27 de março de 2012
DESPENALIZEM-NO. Provavelmente o ciclismo é o desporto profissional que mais usa substâncias proibidas para aumentar o rendimento dos seus atletas — ou, então, é o desporto profissional mais vigiado. Não há época velocipédica que não se detecte o chamado doping em figuras de primeira linha, e são tantos os exemplos que não é exagero suspeitar-se que a generalidade dos ciclistas consome substâncias proibidas. A diferença é que uns são apanhados, outros não. Não faço ideia se o espanhol Alberto Contador, último caso conhecido, é inocente do que foi considerado culpado, como o ciclista reclama, mas a verdade é que não me lembro de um único ciclista admitir o consumo de substâncias proibidas, mesmo depois de todas as evidências, e também não me lembro de um recurso dar razão ao acusado. Defendo, por isso, o fim do controlo anti-doping, que cada atleta ingira livremente o que muito bem lhe apetecer — antes, durante ou depois de competir. Afinal, o doping sempre existiu — antes e depois do controlo, antes e depois de novas substâncias passarem a constar da lista de produtos proibidos. Apesar da vigilância cada vez mais apertada, o doping continua a existir, e salvo um ou outro percalço o crime compensa. Aliás, como saber se os inventos de Thomas Edison não resultaram da ingestão de químicos que mantinha por perto, nomeadamente cocaína, morfina, estricnina e ópio, além de um tal vinho Mariani, que entre outros ingredientes conteria cocaína? Como saber se a teoria da relatividade de Einstein não resultou do consumo de coca ou LSD, este último detectado no sangue após a sua morte? Como saber, afinal, se os grandes feitos da Humanidade não resultaram, todos eles, da ingestão de substâncias que potenciaram o desempenho do corpo ou da mente, proibidas ou não? E mudam o quê se vier a demonstrar-se que assim foi?
23 de março de 2012
BANALIZAR A GREVE GERAL. O líder da CGTP justificou o fracasso da greve geral de ontem (muito menos adesão do que desejava, mesmo em empresas onde as adesões costumam ser elevadas) com o argumento de que «os trabalhadores estão com medo de fazer greve», e porque houve «intimidação no local de trabalho». Dando de barato que isto é verdadeiro, que benefícios teriam alcançado os grevistas caso o número fosse significativamente maior? Quais eram, já agora, os objectivos desta greve geral? Que eu saiba, a ideia foi protestar por protestar, e o resultado foram incalculáveis prejuízos para o país e zero benefícios para os trabalhadores. Pior: banalizou-se a greve geral, uma espécie de bomba atómica que apenas devia ser usada pelas centrais sindicais em circunstâncias excepcionais.
COISAS EVIDENTES. José Manuel Pureza no DN de hoje: «O facto de serem os juízes a interpor uma ação judicial [contra membros do anterior Executivo] que eles próprios vão julgar causa engulhos a qualquer defensor do princípio básico da separação dos poderes.» Vasco Pulido Valente no Público de hoje (disponível só para assinantes): «Nada explica que a Procuradoria-Geral da República e os tribunais tomem sobre si o encargo de fazer justiça em matéria política: um serviço que obviamente lhes não compete e que, levado ao extremo, pode alterar o equilíbrio constitucional da República.»
22 de março de 2012
QUE A COLUNA NUNCA LHE DOA. Até ver, António Costa é o mais forte candidato a candidato à Presidência da República — apesar de Santana Lopes, de Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso, todos hipóteses a não desprezar. Deve ser por isso, portanto, que o João Gonçalves já mudou de opinião sobre o edil lisboeta, sobre quem ainda há pouco disse cobras e lagartos, como aqui lembra o Filipe Nunes Vicente. Quem sabe se o actual assessor do ministro da propaganda assim transite directamente do gabinete de Miguel Relvas para um qualquer gabinete de António Costa caso António Costa seja, evidentemente, candidato, e sendo candidato vença as eleições. Só não muda de opinião quem nunca teve uma opinião, como também lembra o Filipe — e é costume dizer-se que só os burros não mudam de opinião. E burro é coisa que o João Gonçalves não é.
21 de março de 2012
POETAS DE ÁGUA DOCE. Terminaram cedo as minhas veleidades poéticas, logo após a leitura de Pessoa, e depois de Cesário, Sophia, Herberto e do senhor O’Neill, quase senti vergonha de ter feito uns versinhos. Reza a lenda que somos um país de poetas, embora desconfie que também outros países reclamem o mesmo estatuto. Mas quando alguém diz que somos um país de poetas, apetece-me acrescentar que somos um país de poetas de água doce, expressão como o dicionário define os poetas de maus versos. Os exemplos são muitíssimos, e há-os para todos os gostos. Qualquer analfabeto que conhece uns rudimentos da língua em que diariamente se expressa consegue alinhavar uns versinhos em que a bota emparelha com a perdigota, e por isso se julga à altura de dar à estampa ou mesmo de antologia — e é vê-lo como incha de gozo quando alguém o trata por poeta ou adjectivos assim. Mas não me refiro apenas à poesia popular — ou ao gosto popular, ou como lhe queiram chamar. Refiro-me também à poesia que passa por ser erudita, mas que no fundo é um mero jogo de palavras que tem tanto de erudito como a Modestine de Stevenson — e se destina, claro está, a impressionar os pategos. Sim, hoje é Dia Mundial da Poesia, soberana ocasião para nos embebedarmos de versos e cantarmos as musas. Mas eu permaneço sóbrio, estranhamente sóbrio, e talvez mais logo leia as últimas páginas de um livro divinamente escrito por um cavalheiro que nada sabia de versos.
VÍRGULAS. «Há sempre uma vírgula [no sistema legislativo português], um artigo, um parágrafo a acrescentar. Todos conhecemos o resultado final. A complexidade do nosso sistema legislativo paralisa-o e é uma das principais causas da morosidade e da ineficácia do sistema jurídico», lê-se no editorial do Público de hoje (disponível só para assinantes), que louva a iniciativa de criar uma comissão para simplificar a legislação produzida pelo Parlamento. Ora, a que se deve o excesso de vírgulas ou as vírgulas fora do lugar? Estão lá por incompetência de quem redigiu as leis (ou as aprovou, ou as duas coisas), ou foram lá postas de modo a gerar equívocos, buracos muitíssimo oportunos em certas ocasiões, interpretações de toda a ordem e feitio, que depois são explorados em benefício próprio por uns senhores que, certamente por coincidência, são os mesmos que fizeram essas leis?
19 de março de 2012
PÉSSIMOS EXEMPLOS. Depois da TAP, porque o Governo entendeu que a TAP é «uma empresa em concorrência e que está em fase de privatização», também na Caixa Geral de Depósitos não serão feitos os cortes salariais previstos para a generalidade das empresas do Estado, ao que parece por razões idênticas. E mais excepções virão, como se viu poucos dias depois, com os trabalhadores da Casa da Moeda a exigir o mesmo tratamento. Ora, o que significam as excepções? Significam, antes de mais, que o Governo recuou, atitude que por si só não me parece condenável. O problema é que este recuo significa despenalizar alguns dos trabalhadores do sector empresarial do Estado que mais privilégios têm, e isso é inaceitável. Inaceitável, e escandaloso. O sr. Presidente da República, que ultimamente tagarela por tudo e por nada, não tem nada a dizer sobre esta matéria?
16 de março de 2012
SENSO COMUM. De economia pouco mais sei o que vem nos dicionários, mas como aguentar a austeridade em curso (e o mais que se adivinha) sem crescimento económico? A austeridade em vigor produz inevitavelmente falências e desemprego, logo menos receita para o Estado — que mais tarde ou mais cedo ver-se-á obrigado a ir buscar mais dinheiro aos bolsos dos portugueses, de que resultarão ainda mais falências, ainda mais desemprego, e ainda menos receita. Com a economia a não crescer (nem se vê como possa crescer no actual cenário), e como consequência as receitas do Estado a diminuírem (ou a manterem-se à custa de ainda mais sacrifícios), a política em curso não pode acabar bem. Mais do que uma querela entre entusiastas da intervenção do Estado na economia e defensores do mercado livre, teorias aplicadas com sucesso em alguns casos e desastrosas noutros, parecer-me-ia útil pôr de lado as cartilhas e encarar a questão pelo senso comum. E o senso comum diz-me que por aqui não vamos lá, embora também eu não saiba por onde ir.
14 de março de 2012
O FIM DO MUNDO. Desde que me conheço que me lembro de pairar sobre as nossas cabeças uma qualquer ameaça, real ou imaginária, prometendo mandar a nossa insignificante vidinha para o maneta. Agora é a Grécia que ameaça dar cabo do que resta da Europa, ontem foi a gripe das aves que ameaçou dizimar meio mundo, amanhã será o Irão que varrerá Israel do mapa se entretanto não suceder o contrário. Atribuo, por isso, escassa importância às catástrofes anunciadas, e lembro-me invariavelmente de quem, há séculos, já dizia que Portugal estava à beira do abismo, e a verdade é que ainda aqui estamos. Aliás, terão notado que as catástrofes de que temos sido vítimas (catástrofes naturais, económicas, políticas) ninguém as previu ou anunciou, ao passo que as catástrofes previstas, geralmente anunciadas com grande alarido, nunca se concretizam. Claro que a vida sem dramas e perigos eminentes seria demasiado monótona, e sem estas profecias os media ver-se-iam ainda mais aflitos do que já andam. Mas convém não entrar em alarmismos infundados, que a realidade já nos assusta que chegue.
