21 de maio de 2012
17 de maio de 2012
SERIA BOM ESCLARECER ISTO. A Grécia não poderá, em caso de incumprimento, ser expulsa da Zona Euro. Porque na Zona Euro «há um silêncio total sobre a possibilidade de saída dos Estados», e porque o Tratado de Lisboa «só prevê a possibilidade de saída voluntária dos países da UE, nunca a sua expulsão». Eis, em resumo, o que diz Viriato Soromenho Marques na sua crónica de hoje.
16 de maio de 2012
VERGONHOSO. Sempre achei que a morte não melhora quem nunca foi bom, e custa-me engolir elogios aos defuntos de quem ainda ontem, vivinhos da silva, se dizia o piorio. Mas chegar a ponto de fazer a triste figura que os deputados do PSD madeirense fizeram, com o chefe à cabeça, vai um abismo. Os srs. deputados têm razões para não apreciar Miguel Portas? Não as conheço, mas suspeito que têm. Mas abandonar o hemiciclo aquando de um voto de pesar pela sua morte, curiosamente proposto pela mesma «família política», convenhamos que soa péssimo. Estou à vontade para dizer o que digo: discordei quase sempre do que Miguel defendia. Mas não misturo alhos com bugalhos. Uma coisa são as ideias, que possamos considerar disparatadas (ou mesmo perigosas); outra são as convicções e a dignidade de quem as defende. E os deputados madeirenses, ao não respeitarem a dignidade alheia, foram indignos do cargo que desempenham.
14 de maio de 2012
INCOMPETENTES. Já aqui manifestei algumas dúvidas acerca da competência da Judiciária, então a propósito de irregularidades (nalguns casos crimes) praticadas por agentes (ou ex-agentes) daquela polícia. Agora é a vez das secretas porem a nu toda a sua incompetência. Então os agentes desconhecem que os e-mails e as mensagens electrónicas enviadas e recebidas podem, em caso de suspeita de irregularidades, ser usados para os incriminar? Pelos vistos, desconhecem. E se assim é, não sei o que é mais assustador: se a prática dos crimes de que alguns são acusados, se a colossal incompetência que demonstraram.
9 de maio de 2012
7 de maio de 2012
DISPARATES INESPERADOS. Com certeza que as grandes cadeias de comércio alimentar têm poder financeiro para suportar a nova taxa aprovada pelo Governo, como disse a ministra da Agricultura, para quem a mega promoção do Pingo Doce foi prova disso. De facto, basta-lhes subir os preços dos produtos que comercializam e o assunto fica resolvido. Só tem um pequeno senão que a ministra talvez não tenha pensado: a conta vai sobrar para os consumidores. Aliás, a ministra distingue-se por pensar pouco, e mal. Face à polémica do Pingo Doce, Assunção Cristas prometeu novas leis destinadas a impedir «promoções inesperadas». E que leis são essas que tenciona propor? Infelizmente, não entrou em detalhes. Mas adivinha-se que vem aí disparate.
CASOS DE POLÍCIA. Não simpatizo com Black Fridays, Boxing Days e mega promoções do Pingo Doce, mas a verdade é que não vislumbro motivo para tanto barulho. A coisa podia ter sido noutro dia? Podia, mas noutro dia não teria o impacto que teve, e a publicidade (gratuita) que teve. Mas se não simpatizo com estas práticas e com o timing escolhido, ainda simpatizo menos com quem diz que a jogada da Jerónimo Martins foi uma «promoção aviltante que manchou o 1.º de Maio», «um aliciamento à pobreza que atinge milhões de portugueses», e que «ao consumidor faz bem uns dias de pousio» (Miguel Gaspar, Público). Ou que foi «um marketing da miséria», «uma bomba de neutrões», «o circo romano», um mero exercício destinado a «acicatar a voragem desumana» (Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios). Houve prática de dumping na operação do Pingo Doce? Muito haveria a dizer sobre dumping (não me lembro de quem reclamasse esta prática em casos idênticos), mas se é verdade que a lei não foi cumprida o caso é simples de resolver: chamem a polícia, façam-nos pagar as multas que a lei prevê para estes casos, e se for caso disso ponham-nos em tribunal. Não venham é dizer que as promoções do Pingo Doce são um caso de política, como disseram alguns governantes e um sem número de deputados, uns por mera ignorância, outros por claro oportunismo.
