31 de agosto de 2009

28 de agosto de 2009

VERDADES INCONVENIENTES. Tortura? Somos, todos, contra. Em circunstância alguma se deve aceitar a tortura, gostamos de dizer, mesmo em casos em que ela possa evitar males maiores. Da Esquerda à Direita, passando pelo meio e pelos extremos, não há, sobre a matéria, o mais leve «mas». Isto, claro, em teoria. Na prática, se percebermos que a tortura pode evitar que o mundo nos caia em cima, somos mais realistas, e se preciso for fazemos de conta que nunca ouvimos falar dela. Escrevi que Cheney tinha razão quando disse que se devia divulgar tudo quando se divulgou a tortura da secreta americana, e o tudo incluía o que a tortura terá evitado. Escrevi, e mantenho. Não por defender a tortura ou que os fins justificam os meios, embora, por vezes, justifiquem, por mais que me custe admiti-lo. É que eu estou convencido de que o pior que se pode fazer é divulgar o que convém, e esconder o que não convém. Os factos são infinitamente mais importantes que a opinião que deles se tenha, e só eles permitem que cada um julgue por si. Esconder parte da verdade apenas serve para aumentar a simpatia por essa parte que se esconde.

27 de agosto de 2009

SUSPEITAS CONFIRMAM-SE. Cunha Rodrigues considera que «o cidadão começa a duvidar de que seja possível confiar numa Justiça que parece desfazer, de noite, o trabalho que produz de dia», que os tribunais se converteram «em causa de ruído e de perplexidade», e que «a lentidão da Justiça interessa normalmente a uma das partes». Cunha Rodrigues, recorde-se, foi procurador-geral da República durante 16 anos. Sabe, portanto, do que fala. E nada melhor do que alguém que sabe do que fala para credibilizar o que se diz por aí, que os menos informados tomarão por demagogia.

24 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (5)

Einstein finishes a lecture at the university in Prague (…) and is getting ready to leave the hall. “Herr Professor sir, take your umbrella, it's raining out!” Einstein gazes thoughtfully at his umbrella where it stands in a corner of the room, and answers the student: “You know, my good friend, I often forget my umbrella, so I have two of them. One is at the house, the other I keep at the university. Of course I could take it now since, as you say quite correctly, it is raining. But then I would end up with two umbrellas at the house and none here.” And with these words he goes out into the rain.

Milan Kundera, The Curtain

21 de agosto de 2009

SRA. MINISTRA DA SAÚDE. Li que os bombeiros da Régua se desinfectavam com vinho do Porto aquando da «pneumónica» sempre que tinham que socorrer algum doente infectado com a «gripe espanhola», e que nenhum dos «soldados da paz» foi vítima de tal coisa. «O primeiro gole seria para bochechar e deitar fora e o restante conteúdo do cálice (bem grande, por sinal) era para ingerir», recorda um bombeiro da época. Não sei onde acaba a verdade e começa a lenda, muito menos se o vinho do Porto produziu o efeito que lhe atribuem. O que sei é que já reforcei a minha dose diária após o jantar. Não só para me prevenir contra a Gripe A, mas também para evitar que ela me impeça de o beber.
OS MENOS MAUS. António Preto é «uma ferida em aberto» nas listas do PSD, escreveu Pacheco Pereira no blogue oficioso do PSD. Escreveu mais: que não concordou com algumas decisões, que houve «erros graves», e que teve de engolir alguns sapos. Tudo isto porque, segundo ele, é preciso vencer Sócrates e companhia, e para isso vale tudo, incluindo engolir sapos, cometer «erros graves», e o mais que for preciso. Resumindo o «raciocínio» de Pacheco Pereira, não é preciso ser melhor do que eles. O que importa é vencê-los, custe o que custar. Nada que um eleitor descomprometido e mediamente informado não esteja farto de saber, valha a verdade. O problema é se os eleitores que costumam votar nos menos maus se fartam deles e começam a votar nos piores.
AO CUIDADO DO PROVEDOR. O DN entrevistou Ana Gomes na condição de candidata à Câmara de Sintra mas «esqueceu-se» de lhe perguntar o que achava da directiva do PS que proíbe as duplas candidaturas, e se considerava que a medida a poderá prejudicar. Ou será que as perguntas não eram oportunas?

20 de agosto de 2009

BLOGUES. Nada contra os blogues que se fazem e desfazem para apoiar uma causa ou um partido político, ou para zurzir numa causa ou num partido político. Afinal, a blogosfera distingue-se por ser um espaço de liberdade, e que assim continue a ser. Mas devo dizer que estou farto dos saltimbancos que ora escrevem aqui, ora escrevem ali, ora escrevem acolá. Aliás, não vislumbro que mais-valia isso traz, e a quem. Salvo honrosas excepções, é de puro alinhamento que se trata, uns por razões evidentes, outros nem tanto. Pior: por regra, as contribuições apenas reforçam a componente politiqueira, e politiquice já temos de sobra.

18 de agosto de 2009

SOARES MENTE. Mário Soares não sabe do que fala quando fala do seguro de saúde nos EUA. Não é verdade que «os mais pobres não chegam sequer a entrar nos hospitais» por não terem seguro, como diz no DN. Nenhum hospital pode negar os cuidados de saúde a quem quer que seja, tenha seguro, ou não. A diferença de tratamento entre quem tem e não tem seguro é que varia, e muito, pelas razões que se adivinham. Mas isso é outra conversa.
LI E GOSTEI (4)

A Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante. Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes expedições e solenes visitas pastorais rumavam de preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais, os mais lúcidos cientistas. E do amanho do solo que se tentou afeiçoar a exóticas especiarias, à cultura do aborígene que se procurou erguer aos mais altos destinos, a Metrópole longínqua demasiara-se em desvelos à terra que sobre todas lhe compensaria o perdimento da Índia portentosa.
Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os seus astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários, e armavam rapidamente no altiplano das “barreiras” as tendas suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes; aformoseavam a terra.
Prosseguiam a outros pontos, ou voltavam — e as malocas, num momento transfiguradas, decaíam de chofre, volvendo à bruteza original.

Euclides da Cunha, À Margem da História

14 de agosto de 2009

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA. «Tolerar (e desculpar) um cavalheiro [Pedro Passos Coelho] que pública e constantemente se ofereceu como substituto dela [Manuela Ferreira Leite] era com certeza a melhor maneira de promover a crónica indisciplina do PSD», escreveu Vasco Pulido Valente no Público de hoje. Quer isto dizer que os críticos (e potenciais adversários) da actual liderança social-democrata não devem ser tolerados (ou desculpados)? Que a crítica a quem manda é um acto de indisciplina? Como não me parece haver margem para outras leituras, quer dizer isso mesmo. Assim sendo, o mínimo que posso dizer é que foi uma surpresa. Uma desagradável surpresa, para ser mais preciso.