13 de março de 2012
BIOGRAFIAS. Percebo que as biografias invariavelmente comecem pelos mais verdes anos dos biografados, mesmo pelos antepassados mais remotos, mas a verdade é que raramente vislumbro interesse nos verdes anos e nos antepassados, e quando isso sucede (e sucede quase sempre) geralmente canso-me antes de chegar ao que me interessa, acabando por adiar a leitura para melhores dias. Dos biografados apenas me interessa o que respeita à obra, a não ser que as origens dos biografados os tenham marcado de forma determinante, o que, admito, sucede em alguns casos. Mas tirando o que me parecem excepções, os verdes nada acrescentam. Quando muito acrescentam dezenas de páginas, às vezes centenas, que biografia que se preze tem largas centenas de páginas, que há que encher a todo o custo. Sou dos que lê vários livros ao mesmo tempo, mas nem isso explica as dezenas de biografias começadas e só meia dúzia acabadas.
9 de março de 2012
LAMENTÁVEL. Já aqui defendi a necessidade de ajudar o Presidente da República a terminar o mandato com dignidade. Como hoje voltou a demonstrar-se, não vai ser fácil. Cavaco insiste em protagonizar episódios lamentáveis e despropositados, que apenas servem para distanciar ainda mais os cidadãos dos políticos em geral e dos governantes em particular, e desbaratar o escasso respeito que os portugueses lhe reservam. A «falta de lealdade institucional histórica» do então primeiro-ministro José Sócrates para com ele, Presidente da República, de que Cavaco se queixa no prefácio de um livro, poderá ter acontecido, mas quem já se esqueceu das escutas que a Presidência insinuou que o Governo lhe terá feito que terminaram com Cavaco a meter os pés pelas mãos na mais lamentável declaração ao país de que há memória? O Presidente Cavaco não tem, de facto, autoridade moral para se queixar de falta de lealdade. Nem autoridade, nem sentido de Estado. Afinal, o episódio mais não é que um mero ajuste de contas, que só o diminui como Presidente.
8 de março de 2012
ORTOGRAFIA E IDEOLOGIA. Quem tem seguido a polémica à volta do Acordo Ortográfico, antes e depois de ser aprovado, há-de ter reparado que a generalidade da esquerda foi, e continua a ser, a favor, e a generalidade da direita foi, e continua a ser, contra. Há-de ter reparado mais: tirando um caso ou outro, geralmente porque as publicações onde trabalham (ou colaboram) adoptaram a nova grafia, os nossos melhores cronistas (falo apenas do ponto de vista estilístico) escrevem como se o Acordo não existisse. Porque têm dificuldade em adaptar-se à nova grafia? Porque a mudança implica um esforço que não estão dispostos a fazer? Porque sempre escreveram assim? Não me parece. O que significa, então, esta disputa entre esquerda e direita a propósito do Acordo? Que a esquerda, adoptando o Acordo, é moderna, e a direita, recusando-o, é retrógrada? Que os nossos melhores praticantes da língua a escrever na imprensa (para não falar dos blogues) são de direita ou andam lá perto, é um facto indesmentível, concorde-se, ou não, com as ideias que defendem. Já a esquerda parece adoptar o Acordo porque é moderno, porque será uma atitude progressista, porque sim. Convenhamos que os argumentos são tão incipientes que nem vale a pena rebater, embora, há que dizê-lo, nada surpreendentes. Afinal, há muito que a esquerda nos habituou a vê-la defender ideias que nem como tal se aguentam, e quase sempre impraticáveis. Estou à vontade para dizer o que digo: ao contrário do que muitos julgarão, sou, como sempre fui, independente. E ser independente significa, para mim, concordar com a direita em todos os casos que achar que a direita tem razão, e discordar da esquerda em todos os casos que achar que a esquerda não tem razão. Ou o contrário. Tenho, em política, um princípio sagrado: sou a favor do que julgo estar certo, contra o que julgo estar errado. Implique isso estar ao lado da esquerda ou contra ela, implique isto estar ao lado da direita ou contra ela. A política é demasiado complexa para que possa ser vista a preto e branco, como tende a ser vista pelos fiéis de ambos os lados — embora eu nada tenha contra quem esteja de um lado ou do outro, e não me custe reconhecer que há quem lá esteja e pense pela sua própria cabeça.
ORTOGRAFIA. É lamentável que o jornal que provavelmente melhor trata a língua portuguesa, e que até tem um provedor especialmente atento a ela, tenha trocado o por que pelo porque, embora já lá tenha visto erros bem mais grosseiros. Mas aproveitar o erro para lembrar que o Público aderiu ao novo Acordo Ortográfico, como fez o Filipe, é uma inverdade que o Público não merece. Então o Filipe ignora que o Público, benza-o deus, é dos poucos jornais portugueses que não só não adoptou o Acordo como se opõe a ele? E que é o jornal que mais tem contribuído para o debate sobre o dito, sem o qual provavelmente já o teríamos aceite como uma inevitalidade? Oh Filipe, preste lá um pouco de atenção ao Público, que diabo. Nem que seja para lhe detectar os erros e arrear-lhe em conformidade.
6 de março de 2012
COISAS ESTRANHAS. De facto, são muito estranhos os números da GfK, empresa alemã que substituiu a Marktest na medição das audiências televisivas. Estranhos porque a incompetência é tanta que se duvida que seja só isso, e mais estranho se torna quando é só a RTP a queixar-se de ter perdido, segundo a nova empresa, um terço das audiências. Não sou entusiasta das teorias da conspiração, mas cheira-me que isto traz água no bico. Resta saber se os números da Marktest eram mais rigorosos ou apenas mais generosos.
ISLÂNDIA. Não faço ideia se o ex-primeiro-ministro islandês é culpado pela falência da banca do seu país, nem se o tribunal que o julga por esse motivo será capaz de o condenar caso se demonstre que Geir Haarde é culpado. Mas agrada-me a ideia de haver um tribunal que pode julgar os governantes — ou ex-governantes — pelos seus actos.
5 de março de 2012
PROPAGANDA. O que já não teria dito o João Gonçalves de Álvaro Santos Pereira caso o ministro não integrasse o Governo que lhe paga para dizer esta estrumeira moral.
MAIS COISAS SIMPLES. «(...) o único ajustamento [ao Acordo Ortográfico] que me parece adequado seria a anulação de tamanha vergonha. (...) Conheço poucos processos tão unilaterais quanto o AO, não só porque alguns dos países envolvidos se recusam a aplicá-lo, mas sobretudo porque se trata de uma invenção de emproados com demasiado tempo livre e de uma imposição política e postiça.»
2 de março de 2012
AO CUIDADO DA ASAE. Acabo de receber dois pares de mouras lá da terra (em alguns sítios também conhecidos por chouriços de sangue), que tenciono despachar daqui a pouco com uns grelos da Califórnia, duas batatas do Idaho, um fio de azeite da Toscânia, e um tinto do Cartaxo. Se tudo correr bem, no final haverá pão-de-ló, e um vinho fino que eu cá sei. Depois falamos de colesterol, de tofu, de ginástica, coisas assim.
1 de março de 2012
DO RESPEITO. Os políticos ignoram as perguntas dos jornalistas? Riem-se deles? Acusam-nos de deturpar o que dizem? Está mal, mas se calhar o primeiro culpado são os próprios jornalistas. Quem já não ouviu, nas televisões e nas rádios, perguntas parvas? Quem já não assistiu a directos que não acrescentam um milímetro ao que é dito em estúdio? Vem nos livros que para ser respeitado é preciso dar-se ao respeito, e os jornalistas nem sempre se dão ao respeito. Verdade que a culpa nem sempre é deles, que muitas vezes é de quem manda neles, também eles pressionados por «objectivos» que é preciso cumprir. Só que o jornalismo que abdicou de se dar ao respeito acabará por perder tudo o que dantes possa ter ganho. É que o respeito, uma vez perdido, jamais se recuperará.
29 de fevereiro de 2012
THOMAS MANN. Após vários adiamentos, li A Montanha Mágica, e escassas páginas bastaram para ver que estava diante um livro notável. Sabia, à partida, que A Montanha é um grande livro, mas devo dizer que a circunstância não condicionou a minha opinião. Nem antes de o ler, nem depois de o ler. As referências elogiosas a um livro ou autor despertam-me, quando muito, curiosidade e incentivam-me a lê-lo (e já não é pouco), mas o juízo final sou eu quem o faz. Sou dos que prefere errar pela sua própria cabeça a acertar pela cabeça dos outros, com todas as virtudes e defeitos daí resultantes. E a minha sentença não me oferece dúvidas: se A Montanha Mágica não é uma obra-prima, não sei o que é uma obra-prima. Li com alguma dificuldade Morte em Veneza, salvo erro numa edição da Europa-América, mas lembro-me que na altura atribuí o escasso entusiasmo à má tradução. Ainda assim lembro-me de algumas passagens, apesar de o ter lido há mais de uma década. Agora vou a meio d’Os Buddenbrook, e apesar do prazer que me está a dar parece-me aquém da Montanha. Espero que Doutor Fausto, que me espreita ali da estante, faça jus à Montanha. Sei que é pedir demasiado, mas quem bebe um vinho fino de cinco estrelas tenderá a pôr defeitos num de quatro.
