ter cometido crimes de vária espécie que a seu tempo se hão-de provar. Repito: provas materiais, não apenas circunstanciais. São tantos os esqueletos no armário e fora dele que o Presidente americano acabará, mais tarde ou mais cedo, na cadeia. Sim, acredito na justiça americana, apesar de não ter grande margem de manobra enquanto Trump estiver no poder (é a política, e não a justiça, quem decide). Mas seja durante ou depois, Trump será confrontado com os seus crimes, e pagará em conformidade. Como já estão a pagar dois colaboradores próximos e um terceiro em vias disso.

7 de junho de 2019

OBRIGADO. Peço ao sr. do talho que me avie uns pés de porco, se faz favor. O sr. vira-se para mim e diz-me que faz favor coisa nenhuma, que está ali para me servir, que é o trabalho dele. Sorrio, e mecanicamente digo obrigado. O colega interrompe o assobio. O sr. repete que ora essa, que não tenho nada que agradecer, que mais não faz que o seu dever — e desta vez seguro-me a tempo e fico-me por um sorriso de assentimento. O colega retoma o assobio. O sr. do talho faz o que tem a fazer e entrega-me os pés de porco — que eu, já esquecido dos entretantos, volto a agradecer com um obrigado. O sr. quase se exalta. Repete asperamente o que já tinha dito, para trás e para a frente, e o colega interrompe novamente o fadinho. Despeço-me com um aceno de cabeça — que o sr. do talho, para meu alívio, não terá visto como um agradecimento. Dali a pouco já tinha a cabeça na próxima etapa, o chouriço, onde mo venderiam sem dizer uma palavra — nem, sequer, um simples obrigado. É o que se chama a lei das compensações, que não sei bem o que é mas para o efeito serve perfeitamente. Muito desequilibrada, mais tarde, por uma feijoada, que costumo comer sempre que preciso de acertar contas com o estômago. Sim, a canja é óptima, sobretudo quando acrescentada à minha maneira, mas não há como uma feijoada para certos desarranjos. Talvez o remédio só funcione para estômagos delicados, género alface e tofu três dias seguidos, mas nos tempos que correm, cheios de receitas para salvar o mundo e, com sorte, o canastro, o conselho não será de desprezar. Sobretudo quando acompanhado de um tinto insuspeito, que a medicina dos magazines há muito consagrou como remédio para santos e pecadores.

19 de maio de 2019

FAKE NEWS. Numa altura em que os políticos começam a discutir o problema das chamadas fake news, e eventualmente propor legislação para lhes pôr cobro, o Parlamento russo começou por aprovar uma lei que condena, com prisão ou pesadas multas, quem, online, divulgar fake news ou fizer comentários «desrespeitosas sobre o governo», e poucos dias depois aprovou outra lei que permite ao Presidente Putin desligar a internet no país sempre que exista uma «ameaça à segurança nacional». Escusado será dizer que estas medidas servirão para que todas as notícias contra o Governo possam ser consideradas «desrespeitosas», e uma «ameaça à segurança nacional» será quando Putin quiser. Apesar das movimentações que se têm visto, ainda ninguém descobriu o remédio para as fake news, até porque o «fenómeno» não é novo. Graças às redes sociais, nomeadamente ao Facebook, multiplicaram-se astronomicamente nos últimos anos, porque o poder das fake news é enorme e muitíssimo barato. Encontrar-se-ão, quando muito, receitas que atenuem os seus efeitos, que reduzam o volume, que até ver o único remédio realmente eficaz é a censura. Sim, a censura, que os portugueses mais velhos ou sentiram na pele e abominam, ou não sentiram na pele e agora glorificam — porque a censura de Salazar e Caetano lhes mostrou um país que nunca existiu, e de que têm, naturalmente, saudades. Gostaria de estar enganado, mas as fake news só serão reduzidas à insignificância quando se preferir a verdade à «verdade» que convém. Enquanto houver quem se disposta a acreditar no que lhe interessa, haverá quem se disponha a dar-lhe o que lhe interessa. Não por passatempo, divertimento ou assim. As fake news tornaram-se uma arma de destruição maciça nas mãos de extremistas e de regimes autoritários, que as usam com grande eficácia e proveito. Urge, por isso, inventar a receita que cure a doença sem matar o doente.

1 de maio de 2019

BOAS NOTÍCIAS. Conhecido grande parte do relatório Muller, demonstrou-se, desde já, que a generalidade dos media fez o que lhe competia. Não há, até ver, um único episódio no relatório que não tenha sido prévia e certeiramente noticiado, excepto pelos media do costume. Mas se isto não surpreende, é bom que a sociedade tenha motivos para que possa confiar na generalidade dos media, tão enxovalhados têm sido nos últimos tempos. As «fake news» e os «inimigos do povo americano», como Trump designa tudo o que seja notícia que lhe desagrada e todos os meios que considera hostis, não passam, afinal, de tentativas malsucedidas de Trump calar vozes incómodas, como os episódios do CEO da Amazon e do tablóide National Enquirer bem o demonstram. Não é preciso ir muito longe para ver que o dono da Amazon é o mesmo do Washington Post, jornal que, fazendo o que se espera que faça, não lhe tem feito a vida fácil — e quanto ao Enquirer, que deu à estampa um affair de Bezos com o objectivo de o prejudicar, demonstrou-se que Trump tinha o hábito de comprar o silêncio do pasquim sempre que este desencantava uma história que não lhe convinha, e não custa a crer que fez publicar histórias que lhe convinham usando idêntico expediente. O pior é que o relatório do procurador-especial pouco mudará na sua base eleitoral, avessa aos media e entusiasta de propaganda. Começa-me até a parecer que são bem capazes de defender Trump mesmo que o sujeito fique impune por matar alguém em plena Quinta Avenida, como sugeriu, a brincar, na campanha eleitoral, mas o ex-advogado Michael Cohen já avisou que deve ser tomado a sério.

