21 de fevereiro de 2012

A BOA MOEDA E A MÁ MOEDA (1). Não sei se a atitude de Passos Coelho quando se dirigiu aos manifestantes que o vaiaram em Gouveia foi um acto de modéstia da sua parte ou um gesto devidamente ponderado, mas tiro-lhe o chapéu de qualquer maneira. Não porque o primeiro-ministro tenha feito mais que a sua obrigação, mas porque gestos assim, genuínos ou encenados, são cada vez mais raros, e na minha opinião cada vez mais necessários. Teve uma eficácia acrescida: disparou uma farpa tão oportuna como certeira sobre o Presidente da República, que dias antes vergonhosamente se furtou a uma visita a uma escola onde era aguardado por uma manifestação de descontentamento que nem sequer lhe era directamente destinada. Portugal precisa de um Presidente forte e umas botas? Não há dúvida que precisa. Mas a verdade é que os episódios pouco edificantes protagonizados por Cavaco nos últimos anos em nada contribuíram para que os portugueses o respeitem. Como em tempos se disse de outros governantes, resta, portanto, ajudá-lo a terminar o mandato com dignidade. Pelo rumo que as coisas estão a levar, não vai ser fácil.
A LAMÚRIA DO COSTUME. Como leitor, é sempre com tristeza que encaro o encerramento de uma livraria, qualquer livraria. Provavelmente a que mais tristeza me causou até hoje foi o encerramento da Strand da Fulton Street, que visitei pela primeira e última vez quando já se empacotavam os livros e já tinha dia marcado para encerrar. Leio agora que a Livraria Portugal fechou (ou está em vias disso) e sinto a mesmo tristeza, apesar de lá ter entrado apenas duas ou três vezes nos meus verdes anos. Mas se o encerramento de uma livraria me causa tristeza, também devo dizer que geralmente não me comovem as lamúrias que apontam as grandes cadeias livreiras como as causadoras dessas desgraças. Conheço pequenas e médias livrarias em Nova Iorque que estão de muitíssimo boa saúde financeira apesar das megalojas por todo o lado, geralmente da Barnes & Noble. Até alguns alfarrabistas, apesar de nos últimos anos muitos se terem mudado para os subúrbios por não aguentarem o preço das rendas. Sempre que vou à Strand (agora reduzida à loja da Broadway), à Book Culture, à Shakespeare, à Saint Marks, à McNally, à Rizzoli, à bookbook ou à Biography encontro-as cheias de gente. E porquê? Porque são livrarias de grande qualidade. Porque apostaram na diferença. Porque investiram em áreas específicas sem descurar o que de melhor se vai publicando. Porque geralmente fizeram as três coisas. Nada disto se viu nas livrarias que foram desaparecendo. Deviam, portanto, queixar-se de si próprias, e só de si próprias. Atribuir a desgraça própria ao sucesso alheio soa mal, e neste caso não é sério.

17 de fevereiro de 2012

FONTES ANÓNIMAS (1). Depois de ser alvo de um processo — ou ameaça de um processo — por divulgar uma notícia aparentemente falsa, a Agência Lusa resolveu emitir um comunicado onde se penitencia e explica por que tal sucedeu. Segundo ela, uma fonte anónima de «toda a confiança» terá dito ao autor da notícia que Domingos Paciência, então treinador do Sporting, terá mantido encontros com dirigentes do FC Porto, facto que não será verdadeiro. Disse mais: a elaboração da notícia «não respeitou as normas essenciais do Código Deontológico do Jornalista nem as regras do Livro de Estilo da Agência» previstas para estes casos, e caso venha a apurar que a fonte da notícia agiu de má-fé identificá-la-á. Ora, cometer um erro e assumi-lo, é o mínimo que se exige, mas neste caso parece-me pouco. Desde quando se dá uma notícia, ainda por cima uma notícia que iria causar brado, com base em fontes anónimas de que não se está absolutamente seguro? Depois, como saber — e demonstrar — que a tal fonte agiu de má-fé? Perdoar um erro que não tem perdão, ainda vá. Mas fazerem promessas impossíveis de concretizar, só mesmo para enganar o freguês.

15 de fevereiro de 2012

COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Haverá, no sistema penal português, inúmeros procedimentos difíceis de entender, mas este parece-me flagrante. Um suspeito de ter cometido determinado crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva caso um juiz considere perigoso mantê-lo em liberdade. Já um condenado por um tribunal a uma pena de prisão efectiva pode aguardar em liberdade a decisão de um tribunal superior caso o condenado decida para aí recorrer. Estão a ver a lógica da coisa? Eu confesso que não.

14 de fevereiro de 2012

AGUENTA QUE É SERVIÇO. Pergunto-lhe como vão as coisas por ter de falar sem nada que me ocorra, e o sujeito desata a crescer, a crescer, a encher os pulmões — e a seguir despeja-me em cima um arrazoado que logo desisti de ouvir para lhe observar os danos colaterais que um olho matreiro no mais leve movimento das catraias ao balcão não conseguia esconder. Citou Nietzsche mal e a despropósito, embrulhou-se numa teoria do bem-estar que dizia praticar mas claramente não praticava, meteu os pés pelas mãos vezes sem conta, e concluiu o «raciocínio» a barafustar contra «os filhos da puta que nos governam». Terminou o monólogo a segredar-me o que fazia àquela pequena se ela deixasse, e a pequena a perceber que o sujeito falava dela e não devia ser coisa boa. Às vezes, quando o acaso nos junta, descreve-me as proezas sexuais que diz ter praticado ainda ontem mas obviamente não praticou, nem sequer o «papai e mamãe», como diriam as brasileiras que tanto lhe incendeiam a libido. Tudo dito com uma convicção tal que chega a parecer-me que acredita nas suas próprias mentiras, mesmo depois de ajuntar um ou outro detalhe à história que só lha enfraquece. Mas ninguém é perfeito, como ele costuma dizer, embora a modéstia não seja o seu forte.

9 de fevereiro de 2012

ESTRELAS LITERÁRIAS. Considerando que apenas uma ínfima parte dos livros que diariamente se publicam resistirão ao tempo, esse grande juiz, como entender a quantidade de estrelas que os críticos literários atribuem às novidades que vão saindo? E os autores portugueses contemporâneos, que pela quantidade de estrelas que lhe são concedidas a cada novo livro só podem ser obras-primas? Será que alguém se lembrará desses livros daqui a dois ou três anos? Com certeza que há livros e escritores injustamente esquecidos (estou a lembrar-me de Vergílio Ferreira, mas há mais), mas quer-me parecer que o esquecimento não durará para sempre. Mais tarde ou mais cedo regressarão ao convívio com os leitores, que a passagem do tempo faz esquecer mas não apaga inteiramente. Já as «obras-primas» diariamente apregoadas como tal estão, de um modo geral, condenadas ao esquecimento eterno. Bem sei que os críticos literários têm contas a pagar no final do mês, mas fazia-lhes bem meditar nisto.
BOAS NOTÍCIAS. Jornal de Angola rejeitou Acordo Ortográfico.

7 de fevereiro de 2012

CÁ VAMOS NA FORMA DO COSTUME. O sistema de Justiça absolveu Valentim Loureiro no caso da quinta do Ambrósio. Mesmo com provas evidentes, os tribunais não conseguem, mais uma vez, apanhar os poderosos.
NO CENTENÁRIO DE DICKENS. Suspeito que já aqui falei do assunto (não me apetece consultar os arquivos), mas não me canso de recomendar esta passagem de Dickens em que ele descreve a sua chegada a Veneza:

I was awakened after some time (as I thought) by the stopping of the coach. It was now quite night, and we were at the waterside. There lay here, a black boat, with a little house or cabin in it of the same mournful colour. When I had taken my seat in this, the boat was paddled, by two men, towards a great light, lying in the distance on the sea.

Ever and again, there was a dismal sigh of wind. It ruffled the water, and rocked the boat, and sent the dark clouds flying before the stars. I could not but think how strange it was, to be floating away at that hour: leaving the land behind, and going on, towards this light upon the sea. It soon began to burn brighter; and from being one light became a cluster of tapers, twinkling and shining out of the water, as the boat approached towards them by a dreamy kind of track, marked out upon the sea by posts and piles.

We had floated on, five miles or so, over the dark water, when I heard it rippling in my dream, against some obstruction near at hand. Looking out attentively, I saw, through the gloom, a something black and massive - like a shore, but lying close and flat upon the water, like a raft - which we were gliding past. The chief of the two rowers said it was a burial-place.

Full of the interest and wonder which a cemetery lying out there, in the lonely sea, inspired, I turned to gaze upon it as it should recede in our path, when it was quickly shut out from my view. Before I knew by what, or how, I found that we were gliding up a street - a phantom street; the houses rising on both sides, from the water, and the black boat gliding on beneath their windows. Lights were shining from some of these casements, plumbing the depth of the black stream with their reflected rays, but all was profoundly silent.