13 de agosto de 2009

UM ABSURDO. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a que alguns já chamam a ASAE dos media, tornou-se um caso em que todos a atacam, e ninguém a defende. De facto, a directiva agora imposta (a ERC deliberou que os media devem, em período de eleições, suspender os opinion makers que são candidatos ou conceder espaços de opinião idênticos a todas as candidaturas) não tem pés, nem cabeça. É, quando muito, uma medida bem-intencionada, mas impossível de concretizar caso se queira pôr em prática — e convenhamos que de uma entidade reguladora dos media não se espera que se fique pelas boas intenções. Como escreveu Nuno Pacheco, a directiva implicaria a cedência de doze páginas do Público caso o jornal onde trabalha acedesse às pretensões da ERC, um perfeito absurdo. Estarão lembrados do posicionamento que os principais jornais norte-americanos tiveram face à candidatura de George W. Bush ao segundo mandato, mas eu recordo na mesma: os principais jornais (The New York Times, Washington Post e Boston Globe, entre outros) apoiaram a candidatura de John Kerry (adversário de Bush), e nem por isso evitaram que Bush fosse reeleito. Este simples facto (os media nem sempre têm o poder que lhes atribuem, nomeadamente poder eleitoral) devia servir para a ERC ponderar melhor as decisões que toma, e os conselhos que dá.
LI E GOSTEI (3)

Uma manhã de Inverno, passeava com Arrieta pelo Jardin du Luxembourg quando numa alameda secundária vislumbrámos um pássaro negro e solitário, quase imóvel, a ler o jornal. Era Samuel Beckett. Vestido rigorosamente de preto dos pés à cabeça, estava ali numa cadeira, muito quieto, parecia desesperado, metia medo. E até quase parecia mentira que fosse ele, que fosse Beckett. Nunca tinha previsto que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas sim alguém que vivia em Paris, mas imaginara-o sempre como uma escura presença que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que encontramos a ler desesperado um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando mudava de página, e fazia-o com uma espécie de nojo tão grande e uma energia tão intensa, que se o Jardin du Luxembourg inteiro tivesse tremido não nos teria surpreendido nada. Quando chegou à última página, ficou entre absorto e ausente. Metia mais medo do que antes. «É o único que teve a coragem de mostrar que o nosso desespero é tão grande, que nem palavras temos para o exprimir», disse Arrieta.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

11 de agosto de 2009

TÃO MAUS QUE NÓS SOMOS. Afinal, não é só Portugal que tem uma justiça incompetente. Os ingleses, pelos vistos, são tão maus como nós. Se puséssemos os olhos no que fazem os ingleses, diz Carlos Anjos, talvez não falássemos tão mal da justiça que temos. Como não é assim, como falar mal do que é nosso nos está na massa do sangue, passamos a vida a dizer mal da polícia, dos tribunais, da justiça. Infelizmente não ocorreu ao investigador da PJ um pequeno detalhe: os problemas dos ingleses são dos ingleses, e só a eles afectam. Já os nossos são nossos, e afectam-nos a nós. Nivelar por baixo, como fez Carlos Anjos, não explica nada, não adianta um milímetro, não muda coisa nenhuma. Contentarmo-nos em ser tão maus como os outros é meio caminho andado para sermos pior do que os outros.
«A inconcebível inclusão de António Preto demonstra que Manuela Ferreira Leite gosta mais dos seus amigos do que de transparência na vida pública.»
LIVROS. Isto é uma boa ideia.

10 de agosto de 2009

31 da ARMADA. A avaliar pelos comentários que vi por aí, o episódio protagonizado pelo 31 da Armada foi uma tragédia, no mínimo uma brincadeira de mau gosto. Pois eu, não sendo monárquico, devo dizer que achei graça àquilo, apesar de admitir que estejamos perante um caso de desrespeito aos símbolos nacionais punível por lei.
Os comediantes

7 de agosto de 2009

SARAMAGO. «Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica», escreveu, há dias, José Saramago. Quer isto dizer que a emigração constitui, para ele, uma nódoa no currículo de uma pessoa de bem? A avaliar por aquilo que disse, não há dúvida. De facto, o que disse Saramago sobre a emigração não se presta a duas leituras, pelo que o ilustre quis mesmo dizer o que disse. Quem me lê sabe que não morro de amores por Saramago. Nem pelo personagem, nem pela obra. Mas não fiquei inteiramente convencido de que ele pensa, realmente, o que disse. O post de Saramago resultou de não ter pensado no que disse, sobretudo no alcance do que disse, e nem me parece caso para que se possa dizer que quem não pensa o que diz arrisca dizer o que pensa. Sinceramente, sem a mais leve ironia. Mas ficar-lhe-ia bem desfazer o equívoco.
LI E GOSTEI (2)

— Agora que acabou a Censura, como irão escrever os escritores?
— À parte o facto, altamente provável, de aparecerem escritores que a si próprios se ignoravam, os veteranos escreverão como dantes: mal, os que escreviam mal; bem, os que o faziam bem.

— Então, quanto a si, essa abolição poucas vantagens trouxe...

— Trouxe. Daqui por diante não haverá mais desculpas.


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou

5 de agosto de 2009

A PURGA. Conheço mal Pedro Passos Coelho, mas a impressão que tenho dele não é das melhores. (Falo no plano político, que no plano pessoal, além de meu conterrâneo, nada mais sei dele, nem quero saber.) Parece-me, contudo, que Passos Coelho é um sério candidato à liderança do PSD, goste-se ou não do sujeito, seja bom, ou mau, para o PSD. Afastá-lo das listas de deputados, como acaba de fazer Manuela Ferreira Leite, parece-me, portanto, um erro. Diria mais: um erro monumental. O caso faz, obviamente, lembrar um certo partido político, onde essa prática é muito popular. Aliás, a exclusão de Miguel Relvas, braço-direito de Passos Coelho (Relvas foi indicado pela distrital de Santarém como cabeça de lista por esse mesmo distrito mas Manuela rejeitou), confirma que estamos diante uma purga, mas nem era preciso. De facto, como entender que um ex-candidato à liderança do PSD que conquistou 30% dos votos não seja candidato a deputado quando é essa a sua vontade e a vontade da distrital a que pertence? Mas há mais: há candidatos que são arguidos em processos judiciais, o que torna ainda mais difícil entender que os escolhidos sejam os que «reúnem as melhores condições para o combate», como diz Aguiar Branco. A exclusão de Passos Coelho e seus apoiantes não foi, como diz a direcção social-democrata, uma decisão «simplesmente política». Foi, antes, uma decisão de pequena política, um mero ajuste de contas.

VEJAM, OUÇAM. A propósito do novo programa de Rodrigues dos Santos (Conversa de Escritores), que hoje estreou na RTPN, apetece-me recomendar a entrevista (link na imagem) que Alejo Carpentier concedeu ao programa A Fondo, da TVE . Verão como a hora e meia que ela dura se esgota num instante. Recomendo, já agora, as entrevistas de Jorge Luis Borges (em 1976 e 1980), Juan Rulfo, Cabrera Infante e Julio Cortázar, também na televisão espanhola.
PUTAS E SUBMISSAS. Desconheço a seriedade do movimento «Nem Putas nem Submissas», mas simpatizo com o nome. (Ler o resto no sítio do costume.)

4 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (1)

Em Janeiro do ano em que se iria matar, Hemingway, um homem velho e frágil, com o cabelo todo branco, pálido, com os membros enfraquecidos mas aparentemente um pouco melhor das suas últimas crises, foi autorizado pelos médicos a regressar a Ketchum. O seu amigo Gary Cooper acabava de dizer que um homem feliz é aquele que durante o dia, devido ao seu trabalho, e à noite, devido ao seu cansaço, não tem tempo para pensar nas suas coisas. No entanto, Hemingway tinha esse tempo. Foi-lhe pedido que contribuísse com uma frase para um livro que ia ser entregue ao recém-investido presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy. Trabalhou todo o dia e não conseguiu a frase. «Já não sai», balbuciou ao seu amigo Georges Saviers. E chorou. Nunca mais voltou a escrever. Quando chegou a Primavera, dizem que nem a viu e que nem se apercebeu de que tinha chegado. Vestido sempre de preto, cabisbaixo, vivia num permanente estado de desespero. Alguns heróis dos seus livros, com a sua estóica resistência à adversidade, com a sua extraordinária elegância no sofrimento, iam passar à história e ficar, pelo menos durante algum tempo, na memória da humanidade. Mas ele estava desesperado e a sua estóica resistência soçobrava. E não podia fazer muito. Quando se está mergulhado na adversidade, já é tarde para se ser cauto. Mudou da armaria para um armário uma velha espingarda de caça e dois cartuchos. A mulher descobriu e avisou o médico e o médico pediu a Hemingway que devolvesse a espingarda à armaria. Tiveram de voltar a interná-lo, mas antes de entrar no carro que o conduziria ao avião que o ia levar ao hospital precipitou-se para a armaria e pôs a arma carregada na garganta. «Shanghaied», disse. Foi apenas uma antecipação do que acabaria por fazer em Julho.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