28 de fevereiro de 2012
FONTES ANÓNIMAS (2). A Agência Lusa diz não ter conseguido «provas conclusivas» de que a fonte anónima que lhe terá garantido que Domingos Paciência terá mantido encontros com dirigentes do FC Porto lhe terá fornecido informações falsas ou agido de má-fé. «Após aturada averiguação feita ao caso», diz a Lusa em nota aos clientes, a direcção de informação decidiu anular a controversa notícia e não divulgar, «para já», a identidade da fonte. Como foi evidente desde o início (disse-o aqui), a «aturada investigação» só podia ter acabado numa mão cheia de nada. Mais valia, portanto, ficarem calados.
COISAS EVIDENTES. Desculpem a presunção, mas há anos que ando a dizer o que agora o director da biblioteca de Harvard confessou à revista Ñ. «Me han invitado a tantas conferencias sobre la muerte del libro que estoy convencido de que el libro está bien vivo. La gente simplifica demasiado las cosas. Pocos entienden que cada año se publican muchos más libros que el año anterior. La impresión de libros se expande a un ritmo vertiginoso, y, de hecho, este año habrá un millón de nuevos títulos impresos. También es cierto que los libros digitales están adquiriendo cada vez más importancia, como nunca antes. Se piensa que el mercado de libros electrónicos ocupa el 15% de las ventas. Es mucho. A los libros electrónicos les está yendo muy bien en EE.UU. Es una tendencia mundial. Los libros electrónicos, por supuesto, se están volviendo cada vez más importantes. Pero, al mismo tiempo, eso sucede con los libros impresos. Entonces, ¿cómo podemos interpretar esta situación? (...) Me parece que la gente hoy comprende la llegada del mundo digital como algo que transforma totalmente nuestra experiencia. Entonces imaginan que los medios de comunicación digitales y analógicos ocupan extremos opuestos del espectro tecnológico. Eso, en mi opinión, es un malentendido de base. Para mí, de hecho, se complementan entre sí.»
27 de fevereiro de 2012
24 de fevereiro de 2012
22 de fevereiro de 2012
TÃO SIMPLES COMO ISTO. «Toda a gente sabe que, não tendo sido ratificado pelas Repúblicas Populares de Angola e de Moçambique, [o Acordo Ortográfico] não entrou em vigor. (…) Ora, sem o AO estar em vigor, a solução é muito simples: continua a vigorar a ortografia que se pretendia alterar. Como estamos num estado de Direito, a solução é só essa e mais nenhuma. E a lei deve ser cumprida por todos.»
21 de fevereiro de 2012
A BOA MOEDA E A MÁ MOEDA (1). Não sei se a atitude de Passos Coelho quando se dirigiu aos manifestantes que o vaiaram em Gouveia foi um acto de modéstia da sua parte ou um gesto devidamente ponderado, mas tiro-lhe o chapéu de qualquer maneira. Não porque o primeiro-ministro tenha feito mais que a sua obrigação, mas porque gestos assim, genuínos ou encenados, são cada vez mais raros, e na minha opinião cada vez mais necessários. Teve uma eficácia acrescida: disparou uma farpa tão oportuna como certeira sobre o Presidente da República, que dias antes vergonhosamente se furtou a uma visita a uma escola onde era aguardado por uma manifestação de descontentamento que nem sequer lhe era directamente destinada. Portugal precisa de um Presidente forte e umas botas? Não há dúvida que precisa. Mas a verdade é que os episódios pouco edificantes protagonizados por Cavaco nos últimos anos em nada contribuíram para que os portugueses o respeitem. Como em tempos se disse de outros governantes, resta, portanto, ajudá-lo a terminar o mandato com dignidade. Pelo rumo que as coisas estão a levar, não vai ser fácil.
17 de fevereiro de 2012
FONTES ANÓNIMAS (1). Depois de ser alvo de um processo — ou ameaça de um processo — por divulgar uma notícia aparentemente falsa, a Agência Lusa resolveu emitir um comunicado onde se penitencia e explica por que tal sucedeu. Segundo ela, uma fonte anónima de «toda a confiança» terá dito ao autor da notícia que Domingos Paciência, então treinador do Sporting, terá mantido encontros com dirigentes do FC Porto, facto que não será verdadeiro. Disse mais: a elaboração da notícia «não respeitou as normas essenciais do Código Deontológico do Jornalista nem as regras do Livro de Estilo da Agência» previstas para estes casos, e caso venha a apurar que a fonte da notícia agiu de má-fé identificá-la-á. Ora, cometer um erro e assumi-lo, é o mínimo que se exige, mas neste caso parece-me pouco. Desde quando se dá uma notícia, ainda por cima uma notícia que iria causar brado, com base em fontes anónimas de que não se está absolutamente seguro? Depois, como saber — e demonstrar — que a tal fonte agiu de má-fé? Perdoar um erro que não tem perdão, ainda vá. Mas fazerem promessas impossíveis de concretizar, só mesmo para enganar o freguês.
15 de fevereiro de 2012
COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Haverá, no sistema penal português, inúmeros procedimentos difíceis de entender, mas este parece-me flagrante. Um suspeito de ter cometido determinado crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva caso um juiz considere perigoso mantê-lo em liberdade. Já um condenado por um tribunal a uma pena de prisão efectiva pode aguardar em liberdade a decisão de um tribunal superior caso o condenado decida para aí recorrer. Estão a ver a lógica da coisa? Eu confesso que não.
14 de fevereiro de 2012
AGUENTA QUE É SERVIÇO. Pergunto-lhe como vão as coisas por ter de falar sem nada que me ocorra, e o sujeito desata a crescer, a crescer, a encher os pulmões — e a seguir despeja-me em cima um arrazoado que logo desisti de ouvir para lhe observar os danos colaterais que um olho matreiro no mais leve movimento das catraias ao balcão não conseguia esconder. Citou Nietzsche mal e a despropósito, embrulhou-se numa teoria do bem-estar que dizia praticar mas claramente não praticava, meteu os pés pelas mãos vezes sem conta, e concluiu o «raciocínio» a barafustar contra «os filhos da puta que nos governam». Terminou o monólogo a segredar-me o que fazia àquela pequena se ela deixasse, e a pequena a perceber que o sujeito falava dela e não devia ser coisa boa. Às vezes, quando o acaso nos junta, descreve-me as proezas sexuais que diz ter praticado ainda ontem mas obviamente não praticou, nem sequer o «papai e mamãe», como diriam as brasileiras que tanto lhe incendeiam a libido. Tudo dito com uma convicção tal que chega a parecer-me que acredita nas suas próprias mentiras, mesmo depois de ajuntar um ou outro detalhe à história que só lha enfraquece. Mas ninguém é perfeito, como ele costuma dizer, embora a modéstia não seja o seu forte.
9 de fevereiro de 2012
ESTRELAS LITERÁRIAS. Considerando que apenas uma ínfima parte dos livros que diariamente se publicam resistirão ao tempo, esse grande juiz, como entender a quantidade de estrelas que os críticos literários atribuem às novidades que vão saindo? E os autores portugueses contemporâneos, que pela quantidade de estrelas que lhe são concedidas a cada novo livro só podem ser obras-primas? Será que alguém se lembrará desses livros daqui a dois ou três anos? Com certeza que há livros e escritores injustamente esquecidos (estou a lembrar-me de Vergílio Ferreira, mas há mais), mas quer-me parecer que o esquecimento não durará para sempre. Mais tarde ou mais cedo regressarão ao convívio com os leitores, que a passagem do tempo faz esquecer mas não apaga inteiramente. Já as «obras-primas» diariamente apregoadas como tal estão, de um modo geral, condenadas ao esquecimento eterno. Bem sei que os críticos literários têm contas a pagar no final do mês, mas fazia-lhes bem meditar nisto.
7 de fevereiro de 2012
NO CENTENÁRIO DE DICKENS. Suspeito que já aqui falei do assunto (não me apetece consultar os arquivos), mas não me canso de recomendar esta passagem de Dickens em que ele descreve a sua chegada a Veneza:
I was awakened after some time (as I thought) by the stopping of the coach. It was now quite night, and we were at the waterside. There lay here, a black boat, with a little house or cabin in it of the same mournful colour. When I had taken my seat in this, the boat was paddled, by two men, towards a great light, lying in the distance on the sea.
Ever and again, there was a dismal sigh of wind. It ruffled the water, and rocked the boat, and sent the dark clouds flying before the stars. I could not but think how strange it was, to be floating away at that hour: leaving the land behind, and going on, towards this light upon the sea. It soon began to burn brighter; and from being one light became a cluster of tapers, twinkling and shining out of the water, as the boat approached towards them by a dreamy kind of track, marked out upon the sea by posts and piles.
We had floated on, five miles or so, over the dark water, when I heard it rippling in my dream, against some obstruction near at hand. Looking out attentively, I saw, through the gloom, a something black and massive - like a shore, but lying close and flat upon the water, like a raft - which we were gliding past. The chief of the two rowers said it was a burial-place.