O DEDO NA FERIDA. «A revolta desta esquerda não é contra os capitalistas ou a Jerónimo Martins, é contra o povo que pura e simplesmente não é o que eles queriam que fosse.» (Pedro Marques Lopes, DN) «Para a esquerda, o povo só vale a pena quando está do lado "certo". No lado "errado", o povo é um caso perdido e, conforme alguns comunistas de facções diversas não se eximiram de confessar no 1.º de Maio, assaz repugnante. (...) Apesar do apego à santidade da data, a esquerda não gosta de trabalhadores reais: gosta de moços de recados, que em democracia derrubariam as prateleiras cheias dos supermercados e num regime perfeito percorreriam ordeiramente as prateleiras vazias, de senha de racionamento na mão.» (Alberto Gonçalves, DN)
4 de maio de 2012
LIBERDADE DE IMPRENSA. Parece que ontem foi dia da liberdade de imprensa, ocasião que um grupo «para o desenvolvimento da denominada literacia mediática» aproveitou para reflectir a importância dos media no dia-a-dia. A ideia foi pôr as pessoas a reflectir sobre o que está de tal modo entranhado no quotidiano que já ninguém questiona, disse um dos seus responsáveis, e contou com uma série de actividades espalhadas pelo país destinadas a encontrar uma resposta à magna questão: «Que significado têm os media na nossa vida e como poderiam tornar-se mais significativos?» Ora, mesmo sabendo que já não vou a tempo de introduzir um novo tópico na reflexão, gostaria de ver discutidos alguns factos recentemente divulgados pelo Expresso. Segundo o jornal, os angolanos detêm 96,6% do Sol, 15,08% da Cofina (Correio da Manhã e Sábado, entre outros), 2% da Impresa (Expresso e SIC, entre outros), estão interessados num canal da RTP, e correm rumores de que pretendem adquirir 20% da Globalnotícias (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF, entre outros). Gostaria, portanto, de ver discutido o crescente controlo dos media portugueses por capitais estrangeiros, e as consequências, suponho que pouco agradáveis, que a circunstância não deixará de ter na soberania que nos resta.
3 de maio de 2012
ZOMBIES, DIZ ELE. Talvez isto seja a constatação, ainda que involuntária, de que os grandes educadores do povo falharam, afinal, na educação do povo.
2 de maio de 2012
IMPORTAM-SE DE RESPONDER? Se os McCann pretendem que o processo relativo ao desaparecimento da sua filha seja reaberto quando foram os culpados pela sua morte, como então disse o inspector da Judiciária que conduziu a investigação e logo depois voltou a dizê-lo num livro que procurou demonstrá-lo, o que pretenderão os McCann? O que terá a dizer o ex-inspector Moita Flores, que no Correio da Manhã se fartou de denunciar o que então jurou ser uma conspiração do governo inglês destinado a descredibilizar tudo o que não apontasse para a tese do rapto, e depois, mal surgiram notícias que não abonavam a sua tese, se calou muito caladinho? Seria interessante saber o que acharão eles sobre a atitude dos pais, que nos explicassem que interesse terão os McCann em desenterrar um caso de que são, segundo as sumidades, os principais suspeitos.
1 de maio de 2012
DO PROVINCIANISMO. Quem me lê sabe que não tenho grande simpatia pelo Presidente Cavaco. Mas saberá, também, que não hesito em sair em defesa de quem vejo acusado de forma injusta, seja ele quem for. Há um reparo que fazem ao Presidente que não aprecio especialmente: dizer-se que Cavaco é da província, no caso de Boliqueime, sem que se vislumbre outro propósito que não seja apoucá-lo. Vasco Pulido Valente é dos que mais recorre a este expediente, e a última crónica do Público é só mais um exemplo. Que necessidade terá ele de usar a origem social do PR? Quererá dizer que Cavaco não pertence à casta certa? Se é, e tudo indica que é, que o diga com frontalidade. Porque se há outra coisa que também me irrita são as meias palavras, os subentendidos, as insinuações — que neste particular talvez produzam o efeito contrário do que pretendem.