So we advanced into this ghostly city, continuing to hold our course through narrow streets and lanes, all filled and flowing with water. Some of the corners where our way branched off, were so acute and narrow, that it seemed impossible for the long slender boat to turn them; but the rowers, with a low melodious cry of warning, sent it skimming on without a pause. Sometimes, the rowers of another black boat like our own, echoed the cry, and slackening their speed (as I thought we did ours) would come flitting past us like a dark shadow. Other boats, of the same sombre hue, were lying moored, I thought, to painted pillars, near to dark mysterious doors that opened straight upon the water. Some of these were empty; in some, the rowers lay asleep; towards one, I saw some figures coming down a gloomy archway from the interior of a palace: gaily dressed, and attended by torch-bearers. It was but a glimpse I had of them; for a bridge, so low and close upon the boat that it seemed ready to fall down and crush us: one of the many bridges that perplexed the Dream: blotted them out, instantly. On we went, floating towards the heart of this strange place - with water all about us where never water was elsewhere - clusters of houses, churches, heaps of stately buildings growing out of it - and, everywhere, the same extraordinary silence. Presently, we shot across a broad and open stream; and passing, as I thought, before a spacious paved quay, where the bright lamps with which it was illuminated showed long rows of arches and pillars, of ponderous construction and great strength, but as light to the eye as garlands of hoarfrost or gossamer - and where, for the first time, I saw people walking - arrived at a flight of steps leading from the water to a large mansion, where, having passed through corridors and galleries innumerable, I lay down to rest; listening to the black boats stealing up and down below the window on the rippling water, till I fell asleep.

O livro, Pictures from Italy, pode ser descarregado aqui.

6 de fevereiro de 2012

APLAUSOS. Vasco Graça Moura mandou, e bem, remover a aplicação informática que no Centro Cultural de Belém convertia os textos em português para a grafia imposta pelo novo Acordo Ortográfico. Graça Moura foi dos primeiros a contestar o Acordo, quem mais deu a cara e argumentos contra a sua entrada em vigor, e apesar de ter sido aprovado pela Assembleia da República jamais desistiu de o contestar. Mais: defende que o Acordo não pode entrar em vigor sem a ratificação de Angola e Moçambique, e que é inconstitucional. Não se perceberia, portanto, que aceitasse presidir a uma instituição onde a língua portuguesa não seja tratada segundo os princípios que defende e pelos quais se tem batido. Parece que o estatuto do CCB, fundação pública de direito privado, dispensará a instituição de adoptar o Acordo até 2014, pelo que não terá havido desobediência governamental, como chegou a ser dito. Assim sendo, é uma decisão que se aplaude. Graça Moura foi coerente com o que defende, corajoso num país onde a coragem não abunda, e espevitou o debate à volta de um tema sobre o qual existem cada vez mais dúvidas. Três coelhos de uma só cajadada não é obra para qualquer um.

3 de fevereiro de 2012

AUTOCENSURA. Ele há coincidências, toda a gente sabe que há. Mas quem acredita que a decisão de acabar com um programa da RDP e afastar o colaborador que lá denunciou a fantochada que a RTP transmitiu a partir de Luanda estava tomada antes das críticas irem para o ar? Quem acredita que o afastamento de Pedro Rosa Mendes e a suspensão do programa em que colaborava foi um «acto de gestão normal»? Desconheço se o responsável pela decisão foi pressionado pelo poder, directa ou subtilmente, mas não errarei muito se disser que foi um caso de autocensura. Autocensura, como sabemos, que é a pior das censuras.

1 de fevereiro de 2012

ELOGIO DO CONFLITO. Presidente e Governo garantiram, à vez, que não há problema entre eles. E por que se deram a esse trabalho? Porque há, de facto, um problema entre eles, como até o mais distraído já notou. Mas será um conflito entre o Presidente e o Governo um mal em si mesmo? Depende, claro, da natureza do conflito, mas de um modo geral parece-me positivo. E quando o conflito é entre membros da mesma família política, como o caso presente, ainda me parece melhor. Claro que não é fácil perceber quando o conflito resulta de diferentes pontos de vista ou de razões, digamos, de pequena política. Mas em política o conflito é saudável, se calhar mesmo quando motivado pela pequena política. A unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues já não me lembro a que propósito. A unanimidade em política ainda é mais burra, acrescentaria eu.
ORA NEM MAIS. Um equívoco chamado «cultura»
BEM OBSERVADO. O cinema não foi inventado por juristas portugueses e, por isso, começou por ser mudo.

31 de janeiro de 2012

INOCENTE PORQUE SIM. Mário Soares escreveu, a propósito do livro Inocente para além de qualquer dúvida, que Carlos Cruz tem vindo «a demonstrar a sua inocência». Ora, de que modo? Publicando livros onde não se espera que diga outra coisa? Publicando livros onde apenas se lê a sua versão dos factos? Publicando livros onde se apresenta como juiz em causa própria? Já disse e repeti que não sei se Cruz é culpado dos crimes de que foi acusado — e, já agora, condenado, apesar do recurso ainda correr no Tribunal da Relação de Lisboa. Mas não será evidente que os livros que ele vem publicando não demonstram coisa alguma? Muitos acham que Cruz está inocente porque se recusam a acreditar que ele foi capaz de cometer os crimes por que foi condenado, porque acham que Cruz é uma pessoa decente, porque são amigos dele e os amigos são para as ocasiões. Resumindo, acreditam na sua inocência porque sim. Já o tribunal considerou-o culpado com base em evidências mais sólidas que o porque sim. Claro que o tribunal se pode ter enganado, mas a quantidade de material que lhe passou pelas mãos e o ror de gente que o processo envolveu torna difícil acreditar na existência de um erro, muito menos numa conspiração. Haverá, quando muito, pequenos erros processuais, mas custa-me a crer que o tribunal tenha errado no essencial. Nada contra Carlos Cruz, mas acredito mais facilmente no tribunal que na versão dele. Pela simples razão de que a versão do tribunal é mais consistente, e presumo que o tribunal não tinha, à partida, interesse que o desfecho do caso fosse numa determinada direcção, como vi insinuado mas nunca fundamentado. Já a versão de Carlos Cruz é a versão de parte interessada. Por mais objectiva e distanciada que se reclame.
LEITURA A NÃO PERDER. A Mão no Poder

30 de janeiro de 2012

UM FAIT DIVERS? Aparentemente, a petição que pede a demissão de Cavaco vai dar em nada. Por força da lei (ninguém o pode demitir), e porque a lei é para cumprir. Mas 39 mil assinaturas a pedir a demissão do Presidente da República por este ter dito o que não devia, convenhamos que não é o fait divers que alguns pretendem fazer crer. Não que eu defenda a demissão de Cavaco por causa do lamentável episódio. Mas não me venham dizer que o que disse o PR sobre a sua reforma e a petição que agora pede a sua demissão não são coisas para levar a sério. Especialmente depois de Cavaco não ter sido capaz de matar o assunto à nascença, como lhe competia, e quando finalmente condescendeu a dar explicações mais valia estar calado.
ISTO ANDA TUDO LIGADO. Como estarão lembrados, há pouco mais de uma semana a RTP promoveu uma espécie de Prós e Prós a partir de Luanda que dificilmente se distinguiria da propaganda do antigo regime, e que ditou o encerramento de um programa da RDP após um seu colaborador denunciar a tramóia. Dois ou três dias depois noticiaram-se mudanças na administração do BCP, por vontade de um dos seus maiores accionistas (a Sonangol), e o despedimento de duas dezenas de jornalistas do Sol, cujo maior accionista é, adivinharam, um grupo angolano. Isto para só falar do que veio a lume na última semana, que os casos multiplicam-se e parte deles nem chega às notícias. Como é evidente, isto não augura nada de bom.
A RTP NÃO TEM NADA A DIZER? Como se viu, foram às dezenas as críticas que nos media se ouviram sobre o Prós e Contras travestido de Reencontro que a RTP emitiu a partir de Luanda. Ora, face a este cenário, a direcção de informação da televisão pública não tem nada a dizer? Não seria de esperar que a RTP, serviço público de televisão, explicasse o critério editorial que presidiu àquilo, e que saísse em defesa da casa e de quem nela trabalha?

25 de janeiro de 2012

FICAMOS À ESPERA DA CURA. Há uma justiça para os ricos e uma justiça para os pobres, disse a ministra da Justiça. Disse mais: há um sem número de fraudes no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente praticados por laboratórios farmacêuticos e fornecedores de equipamentos. Nada que não se detecte a olho nu no primeiro caso, e que não se suspeite no segundo. Mas é bom que seja a ministra a dizê-lo, embora dizê-lo não baste para mudar o que quer que seja. Duvido, aliás, que a ministra consiga curar os males que apontou, como julgo ser sua intenção, mesmo genuinamente convencida de que é capaz e que a vontade nunca lhe falte.