Full of the interest and wonder which a cemetery lying out there, in the lonely sea, inspired, I turned to gaze upon it as it should recede in our path, when it was quickly shut out from my view. Before I knew by what, or how, I found that we were gliding up a street - a phantom street; the houses rising on both sides, from the water, and the black boat gliding on beneath their windows. Lights were shining from some of these casements, plumbing the depth of the black stream with their reflected rays, but all was profoundly silent.
So we advanced into this ghostly city, continuing to hold our course through narrow streets and lanes, all filled and flowing with water. Some of the corners where our way branched off, were so acute and narrow, that it seemed impossible for the long slender boat to turn them; but the rowers, with a low melodious cry of warning, sent it skimming on without a pause. Sometimes, the rowers of another black boat like our own, echoed the cry, and slackening their speed (as I thought we did ours) would come flitting past us like a dark shadow. Other boats, of the same sombre hue, were lying moored, I thought, to painted pillars, near to dark mysterious doors that opened straight upon the water. Some of these were empty; in some, the rowers lay asleep; towards one, I saw some figures coming down a gloomy archway from the interior of a palace: gaily dressed, and attended by torch-bearers. It was but a glimpse I had of them; for a bridge, so low and close upon the boat that it seemed ready to fall down and crush us: one of the many bridges that perplexed the Dream: blotted them out, instantly. On we went, floating towards the heart of this strange place - with water all about us where never water was elsewhere - clusters of houses, churches, heaps of stately buildings growing out of it - and, everywhere, the same extraordinary silence. Presently, we shot across a broad and open stream; and passing, as I thought, before a spacious paved quay, where the bright lamps with which it was illuminated showed long rows of arches and pillars, of ponderous construction and great strength, but as light to the eye as garlands of hoarfrost or gossamer - and where, for the first time, I saw people walking - arrived at a flight of steps leading from the water to a large mansion, where, having passed through corridors and galleries innumerable, I lay down to rest; listening to the black boats stealing up and down below the window on the rippling water, till I fell asleep.
O livro, Pictures from Italy, pode ser descarregado aqui.
I was awakened after some time (as I thought) by the stopping of the coach. It was now quite night, and we were at the waterside. There lay here, a black boat, with a little house or cabin in it of the same mournful colour. When I had taken my seat in this, the boat was paddled, by two men, towards a great light, lying in the distance on the sea.
Ever and again, there was a dismal sigh of wind. It ruffled the water, and rocked the boat, and sent the dark clouds flying before the stars. I could not but think how strange it was, to be floating away at that hour: leaving the land behind, and going on, towards this light upon the sea. It soon began to burn brighter; and from being one light became a cluster of tapers, twinkling and shining out of the water, as the boat approached towards them by a dreamy kind of track, marked out upon the sea by posts and piles.
We had floated on, five miles or so, over the dark water, when I heard it rippling in my dream, against some obstruction near at hand. Looking out attentively, I saw, through the gloom, a something black and massive - like a shore, but lying close and flat upon the water, like a raft - which we were gliding past. The chief of the two rowers said it was a burial-place.
Full of the interest and wonder which a cemetery lying out there, in the lonely sea, inspired, I turned to gaze upon it as it should recede in our path, when it was quickly shut out from my view. Before I knew by what, or how, I found that we were gliding up a street - a phantom street; the houses rising on both sides, from the water, and the black boat gliding on beneath their windows. Lights were shining from some of these casements, plumbing the depth of the black stream with their reflected rays, but all was profoundly silent.
So we advanced into this ghostly city, continuing to hold our course through narrow streets and lanes, all filled and flowing with water. Some of the corners where our way branched off, were so acute and narrow, that it seemed impossible for the long slender boat to turn them; but the rowers, with a low melodious cry of warning, sent it skimming on without a pause. Sometimes, the rowers of another black boat like our own, echoed the cry, and slackening their speed (as I thought we did ours) would come flitting past us like a dark shadow. Other boats, of the same sombre hue, were lying moored, I thought, to painted pillars, near to dark mysterious doors that opened straight upon the water. Some of these were empty; in some, the rowers lay asleep; towards one, I saw some figures coming down a gloomy archway from the interior of a palace: gaily dressed, and attended by torch-bearers. It was but a glimpse I had of them; for a bridge, so low and close upon the boat that it seemed ready to fall down and crush us: one of the many bridges that perplexed the Dream: blotted them out, instantly. On we went, floating towards the heart of this strange place - with water all about us where never water was elsewhere - clusters of houses, churches, heaps of stately buildings growing out of it - and, everywhere, the same extraordinary silence. Presently, we shot across a broad and open stream; and passing, as I thought, before a spacious paved quay, where the bright lamps with which it was illuminated showed long rows of arches and pillars, of ponderous construction and great strength, but as light to the eye as garlands of hoarfrost or gossamer - and where, for the first time, I saw people walking - arrived at a flight of steps leading from the water to a large mansion, where, having passed through corridors and galleries innumerable, I lay down to rest; listening to the black boats stealing up and down below the window on the rippling water, till I fell asleep.
O livro, Pictures from Italy, pode ser descarregado aqui.
6 de fevereiro de 2012
APLAUSOS. Vasco Graça Moura mandou, e bem, remover a aplicação informática que no Centro Cultural de Belém convertia os textos em português para a grafia imposta pelo novo Acordo Ortográfico. Graça Moura foi dos primeiros a contestar o Acordo, quem mais deu a cara e argumentos contra a sua entrada em vigor, e apesar de ter sido aprovado pela Assembleia da República jamais desistiu de o contestar. Mais: defende que o Acordo não pode entrar em vigor sem a ratificação de Angola e Moçambique, e que é inconstitucional. Não se perceberia, portanto, que aceitasse presidir a uma instituição onde a língua portuguesa não seja tratada segundo os princípios que defende e pelos quais se tem batido. Parece que o estatuto do CCB, fundação pública de direito privado, dispensará a instituição de adoptar o Acordo até 2014, pelo que não terá havido desobediência governamental, como chegou a ser dito. Assim sendo, é uma decisão que se aplaude. Graça Moura foi coerente com o que defende, corajoso num país onde a coragem não abunda, e espevitou o debate à volta de um tema sobre o qual existem cada vez mais dúvidas. Três coelhos de uma só cajadada não é obra para qualquer um.
3 de fevereiro de 2012
AUTOCENSURA. Ele há coincidências, toda a gente sabe que há. Mas quem acredita que a decisão de acabar com um programa da RDP e afastar o colaborador que lá denunciou a fantochada que a RTP transmitiu a partir de Luanda estava tomada antes das críticas irem para o ar? Quem acredita que o afastamento de Pedro Rosa Mendes e a suspensão do programa em que colaborava foi um «acto de gestão normal»? Desconheço se o responsável pela decisão foi pressionado pelo poder, directa ou subtilmente, mas não errarei muito se disser que foi um caso de autocensura. Autocensura, como sabemos, que é a pior das censuras.
1 de fevereiro de 2012
ELOGIO DO CONFLITO. Presidente e Governo garantiram, à vez, que não há problema entre eles. E por que se deram a esse trabalho? Porque há, de facto, um problema entre eles, como até o mais distraído já notou. Mas será um conflito entre o Presidente e o Governo um mal em si mesmo? Depende, claro, da natureza do conflito, mas de um modo geral parece-me positivo. E quando o conflito é entre membros da mesma família política, como o caso presente, ainda me parece melhor. Claro que não é fácil perceber quando o conflito resulta de diferentes pontos de vista ou de razões, digamos, de pequena política. Mas em política o conflito é saudável, se calhar mesmo quando motivado pela pequena política. A unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues já não me lembro a que propósito. A unanimidade em política ainda é mais burra, acrescentaria eu.
31 de janeiro de 2012
INOCENTE PORQUE SIM. Mário Soares escreveu, a propósito do livro Inocente para além de qualquer dúvida, que Carlos Cruz tem vindo «a demonstrar a sua inocência». Ora, de que modo? Publicando livros onde não se espera que diga outra coisa? Publicando livros onde apenas se lê a sua versão dos factos? Publicando livros onde se apresenta como juiz em causa própria? Já disse e repeti que não sei se Cruz é culpado dos crimes de que foi acusado — e, já agora, condenado, apesar do recurso ainda correr no Tribunal da Relação de Lisboa. Mas não será evidente que os livros que ele vem publicando não demonstram coisa alguma? Muitos acham que Cruz está inocente porque se recusam a acreditar que ele foi capaz de cometer os crimes por que foi condenado, porque acham que Cruz é uma pessoa decente, porque são amigos dele e os amigos são para as ocasiões. Resumindo, acreditam na sua inocência porque sim. Já o tribunal considerou-o culpado com base em evidências mais sólidas que o porque sim. Claro que o tribunal se pode ter enganado, mas a quantidade de material que lhe passou pelas mãos e o ror de gente que o processo envolveu torna difícil acreditar na existência de um erro, muito menos numa conspiração. Haverá, quando muito, pequenos erros processuais, mas custa-me a crer que o tribunal tenha errado no essencial. Nada contra Carlos Cruz, mas acredito mais facilmente no tribunal que na versão dele. Pela simples razão de que a versão do tribunal é mais consistente, e presumo que o tribunal não tinha, à partida, interesse que o desfecho do caso fosse numa determinada direcção, como vi insinuado mas nunca fundamentado. Já a versão de Carlos Cruz é a versão de parte interessada. Por mais objectiva e distanciada que se reclame.