27 de abril de 2012
JORNALISMO DE ENCOMENDA. Sem que se vislumbrasse motivo para tanto, a RTP passou, durante vários dias, uma série de reportagens sobre vinhos chilenos e argentinos(*). A coisa soou-me estranha desde o início, mas acabei por atribuir a estranheza ao facto de lhe ter prestado escassa atenção. Pouco depois, lendo o Público, que também concedeu largo espaço ao assunto, percebi a razão de tanta notícia. Os jornalistas viajaram a convite da Sogrape, diz-se na reportagem (parece-me que o Público é o único que assume estas coisas), empresa que por lá faz vinho, e que naturalmente é generosa com quem lhos promove. Porque quem manda é quem tem o livro de cheques, a Sogrape é referida variadíssimas vezes nas peças da RTP, sempre pelas melhores razões, se outras razões não houvesse por causa do tal livro de cheques, e porque não se deve cuspir na mão de quem nos dá de comer. Perante isto, o que achará a veneranda Entidade Reguladora para a Comunicação Social? Infelizmente, ninguém sabe se está, sequer, ao corrente do assunto, muito menos se o assunto lhe interessa. Já a Sogrape está de parabéns. Não propriamente pela excelência dos vinhos que produz (pelo menos os vinhos que eu conheço), mas porque dificilmente os publicitaria de modo tão barato e eficaz.(*) Provavelmente a SIC e a TVI fizeram o mesmo, mas não vejo a SIC e a TVI.
24 de abril de 2012
A BRIGADA DO REUMÁTICO. A Associação 25 de Abril fez saber que não porá os pés na sessão da Assembleia da República destinada a assinalar a queda do antigo regime. Mário Soares e Manuel Alegre também já disseram que não vão, e à hora a que escrevo o ex-presidente Sampaio não sabia se ia. A associação justificou a recusa alegando que «o actual poder político deixou de reflectir o regime democrático», e que está em causa a liberdade e a democracia. Mário Soares justificou a ausência por solidariedade com os militares que fizeram a revolução. Manuel Alegre mandou dizer que «uma celebração do 25 de Abril sem aqueles que o fizeram não tem o mesmo significado». E o dr. Sampaio alegou «um compromisso internacional» inadiável, curiosamente por confirmar dois dias antes de se realizar. Estranhamente, o comandante Otelo ainda não veio anunciar um golpe militar para derrubar o Governo e o Presidente — e, de caminho, repor os «valores de Abril», seja lá isso o que seja. Porque o problema dos sujeitos é não gostarem de quem manda, e vai daí meteram-se a fazer estas tristes figuras. A democracia é uma coisa muito bonita, mas se forem os «nossos» a mandar. Se forem os «outros», é uma chatice. Uma chatice que tudo justifica, incluindo comportamentos patéticos e anti-democráticos.
23 de abril de 2012
AGARREM-ME SENÃO VOU-ME EMBORA. Miguel Sousa Tavares terá dito, na Bienal de Brasília, que só ainda não se mudou para o Brasil porque sente um dever «quase patriótico» de não abandonar Portugal num momento tão difícil. Não foi a primeira vez que o Miguel se zangou com a Pátria e pensou ir-se embora, como aqui se deu conta, e também não foi o único que fez — ou fará — uma coisa e outra. Também José Saramago emigrou para as Canárias após várias ameaças, como estarão lembrados. Por estar farto de ser maltratado no seu próprio país, disse então, e por causa de um livro medíocre que um governante igualmente medíocre impediu que concorresse a um prémio irrelevante. Estranhamente, a Pátria sobreviveu sem Saramago. Por que não haveria de sobreviver sem o Miguel?
