8 de outubro de 2009

POLÍTICOS. O João Gonçalves diz que os políticos «que andam o ano todo de carro com motorista» deviam experimentar os transportes públicos «às horas a que as pessoas "normais" os têm de apanhar» em vez de andarem para aí a «armar ao pingarelho». Como julgo a maioria, subscrevo. Subscrevo, e acrescento: os políticos que passam a vida arredados dos eleitores (quase todos) e, de repente, porque há eleições, se vêem na rua aos beijos e abraços, fingindo que amam o «povo» mas de que logo se «desinfectam» mal termine a campanha, deviam ser recebidos pelos eleitores com o gesto imortalizado por Bordalo Pinheiro.

6 de outubro de 2009

TRADUÇÕES. Lida uma dezena de páginas de A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, editado pela Porto Editora, considerei pôr de parte a tradução portuguesa e optar pela língua em que foi escrito. Por uma razão simples: a tradução roça o miserável. Aliás, só levei o livro até ao fim porque quis ver até onde iam os disparates — que são inúmeros, e quase sempre grosseiros. Pior: a língua portuguesa chega a ser atropelada por erros de palmatória. A coisa torna-se suspeita logo na capa e na contracapa, onde se diz, em inglês, que o livro foi premiado com um Pulitzer, sem que se vislumbre por que não foi dito em português. Diz-se, em nota editorial, que tradutor e editor «acordaram manter a tradução sem qualquer tipo de formatação gráfica especial que possa comprometer a fluidez do discurso das personagens». Seja, mas eu falo de erros básicos, não de subtilezas. Falo de coisas inacreditáveis, e para as quais não vejo explicação aceitável.

2 de outubro de 2009

LI E GOSTEI (6)

O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram — para dizer a verdade, todos engordámos... — e tornaram-se cépticos e amargos, carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).

Manuel António Pina, Crónica 20 Anos Depois (Jornal de Notícias de 10/6/92) publicada no volume O Anacronista

1 de outubro de 2009

DEONTOLOGIA E PROFISSIONALISMO. Não me parece que «o Diário de Notícias cometeu duas faltas deontológicas gravíssimas» por alegadamente ter violado «correspondência privada trocada entre profissionais do Público» e «expor uma fonte deste jornal», como escreveu José Manuel Fernandes no Público de ontem, mas admito que o caso se preste a outras interpretações. Mas já não me parece susceptível de duas interpretações o facto de o Público ter noticiado, de forma pouco profissional (para dizer o mínimo), um assunto que sabia de antemão constituir «uma bomba», permitindo que se criassem fundadas suspeitas quanto aos motivos que levaram o jornal da Sonae a publicar a notícia nos termos em que o fez. Pretender reduzir o assunto das alegadas escutas do Governo à Presidência da República ao e-mail publicado pelo DN, é querer transformar o acessório no essencial. E o essencial, vale a pena lembrar, é que a revelação do e-mail, cujo conteúdo ninguém desmentiu, foi fundamental para se perceber os contornos do caso, pois demonstrou que as alegadas suspeitas de Belém eram pouco fundamentadas, e que o Público não fez o que devia — ou fez mal o que devia. (Ver, a propósito, post do Jumento.)
A GAMELA DE BRUXELAS. Já ouvi quem lhe chamasse outros nomes, mas nunca tinha ouvido quem designasse o Parlamento Europeu «uma gamela». Sobretudo quando a madrinha, a eurodeputada Elisa Ferreira, se fartou de lá comer, e por lá continuará a comer caso a candidatura à Câmara do Porto não seja bem-sucedida. Elisa Ferreira parece não entender uma regra básica: quem acha que Bruxelas é uma gamela e se sente bem a comer nela, merece que lhe cortem a ração o mais rapidamente possível e a mandem comer por conta dela.
MODELOS. José Miguel Júdice revelou, a propósito da comunicação de Cavaco sobre as escutas, que o Presidente da República teve um dia infeliz, mas que a coisa «é normal nas pessoas», pois também ele, Júdice, tem os seus «dias menos felizes». A coisa fez-me lembrar a famosa tirada de Woody Allen quando ele disse que Deus tinha morrido, Marx tinha morrido, e ele próprio não se sentia lá muito bem. A diferença é que Woody Allen estava a ironizar.

29 de setembro de 2009

LAMENTÁVEL. Visivelmente nervoso e demonstrando uma insegurança surpreendente, o presidente da República tentou explicar ao país o que o país há muito desejava saber: se houve, ou não houve, escutas do Governo à Presidência da República, e se houve em que circunstâncias se verificaram — e que tipo de envolvimento terá existido por parte de um membro do seu staff, alegadamente por si mandatado. Tentou, mas não conseguiu. As explicações de Cavaco não esclarecerem ninguém, mesmo os que seguem de perto estas coisas — e omitiram questões essenciais. Pior: alegando vulnerabilidades no sistema informático da Presidência da República, estranhamente só hoje detectadas, o presidente deixou no ar a suspeita de que pode estar a ser vigiado. Por quem, não disse, mas toda a gente percebe por quem, até porque Cavaco acusou «destacadas personalidades do partido do Governo» de mentirem e de manipulação. Se a comunicação de Cavaco ao país foi, em termos pessoais, um perfeito desastre, em termos institucionais foi lamentável. É que se adivinha uma relação conflituosa com o próximo Governo, ou ainda mais conflituosa que a existente com o actual Governo, e isso não pode ser benéfico para o país.

28 de setembro de 2009

PERDER DUAS VEZES. É costume dizer-se que não é a Oposição que ganha as eleições, mas o Governo que as perde. Isto, claro, quando a Oposição ganha as eleições. Como não foi o caso, poder-se-á argumentar que a Oposição, no caso o PSD, perdeu duas vezes? Seguindo o raciocínio inicial, é o que se impõe dizer após a vitória de Sócrates, especialmente depois de se saber que o líder socialista foi atacado por tudo e por todos, incluindo o presidente da República. Já se sabia que vale tudo em política, mas desconfio que o vale tudo compense.
BOAS E MÁS NOTÍCIAS. Como disse há dois posts, decidi, pela primeira vez, não votar nas legislativas, razão pela qual me foi relativamente indiferente o resultado das eleições de domingo. Mas não posso deixar de salientar o que para mim constituiu uma boa e uma má notícias: o PS perdeu a maioria absoluta (a boa notícia), e o Bloco quase duplicou a votação. Posso estar enganado, mas estou convencido de que a maioria (repito: a maioria) dos votantes do Bloco fizeram-no por mero protesto, por considerarem o Bloco um partido diferente ou anti-sistema, embora pouco ou nada conheçam dos princípios que o move. Vão sendo horas, portanto, de demonstrar quem é o Bloco e o que pretende.

KANDINSKY. Imperdível a retrospectiva de Kandinsky no Guggenheim de Nova Iorque (até meados de Janeiro de 2010). Mais de cem trabalhos de várias proveniências que valem uma visita, a que se junta o próprio edifício (de Frank Lloyd Wright) a quem o visita pela primeira vez.
O quadro que ilustra este post (Feeling for Big Mountains) não integra a exposição do Guggenheim.