30 de janeiro de 2012
UM FAIT DIVERS? Aparentemente, a petição que pede a demissão de Cavaco vai dar em nada. Por força da lei (ninguém o pode demitir), e porque a lei é para cumprir. Mas 39 mil assinaturas a pedir a demissão do Presidente da República por este ter dito o que não devia, convenhamos que não é o fait divers que alguns pretendem fazer crer. Não que eu defenda a demissão de Cavaco por causa do lamentável episódio. Mas não me venham dizer que o que disse o PR sobre a sua reforma e a petição que agora pede a sua demissão não são coisas para levar a sério. Especialmente depois de Cavaco não ter sido capaz de matar o assunto à nascença, como lhe competia, e quando finalmente condescendeu a dar explicações mais valia estar calado.
ISTO ANDA TUDO LIGADO. Como estarão lembrados, há pouco mais de uma semana a RTP promoveu uma espécie de Prós e Prós a partir de Luanda que dificilmente se distinguiria da propaganda do antigo regime, e que ditou o encerramento de um programa da RDP após um seu colaborador denunciar a tramóia. Dois ou três dias depois noticiaram-se mudanças na administração do BCP, por vontade de um dos seus maiores accionistas (a Sonangol), e o despedimento de duas dezenas de jornalistas do Sol, cujo maior accionista é, adivinharam, um grupo angolano. Isto para só falar do que veio a lume na última semana, que os casos multiplicam-se e parte deles nem chega às notícias. Como é evidente, isto não augura nada de bom.
A RTP NÃO TEM NADA A DIZER? Como se viu, foram às dezenas as críticas que nos media se ouviram sobre o Prós e Contras travestido de Reencontro que a RTP emitiu a partir de Luanda. Ora, face a este cenário, a direcção de informação da televisão pública não tem nada a dizer? Não seria de esperar que a RTP, serviço público de televisão, explicasse o critério editorial que presidiu àquilo, e que saísse em defesa da casa e de quem nela trabalha?
25 de janeiro de 2012
FICAMOS À ESPERA DA CURA. Há uma justiça para os ricos e uma justiça para os pobres, disse a ministra da Justiça. Disse mais: há um sem número de fraudes no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente praticados por laboratórios farmacêuticos e fornecedores de equipamentos. Nada que não se detecte a olho nu no primeiro caso, e que não se suspeite no segundo. Mas é bom que seja a ministra a dizê-lo, embora dizê-lo não baste para mudar o que quer que seja. Duvido, aliás, que a ministra consiga curar os males que apontou, como julgo ser sua intenção, mesmo genuinamente convencida de que é capaz e que a vontade nunca lhe falte.
23 de janeiro de 2012
POBREZA DE ESPÍRITO. O Presidente da República demorou três dias a dizer aos portugueses que não foi «suficientemente claro» quando falou sobre as suas pensões de reforma. Ora, se o que disse Cavaco sobre o assunto constituiu um insulto aos portugueses, particularmente aos portugueses que recebem pensões de miséria ou estão no desemprego, vir agora dizer que não foi claro naquilo que foi claro como água, é mais um insulto aos portugueses. O Presidente achará mesmo que a generalidade dos portugueses se identifica com o seu caso, que também ele, como a generalidade dos seus concidadãos, sofreu com as medidas de austeridade impostas pelo Governo? Se acha, só posso concordar com o Alberto Gonçalves quando ele diz que «a tentativa de se aproximar do homem comum na pobreza material levou Cavaco Silva a suplantá-lo em pobreza de espírito». Isto na melhor das hipóteses, que já é suficientemente má para se imaginarem outras piores.
PROPAGANDA VERGONHOSA. O que não diria o João Gonçalves, hoje adjunto do ministro Relvas, do Prós e Contras disfarçado de Reencontro que a RTP, serviço público de televisão, se prestou a fazer a partir de Luanda. Não foi, aliás, por acaso que Pacheco Pereira, destacado militante do PSD, comparou a fantochada às práticas do Estado Novo, e Eduardo Cintra Torres, militante do PSD ou lá próximo, lhe chamou «porcaria». De facto, não me lembro de nada tão vergonhoso.
DEMOCRACIA. Provavelmente grande parte dos inquiridos não tem bem a noção do que a democracia representa, mas ainda assim preocupa que apenas 56% dos portugueses considere preferível a democracia a qualquer outra forma de governo. Pior: segundo o estudo há pouco divulgado, estes números têm vindo a baixar, e 15% dos inquiridos acham mesmo que «nalgumas circunstâncias» é preferível um governo autoritário a um sistema democrático. Porque, diz-se no estudo, os portugueses se sentem cada vez menos representados pelos partidos políticos e cada vez mais pelos «movimentos sociais de protesto». Ora, que os partidos políticos estão cada vez mais distantes dos cidadãos, é uma evidência que se nota cada vez mais e motivo de preocupação. Mas preocupante mesmo é saber que os portugueses se vêm distanciando da democracia. Ficou célebre a frase de Churchill sobre a democracia, que considerou o pior dos sistemas exceptuando todos os outros. Infelizmente, nenhum outro sistema o superou até agora. Com todos os defeitos (que são muitos), a democracia continua a ser o menos mau dos sistemas, o único que permite o que mais prezo: a liberdade, tenha ela as condicionantes que tiver.
19 de janeiro de 2012
UM FILME DEMASIADO VISTO. Para não variar, a história das nomeações para a empresa Águas de Portugal está pessimamente contada, e cheira a um expediente demasiado familiar. Os administradores acabadinhos de nomear são competentes? Serão, e também pertencem aos partidos que integram a coligação governamental — e ninguém acredita em coincidências. Depois há um dos nomeados que enquanto presidente de câmara mantém um contencioso com a Águas de Portugal por não ter pago alguns milhões de euros. Como conciliar os interesses do município que governa com os interesses da empresa de que agora é administrador? Se dúvidas houvesse que as nomeações se destinaram a satisfazer clientelas, este episódio acaba com elas. Evidentemente que nada disto surpreende. Mas é preciso lembrar que, neste aspecto, o actual Governo não se distingue dos anteriores, como tanto gosta de alardear. E ainda a procissão vai no adro.
17 de janeiro de 2012
KAZANTZAKIS. Nova incursão pelos alfarrabistas, mais duas preciosidades a preços ridículos: Report to Greco, de Nikos Kazantzakis, e The Autobiography of William Butler Yeats. Agarrei-me logo ao primeiro como quem não tem mais nada para ler, e desconfio que não porei a vista noutros enquanto não o acabar. Pouco mais de uma centena de páginas bastaram para ver que é um livro a ler devagar, a saborear palavra a palavra como quem saboreia o que mais gosta. O tempo amareleceu-lhe as páginas, e a sujidade é maior que o normal nestes casos. Mas também há sublinhados e comentários nas margens, coisas que irritarão a maioria dos leitores mas que eu encaro como mais-valias.
13 de janeiro de 2012
CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL? O Miguel Castelo Branco esqueceu-se, ao referir-se às abomináveis imagens de soldados americanos a urinar sobre cadáveres talibãs, de um detalhe importante: nas guerras de antigamente não havia máquinas fotográficas, câmaras de filmar e internet ao alcance de qualquer um — e isso, convenhamos, faz toda a diferença. Pior: confunde um episódio isolado com a América, de que demonstra ter uma visão assente nos estereótipos do costume.
MAÇONARIA. O jornalista Ferreira Fernandes publicou, há pouco, uma crónica com o seguinte título: «Hoje, os maçons escondem-se de quê?» De facto, tendo em conta que vivemos em regime democrático, onde os maçons não correm o risco de ser presos ou vítimas de patifarias, a pergunta impõe-se. Exigir que os deputados maçons e outros detentores de cargos políticos declarem a condição de maçons em nome da transparência, como alguns defendem, talvez seja um exagero, e provavelmente é ilegal. Mas não há dúvida de que esta história de amor entre a Maçonaria e o poder, ou entre uma certa Maçonaria e um certo poder, fede que tresanda. Daí que não viria mal ao mundo que os maçons detentores de cargos políticos livremente se assumam como tal. Não duvido que a maçonaria é respeitável, e não estou a ironizar. Mas como distinguir os maçons bons dos maçons maus? E porque não acabam, já agora, com o secretismo, que até hoje ninguém explicou e só gera desconfianças?
POLÍTICA E INTERESSES. Concordo com a generalidade do que disse Francisco Assis no Público de ontem, mas com uma ressalva: é evidente que existe uma direita política e uma direita dos interesses, como ele disse, como é evidente que existe uma esquerda política e uma esquerda dos interesses, como ele não disse. Esquerda e direita não se distinguem neste aspecto, pelo menos a esquerda e a direita moderadas. Talvez seja um exagero dizer que o posicionamento ideológico da maioria dos que actualmente se interessam por política funciona mais por interesse que por convicção, mas a verdade é que são cada vez mais os casos em que isso se torna evidente.