19 de abril de 2012
ABORTO ORTOGRÁFICO. «(...) mais de duas décadas após a sua assinatura, o [Acordo Ortográfico] "unificador" da língua portuguesa consegue a proeza de dividir de facto e de jure os países de expressão oficial portuguesa, consagrando "a desagregação ortográfica da língua portuguesa" e acentuando "os factores de desagregação da unidade essencial da língua portuguesa".» (...) «O facto de o AO não concitar qualquer consenso nem contribuir para unificar seja o que for, é razão suficiente para, no mínimo, se suspender a sua aplicação e fazer respeitar a Constituição (que protege explicitamente a qualidade do ensino e o uso da língua nacional) e a Lei de Bases do Património Cultural (pela qual a língua, "fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português").» António Emiliano, Público de hoje
E POR QUE DEMORARAM TANTO TEMPO? Federação [Portuguesa de Futebol] abre processo de averiguações [sobre caso Cardinal]
17 de abril de 2012
ANEDOTAS PERIGOSAS. A ser verdade o que vem nos jornais, o episódio que envolve Paulo Pereira Cristóvão e um árbitro de futebol roça o inacreditável. Então o vice-presidente do Sporting não sabia que os bancos têm videovigilância? Achará normal fornecer às autoridades uma carta que diz ter recebido onde alguém denuncia um esquema de corrupção praticado nesse mesmo dia? Como foi possível um sujeito destes ter sido inspector da Judiciária durante anos, mesmo depois de lhe detectarem comportamentos impróprios? Sim, porque o sujeito, além das tropelias que os jornais dizem ter cometido enquanto inspector, é de uma incompetência assustadora, e não fosse o caso de ser grave a natureza do processo em que é arguido seria anedótico. Claro que não se pode julgar toda a Judiciária por um caso destes, mas a verdade é que são cada vez mais os inspectores — ou ex-inspectores — acusados de comportamentos inadmissíveis a um agente da autoridade. Mesmo que sejam excepções, um desejo mais que uma evidência, convenhamos que da Judiciária se exige melhor.
13 de abril de 2012
SER E PARECER. Terá razão o bastonário dos advogados quando diz que o elevado número de chumbos nos exames de acesso à profissão (mais de metade dos candidatos reprovou e as notas dos que passaram não terão sido famosas) resulta da falta de qualidade dos cursos de direito actualmente existentes, mas a dúvida persiste: a ideia de chumbar os candidatos alegadamente mal preparados será mesmo vedar a entrada na profissão a quem não tem competência para tal, ou será proteger quem lá está? A desconfiança não se aplica, apenas, à Ordem dos Advogados, mas a todas as associações congéneres — dos médicos aos engenheiros, dos enfermeiros aos arquitectos, dos psicólogos aos farmacêuticos, dos biólogos aos dentistas, dos notários aos engenheiros técnicos. Não digo que não são necessárias organizações desta natureza, e certamente trarão benefícios aos cidadãos. Mas a verdade é que nos habituámos a vê-las defender posições que, tirando os associados, não se vê quem mais possam beneficiar.
OBSCENIDADES, OU TALVEZ NÃO. Tal como escrever com humor não está ao alcance de qualquer um, escrever ordinarices geralmente não consideradas como tal (ou que apenas o são na aparência) ainda é mais difícil. Isto a propósito de alguns livros recém publicados, especialmente Puta Que os Pariu!, de João Pedro George, Pornopopeia, de Reinaldo Moraes, e de um misterioso autor português que dá pelo pseudónimo de O Meu Pipi. Do primeiro, nomeadamente do título, pouco terá a dizer quem já conhece Luiz Pacheco, do segundo tomei conhecimento através de um texto notável de Alexandra Lucas Coelho (provavelmente o mais ousado jamais publicado na imprensa portuguesa dita de referência), e do último (O Meu Pipi: Sermões), cujo autor li com prazer nos tempos do blogue, li uma entrevista em que o jornalista, esforçando-se por ser engraçado e pôr-se ao nível do entrevistado, acabou, esse sim, por cair na ordinarice. Pela simples razão que o humor é só para alguns, e quando mete as tais ordinarices que não são ordinarices, só mesmo para uma minoria. Perguntar-me-ão onde está a fronteira entre a ordinarice pura e a ordinarice que só é na aparência. A resposta parece-me só uma: cada um define a sua. Onde uns verão ordinarice, outros verão outra coisa. Onde uns verão vulgaridade, outros verão subtileza. Como estamos num terreno especialmente escorregadio, onde o subjectivismo dita as duas leis, torna-se difícil dizer o que é ordinário e o que não é. Mas até o subjectivismo assenta em alguns dados objectivos, e os dados objectivos sobre os livros em causa indicam que não são ordinarices. Antes pelo contrário.