25 de setembro de 2009

ENCOMENDAS. Que atire a primeira pedra quem nunca errou, de forma consciente ou não, forçado ou por vontade própria. Mas o caso das alegadas escutas a Belém divulgado pelo Público é demasiado grave para que a discussão se centre em questões de pormenor — como, por exemplo, se o DN agiu correctamente ao divulgar o e-mail trocado entre dois jornalistas do Público, ou se houve, ou não, violação de correspondência por parte do DN. O que o DN noticiou é demasiado grave para se calar, e isto é que é o essencial. O resto, e o resto inclui a forma como o DN teve acesso ao e-mail, são detalhes. Detalhes porventura importantes, mas detalhes.
FARTO. José Sócrates jamais foi santo da minha devoção, Manuela Ferreira Leite nunca me convenceu, Cavaco Silva desceu muitos degraus na minha consideração. Três boas razões para eu não votar nas legislativas do próximo domingo — nem, sequer, em branco.
FENÓMENOS LITERÁRIOS. Li as primeiras páginas de 2666, do chileno Roberto Bolaño, alternadamente em espanhol e inglês, e decidi que vou esperar pela tradução portuguesa (da Quetzal, nas livrarias a partir de hoje). Li, também em inglês, as primeiras páginas de The Girl with the Dragon Tattoo (em português Os Homens Que Odeiam as Mulheres), do sueco Stieg Larsson, e também resolvi adquirir a tradução portuguesa de toda a série Millennium. Não sei se estou diante os acontecimentos literários que os media garantem, mas o que já li deixou-me água na boca, e são cada vez menos os livros que me deixam água na boca.

10 de setembro de 2009

FÉRIAS. Vou de férias nas próximas três semanas, pelo que os posts serão, em princípio, mais espaçados. Caso sobreviva à barrigada de figos que tenciono apanhar numa certa figueira, conto regressar à «normalidade» na primeira semana de Outubro.
RENTES DE CARVALHO. Viagra, narizes, medos, conversa

8 de setembro de 2009

HIPOCRISIA (2). Não há, segundo Manuela Ferreira Leite, «asfixia democrática» na Madeira, mas sim no continente. O que há na Madeira, diz ela, é um governo eleito pelo «povo», por acaso um exemplo de um bom Governo do PSD. Também Alberto João Jardim afinou pelo mesmo diapasão: Portugal vive «uma democracia limitada», e não será preciso dizer que ele não inclui a Madeira no Portugal de que fala. Como diria o outro, estão bem uns para os outros.
HIPOCRISIA (1). Como diariamente se constata, vale tudo em política, incluindo tirar olhos. Mas cada vez me custa mais aceitar a hipocrisia a propósito do «caso Manuela Moura Guedes», sobretudo quando ela é praticada por pessoas que admiro, e que noutros cenários arrasariam Manuela em vez de lhe elogiarem a «independência» e a «coragem».
TRAVESTIS. Manuela Moura Guedes insinuou que o jornalismo «travestido» de que Sócrates a acusou de praticar é uma expressão apenas usada «em certos contextos», deixando no ar a suspeita que todos estão a pensar. Depois gaba-se de ser «mais séria» que os colegas de profissão, que considera uma horda de «cobardes», e por quem diz não ter «grande apreço». De facto, a insinuação de Manuela sobre o primeiro-ministro é um bom exemplo de «seriedade» e «coragem».

7 de setembro de 2009

PROFESSORES. A ministra Lurdes Rodrigues deixou de ter condições para se manter à frente do Ministério da Educação a partir do momento em que admitiu que o projecto de avaliação de professores, pelo qual tanto se bateu, poderia ser revisto. Admitir, agora, por razões eleitorais, que houve um problema de comunicação entre o Governo e os professores, que promete corrigir na próxima legislatura, chega a ser caricato. Infelizmente para o país, os professores do ensino público levaram, de novo, a palma ao Governo. Digo infelizmente porque as questões do ensino nas escolas públicas se resumem, em Portugal, à questão dos professores, ao bem-estar dos professores, à carreira dos professores, aos humores dos professores. Sim, eles dizem que querem ser avaliados. Só que estão contra todos os modelos que lhes põem à frente, e não apresentam alternativa. (Já agora, alguém percebe a oportunidade da manifestação marcada para uma semana antes das eleições?)

4 de setembro de 2009

AI NOSSA SENHORA. Amanhã é dia de Dinamarca-Portugal. Não se esqueçam, portanto, de acender uma velinha.
TVI (6). Já disse e repeti o que penso do «jornalismo» de Manuela Moura Guedes, e não é agora, em plena refrega, que mudo de opinião. Os juízos de valor e as insinuações que por lá se praticavam, que alguns designam por jornalismo «sério» e «corajoso», não me deixam saudades. É que eu não acho que determinado modelo é bom quando me dá jeito, e é mau quando não dá. Os princípios, para mim, não variam consoante as circunstâncias, e é de princípios que falo. (Ler, a propósito, a crónica de Ferreira Fernandes no DN de hoje.)
TVI (5). Já repararam que a maioria dos comentários dos leitores nos jornais online apoiam, ao contrário da generalidade dos jornalistas, a extinção do jornal de Moura Guedes?
TVI (4). Vejam lá se conseguem ler sem se rirem o que disse José Eduardo Moniz ao Correio da Manhã: «E agora quem nos dá as notícias?»

3 de setembro de 2009

TVI (3). Politicamente falando, quem ganha com o «caso TVI»? José Sócrates? O PS? Qual das seguintes hipóteses será a pior? Acabar com o que nos incomoda, ou ficar com a fama de acabar com o que nos incomoda? Isto devia, na minha opinião, servir para esfriar os ânimos. É que o episódio da TVI causou, ao PS e a quem nele manda, mais prejuízo que lucro. E Sócrates pode ser tudo, mas estúpido é que ele não é.
TVI (2). Há uma peça «com dados novos» sobre o «caso Freeport» que o jornal de Manuela Moura Guedes se preparava para divulgar? E quem impede que ela seja divulgada noutro espaço informativo da mesma TVI?
TVI (1). Imaginemos que Belmiro de Azevedo resolvia dizer que o Público deixaria de se publicar a partir do final da semana, ou afastar o actual director. Sendo o Público considerado hostil ao Governo e José Manuel Fernandes um opositor declarado de José Sócrates, estaríamos perante um atentado à liberdade de expressão?
PORTUGUESES E PORTUGUESES. Então os estrangeiros naturalizados portugueses são, «para todos os efeitos, portugueses», e «para efeitos futebolísticos» já não são? É impressão minha, ou isto quer mesmo dizer que não há problema com os estrangeiros naturalizados desde que eles não assumam, na prática, essa condição? Marta Rebelo diz que a entrada de estrangeiros naturalizados «é contra o espírito da selecção». Ora, o que é «o espírito da selecção»? Palavra de honra que eu tinha Marta Rebelo por uma mulher inteligente e desempoeirada.
JUDITE DE SOUSA. Li não sei onde que em Portugal se publicam, diariamente, mais de meia centena de livros. Não percebo, por isso, o que levou a RTP, onde os noticiários generalistas raramente concedem espaço aos livros, a passar duas vezes (Telejornal de ontem e Jornal da Tarde de hoje) uma reportagem onde se dá conta do lançamento de um livro de Judite de Sousa.