10 de janeiro de 2012
CARLOS CRUZ. Já dei para o processo Casa Pia, e para o processo Carlos Cruz em particular. Como então disse e repeti, não sei se é culpado quem a justiça julgou como tal, incluindo Carlos Cruz, provavelmente o mais inconformado com a decisão do tribunal, que considera um erro clamoroso. Mas será que o livro que vai publicar e o sítio na internet que mantém sobre o caso comprovam alguma coisa, como nos quer fazer crer? Como Carlos Cruz muito bem sabe, o que pôs na internet e no livro, parcialmente transcrito no último Expresso, não prova coisa nenhuma. O que lá está é apenas uma versão dos factos, no caso a sua própria versão, e desnecessário será dizer que a versão dos factos de quem deles é protagonista e parte interessada não pode deixar de ser vista com reserva. Quem está realmente interessado em saber o que se passou sabe bem que o mínimo a fazer é ouvir todas as partes, logo qualquer cidadão não inteiramente analfabeto sabe que o livro não prova coisa nenhuma. Isto no que aos factos diz respeito. Quando a juízos, será preciso lembrar que ninguém é bom juiz em causa própria? Claro que Carlos Cruz pode estar inocente, e se assim for estamos diante uma monstruosidade. Mas quem acredita que os três juízes (repito: três juízes) que o julgaram tenham cometido tamanha monstruosidade? E, já agora, que razões terão tido esses mesmos juízes para, segundo Cruz, não quererem absolvê-lo?
O PAÍS ÀS AVESSAS. Não sei quantos milhões investe o Estado nas universidades públicas. Mas considerando as propinas ridículas pagas pela maioria dos estudantes, devem ser rios de dinheiro. Não percebo, por isso, o comentário de Miguel Relvas quando diz orgulhar-se de a actual emigração ser protagonizada por uma «juventude bem preparada» graças a um substancial investimento do Estado nas últimas décadas. Então o ministro orgulha-se de o Estado investir milhões na formação dos jovens que depois outros países, que não investiram um centavo, irão beneficiar? Além disso, é normal o Governo de um país incentivar os seus próprios cidadãos a emigrar? Estarei a ver mal, ou o Governo deveria fazer precisamente o contrário?
9 de janeiro de 2012
RENTES DE CARVALHO, OUTRA VEZ. Tomei conhecimento da prosa de Rentes de Carvalho na Eito Fora, uma revista que então se publicava em Trás-os-Montes e que viria a dar origem à Periférica, também já extinta. Desde então mantive-me atento ao que dele se foi dizendo e ao que ele foi escrevendo, e logo que pude devorei-lhe os livros. Comecei Com os Holandeses, prossegui com La Coca, e tenho pena de não ter investido em mais uns quantos quando tive oportunidade. Custa a crer que um escritor desta envergadura só tenha sido descoberto pelos portugueses há meia dúzia de anos. (Rentes de Carvalho tem um blogue a que vale a pena estar atento.)
6 de janeiro de 2012
PORTUGAL DOS PEQUENINOS. O João Gonçalves é dos que melhor escreve na blogosfera. Apesar de raramente concordar com ele, não me lembro de alguma vez discordar da forma como constrói as suas prosas. Custa-me, portanto, vê-lo, desde o final do socratismo e princípios do passismo (de que ele disse o piorio antes de se tornar adjunto do ministro Miguel Relvas, como se pode ver aqui), reduzido a meia dúzia de parágrafos semanais, quase sempre para tecer os mais rasgados elogios a quem lhe paga. Interessante como passou do 8 ao 80, da crítica mais cruel — e tantas vezes gratuita — ao panegírico mais descarado. Até um assalariado com modestíssimas funções numa modestíssima empresa não se atreveria a tanto.
5 de janeiro de 2012
UM PECADOR CONFESSA-SE. Fernando Lima, assessor político do presidente Cavaco desde que Cavaco lhe retirou a assessoria de imprensa após um lamentável e mal contado episódio, escreveu numa revista que «uma informação não domesticada constitui uma ameaça» para os governantes. Disse mais: «Controlar o fluxo noticioso numa época de grande competição informativa é de vital importância para o êxito de qualquer iniciativa no plano politico.» A evidência apenas surpreende os ingénuos ou quem vive noutro planeta, mas não deixa de surpreender que um cavalheiro que detém um cargo político faça uma afirmação destas como se falasse da coisa mais trivial. Um detentor de um lugar político que pensa — e age, como ele já demonstrou — deste modo devia ser demitido.
3 de janeiro de 2012
MUDAM-SE OS TEMPOS. Se bem me lembro, Alexandre Soares dos Santos, patrão da Jerónimo Martins, prometia, há pouco, não transferir a sede das suas empresas para o estrangeiro, por razões que então considerou patrióticas. Lembram-se das duas ou três entrevistas televisivas que ele deu há uns meses que tantos elogios lhe valeram? Uma simples pesquisa no Google basta para as encontrar, e vale a pena revê-las. Não sei se a transferência da Jerónimo Martins para a Holanda levanta questões de natureza legal, como esta notícia sugere. Sei, porém, uma coisa: são cada vez mais as grandes e médias empresas portuguesas a transferirem as suas sedes para o estrangeiro, e só estrangeiros malucos ou mal informados, como ainda há pouco dizia Medina Carreira, investirão em Portugal. Assim vamos.
30 de dezembro de 2011
LAMENTÁVEL. A notícia já é velha, mas a questão permanece actual: havia necessidade de dobrar o Equador para português do Brasil? Imagino que os distribuidores (ou lá quem foi) pretenderam, com o expediente, atingir um público mais vasto, mas quem já viu uma telenovela brasileira dobrada para português de Portugal? Sim, duvido que o expediente conquiste maior audiência, e escusado será dizer que uma telenovela brasileira dobrada em português de Portugal soaria ridícula, logo um mau negócio. Dobrar é mais ou menos como traduzir para pior, pelo que a ficção só deve ser traduzida ou dobrada para outra língua quando for mesmo necessário. A ficção deve ser vista (lida, ouvida) no original, e apenas deve ser traduzida ou dobrada quando se destina a um público que desconhece a língua em que foi filmada (escrita, gravada). Como é evidente, não é o caso de Equador. A dobragem foi não só desnecessária como lamentável.
HERÓIS DA TRETA. Já não há pachorra para tanto herói que todos os dias nos chegam pelas televisões cujo «heroísmo» se resume ao simples facto de terem feito o trabalho que lhes competia e deles se espera. Heróis são os que arriscam a vida em prol dos outros, de causas nobres ou julgadas como tal, que protagonizam situações excepcionais para salvar os outros sem que seja essa a sua função. Não um qualquer acto banal, geralmente «inventado» pelas televisões, que depois exploram até à obscenidade.
28 de dezembro de 2011
BULAS. Recomendaram-me que tomasse determinado medicamento para determinada doença. Lida a bula, para quem não sabe o papelinho que acompanha os medicamentos onde se explica tudo e mais alguma coisa (tem outros significados que para aqui não interessam), tudo o que lá se diz sobre o modo como deve ser administrado é por «suspensão oral». Não diz se deve ser tomado com líquidos ou sem líquidos, se de manhã ou à noite, antes ou após as refeições. Deve ser tomado por «suspensão oral», e o resto não interessa. Fui ver ao dicionário o que significa tal coisa, mas confesso que fiquei na mesma. Presumo que se pretende dizer que deve ser tomado pela boca. (Nos Estados Unidos, pelo menos no local onde resido, os frasquinhos de comprimidos vendidos por receita médica vêm com a indicação expressa de que devem ser tomados pela boca, não vá alguém metê-los sabe-se lá onde e o farmacêutico ficar em trabalhos.) Mas se a ideia é mesmo dizer que os medicamentos receitados devem ser tomados pela boca, porquê utilizar uma expressão que não se entende? Terá sido apenas descuido, ou a ideia é impressionar os pategos?
26 de dezembro de 2011
GAFFES. Confesso que ando a ficar um bocado cansado das gaffes, ou das asneiras que passam por gaffes. O primeiro-ministro aconselhou os professores sem trabalho a emigrar quando se esperaria que lhes desse esperança para não o fazerem? Foi uma gaffe. Tempos antes o secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo aconselhou os jovens a fazer o mesmo? Foi uma gaffe. O ex-chefe do Governo e dos socialistas afirmou que honrar os compromissos é coisa de crianças? Foi uma gaffe. Um deputado do PS diz que se está «marimbando para os credores»? Foi uma gaffe. Sempre que os nossos políticos dizem o que não devem, não pensam o que dizem ou dizem o que pensam por não pensarem o que dizem, lá vem a explicação: foi uma gaffe. Ora, é preciso dizer que os episódios enunciados não foram gaffes, deturpações ou descontextualização do que disseram, como geralmente os visados procuram fazer crer. Foram asneiras, por sinal asneiras das grandes, que demonstram bem o que lhes vai nas cabecinhas. Não me parece necessário um Freud para constatar a evidência.
22 de dezembro de 2011
REINALDO ARENAS. Vargas Llosa escreveu sobre Antes que anochezca (em português Antes que Anoiteça) que foi um dos mais comoventes testemunhos sobre a opressão e a rebeldia jamais escritos em língua espanhola. Terminado o livro, uma espécie de autobiografia que finaliza com a carta enviada aos amigos antes de pôr termo à vida, não sei bem o que dizer. As cenas de sexo pareceram-me excessivas, mas foi, seguramente, um dos livros que mais me impressionou.