3 de agosto de 2009

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. Muito comovente a prosa que Moita Flores deu à estampa no Correio da Manhã a propósito do «caso» Fátima Felgueiras, especialmente a parte onde ele diz que os media se fartaram de condenar a autarca por crimes que o tribunal agora diz não ter cometido. Comovente porque o cavalheiro não aplicou o mesmo princípio (a presunção da inocência) aos pais de Madeleine McCann, sobre os quais se fartou de insinuar, no mesmo jornal, que eram mais que suspeitos de terem matado a própria filha, e com o agravante de não apresentar um único facto (repito: um único facto) que fundamentasse as suspeitas. O mais interessante é que Moita Flores foi agente da PJ, pelo que seria de esperar um pouco mais de comedimento. Isto, claro, partindo do princípio que o comedimento é um valor caro à PJ, embora raramente se note.

31 de julho de 2009

AI QUE ME DÓI AQUI. Cada vez me dá mais gozo ler o Alberto Gonçalves (Diário de Notícias e Sábado), que a passagem dos anos tem, na minha opinião, tornado como um certo produto que ali tenho que costumo ingerir após o jantar. Alberto Gonçalves tem tudo o que eu gostaria de ter: argumentos difíceis de rebater, ironia a roçar o sarcasmo, estilo. Espanta-me, por isso, a sobranceria com que o Pedro Rolo Duarte se refere ao Alberto Gonçalves, que considera um cronista que «escreve bem e chega a ter graça», mas que não passa de um Vasco Pulido Valente «dos pequeninos». Um comentário de um leitor ao post do Pedro insinua que o dito tem dor de corno. De facto, também me parece. Aliás, o Pedro é um caso interessante. Quando escrevia uma crónica no DN, disparou contra os jornalistas que escreviam nos blogues (e contra a blogosfera em geral), alegando não perceber os motivos que os levavam a descer tão baixo. Terminada a crónica no DN, apressou-se a fazer mea culpa, e a criar o seu próprio blogue. Como se vê, as ideias do Pedro, que agora dirige a revista do i, variam conforme as circunstâncias. Não são, portanto, para levar a sério.

30 de julho de 2009

LIVROS E SUPERMERCADOS. Volta e meia encontro referências pouco lisonjeiras para com a venda de livros em supermercados ou estabelecimentos congéneres. Pois também eu tenho um problema com os livros em supermercados e aparentados: considero que o espaço que lhes é destinado devia ter o triplo do tamanho. Acho, aliás, que devia haver livros em todo o lado — nos cafés, nas sapatarias, nas padarias, nos comboios, nas farmácias, por aí fora. Os livros não devem estar circunscritos às livrarias e bibliotecas. Pelo contrário. Quanto mais próximos dos consumidores, melhor. Melhor para quem os publica, melhor para quem os vende, melhor para quem os escreve, melhor para quem os lê.

28 de julho de 2009

O TROMPETE. Francisco Duarte Azevedo, cônsul-geral de Portugal em Newark já em final de missão, prepara-se para publicar O Trompete de Miles Davis, um belo romance ainda em fase de revisão — e que eu gostaria de ter escrito. Eis um excerto:

Falava português e não era portuguesa (Brunette, obviamente), falava cantando sem cantar, arrastando as palavras, abrindo vogais sem ser arrastadeira. Presa numa gaiola nem dourada nem de ferro, girava o corpo em tubo da noite, rendia que se fartava, mas não era ave que pudesse piar em seu próprio ninho. O homem dos ovos contava tudo direitinho. Cada poedeira tinha de render tanto. Impôs tabela fixa. Podiam fazer festa no quintal, não tinha problema, mas regressavam à capoeira para dormir. Brunette estava nesse entretém de ave. Se piasse fora, quebravam-lhe o bico. Consta que depois de adoptada como filha...
— Passou à condição de amante, disse eu.

— Como sabes?

— Não foste tu que disseste existirem pássaros que piam?


Não vou alongar-me em considerações sobre o livro (que já tive o privilégio de ler), muito menos entrar em detalhes. Direi, apenas, que é uma história cujo principal personagem é um detective mais talhado para o jazz e para os livros que para os mistérios do crime, e que na hora do aperto se revela, imaginem, um cagarolas. Arrisco, já agora, um palpite: ou muito me engano, ou o livro vai dar que falar.

27 de julho de 2009

NÃO PERCEBO. Qual é o problema de um partido político convidar quem muito bem lhe apetecer de outro partido a integrar as suas listas de deputados? Se bem entendi, não há problema se o convidado aceitar, mas já há se o convidado recusar. Foi isto o que disse o líder do Bloco. Segundo ele, situações destas são «uma prática frequente», e só não transpiram para a opinião pública «pelo facto de os convidados aceitarem os lugares». Pegando no caso que despoletou a polémica, se Joana Amaral Dias aceitasse o convite que os socialistas lhe terão feito, seria normal e nada se diria. Como não aceitou, é um escândalo e um desrespeito pelos «valores republicanos». Alguém me explica a lógica disto?
DIVINO (2). Frei Manuel Cardoso é um nome que nada dirá aos portugueses, mesmo a uma minoria reduzida de portugueses. Também eu não fazia ideia quem era o compositor seiscentista até que o Nuno Guerreiro me chamou a atenção para a sua obra magnificamente interpretada pelos Tallis Scholars, como se pode ver por este excerto.

24 de julho de 2009

OBAMA. Não sei se a polícia de Cambridge foi «estúpida» quando prendeu um professor de Harvard que terá forçado a entrada da sua própria casa por se ter esquecido das chaves, como disse o presidente Obama. O que me parece evidente é que Obama se excedeu ao dizer o que disse, ainda por cima admitindo desconhecer os detalhes do caso. Excedeu-se porque não se trata, apenas, de um aparente caso de violência policial, eventualmente desnecessária, mas de um caso que poderá ter contornos racistas, um tema que sabiamente soube afastar da campanha eleitoral. Percebe-se que Obama ande nervoso (as coisas não lhe têm corrido bem nas últimas semanas), mas não se espera de um presidente que perca a cabeça com um caso de polícia. Ficou-lhe bem assumir que as suas palavras foram infelizes, mas soube a pouco.
DONA BRANCA. Bem podem os media denunciar as burlas e respectivos burlões que os portugueses não desarmam: mal tenham oportunidade e um excedente orçamental, investem na Dona Branca. Ainda há pouco uma notícia dizia que centenas de portugueses perderam um milhão de euros num «investimento» que lhes prometia, imaginem, 36% de juros ao mês, e já outro se anuncia. Isto depois dos escândalos financeiros dos últimos meses, que aconselhariam maior prudência aos investidores. A ganância tenta qualquer um. Mas quando se alia à cegueira, não há nada que a detenha.
PORNOGRAFIA. Que os tablóides se agarrem a Berlusconi como uma lapa se agarra a uma rocha, entende-se. Mas já me custa entender que o jornalismo dito de referência esteja em cima dele (salvo seja) por causa das meninas e programas afins. Qual é o problema de Berlusconi promover orgias e outros pecados? Usou bens públicos para os concretizar? Se usou, denunciem-no, processem-no, e punam-no. Espreitar pelo buraco da fechadura os aparentes excessos do sujeito é tão pornográfico como a pornografia de que o sujeito será praticante imoderado, e quando o voyeur é o chamado jornalismo de referência só pode merecer que lhe percam o respeito. A NBC recusou um pedido da Casa Banca para mudar a hora em que aquela estação pretendia transmitir a entrevista com a estouvada de voz divina, porque os seus responsáveis consideraram que a entrevista iria bater recordes de audiência caso fosse transmitida à hora prevista. O resultado é conhecido: tirando o episódio Obama, que resolveu antecipar uma comunicação ao país para não coincidir com a entrevista à sra. Boyle, a entrevista foi vista por uma audiência vinte vezes inferior ao esperado, isto é, foi um fiasco para os padrões americanos. O chamado jornalismo de referência devia aprender alguma coisa com isto.

