19 de novembro de 2009

JORNALISMO. Como diariamente se constata, os media passam a vida a dizer, a propósito do que interessa e do que não interessa, que nos estão a dar uma notícia em primeira mão, que tiveram acesso privilegiado (ou exclusivo) a determinado assunto, que estão a transmitir em directo um acontecimento sem que se vislumbre o que a circunstância acrescenta à notícia. Que interessa aos leitores (ouvintes, telespectadores) que determinada notícia lhes esteja a ser dada em primeira mão, em exclusivo, ou em directo? Quando é que os jornalistas deixam de falar uns para os outros e começam a falar com quem se espera que falem?

18 de novembro de 2009

ESCREVER ROMANCES. De manhã escrevi a primeira frase, ao fim da tarde já ia na quarta versão, à noite abandonei-o. No dia a seguir confirmei o óbito: romance que começa assim, não se aguenta nas pernas. Pena que a «receita» não seja seguida por alguns best sellers que para aí andam.
TRÊS INQUÉRITOS, 3. Não sei se repararam que o Ministério Público instaurou três inquéritos (repito: três inquéritos) destinados a saber quem violou o segredo de justiça no caso «Face Oculta». Não me recordo de lhe ouvir dizer que o caso irá «até às últimas consequências», «doa a quem doer», mas não é preciso para se perceber que o assunto das escutas está morto e enterrado.

17 de novembro de 2009

REAL E VIRTUAL. A ideia de que os media estão ao serviço dos governos, de só haver um ou outro jornal ou TV independentes que os governos tentam calar, é um argumento mais que estafado. Há jornais (e jornalistas) que fazem fretes ao Governo? (Continuar a ler aqui.)

13 de novembro de 2009

LADRÃO ME CONFESSO. Não sabia que os livros de Miguel Esteves Cardoso andam por aí, ao alcance de um clique, mas o próprio Miguel encarregou-se de o revelar na sua crónica de hoje (link apenas disponível a pagantes). Assim sendo, e porque considera «uma honra» ser «pirateado», acabo de descarregar O amor é fodido. Devo acrescentar que é o primeiro livro que roubo, embora suspeite que a sensação é menos excitante do que seria caso o roubo fosse numa biblioteca e não um «roubo virtual», ainda por cima estimulado pelo próprio dono. Acrescento em minha defesa o facto de morar no estrangeiro, onde os livros portugueses são difíceis de encontrar e os portes de correio os tornam caríssimos.
RIDÍCULO. E se Fernanda Câncio deixar de ser namorada do primeiro-ministro? A Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas também irá reunir-se para decidir se Câncio deve, ou não deve, ser tratada por ex-namorada de Sócrates? Claro que é relevante dizer que a jornalista é namorada de Sócrates caso a jornalista escreva/fale sobre política portuguesa, como será relevante dizer que deixou de o ser caso isso suceda e continue a escrever/falar sobre política portuguesa. Mas a Comissão da Carteira reunir-se por uma coisa destas, ainda por cima uma questão do senso comum? Por amor de deus.

12 de novembro de 2009

CARPENTIER. Apesar das dificuldades com o espanhol, estou a gostar de Los pasos perdidos, do cubano Alejo Carpentier, de quem já li (e gostei) El reino de este mundo. Sei que Carpentier teve um percurso político de que eu não me orgulharia, mas não misturo alhos com bugalhos. Um bom livro não deixa de ser um bom livro por ter sido escrito por uma besta, o que não é o caso. Para quando, já agora, a reedição de Carpentier em português?

11 de novembro de 2009

NÃO OLHES PARA O QUE EU FAÇO. Nada pessoal contra Manuela Moura Guedes, mas a «baixa psiquiátrica» de que está a desfrutar é um insulto aos portugueses. Estaria Manuela incapaz de apresentar o Jornal de Sexta caso o Jornal de Sexta ainda estivesse no ar? A resposta parece-me óbvia: certamente que não. A «baixa psiquiátrica», anunciada pelos jornais como coisa normal (o que é estranho), roça a provocação. Já se sabia que o atestado médico é quase tão popular como a aspirina, mas convenhamos que o esquema adoptado por Manuela não se encaixa no perfil de quem tanto diz ter-se batido pela verdade.

9 de novembro de 2009

SUSPEITAS. Que um soldado, num momento de loucura, resolva agarrar numa arma e matar a torto e a direito dizendo estar a fazê-lo em nome de Alá, compreende-se. Mas já se torna mais difícil entender quando a loucura vem de um oficial, de quem se espera que tenha a couraça mais dura e frieza em momentos de grande pressão. Ou muito me engano, ou o caso ainda vai dar muito que falar.

4 de novembro de 2009

LIVROS. Acabadinho de me chegar o quarto volume de entrevistas à Paris Review, bem como Latin American Writers at Work, colectânea de entrevistas (e não só) a escritores latino-americanos também publicadas na Paris Review, e igualmente reunidas em forma de livro. A Tinta da China acaba, aliás, de editar «uma antologia das melhores entrevistas» à Paris Review, uma selecção de Carlos Vaz Marques que se recomendaria mesmo que fosse outra. (Ver, ainda a propósito, artigo de Salman Rushdie no Times, onde cheguei graças ao Senhor Palomar.)

3 de novembro de 2009

LI E GOSTEI (8)

Countries today can choose to be prosperous. One of the most damaging myths of our times is that poor countries live in poverty because of a conspiracy of the rich countries, who arrange things so as to keep them underdeveloped, in order to exploit them. There is no better philosophy than that for keeping them in a state of backwardness for all time to come. Because today that theory is false. In the past, to be sure, prosperity depend almost exclusively on geography and power. But the internationalization of modern life — of markets, of technology, of capital — permits any country, even the smallest one with the fewest resources, if it opens out to the world and organizes its economy on a competitive basis, to achieve rapid growth.

Mario Vargas Llosa, A Fish in the Water
Os intocáveis
Pobre poeta

2 de novembro de 2009

CREDIBILIDADE. O Público assumiu que tem um problema de credibilidade e «um excesso de peso ideológico». De facto, a falta de credibilidade notou-se bastante nos últimos tempos. Mas dizer-se que tem «um excesso de peso ideológico», mesmo atribuindo a constatação à «percepção pública», já me parece um exagero.

