25 de outubro de 2011

TARDE E A MÁS HORAS. Obviamente que a renúncia aos subsídios de alojamento por parte do ministro da Administração Interna e do secretário de Estado das Comunidades pecou por tardia, e apenas se concretizou devido à pressão dos media. Será preciso lembrar que num país a sério o expediente destes nossos governantes os levaria à demissão? Será preciso dizer que o expediente, apesar de legal, é eticamente insustentável? Sim, foi preciso dizer tudo isto e muito mais para que os cavalheiros fizessem o mínimo dos mínimos: prescindir de mordomias que o espírito da lei não consagra — e apesar de grande parte dos portugueses estar a ser espoliado, pelo Governo a que pertencem, dos seus rendimentos mais básicos. Sobra o exemplo, o péssimo exemplo, logo vindo de quem se esperariam os melhores exemplos e que fossem os primeiros a praticá-los.

20 de outubro de 2011

BRINCAR COM O FOGO. Como alguém já disse, se o Presidente da República considera que os cortes de subsídios de férias e Natal na administração pública previstos na proposta de lei do Orçamento para o próximo ano representam «a violação de um princípio básico de equidade fiscal», espera-se que aja em conformidade. E agir em conformidade significará fazer uma de duas coisas: obrigar o Governo a retirar a medida do Orçamento, ou vetar um Orçamento que contemple tais medidas. Ao que parece, nada disto vai suceder. Sobra, portanto, uma pergunta: o que pretende Cavaco? Não sou adepto da paz podre, mesmo em períodos em que a paz podre possa ter alguma utilidade. Mas deitar gasolina na fogueira é a última coisa que se espera de um Presidente da República.
Não esquecer

18 de outubro de 2011

A GRANDE MÚSICA (9)

ESTOU A LER (1). «Quem na Holanda tem telhados de alguma importância há-de lembrar-se dum sujeito calvo, baixote, com bigode, que carregava uma pasta impressionante, na qual em letras douradas estava impresso The Chattanooga Petroleum Company. O ouro das letras e aquela palavrinha mágica, Petroleum, impressionavam. Eu próprio só mais tarde descobriria que a companhia tinha de petrolífero apenas o facto de utilizar o alcatrão como matéria prima para os seus produtos.» Rentes de Carvalho, Com os Holandeses

14 de outubro de 2011

MISÉRIA CRIATIVA. Tal como sucedeu com Ninguém Escreve ao Coronel, que escreveu em Paris enquanto vivia na penúria, García Márquez passou apertos financeiros durante grande parte dos catorze meses que demorou a escrever Cem Anos de Solidão, apertos que o levaram a vender alguns bens (automóvel, rádio, televisor, secador de cabelo, aquecedor) e a acumular dívidas resultantes de produtos de primeira necessidade (mercearia, talho, etc.). Segundo García Márquez: el viaje a la semilla, por muitos considerada a mais completa biografia do escritor, Gabo terá enviado ao editor de Cem Anos de Solidão apenas metade do manuscrito por não ter dinheiro bastante para mandar a totalidade, e posteriormente ter-se-á visto obrigado a vender mais uns tarecos para suportar os custos de envio do restante. Sim, antigamente os artistas passavam toda a espécie de privações — e produziam obras notáveis. Hoje há bolsas de criação literária, lugares apropriados para escrever — e o resultado são obras que ao fim de dois anos já ninguém se lembra. Cada vez me convenço mais de que a fartura é inimiga das artes em geral e da literatura em particular, mas talvez seja um sintoma de que estou e ficar velho.