22 de julho de 2009



DIVINO (1). Pierluigi da Palestrina pode não ser um compositor que mudou a história da música, e não passar de um bom músico entre muitos outros bons músicos. Mas é um compositor que me reconcilia com o mundo, e isso não é pouco. Não será por acaso que dele se diz ter produzido obras-primas de «perfeição absoluta», e eu conheço algumas. Sei que me contradigo (sou agnóstico), mas não hesito em dizer que a música de Palestrina é divina. Como esta, por exemplo, pelos Tallis Scholars.

21 de julho de 2009

LIVRARIAS DE MANHATTAN. Lido um texto do Alberto Gonçalves onde ele fala das livrarias de Manhattan, apetece-me recomendar-lhe a Alabaster e o Skyline (ambos alfarrabistas, o primeiro a dois passos da Strand e o segundo pertíssimo da loja principal da Barnes & Noble), a Book Culture (mesmo ao pé do comedouro celebrizado por Seinfeld), a Saint Marks (praticamente encostada à New York University), a Complete Traveller (na Madison, entre as ruas 34 e 35), e alguns alfarrabistas que nos últimos anos se mudaram de Manhattan para Brooklyn por não aguentarem os custos de viver em Manhattan. Isto sem falar da Strand, que o Alberto mencionou, e que é, em Manhattan, a minha preferida. Se estiver disposto a dar um salto até New Jersey, isto é, a fazer um desvio de pouco mais de meia hora, recomendo-lhe o Montclair Book Center (atenção à cave, de que só me apercebi para aí à terceira visita), um alfarrabista de se lhe tirar o chapéu.

20 de julho de 2009

AI DOURO. Depois da célebre campanha «Allgarve», destinada a vender não sei o quê a não sei quem, vem aí o «I Douro You». Leram bem: «I Douro You». Deve ser por causa de decisões como esta que já se anuncia, para este ano, uma redução na produção de vinho do Porto (menos 13.500 pipas que no ano passado). De facto, se esta gente não é capaz de vender um produto de excelência como é o vinho do Porto, como acreditar que serão capazes de «vender» toda uma região com uma saloiice destas?

17 de julho de 2009

TRETOFONIA. Quem vê, na TV, os Jogos da Lusofonia? A avaliar pelas horas de directos que a televisão pública lhes dá, parece que muita gente. Os estádios às moscas e os ginásios sem vivalma, que as câmaras nem sempre conseguem esconder, não são, pelos vistos, o que parece. Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico português, garante que se está «a construir um projecto importante» que «ainda não foi bem compreendido no país». De facto, não se percebe. Eu próprio gostaria de saber, por exemplo, quanto é que o «projecto» custou aos cofres públicos, e que audiência tem na RTP.
AMEAÇAS. Que me perdoem se estiver enganado, mas a história de um escritor português que decidiu adiar a publicação de um romance que tem o Islão como pano de fundo por alegadas ameaças de morte, ontem contada no Público e motivo para um comunicado da editora, soa-me a uma jogada de marketing. (Vale a pena ler a notícia do Público sobre a matéria e prestar atenção às dúvidas que ela levanta.)
QUEIMAR CALORIAS. Ora aqui está uma boa receita para emagrecer e sem efeitos secundários — ou com efeitos secundários ainda melhores que os primários.
JOÃO PEREIRA COUTINHO NO CORREIO DA MANHÃ. Aceitar [na Constituição] ideologias totalitárias em nome da 'democracia' e da 'liberdade' é como aceitar a raposa no interior do galinheiro.

16 de julho de 2009

AGRADECIMENTO. O contador do Esmaltes e Jóias disparou, nos últimos dias, para números impensáveis. Ainda pensei tratar-se de algum disparate que eu tivesse publicado, mas reli os últimos posts e não me pareceu caso para tanto. Uma volta pelos blogues do costume revelou-me o motivo: o Francisco fez uma referência a este blogue, e sempre que isso sucede os acessos sobem em flecha. Escusado será dizer que lhe agradeço a referência e a simpatia. Conto, já agora, que os forasteiros que me visitaram encontrem motivo para voltar.
MIA COUTO. O Jesusalém, de Mia Couto, continua a fazer vítimas. Desta vez foi o DN, que lhe chamou Jerusalém. (Tentei, no site do jornal, fazer um comentário a dar conta do erro, mas constatei que era necessário inscrever-se para o poder fazer. Feita a inscrição, uma mensagem informou-me que iria receber a confirmação por mail, após a qual o processo ficaria concluído. Passaram dez horas e nada recebi.)
ESCOLHA O QUE MAIS LHE CONVÉM. «Jornais recuperam leitores este ano», titula o Público (sem link). «Queda generalizada de leitores no segmento dos jornais diários», titula o DN.

15 de julho de 2009

PACHECO PEREIRA. Andam para aí umas donzelas muito irritadas com Pacheco Pereira por causa do novíssimo programa na SIC (Ponto Contra Ponto), mas ainda não vi quem rebatesse um só caso lá abordado. O problema, pelos vistos, é Pacheco Pereira meter o nariz onde não devia, no caso questionar o desempenho de uma classe (os jornalistas) muito susceptível e pouco habituada a críticas, e que tem o poder (e os meios) de se defender como ninguém. Contra mim falo, mas eu cá prefiro que me questionem o trabalho às falsas palmadinhas nas costas. Prefiro uma crítica injusta mas fundamentada a um elogio simpático mas pouco rigoroso. Não sei se é o caso de Pacheco Pereira, nem isso me interessa. Mas já me interessava que o criticassem com argumentos, até porque me chateia que a ausência dos ditos nas críticas que lhe fazem signifique que ele tem, de facto, razão.
SE ELE O DIZ... «Inqualificável», disse ele.
NÃO PERCEBO. Tendo assistido a alguns programas na TVI (Roda Livre) e lida a entrevista ao i, afinal Villaverde Cabral é de esquerda em quê?

14 de julho de 2009

JUSTIÇA NÃO MERECE RESPEITO. Não me passa pela cabeça que Isaltino Morais tenha abandonado o tribunal onde está a ser julgado por se ter irritado com um procurador sem que exista uma lei que lho permita. Sair do tribunal apenas porque a juíza o autorizou, como já ouvi por aí, parece-me demasiado absurdo para ser verdade. Diria mais: a confirmar-se, seria surrealista. Com certeza que se o arguido fosse um pobretanas não se gabaria de semelhante proeza, mesmo que a lei lho permitisse, e até nem é preciso grande imaginação para ver a juíza a rir-se da esperteza do arguido caso este lhe pedisse licença para se ausentar da sala de audiência para, imaginem, não ter que ser «malcriado», como fez Isaltino Morais. Assim sendo, estamos, portanto, diante mais um caso já bem nosso conhecido: há uma justiça para ricos, e outra para pobres — ou, se preferirem, uma justiça para os poderosos, e outra para o cidadão comum. Como, aliás, a recente operação policial contra o Gangue do Multibanco muito bem demonstrou. Fossem as buscas a bancos, escritórios de advogados ou a casas de políticos e familiares de políticos, como foi dito em editorial na Sábado, e as televisões não teriam exibido as imagens que exibiram, muito menos com a conivência das autoridades.
BLOGUES. Duas notícias da blogosfera, uma boa, outra má. A boa é que o Francisco voltou; a má é que o Filipe Nunes Vicente vai parar até final de Agosto.