1 de setembro de 2009

SOARES, O MACHISTA. Quem me lê sabe que discordo de quase tudo o que diz Mário Soares. Tirando o que todos lhe reconhecem e agradecem (Soares evitou que Portugal passasse de uma ditadura para outra), não tenho, portanto, razões para o defender, nem ele precisa. Mas parece-me um exagero (para não dizer maldade) dizer-se que Mário Soares foi machista quando zurziu em Manuela Ferreira Leite a propósito da entrevista que Manuela concedeu à RTP. Dizer que a líder do PSD foi «de uma banalidade que (...) roçou o patético», ou que falou de Sócrates com «um olhar de mazinha ao canto do olho», são comentários machistas? Não vi a entrevista de modo a que possa ajuizar o que lá se passou, mas li, e acabo de reler, o texto que Mário Soares publicou no DN que originou tal leitura, e não vejo lá nada que possa designar-se machismo. Certamente que os argumentos de Soares contra Manuela são facilmente rebatíveis, mas atacá-lo por uma razão que não se vislumbra é dar-lhe a razão que talvez não tenha.
O FUTURO DO LIVRO. Percebo o receio sobre o futuro do livro em papel, mas começo a cansar-me dos argumentos contra os meios electrónicos, alegadamente porque os meios electrónicos ameaçam a existência do livro em papel. (O restante pode ser lido na minha página pessoal.)
BOAS NOTÍCIAS. O Pedro Mexia regressou à blogosfera com a Lei Seca.

31 de agosto de 2009

28 de agosto de 2009

VERDADES INCONVENIENTES. Tortura? Somos, todos, contra. Em circunstância alguma se deve aceitar a tortura, gostamos de dizer, mesmo em casos em que ela possa evitar males maiores. Da Esquerda à Direita, passando pelo meio e pelos extremos, não há, sobre a matéria, o mais leve «mas». Isto, claro, em teoria. Na prática, se percebermos que a tortura pode evitar que o mundo nos caia em cima, somos mais realistas, e se preciso for fazemos de conta que nunca ouvimos falar dela. Escrevi que Cheney tinha razão quando disse que se devia divulgar tudo quando se divulgou a tortura da secreta americana, e o tudo incluía o que a tortura terá evitado. Escrevi, e mantenho. Não por defender a tortura ou que os fins justificam os meios, embora, por vezes, justifiquem, por mais que me custe admiti-lo. É que eu estou convencido de que o pior que se pode fazer é divulgar o que convém, e esconder o que não convém. Os factos são infinitamente mais importantes que a opinião que deles se tenha, e só eles permitem que cada um julgue por si. Esconder parte da verdade apenas serve para aumentar a simpatia por essa parte que se esconde.

27 de agosto de 2009

SUSPEITAS CONFIRMAM-SE. Cunha Rodrigues considera que «o cidadão começa a duvidar de que seja possível confiar numa Justiça que parece desfazer, de noite, o trabalho que produz de dia», que os tribunais se converteram «em causa de ruído e de perplexidade», e que «a lentidão da Justiça interessa normalmente a uma das partes». Cunha Rodrigues, recorde-se, foi procurador-geral da República durante 16 anos. Sabe, portanto, do que fala. E nada melhor do que alguém que sabe do que fala para credibilizar o que se diz por aí, que os menos informados tomarão por demagogia.

24 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (5)

Einstein finishes a lecture at the university in Prague (…) and is getting ready to leave the hall. “Herr Professor sir, take your umbrella, it's raining out!” Einstein gazes thoughtfully at his umbrella where it stands in a corner of the room, and answers the student: “You know, my good friend, I often forget my umbrella, so I have two of them. One is at the house, the other I keep at the university. Of course I could take it now since, as you say quite correctly, it is raining. But then I would end up with two umbrellas at the house and none here.” And with these words he goes out into the rain.

Milan Kundera, The Curtain

21 de agosto de 2009

SRA. MINISTRA DA SAÚDE. Li que os bombeiros da Régua se desinfectavam com vinho do Porto aquando da «pneumónica» sempre que tinham que socorrer algum doente infectado com a «gripe espanhola», e que nenhum dos «soldados da paz» foi vítima de tal coisa. «O primeiro gole seria para bochechar e deitar fora e o restante conteúdo do cálice (bem grande, por sinal) era para ingerir», recorda um bombeiro da época. Não sei onde acaba a verdade e começa a lenda, muito menos se o vinho do Porto produziu o efeito que lhe atribuem. O que sei é que já reforcei a minha dose diária após o jantar. Não só para me prevenir contra a Gripe A, mas também para evitar que ela me impeça de o beber.
OS MENOS MAUS. António Preto é «uma ferida em aberto» nas listas do PSD, escreveu Pacheco Pereira no blogue oficioso do PSD. Escreveu mais: que não concordou com algumas decisões, que houve «erros graves», e que teve de engolir alguns sapos. Tudo isto porque, segundo ele, é preciso vencer Sócrates e companhia, e para isso vale tudo, incluindo engolir sapos, cometer «erros graves», e o mais que for preciso. Resumindo o «raciocínio» de Pacheco Pereira, não é preciso ser melhor do que eles. O que importa é vencê-los, custe o que custar. Nada que um eleitor descomprometido e mediamente informado não esteja farto de saber, valha a verdade. O problema é se os eleitores que costumam votar nos menos maus se fartam deles e começam a votar nos piores.
AO CUIDADO DO PROVEDOR. O DN entrevistou Ana Gomes na condição de candidata à Câmara de Sintra mas «esqueceu-se» de lhe perguntar o que achava da directiva do PS que proíbe as duplas candidaturas, e se considerava que a medida a poderá prejudicar. Ou será que as perguntas não eram oportunas?

20 de agosto de 2009

BLOGUES. Nada contra os blogues que se fazem e desfazem para apoiar uma causa ou um partido político, ou para zurzir numa causa ou num partido político. Afinal, a blogosfera distingue-se por ser um espaço de liberdade, e que assim continue a ser. Mas devo dizer que estou farto dos saltimbancos que ora escrevem aqui, ora escrevem ali, ora escrevem acolá. Aliás, não vislumbro que mais-valia isso traz, e a quem. Salvo honrosas excepções, é de puro alinhamento que se trata, uns por razões evidentes, outros nem tanto. Pior: por regra, as contribuições apenas reforçam a componente politiqueira, e politiquice já temos de sobra.

18 de agosto de 2009

SOARES MENTE. Mário Soares não sabe do que fala quando fala do seguro de saúde nos EUA. Não é verdade que «os mais pobres não chegam sequer a entrar nos hospitais» por não terem seguro, como diz no DN. Nenhum hospital pode negar os cuidados de saúde a quem quer que seja, tenha seguro, ou não. A diferença de tratamento entre quem tem e não tem seguro é que varia, e muito, pelas razões que se adivinham. Mas isso é outra conversa.
LI E GOSTEI (4)

A Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante. Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes expedições e solenes visitas pastorais rumavam de preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais, os mais lúcidos cientistas. E do amanho do solo que se tentou afeiçoar a exóticas especiarias, à cultura do aborígene que se procurou erguer aos mais altos destinos, a Metrópole longínqua demasiara-se em desvelos à terra que sobre todas lhe compensaria o perdimento da Índia portentosa.
Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os seus astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários, e armavam rapidamente no altiplano das “barreiras” as tendas suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes; aformoseavam a terra.
Prosseguiam a outros pontos, ou voltavam — e as malocas, num momento transfiguradas, decaíam de chofre, volvendo à bruteza original.