20 de dezembro de 2011
NÃO ESQUECER. A crónica de Jorge Marmelo no Público de hoje (apenas disponível a pagantes), onde chama a atenção para o tão esquecido Rodrigues Miguéis, levou-me a repescar um extracto de Estranha Vida e Morte do Professor Reineta em tempos aqui publicado, que reza assim:
«Lembro perfeitamente o nosso primeiro encontro na Pátria amada, longos anos antes. [O Professor Reineta] era então um homem público em evidência e ocupava posições de alta responsabilidade política e cultural. Parlamentar e orador de recursos, eu tinha-o ouvido discursar algumas vezes fora e dentro do Congresso da República, onde ficou lembrado, entre outras coisas, pelo discurso de nove ou dez horas que pronunciou para salvar o governo do seu partido — a noite inteira, até chegarem da província os deputados que lhe dariam a maioria —, e a respeito do qual um velho líder da Oposição, famoso pelo seu humor, teve este comentário: «O que eu mais admiro no meu colega não é a capacidade oratória: é a capacidade da bexiga!»
«Lembro perfeitamente o nosso primeiro encontro na Pátria amada, longos anos antes. [O Professor Reineta] era então um homem público em evidência e ocupava posições de alta responsabilidade política e cultural. Parlamentar e orador de recursos, eu tinha-o ouvido discursar algumas vezes fora e dentro do Congresso da República, onde ficou lembrado, entre outras coisas, pelo discurso de nove ou dez horas que pronunciou para salvar o governo do seu partido — a noite inteira, até chegarem da província os deputados que lhe dariam a maioria —, e a respeito do qual um velho líder da Oposição, famoso pelo seu humor, teve este comentário: «O que eu mais admiro no meu colega não é a capacidade oratória: é a capacidade da bexiga!»
19 de dezembro de 2011
A MEDIOCRIDADE QUE NOS GOVERNA. O primeiro-ministro em funções sugere que os professores desempregados emigrem para os países que deles necessitem, nomeadamente Angola e Brasil. O secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo em tempos aconselhou os jovens desempregados a emigrar. Na oposição, Pedro Nuno Santos, deputado socialista, sugeriu que Portugal deve suspender o pagamento da dívida, porque se está «marimbando para os credores». José Sócrates, antigo chefe do Governo e dos socialistas, afirmou um mês antes que «pagar a dívida é uma ideia de criança», embora posteriormente tenha assegurado que não foi bem isso o que disse. Infelizmente, não é de gaffes que falo, mas de coisas que lhes vão nas cabecinhas. Temos, portanto, um Governo que em vez de tudo fazer para que os portugueses vivam bem no seu próprio país os aconselha a emigrar, e o principal partido da oposição a produzir disparates atrás de disparates. Provavelmente temos os políticos que merecemos, mas custa ver tanta mediocridade a gerir os destinos do país.
15 de dezembro de 2011
A JUSTIÇA QUE TEMOS (2). A ministra da Justiça pode ser incompetente, pode ter um problema com os advogados, pode estar de má-fé e tudo o mais que quiserem. Mas quem a vê acusar mais de um milhar de advogados de burlarem o Estado em meio milhão de euros sem factos que o comprovem? Os advogados terão razões de queixa da ministra, mas dizer que Paula Teixeira da Cruz está a promover uma «campanha difamatória» contra eles e pedir a sua demissão por a ministra se ter limitado a citar uma auditoria que detectou irregularidades praticadas por mais de um milhar de advogados é o que se chama uma fuga para a frente. Não seria normal os advogados pedirem à ministra (ou à Procuradoria-Geral da República, visto que os nomes terão sido para lá enviados) que divulgasse os nomes dos prevaricadores, para que os advogados assim pudessem acabar com as suspeitas que inevitavelmente pendem sobre todos e defenderem o seu bom nome? Ou será que não há advogados desonestos? Bem sei que compete à ministra (ou aos tribunais) provar as acusações e não aos suspeitos demonstrar que estão inocentes, mas também julgo saber que só um demente se atreveria a fazer acusações deste quilate sem factos que o demonstrem. Os suspeitos de irregularidades acham que estão inocentes? Resolvem o caso nos tribunais. Exigir o afastamento da ministra após este episódio é uma manobra, no mínimo, suspeita, e só dá razão a quem supostamente a não tem.
13 de dezembro de 2011
A JUSTIÇA QUE TEMOS (1). A ministra da Justiça diz que mais de um milhar de advogados cobraram indevidamente ao Estado português qualquer coisa como 3,5 milhões de euros. O bastonário dos advogados diz que a auditoria em que as alegadas falcatruas foram detectadas se baseia em informação «falsa» ou «manipulada». Temos, portanto, que um deles mente, se é que não mentem os dois. Se outra vantagem não tem a guerra que há muito se declarou entre Paula Teixeira da Cruz e Marinho Pinto, ao que parece mais por razões pessoais que institucionais ou políticas, pelo menos revela aos cidadãos um expediente que, não sendo surpreendente, jamais passaria de mera suspeita. Isto, claro, partindo do princípio que não há fumo sem fogo, e com a certeza de que os eventuais prevaricadores jamais serão punidos.
9 de dezembro de 2011
CHOVER NO MOLHADO. Para eventuais interessados ou adversários das maquinetas de leitura electrónica, os chamados e-book readers, transporto diariamente comigo quase todo o Eça, grande parte de Camilo e Machado de Assis, praticamente todas as entrevistas da Paris Review e várias obras do Padre António Vieira, Mark Twain, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Charles Darwin, Euclides da Cunha e outros. Resumindo, transporto diariamente comigo mais de duas centenas de livros, embora o número se pudesse multiplicar quase até ao infinito. Para os adversários da maquineta, que são muitos e bons, expliquem-me lá uma coisa: seria isto possível com edições em papel? Não, não me parece uma questão de somenos, como já ouço por aí. Que leitor não apreciará a mera possibilidade de transportar diariamente consigo os livros que lhe apetecer, como há muito sucede com a música, que já ninguém dispensa? Também os velhinhos LPs e os envelhecidos CDs continuam ao alcance de quem se interessa por eles, tal como continuarão ao alcance dos interessados os livros em papel, que só desaparecerão quando se tornarem uma minoria que não justifique a edição em papel. Como já disse variadíssimas vezes (ando a escrever sobre e-books desde a pré-história), os livros em papel só desaparecerão quando os leitores assim o quiserem. Tão simples como isso. Como presumo que a maioria os prefere em papel, a notícia da morte do livro tal como o conhecemos é francamente exagerada.
8 de dezembro de 2011
LUIZ PACHECO. Luiz Pacheco foi um grande escritor? Foi um escritor medíocre? Como praticamente só li o que dele se disse e meia dúzia de entrevistas, por sinal quase todas imperdíveis, não faço a mais leve ideia. Sei é que sempre lhe apreciei o desassombro, a frontalidade e a provocação, segundo alguns a sua principal virtude. Aguardo, por isso, com impaciência Puta que Os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, acabadinho de sair para as livrarias. Como resido no estrangeiro, infelizmente vai levar algum tempo até que me chegue às mãos. Mas não perderá pela demora.
6 de dezembro de 2011
ESTOU A LER (5). Descobri num alfarrabista Travels with a Donkey in the Cévennes, um livrinho que relata uma viagem de Stevenson e da jumenta Modestine pelo sul de França em finais do século XIX que aconselho sem reservas. Embora não esteja ao alcance de toda a gente, também aconselho uma visita à Chatham Bookseller, um alfarrabista que soube aliar a exiguidade do espaço à qualidade do que lá vende, e onde há sempre música (geralmente ópera) que, por si só, é um convite a lá ir.
2 de dezembro de 2011
CONTRA A MARÉ. Não sou grande entusiasta do fado, como já disse variadíssimas vezes. Também não estou a ver o que o país, e o fado, ganharão com o facto de a cançoneta ter sida considerada património da humanidade. Tirando o momentâneo fervor patriótico, que terá consolado o ego a muita gente, não se vislumbra que outra utilidade possa ter. Pelo contrário. Lido e ouvido o que se disse, constata-se que afectou os neurónios de muito boa gente. A fadista Mariza, por exemplo, defendeu que o fado deve ser leccionado nas escolas. Não esclareceu se deve ser matéria obrigatória, mas imagino que sim, e seguramente que não estará sozinha nesta sua pretensão. Curiosamente, grande parte dos entusiastas do fado não são grandes apreciadores de música, como se pode verificar por aquilo que ouvem. Não haverá uma relação de causa-efeito, mas também não me parece uma questão de somenos. Afinal, a aparente contradição levanta uma pequena pergunta: como é possível gostar de tão grande música (como o fado será), e depois gostar de música que não vale um caracol? Sim, o fado faz parte da cultura portuguesa, cantou — e continua a cantar — os grandes poetas da Pátria, e tudo mais que quiserem. Mas o fado também é música, e como tal deve ser julgada. Aliás, não sou entusiasta do fado essencialmente por causa da música, que me parece demasiado primitiva, insuportavelmente repetitiva, e previsível para lá do razoável.
29 de novembro de 2011
HACKERS. Aceder ilegalmente aos computadores do Ministério da Administração Interna ou da Assembleia da República, divulgando dados pessoais de agentes da PSP no primeiro caso e no segundo tornando o site do Parlamento temporariamente inacessível, são, evidentemente, motivos de alarme. Mas o mais preocupante é constatar-se que os mais sofisticados (e seguros) sistemas informáticos de todo o mundo estão ao alcance de hackers, os cientistas malucos (e perigosos) dos tempos modernos, e não se vislumbrar como evitar que isso suceda. Alguns queixam-se de que quem manda nos países é quem tem o livro de cheques, e até há casos recentes de regimes democráticos em que os governos carecem de legitimidade eleitoral, coisa impensável ainda há dois ou três anos. Mas perigoso mesmo é estarmos nas mãos desta gente, que a coberto do anonimato e da mais que provável impunidade é capaz das maiores patifarias.