23 de janeiro de 2012

POBREZA DE ESPÍRITO. O Presidente da República demorou três dias a dizer aos portugueses que não foi «suficientemente claro» quando falou sobre as suas pensões de reforma. Ora, se o que disse Cavaco sobre o assunto constituiu um insulto aos portugueses, particularmente aos portugueses que recebem pensões de miséria ou estão no desemprego, vir agora dizer que não foi claro naquilo que foi claro como água, é mais um insulto aos portugueses. O Presidente achará mesmo que a generalidade dos portugueses se identifica com o seu caso, que também ele, como a generalidade dos seus concidadãos, sofreu com as medidas de austeridade impostas pelo Governo? Se acha, só posso concordar com o Alberto Gonçalves quando ele diz que «a tentativa de se aproximar do homem comum na pobreza material levou Cavaco Silva a suplantá-lo em pobreza de espírito». Isto na melhor das hipóteses, que já é suficientemente má para se imaginarem outras piores.
PROPAGANDA VERGONHOSA. O que não diria o João Gonçalves, hoje adjunto do ministro Relvas, do Prós e Contras disfarçado de Reencontro que a RTP, serviço público de televisão, se prestou a fazer a partir de Luanda. Não foi, aliás, por acaso que Pacheco Pereira, destacado militante do PSD, comparou a fantochada às práticas do Estado Novo, e Eduardo Cintra Torres, militante do PSD ou lá próximo, lhe chamou «porcaria». De facto, não me lembro de nada tão vergonhoso.
DEMOCRACIA. Provavelmente grande parte dos inquiridos não tem bem a noção do que a democracia representa, mas ainda assim preocupa que apenas 56% dos portugueses considere preferível a democracia a qualquer outra forma de governo. Pior: segundo o estudo há pouco divulgado, estes números têm vindo a baixar, e 15% dos inquiridos acham mesmo que «nalgumas circunstâncias» é preferível um governo autoritário a um sistema democrático. Porque, diz-se no estudo, os portugueses se sentem cada vez menos representados pelos partidos políticos e cada vez mais pelos «movimentos sociais de protesto». Ora, que os partidos políticos estão cada vez mais distantes dos cidadãos, é uma evidência que se nota cada vez mais e motivo de preocupação. Mas preocupante mesmo é saber que os portugueses se vêm distanciando da democracia. Ficou célebre a frase de Churchill sobre a democracia, que considerou o pior dos sistemas exceptuando todos os outros. Infelizmente, nenhum outro sistema o superou até agora. Com todos os defeitos (que são muitos), a democracia continua a ser o menos mau dos sistemas, o único que permite o que mais prezo: a liberdade, tenha ela as condicionantes que tiver.

19 de janeiro de 2012

UM FILME DEMASIADO VISTO. Para não variar, a história das nomeações para a empresa Águas de Portugal está pessimamente contada, e cheira a um expediente demasiado familiar. Os administradores acabadinhos de nomear são competentes? Serão, e também pertencem aos partidos que integram a coligação governamental — e ninguém acredita em coincidências. Depois há um dos nomeados que enquanto presidente de câmara mantém um contencioso com a Águas de Portugal por não ter pago alguns milhões de euros. Como conciliar os interesses do município que governa com os interesses da empresa de que agora é administrador? Se dúvidas houvesse que as nomeações se destinaram a satisfazer clientelas, este episódio acaba com elas. Evidentemente que nada disto surpreende. Mas é preciso lembrar que, neste aspecto, o actual Governo não se distingue dos anteriores, como tanto gosta de alardear. E ainda a procissão vai no adro.

17 de janeiro de 2012

KAZANTZAKIS. Nova incursão pelos alfarrabistas, mais duas preciosidades a preços ridículos: Report to Greco, de Nikos Kazantzakis, e The Autobiography of William Butler Yeats. Agarrei-me logo ao primeiro como quem não tem mais nada para ler, e desconfio que não porei a vista noutros enquanto não o acabar. Pouco mais de uma centena de páginas bastaram para ver que é um livro a ler devagar, a saborear palavra a palavra como quem saboreia o que mais gosta. O tempo amareleceu-lhe as páginas, e a sujidade é maior que o normal nestes casos. Mas também há sublinhados e comentários nas margens, coisas que irritarão a maioria dos leitores mas que eu encaro como mais-valias.

13 de janeiro de 2012

CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL? O Miguel Castelo Branco esqueceu-se, ao referir-se às abomináveis imagens de soldados americanos a urinar sobre cadáveres talibãs, de um detalhe importante: nas guerras de antigamente não havia máquinas fotográficas, câmaras de filmar e internet ao alcance de qualquer um — e isso, convenhamos, faz toda a diferença. Pior: confunde um episódio isolado com a América, de que demonstra ter uma visão assente nos estereótipos do costume.
MAÇONARIA. O jornalista Ferreira Fernandes publicou, há pouco, uma crónica com o seguinte título: «Hoje, os maçons escondem-se de quê?» De facto, tendo em conta que vivemos em regime democrático, onde os maçons não correm o risco de ser presos ou vítimas de patifarias, a pergunta impõe-se. Exigir que os deputados maçons e outros detentores de cargos políticos declarem a condição de maçons em nome da transparência, como alguns defendem, talvez seja um exagero, e provavelmente é ilegal. Mas não há dúvida de que esta história de amor entre a Maçonaria e o poder, ou entre uma certa Maçonaria e um certo poder, fede que tresanda. Daí que não viria mal ao mundo que os maçons detentores de cargos políticos livremente se assumam como tal. Não duvido que a maçonaria é respeitável, e não estou a ironizar. Mas como distinguir os maçons bons dos maçons maus? E porque não acabam, já agora, com o secretismo, que até hoje ninguém explicou e só gera desconfianças?
POLÍTICA E INTERESSES. Concordo com a generalidade do que disse Francisco Assis no Público de ontem, mas com uma ressalva: é evidente que existe uma direita política e uma direita dos interesses, como ele disse, como é evidente que existe uma esquerda política e uma esquerda dos interesses, como ele não disse. Esquerda e direita não se distinguem neste aspecto, pelo menos a esquerda e a direita moderadas. Talvez seja um exagero dizer que o posicionamento ideológico da maioria dos que actualmente se interessam por política funciona mais por interesse que por convicção, mas a verdade é que são cada vez mais os casos em que isso se torna evidente.

10 de janeiro de 2012

CARLOS CRUZ. Já dei para o processo Casa Pia, e para o processo Carlos Cruz em particular. Como então disse e repeti, não sei se é culpado quem a justiça julgou como tal, incluindo Carlos Cruz, provavelmente o mais inconformado com a decisão do tribunal, que considera um erro clamoroso. Mas será que o livro que vai publicar e o sítio na internet que mantém sobre o caso comprovam alguma coisa, como nos quer fazer crer? Como Carlos Cruz muito bem sabe, o que pôs na internet e no livro, parcialmente transcrito no último Expresso, não prova coisa nenhuma. O que lá está é apenas uma versão dos factos, no caso a sua própria versão, e desnecessário será dizer que a versão dos factos de quem deles é protagonista e parte interessada não pode deixar de ser vista com reserva. Quem está realmente interessado em saber o que se passou sabe bem que o mínimo a fazer é ouvir todas as partes, logo qualquer cidadão não inteiramente analfabeto sabe que o livro não prova coisa nenhuma. Isto no que aos factos diz respeito. Quando a juízos, será preciso lembrar que ninguém é bom juiz em causa própria? Claro que Carlos Cruz pode estar inocente, e se assim for estamos diante uma monstruosidade. Mas quem acredita que os três juízes (repito: três juízes) que o julgaram tenham cometido tamanha monstruosidade? E, já agora, que razões terão tido esses mesmos juízes para, segundo Cruz, não quererem absolvê-lo?
O PAÍS ÀS AVESSAS. Não sei quantos milhões investe o Estado nas universidades públicas. Mas considerando as propinas ridículas pagas pela maioria dos estudantes, devem ser rios de dinheiro. Não percebo, por isso, o comentário de Miguel Relvas quando diz orgulhar-se de a actual emigração ser protagonizada por uma «juventude bem preparada» graças a um substancial investimento do Estado nas últimas décadas. Então o ministro orgulha-se de o Estado investir milhões na formação dos jovens que depois outros países, que não investiram um centavo, irão beneficiar? Além disso, é normal o Governo de um país incentivar os seus próprios cidadãos a emigrar? Estarei a ver mal, ou o Governo deveria fazer precisamente o contrário?
PARA LER E MEDITAR. Poder & Associados

9 de janeiro de 2012

RENTES DE CARVALHO, OUTRA VEZ. Tomei conhecimento da prosa de Rentes de Carvalho na Eito Fora, uma revista que então se publicava em Trás-os-Montes e que viria a dar origem à Periférica, também já extinta. Desde então mantive-me atento ao que dele se foi dizendo e ao que ele foi escrevendo, e logo que pude devorei-lhe os livros. Comecei Com os Holandeses, prossegui com La Coca, e tenho pena de não ter investido em mais uns quantos quando tive oportunidade. Custa a crer que um escritor desta envergadura só tenha sido descoberto pelos portugueses há meia dúzia de anos. (Rentes de Carvalho tem um blogue a que vale a pena estar atento.)

6 de janeiro de 2012

PORTUGAL DOS PEQUENINOS. O João Gonçalves é dos que melhor escreve na blogosfera. Apesar de raramente concordar com ele, não me lembro de alguma vez discordar da forma como constrói as suas prosas. Custa-me, portanto, vê-lo, desde o final do socratismo e princípios do passismo (de que ele disse o piorio antes de se tornar adjunto do ministro Miguel Relvas, como se pode ver aqui), reduzido a meia dúzia de parágrafos semanais, quase sempre para tecer os mais rasgados elogios a quem lhe paga. Interessante como passou do 8 ao 80, da crítica mais cruel — e tantas vezes gratuita — ao panegírico mais descarado. Até um assalariado com modestíssimas funções numa modestíssima empresa não se atreveria a tanto.

5 de janeiro de 2012

UM PECADOR CONFESSA-SE. Fernando Lima, assessor político do presidente Cavaco desde que Cavaco lhe retirou a assessoria de imprensa após um lamentável e mal contado episódio, escreveu numa revista que «uma informação não domesticada constitui uma ameaça» para os governantes. Disse mais: «Controlar o fluxo noticioso numa época de grande competição informativa é de vital importância para o êxito de qualquer iniciativa no plano politico.» A evidência apenas surpreende os ingénuos ou quem vive noutro planeta, mas não deixa de surpreender que um cavalheiro que detém um cargo político faça uma afirmação destas como se falasse da coisa mais trivial. Um detentor de um lugar político que pensa — e age, como ele já demonstrou — deste modo devia ser demitido.