Euclides da Cunha, À Margem da História

14 de agosto de 2009

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA. «Tolerar (e desculpar) um cavalheiro [Pedro Passos Coelho] que pública e constantemente se ofereceu como substituto dela [Manuela Ferreira Leite] era com certeza a melhor maneira de promover a crónica indisciplina do PSD», escreveu Vasco Pulido Valente no Público de hoje. Quer isto dizer que os críticos (e potenciais adversários) da actual liderança social-democrata não devem ser tolerados (ou desculpados)? Que a crítica a quem manda é um acto de indisciplina? Como não me parece haver margem para outras leituras, quer dizer isso mesmo. Assim sendo, o mínimo que posso dizer é que foi uma surpresa. Uma desagradável surpresa, para ser mais preciso.

13 de agosto de 2009

UM ABSURDO. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a que alguns já chamam a ASAE dos media, tornou-se um caso em que todos a atacam, e ninguém a defende. De facto, a directiva agora imposta (a ERC deliberou que os media devem, em período de eleições, suspender os opinion makers que são candidatos ou conceder espaços de opinião idênticos a todas as candidaturas) não tem pés, nem cabeça. É, quando muito, uma medida bem-intencionada, mas impossível de concretizar caso se queira pôr em prática — e convenhamos que de uma entidade reguladora dos media não se espera que se fique pelas boas intenções. Como escreveu Nuno Pacheco, a directiva implicaria a cedência de doze páginas do Público caso o jornal onde trabalha acedesse às pretensões da ERC, um perfeito absurdo. Estarão lembrados do posicionamento que os principais jornais norte-americanos tiveram face à candidatura de George W. Bush ao segundo mandato, mas eu recordo na mesma: os principais jornais (The New York Times, Washington Post e Boston Globe, entre outros) apoiaram a candidatura de John Kerry (adversário de Bush), e nem por isso evitaram que Bush fosse reeleito. Este simples facto (os media nem sempre têm o poder que lhes atribuem, nomeadamente poder eleitoral) devia servir para a ERC ponderar melhor as decisões que toma, e os conselhos que dá.
LI E GOSTEI (3)

Uma manhã de Inverno, passeava com Arrieta pelo Jardin du Luxembourg quando numa alameda secundária vislumbrámos um pássaro negro e solitário, quase imóvel, a ler o jornal. Era Samuel Beckett. Vestido rigorosamente de preto dos pés à cabeça, estava ali numa cadeira, muito quieto, parecia desesperado, metia medo. E até quase parecia mentira que fosse ele, que fosse Beckett. Nunca tinha previsto que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas sim alguém que vivia em Paris, mas imaginara-o sempre como uma escura presença que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que encontramos a ler desesperado um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando mudava de página, e fazia-o com uma espécie de nojo tão grande e uma energia tão intensa, que se o Jardin du Luxembourg inteiro tivesse tremido não nos teria surpreendido nada. Quando chegou à última página, ficou entre absorto e ausente. Metia mais medo do que antes. «É o único que teve a coragem de mostrar que o nosso desespero é tão grande, que nem palavras temos para o exprimir», disse Arrieta.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

11 de agosto de 2009

TÃO MAUS QUE NÓS SOMOS. Afinal, não é só Portugal que tem uma justiça incompetente. Os ingleses, pelos vistos, são tão maus como nós. Se puséssemos os olhos no que fazem os ingleses, diz Carlos Anjos, talvez não falássemos tão mal da justiça que temos. Como não é assim, como falar mal do que é nosso nos está na massa do sangue, passamos a vida a dizer mal da polícia, dos tribunais, da justiça. Infelizmente não ocorreu ao investigador da PJ um pequeno detalhe: os problemas dos ingleses são dos ingleses, e só a eles afectam. Já os nossos são nossos, e afectam-nos a nós. Nivelar por baixo, como fez Carlos Anjos, não explica nada, não adianta um milímetro, não muda coisa nenhuma. Contentarmo-nos em ser tão maus como os outros é meio caminho andado para sermos pior do que os outros.
«A inconcebível inclusão de António Preto demonstra que Manuela Ferreira Leite gosta mais dos seus amigos do que de transparência na vida pública.»
LIVROS. Isto é uma boa ideia.

10 de agosto de 2009

31 da ARMADA. A avaliar pelos comentários que vi por aí, o episódio protagonizado pelo 31 da Armada foi uma tragédia, no mínimo uma brincadeira de mau gosto. Pois eu, não sendo monárquico, devo dizer que achei graça àquilo, apesar de admitir que estejamos perante um caso de desrespeito aos símbolos nacionais punível por lei.
Os comediantes

7 de agosto de 2009

SARAMAGO. «Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica», escreveu, há dias, José Saramago. Quer isto dizer que a emigração constitui, para ele, uma nódoa no currículo de uma pessoa de bem? A avaliar por aquilo que disse, não há dúvida. De facto, o que disse Saramago sobre a emigração não se presta a duas leituras, pelo que o ilustre quis mesmo dizer o que disse. Quem me lê sabe que não morro de amores por Saramago. Nem pelo personagem, nem pela obra. Mas não fiquei inteiramente convencido de que ele pensa, realmente, o que disse. O post de Saramago resultou de não ter pensado no que disse, sobretudo no alcance do que disse, e nem me parece caso para que se possa dizer que quem não pensa o que diz arrisca dizer o que pensa. Sinceramente, sem a mais leve ironia. Mas ficar-lhe-ia bem desfazer o equívoco.
LI E GOSTEI (2)

— Agora que acabou a Censura, como irão escrever os escritores?
— À parte o facto, altamente provável, de aparecerem escritores que a si próprios se ignoravam, os veteranos escreverão como dantes: mal, os que escreviam mal; bem, os que o faziam bem.

— Então, quanto a si, essa abolição poucas vantagens trouxe...

— Trouxe. Daqui por diante não haverá mais desculpas.


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou

5 de agosto de 2009

A PURGA. Conheço mal Pedro Passos Coelho, mas a impressão que tenho dele não é das melhores. (Falo no plano político, que no plano pessoal, além de meu conterrâneo, nada mais sei dele, nem quero saber.) Parece-me, contudo, que Passos Coelho é um sério candidato à liderança do PSD, goste-se ou não do sujeito, seja bom, ou mau, para o PSD. Afastá-lo das listas de deputados, como acaba de fazer Manuela Ferreira Leite, parece-me, portanto, um erro. Diria mais: um erro monumental. O caso faz, obviamente, lembrar um certo partido político, onde essa prática é muito popular. Aliás, a exclusão de Miguel Relvas, braço-direito de Passos Coelho (Relvas foi indicado pela distrital de Santarém como cabeça de lista por esse mesmo distrito mas Manuela rejeitou), confirma que estamos diante uma purga, mas nem era preciso. De facto, como entender que um ex-candidato à liderança do PSD que conquistou 30% dos votos não seja candidato a deputado quando é essa a sua vontade e a vontade da distrital a que pertence? Mas há mais: há candidatos que são arguidos em processos judiciais, o que torna ainda mais difícil entender que os escolhidos sejam os que «reúnem as melhores condições para o combate», como diz Aguiar Branco. A exclusão de Passos Coelho e seus apoiantes não foi, como diz a direcção social-democrata, uma decisão «simplesmente política». Foi, antes, uma decisão de pequena política, um mero ajuste de contas.