10 de abril de 2012
CRIMINALIZAR OS POLÍTICOS. A ideia de criminalizar os governantes (ou ex-governantes), que terá começado na Islândia e ameaça alastrar a outras latitudes, é óptima à primeira vista, mas péssima à segunda. Como toda a gente que acompanha a política com algum interesse, aguardo com expectativa o desenlace do caso islandês, que desde o início me pareceu condenado ao fracasso. Suspeita-se que governantes (ou ex-governantes) cometeram crimes no exercício das suas funções? Os tribunais comuns chegam e sobejam para os julgar. Por razões que me parecem óbvias, os julgamentos políticos serão inconsequentes nos melhores casos, perigosos em todos os outros. Isto em países onde a justiça funciona como deve ser. Imagine-se, agora, um país como o nosso, onde a justiça é o que se sabe. Os mais atentos terão notado que há um mês defendi como boa a ideia de julgar governantes (ou ex-governantes) pelos seus actos. É o que dá fazer juízos precipitados.
6 de abril de 2012
VALHA-NOS DEUS. «Dou graças por não ter sido eleito Presidente», escreveu Manuel Alegre no prefácio de um livro agora publicado. Porque lhe seria «muito penoso» suportar «tamanha humilhação» que seria lidar com os funcionários da troika, diz o bardo. Temos, portanto, que o ex-candidato a Presidente só estará disponível para o combate quando a maré estiver de feição. Quando houver tempestade, não contem com ele.
MATAR O DOENTE COM A CURA. Perdoem-me a presunção, mas até eu, que de economia sei pouco mais que zero, previ que a receita do Governo e da troika seria um fracasso. O FMI diz que se enganou na mezinha? Esperava que a recessão fosse menor? Que as condições externas fossem mais favoráveis? Que as receitas fiscais atingissem não sei que previsões? Que mais austeridade não trará benefícios? Que o desemprego e as despesas sociais continuam a aumentar? Extraordinário! Como é possível uma instituição recheada de luminárias em tudo e mais alguma coisa cometer erros tão grosseiros? Não seria previsível, por exemplo, que o famigerado plano de salvação da pátria iria gerar mais desemprego, logo menos receita e mais despesa para o Estado? Não seria previsível que a economia estagnasse e que a recessão aumentasse? Decididamente que estamos entregues à bicharada.
5 de abril de 2012
O ESTADO É QUE VAI PAGAR A MULTA. Foi nestes termos, segundo os jornais, que Mário Soares se terá dirigido ao GNR que interceptou a viatura em que seguia por circular em excesso de velocidade. Quando se esperaria que o ex-tudo da política portuguesa se comportasse de forma exemplar, o ex-presidente da República portou-se como o pior dos cidadãos. É costume dizer-se que os homens se vêem nos pequenos gestos, não é?
O PEDITÓRIO DO COSTUME. Günther Grass, escritor alemão há uns anos premiado com o Nobel, escreveu num poema que Israel «pode dizimar o povo iraniano». Porque Israel, diz ele, é uma potência nuclear, por si só uma ameaça à paz mundial. Esqueceu-se, contudo, de um pequeno detalhe: não consta que Israel pretenda «dizimar o povo iraniano», ao contrário do Irão, cujo actual presidente afirmou, preto no branco, pretender varrer Israel do mapa. Definitivamente que a passagem de Grass pelas SS de Hitler lhe deixou mazelas irremediáveis.
PRÉMIO DESCOBERTA DA PÓLVORA. «As decisões que influenciam o meu País não dependem do trabalho dos deputados».
3 de abril de 2012
JORNALISMO NA PASSERELLE. Definitivamente que o jornalismo já viu melhores dias, e as mudanças introduzidas nos últimos anos geralmente tornaram-no pior. Nada contra a jornalista Ana Lourenço desfilar num evento de moda como qualquer outro manequim, e não me parece existir qualquer impedimento legal que desaconselhe tal prática. Mas não será evidente que a exibição na passerelle descredibiliza a jornalista e o jornalismo? O jornalismo e os jornalistas já estão fragilizados que chegue, por culpas próprias e alheias. Convinha, portanto, não misturar o que não deve ser misturável, e não esbanjar a credibilidade que resta.