29 de outubro de 2009

TÃO BOM QUE ELE ERA. Parece que o empresário a quem a Justiça deitou a unha era «um generoso apoiante das colectividades locais», «um homem de coração grande» que «fez muito» pela cidade que o viu nascer, e que ajudou «muitas pessoas da terra que se encontravam em situação difícil». Valerá a pena lembrar que também os traficantes que controlam as favelas do Rio de Janeiro são generosos para com as colectividades locais, que ajudam as pessoas que se encontram em dificuldades, e que os residentes os preferem às autoridades?
A GRANDE MÚSICA (2)

26 de outubro de 2009

MALABARISMOS. Lembram-se do episódio da TVI, em que alguém se encostou a Marcelo e Marcelo atirou-se para o chão? Pois bem, está em marcha uma manobra idêntica na RTP. Como na bola, onde estes truques são corriqueiros, geralmente a dúvida beneficia quem está no chão, e Marcelo sabe bem como estas coisas funcionam.
EXIBICIONISMO. O Telejornal da última sexta passou uma «peça» sobre os conflitos no Rio de Janeiro antecedida de uma chamada de atenção para as condições em que ela foi produzida. Segundo o pivot, a equipa da televisão pública no Rio passou um mau bocado, e o mau bocado incluiu risco de vida. Vista a «peça» com redobrada atenção, não vislumbrei que mais-valia trouxe tão arriscado exercício, nem que informação relevante terá acrescentado. O que se viu, lamento dizê-lo, foi um exibicionismo perfeitamente escusado, que poderia ter acabado mal.
REGRESSO À VACA FRIA. Sobre a polémica saramaguiana, um excerto de Caim:

«O jardim do éden era ubérrimo em frutos, aliás não se encontrava lá outra coisa de proveito, até aqueles animais que, por natureza, deveriam alimentar-se de carne sangrenta, pois para carnívoros vieram ao mundo, haviam sido, por imposição divina, submetidos à mesma melancólica e insatisfatória dieta. O que não se sabia era donde tinham vindo as peles que o senhor fizera aparecer com um simples estalar de dedos, como um prestidigitador. De animais eram, e grandes, mas vá lá saber-se quem os teria matado e esfolado, e onde. Casualmente, havia água por ali perto, porém não era mais que um regato turvo, em nada parecido com o rio caudaloso que nascia no jardim do éden e depois se dividia em quatro braços, um que ia regar uma região onde se dizia que o ouro abundava e outro que rodeava a terra de cuche.»

Outro excerto d’A Viagem do Elefante:

«A caravana de homens, cavalos, bois e elefante foi engolida definitivamente pela bruma, nem sequer se distingue a mancha do extenso vulto do ajuntamento que formam. Vamos ter de correr para alcançá-la. Felizmente, considerando o pouco tempo que ficámos a assistir ao debate dos hércules da aldeia, o pessoal não poderá ir muito longe. Em situação de visibilidade normal ou de bruma menos parecida com puré que esta, bastaria seguir os rastos das grossas rodas do carro de bois e do carro da intendência no chão amolecido, mas, agora, nem mesmo com o nariz a roçar a terra se conseguia descobrir que por aqui passou gente.»

Ainda outro d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo:

«O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo.»

Será preciso invocar deus e o diabo para vender prosas destas? Como concluirão pelas amostras, é preciso. É que elas soam a redacção doutros tempos, e não me venham com relativismos. Discutir deus e o diabo sempre que dá à estampa um novo livro, como Saramago gosta de fazer, é puro marketing, curiosamente um produto por excelência do sistema político que Saramago tanto abomina mas que não dispensa. Do essencial quase nunca se fala, e o essencial é que as prosas de Saramago não valem um caracol.

23 de outubro de 2009

O ERNESTO. Interessados na polémica saramaguiana? Então não se esqueçam do Ensaio sobre a toleima e do Ernesto.

21 de outubro de 2009

BALELAS SARAMAGUIANAS. Não sei se a Bíblia é um «manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana», como diz Saramago, e se Caim poderá «incomodar os judeus», como suspeita ou deseja. Duma coisa, porém, não duvido: Saramago é melhor na promoção dos seus livros que a escrevê-los, coisa, aliás, que não é difícil. (Ler o restante aqui.)

20 de outubro de 2009

LI E GOSTEI (7)

A gala mais memorável de todas foi a que os venezianos prepararam para a visita de Henrique III de França, em 1574 — um evento que, embora sem particulares consequências políticas, ficou de tal forma gravado na memória da cidade que é quase sempre incluído nas listas de datas importantes de Veneza. Palladio desenhou arcos triunfais de boas-vindas, que Tintoretto e Veronese decoraram, e Henrique III (na altura com 23 anos) foi transportado pela cidade num barco impulsionado por 400 remadores eslavos, com uma escolta de 14 galés. Durante a travessia da laguna, a frota foi acompanhada por uma enorme balsa, onde vidreiros criavam objectos de vidro para recreação d'EI- Rei ao lado de uma fornalha que mais parecia um monstro marinho gigantesco a vomitar fogo pelas mandíbulas e narinas — em breve se lhe juntou uma segunda armada de barcos com curiosas decorações, fantasiosos ou simbólicos, repletos de golfinhos e deuses marinhos ou adornados com ricas tapeçarias. Em Veneza, o palácio que dá pelo nome de Ca’Foscari, e que fica no Grande Canal, foi especialmente preparado para a visita real. Ornamentaram-no com pano de ouro, tapeçarias orientais, mármores raros, sedas, veludos e pórfiro. Os lençóis eram bordados a seda carmesim. Os quadros, adquiridos ou encomendados especialmente para a ocasião, eram da autoria de Giovanni Bellini, Ticiano, Paris Bordone, Tintoretto e Veronese. Para o banquete principal, que teve lugar na gigantesca Câmara do Grande Conselho do Palácio dos Doges, suspenderam-se temporariamente as leis sumptuárias, e as mulheres mais belas de Veneza lá apareceram com trajes de um branco deslumbrante, «adornadas», como nos diz certo historiador, «com jóias e pérolas de grande tamanho, não só ao pescoço, mas também sobre o penteado e as capas que traziam pelos ombros». Da ementa constavam 1200 pratos, mil convidados comeram em baixela de prata, e as mesas estavam decoradas com estátuas de papas, doges, deuses, virtudes, animais e mores, todas feitas de açúcar, desenhadas por um arquitecto eminente e moldadas por um boticário talentoso. Quando Henrique III pegou no seu guardanapo de pregas elaboradas, descobriu que o mesmo também era feito de açúcar. Quando a refeição se aproximou do seu término, serviram-se 300 tipos diferentes de bombons, e depois do jantar El-Rei assistiu à primeira ópera representada em Itália. Quando Henrique III saiu finalmente para a noite, descobriu que uma galé de que lhe haviam apresentado as partes componentes no início da noite fora montada durante o banquete no cais em frente: a galé foi lançada à laguna aquando da sua saída do palácio, juntamente com um canhão de sete toneladas que os venezianos fundiram entre a sopa e o suflê.
Segundo alguns historiadores, o pobre e jovem rei, que se vestia de forma muito simples e gostava de passear anónimo por cidades desconhecidas, nunca mais voltou a ser o mesmo e viveu o resto da vida num perpétuo deslumbramento.