VEJAM, OUÇAM. A propósito do novo programa de Rodrigues dos Santos (Conversa de Escritores), que hoje estreou na RTPN, apetece-me recomendar a entrevista (link na imagem) que Alejo Carpentier concedeu ao programa A Fondo, da TVE . Verão como a hora e meia que ela dura se esgota num instante. Recomendo, já agora, as entrevistas de Jorge Luis Borges (em 1976 e 1980), Juan Rulfo, Cabrera Infante e Julio Cortázar, também na televisão espanhola.
PUTAS E SUBMISSAS. Desconheço a seriedade do movimento «Nem Putas nem Submissas», mas simpatizo com o nome. (Ler o resto no sítio do costume.)

4 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (1)

Em Janeiro do ano em que se iria matar, Hemingway, um homem velho e frágil, com o cabelo todo branco, pálido, com os membros enfraquecidos mas aparentemente um pouco melhor das suas últimas crises, foi autorizado pelos médicos a regressar a Ketchum. O seu amigo Gary Cooper acabava de dizer que um homem feliz é aquele que durante o dia, devido ao seu trabalho, e à noite, devido ao seu cansaço, não tem tempo para pensar nas suas coisas. No entanto, Hemingway tinha esse tempo. Foi-lhe pedido que contribuísse com uma frase para um livro que ia ser entregue ao recém-investido presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy. Trabalhou todo o dia e não conseguiu a frase. «Já não sai», balbuciou ao seu amigo Georges Saviers. E chorou. Nunca mais voltou a escrever. Quando chegou a Primavera, dizem que nem a viu e que nem se apercebeu de que tinha chegado. Vestido sempre de preto, cabisbaixo, vivia num permanente estado de desespero. Alguns heróis dos seus livros, com a sua estóica resistência à adversidade, com a sua extraordinária elegância no sofrimento, iam passar à história e ficar, pelo menos durante algum tempo, na memória da humanidade. Mas ele estava desesperado e a sua estóica resistência soçobrava. E não podia fazer muito. Quando se está mergulhado na adversidade, já é tarde para se ser cauto. Mudou da armaria para um armário uma velha espingarda de caça e dois cartuchos. A mulher descobriu e avisou o médico e o médico pediu a Hemingway que devolvesse a espingarda à armaria. Tiveram de voltar a interná-lo, mas antes de entrar no carro que o conduziria ao avião que o ia levar ao hospital precipitou-se para a armaria e pôs a arma carregada na garganta. «Shanghaied», disse. Foi apenas uma antecipação do que acabaria por fazer em Julho.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

3 de agosto de 2009

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. Muito comovente a prosa que Moita Flores deu à estampa no Correio da Manhã a propósito do «caso» Fátima Felgueiras, especialmente a parte onde ele diz que os media se fartaram de condenar a autarca por crimes que o tribunal agora diz não ter cometido. Comovente porque o cavalheiro não aplicou o mesmo princípio (a presunção da inocência) aos pais de Madeleine McCann, sobre os quais se fartou de insinuar, no mesmo jornal, que eram mais que suspeitos de terem matado a própria filha, e com o agravante de não apresentar um único facto (repito: um único facto) que fundamentasse as suspeitas. O mais interessante é que Moita Flores foi agente da PJ, pelo que seria de esperar um pouco mais de comedimento. Isto, claro, partindo do princípio que o comedimento é um valor caro à PJ, embora raramente se note.

31 de julho de 2009

AI QUE ME DÓI AQUI. Cada vez me dá mais gozo ler o Alberto Gonçalves (Diário de Notícias e Sábado), que a passagem dos anos tem, na minha opinião, tornado como um certo produto que ali tenho que costumo ingerir após o jantar. Alberto Gonçalves tem tudo o que eu gostaria de ter: argumentos difíceis de rebater, ironia a roçar o sarcasmo, estilo. Espanta-me, por isso, a sobranceria com que o Pedro Rolo Duarte se refere ao Alberto Gonçalves, que considera um cronista que «escreve bem e chega a ter graça», mas que não passa de um Vasco Pulido Valente «dos pequeninos». Um comentário de um leitor ao post do Pedro insinua que o dito tem dor de corno. De facto, também me parece. Aliás, o Pedro é um caso interessante. Quando escrevia uma crónica no DN, disparou contra os jornalistas que escreviam nos blogues (e contra a blogosfera em geral), alegando não perceber os motivos que os levavam a descer tão baixo. Terminada a crónica no DN, apressou-se a fazer mea culpa, e a criar o seu próprio blogue. Como se vê, as ideias do Pedro, que agora dirige a revista do i, variam conforme as circunstâncias. Não são, portanto, para levar a sério.

30 de julho de 2009

LIVROS E SUPERMERCADOS. Volta e meia encontro referências pouco lisonjeiras para com a venda de livros em supermercados ou estabelecimentos congéneres. Pois também eu tenho um problema com os livros em supermercados e aparentados: considero que o espaço que lhes é destinado devia ter o triplo do tamanho. Acho, aliás, que devia haver livros em todo o lado — nos cafés, nas sapatarias, nas padarias, nos comboios, nas farmácias, por aí fora. Os livros não devem estar circunscritos às livrarias e bibliotecas. Pelo contrário. Quanto mais próximos dos consumidores, melhor. Melhor para quem os publica, melhor para quem os vende, melhor para quem os escreve, melhor para quem os lê.

28 de julho de 2009

O TROMPETE. Francisco Duarte Azevedo, cônsul-geral de Portugal em Newark já em final de missão, prepara-se para publicar O Trompete de Miles Davis, um belo romance ainda em fase de revisão — e que eu gostaria de ter escrito. Eis um excerto:

Falava português e não era portuguesa (Brunette, obviamente), falava cantando sem cantar, arrastando as palavras, abrindo vogais sem ser arrastadeira. Presa numa gaiola nem dourada nem de ferro, girava o corpo em tubo da noite, rendia que se fartava, mas não era ave que pudesse piar em seu próprio ninho. O homem dos ovos contava tudo direitinho. Cada poedeira tinha de render tanto. Impôs tabela fixa. Podiam fazer festa no quintal, não tinha problema, mas regressavam à capoeira para dormir. Brunette estava nesse entretém de ave. Se piasse fora, quebravam-lhe o bico. Consta que depois de adoptada como filha...
— Passou à condição de amante, disse eu.

— Como sabes?

— Não foste tu que disseste existirem pássaros que piam?


Não vou alongar-me em considerações sobre o livro (que já tive o privilégio de ler), muito menos entrar em detalhes. Direi, apenas, que é uma história cujo principal personagem é um detective mais talhado para o jazz e para os livros que para os mistérios do crime, e que na hora do aperto se revela, imaginem, um cagarolas. Arrisco, já agora, um palpite: ou muito me engano, ou o livro vai dar que falar.

27 de julho de 2009

NÃO PERCEBO. Qual é o problema de um partido político convidar quem muito bem lhe apetecer de outro partido a integrar as suas listas de deputados? Se bem entendi, não há problema se o convidado aceitar, mas já há se o convidado recusar. Foi isto o que disse o líder do Bloco. Segundo ele, situações destas são «uma prática frequente», e só não transpiram para a opinião pública «pelo facto de os convidados aceitarem os lugares». Pegando no caso que despoletou a polémica, se Joana Amaral Dias aceitasse o convite que os socialistas lhe terão feito, seria normal e nada se diria. Como não aceitou, é um escândalo e um desrespeito pelos «valores republicanos». Alguém me explica a lógica disto?
DIVINO (2). Frei Manuel Cardoso é um nome que nada dirá aos portugueses, mesmo a uma minoria reduzida de portugueses. Também eu não fazia ideia quem era o compositor seiscentista até que o Nuno Guerreiro me chamou a atenção para a sua obra magnificamente interpretada pelos Tallis Scholars, como se pode ver por este excerto.