PROTESTOS INCONSEQUENTES. Para não variar, os sindicatos disseram que a greve geral foi um êxito (falaram que teve a adesão de um terço dos portugueses), e o Governo disse que apenas mobilizou 10 por cento dos funcionários públicos (um fracasso, portanto). Como é evidente, ambos mentiram. Toda a gente sabe que os números reais são outros, e que distam consideravelmente dos números de uns e de outros. Mas imaginemos que os sindicatos têm razão, que a greve foi um sucesso. E foi um sucesso porquê? Por nela terem participado, segundo eles, um número considerável de trabalhadores? A avaliar pelo que disseram, assim é. Temos, portanto, que o sucesso de uma greve se mede pelo número de participantes, não por alcançar o que aí se reivindica. Como se voltou a demonstrar, os sindicatos vivem cada vez mais longe de quem representam, e que as suas reivindicações se revelem, à partida, inconsequentes, é coisa que não os rala. Resta dizer que todos perdem com isso. Perdem os trabalhadores, perdem os sindicatos, perde o País.
25 de novembro de 2011
COISAS QUE FAZEM BEM À ALMA
Por razões que não interessam para o caso, acabo de rever a excelente entrevista que Julio Cortázar concedeu ao extinto programa A Fondo, da TVE, onde também já vi outras entrevistas notáveis (Borges, Rulfo, Carpentier, Onetti e outros) que, graças ao YouTube e a quem as lá pôs, continuam ao alcance de um clique. Escusado dizer que recomendo, e não só aos mais entusiastas dos livros. (Deixo a ligação apenas para a primeira de 14 partes, que uma vez lá as restantes são de fácil acesso.)
Por razões que não interessam para o caso, acabo de rever a excelente entrevista que Julio Cortázar concedeu ao extinto programa A Fondo, da TVE, onde também já vi outras entrevistas notáveis (Borges, Rulfo, Carpentier, Onetti e outros) que, graças ao YouTube e a quem as lá pôs, continuam ao alcance de um clique. Escusado dizer que recomendo, e não só aos mais entusiastas dos livros. (Deixo a ligação apenas para a primeira de 14 partes, que uma vez lá as restantes são de fácil acesso.)
23 de novembro de 2011
DA COLUNA VERTEBRAL. Nada contra quem, na blogosfera, passou os últimos anos a disparar em tudo o que mexia, e agora, por via de uma sinecura qualquer, mais parecem caniches amestrados, sempre com a língua de fora e prontos a dobrar a espinha. O Governo anterior fazia tudo mal? O actual faz tudo bem? Segundo os cavalheiros, assim é. Tratando-se de pessoas com uma cultura geralmente acima da média, a coisa dá que pensar. Não seria de esperar que fossem os primeiros a mostrar alguma independência de espírito? Resta a consolação de ficarmos a saber o que os move, e desejar-lhes que nunca a espinha lhes doa.
22 de novembro de 2011
18 de novembro de 2011
EM NOME DE PORTUGAL. Quanto terá custado a visita oficial do Presidente da República aos Estados Unidos a pretexto de «afirmar Portugal pela positiva» e corrigir uma «imagem distorcida»? Tendo em conta as largas dezenas de pessoas que o acompanharam, grande parte a expensas da Presidência, seguramente que muito dinheiro. Muito dinheiro quando se diz que não há, e ainda por cima esbanjado numa campanha cujos resultados se adivinham escassos, e cujo retorno, a haver, se calhar nem pagará as despesas. Aliás, o próprio Cavaco se encarregou de contradizer o espírito da coisa ao relembrar a existência, em Portugal, de «entraves burocráticos» ou «constrangimentos administrativos» ao investimento estrangeiro, não vá algum americano menos avisado cair na tentação de investir em Portugal.
O MONSTRO (2). José Manuel Fernandes não gostou que as recomendações do grupo de trabalho encarregado de estudar o serviço público de comunicação social ficassem praticamente resumidas ao triste episódio protagonizado pelo seu coordenador, que «a bem da Nação» e da sua imagem defendeu que a RTP Internacional deve ser «filtrada» e «trabalhada» pelo Governo. Vai daí, escreveu no Público que as palavras de João Duque foram uma intervenção «desastrada», e só uma intervenção «desastrada». Ora, acontece que as palavras de João Duque não foram, apenas, desastradas. A questão foi o que ele disse, não como disse. E convenhamos que de um sujeito que disse o que se sabe apenas se pode concluir uma de duas coisas: ou não tem a mínima ideia acerca do que andou a discutir, e nesse caso não se percebe por que integrou o grupo de trabalho; ou tem plena consciência do que disse, e o que disse é uma monstruosidade. Pretender reduzir o episódio a um mero fait divers não basta para que se torne um fait divers.
16 de novembro de 2011
O MONSTRO (1). Provavelmente já está, de algum modo, a acontecer, ainda que de forma subtil e não assumida, mas defender que a informação da RTP Internacional deve ser «filtrada» e «trabalhada» pelo Governo, «a bem da Nação» e da sua imagem no exterior, roça o inacreditável. A RTP Internacional destina-se a quem? Não se destinará, antes de mais, aos portugueses no estrangeiro, emigrantes e outros? O sr. João Duque acha que estes portugueses só devem ter acesso, digamos, às «boas notícias»? E como devem, já agora, ser «trabalhadas» as notícias da oposição, que naturalmente falarão mal do Governo e, por arrasto, do País? Calar-se-á quem falar mal do Governo? E porque não, já agora, estender a lógica a outros domínios, proibindo, por exemplo, a «exportação» dos livros de Eça, onde o país é maltratado e por vezes comparado a uma choldra? Claro que o disparate não terá consequências, como já fez saber o ministro que «filtraria» as notícias caso acatasse o conselho das luminárias. Mas arrepia só de pensar que um grupo de trabalho que tem por missão aconselhar o Governo em matéria de comunicação social pública integre gente que pensa desta maneira. Arrepia e surpreende, que jamais me passou pela cabeça que dali saísse tal monstro.
14 de novembro de 2011
11 de novembro de 2011
CRIMINALIZAR OS POLÍTICOS. Criminalizar autarcas ou governantes em funções ou na reforma por actos lesivos à pátria parece-me perigoso, pois abriria caminho a toda a espécie de abusos, e inibiria ainda mais os governantes de tomar decisões difíceis. Mas casos há que só não são punidos criminalmente por claramente não haver vontade para isso. Se bem se lembram, Paulo Morais respondeu mais ou menos assim quando, num programa de televisão, lhe perguntaram como punir os responsáveis pela construção em áreas onde a lei não permite: «Basta saber quem a autorizou.» Como se vê, é demasiado simples para que se invoquem desculpas para não agir. E bastava agir em casos simples para se evitar casos maiores, como a famosa «tolerância zero» bem demonstrou.
10 de novembro de 2011
SINAIS DE PERIGO. Previsivelmente, as declarações de Otelo Saraiva de Carvalho (o coronel defendeu «um novo 25 de Abril» e consequente derrube do Governo caso sejam «ultrapassados os limites») causaram indignação um pouco por todo o lado. Surpreendentemente, as declarações de Rui Rio (o presidente da Câmara do Porto diz temer que as medidas que o Governo se prepara para tomar provoquem a revolta das pessoas de tal modo que não sejam capazes de ouvir um apelo sensato) passaram despercebidas. Ora, a mim parece-me que as declarações de Rio foram bem mais irresponsáveis e perigosas que as declarações de Otelo. Temer que as pessoas se revoltem e não sejam capazes de ouvir um apelo sensato, é já um incentivo, mesmo que involuntário, à revolta. Já um cavalheiro a quem os portugueses se acostumaram a dar o devido desconto afirmar que os militares podem voltar a sair dos quartéis, é pura retórica.
9 de novembro de 2011
SEGUREM-SE. A ser verdade o que se diz, António José Seguro promete uma abstenção «violenta mas construtiva» na votação do Orçamento de Estado. Digo a ser verdade porque a expressão é inacreditável, e não é fácil de recordar sem sorrir. Infelizmente, o sorriso evapora-se mal se cai na realidade. E a realidade diz que o actual líder do PS será, um dia, primeiro-ministro, a não ser que surjam percalços de maior. A abstenção «violenta» podia, apenas, ser uma frase infeliz. Desgraçadamente, não foi. A frase espelha bem o líder do principal partido da oposição, e de certa maneira os políticos que temos. Os políticos que temos e, se calhar, que merecemos.
8 de novembro de 2011
AI NÃO ME CHAMAM? ENTÃO TAMBÉM NÃO VOU. A renúncia de Bosingwa à selecção enquanto Paulo Bento lá estiver, depois de o seleccionador ter anunciado que não voltará a convocar o jogador do Chelsea, fez-me lembrar uma tirada de Woody Allen que cito de memória: «A minha mulher saiu de casa com outro homem, por isso deixei-a.»
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