Jan Morris, Veneza

19 de outubro de 2009

EU NÃO LIGO A ESSAS COISAS. Concordo que o caso Maitê Proença não tem importância, e também me parece evidente que exigir-lhe desculpas, ou que lhe proíbam a entrada em Portugal, ainda é mais ridículo que o vídeo. Escusavam era de andar para aí a escrever quilómetros de prosa a dizer que o caso não tem importância, pois isso demonstra que se dá importância ao que se diz não ter importância.
CONSPIRAÇÃO. O pior é se o bruxo não deixa.
LINKS. No Pocinho, por Rentes de Carvalho, e Dramas de que a ONU não cuida, por Ferreira Fernandes.

16 de outubro de 2009

DE COITADA A COITADINHA. A catraia do vídeo resolveu desculpar-se, mas aproveitou a boleia para dizer que não percebe a «falta de sentido de humor das pessoas» (leia-se portugueses), o que equivale a dizer, de novo, que os portugueses são umas bestas, pois não conseguem descortinar a subtileza humorística da boçal criatura. Não percebe, nem admira que não perceba. Afinal, quem é capaz de uma fita daquelas e de ainda se rir da proeza dificilmente perceberá o que quer que seja. Diz Miguel Sousa Tavares que os portugueses reagiram de forma «provinciana» e «saloia», que «somos um povo sem capacidade de humor e autocrítica», e que «só um povo com complexos é que se sente melindrado com uma coisa destas». Acontece que Miguel Sousa Tavares anda de amores com a donzela (dizem os jornais), e os portugueses sabem bem, apesar da burrice, como os amores cegam qualquer um.

14 de outubro de 2009

POST CHATO E COMPRIDO. Algumas notas sobre o recente Prós e Contras: 1) José Manuel Fernandes não conseguiu fundamentar, de forma convincente, a notícia do Público sobre as escutas. Pior: visivelmente irritado, o ex-director do jornal da Sonae revelou ter aceitado ir ao programa na condição de o tema das escutas ser, apenas, «uma nota de rodapé» («negócio» prontamente desmentido por Fátima Campos Ferreira), deixando a ideia de que não teria aceite o convite caso soubesse que o tema iria ser abordado da forma que foi abordado. E por que não queria ele discutir o assunto da forma que foi discutido? Como ficou demonstrado no decorrer do debate, porque não tinha substância que fundamentasse a notícia; 2) O director do Expresso, que se fartou de meter os pés pelas mãos e se revelou perito em dar uma no cravo e outra na ferradura, reconheceu que a notícia do Público carecia de sustentação, e chegou mesmo a admitir que a dita não tinha pés nem cabeça. Monteiro insistiu e voltou a insistir em quem (e com que intenção) enviou o e-mail às redacções, como se isso fosse mais importante que o e-mail propriamente dito. Depois de grande parte do tempo a interromper toda a gente a propósito de tudo e de nada, introduzindo ainda mais ruído em já tão ruidoso debate, o director do Expresso terminou a sua intervenção a dar lições de jornalismo, nomeadamente ao director do Diário de Notícias, a quem acusou de não ter currículo e procurou diminuir por vir do jornalismo desportivo; 3) A forma como o e-mail foi obtido pelo Diário de Notícias, e se devia, ou não, ter sido divulgado, gerou uma discussão longa e cansativa, chegando a ficar a impressão de que a forma como ele chegou às redacções (do DN e do Expresso, pelo menos) era mais importante que o seu conteúdo; 4) Os jornalistas deram uma péssima imagem do jornalismo que temos. Pior: talvez a imagem corresponda ao jornalismo que temos. A peixeirada que reinou na segunda parte, e que se terá prolongado para lá do final do programa, foi a triste constatação de que o chamado «jornalismo de referência» não merece confiança.

13 de outubro de 2009

COITADA. Não me parece que o vídeo de que tanto se fala seja uma ofensa a Portugal e aos portugueses. Pelo contrário. A fita é uma ofensa à inteligência dos brasileiros, os quais a donzela tratou como se fossem atrasados mentais.

12 de outubro de 2009

PERDEDORES. Elisa Ferreira fez os possíveis e os impossíveis para não ser eleita para a Câmara do Porto. Primeiro foi a promessa de ir a Bruxelas dar o nome e voltar, depois disse que o Parlamento Europeu é um «trampolim inconfessável» e uma «gamela», finalmente insinuou que Rui Rio tinha «o apoio de seis milhões de benfiquistas». O resultado só podia ser a estrondosa e merecida derrota.
BOAS NOTÍCIAS, MÁS NOTÍCIAS. Quatro boas notícias sobre as autárquicas: as derrotas de Ana Gomes, Elisa Ferreira, Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres. As primeiras porque trataram de assegurar que as suas carreiras políticas não ficariam em risco quando se candidataram às câmaras de Sintra e do Porto, os segundos por razões que todos sabemos. As más notícias dizem que Isaltino Morais ganhou, e que ganhou por margem folgada. Isaltino, recorde-se, acaba de ser condenado a sete anos de cadeia por corrupção (repito: corrupção), e duvido que haja um só único eleitor que não saiba disso. Talvez a coisa se explique como diz o André Abrantes Amaral: «Há muitos anos que os tribunais fazem pouco dos cidadãos. Agora recebem o troco.» De facto, a (eventual) falta de concorrência à altura não explica tudo.

9 de outubro de 2009

NOBEL DA TRETA. O que é que Barack Obama fez, até agora, pela paz no Mundo? Ou estou a ver mal, ou o que fez não passou dos discursos e das boas intenções. O Iraque continua. O Afeganistão complicou-se. Guantânamo continua por fechar. Nada mudou com o Irão. Obama acaba de se recusar a receber o Dalai Lama, que me conste não em nome da paz. Como se vê, a falta de currículo em matéria de paz e derivados é flagrante e notável, e não deve ter sido por acaso que o prémio causou tanta surpresa. Votei em Obama nas Presidenciais, como já disse e repeti. Mas o Nobel da Paz que lhe foi atribuído desvaloriza o simbolismo do prémio e ridiculariza quem lho atribuiu.