13 de julho de 2009

MAIS ALFARRABISTAS. Fathers and Sons: The Autobiography of a Family, de Alexander Waugh, nove dólares; A Writer's Diary: Being Extracts from the Diary of Virginia Woolf, de Virginia Woolf, um dólar e oitenta; The Lawless Roads, de Graham Greene, um dólar. Eis a mais recente colheita num alfarrabista que acabo de descobrir graças ao Francisco Duarte Azevedo, cônsul-geral de Portugal em Newark, que se gabou de lá ter comprado um Hemingway por meia dúzia de patacos. Nas quase duas horas que por lá andei entre as estantes ouvia-se, em fundo, não sei que ópera, tornando o local ainda mais agradável. Voltarei um dia destes.

10 de julho de 2009

CARREIRAS POLÍTICAS (2). A deputada Ana Gomes insiste no que julga ser uma lógica implacável e um argumento irrefutável: foi candidata ao Parlamento Europeu, mas os eleitores sabiam de antemão que renunciará ao mandato de eurodeputada caso seja eleita presidente da Câmara de Sintra. Acontece que a «honestidade» e «transparência» com que diz ter actuado não bastam para esconder o óbvio. E o óbvio é que a candidatura ao PE foi, no mínimo, um expediente pouco recomendável, e eticamente reprovável. Os eleitores sabiam que ela abandonará o PE caso seja eleita para Sintra? Também Ana Gomes sabia que os eleitores votariam, nas Europeias, no partido por quem se candidatou, e não especificamente nela. A eurodeputada sabia, portanto, que seria eleita, acontecesse o que acontecesse, apreciassem ou não a sua conduta. Resta esperar que nas autárquicas tenha aquilo que merece.
Este vai longe

8 de julho de 2009

CARREIRAS POLÍTICAS (1). Dizendo que alguns deputados «em início de carreira» não estariam dispostos a assumir outros combates políticos caso soubessem que poriam em risco «a carreira que já tinham iniciado», a deputada Leonor Coutinho transformou-se, involuntariamente, no símbolo de uma certa forma de estar na política, provavelmente a forma de estar na política da maioria dos seus protagonistas. E a forma, como se vê, é demasiado evidente: os políticos vêem as suas funções como uma carreira, que é necessário preservar a todo o custo. Bem pode Manuel Alegre jurar que a proibição de candidaturas simultâneas agora anunciada pelo PS é uma «atitude pedagógica exemplar». É uma medida que se saúda, mas não muda o essencial.
PORTUGAL DOS PEQUENINOS. Depois de Saramago, que resolveu emigrar para as Canárias, e de Maria João Pires, que se mandou para o Brasil, eis que Miguel Sousa Tavares se prepara, também ele, para abandonar a Pátria. Devo dizer que também eu abandonei, há muito, a dita. Como eles, por causa do estômago. A diferença é que eles saíram enfastiados, e eu com ele vazio.

7 de julho de 2009

BOA MÚSICA. Michael Jackson foi tudo o que dele se disse, sobretudo o que de pouco abonatório se disse. Mas também é preciso que se diga que Michael Jackson fez músicas excelentes. Como esta, por exemplo, que Miles Davis recriou para escândalo de muitos. (Vejam a segunda parte aqui.)

6 de julho de 2009

JUSTIÇA PARA POBRES, JUSTIÇA PARA RICOS. Oitenta e dois por cento dos inquiridos num estudo agora publicado considera que a justiça não trata ricos e pobres de forma igual, e a maioria dos entrevistados não lhe passa pela cabeça recorrer aos tribunais para defender os seus direitos por não acreditarem nos tribunais. De facto, a coisa é de tal modo evidente que não eram precisos estudos para o demonstrar. Deviam, agora, fazer um estudo para saber em que é que os portugueses realmente acreditam. Não estou a brincar. Um país que não acredita na justiça, acredita em quê?
JORNAL DA MADEIRA. O mais extraordinário da notícia que nos dá conta que o Governo de Jardim estourou 23,4 milhões no Jornal da Madeira é constatar-se que a coisa já nem merece reparo, muito menos indignação, e ainda menos acções que ponham fim àquela pouca vergonha.
GLORIOSO. Queiramos, ou não, 92% dos votos é obra. Além de fazer lembrar os resultados das eleições em alguns regimes pouco recomendáveis, tanta unanimidade numa casa que nos últimos anos se distinguiu pela mediocridade não deixa de ser extraordinário.
O BURACO D'AGULHA. O meu amigo Rui regressou à blogosfera, agora num registo diferente.

2 de julho de 2009

CHIFRES E BENGALADAS. Estava o país suspenso da conferência de imprensa onde o sr. Vilarinho iria anunciar o futuro do glorioso, e eis que o já ex-ministro Manuel Pinho resolve pôr um par de chifres na cabeça do sr. Bernardino e provocar um abalo na Pátria. O episódio fez-me lembrar um texto notável de Eça de Queirós, que transcrevo sem mais demoras.

Tumultos no Parlamento

Julho 1871.

Escrevemos no primeiro número das
Farpas: «As sessões da Câmara não têm seriedade. Aí reinam o tumulto, a confusão..., etc.»

Uma nova justificação desta verdade apareceu na sessão do dia 29.


O sr. presidente do Conselho falava. Houve um momento em que S. Exª, ou cometeu um erro de gramática, segundo o dizer de alguns jornais, ou arremessou desdenhosamente à circulação a eloquente palavra
bomba, segundo a afirmação de outros. O facto é que a maioria entendeu que a melhor maneira de manifestar ao sr. presidente do Conselho que não tinha confiança na sua política, era apupá-lo! E a Pátria deve agradecer aos senhores deputados que eles não lhe tivessem dado bengaladas!

Então o sr. presidente, a título de esclarecimento, perguntou timidamente se se achava numa praça pública. Pergunta excessivamente ociosa. Numa praça nunca há nem aqueles gritos, nem aqueles tumultos — porque a polícia intervém e faz evacuar a praça. Impunemente, ao abrigo das instituições, sem ingerência policial — uma assuada só se pode dar na Câmara dos Deputados. Em mais nenhuma parte é permitido, pelos regulamentos da polícia, ser-se tão excessivamente trocista. O caso é que a maioria, para provar ao sr. presidente que se considerava ofendida com a designação de
praça, rompeu num alarido tal como não é uso fazer-se na praça de touros — tudo para demonstrar bem claramente que não estava ali um grupo de moços de forcado, mas um corpo de legisladores. A palavra patife fez então pela primeira vez a sua entrada na Câmara e tomou assento. Foi também então que o sr. presidente do Conselho, em compensação, mandou o epíteto malcriados a cumprimentar e abraçar os eleitos do País.

A assuada, o motim, o chasco, o charivari, cresceram tão constitucionalmente que o Sr. Aires de Gouveia, eclesiástico, teve de enterrar na cabeça o seu chapéu alto. A este gesto, cheio de dedicação nacional, a tempestade evacuou a sala. Diz-se que alguns srs. deputados foram cumprimentados à saída pelos melhores frequentadores do sol na praça do Campo de Santana, que se achavam presentes. As galerias permaneceram impassíveis. Tal foi esta memorável sessão, em que a altura das ideias competiu com o vigor da eloquência!