24 de julho de 2009

OBAMA. Não sei se a polícia de Cambridge foi «estúpida» quando prendeu um professor de Harvard que terá forçado a entrada da sua própria casa por se ter esquecido das chaves, como disse o presidente Obama. O que me parece evidente é que Obama se excedeu ao dizer o que disse, ainda por cima admitindo desconhecer os detalhes do caso. Excedeu-se porque não se trata, apenas, de um aparente caso de violência policial, eventualmente desnecessária, mas de um caso que poderá ter contornos racistas, um tema que sabiamente soube afastar da campanha eleitoral. Percebe-se que Obama ande nervoso (as coisas não lhe têm corrido bem nas últimas semanas), mas não se espera de um presidente que perca a cabeça com um caso de polícia. Ficou-lhe bem assumir que as suas palavras foram infelizes, mas soube a pouco.
DONA BRANCA. Bem podem os media denunciar as burlas e respectivos burlões que os portugueses não desarmam: mal tenham oportunidade e um excedente orçamental, investem na Dona Branca. Ainda há pouco uma notícia dizia que centenas de portugueses perderam um milhão de euros num «investimento» que lhes prometia, imaginem, 36% de juros ao mês, e já outro se anuncia. Isto depois dos escândalos financeiros dos últimos meses, que aconselhariam maior prudência aos investidores. A ganância tenta qualquer um. Mas quando se alia à cegueira, não há nada que a detenha.
PORNOGRAFIA. Que os tablóides se agarrem a Berlusconi como uma lapa se agarra a uma rocha, entende-se. Mas já me custa entender que o jornalismo dito de referência esteja em cima dele (salvo seja) por causa das meninas e programas afins. Qual é o problema de Berlusconi promover orgias e outros pecados? Usou bens públicos para os concretizar? Se usou, denunciem-no, processem-no, e punam-no. Espreitar pelo buraco da fechadura os aparentes excessos do sujeito é tão pornográfico como a pornografia de que o sujeito será praticante imoderado, e quando o voyeur é o chamado jornalismo de referência só pode merecer que lhe percam o respeito. A NBC recusou um pedido da Casa Banca para mudar a hora em que aquela estação pretendia transmitir a entrevista com a estouvada de voz divina, porque os seus responsáveis consideraram que a entrevista iria bater recordes de audiência caso fosse transmitida à hora prevista. O resultado é conhecido: tirando o episódio Obama, que resolveu antecipar uma comunicação ao país para não coincidir com a entrevista à sra. Boyle, a entrevista foi vista por uma audiência vinte vezes inferior ao esperado, isto é, foi um fiasco para os padrões americanos. O chamado jornalismo de referência devia aprender alguma coisa com isto.

22 de julho de 2009



DIVINO (1). Pierluigi da Palestrina pode não ser um compositor que mudou a história da música, e não passar de um bom músico entre muitos outros bons músicos. Mas é um compositor que me reconcilia com o mundo, e isso não é pouco. Não será por acaso que dele se diz ter produzido obras-primas de «perfeição absoluta», e eu conheço algumas. Sei que me contradigo (sou agnóstico), mas não hesito em dizer que a música de Palestrina é divina. Como esta, por exemplo, pelos Tallis Scholars.

21 de julho de 2009

LIVRARIAS DE MANHATTAN. Lido um texto do Alberto Gonçalves onde ele fala das livrarias de Manhattan, apetece-me recomendar-lhe a Alabaster e o Skyline (ambos alfarrabistas, o primeiro a dois passos da Strand e o segundo pertíssimo da loja principal da Barnes & Noble), a Book Culture (mesmo ao pé do comedouro celebrizado por Seinfeld), a Saint Marks (praticamente encostada à New York University), a Complete Traveller (na Madison, entre as ruas 34 e 35), e alguns alfarrabistas que nos últimos anos se mudaram de Manhattan para Brooklyn por não aguentarem os custos de viver em Manhattan. Isto sem falar da Strand, que o Alberto mencionou, e que é, em Manhattan, a minha preferida. Se estiver disposto a dar um salto até New Jersey, isto é, a fazer um desvio de pouco mais de meia hora, recomendo-lhe o Montclair Book Center (atenção à cave, de que só me apercebi para aí à terceira visita), um alfarrabista de se lhe tirar o chapéu.

20 de julho de 2009

AI DOURO. Depois da célebre campanha «Allgarve», destinada a vender não sei o quê a não sei quem, vem aí o «I Douro You». Leram bem: «I Douro You». Deve ser por causa de decisões como esta que já se anuncia, para este ano, uma redução na produção de vinho do Porto (menos 13.500 pipas que no ano passado). De facto, se esta gente não é capaz de vender um produto de excelência como é o vinho do Porto, como acreditar que serão capazes de «vender» toda uma região com uma saloiice destas?

17 de julho de 2009

TRETOFONIA. Quem vê, na TV, os Jogos da Lusofonia? A avaliar pelas horas de directos que a televisão pública lhes dá, parece que muita gente. Os estádios às moscas e os ginásios sem vivalma, que as câmaras nem sempre conseguem esconder, não são, pelos vistos, o que parece. Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico português, garante que se está «a construir um projecto importante» que «ainda não foi bem compreendido no país». De facto, não se percebe. Eu próprio gostaria de saber, por exemplo, quanto é que o «projecto» custou aos cofres públicos, e que audiência tem na RTP.
AMEAÇAS. Que me perdoem se estiver enganado, mas a história de um escritor português que decidiu adiar a publicação de um romance que tem o Islão como pano de fundo por alegadas ameaças de morte, ontem contada no Público e motivo para um comunicado da editora, soa-me a uma jogada de marketing. (Vale a pena ler a notícia do Público sobre a matéria e prestar atenção às dúvidas que ela levanta.)
QUEIMAR CALORIAS. Ora aqui está uma boa receita para emagrecer e sem efeitos secundários — ou com efeitos secundários ainda melhores que os primários.
JOÃO PEREIRA COUTINHO NO CORREIO DA MANHÃ. Aceitar [na Constituição] ideologias totalitárias em nome da 'democracia' e da 'liberdade' é como aceitar a raposa no interior do galinheiro.

16 de julho de 2009

AGRADECIMENTO. O contador do Esmaltes e Jóias disparou, nos últimos dias, para números impensáveis. Ainda pensei tratar-se de algum disparate que eu tivesse publicado, mas reli os últimos posts e não me pareceu caso para tanto. Uma volta pelos blogues do costume revelou-me o motivo: o Francisco fez uma referência a este blogue, e sempre que isso sucede os acessos sobem em flecha. Escusado será dizer que lhe agradeço a referência e a simpatia. Conto, já agora, que os forasteiros que me visitaram encontrem motivo para voltar.
MIA COUTO. O Jesusalém, de Mia Couto, continua a fazer vítimas. Desta vez foi o DN, que lhe chamou Jerusalém. (Tentei, no site do jornal, fazer um comentário a dar conta do erro, mas constatei que era necessário inscrever-se para o poder fazer. Feita a inscrição, uma mensagem informou-me que iria receber a confirmação por mail, após a qual o processo ficaria concluído. Passaram dez horas e nada recebi.)
ESCOLHA O QUE MAIS LHE CONVÉM. «Jornais recuperam leitores este ano», titula o Público (sem link). «Queda generalizada de leitores no segmento dos jornais diários», titula o DN.