8 de outubro de 2009

NOBEL DA LITERATURA. A avaliar pela ausência de comentários praticamente um dia depois do anúncio, nomeadamente nos blogues da especialidade, o Nobel da Literatura deste ano foi, de novo, uma surpresa. Uma surpresa a ponto de ninguém — ou quase ninguém — conhecer a premiada, o que à partida não significa que o prémio foi mal entregue. Aguardemos o que vai ser dito nos próximos dias sobre Herta Müller, que a Academia sueca considerou uma escritora que «pinta as paisagens dos desfavorecidos», deixando a ideia de que o critério foi, outra vez, mais político que literário.
RULFO E CARPENTIER. Não imaginam as voltas que eu dei, recentemente, em busca de edições portuguesas de Alejo Carpentier e Juan Rulfo. Na FNAC da Santa Catarina disseram-me que nunca ouviram falar, mas depois lá descobriram Rulfo (esgotado) na base de dados. Na Leitura disseram-me o que eu já sabia: só tinham em espanhol, e só o escritor mexicano. Dois alfarrabistas garantiram-me que nunca ouviram falar (parece que já não há alfarrabistas como antigamente), e na Lello informaram-me, de memória, que ambos estavam, há muito, fora do mercado, e duvidaram que eu conseguisse encontrar qualquer um deles mesmo no mais remoto alfarrabista. Conhecida a realidade, pelos vistos há muito detectada, pergunto: os editores portugueses andam distraídos, ou não há leitores para Rulfo e Carpentier?
POLÍTICOS. O João Gonçalves diz que os políticos «que andam o ano todo de carro com motorista» deviam experimentar os transportes públicos «às horas a que as pessoas "normais" os têm de apanhar» em vez de andarem para aí a «armar ao pingarelho». Como julgo a maioria, subscrevo. Subscrevo, e acrescento: os políticos que passam a vida arredados dos eleitores (quase todos) e, de repente, porque há eleições, se vêem na rua aos beijos e abraços, fingindo que amam o «povo» mas de que logo se «desinfectam» mal termine a campanha, deviam ser recebidos pelos eleitores com o gesto imortalizado por Bordalo Pinheiro.

6 de outubro de 2009

TRADUÇÕES. Lida uma dezena de páginas de A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, editado pela Porto Editora, considerei pôr de parte a tradução portuguesa e optar pela língua em que foi escrito. Por uma razão simples: a tradução roça o miserável. Aliás, só levei o livro até ao fim porque quis ver até onde iam os disparates — que são inúmeros, e quase sempre grosseiros. Pior: a língua portuguesa chega a ser atropelada por erros de palmatória. A coisa torna-se suspeita logo na capa e na contracapa, onde se diz, em inglês, que o livro foi premiado com um Pulitzer, sem que se vislumbre por que não foi dito em português. Diz-se, em nota editorial, que tradutor e editor «acordaram manter a tradução sem qualquer tipo de formatação gráfica especial que possa comprometer a fluidez do discurso das personagens». Seja, mas eu falo de erros básicos, não de subtilezas. Falo de coisas inacreditáveis, e para as quais não vejo explicação aceitável.

2 de outubro de 2009

LI E GOSTEI (6)

O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram — para dizer a verdade, todos engordámos... — e tornaram-se cépticos e amargos, carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).

Manuel António Pina, Crónica 20 Anos Depois (Jornal de Notícias de 10/6/92) publicada no volume O Anacronista

1 de outubro de 2009

DEONTOLOGIA E PROFISSIONALISMO. Não me parece que «o Diário de Notícias cometeu duas faltas deontológicas gravíssimas» por alegadamente ter violado «correspondência privada trocada entre profissionais do Público» e «expor uma fonte deste jornal», como escreveu José Manuel Fernandes no Público de ontem, mas admito que o caso se preste a outras interpretações. Mas já não me parece susceptível de duas interpretações o facto de o Público ter noticiado, de forma pouco profissional (para dizer o mínimo), um assunto que sabia de antemão constituir «uma bomba», permitindo que se criassem fundadas suspeitas quanto aos motivos que levaram o jornal da Sonae a publicar a notícia nos termos em que o fez. Pretender reduzir o assunto das alegadas escutas do Governo à Presidência da República ao e-mail publicado pelo DN, é querer transformar o acessório no essencial. E o essencial, vale a pena lembrar, é que a revelação do e-mail, cujo conteúdo ninguém desmentiu, foi fundamental para se perceber os contornos do caso, pois demonstrou que as alegadas suspeitas de Belém eram pouco fundamentadas, e que o Público não fez o que devia — ou fez mal o que devia. (Ver, a propósito, post do Jumento.)
A GAMELA DE BRUXELAS. Já ouvi quem lhe chamasse outros nomes, mas nunca tinha ouvido quem designasse o Parlamento Europeu «uma gamela». Sobretudo quando a madrinha, a eurodeputada Elisa Ferreira, se fartou de lá comer, e por lá continuará a comer caso a candidatura à Câmara do Porto não seja bem-sucedida. Elisa Ferreira parece não entender uma regra básica: quem acha que Bruxelas é uma gamela e se sente bem a comer nela, merece que lhe cortem a ração o mais rapidamente possível e a mandem comer por conta dela.
MODELOS. José Miguel Júdice revelou, a propósito da comunicação de Cavaco sobre as escutas, que o Presidente da República teve um dia infeliz, mas que a coisa «é normal nas pessoas», pois também ele, Júdice, tem os seus «dias menos felizes». A coisa fez-me lembrar a famosa tirada de Woody Allen quando ele disse que Deus tinha morrido, Marx tinha morrido, e ele próprio não se sentia lá muito bem. A diferença é que Woody Allen estava a ironizar.

29 de setembro de 2009

LAMENTÁVEL. Visivelmente nervoso e demonstrando uma insegurança surpreendente, o presidente da República tentou explicar ao país o que o país há muito desejava saber: se houve, ou não houve, escutas do Governo à Presidência da República, e se houve em que circunstâncias se verificaram — e que tipo de envolvimento terá existido por parte de um membro do seu staff, alegadamente por si mandatado. Tentou, mas não conseguiu. As explicações de Cavaco não esclarecerem ninguém, mesmo os que seguem de perto estas coisas — e omitiram questões essenciais. Pior: alegando vulnerabilidades no sistema informático da Presidência da República, estranhamente só hoje detectadas, o presidente deixou no ar a suspeita de que pode estar a ser vigiado. Por quem, não disse, mas toda a gente percebe por quem, até porque Cavaco acusou «destacadas personalidades do partido do Governo» de mentirem e de manipulação. Se a comunicação de Cavaco ao país foi, em termos pessoais, um perfeito desastre, em termos institucionais foi lamentável. É que se adivinha uma relação conflituosa com o próximo Governo, ou ainda mais conflituosa que a existente com o actual Governo, e isso não pode ser benéfico para o país.