Parece pois definitivo que o Parlamento decidiu adoptar o motim e a assuada como a forma parlamentar dos seus trabalhos. Vistes, amigos, a sessão de 29 de Junho. Quereis assistir à de 29 de Julho? Aí tendes o seu fiel extracto:


O ORADOR
(concluindo): — E foi assim, sr. presidente, que se passaram os factos.

O SR. LUCIANO DE CASTRO
(interrompendo com grandes punhadas na mesa): — O ilustre deputado diz uma refinadíssima peta...

Vozes
: — Apoiado, apoiado!

O ORADOR
(voltando-se e desabotoando o colete): — Petas? oh! descarado! (apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse biltre entre no meu foro interior!

Vozes
: — Fora, fora!

O SR. COELHO DO AMARAL
(espancando com dignidade o Sr. Barros e Cunha): — E assim provo, sr. presidente, que o Sr. Barros e Cunha não tem razão alguma nos princípios que estabeleceu.

O SR. MARIANO DE CARVALHO: — Mas a ditadura foi nefasta! E não há mariola nenhum que me demonstre o contrário...
(acende o cigarro).

O SR. COELHO DO AMARAL
(continuando o espancamento): — Não me interrompam o discurso! Não me interrompam!

O SR. PRESIDENTE
(aos Srs. Mariano e Santos Silva): — Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).

O SR. PRESIDENTE DO CONSELHO: — A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!


(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).


O SR. JOSÉ DIAS
(batendo com a bengala sobre a mesa, a um continuo): — Dois cafés! Um cabaz!

Vozes (atravessando o corpo legislativo)
: — Salta meia de Colares!

O SR. PINHEIRO CHAGAS
(deitado, com ar melancólico):

«Oh virgem pálida e triste

Branca visão doutros Céus!»


O SR. AIRES DE GOUVEIA: — O que diz ele?


Vozes
: — Ele cisma! Ele cisma!

A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados grunhem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.


O ORADOR: — A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos...
(Distribui bengaladas).

Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixes da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação, dá cambalhotas. O Sr. Luís de Campos espalha uma prodigiosa quantidade de pontapés.


O SR. PRESIDENTE: — Para amanhã continua esta interessante discussão.


A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.


Os contínuos levantam as garrafas de
Colares.

A política chegou a tal miséria, que nem a polidez instintiva coíbe os homens.


Eça de Queirós, As Farpas
DA INGENUIDADE. Dias Loureiro diz que só ontem, após ter sido constituído arguido por suspeita de envolvimento em negócios pouco claros do Banco Português de Negócios, percebeu «alguns contornos do negócio da Biometrics» que dantes lhe «passaram completamente ao lado». Pois eu era capaz de jurar que os portugueses perceberam, há muito, uma coisa: ingénuo é que Dias Loureiro não é.
MANUELA vs GRANADEIRO. Saborosa a troca de acusações entre Manuela Ferreira Leite e Henrique Granadeiro a propósito do abortado negócio entre a PT e a Media Capital. É bom não esquecermos que nenhum dos partidos do «arco do poder» está isento de culpas quando acusa o outro de controlar os media uma vez no Governo, e também é bom que se saiba que o Governo, seja ele qual for, meteu o nariz onde não devia e com que intenção. Com certeza que nada disto desvaloriza a aparente tentativa do Governo de Sócrates em controlar a linha editorial da TVI, mas convenhamos que nem o PS nem o PSD têm autoridade moral para acusar quem quer que seja.

1 de julho de 2009

MEDIA. Passado o episódio Portugal Telecom/Media Capital, a propósito do qual já foi dito o que havia a dizer, há que dizer que a concentração dos media em meia dúzia de empresas não interessa a ninguém. Tirando as empresas do sector, a concentração dos media não interessa aos consumidores (leitores, ouvintes, telespectadores), não interessa ao jornalismo, não interessa à democracia. A concretizar-se a compra da Media Capital pela Cofina (vale a pena lembrar que a Cofina ainda há dias fez saber que está interessada na Media Capital), talvez seja pior que o controlo da Media Capital pela PT, mesmo sabendo-se o que significa o controlo da Media Capital pela PT. Os media portugueses já estão concentrados em demasia, e um negócio do género Cofina/Media Capital ainda traria mais concentração. Independentemente de quem está no poder (hoje um, amanhã outro), não hesitaria em escolher a PT como «patrão» da Media Capital caso fosse obrigado a escolher, embora o ideal seria que as coisas continuem como estão.
COMO É? O PS tem razões para se queixar à ERC do novo programa de Pacheco Pereira?

30 de junho de 2009

«Teixeira de Pascoaes? Pois sim... Pois sim...», diz o cretino que sempre aparece ao nosso lado, como um anão saltitante, quando a morte dum grande poeta ou de qualquer outro «anormal» nos dá, em bloco, todas as razões de o amarmos sem reservar sentimentos, sem aguardar cautelosamente que tudo seja dito para tomarmos partido, para assumirmos a atitude «conveniente», o ponto de vista «a ter», o gosto a exibir...

«Pois sim... Pois sim...»
, como se fosse possível meter o poeta do Regresso ao Paraíso num encolher de ombros ou num arroto de despeito... (E eu pensava, com aquele extremo cansaço, aquela imensa vontade de desistir que nos assalta quando topamos com certos «especialistas» de poesia: «Talvez não arrotes o mesmo quando chegares à minha idade...»).

«Pois sim... Pois sim...»
, como se fosse possível reduzir o poeta a uma «filosofia», arrumar em quatro palavras Teixeira de Pascoaes, momento da nossa poesia, mastro desse barco de loucos que é a nossa poesia portuguesa!

«Pois sim... Pois sim...»
, como se fosse possível a mediocridade fazer os gigantes por moinhos, os grandes poetas por moinhos de palavras....

Alexandre O’Neill, Recordação precipitada de Teixeira de Pascoaes publicada no volume Já cá não está quem falou
BENFICA (4). Se a recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica viola os estatutos do clube, como garante Bruno Carvalho, por que resolveu ele candidatar-se a umas eleições que, a ser verdade o que diz, são uma fraude? Acaso passarão a não ser se ele as ganhar?

26 de junho de 2009

i. Além de outros defeitos, parece-me evidente que o novo diário (o i) cometeu um erro de palmatória: é difícil grafar o nome do jornal sempre que dele se pretende falar sem que o leitor tropece como se tropeçasse numa gralha. Grafado entre aspas, ainda vá. Mas sem aspas, como hoje em dia é usual fazer-se, dificilmente poderia ser pior. Para quem nasceu habituado a ver a internet como um bem quase tão importante como a electricidade, parece-me um erro básico. Isto para já não falar do conteúdo, ou mesmo da forma como ele é apresentado, que não acrescentam uma vírgula ao que já existia.

25 de junho de 2009

BENFICA (3). Nada contra um candidato que é sócio do Benfica há cinco anos, desde que não haja impedimento legal. Mas não deixa de ser curioso que um candidato à presidência do Benfica seja sócio, apenas, há cinco anos. Não acredito em conspirações, como já ouvi quem insinuasse. Mas uma coisa é por demais evidente: a presidência do Benfica é um lugar apetecível, seja o candidato «muito» ou «pouco» benfiquista. Certamente que a generalidade dos sócios ficariam mais descansados com um candidato que não fosse um «recém-chegado», embora os que fazem parte da mobília não garantam, por si só, que as coisas corram melhor, como se tem visto. É que um «recém-chegado» pode dar a ideia de que se tornou sócio com o fim único e exclusivo de se tornar presidente de um clube importante, cujas vantagens me parecem tão óbvias que nem vale a pena enunciar. Não é uma insinuação: é uma possibilidade.
BENFICA (2). Têm acompanhado o circo à volta das eleições no Benfica? Se não têm, desistam de perceber o que lá se passa. É que são tantas as trapalhadas, e tão maus os candidatos (e os candidatos a candidatos), que as coisas prometem piorar. Bem sei que é difícil piorar, mas não será por falta de empenho dos candidatos.
INTERNET. Proibir a pornografia é sempre o primeiro passo para se proibirem outras coisas.