15 de julho de 2009

PACHECO PEREIRA. Andam para aí umas donzelas muito irritadas com Pacheco Pereira por causa do novíssimo programa na SIC (Ponto Contra Ponto), mas ainda não vi quem rebatesse um só caso lá abordado. O problema, pelos vistos, é Pacheco Pereira meter o nariz onde não devia, no caso questionar o desempenho de uma classe (os jornalistas) muito susceptível e pouco habituada a críticas, e que tem o poder (e os meios) de se defender como ninguém. Contra mim falo, mas eu cá prefiro que me questionem o trabalho às falsas palmadinhas nas costas. Prefiro uma crítica injusta mas fundamentada a um elogio simpático mas pouco rigoroso. Não sei se é o caso de Pacheco Pereira, nem isso me interessa. Mas já me interessava que o criticassem com argumentos, até porque me chateia que a ausência dos ditos nas críticas que lhe fazem signifique que ele tem, de facto, razão.
SE ELE O DIZ... «Inqualificável», disse ele.
NÃO PERCEBO. Tendo assistido a alguns programas na TVI (Roda Livre) e lida a entrevista ao i, afinal Villaverde Cabral é de esquerda em quê?

14 de julho de 2009

JUSTIÇA NÃO MERECE RESPEITO. Não me passa pela cabeça que Isaltino Morais tenha abandonado o tribunal onde está a ser julgado por se ter irritado com um procurador sem que exista uma lei que lho permita. Sair do tribunal apenas porque a juíza o autorizou, como já ouvi por aí, parece-me demasiado absurdo para ser verdade. Diria mais: a confirmar-se, seria surrealista. Com certeza que se o arguido fosse um pobretanas não se gabaria de semelhante proeza, mesmo que a lei lho permitisse, e até nem é preciso grande imaginação para ver a juíza a rir-se da esperteza do arguido caso este lhe pedisse licença para se ausentar da sala de audiência para, imaginem, não ter que ser «malcriado», como fez Isaltino Morais. Assim sendo, estamos, portanto, diante mais um caso já bem nosso conhecido: há uma justiça para ricos, e outra para pobres — ou, se preferirem, uma justiça para os poderosos, e outra para o cidadão comum. Como, aliás, a recente operação policial contra o Gangue do Multibanco muito bem demonstrou. Fossem as buscas a bancos, escritórios de advogados ou a casas de políticos e familiares de políticos, como foi dito em editorial na Sábado, e as televisões não teriam exibido as imagens que exibiram, muito menos com a conivência das autoridades.
BLOGUES. Duas notícias da blogosfera, uma boa, outra má. A boa é que o Francisco voltou; a má é que o Filipe Nunes Vicente vai parar até final de Agosto.

13 de julho de 2009

MAIS ALFARRABISTAS. Fathers and Sons: The Autobiography of a Family, de Alexander Waugh, nove dólares; A Writer's Diary: Being Extracts from the Diary of Virginia Woolf, de Virginia Woolf, um dólar e oitenta; The Lawless Roads, de Graham Greene, um dólar. Eis a mais recente colheita num alfarrabista que acabo de descobrir graças ao Francisco Duarte Azevedo, cônsul-geral de Portugal em Newark, que se gabou de lá ter comprado um Hemingway por meia dúzia de patacos. Nas quase duas horas que por lá andei entre as estantes ouvia-se, em fundo, não sei que ópera, tornando o local ainda mais agradável. Voltarei um dia destes.

10 de julho de 2009

CARREIRAS POLÍTICAS (2). A deputada Ana Gomes insiste no que julga ser uma lógica implacável e um argumento irrefutável: foi candidata ao Parlamento Europeu, mas os eleitores sabiam de antemão que renunciará ao mandato de eurodeputada caso seja eleita presidente da Câmara de Sintra. Acontece que a «honestidade» e «transparência» com que diz ter actuado não bastam para esconder o óbvio. E o óbvio é que a candidatura ao PE foi, no mínimo, um expediente pouco recomendável, e eticamente reprovável. Os eleitores sabiam que ela abandonará o PE caso seja eleita para Sintra? Também Ana Gomes sabia que os eleitores votariam, nas Europeias, no partido por quem se candidatou, e não especificamente nela. A eurodeputada sabia, portanto, que seria eleita, acontecesse o que acontecesse, apreciassem ou não a sua conduta. Resta esperar que nas autárquicas tenha aquilo que merece.
Este vai longe

8 de julho de 2009

CARREIRAS POLÍTICAS (1). Dizendo que alguns deputados «em início de carreira» não estariam dispostos a assumir outros combates políticos caso soubessem que poriam em risco «a carreira que já tinham iniciado», a deputada Leonor Coutinho transformou-se, involuntariamente, no símbolo de uma certa forma de estar na política, provavelmente a forma de estar na política da maioria dos seus protagonistas. E a forma, como se vê, é demasiado evidente: os políticos vêem as suas funções como uma carreira, que é necessário preservar a todo o custo. Bem pode Manuel Alegre jurar que a proibição de candidaturas simultâneas agora anunciada pelo PS é uma «atitude pedagógica exemplar». É uma medida que se saúda, mas não muda o essencial.
PORTUGAL DOS PEQUENINOS. Depois de Saramago, que resolveu emigrar para as Canárias, e de Maria João Pires, que se mandou para o Brasil, eis que Miguel Sousa Tavares se prepara, também ele, para abandonar a Pátria. Devo dizer que também eu abandonei, há muito, a dita. Como eles, por causa do estômago. A diferença é que eles saíram enfastiados, e eu com ele vazio.

7 de julho de 2009

BOA MÚSICA. Michael Jackson foi tudo o que dele se disse, sobretudo o que de pouco abonatório se disse. Mas também é preciso que se diga que Michael Jackson fez músicas excelentes. Como esta, por exemplo, que Miles Davis recriou para escândalo de muitos. (Vejam a segunda parte aqui.)

6 de julho de 2009

JUSTIÇA PARA POBRES, JUSTIÇA PARA RICOS. Oitenta e dois por cento dos inquiridos num estudo agora publicado considera que a justiça não trata ricos e pobres de forma igual, e a maioria dos entrevistados não lhe passa pela cabeça recorrer aos tribunais para defender os seus direitos por não acreditarem nos tribunais. De facto, a coisa é de tal modo evidente que não eram precisos estudos para o demonstrar. Deviam, agora, fazer um estudo para saber em que é que os portugueses realmente acreditam. Não estou a brincar. Um país que não acredita na justiça, acredita em quê?
JORNAL DA MADEIRA. O mais extraordinário da notícia que nos dá conta que o Governo de Jardim estourou 23,4 milhões no Jornal da Madeira é constatar-se que a coisa já nem merece reparo, muito menos indignação, e ainda menos acções que ponham fim àquela pouca vergonha.
GLORIOSO. Queiramos, ou não, 92% dos votos é obra. Além de fazer lembrar os resultados das eleições em alguns regimes pouco recomendáveis, tanta unanimidade numa casa que nos últimos anos se distinguiu pela mediocridade não deixa de ser extraordinário.
O BURACO D'AGULHA. O meu amigo Rui regressou à blogosfera, agora num registo diferente.