13 de outubro de 2011

ROBERT WALSER NÃO MERECIA ISTO. Por não dominar o alemão, comecei a ler Os Irmãos Tanner em tradução inglesa, e como prefiro em português quando é tradução, comprei a edição da Relógio D’Água mal tive oportunidade. Como demonstrarei a seguir, em má hora, que a tradução é tão má que só vendo. Além das redundâncias («bastante estupefacto», «deliciava bastante», «bastante irrelevante», «os pensamentos podem pensar», etc.), detectei as seguintes misérias só no primeiro capítulo (onze páginas):

«Não era, porém, exactamente esse o caso, pelo menos até agora, na verdade, o contrário é que se verificava, e a tal ponto que o Dr. Klaus começou a recriminar-se vivamente.» (Página 9)

«Eis um novo incumprimento, e apenas provava de forma exemplar que mesmo as pessoas mais escrupulosas nunca conseguem cumprir todos os seus deveres, mais ainda, que são sobretudo elas quem muitas vezes ignoram os seus deveres mais importantes para só mais tarde, porventura tarde de mais, se lembrarem de novo deles.» (Página 10)


«Ainda vais a tempo de te tornares um excelente e brilhante vencedor, e nem imaginas até que ponto um vendedor tem a oportunidade de transformar a sua vida numa vida fundamentalmente cheia de vida.» (Página 11)

«Talvez devesse ter intervindo mais cedo e ajudado mais com actos e menos com palavras de incentivo, mas não sei, orgulhoso como és, com um orgulho que se ajuda sempre e apenas a si próprio, se calhar mais depressa te ofendia, em vez de te convencer.» (Página 11)

«Talvez sejas mais rico do que eu, talvez tenhas mais esperanças e mais razão em acalentá-las, tens planos e perspectivas que eu nem sequer posso imaginar, na verdade já não te conheço bem, e como seria isso possível depois de tantos anos de separação?» (Página 12)

«Talvez ainda venha a ver todos os meus irmãos felizes, em todo o caso, gostaria de te ver alegre.» (Página 12)

«O senhor desiludiu-me, não ponha essa cara de espanto, não há nada a fazer, deixo hoje a sua livraria e peço-lhe que me pague o que me deve.» (Página 12)

«Do escritório ao lado, cinco cabeças lado a lado de empregados e ajudantes observavam e escutavam a cena.» (Página 13)

«Depois procuramos um lugarzinho fresco na orla da floresta, onde os olhos, enquanto estamos assim deitados, têm diante de si uma imagem fabulosa, onde os sentidos repousam naturalmente e onde os pensamentos podem pensar a seu bel-prazer.» (Página 15)

«Conhecia gente de trato agradável, escrevia com ligeireza e sem cansaço o dia inteiro, fazia contas, anotava o que lhe ditavam, com grande destreza aliás, comportava-se lindamente para sua própria surpresa, o que levou a que o seu superior se interessasse vivamente por ele, bebia todas as tardes a sua chávena de chá e, enquanto escrevia, olhava para a janela clara e arejada e sonhava.» (Página 15)

Constato, alarmado, que comprei mais dois títulos de Robert Walser (O Ajudante e Jakob von Gunten), também da mesma editora, e corro a ver quem traduziu. Confirmo o pior cenário: o tradutor foi o mesmo. Lidos os primeiros parágrafos, lá está a marca inconfundível:

«Esperou ainda um momento, como se reflectisse sobre alguma coisa, sem dúvida bastante irrelevante, depois premiu o botão da campainha eléctrica e chegou alguém para lhe abrir a porta, a criada ao que tudo indicava.» (O Ajudante, logo no primeiro parágrafo)

«Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas.» (Jakob von Gunten, logo a abrir)

Parecem-me, contudo, um pouco melhor traduzidos, ou melhor revistos, que o revisor foi outro e eu não tenho a certeza se o problema foi da tradução ou da revisão. Numa coisa, porém, tenho a certeza: vou retomar a versão inglesa d’Os Irmãos Tanner, e não lerei os restantes na tradução portuguesa. Além de me considerar lesado em cinquenta e tal euros, lamento, sobretudo, pelo escritor, que obviamente não merecia tanta mediocridade.