3 de janeiro de 2012

MUDAM-SE OS TEMPOS. Se bem me lembro, Alexandre Soares dos Santos, patrão da Jerónimo Martins, prometia, há pouco, não transferir a sede das suas empresas para o estrangeiro, por razões que então considerou patrióticas. Lembram-se das duas ou três entrevistas televisivas que ele deu há uns meses que tantos elogios lhe valeram? Uma simples pesquisa no Google basta para as encontrar, e vale a pena revê-las. Não sei se a transferência da Jerónimo Martins para a Holanda levanta questões de natureza legal, como esta notícia sugere. Sei, porém, uma coisa: são cada vez mais as grandes e médias empresas portuguesas a transferirem as suas sedes para o estrangeiro, e só estrangeiros malucos ou mal informados, como ainda há pouco dizia Medina Carreira, investirão em Portugal. Assim vamos.
FAÇAM O FAVOR DE LER. Sem honra nem glória

30 de dezembro de 2011

LAMENTÁVEL. A notícia já é velha, mas a questão permanece actual: havia necessidade de dobrar o Equador para português do Brasil? Imagino que os distribuidores (ou lá quem foi) pretenderam, com o expediente, atingir um público mais vasto, mas quem já viu uma telenovela brasileira dobrada para português de Portugal? Sim, duvido que o expediente conquiste maior audiência, e escusado será dizer que uma telenovela brasileira dobrada em português de Portugal soaria ridícula, logo um mau negócio. Dobrar é mais ou menos como traduzir para pior, pelo que a ficção só deve ser traduzida ou dobrada para outra língua quando for mesmo necessário. A ficção deve ser vista (lida, ouvida) no original, e apenas deve ser traduzida ou dobrada quando se destina a um público que desconhece a língua em que foi filmada (escrita, gravada). Como é evidente, não é o caso de Equador. A dobragem foi não só desnecessária como lamentável.
HERÓIS DA TRETA. Já não há pachorra para tanto herói que todos os dias nos chegam pelas televisões cujo «heroísmo» se resume ao simples facto de terem feito o trabalho que lhes competia e deles se espera. Heróis são os que arriscam a vida em prol dos outros, de causas nobres ou julgadas como tal, que protagonizam situações excepcionais para salvar os outros sem que seja essa a sua função. Não um qualquer acto banal, geralmente «inventado» pelas televisões, que depois exploram até à obscenidade.

28 de dezembro de 2011

BULAS. Recomendaram-me que tomasse determinado medicamento para determinada doença. Lida a bula, para quem não sabe o papelinho que acompanha os medicamentos onde se explica tudo e mais alguma coisa (tem outros significados que para aqui não interessam), tudo o que lá se diz sobre o modo como deve ser administrado é por «suspensão oral». Não diz se deve ser tomado com líquidos ou sem líquidos, se de manhã ou à noite, antes ou após as refeições. Deve ser tomado por «suspensão oral», e o resto não interessa. Fui ver ao dicionário o que significa tal coisa, mas confesso que fiquei na mesma. Presumo que se pretende dizer que deve ser tomado pela boca. (Nos Estados Unidos, pelo menos no local onde resido, os frasquinhos de comprimidos vendidos por receita médica vêm com a indicação expressa de que devem ser tomados pela boca, não vá alguém metê-los sabe-se lá onde e o farmacêutico ficar em trabalhos.) Mas se a ideia é mesmo dizer que os medicamentos receitados devem ser tomados pela boca, porquê utilizar uma expressão que não se entende? Terá sido apenas descuido, ou a ideia é impressionar os pategos?

26 de dezembro de 2011

GAFFES. Confesso que ando a ficar um bocado cansado das gaffes, ou das asneiras que passam por gaffes. O primeiro-ministro aconselhou os professores sem trabalho a emigrar quando se esperaria que lhes desse esperança para não o fazerem? Foi uma gaffe. Tempos antes o secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo aconselhou os jovens a fazer o mesmo? Foi uma gaffe. O ex-chefe do Governo e dos socialistas afirmou que honrar os compromissos é coisa de crianças? Foi uma gaffe. Um deputado do PS diz que se está «marimbando para os credores»? Foi uma gaffe. Sempre que os nossos políticos dizem o que não devem, não pensam o que dizem ou dizem o que pensam por não pensarem o que dizem, lá vem a explicação: foi uma gaffe. Ora, é preciso dizer que os episódios enunciados não foram gaffes, deturpações ou descontextualização do que disseram, como geralmente os visados procuram fazer crer. Foram asneiras, por sinal asneiras das grandes, que demonstram bem o que lhes vai nas cabecinhas. Não me parece necessário um Freud para constatar a evidência.

22 de dezembro de 2011

REINALDO ARENAS. Vargas Llosa escreveu sobre Antes que anochezca (em português Antes que Anoiteça) que foi um dos mais comoventes testemunhos sobre a opressão e a rebeldia jamais escritos em língua espanhola. Terminado o livro, uma espécie de autobiografia que finaliza com a carta enviada aos amigos antes de pôr termo à vida, não sei bem o que dizer. As cenas de sexo pareceram-me excessivas, mas foi, seguramente, um dos livros que mais me impressionou.

20 de dezembro de 2011

NÃO ESQUECER. A crónica de Jorge Marmelo no Público de hoje (apenas disponível a pagantes), onde chama a atenção para o tão esquecido Rodrigues Miguéis, levou-me a repescar um extracto de Estranha Vida e Morte do Professor Reineta em tempos aqui publicado, que reza assim:

«Lembro perfeitamente o nosso primeiro encontro na Pátria amada, longos anos antes. [O Professor Reineta] era então um homem público em evidência e ocupava posições de alta responsabilidade política e cultural. Parlamentar e orador de recursos, eu tinha-o ouvido discursar algumas vezes fora e dentro do Congresso da República, onde ficou lembrado, entre outras coisas, pelo discurso de nove ou dez horas que pronunciou para salvar o governo do seu partido — a noite inteira, até chegarem da província os deputados que lhe dariam a maioria —, e a respeito do qual um velho líder da Oposição, famoso pelo seu humor, teve este comentário: «O que eu mais admiro no meu colega não é a capacidade oratória: é a capacidade da bexiga!»

19 de dezembro de 2011

A MEDIOCRIDADE QUE NOS GOVERNA. O primeiro-ministro em funções sugere que os professores desempregados emigrem para os países que deles necessitem, nomeadamente Angola e Brasil. O secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo em tempos aconselhou os jovens desempregados a emigrar. Na oposição, Pedro Nuno Santos, deputado socialista, sugeriu que Portugal deve suspender o pagamento da dívida, porque se está «marimbando para os credores». José Sócrates, antigo chefe do Governo e dos socialistas, afirmou um mês antes que «pagar a dívida é uma ideia de criança», embora posteriormente tenha assegurado que não foi bem isso o que disse. Infelizmente, não é de gaffes que falo, mas de coisas que lhes vão nas cabecinhas. Temos, portanto, um Governo que em vez de tudo fazer para que os portugueses vivam bem no seu próprio país os aconselha a emigrar, e o principal partido da oposição a produzir disparates atrás de disparates. Provavelmente temos os políticos que merecemos, mas custa ver tanta mediocridade a gerir os destinos do país.

15 de dezembro de 2011

A JUSTIÇA QUE TEMOS (2). A ministra da Justiça pode ser incompetente, pode ter um problema com os advogados, pode estar de má-fé e tudo o mais que quiserem. Mas quem a vê acusar mais de um milhar de advogados de burlarem o Estado em meio milhão de euros sem factos que o comprovem? Os advogados terão razões de queixa da ministra, mas dizer que Paula Teixeira da Cruz está a promover uma «campanha difamatória» contra eles e pedir a sua demissão por a ministra se ter limitado a citar uma auditoria que detectou irregularidades praticadas por mais de um milhar de advogados é o que se chama uma fuga para a frente. Não seria normal os advogados pedirem à ministra (ou à Procuradoria-Geral da República, visto que os nomes terão sido para lá enviados) que divulgasse os nomes dos prevaricadores, para que os advogados assim pudessem acabar com as suspeitas que inevitavelmente pendem sobre todos e defenderem o seu bom nome? Ou será que não há advogados desonestos? Bem sei que compete à ministra (ou aos tribunais) provar as acusações e não aos suspeitos demonstrar que estão inocentes, mas também julgo saber que só um demente se atreveria a fazer acusações deste quilate sem factos que o demonstrem. Os suspeitos de irregularidades acham que estão inocentes? Resolvem o caso nos tribunais. Exigir o afastamento da ministra após este episódio é uma manobra, no mínimo, suspeita, e só dá razão a quem supostamente a não tem.