4 de abril de 2019

PIOR SERIA DIFÍCIL. Assisti, com alguma perplexidade, ao Prós e Contras em que se debateu a eventual entrada das terapias alternativas no Serviço Nacional de Saúde, a que os médicos se opõem e os «alternativos» defendem. Um debate que se pretendia esclarecedor descambou, rapidamente, para o confronto, e cedo se percebeu de que lado estava a maioria dos presentes na plateia: do lado das terapias alternativas, vá lá saber-se porquê. Não fosse a moderadora, os médicos que se apresentaram para debater teriam saído dali apupados e humilhados. Por dizerem o óbvio que se esperava que dissessem: que não se pode pôr em pé de igualdade o que tem evidência científica com o que não tem evidência científica. Quase vinha abaixo a sala quando um médico começou por recordar isto. Quando se esperaria que os «alternativos» fossem confrontados com práticas duvidosas e aldrabices comprovadas, bem como com argumentos que merecem ser ouvidos, eis que acontece precisamente o contrário. Enalteceram, para gáudio da plateia, as proezas que juraram ter cometido, gabando-se da eficácia que os «tradicionais» não terão. Não fosse a suspeita de que os «alternativos» tomaram conta do espaço do debate, dir-se-ia que está tudo doido. Temo, porém, que o debate tenha contribuído para aumentar a confusão e a ignorância sobre as terapias ditas alternativas, ou complementares. Quem desesperadamente precisa de cuidados de saúde e ali viu uma oportunidade para se esclarecer, provavelmente saiu ainda pior do que entrou. Ironicamente, graças à televisão pública, a quem compete prestar este tipo de serviços e não soube – ou não quis – fazer o que devia. O que se viu foi tempo de antena gratuito em horário nobre para uma das partes, precisamente a parte a quem competia esclarecer todas as dúvidas que pairam sobre ela.

21 de março de 2019

SAIA UM ARGUMENTO A SÉRIO. Quem, nesta altura, depois de covardemente voltar a atacar o senador John McCain (que não está cá para se defender) e dizer outras coisas inconcebíveis, ainda apoia Donald Trump, só pode ser por um de três motivos: está mal informado (quero acreditar que seja a maioria), não quer dar o braço a torcer, ou então odeia tudo o que Trump odeia e aprecia tudo o que Trump aprecia. Gostava de estar enganado, e não estou a ironizar. Mas, se estou enganado, digam-me em quê, e porquê. Relembro que os insultos com que por vezes me brindam quando falo de Trump não são argumentos — ou são «argumentos» de quem os não tem. Gostava, de facto, de ver um argumento a sério em defesa de Trump — e, de novo, não estou a ironizar. Não consigo ver qual, mas gosto de imaginar que há, pelo menos, um argumento devidamente fundamentado. E não me venham dizer que Trump é contra o sistema, que o sistema pode ser tudo o que quiserem mas já impediu que Trump conduzisse os EUA para um regime como o de Putin, Orbán, Duterte ou Kim Jong-un, tudo gente que não se recomenda e que Trump admira e inveja. Sim, é de um regime autoritário que falo, onde Trump poderia exercer a autoridade com que sonha mas nunca terá.

20 de fevereiro de 2019

TÁ PRETA, A COISA. A investigação do procurador Muller a um eventual conluio entre a campanha de Donald Trump e a administração russa já demonstrou várias coisas, mas, sobretudo, que Trump se rodeou de gente que não se recomenda, nalguns casos de autênticos canalhas. Não há, até ver, um único colaborador próximo do Presidente que saia bem na fotografia, e quem se rodeia de gente assim, não deve ser muito melhor. Nunca duvidei que Trump acabará mal — acredito na justiça, mesmo com erros e imperfeições. Mas agora, que se anuncia uma investigação aos negócios de Trump-empresário, que aparentam ter relação com Trump-político, a coisa vai ser pior do que eu imaginava. Não acredito que as suspeitas que andam no ar (lavagem de dinheiro, ligações ao crime organizado, irregularidades de toda a espécie) sejam meros pretextos para o liquidar politicamente — e até já há factos a comprovar que as suspeitas são demasiado sérias para que possam ser ignoradas. O tempo não dirá tudo, mas dirá o bastante para que Trump acabe como acabaram — ou vão acabar — alguns dos seus compinchas. É só encaixar as peças umas nas outras, embora não queira com isto dizer que será fácil e o desfecho esteja para breve (anunciam-se novidades para a próxima semana, mas é melhor aguardar). São tantos os indícios de malfeitorias e os rabos-de-palha que só um milagre lhe permitirá terminar o mandato. Isto para não falar em cenários piores, muito piores, que apenas surpreenderão os «básicos» do sujeito ou os mais distraídos.