30 de março de 2012
SEGURO, MAS POUCO. Não foi a primeira vez que António José Seguro veio dizer ao país que prefere não discutir determinados assuntos em público, alegando questões de Estado, que devem ser discutidas em privado. Anteontem voltou à carga: não se deve discutir em público a eventual aprovação de uma regra constitucional que prevê um limite ao défice. Ora, por que não? Portugal está na eminência de ser invadido pelos espanhóis e há uma estratégia de defesa que convém não divulgar? Por que não se pode discutir publicamente um assunto (a «regra de ouro») que deve ser discutido publicamente? Imagino que os cidadãos gostariam de saber o que pensam os políticos sobre tão delicada matéria, nomeadamente os dois principais partidos políticos, e que os seus dirigentes esgrimissem publicamente as suas divergências caso existam divergências. Se o secretário-geral do PS se sente mais confortável a discutir política em privado, como já ouvi quem dissesse, então seria melhor dedicar-se a outra actividade.
TIRO AO SÓCRATES. A história do canudo de Sócrates foi, desde o início, mal contada, e complicou-se à medida que surgiram novos detalhes. Por mais voltas que dê, o ex-primeiro-ministro ficará para sempre com a fama de ter obtido uma licenciatura de maneira, digamos, pouco ortodoxa, para dizer o mínimo. Outros histórias há que levantam dúvidas, como o caso Freeport, mas a verdade é que as notícias foram tão contraditórias desde o início que se torna difícil perceber o que se terá realmente passado, quem fala verdade e quem mente. Dito isto, não haverá, em Portugal, assuntos mais importantes que o tiro ao Sócrates? Esqueceram-se que Sócrates já não é primeiro-ministro, nem, sequer, líder da oposição? Ignoram que Sócrates já não tem o poder de outrora, que hoje pouco mais é que um cidadão como os outros, e que até Vasco Pulido Valente já lhe escreveu o epitáfio? Como em tempos escrevi, Sócrates nunca me mereceu simpatia. Nem como primeiro-ministro, nem como líder da oposição, nem como pessoa. Mas parece-me demasiado toda esta histeria à sua volta e à volta de quem hoje nega o que disse ontem desdizendo o que disse anteontem, e entristece-me que gente que admiro se meta, nos media, a fazer insinuações sem a mais leve prova. Há coisas mais importantes com que o país se entreter, e parece-me evidente que é cedo para o julgar.
28 de março de 2012
BATER NO CEGUINHO. O tiro ao Crato que o professor Castilho semanalmente pratica no Público desde que Nuno Crato é ministro da Educação deve-se a um de dois motivos: ou Nuno Crato é mesmo mau, e tirando o professor Castilho não se tem visto grandes críticas por aí; ou o professor Castilho tem um problema com Nuno Crato que transcende largamente a política educativa. Como já perceberam, inclino-me para a segunda hipótese, que o desempenho do ministro, tirando os suspeitos do costume (que até têm estado mais calmos do que o habitual), não tem sido alvo de grandes críticas. Li que o professor Castilho contava ser ministro da Educação, e que a certa altura aconteceu não sei quê e foi descartado. Vai daí, é um destilar veneno que até mete dó. As crónicas do ilustre professor, invariavelmente a criticar Nuno Crato, são puro ressentimento. É pena que o cavalheiro não perceba que estar sempre a bater no ceguinho acaba por ser contraproducente. Por mais razões que lhe assistam, o que nem me parece o caso.