28 de setembro de 2009

PERDER DUAS VEZES. É costume dizer-se que não é a Oposição que ganha as eleições, mas o Governo que as perde. Isto, claro, quando a Oposição ganha as eleições. Como não foi o caso, poder-se-á argumentar que a Oposição, no caso o PSD, perdeu duas vezes? Seguindo o raciocínio inicial, é o que se impõe dizer após a vitória de Sócrates, especialmente depois de se saber que o líder socialista foi atacado por tudo e por todos, incluindo o presidente da República. Já se sabia que vale tudo em política, mas desconfio que o vale tudo compense.
BOAS E MÁS NOTÍCIAS. Como disse há dois posts, decidi, pela primeira vez, não votar nas legislativas, razão pela qual me foi relativamente indiferente o resultado das eleições de domingo. Mas não posso deixar de salientar o que para mim constituiu uma boa e uma má notícias: o PS perdeu a maioria absoluta (a boa notícia), e o Bloco quase duplicou a votação. Posso estar enganado, mas estou convencido de que a maioria (repito: a maioria) dos votantes do Bloco fizeram-no por mero protesto, por considerarem o Bloco um partido diferente ou anti-sistema, embora pouco ou nada conheçam dos princípios que o move. Vão sendo horas, portanto, de demonstrar quem é o Bloco e o que pretende.

KANDINSKY. Imperdível a retrospectiva de Kandinsky no Guggenheim de Nova Iorque (até meados de Janeiro de 2010). Mais de cem trabalhos de várias proveniências que valem uma visita, a que se junta o próprio edifício (de Frank Lloyd Wright) a quem o visita pela primeira vez.
O quadro que ilustra este post (Feeling for Big Mountains) não integra a exposição do Guggenheim.

25 de setembro de 2009

ENCOMENDAS. Que atire a primeira pedra quem nunca errou, de forma consciente ou não, forçado ou por vontade própria. Mas o caso das alegadas escutas a Belém divulgado pelo Público é demasiado grave para que a discussão se centre em questões de pormenor — como, por exemplo, se o DN agiu correctamente ao divulgar o e-mail trocado entre dois jornalistas do Público, ou se houve, ou não, violação de correspondência por parte do DN. O que o DN noticiou é demasiado grave para se calar, e isto é que é o essencial. O resto, e o resto inclui a forma como o DN teve acesso ao e-mail, são detalhes. Detalhes porventura importantes, mas detalhes.
FARTO. José Sócrates jamais foi santo da minha devoção, Manuela Ferreira Leite nunca me convenceu, Cavaco Silva desceu muitos degraus na minha consideração. Três boas razões para eu não votar nas legislativas do próximo domingo — nem, sequer, em branco.
FENÓMENOS LITERÁRIOS. Li as primeiras páginas de 2666, do chileno Roberto Bolaño, alternadamente em espanhol e inglês, e decidi que vou esperar pela tradução portuguesa (da Quetzal, nas livrarias a partir de hoje). Li, também em inglês, as primeiras páginas de The Girl with the Dragon Tattoo (em português Os Homens Que Odeiam as Mulheres), do sueco Stieg Larsson, e também resolvi adquirir a tradução portuguesa de toda a série Millennium. Não sei se estou diante os acontecimentos literários que os media garantem, mas o que já li deixou-me água na boca, e são cada vez menos os livros que me deixam água na boca.

10 de setembro de 2009

FÉRIAS. Vou de férias nas próximas três semanas, pelo que os posts serão, em princípio, mais espaçados. Caso sobreviva à barrigada de figos que tenciono apanhar numa certa figueira, conto regressar à «normalidade» na primeira semana de Outubro.
RENTES DE CARVALHO. Viagra, narizes, medos, conversa

8 de setembro de 2009

HIPOCRISIA (2). Não há, segundo Manuela Ferreira Leite, «asfixia democrática» na Madeira, mas sim no continente. O que há na Madeira, diz ela, é um governo eleito pelo «povo», por acaso um exemplo de um bom Governo do PSD. Também Alberto João Jardim afinou pelo mesmo diapasão: Portugal vive «uma democracia limitada», e não será preciso dizer que ele não inclui a Madeira no Portugal de que fala. Como diria o outro, estão bem uns para os outros.
HIPOCRISIA (1). Como diariamente se constata, vale tudo em política, incluindo tirar olhos. Mas cada vez me custa mais aceitar a hipocrisia a propósito do «caso Manuela Moura Guedes», sobretudo quando ela é praticada por pessoas que admiro, e que noutros cenários arrasariam Manuela em vez de lhe elogiarem a «independência» e a «coragem».
TRAVESTIS. Manuela Moura Guedes insinuou que o jornalismo «travestido» de que Sócrates a acusou de praticar é uma expressão apenas usada «em certos contextos», deixando no ar a suspeita que todos estão a pensar. Depois gaba-se de ser «mais séria» que os colegas de profissão, que considera uma horda de «cobardes», e por quem diz não ter «grande apreço». De facto, a insinuação de Manuela sobre o primeiro-ministro é um bom exemplo de «seriedade» e «coragem».

7 de setembro de 2009

PROFESSORES. A ministra Lurdes Rodrigues deixou de ter condições para se manter à frente do Ministério da Educação a partir do momento em que admitiu que o projecto de avaliação de professores, pelo qual tanto se bateu, poderia ser revisto. Admitir, agora, por razões eleitorais, que houve um problema de comunicação entre o Governo e os professores, que promete corrigir na próxima legislatura, chega a ser caricato. Infelizmente para o país, os professores do ensino público levaram, de novo, a palma ao Governo. Digo infelizmente porque as questões do ensino nas escolas públicas se resumem, em Portugal, à questão dos professores, ao bem-estar dos professores, à carreira dos professores, aos humores dos professores. Sim, eles dizem que querem ser avaliados. Só que estão contra todos os modelos que lhes põem à frente, e não apresentam alternativa. (Já agora, alguém percebe a oportunidade da manifestação marcada para uma semana antes das eleições?)

4 de setembro de 2009

AI NOSSA SENHORA. Amanhã é dia de Dinamarca-Portugal. Não se esqueçam, portanto, de acender uma velinha.
TVI (6). Já disse e repeti o que penso do «jornalismo» de Manuela Moura Guedes, e não é agora, em plena refrega, que mudo de opinião. Os juízos de valor e as insinuações que por lá se praticavam, que alguns designam por jornalismo «sério» e «corajoso», não me deixam saudades. É que eu não acho que determinado modelo é bom quando me dá jeito, e é mau quando não dá. Os princípios, para mim, não variam consoante as circunstâncias, e é de princípios que falo. (Ler, a propósito, a crónica de Ferreira Fernandes no DN de hoje.)
TVI (5). Já repararam que a maioria dos comentários dos leitores nos jornais online apoiam, ao contrário da generalidade dos jornalistas, a extinção do jornal de Moura Guedes?
TVI (4). Vejam lá se conseguem ler sem se rirem o que disse José Eduardo Moniz ao Correio da Manhã: «E agora quem nos dá as notícias?»