13 de dezembro de 2011

A JUSTIÇA QUE TEMOS (1). A ministra da Justiça diz que mais de um milhar de advogados cobraram indevidamente ao Estado português qualquer coisa como 3,5 milhões de euros. O bastonário dos advogados diz que a auditoria em que as alegadas falcatruas foram detectadas se baseia em informação «falsa» ou «manipulada». Temos, portanto, que um deles mente, se é que não mentem os dois. Se outra vantagem não tem a guerra que há muito se declarou entre Paula Teixeira da Cruz e Marinho Pinto, ao que parece mais por razões pessoais que institucionais ou políticas, pelo menos revela aos cidadãos um expediente que, não sendo surpreendente, jamais passaria de mera suspeita. Isto, claro, partindo do princípio que não há fumo sem fogo, e com a certeza de que os eventuais prevaricadores jamais serão punidos.
SOBRE A CISÃO NO BLOCO. Um estalinista, um anarquista e um trotskista chegam cada um a sua casa e encontram os seus companheiros na cama com um camarada. Qual é a sua reacção? O estalinista mata-os aos dois, o anarquista pergunta se se pode juntar a eles e o trotskista escreve uma declaração de 20 páginas a justificar uma cisão organizacional.
LEITURAS RECOMENDADAS. Cadastro é currículo e Isaltino 10, Justiça 0

9 de dezembro de 2011

CHOVER NO MOLHADO. Para eventuais interessados ou adversários das maquinetas de leitura electrónica, os chamados e-book readers, transporto diariamente comigo quase todo o Eça, grande parte de Camilo e Machado de Assis, praticamente todas as entrevistas da Paris Review e várias obras do Padre António Vieira, Mark Twain, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Charles Darwin, Euclides da Cunha e outros. Resumindo, transporto diariamente comigo mais de duas centenas de livros, embora o número se pudesse multiplicar quase até ao infinito. Para os adversários da maquineta, que são muitos e bons, expliquem-me lá uma coisa: seria isto possível com edições em papel? Não, não me parece uma questão de somenos, como já ouço por aí. Que leitor não apreciará a mera possibilidade de transportar diariamente consigo os livros que lhe apetecer, como há muito sucede com a música, que já ninguém dispensa? Também os velhinhos LPs e os envelhecidos CDs continuam ao alcance de quem se interessa por eles, tal como continuarão ao alcance dos interessados os livros em papel, que só desaparecerão quando se tornarem uma minoria que não justifique a edição em papel. Como já disse variadíssimas vezes (ando a escrever sobre e-books desde a pré-história), os livros em papel só desaparecerão quando os leitores assim o quiserem. Tão simples como isso. Como presumo que a maioria os prefere em papel, a notícia da morte do livro tal como o conhecemos é francamente exagerada.

8 de dezembro de 2011

LUIZ PACHECO. Luiz Pacheco foi um grande escritor? Foi um escritor medíocre? Como praticamente só li o que dele se disse e meia dúzia de entrevistas, por sinal quase todas imperdíveis, não faço a mais leve ideia. Sei é que sempre lhe apreciei o desassombro, a frontalidade e a provocação, segundo alguns a sua principal virtude. Aguardo, por isso, com impaciência Puta que Os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, acabadinho de sair para as livrarias. Como resido no estrangeiro, infelizmente vai levar algum tempo até que me chegue às mãos. Mas não perderá pela demora.

6 de dezembro de 2011

ESTOU A LER (5). Descobri num alfarrabista Travels with a Donkey in the Cévennes, um livrinho que relata uma viagem de Stevenson e da jumenta Modestine pelo sul de França em finais do século XIX que aconselho sem reservas. Embora não esteja ao alcance de toda a gente, também aconselho uma visita à Chatham Bookseller, um alfarrabista que soube aliar a exiguidade do espaço à qualidade do que lá vende, e onde há sempre música (geralmente ópera) que, por si só, é um convite a lá ir.
OLHA A NOVIDADE. Administradores hospitalares ligados ao PS substituídos por gestores do PSD e CDS

2 de dezembro de 2011

CONTRA A MARÉ. Não sou grande entusiasta do fado, como já disse variadíssimas vezes. Também não estou a ver o que o país, e o fado, ganharão com o facto de a cançoneta ter sida considerada património da humanidade. Tirando o momentâneo fervor patriótico, que terá consolado o ego a muita gente, não se vislumbra que outra utilidade possa ter. Pelo contrário. Lido e ouvido o que se disse, constata-se que afectou os neurónios de muito boa gente. A fadista Mariza, por exemplo, defendeu que o fado deve ser leccionado nas escolas. Não esclareceu se deve ser matéria obrigatória, mas imagino que sim, e seguramente que não estará sozinha nesta sua pretensão. Curiosamente, grande parte dos entusiastas do fado não são grandes apreciadores de música, como se pode verificar por aquilo que ouvem. Não haverá uma relação de causa-efeito, mas também não me parece uma questão de somenos. Afinal, a aparente contradição levanta uma pequena pergunta: como é possível gostar de tão grande música (como o fado será), e depois gostar de música que não vale um caracol? Sim, o fado faz parte da cultura portuguesa, cantou — e continua a cantar — os grandes poetas da Pátria, e tudo mais que quiserem. Mas o fado também é música, e como tal deve ser julgada. Aliás, não sou entusiasta do fado essencialmente por causa da música, que me parece demasiado primitiva, insuportavelmente repetitiva, e previsível para lá do razoável.

29 de novembro de 2011

HACKERS. Aceder ilegalmente aos computadores do Ministério da Administração Interna ou da Assembleia da República, divulgando dados pessoais de agentes da PSP no primeiro caso e no segundo tornando o site do Parlamento temporariamente inacessível, são, evidentemente, motivos de alarme. Mas o mais preocupante é constatar-se que os mais sofisticados (e seguros) sistemas informáticos de todo o mundo estão ao alcance de hackers, os cientistas malucos (e perigosos) dos tempos modernos, e não se vislumbrar como evitar que isso suceda. Alguns queixam-se de que quem manda nos países é quem tem o livro de cheques, e até há casos recentes de regimes democráticos em que os governos carecem de legitimidade eleitoral, coisa impensável ainda há dois ou três anos. Mas perigoso mesmo é estarmos nas mãos desta gente, que a coberto do anonimato e da mais que provável impunidade é capaz das maiores patifarias.
PROTESTOS INCONSEQUENTES. Para não variar, os sindicatos disseram que a greve geral foi um êxito (falaram que teve a adesão de um terço dos portugueses), e o Governo disse que apenas mobilizou 10 por cento dos funcionários públicos (um fracasso, portanto). Como é evidente, ambos mentiram. Toda a gente sabe que os números reais são outros, e que distam consideravelmente dos números de uns e de outros. Mas imaginemos que os sindicatos têm razão, que a greve foi um sucesso. E foi um sucesso porquê? Por nela terem participado, segundo eles, um número considerável de trabalhadores? A avaliar pelo que disseram, assim é. Temos, portanto, que o sucesso de uma greve se mede pelo número de participantes, não por alcançar o que aí se reivindica. Como se voltou a demonstrar, os sindicatos vivem cada vez mais longe de quem representam, e que as suas reivindicações se revelem, à partida, inconsequentes, é coisa que não os rala. Resta dizer que todos perdem com isso. Perdem os trabalhadores, perdem os sindicatos, perde o País.

25 de novembro de 2011

COISAS QUE FAZEM BEM À ALMA



Por razões que não interessam para o caso, acabo de rever a excelente entrevista que Julio Cortázar concedeu ao extinto programa A Fondo, da TVE, onde também já vi outras entrevistas notáveis (Borges, Rulfo, Carpentier, Onetti e outros) que, graças ao YouTube e a quem as lá pôs, continuam ao alcance de um clique. Escusado dizer que recomendo, e não só aos mais entusiastas dos livros. (Deixo a ligação apenas para a primeira de 14 partes, que uma vez lá as restantes são de fácil acesso.)

23 de novembro de 2011

DA COLUNA VERTEBRAL. Nada contra quem, na blogosfera, passou os últimos anos a disparar em tudo o que mexia, e agora, por via de uma sinecura qualquer, mais parecem caniches amestrados, sempre com a língua de fora e prontos a dobrar a espinha. O Governo anterior fazia tudo mal? O actual faz tudo bem? Segundo os cavalheiros, assim é. Tratando-se de pessoas com uma cultura geralmente acima da média, a coisa dá que pensar. Não seria de esperar que fossem os primeiros a mostrar alguma independência de espírito? Resta a consolação de ficarmos a saber o que os move, e desejar-lhes que nunca a espinha lhes doa.

18 de novembro de 2011

EM NOME DE PORTUGAL. Quanto terá custado a visita oficial do Presidente da República aos Estados Unidos a pretexto de «afirmar Portugal pela positiva» e corrigir uma «imagem distorcida»? Tendo em conta as largas dezenas de pessoas que o acompanharam, grande parte a expensas da Presidência, seguramente que muito dinheiro. Muito dinheiro quando se diz que não há, e ainda por cima esbanjado numa campanha cujos resultados se adivinham escassos, e cujo retorno, a haver, se calhar nem pagará as despesas. Aliás, o próprio Cavaco se encarregou de contradizer o espírito da coisa ao relembrar a existência, em Portugal, de «entraves burocráticos» ou «constrangimentos administrativos» ao investimento estrangeiro, não vá algum americano menos avisado cair na tentação de investir em Portugal.
O MONSTRO (2). José Manuel Fernandes não gostou que as recomendações do grupo de trabalho encarregado de estudar o serviço público de comunicação social ficassem praticamente resumidas ao triste episódio protagonizado pelo seu coordenador, que «a bem da Nação» e da sua imagem defendeu que a RTP Internacional deve ser «filtrada» e «trabalhada» pelo Governo. Vai daí, escreveu no Público que as palavras de João Duque foram uma intervenção «desastrada», e só uma intervenção «desastrada». Ora, acontece que as palavras de João Duque não foram, apenas, desastradas. A questão foi o que ele disse, não como disse. E convenhamos que de um sujeito que disse o que se sabe apenas se pode concluir uma de duas coisas: ou não tem a mínima ideia acerca do que andou a discutir, e nesse caso não se percebe por que integrou o grupo de trabalho; ou tem plena consciência do que disse, e o que disse é uma monstruosidade. Pretender reduzir o episódio a um mero fait divers não basta para que se torne um fait divers.