10 de outubro de 2011

OS ABRANTES. Nunca prestei grande atenção à polémica dos Abrantes, muito menos aos Abrantes propriamente ditos. Mas não deixa de ser engraçado constatar-se que os mais aguerridos activistas anti-Abrantes estão hoje como os Abrantes, senão pior. Como costumava dizer um deles, que por via de um lugarzinho entretanto arranjado passou do azedume à fidelidade canina, estão bem uns para os outros.
TOMEM NOTA. Os políticos profissionais «não têm actividade profissional que não seja a política». Sendo a política, e só a política, a sua actividade profissional, os políticos profissionais «precisam desesperadamente de não ser despedidos». E para não serem despedidos «precisam que o patrão, o aparelho partidário, ou uma personalidade que os apadrinha, nunca os deixe cair». Por isso se tornam especialistas a «manobrar o sistema de apoios e alianças necessários» para «irem a deputados», «vereadores ou assessores de qualquer coisa», e «têm de estar sempre de bem com os que lhes dão os lugares». Como é evidente, não podem, por isso, «dar-se ao luxo de terem opiniões próprias», nem terem a «liberdade fundamental» que é dizer «não». Eis, em resumo, o que disse Pacheco Pereira na última Sábado, e em que vale a pena meditar.

16 de setembro de 2011

FÉRIAS. Vou de férias nas próximas semanas, durante as quais tenciono abastecer-me de livros e de sol, de figos de uma certa figueira e de uvas de uma certa vinha, da velha e boa gastronomia portuguesa e de um vinho do Porto que eu cá sei — e, de caminho, engordar mais uns quilitos. Se tudo correr conforme espero, regresso no dia 10 do mês que vem.

15 de setembro de 2011

BAPTISTA-BASTOS. Apesar de quase sempre discordar dos seus pontos de vista, tenho-o como um dos melhores praticantes da língua portuguesa a escrever nos jornais. Espanta-me, por isso, que se tenha referido a Maria de Belém Roseira como presidenta do PS, tanto mais que o ilustre jornalista tem por hábito recorrer, e bem, ao «português antigo» dos clássicos portugueses. Como já foi dito e demonstrado, presidenta é um disparate. Um disparate porventura bem-intencionado, mas um disparate.
ESCUTAS. Tirando o Expresso e o Público, o primeiro por razões mais empresarias que jornalísticas e o segundo porque envolveu um ex-jornalista da casa, ninguém quer realmente saber das escutas das secretas ao jornalista Nuno Simas. Não tenho dados que o comprovem, mas ainda assim arrisco um diagnóstico: os portugueses imaginam que as secretas fazem tudo o que se diz e o que não se diz, e como assim é aceitam a coisa como uma fatalidade. Como imaginam, suponho, que as secretas não cumprem cabalmente a missão que lhes está confiada, como fatalmente acontece com a generalidade dos órgãos do Estado.

14 de setembro de 2011

ESQUERDA vs DIREITA. Tal como a esquerda, que vê o Estado como o paizinho de toda a gente, a direita, que na oposição tanto se bate pelo corte nas despesas, uma vez no Governo faz o mesmo que a esquerda. Como se vê pelo actual Governo (mas nem era preciso), se for preciso mais dinheiro, aumenta-se a receita. Talvez pior: a avaliar pelas nomeações já efectuadas, segundo alguns nem sempre transparentes, não me surpreenderia que as despesas do Estado já tenham aumentado, as tais despesas que o actual primeiro-ministro prometeu reduzir caso o PSD fosse Governo. Seria bom, portanto, que da próxima vez que ouvirmos os políticos clamar que é preciso cortar a despesa exigir-lhes que nos digam, em concreto, onde cortar. Em fundações? Em organismos públicos que ninguém sabe para que servem? Muito bem. Digam-nos que fundações, que organismos, e quanto poupará o Estado livrando-se deles. Assim ficaremos a saber de que falam os políticos quando falam de corte das despesas, e ser-lhes-á mais difícil não pôr em prática o que prometem.

13 de setembro de 2011

PARIS É UMA FESTA. «Cuando se comió el último franco del pasaje de regreso, [García Márquez] recogió botellas, revistas y periódicos viejos y los cambió por algunos francos. Por fortuna, nunca le faltaron una botella de vino y una baguette sobre la mesa y siempre tendría a su disposición la cocina de algún amigo para preparar unos spaghetti de emergencia. Había un recurso que no fallaba, y es que él y sus compatriotas latinoamericanos en la misma situación habian descubierto que "si uno compraba un bistec, el carnicero regalaba un hueso y se hacía un caldo. A veces uno pedía prestado el hueso para hacer su caldo y lo devolvía".» Dasso Saldívar, El viaje a la semilla