3 de setembro de 2009

TVI (3). Politicamente falando, quem ganha com o «caso TVI»? José Sócrates? O PS? Qual das seguintes hipóteses será a pior? Acabar com o que nos incomoda, ou ficar com a fama de acabar com o que nos incomoda? Isto devia, na minha opinião, servir para esfriar os ânimos. É que o episódio da TVI causou, ao PS e a quem nele manda, mais prejuízo que lucro. E Sócrates pode ser tudo, mas estúpido é que ele não é.
TVI (2). Há uma peça «com dados novos» sobre o «caso Freeport» que o jornal de Manuela Moura Guedes se preparava para divulgar? E quem impede que ela seja divulgada noutro espaço informativo da mesma TVI?
TVI (1). Imaginemos que Belmiro de Azevedo resolvia dizer que o Público deixaria de se publicar a partir do final da semana, ou afastar o actual director. Sendo o Público considerado hostil ao Governo e José Manuel Fernandes um opositor declarado de José Sócrates, estaríamos perante um atentado à liberdade de expressão?
PORTUGUESES E PORTUGUESES. Então os estrangeiros naturalizados portugueses são, «para todos os efeitos, portugueses», e «para efeitos futebolísticos» já não são? É impressão minha, ou isto quer mesmo dizer que não há problema com os estrangeiros naturalizados desde que eles não assumam, na prática, essa condição? Marta Rebelo diz que a entrada de estrangeiros naturalizados «é contra o espírito da selecção». Ora, o que é «o espírito da selecção»? Palavra de honra que eu tinha Marta Rebelo por uma mulher inteligente e desempoeirada.
JUDITE DE SOUSA. Li não sei onde que em Portugal se publicam, diariamente, mais de meia centena de livros. Não percebo, por isso, o que levou a RTP, onde os noticiários generalistas raramente concedem espaço aos livros, a passar duas vezes (Telejornal de ontem e Jornal da Tarde de hoje) uma reportagem onde se dá conta do lançamento de um livro de Judite de Sousa.

1 de setembro de 2009

SOARES, O MACHISTA. Quem me lê sabe que discordo de quase tudo o que diz Mário Soares. Tirando o que todos lhe reconhecem e agradecem (Soares evitou que Portugal passasse de uma ditadura para outra), não tenho, portanto, razões para o defender, nem ele precisa. Mas parece-me um exagero (para não dizer maldade) dizer-se que Mário Soares foi machista quando zurziu em Manuela Ferreira Leite a propósito da entrevista que Manuela concedeu à RTP. Dizer que a líder do PSD foi «de uma banalidade que (...) roçou o patético», ou que falou de Sócrates com «um olhar de mazinha ao canto do olho», são comentários machistas? Não vi a entrevista de modo a que possa ajuizar o que lá se passou, mas li, e acabo de reler, o texto que Mário Soares publicou no DN que originou tal leitura, e não vejo lá nada que possa designar-se machismo. Certamente que os argumentos de Soares contra Manuela são facilmente rebatíveis, mas atacá-lo por uma razão que não se vislumbra é dar-lhe a razão que talvez não tenha.
O FUTURO DO LIVRO. Percebo o receio sobre o futuro do livro em papel, mas começo a cansar-me dos argumentos contra os meios electrónicos, alegadamente porque os meios electrónicos ameaçam a existência do livro em papel. (O restante pode ser lido na minha página pessoal.)
BOAS NOTÍCIAS. O Pedro Mexia regressou à blogosfera com a Lei Seca.

31 de agosto de 2009

28 de agosto de 2009

VERDADES INCONVENIENTES. Tortura? Somos, todos, contra. Em circunstância alguma se deve aceitar a tortura, gostamos de dizer, mesmo em casos em que ela possa evitar males maiores. Da Esquerda à Direita, passando pelo meio e pelos extremos, não há, sobre a matéria, o mais leve «mas». Isto, claro, em teoria. Na prática, se percebermos que a tortura pode evitar que o mundo nos caia em cima, somos mais realistas, e se preciso for fazemos de conta que nunca ouvimos falar dela. Escrevi que Cheney tinha razão quando disse que se devia divulgar tudo quando se divulgou a tortura da secreta americana, e o tudo incluía o que a tortura terá evitado. Escrevi, e mantenho. Não por defender a tortura ou que os fins justificam os meios, embora, por vezes, justifiquem, por mais que me custe admiti-lo. É que eu estou convencido de que o pior que se pode fazer é divulgar o que convém, e esconder o que não convém. Os factos são infinitamente mais importantes que a opinião que deles se tenha, e só eles permitem que cada um julgue por si. Esconder parte da verdade apenas serve para aumentar a simpatia por essa parte que se esconde.

27 de agosto de 2009

SUSPEITAS CONFIRMAM-SE. Cunha Rodrigues considera que «o cidadão começa a duvidar de que seja possível confiar numa Justiça que parece desfazer, de noite, o trabalho que produz de dia», que os tribunais se converteram «em causa de ruído e de perplexidade», e que «a lentidão da Justiça interessa normalmente a uma das partes». Cunha Rodrigues, recorde-se, foi procurador-geral da República durante 16 anos. Sabe, portanto, do que fala. E nada melhor do que alguém que sabe do que fala para credibilizar o que se diz por aí, que os menos informados tomarão por demagogia.

24 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (5)

Einstein finishes a lecture at the university in Prague (…) and is getting ready to leave the hall. “Herr Professor sir, take your umbrella, it's raining out!” Einstein gazes thoughtfully at his umbrella where it stands in a corner of the room, and answers the student: “You know, my good friend, I often forget my umbrella, so I have two of them. One is at the house, the other I keep at the university. Of course I could take it now since, as you say quite correctly, it is raining. But then I would end up with two umbrellas at the house and none here.” And with these words he goes out into the rain.

Milan Kundera, The Curtain

21 de agosto de 2009

SRA. MINISTRA DA SAÚDE. Li que os bombeiros da Régua se desinfectavam com vinho do Porto aquando da «pneumónica» sempre que tinham que socorrer algum doente infectado com a «gripe espanhola», e que nenhum dos «soldados da paz» foi vítima de tal coisa. «O primeiro gole seria para bochechar e deitar fora e o restante conteúdo do cálice (bem grande, por sinal) era para ingerir», recorda um bombeiro da época. Não sei onde acaba a verdade e começa a lenda, muito menos se o vinho do Porto produziu o efeito que lhe atribuem. O que sei é que já reforcei a minha dose diária após o jantar. Não só para me prevenir contra a Gripe A, mas também para evitar que ela me impeça de o beber.
OS MENOS MAUS. António Preto é «uma ferida em aberto» nas listas do PSD, escreveu Pacheco Pereira no blogue oficioso do PSD. Escreveu mais: que não concordou com algumas decisões, que houve «erros graves», e que teve de engolir alguns sapos. Tudo isto porque, segundo ele, é preciso vencer Sócrates e companhia, e para isso vale tudo, incluindo engolir sapos, cometer «erros graves», e o mais que for preciso. Resumindo o «raciocínio» de Pacheco Pereira, não é preciso ser melhor do que eles. O que importa é vencê-los, custe o que custar. Nada que um eleitor descomprometido e mediamente informado não esteja farto de saber, valha a verdade. O problema é se os eleitores que costumam votar nos menos maus se fartam deles e começam a votar nos piores.
AO CUIDADO DO PROVEDOR. O DN entrevistou Ana Gomes na condição de candidata à Câmara de Sintra mas «esqueceu-se» de lhe perguntar o que achava da directiva do PS que proíbe as duplas candidaturas, e se considerava que a medida a poderá prejudicar. Ou será que as perguntas não eram oportunas?