16 de novembro de 2011

O MONSTRO (1). Provavelmente já está, de algum modo, a acontecer, ainda que de forma subtil e não assumida, mas defender que a informação da RTP Internacional deve ser «filtrada» e «trabalhada» pelo Governo, «a bem da Nação» e da sua imagem no exterior, roça o inacreditável. A RTP Internacional destina-se a quem? Não se destinará, antes de mais, aos portugueses no estrangeiro, emigrantes e outros? O sr. João Duque acha que estes portugueses só devem ter acesso, digamos, às «boas notícias»? E como devem, já agora, ser «trabalhadas» as notícias da oposição, que naturalmente falarão mal do Governo e, por arrasto, do País? Calar-se-á quem falar mal do Governo? E porque não, já agora, estender a lógica a outros domínios, proibindo, por exemplo, a «exportação» dos livros de Eça, onde o país é maltratado e por vezes comparado a uma choldra? Claro que o disparate não terá consequências, como já fez saber o ministro que «filtraria» as notícias caso acatasse o conselho das luminárias. Mas arrepia só de pensar que um grupo de trabalho que tem por missão aconselhar o Governo em matéria de comunicação social pública integre gente que pensa desta maneira. Arrepia e surpreende, que jamais me passou pela cabeça que dali saísse tal monstro.

11 de novembro de 2011

CRIMINALIZAR OS POLÍTICOS. Criminalizar autarcas ou governantes em funções ou na reforma por actos lesivos à pátria parece-me perigoso, pois abriria caminho a toda a espécie de abusos, e inibiria ainda mais os governantes de tomar decisões difíceis. Mas casos há que só não são punidos criminalmente por claramente não haver vontade para isso. Se bem se lembram, Paulo Morais respondeu mais ou menos assim quando, num programa de televisão, lhe perguntaram como punir os responsáveis pela construção em áreas onde a lei não permite: «Basta saber quem a autorizou.» Como se vê, é demasiado simples para que se invoquem desculpas para não agir. E bastava agir em casos simples para se evitar casos maiores, como a famosa «tolerância zero» bem demonstrou.

10 de novembro de 2011

SINAIS DE PERIGO. Previsivelmente, as declarações de Otelo Saraiva de Carvalho (o coronel defendeu «um novo 25 de Abril» e consequente derrube do Governo caso sejam «ultrapassados os limites») causaram indignação um pouco por todo o lado. Surpreendentemente, as declarações de Rui Rio (o presidente da Câmara do Porto diz temer que as medidas que o Governo se prepara para tomar provoquem a revolta das pessoas de tal modo que não sejam capazes de ouvir um apelo sensato) passaram despercebidas. Ora, a mim parece-me que as declarações de Rio foram bem mais irresponsáveis e perigosas que as declarações de Otelo. Temer que as pessoas se revoltem e não sejam capazes de ouvir um apelo sensato, é já um incentivo, mesmo que involuntário, à revolta. Já um cavalheiro a quem os portugueses se acostumaram a dar o devido desconto afirmar que os militares podem voltar a sair dos quartéis, é pura retórica.

9 de novembro de 2011

SEGUREM-SE. A ser verdade o que se diz, António José Seguro promete uma abstenção «violenta mas construtiva» na votação do Orçamento de Estado. Digo a ser verdade porque a expressão é inacreditável, e não é fácil de recordar sem sorrir. Infelizmente, o sorriso evapora-se mal se cai na realidade. E a realidade diz que o actual líder do PS será, um dia, primeiro-ministro, a não ser que surjam percalços de maior. A abstenção «violenta» podia, apenas, ser uma frase infeliz. Desgraçadamente, não foi. A frase espelha bem o líder do principal partido da oposição, e de certa maneira os políticos que temos. Os políticos que temos e, se calhar, que merecemos.

8 de novembro de 2011

AI NÃO ME CHAMAM? ENTÃO TAMBÉM NÃO VOU. A renúncia de Bosingwa à selecção enquanto Paulo Bento lá estiver, depois de o seleccionador ter anunciado que não voltará a convocar o jogador do Chelsea, fez-me lembrar uma tirada de Woody Allen que cito de memória: «A minha mulher saiu de casa com outro homem, por isso deixei-a.»
COSMÉTICA PARLAMENTAR. «A Comissão Parlamentar mais relevante, a que acompanha o programa de assistência financeira internacional (a da Troika), tem como vice-presidente um deputado representante da banca, o social-democrata Miguel Frasquilho, a quem se junta, entre outros, o centrista Mesquita Nunes, membro do poderoso escritório de advogados que presta relevantes serviços à EDP, cujo processo de privatização está em curso. Incompreensivelmente, a Assembleia não acautelou este conflito de interesses.» (…) «Também é muito difícil de aceitar que o actual Presidente da Comissão Parlamentar de Defesa, Matos Correia, seja advogado no mesmo escritório que o seu antecessor na função, José Luís Arnaut, cujo principal sócio é o ex-ministro, também da Defesa, Rui Pena.» (…) «No actual Parlamento, deparamo-nos ainda com outras situações de moralidade duvidosa, como sejam a nomeação do deputado Ricardo Rodrigues para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários ou a indicação de Godinho de Matos, defensor de Armando Vara e das suas vigarices, para membro da Comissão Nacional de Eleições.»

4 de novembro de 2011

ESTOU A LER (4). Um dos livros que ultimamente mais gozo me deu ler foi Trieste, de Jan Morris, por razões que não sei — nem quero — explicar. Hoje, lendo Diário Volúvel deparo com uma passagem em que Vila-Matas cita o escritor espanhol J. Á. González Sainz que numa entrevista terá respondido quando lhe perguntaram por que vivia em Trieste: «Isso queria eu saber. E esse não saber é uma boa razão. Sinto-me estranho aqui, estrangeiro, distante, e creio que sentir-se estrangeiro no mundo é uma das condições da escrita, habitar o mundo de uma forma um pouco enviesada. Quando regresso de comboio, já de noite, das minhas aulas em Veneza e vejo no final da viagem as luzes de Trieste ali ao fundo, como que garroteadas nas costas pela escuridão das montanhas do Carso, com a Eslovénia atrás e à direita a linha de costa de Istria, e digo para comigo “a tua casa fica ali”, “é ali que vives”, gera-se-me uma sensação de estranheza, de não-pertença a não ser de passagem, com a qual me sinto bem e que creio ser fundamental para essa forma de viver que é escrever.» Não sou escritor, nunca vivi em Trieste, de Trieste apenas sei o que li de Jan Morris, mas sinto o que ele sentia. Por que será?

2 de novembro de 2011

UNANIMIDADE BURRA. Como alguém já notou, Duarte Lima não tem direito à presunção de inocência que tanto se reclama para outros. Como se tem visto diariamente, o julgamento mediático está feito e avalizado por especialistas, com aspas e sem aspas, e só me refiro às sentenças ditadas na imprensa dita de referência. Não, Duarte Lima não me inspira simpatia. Nem agora, depois de ser acusado de um crime hediondo, nem dantes, quanto tinha o poder que se sabe. Mas dá-me volta ao estômago deparar a toda a hora com a regra dos dois pesos, duas medidas. O que se estaria agora a dizer de Duarte Lima se ele ainda tivesse o poder que tinha dantes? O que estaria o bastonário dos Advogados, que desde o primeiro minuto em que foi conhecida a acusação da justiça brasileira se apressou em condená-lo, a dizer caso o ex-líder parlamentar social-democrata não tivesse caído em desgraça? Será só um caso, como dizia Nelson Rodrigues, de unanimidade burra?

29 de outubro de 2011

ESTOU A LER (3). «Um Tamisa Iívido e lamacento ao anoitecer, quando a maré sobe ao longo dos pilares das pontes: neste cenário que as crónicas deste ano trouxeram à actualidade sob a luz mais lúgubre, um barco avança a rasar os troncos flutuantes, as chatas, os destroços. À proa do barco, um homem de olhar de abutre fita a corrente como quem procura alguma coisa; aos remos, semi-oculta por um capuz e uma capa de oleado, está uma donzela de rosto angélico. O que procuram? Não se tarda a perceber que o homem recolhe cadáveres de suicidas ou de assassinados atirados ao rio: para este tipo de pesca as águas do Tamisa parece que todos os dias são generosas. Avistado um corpo à flor das águas, o homem é rápido a esvaziar-lhe os bolsos das moedas de ouro, e depois a puxá-lo com uma corda até um posto da polícia na margem, onde receberá uma recompensa. A donzela angélica, filha do barqueiro, tenta não olhar para o macabro achado; está aterrada, mas continua a remar.» Italo Calvino, ensaio (Charles Dickens, Our Mutual Friend) publicado no volume Porquê Ler os Clássicos?
ESTOU A LER (2). «Estudo, desde há semanas, a biografia de Louis de Rougemont, considerado um pioneiro em toda a acepção da palavra, o primeiro caso moderno de viajante imóvel. Este viajante helvético, que há mais de um século causou sensação em Londres publicando na Wide World Magazine as espectaculares crónicas das suas experiências viajantes, podia ter contado que tinha estado entre canibais em Maiorca, mas preferiu ir muito mais longe. Foi para os antípodas, a Austrália. Antes, tinha-se dedicado, entre escafandros e batíscafos, à pesca de pérolas frente à costa meridional da Nova Guiné, mas uma tempestade desviou-o para o continente australiano, onde durante trinta anos foi chefe de uma tribo canibal, viajou em cima de tartarugas gigantes, curou-se de certas doenças dormindo dentro de búfalos mortos, e teve um filho da nativa Yamba, que ela devorou em frente dele. Uma vida que impressionou os ingleses. Quando a patranha foi descoberta — o tal Rougemont, na realidade, chamava-se Green (ou Grin) e, embora tivesse sido açougueiro na Austrália, a maior parte da sua vida não tinha saído da biblioteca do Museu Britânico —, o genial fabulador procurou sobreviver dando conferências e anunciando-se como o maior embusteiro do mundo. Sir Osbert Sitwell, que seguiu os seus tristes últimos passos, recorda-o a vender fósforos na Avenida Shaftesbury. “Este fantasma sem abrigo vestia um sobretudo velho e esfarrapado, sobre o qual caía o seu cabelo ralo, e tinha um rosto sereno, filosófico, curiosamente inteligente. Comprei-lhe uma caixa e disse-me, como se sussurrasse, que os fósforos eram verdadeiros.”» Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel

27 de outubro de 2011

OS TANSOS DO COSTUME. Definitivamente que a Igreja Católica não tem emenda. Ansiosa por apoucar o mais recente livro de Rodrigues dos Santos, precipitou-se e acabou por fazer precisamente o contrário do que pretendia: promover aquilo que, na sua opinião, é uma obra medíocre, aguçando o apetite a quem não daria pelo livro caso não fosse a polémica. Verdade que o autor e seus promotores fizeram os possíveis para provocar a ira da igreja, mas julguei que até por esse motivo a igreja não cairia na esparrela. Como é evidente, enganei-me. A Igreja Católica voltou a cair na armadilha, e caiu no ridículo. O Último Segredo «não é verdadeira literatura»? «É uma imitação requentada, superficial e maçuda»? Não li, mas não me surpreenderia. Tal como não me surpreende quando a Igreja Católica acusa Rodrigues dos Santos de «intolerância desabrida» por alegadamente o romancista ter questionado a «fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam», outra burrice. Obviamente que a polémica tem um beneficiário: Rodrigues dos Santos, que assim alcança, com o seu mais recente romance, um impacto que dificilmente teria se o motivo fosse estritamente literário. E claramente um prejudicado: a Igreja Católica, que mais uma vez demonstrou não saber lidar com quem lhe questiona os dogmas, mesmo numa obra de ficção, acabando a promover o que detesta e a dar mais um tiro no pé.

25 de outubro de 2011

TARDE E A MÁS HORAS. Obviamente que a renúncia aos subsídios de alojamento por parte do ministro da Administração Interna e do secretário de Estado das Comunidades pecou por tardia, e apenas se concretizou devido à pressão dos media. Será preciso lembrar que num país a sério o expediente destes nossos governantes os levaria à demissão? Será preciso dizer que o expediente, apesar de legal, é eticamente insustentável? Sim, foi preciso dizer tudo isto e muito mais para que os cavalheiros fizessem o mínimo dos mínimos: prescindir de mordomias que o espírito da lei não consagra — e apesar de grande parte dos portugueses estar a ser espoliado, pelo Governo a que pertencem, dos seus rendimentos mais básicos. Sobra o exemplo, o péssimo exemplo, logo vindo de quem se esperariam os melhores exemplos e que fossem os primeiros a praticá-los.

20 de outubro de 2011

BRINCAR COM O FOGO. Como alguém já disse, se o Presidente da República considera que os cortes de subsídios de férias e Natal na administração pública previstos na proposta de lei do Orçamento para o próximo ano representam «a violação de um princípio básico de equidade fiscal», espera-se que aja em conformidade. E agir em conformidade significará fazer uma de duas coisas: obrigar o Governo a retirar a medida do Orçamento, ou vetar um Orçamento que contemple tais medidas. Ao que parece, nada disto vai suceder. Sobra, portanto, uma pergunta: o que pretende Cavaco? Não sou adepto da paz podre, mesmo em períodos em que a paz podre possa ter alguma utilidade. Mas deitar gasolina na fogueira é a última coisa que se espera de um Presidente da República.
Não esquecer

18 de outubro de 2011

A GRANDE MÚSICA (9)

ESTOU A LER (1). «Quem na Holanda tem telhados de alguma importância há-de lembrar-se dum sujeito calvo, baixote, com bigode, que carregava uma pasta impressionante, na qual em letras douradas estava impresso The Chattanooga Petroleum Company. O ouro das letras e aquela palavrinha mágica, Petroleum, impressionavam. Eu próprio só mais tarde descobriria que a companhia tinha de petrolífero apenas o facto de utilizar o alcatrão como matéria prima para os seus produtos.» Rentes de Carvalho, Com os Holandeses

14 de outubro de 2011

MISÉRIA CRIATIVA. Tal como sucedeu com Ninguém Escreve ao Coronel, que escreveu em Paris enquanto vivia na penúria, García Márquez passou apertos financeiros durante grande parte dos catorze meses que demorou a escrever Cem Anos de Solidão, apertos que o levaram a vender alguns bens (automóvel, rádio, televisor, secador de cabelo, aquecedor) e a acumular dívidas resultantes de produtos de primeira necessidade (mercearia, talho, etc.). Segundo García Márquez: el viaje a la semilla, por muitos considerada a mais completa biografia do escritor, Gabo terá enviado ao editor de Cem Anos de Solidão apenas metade do manuscrito por não ter dinheiro bastante para mandar a totalidade, e posteriormente ter-se-á visto obrigado a vender mais uns tarecos para suportar os custos de envio do restante. Sim, antigamente os artistas passavam toda a espécie de privações — e produziam obras notáveis. Hoje há bolsas de criação literária, lugares apropriados para escrever — e o resultado são obras que ao fim de dois anos já ninguém se lembra. Cada vez me convenço mais de que a fartura é inimiga das artes em geral e da literatura em particular, mas talvez seja um sintoma de que estou e ficar velho.

13 de outubro de 2011

ROBERT WALSER NÃO MERECIA ISTO. Por não dominar o alemão, comecei a ler Os Irmãos Tanner em tradução inglesa, e como prefiro em português quando é tradução, comprei a edição da Relógio D’Água mal tive oportunidade. Como demonstrarei a seguir, em má hora, que a tradução é tão má que só vendo. Além das redundâncias («bastante estupefacto», «deliciava bastante», «bastante irrelevante», «os pensamentos podem pensar», etc.), detectei as seguintes misérias só no primeiro capítulo (onze páginas):

«Não era, porém, exactamente esse o caso, pelo menos até agora, na verdade, o contrário é que se verificava, e a tal ponto que o Dr. Klaus começou a recriminar-se vivamente.» (Página 9)

«Eis um novo incumprimento, e apenas provava de forma exemplar que mesmo as pessoas mais escrupulosas nunca conseguem cumprir todos os seus deveres, mais ainda, que são sobretudo elas quem muitas vezes ignoram os seus deveres mais importantes para só mais tarde, porventura tarde de mais, se lembrarem de novo deles.» (Página 10)


«Ainda vais a tempo de te tornares um excelente e brilhante vencedor, e nem imaginas até que ponto um vendedor tem a oportunidade de transformar a sua vida numa vida fundamentalmente cheia de vida.» (Página 11)

«Talvez devesse ter intervindo mais cedo e ajudado mais com actos e menos com palavras de incentivo, mas não sei, orgulhoso como és, com um orgulho que se ajuda sempre e apenas a si próprio, se calhar mais depressa te ofendia, em vez de te convencer.» (Página 11)

«Talvez sejas mais rico do que eu, talvez tenhas mais esperanças e mais razão em acalentá-las, tens planos e perspectivas que eu nem sequer posso imaginar, na verdade já não te conheço bem, e como seria isso possível depois de tantos anos de separação?» (Página 12)

«Talvez ainda venha a ver todos os meus irmãos felizes, em todo o caso, gostaria de te ver alegre.» (Página 12)

«O senhor desiludiu-me, não ponha essa cara de espanto, não há nada a fazer, deixo hoje a sua livraria e peço-lhe que me pague o que me deve.» (Página 12)

«Do escritório ao lado, cinco cabeças lado a lado de empregados e ajudantes observavam e escutavam a cena.» (Página 13)

«Depois procuramos um lugarzinho fresco na orla da floresta, onde os olhos, enquanto estamos assim deitados, têm diante de si uma imagem fabulosa, onde os sentidos repousam naturalmente e onde os pensamentos podem pensar a seu bel-prazer.» (Página 15)

«Conhecia gente de trato agradável, escrevia com ligeireza e sem cansaço o dia inteiro, fazia contas, anotava o que lhe ditavam, com grande destreza aliás, comportava-se lindamente para sua própria surpresa, o que levou a que o seu superior se interessasse vivamente por ele, bebia todas as tardes a sua chávena de chá e, enquanto escrevia, olhava para a janela clara e arejada e sonhava.» (Página 15)

Constato, alarmado, que comprei mais dois títulos de Robert Walser (O Ajudante e Jakob von Gunten), também da mesma editora, e corro a ver quem traduziu. Confirmo o pior cenário: o tradutor foi o mesmo. Lidos os primeiros parágrafos, lá está a marca inconfundível:

«Esperou ainda um momento, como se reflectisse sobre alguma coisa, sem dúvida bastante irrelevante, depois premiu o botão da campainha eléctrica e chegou alguém para lhe abrir a porta, a criada ao que tudo indicava.» (O Ajudante, logo no primeiro parágrafo)

«Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas.» (Jakob von Gunten, logo a abrir)

Parecem-me, contudo, um pouco melhor traduzidos, ou melhor revistos, que o revisor foi outro e eu não tenho a certeza se o problema foi da tradução ou da revisão. Numa coisa, porém, tenho a certeza: vou retomar a versão inglesa d’Os Irmãos Tanner, e não lerei os restantes na tradução portuguesa. Além de me considerar lesado em cinquenta e tal euros, lamento, sobretudo, pelo escritor, que obviamente não merecia tanta mediocridade.