12 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO. Passei o aniversário do 11 de Setembro a remediar mazelas causadas pela dona Irene, o furacão que me criou mais problemas que a tragédia que domingo se assinalou. Não tive tempo, por isso, para as dezenas de horas de televisão, muito menos para os quilómetros de prosa que por aí se publicaram. Hoje, uma leitura por alto da imprensa atrasada confirmou o que eu suspeitava: não perdi grande coisa. O que vi foram ditos de ocasião, dezenas de lugares-comuns, banalidades. Para não variar, o jornalismo português voltou a parir um rato.

9 de setembro de 2011

GARCÍA MÁRQUEZ. Feita uma rápida pesquisa na internet, descubro que El viaje a la semilla, do colombiano Dasso Saldívar, não tem edição em português. Não sei se é a melhor biografia de García Márquez, como alguns garantem, mas é um livro magnífico. Estão à espera de quê as editoras portuguesas?

7 de setembro de 2011

COM AMIGOS DESTES. Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Morais Sarmento, Mira Amaral, Vasco Graça Moura, Pacheco Pereira, Lobo Xavier, Pires de Lima. O que tem esta gente em comum? São, como é óbvio, ilustres militantes do PSD e do CDS que já manifestaram descontentamento com a política do actual Governo. Bem sei que algumas críticas são meros ajustes de contas, mas convenhamos que, mesmo assim, é caso para dizer: com aliados destes, nem são precisos adversários. Aliás, o maior partido da oposição tem-se pautado por uma falta de comparência que mete dó.

5 de setembro de 2011

COMUNICAÇÃO, DIZEM ELES. Há um problema de comunicação, dizem os partidos que sustentam o Governo. Segundo eles, o país não fala noutra coisa que não seja aumento de impostos (vão três em dois meses), e de cortes na despesa não se ouve palavra. Como ninguém acredita que o Governo fez cortes na despesa e se esqueceu de os anunciar, o que quererão centristas e sociais-democratas realmente dizer quando dizem haver um problema de comunicação? Quererão dizer que é preciso mais (ou melhor) cosmética para esconder a realidade?

1 de setembro de 2011

DÉJÀ VU. Tirando os fanáticos das teorias da conspiração, quem não sabe que os autores do 11 de Setembro foram extremistas islâmicos, que odeiam a liberdade e a América? Não se percebe, portanto, a indignação de algumas organizações islâmicas face à publicação de um livro para crianças sobre o 11 de Setembro, onde se diz, preto no branco, quem fez o que todos sabem. Quando se esperaria que o Islão dito moderado se insurgisse contra o fundamentalismo caseiro, insurge-se contra quem se limita a revelar os factos. Terão razão os seguidores de Maomé quando se dizem discriminados e olhados com desconfiança, mas a verdade é que nada fazem para que sejam tratados doutra maneira. Pelo contrário. As acções (e omissões) de que são protagonistas provocam precisamente o inverso do que pretendem, e não me parece que se possa dizer que se devam a inépcia de quem as promove — muito menos a má-fé de quem se destina.

30 de agosto de 2011

UM POUCO DE CINISMO. Como resido no estrangeiro, conheço mal o trabalho da jornalista Cândida Pinto. Sei, porém, que é apreciado, ao que parece pelas melhores razões, e isso é uma boa notícia. Mas haverá coroa de glória maior para um certo jornalismo televisivo que fazer um directo durante uma troca de tiros? Sim, levar um tiro ainda seria melhor, mas isso talvez fosse pedir demasiado. Desculpem o cinismo, mas eu não simpatizo com o jornalismo que arrisca a pele para dizer o que já se sabe, que não acrescenta um milímetro ao que já se conhece. Simplificando, não simpatizo com o jornalismo exibicionista. Estar lá não basta. É preciso que o estar lá acrescente alguma coisa à notícia, e a circunstância de estar lá não se torne o centro da notícia. Não me refiro especialmente à reportagem de Cândida Pinto, e até admito que o caso possa não ser um bom exemplo. Falo em geral, e geralmente é assim.