20 de agosto de 2009

BLOGUES. Nada contra os blogues que se fazem e desfazem para apoiar uma causa ou um partido político, ou para zurzir numa causa ou num partido político. Afinal, a blogosfera distingue-se por ser um espaço de liberdade, e que assim continue a ser. Mas devo dizer que estou farto dos saltimbancos que ora escrevem aqui, ora escrevem ali, ora escrevem acolá. Aliás, não vislumbro que mais-valia isso traz, e a quem. Salvo honrosas excepções, é de puro alinhamento que se trata, uns por razões evidentes, outros nem tanto. Pior: por regra, as contribuições apenas reforçam a componente politiqueira, e politiquice já temos de sobra.

18 de agosto de 2009

SOARES MENTE. Mário Soares não sabe do que fala quando fala do seguro de saúde nos EUA. Não é verdade que «os mais pobres não chegam sequer a entrar nos hospitais» por não terem seguro, como diz no DN. Nenhum hospital pode negar os cuidados de saúde a quem quer que seja, tenha seguro, ou não. A diferença de tratamento entre quem tem e não tem seguro é que varia, e muito, pelas razões que se adivinham. Mas isso é outra conversa.
LI E GOSTEI (4)

A Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante. Desde os primeiros tempos da colônia, as mais imponentes expedições e solenes visitas pastorais rumavam de preferência às suas plagas desconhecidas. Para lá os mais veneráveis bispos, os mais garbosos capitães-generais, os mais lúcidos cientistas. E do amanho do solo que se tentou afeiçoar a exóticas especiarias, à cultura do aborígene que se procurou erguer aos mais altos destinos, a Metrópole longínqua demasiara-se em desvelos à terra que sobre todas lhe compensaria o perdimento da Índia portentosa.
Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os seus astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários, e armavam rapidamente no altiplano das “barreiras” as tendas suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes; aformoseavam a terra.
Prosseguiam a outros pontos, ou voltavam — e as malocas, num momento transfiguradas, decaíam de chofre, volvendo à bruteza original.

Euclides da Cunha, À Margem da História

14 de agosto de 2009

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA. «Tolerar (e desculpar) um cavalheiro [Pedro Passos Coelho] que pública e constantemente se ofereceu como substituto dela [Manuela Ferreira Leite] era com certeza a melhor maneira de promover a crónica indisciplina do PSD», escreveu Vasco Pulido Valente no Público de hoje. Quer isto dizer que os críticos (e potenciais adversários) da actual liderança social-democrata não devem ser tolerados (ou desculpados)? Que a crítica a quem manda é um acto de indisciplina? Como não me parece haver margem para outras leituras, quer dizer isso mesmo. Assim sendo, o mínimo que posso dizer é que foi uma surpresa. Uma desagradável surpresa, para ser mais preciso.

13 de agosto de 2009

UM ABSURDO. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social, a que alguns já chamam a ASAE dos media, tornou-se um caso em que todos a atacam, e ninguém a defende. De facto, a directiva agora imposta (a ERC deliberou que os media devem, em período de eleições, suspender os opinion makers que são candidatos ou conceder espaços de opinião idênticos a todas as candidaturas) não tem pés, nem cabeça. É, quando muito, uma medida bem-intencionada, mas impossível de concretizar caso se queira pôr em prática — e convenhamos que de uma entidade reguladora dos media não se espera que se fique pelas boas intenções. Como escreveu Nuno Pacheco, a directiva implicaria a cedência de doze páginas do Público caso o jornal onde trabalha acedesse às pretensões da ERC, um perfeito absurdo. Estarão lembrados do posicionamento que os principais jornais norte-americanos tiveram face à candidatura de George W. Bush ao segundo mandato, mas eu recordo na mesma: os principais jornais (The New York Times, Washington Post e Boston Globe, entre outros) apoiaram a candidatura de John Kerry (adversário de Bush), e nem por isso evitaram que Bush fosse reeleito. Este simples facto (os media nem sempre têm o poder que lhes atribuem, nomeadamente poder eleitoral) devia servir para a ERC ponderar melhor as decisões que toma, e os conselhos que dá.
LI E GOSTEI (3)

Uma manhã de Inverno, passeava com Arrieta pelo Jardin du Luxembourg quando numa alameda secundária vislumbrámos um pássaro negro e solitário, quase imóvel, a ler o jornal. Era Samuel Beckett. Vestido rigorosamente de preto dos pés à cabeça, estava ali numa cadeira, muito quieto, parecia desesperado, metia medo. E até quase parecia mentira que fosse ele, que fosse Beckett. Nunca tinha previsto que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas sim alguém que vivia em Paris, mas imaginara-o sempre como uma escura presença que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que encontramos a ler desesperado um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando mudava de página, e fazia-o com uma espécie de nojo tão grande e uma energia tão intensa, que se o Jardin du Luxembourg inteiro tivesse tremido não nos teria surpreendido nada. Quando chegou à última página, ficou entre absorto e ausente. Metia mais medo do que antes. «É o único que teve a coragem de mostrar que o nosso desespero é tão grande, que nem palavras temos para o exprimir», disse Arrieta.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

11 de agosto de 2009

TÃO MAUS QUE NÓS SOMOS. Afinal, não é só Portugal que tem uma justiça incompetente. Os ingleses, pelos vistos, são tão maus como nós. Se puséssemos os olhos no que fazem os ingleses, diz Carlos Anjos, talvez não falássemos tão mal da justiça que temos. Como não é assim, como falar mal do que é nosso nos está na massa do sangue, passamos a vida a dizer mal da polícia, dos tribunais, da justiça. Infelizmente não ocorreu ao investigador da PJ um pequeno detalhe: os problemas dos ingleses são dos ingleses, e só a eles afectam. Já os nossos são nossos, e afectam-nos a nós. Nivelar por baixo, como fez Carlos Anjos, não explica nada, não adianta um milímetro, não muda coisa nenhuma. Contentarmo-nos em ser tão maus como os outros é meio caminho andado para sermos pior do que os outros.
«A inconcebível inclusão de António Preto demonstra que Manuela Ferreira Leite gosta mais dos seus amigos do que de transparência na vida pública.»
LIVROS. Isto é uma boa ideia.