27 de março de 2012
DESPENALIZEM-NO. Provavelmente o ciclismo é o desporto profissional que mais usa substâncias proibidas para aumentar o rendimento dos seus atletas — ou, então, é o desporto profissional mais vigiado. Não há época velocipédica que não se detecte o chamado doping em figuras de primeira linha, e são tantos os exemplos que não é exagero suspeitar-se que a generalidade dos ciclistas consome substâncias proibidas. A diferença é que uns são apanhados, outros não. Não faço ideia se o espanhol Alberto Contador, último caso conhecido, é inocente do que foi considerado culpado, como o ciclista reclama, mas a verdade é que não me lembro de um único ciclista admitir o consumo de substâncias proibidas, mesmo depois de todas as evidências, e também não me lembro de um recurso dar razão ao acusado. Defendo, por isso, o fim do controlo anti-doping, que cada atleta ingira livremente o que muito bem lhe apetecer — antes, durante ou depois de competir. Afinal, o doping sempre existiu — antes e depois do controlo, antes e depois de novas substâncias passarem a constar da lista de produtos proibidos. Apesar da vigilância cada vez mais apertada, o doping continua a existir, e salvo um ou outro percalço o crime compensa. Aliás, como saber se os inventos de Thomas Edison não resultaram da ingestão de químicos que mantinha por perto, nomeadamente cocaína, morfina, estricnina e ópio, além de um tal vinho Mariani, que entre outros ingredientes conteria cocaína? Como saber se a teoria da relatividade de Einstein não resultou do consumo de coca ou LSD, este último detectado no sangue após a sua morte? Como saber, afinal, se os grandes feitos da Humanidade não resultaram, todos eles, da ingestão de substâncias que potenciaram o desempenho do corpo ou da mente, proibidas ou não? E mudam o quê se vier a demonstrar-se que assim foi?
23 de março de 2012
BANALIZAR A GREVE GERAL. O líder da CGTP justificou o fracasso da greve geral de ontem (muito menos adesão do que desejava, mesmo em empresas onde as adesões costumam ser elevadas) com o argumento de que «os trabalhadores estão com medo de fazer greve», e porque houve «intimidação no local de trabalho». Dando de barato que isto é verdadeiro, que benefícios teriam alcançado os grevistas caso o número fosse significativamente maior? Quais eram, já agora, os objectivos desta greve geral? Que eu saiba, a ideia foi protestar por protestar, e o resultado foram incalculáveis prejuízos para o país e zero benefícios para os trabalhadores. Pior: banalizou-se a greve geral, uma espécie de bomba atómica que apenas devia ser usada pelas centrais sindicais em circunstâncias excepcionais.
COISAS EVIDENTES. José Manuel Pureza no DN de hoje: «O facto de serem os juízes a interpor uma ação judicial [contra membros do anterior Executivo] que eles próprios vão julgar causa engulhos a qualquer defensor do princípio básico da separação dos poderes.» Vasco Pulido Valente no Público de hoje (disponível só para assinantes): «Nada explica que a Procuradoria-Geral da República e os tribunais tomem sobre si o encargo de fazer justiça em matéria política: um serviço que obviamente lhes não compete e que, levado ao extremo, pode alterar o equilíbrio constitucional da República.»
22 de março de 2012
QUE A COLUNA NUNCA LHE DOA. Até ver, António Costa é o mais forte candidato a candidato à Presidência da República — apesar de Santana Lopes, de Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso, todos hipóteses a não desprezar. Deve ser por isso, portanto, que o João Gonçalves já mudou de opinião sobre o edil lisboeta, sobre quem ainda há pouco disse cobras e lagartos, como aqui lembra o Filipe Nunes Vicente. Quem sabe se o actual assessor do ministro da propaganda assim transite directamente do gabinete de Miguel Relvas para um qualquer gabinete de António Costa caso António Costa seja, evidentemente, candidato, e sendo candidato vença as eleições. Só não muda de opinião quem nunca teve uma opinião, como também lembra o Filipe — e é costume dizer-se que só os burros não mudam de opinião. E burro é coisa que o João Gonçalves não é.
21 de março de 2012
POETAS DE ÁGUA DOCE. Terminaram cedo as minhas veleidades poéticas, logo após a leitura de Pessoa, e depois de Cesário, Sophia, Herberto e do senhor O’Neill, quase senti vergonha de ter feito uns versinhos. Reza a lenda que somos um país de poetas, embora desconfie que também outros países reclamem o mesmo estatuto. Mas quando alguém diz que somos um país de poetas, apetece-me acrescentar que somos um país de poetas de água doce, expressão como o dicionário define os poetas de maus versos. Os exemplos são muitíssimos, e há-os para todos os gostos. Qualquer analfabeto que conhece uns rudimentos da língua em que diariamente se expressa consegue alinhavar uns versinhos em que a bota emparelha com a perdigota, e por isso se julga à altura de dar à estampa ou mesmo de antologia — e é vê-lo como incha de gozo quando alguém o trata por poeta ou adjectivos assim. Mas não me refiro apenas à poesia popular — ou ao gosto popular, ou como lhe queiram chamar. Refiro-me também à poesia que passa por ser erudita, mas que no fundo é um mero jogo de palavras que tem tanto de erudito como a Modestine de Stevenson — e se destina, claro está, a impressionar os pategos. Sim, hoje é Dia Mundial da Poesia, soberana ocasião para nos embebedarmos de versos e cantarmos as musas. Mas eu permaneço sóbrio, estranhamente sóbrio, e talvez mais logo leia as últimas páginas de um livro divinamente escrito por um cavalheiro que nada sabia de versos.