2 de julho de 2009

CHIFRES E BENGALADAS. Estava o país suspenso da conferência de imprensa onde o sr. Vilarinho iria anunciar o futuro do glorioso, e eis que o já ex-ministro Manuel Pinho resolve pôr um par de chifres na cabeça do sr. Bernardino e provocar um abalo na Pátria. O episódio fez-me lembrar um texto notável de Eça de Queirós, que transcrevo sem mais demoras.

Tumultos no Parlamento

Julho 1871.

Escrevemos no primeiro número das
Farpas: «As sessões da Câmara não têm seriedade. Aí reinam o tumulto, a confusão..., etc.»

Uma nova justificação desta verdade apareceu na sessão do dia 29.


O sr. presidente do Conselho falava. Houve um momento em que S. Exª, ou cometeu um erro de gramática, segundo o dizer de alguns jornais, ou arremessou desdenhosamente à circulação a eloquente palavra
bomba, segundo a afirmação de outros. O facto é que a maioria entendeu que a melhor maneira de manifestar ao sr. presidente do Conselho que não tinha confiança na sua política, era apupá-lo! E a Pátria deve agradecer aos senhores deputados que eles não lhe tivessem dado bengaladas!

Então o sr. presidente, a título de esclarecimento, perguntou timidamente se se achava numa praça pública. Pergunta excessivamente ociosa. Numa praça nunca há nem aqueles gritos, nem aqueles tumultos — porque a polícia intervém e faz evacuar a praça. Impunemente, ao abrigo das instituições, sem ingerência policial — uma assuada só se pode dar na Câmara dos Deputados. Em mais nenhuma parte é permitido, pelos regulamentos da polícia, ser-se tão excessivamente trocista. O caso é que a maioria, para provar ao sr. presidente que se considerava ofendida com a designação de
praça, rompeu num alarido tal como não é uso fazer-se na praça de touros — tudo para demonstrar bem claramente que não estava ali um grupo de moços de forcado, mas um corpo de legisladores. A palavra patife fez então pela primeira vez a sua entrada na Câmara e tomou assento. Foi também então que o sr. presidente do Conselho, em compensação, mandou o epíteto malcriados a cumprimentar e abraçar os eleitos do País.

A assuada, o motim, o chasco, o charivari, cresceram tão constitucionalmente que o Sr. Aires de Gouveia, eclesiástico, teve de enterrar na cabeça o seu chapéu alto. A este gesto, cheio de dedicação nacional, a tempestade evacuou a sala. Diz-se que alguns srs. deputados foram cumprimentados à saída pelos melhores frequentadores do sol na praça do Campo de Santana, que se achavam presentes. As galerias permaneceram impassíveis. Tal foi esta memorável sessão, em que a altura das ideias competiu com o vigor da eloquência!


Parece pois definitivo que o Parlamento decidiu adoptar o motim e a assuada como a forma parlamentar dos seus trabalhos. Vistes, amigos, a sessão de 29 de Junho. Quereis assistir à de 29 de Julho? Aí tendes o seu fiel extracto:


O ORADOR
(concluindo): — E foi assim, sr. presidente, que se passaram os factos.

O SR. LUCIANO DE CASTRO
(interrompendo com grandes punhadas na mesa): — O ilustre deputado diz uma refinadíssima peta...

Vozes
: — Apoiado, apoiado!

O ORADOR
(voltando-se e desabotoando o colete): — Petas? oh! descarado! (apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse biltre entre no meu foro interior!

Vozes
: — Fora, fora!

O SR. COELHO DO AMARAL
(espancando com dignidade o Sr. Barros e Cunha): — E assim provo, sr. presidente, que o Sr. Barros e Cunha não tem razão alguma nos princípios que estabeleceu.

O SR. MARIANO DE CARVALHO: — Mas a ditadura foi nefasta! E não há mariola nenhum que me demonstre o contrário...
(acende o cigarro).

O SR. COELHO DO AMARAL
(continuando o espancamento): — Não me interrompam o discurso! Não me interrompam!

O SR. PRESIDENTE
(aos Srs. Mariano e Santos Silva): — Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).

O SR. PRESIDENTE DO CONSELHO: — A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!


(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).


O SR. JOSÉ DIAS
(batendo com a bengala sobre a mesa, a um continuo): — Dois cafés! Um cabaz!

Vozes (atravessando o corpo legislativo)
: — Salta meia de Colares!

O SR. PINHEIRO CHAGAS
(deitado, com ar melancólico):

«Oh virgem pálida e triste

Branca visão doutros Céus!»


O SR. AIRES DE GOUVEIA: — O que diz ele?


Vozes
: — Ele cisma! Ele cisma!

A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados grunhem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.


O ORADOR: — A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos...
(Distribui bengaladas).

Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixes da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação, dá cambalhotas. O Sr. Luís de Campos espalha uma prodigiosa quantidade de pontapés.


O SR. PRESIDENTE: — Para amanhã continua esta interessante discussão.


A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.


Os contínuos levantam as garrafas de
Colares.

A política chegou a tal miséria, que nem a polidez instintiva coíbe os homens.


Eça de Queirós, As Farpas
DA INGENUIDADE. Dias Loureiro diz que só ontem, após ter sido constituído arguido por suspeita de envolvimento em negócios pouco claros do Banco Português de Negócios, percebeu «alguns contornos do negócio da Biometrics» que dantes lhe «passaram completamente ao lado». Pois eu era capaz de jurar que os portugueses perceberam, há muito, uma coisa: ingénuo é que Dias Loureiro não é.
MANUELA vs GRANADEIRO. Saborosa a troca de acusações entre Manuela Ferreira Leite e Henrique Granadeiro a propósito do abortado negócio entre a PT e a Media Capital. É bom não esquecermos que nenhum dos partidos do «arco do poder» está isento de culpas quando acusa o outro de controlar os media uma vez no Governo, e também é bom que se saiba que o Governo, seja ele qual for, meteu o nariz onde não devia e com que intenção. Com certeza que nada disto desvaloriza a aparente tentativa do Governo de Sócrates em controlar a linha editorial da TVI, mas convenhamos que nem o PS nem o PSD têm autoridade moral para acusar quem quer que seja.

1 de julho de 2009

MEDIA. Passado o episódio Portugal Telecom/Media Capital, a propósito do qual já foi dito o que havia a dizer, há que dizer que a concentração dos media em meia dúzia de empresas não interessa a ninguém. Tirando as empresas do sector, a concentração dos media não interessa aos consumidores (leitores, ouvintes, telespectadores), não interessa ao jornalismo, não interessa à democracia. A concretizar-se a compra da Media Capital pela Cofina (vale a pena lembrar que a Cofina ainda há dias fez saber que está interessada na Media Capital), talvez seja pior que o controlo da Media Capital pela PT, mesmo sabendo-se o que significa o controlo da Media Capital pela PT. Os media portugueses já estão concentrados em demasia, e um negócio do género Cofina/Media Capital ainda traria mais concentração. Independentemente de quem está no poder (hoje um, amanhã outro), não hesitaria em escolher a PT como «patrão» da Media Capital caso fosse obrigado a escolher, embora o ideal seria que as coisas continuem como estão.
COMO É? O PS tem razões para se queixar à ERC do novo programa de Pacheco Pereira?