10 de agosto de 2009

31 da ARMADA. A avaliar pelos comentários que vi por aí, o episódio protagonizado pelo 31 da Armada foi uma tragédia, no mínimo uma brincadeira de mau gosto. Pois eu, não sendo monárquico, devo dizer que achei graça àquilo, apesar de admitir que estejamos perante um caso de desrespeito aos símbolos nacionais punível por lei.
Os comediantes

7 de agosto de 2009

SARAMAGO. «Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica», escreveu, há dias, José Saramago. Quer isto dizer que a emigração constitui, para ele, uma nódoa no currículo de uma pessoa de bem? A avaliar por aquilo que disse, não há dúvida. De facto, o que disse Saramago sobre a emigração não se presta a duas leituras, pelo que o ilustre quis mesmo dizer o que disse. Quem me lê sabe que não morro de amores por Saramago. Nem pelo personagem, nem pela obra. Mas não fiquei inteiramente convencido de que ele pensa, realmente, o que disse. O post de Saramago resultou de não ter pensado no que disse, sobretudo no alcance do que disse, e nem me parece caso para que se possa dizer que quem não pensa o que diz arrisca dizer o que pensa. Sinceramente, sem a mais leve ironia. Mas ficar-lhe-ia bem desfazer o equívoco.
LI E GOSTEI (2)

— Agora que acabou a Censura, como irão escrever os escritores?
— À parte o facto, altamente provável, de aparecerem escritores que a si próprios se ignoravam, os veteranos escreverão como dantes: mal, os que escreviam mal; bem, os que o faziam bem.

— Então, quanto a si, essa abolição poucas vantagens trouxe...

— Trouxe. Daqui por diante não haverá mais desculpas.


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou

5 de agosto de 2009

A PURGA. Conheço mal Pedro Passos Coelho, mas a impressão que tenho dele não é das melhores. (Falo no plano político, que no plano pessoal, além de meu conterrâneo, nada mais sei dele, nem quero saber.) Parece-me, contudo, que Passos Coelho é um sério candidato à liderança do PSD, goste-se ou não do sujeito, seja bom, ou mau, para o PSD. Afastá-lo das listas de deputados, como acaba de fazer Manuela Ferreira Leite, parece-me, portanto, um erro. Diria mais: um erro monumental. O caso faz, obviamente, lembrar um certo partido político, onde essa prática é muito popular. Aliás, a exclusão de Miguel Relvas, braço-direito de Passos Coelho (Relvas foi indicado pela distrital de Santarém como cabeça de lista por esse mesmo distrito mas Manuela rejeitou), confirma que estamos diante uma purga, mas nem era preciso. De facto, como entender que um ex-candidato à liderança do PSD que conquistou 30% dos votos não seja candidato a deputado quando é essa a sua vontade e a vontade da distrital a que pertence? Mas há mais: há candidatos que são arguidos em processos judiciais, o que torna ainda mais difícil entender que os escolhidos sejam os que «reúnem as melhores condições para o combate», como diz Aguiar Branco. A exclusão de Passos Coelho e seus apoiantes não foi, como diz a direcção social-democrata, uma decisão «simplesmente política». Foi, antes, uma decisão de pequena política, um mero ajuste de contas.

VEJAM, OUÇAM. A propósito do novo programa de Rodrigues dos Santos (Conversa de Escritores), que hoje estreou na RTPN, apetece-me recomendar a entrevista (link na imagem) que Alejo Carpentier concedeu ao programa A Fondo, da TVE . Verão como a hora e meia que ela dura se esgota num instante. Recomendo, já agora, as entrevistas de Jorge Luis Borges (em 1976 e 1980), Juan Rulfo, Cabrera Infante e Julio Cortázar, também na televisão espanhola.
PUTAS E SUBMISSAS. Desconheço a seriedade do movimento «Nem Putas nem Submissas», mas simpatizo com o nome. (Ler o resto no sítio do costume.)

4 de agosto de 2009

LI E GOSTEI (1)

Em Janeiro do ano em que se iria matar, Hemingway, um homem velho e frágil, com o cabelo todo branco, pálido, com os membros enfraquecidos mas aparentemente um pouco melhor das suas últimas crises, foi autorizado pelos médicos a regressar a Ketchum. O seu amigo Gary Cooper acabava de dizer que um homem feliz é aquele que durante o dia, devido ao seu trabalho, e à noite, devido ao seu cansaço, não tem tempo para pensar nas suas coisas. No entanto, Hemingway tinha esse tempo. Foi-lhe pedido que contribuísse com uma frase para um livro que ia ser entregue ao recém-investido presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy. Trabalhou todo o dia e não conseguiu a frase. «Já não sai», balbuciou ao seu amigo Georges Saviers. E chorou. Nunca mais voltou a escrever. Quando chegou a Primavera, dizem que nem a viu e que nem se apercebeu de que tinha chegado. Vestido sempre de preto, cabisbaixo, vivia num permanente estado de desespero. Alguns heróis dos seus livros, com a sua estóica resistência à adversidade, com a sua extraordinária elegância no sofrimento, iam passar à história e ficar, pelo menos durante algum tempo, na memória da humanidade. Mas ele estava desesperado e a sua estóica resistência soçobrava. E não podia fazer muito. Quando se está mergulhado na adversidade, já é tarde para se ser cauto. Mudou da armaria para um armário uma velha espingarda de caça e dois cartuchos. A mulher descobriu e avisou o médico e o médico pediu a Hemingway que devolvesse a espingarda à armaria. Tiveram de voltar a interná-lo, mas antes de entrar no carro que o conduziria ao avião que o ia levar ao hospital precipitou-se para a armaria e pôs a arma carregada na garganta. «Shanghaied», disse. Foi apenas uma antecipação do que acabaria por fazer em Julho.

Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba

3 de agosto de 2009

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. Muito comovente a prosa que Moita Flores deu à estampa no Correio da Manhã a propósito do «caso» Fátima Felgueiras, especialmente a parte onde ele diz que os media se fartaram de condenar a autarca por crimes que o tribunal agora diz não ter cometido. Comovente porque o cavalheiro não aplicou o mesmo princípio (a presunção da inocência) aos pais de Madeleine McCann, sobre os quais se fartou de insinuar, no mesmo jornal, que eram mais que suspeitos de terem matado a própria filha, e com o agravante de não apresentar um único facto (repito: um único facto) que fundamentasse as suspeitas. O mais interessante é que Moita Flores foi agente da PJ, pelo que seria de esperar um pouco mais de comedimento. Isto, claro, partindo do princípio que o comedimento é um valor caro à PJ, embora raramente se note.