10 de outubro de 2011

OS ABRANTES. Nunca prestei grande atenção à polémica dos Abrantes, muito menos aos Abrantes propriamente ditos. Mas não deixa de ser engraçado constatar-se que os mais aguerridos activistas anti-Abrantes estão hoje como os Abrantes, senão pior. Como costumava dizer um deles, que por via de um lugarzinho entretanto arranjado passou do azedume à fidelidade canina, estão bem uns para os outros.
TOMEM NOTA. Os políticos profissionais «não têm actividade profissional que não seja a política». Sendo a política, e só a política, a sua actividade profissional, os políticos profissionais «precisam desesperadamente de não ser despedidos». E para não serem despedidos «precisam que o patrão, o aparelho partidário, ou uma personalidade que os apadrinha, nunca os deixe cair». Por isso se tornam especialistas a «manobrar o sistema de apoios e alianças necessários» para «irem a deputados», «vereadores ou assessores de qualquer coisa», e «têm de estar sempre de bem com os que lhes dão os lugares». Como é evidente, não podem, por isso, «dar-se ao luxo de terem opiniões próprias», nem terem a «liberdade fundamental» que é dizer «não». Eis, em resumo, o que disse Pacheco Pereira na última Sábado, e em que vale a pena meditar.

16 de setembro de 2011

FÉRIAS. Vou de férias nas próximas semanas, durante as quais tenciono abastecer-me de livros e de sol, de figos de uma certa figueira e de uvas de uma certa vinha, da velha e boa gastronomia portuguesa e de um vinho do Porto que eu cá sei — e, de caminho, engordar mais uns quilitos. Se tudo correr conforme espero, regresso no dia 10 do mês que vem.

15 de setembro de 2011

BAPTISTA-BASTOS. Apesar de quase sempre discordar dos seus pontos de vista, tenho-o como um dos melhores praticantes da língua portuguesa a escrever nos jornais. Espanta-me, por isso, que se tenha referido a Maria de Belém Roseira como presidenta do PS, tanto mais que o ilustre jornalista tem por hábito recorrer, e bem, ao «português antigo» dos clássicos portugueses. Como já foi dito e demonstrado, presidenta é um disparate. Um disparate porventura bem-intencionado, mas um disparate.
ESCUTAS. Tirando o Expresso e o Público, o primeiro por razões mais empresarias que jornalísticas e o segundo porque envolveu um ex-jornalista da casa, ninguém quer realmente saber das escutas das secretas ao jornalista Nuno Simas. Não tenho dados que o comprovem, mas ainda assim arrisco um diagnóstico: os portugueses imaginam que as secretas fazem tudo o que se diz e o que não se diz, e como assim é aceitam a coisa como uma fatalidade. Como imaginam, suponho, que as secretas não cumprem cabalmente a missão que lhes está confiada, como fatalmente acontece com a generalidade dos órgãos do Estado.

14 de setembro de 2011

ESQUERDA vs DIREITA. Tal como a esquerda, que vê o Estado como o paizinho de toda a gente, a direita, que na oposição tanto se bate pelo corte nas despesas, uma vez no Governo faz o mesmo que a esquerda. Como se vê pelo actual Governo (mas nem era preciso), se for preciso mais dinheiro, aumenta-se a receita. Talvez pior: a avaliar pelas nomeações já efectuadas, segundo alguns nem sempre transparentes, não me surpreenderia que as despesas do Estado já tenham aumentado, as tais despesas que o actual primeiro-ministro prometeu reduzir caso o PSD fosse Governo. Seria bom, portanto, que da próxima vez que ouvirmos os políticos clamar que é preciso cortar a despesa exigir-lhes que nos digam, em concreto, onde cortar. Em fundações? Em organismos públicos que ninguém sabe para que servem? Muito bem. Digam-nos que fundações, que organismos, e quanto poupará o Estado livrando-se deles. Assim ficaremos a saber de que falam os políticos quando falam de corte das despesas, e ser-lhes-á mais difícil não pôr em prática o que prometem.

13 de setembro de 2011

PARIS É UMA FESTA. «Cuando se comió el último franco del pasaje de regreso, [García Márquez] recogió botellas, revistas y periódicos viejos y los cambió por algunos francos. Por fortuna, nunca le faltaron una botella de vino y una baguette sobre la mesa y siempre tendría a su disposición la cocina de algún amigo para preparar unos spaghetti de emergencia. Había un recurso que no fallaba, y es que él y sus compatriotas latinoamericanos en la misma situación habian descubierto que "si uno compraba un bistec, el carnicero regalaba un hueso y se hacía un caldo. A veces uno pedía prestado el hueso para hacer su caldo y lo devolvía".» Dasso Saldívar, El viaje a la semilla

12 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO. Passei o aniversário do 11 de Setembro a remediar mazelas causadas pela dona Irene, o furacão que me criou mais problemas que a tragédia que domingo se assinalou. Não tive tempo, por isso, para as dezenas de horas de televisão, muito menos para os quilómetros de prosa que por aí se publicaram. Hoje, uma leitura por alto da imprensa atrasada confirmou o que eu suspeitava: não perdi grande coisa. O que vi foram ditos de ocasião, dezenas de lugares-comuns, banalidades. Para não variar, o jornalismo português voltou a parir um rato.

9 de setembro de 2011

GARCÍA MÁRQUEZ. Feita uma rápida pesquisa na internet, descubro que El viaje a la semilla, do colombiano Dasso Saldívar, não tem edição em português. Não sei se é a melhor biografia de García Márquez, como alguns garantem, mas é um livro magnífico. Estão à espera de quê as editoras portuguesas?

7 de setembro de 2011

COM AMIGOS DESTES. Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Morais Sarmento, Mira Amaral, Vasco Graça Moura, Pacheco Pereira, Lobo Xavier, Pires de Lima. O que tem esta gente em comum? São, como é óbvio, ilustres militantes do PSD e do CDS que já manifestaram descontentamento com a política do actual Governo. Bem sei que algumas críticas são meros ajustes de contas, mas convenhamos que, mesmo assim, é caso para dizer: com aliados destes, nem são precisos adversários. Aliás, o maior partido da oposição tem-se pautado por uma falta de comparência que mete dó.

5 de setembro de 2011

COMUNICAÇÃO, DIZEM ELES. Há um problema de comunicação, dizem os partidos que sustentam o Governo. Segundo eles, o país não fala noutra coisa que não seja aumento de impostos (vão três em dois meses), e de cortes na despesa não se ouve palavra. Como ninguém acredita que o Governo fez cortes na despesa e se esqueceu de os anunciar, o que quererão centristas e sociais-democratas realmente dizer quando dizem haver um problema de comunicação? Quererão dizer que é preciso mais (ou melhor) cosmética para esconder a realidade?

1 de setembro de 2011

DÉJÀ VU. Tirando os fanáticos das teorias da conspiração, quem não sabe que os autores do 11 de Setembro foram extremistas islâmicos, que odeiam a liberdade e a América? Não se percebe, portanto, a indignação de algumas organizações islâmicas face à publicação de um livro para crianças sobre o 11 de Setembro, onde se diz, preto no branco, quem fez o que todos sabem. Quando se esperaria que o Islão dito moderado se insurgisse contra o fundamentalismo caseiro, insurge-se contra quem se limita a revelar os factos. Terão razão os seguidores de Maomé quando se dizem discriminados e olhados com desconfiança, mas a verdade é que nada fazem para que sejam tratados doutra maneira. Pelo contrário. As acções (e omissões) de que são protagonistas provocam precisamente o inverso do que pretendem, e não me parece que se possa dizer que se devam a inépcia de quem as promove — muito menos a má-fé de quem se destina.

30 de agosto de 2011

UM POUCO DE CINISMO. Como resido no estrangeiro, conheço mal o trabalho da jornalista Cândida Pinto. Sei, porém, que é apreciado, ao que parece pelas melhores razões, e isso é uma boa notícia. Mas haverá coroa de glória maior para um certo jornalismo televisivo que fazer um directo durante uma troca de tiros? Sim, levar um tiro ainda seria melhor, mas isso talvez fosse pedir demasiado. Desculpem o cinismo, mas eu não simpatizo com o jornalismo que arrisca a pele para dizer o que já se sabe, que não acrescenta um milímetro ao que já se conhece. Simplificando, não simpatizo com o jornalismo exibicionista. Estar lá não basta. É preciso que o estar lá acrescente alguma coisa à notícia, e a circunstância de estar lá não se torne o centro da notícia. Não me refiro especialmente à reportagem de Cândida Pinto, e até admito que o caso possa não ser um bom exemplo. Falo em geral, e geralmente é assim.