24 de junho de 2009

LOURAS. É impressão minha, ou andam para aí a citar o «insulto» de Menezes sem terem lido a entrevista onde ele foi proferido? É que Menezes não disse que «Pacheco Pereira é a loura do PSD», mas que «Pacheco Pereira é a loura do regime». Faz alguma diferença, não faz?
BERARDO. Está à espera de quê para apresentar as provas?

23 de junho de 2009

PACHECO PEREIRA. Confesso que não estou a ver o que levou Pacheco Pereira a proibir a publicação da entrevista por ele concedida ao i após o mesmo jornal tem destacado, em manchete, uma frase de Luís Filipe Menezes que dizia sobre o seu adversário de estimação: «Pacheco Pereira é a loura do regime.» A declaração de Menezes roça o mau gosto e o destaque do jornal pode, quando muito, ser pouco elegante, mas a reacção de Pacheco é um exagero. Diria mais: é incompreensível. Pacheco Pereira conhece bem a lógica dos media para saber que, a haver destaque para a entrevista a Menezes, só podia ser aquele. Razões de queixa, sinceramente, só das louras, que só não reagiram provavelmente por serem mais interessantes que o retrato que Menezes faz delas.
IRÃO. A história é velha e por todos conhecida, mas ainda há quem insista: quando as coisas não correm bem na paróquia, a culpa é dos de fora. Desconfio, porém, que o efeito que se pretende será nulo. Chávez passa a vida a «descobrir» conspirações para o eliminar, evidentemente lideradas pelos americanos. Repararam que já ninguém se dá à maçada de produzir o mais leve comentário sobre tão graves acusações?

22 de junho de 2009

BENFICA (1). Bruno Carvalho, candidato à presidência do Benfica, garante que a gestão de Luís Filipe Vieira já vai num passivo de 70 milhões de euros. Garante mais o empresário: correrá com Jorge Jesus caso seja eleito presidente dos «encarnados», porque tem um treinador «para todo o mandato» (Carlos Azenha), que naturalmente considera melhor. Perante isto, apetece-me, desde já, perguntar: que credibilidade merece um sujeito que ameaça correr com um treinador acabado de contratar? Ou Bruno Carvalho é um demagogo (o mais provável), ou Bruno Carvalho é um irresponsável (o que eu não acredito). Quanto custaria ao Benfica despedir Jorge Jesus daqui a duas semanas? Estará ele disposto a pagar do bolso dele as consequências do seu despedimento? Se não está, para quem iria sobrar a factura? Bem sei que o candidato já admite manter Jesus caso o novo técnico «se enquadre no projecto» por si liderado, isto é, já admite fazer precisamente o contrário do que prometeu ainda há dois dias. Mas isso só demonstra que o cavalheiro não é de fiar, pois ninguém acredita que se mude radicalmente de ideias de um dia para o outro. Para uma candidatura que conta com os serviços de uma empresa de comunicação que esteve ligada à vitória de Florentino no Real, como se diz por aí, o mínimo que se pode dizer é que Bruno Carvalho está mal aconselhado.
PALPITES. Pode ser que me engane, mas a transferência de Ronaldo para o Real vai ser um fiasco em termos desportivos. Um clube que aposta mais no sucesso financeiro que no sucesso desportivo, como o próprio presidente madrileno admite, não pode ser grande futuro para um jovem que ainda tem potencial para evoluir e muito para dar. O prestígio e os milhões cegam qualquer um, mas não me parece que foi essa a primeira razão que levou Ronaldo a mudar-se para Espanha. A confirmar-se o palpite, espero, sinceramente, que me engane. Por ele, e pelo futebol português, que não deixará de se ressentir, por exemplo, na selecção de Queiroz.

19 de junho de 2009

HUMILDADE, DIZ ELE. A autocrítica é um exercício saudável, e uma prática muito recomendável. Mas quando ela é feita por mera estratégia e sem um pingo de sinceridade, pode resultar no contrário do que pretende. Ou muito me engano, ou a «nova estratégia» de Sócrates é um caso em que a emenda é pior que o soneto. É que os eleitores perceberão que tão drástica e repentina mudança só pode trazer água no bico.
ELISA. Já sabíamos que Elisa Ferreira tencionava ir ao Parlamento Europeu assinar o ponto e voltar, mas hoje ficamos a saber que o Parlamento Europeu é, para ela, um «trampolim inconfessável». As coisas que se aprendem com os pantomineiros.

18 de junho de 2009

BEM PREGA FREI TOMÁS. Depois de Ana Gomes e Elisa Ferreira, que tencionam abandonar o Parlamento Europeu caso sejam eleitas para as câmaras de Sintra e do Porto e cuja revelação lhes valeu críticas do cabeça de lista social-democrata ao mesmo Parlamento Europeu (Paulo Rangel chamou-lhes «candidatas fantasma»), eis que o mesmo Rangel admite abandonar o PE caso o PSD vença as próximas legislativas. Bem sei que a lei não proíbe manobras destas, mas o expediente não deixará de ser visto como, em meu entender, deve ser visto: uma aldrabice pura e simples. É por estas e outras como estas que os portugueses cada vez votam menos, e que os partidos extremistas vão conquistando mais espaço.

16 de junho de 2009

EUROPEIAS. Assente a poeira, só mais uma coisa acerca das Europeias. Parafraseando um respeitado treinador do Benfica (Mário Wilson dizia que um treinador do Benfica se arrisca a ser campeão), Manuela Ferreira Leite arrisca-se a ganhar as próximas Legislativas. Não que a vitória nas Europeias me convença por aí além, mas porque há sempre a possibilidade de os figos caírem de maduros. Manuela não deixou de ter os defeitos que lhe apontam com a vitória nas Europeias, e só por cortesia ou politiquice se diz que a vitória se deveu a ela. Não basta dizer que Manuela venceu apesar da má imagem, de não ter jeito para o cargo que desempenha, ou de se calar quando não devia. Por mais respeitáveis que sejam, as opiniões não mudam os factos.

15 de junho de 2009

CHOCANTE. Difícil escrever sobre o que vi no Metropolitan de Francis Bacon sem lançar mão da enciclopédia ou socorrer-me do lugar-comum. Direi, por junto, que nunca uma obra me causou tanto desconforto, e não digo pouco. Fosse eu menos ignorante na obra do pintor irlandês, estivesse eu um pouco mais informado acerca do que ia ver, e jamais teria visto a retrospectiva do Metropolitan. Definitivamente que prefiro o que me reconcilie com o mundo, e dificilmente ainda haverá algo que me choque por boas razões. Valeu-me que não fui ao museu por causa de Bacon, mas por quase tudo o que lá está, que sempre vejo como se fosse a primeira vez.
MUITO BOM. A seguir com atenção O Diário de Encólpio, do Filipe Nunes Vicente, que já vai no quinto post. (Os restantes estão aqui, aqui, aqui e aqui.)
CANCRO. As pessoas que têm cancro estão num estado de fragilidade tal que me parece excessivo esperar que se comportem de forma razoável. Não tem, por isso, razão o que diz João Pereira Coutinho.

11 de junho de 2009

RONALDO. Qual é o problema de Ronaldo ganhar milhões a dar pontapés na bola? Querem que ele cite Camões quando abre a boca? E que defeito terá quem gosta de o ver nos relvados fintando os adversários? Será intelectualmente menos capaz? Por que é que o futebol há-de ser visto como um concorrente (ou inimigo) das actividades ditas do espírito? Não há pachorra para tanto preconceito (e ressentimento) contra o futebol e seus artistas.
HAJA DECORO. Não fosse o caso ser demasiado sério para ser tratado como uma mera brincadeira, seria risível. Que autoridade tem um partido político, no caso o PSD Madeira, para exigir à ERC que averigúe «do pluralismo e do rigor», da «isenção e independência da informação», da «protecção dos direitos, liberdades e garantias pessoais» da RTP e RDP locais, bem como o Estatuto Editorial do DN da Madeira por alegadamente estar a ter um modo de actuar igual ao PC, quando o governo chefiado pelo seu próprio partido possui um pasquim onde põe e dispõe? É só falta de vergonha, ou esta gente chegou a um ponto em que, como diria Eça, as leis se afastam para eles passarem?
SUÍNOS. Alguém percebe o motivo que levou a Organização Mundial de Saúde a «decretar» a pandemia suína? Tirando os profissionais do ramo, provavelmente ninguém. Até ver, a única coisa que se percebe é que aumentou o clima de medo, para o qual os media, felizmente, não estão a contribuir. Não basta dizer que se trata de uma «pandemia moderada». Uma pandemia, por mais que se explique o significado, nunca será vista como uma coisa moderada.
PRAGMATISMO E VARIAÇÕES. Contrariamente ao que possa parecer, sobretudo aos que me lêem no blogue, desejo que as coisas corram bem a Obama. (O restante está no sítio do costume.)
TOMEM NOTA. À atenção dos árbitros que vão apitar os próximos jogos da selecção portuguesa de futebol: Organizador do Mundial 2010 preocupado com apuramento de Portugal
MICROSOFT. Será que os senhores que mandam na Europa não percebem que a ausência do Internet Explorer no Windows prejudica, antes de mais, os utilizadores?
Leitura muitíssimo recomendada: O populismo do Bloco de Esquerda

9 de junho de 2009

JORNALISMO SEGUNDO CINTRA TORRES. Eduardo Cintra Torres considera que um programa de jornalistas não devia condenar outro programa de jornalistas. No caso, o Clube de Jornalistas não devia condenar o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes. Ora, não vejo porquê. Acho, aliás, precisamente o contrário. Parece-me bem e muito saudável que os jornalistas condenem o que entendem não ser jornalismo, ou péssimo jornalismo, seja ele praticado por quem for. Não pensa assim o crítico do Público. Cintra Torres acha que o bom jornalismo é o jornalismo que é contra o Governo (contra o Governo actual, pelo menos), e o que não é contra é mau. Que os métodos utilizados por esse mesmo jornalismo sejam, ou não, correctos, é relevante caso lhe dêem jeito e insignificante se lhe estragarem a teoria, e o facto de se misturar opinião e informação é irrelevante pelo simples facto, imaginem, de que «praticamente todo o jornalismo actual é opinativo». Reparem bem na lógica de Cintra Torres: «todo o jornalismo actual é opinativo» — logo uma prática correcta, logo não merece reparo. Eis o conceito de jornalismo daquele que provavelmente será o mais influente crítico dos media portugueses, o que ajuda a explicar a porcaria que por aí se publica.

5 de junho de 2009

EUROPEIAS. Quantos portugueses acompanharão, pelos media, a campanha para as europeias? A fazer fé no espaço que lhe tem sido dado, muitíssimos. Mas eu duvido que o espaço que lhe concederam corresponda ao interesse dos leitores (e eleitores), e que a maioria dos portugueses saiba quem são os principais candidatos e as funções que desempenharão caso sejam eleitos. Uma coisa, porém, julgo saberem: alguns dos deputados que vão ser eleitos no próximo domingo não porão os pés no Parlamento Europeu caso seja eleitos (ou passarão lá tão pouco tempo que será como não tivessem sido escolhidos para lá estar), à semelhança do que sucede com a Assembleia da República, onde grande parte dos eleitos se esfuma mal terminam as eleições. Dir-me-ão que a lei o permite, quer num caso, quer noutro. Pois são precisamente estes expedientes legais que nos fazem desconfiar até dos mais sérios.

4 de junho de 2009

LAPSOS E MAIS LAPSOS. Primeiro, Joe Biden divulga, por lapso, o local onde Cheney se terá escondido no 11 de Setembro, como se imagina uma informação altamente secreta. Depois, a Administração Obama divulga, também por lapso, uma lista «altamente confidencial» onde se descrevem as instalações nucleares americanas e as suas actividades. Pode ser que me engane, mas estes e outros episódios demonstram a escassa importância que Obama e o seu Governo atribuem à segurança e ao terrorismo, questões cada vez mais cruciais nos dias que correm e de particular relevância quando se fala dos EUA. Claro que a Administração Obama se apressou a dizer que o lapso em nada comprometeu a segurança dos EUA. Mas quem acredita? Passará pela cabeça de alguém que o Governo iria admitir a gravidade do caso?

3 de junho de 2009

MAIS OBTUSO QUE ÓBVIO. O João Gonçalves, seguramente um dos melhores bloggers portugueses e que leio com prazer mesmo quando dele discordo, confunde alhos com bugalhos. Então o facto de Sócrates ter nascido em Vilar de Maçada e se ter tornado beirão «emprestado» é razão para achar que ele não merece confiança? Valha a verdade que João Gonçalves não está sozinho neste «raciocínio», embora só muito raramente se veja em letra de forma, e quero crer que por mera distracção.
ALEXANDRA. Como já se percebeu, «o caso Alexandra» é mais uma demonstração de que a Justiça não funciona, ou funciona mal, como se fosse preciso demonstrar o que todos estão fartos de saber. Mas o mais grave é constatar-se a inexistência de sinais que apontem para melhorias, como se estivéssemos perante uma fatalidade irremediável.

1 de junho de 2009

JORNALISMO (3). A ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, nunca me inspirou simpatia, nem o contrário. Umas vezes concordei com ela, outras vezes não, outras ainda fiquei sem saber se tinha, ou não tinha, razão. Mas a decisão que tomou sobre o controverso jornal da TVI, à qual se juntou a do Conselho Deontológico dos Jornalistas, não deixa margem para duas interpretações: o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes mistura factos e opinião, e isso é eticamente inaceitável. Diz o director da estação que a decisão da ERC em nada mudará os padrões que «tornaram os jornais da TVI nos serviços informativos mais procurados pelos portugueses», como se estivéssemos perante uma lógica irrefutável. Acontece que não estamos. Segundo a princípio de José Eduardo Moniz, o que é o bom é o que as pessoas querem, e o cliente tem sempre razão. Dan Brown é um excelente escritor porque vende milhões de livros, Quim Barreiros é um óptimo músico porque vende toneladas de discos, e assim por diante. O pior é que não estamos diante uma lógica puramente comercial, segundo a qual o princípio se aceitaria. O caso denunciado pela ERC configura uma violação das regras do jornalismo, e quando assim é não basta mudar de canal — ou os fogachos inconsequentes da ERC. Só mais uma coisa sobre o caso: ao contrário do que os responsáveis da TVI nos querem fazer crer (dá-lhes jeito que assim seja), as críticas ao «jornalismo» de Manuela não vêm, apenas, de organismos governamentais ou de sectores que lhe são afectos. As críticas vêm, também, dos jornalistas, apesar de poucos serem capazes de as fazerem aberta e frontalmente. E ainda mais outra: insiste-se que o problema de Manuela é o estilo, que toda a gente diz não apreciar. Ora, toda a gente vê que o estilo é uma questão de somenos. O verdadeiro problema é a substância, que o estilo, quando muito, sublinha.