VÍRGULAS. «Há sempre uma vírgula [no sistema legislativo português], um artigo, um parágrafo a acrescentar. Todos conhecemos o resultado final. A complexidade do nosso sistema legislativo paralisa-o e é uma das principais causas da morosidade e da ineficácia do sistema jurídico», lê-se no editorial do Público de hoje (disponível só para assinantes), que louva a iniciativa de criar uma comissão para simplificar a legislação produzida pelo Parlamento. Ora, a que se deve o excesso de vírgulas ou as vírgulas fora do lugar? Estão lá por incompetência de quem redigiu as leis (ou as aprovou, ou as duas coisas), ou foram lá postas de modo a gerar equívocos, buracos muitíssimo oportunos em certas ocasiões, interpretações de toda a ordem e feitio, que depois são explorados em benefício próprio por uns senhores que, certamente por coincidência, são os mesmos que fizeram essas leis?
19 de março de 2012
PÉSSIMOS EXEMPLOS. Depois da TAP, porque o Governo entendeu que a TAP é «uma empresa em concorrência e que está em fase de privatização», também na Caixa Geral de Depósitos não serão feitos os cortes salariais previstos para a generalidade das empresas do Estado, ao que parece por razões idênticas. E mais excepções virão, como se viu poucos dias depois, com os trabalhadores da Casa da Moeda a exigir o mesmo tratamento. Ora, o que significam as excepções? Significam, antes de mais, que o Governo recuou, atitude que por si só não me parece condenável. O problema é que este recuo significa despenalizar alguns dos trabalhadores do sector empresarial do Estado que mais privilégios têm, e isso é inaceitável. Inaceitável, e escandaloso. O sr. Presidente da República, que ultimamente tagarela por tudo e por nada, não tem nada a dizer sobre esta matéria?
16 de março de 2012
SENSO COMUM. De economia pouco mais sei o que vem nos dicionários, mas como aguentar a austeridade em curso (e o mais que se adivinha) sem crescimento económico? A austeridade em vigor produz inevitavelmente falências e desemprego, logo menos receita para o Estado — que mais tarde ou mais cedo ver-se-á obrigado a ir buscar mais dinheiro aos bolsos dos portugueses, de que resultarão ainda mais falências, ainda mais desemprego, e ainda menos receita. Com a economia a não crescer (nem se vê como possa crescer no actual cenário), e como consequência as receitas do Estado a diminuírem (ou a manterem-se à custa de ainda mais sacrifícios), a política em curso não pode acabar bem. Mais do que uma querela entre entusiastas da intervenção do Estado na economia e defensores do mercado livre, teorias aplicadas com sucesso em alguns casos e desastrosas noutros, parecer-me-ia útil pôr de lado as cartilhas e encarar a questão pelo senso comum. E o senso comum diz-me que por aqui não vamos lá, embora também eu não saiba por onde ir.
14 de março de 2012
O FIM DO MUNDO. Desde que me conheço que me lembro de pairar sobre as nossas cabeças uma qualquer ameaça, real ou imaginária, prometendo mandar a nossa insignificante vidinha para o maneta. Agora é a Grécia que ameaça dar cabo do que resta da Europa, ontem foi a gripe das aves que ameaçou dizimar meio mundo, amanhã será o Irão que varrerá Israel do mapa se entretanto não suceder o contrário. Atribuo, por isso, escassa importância às catástrofes anunciadas, e lembro-me invariavelmente de quem, há séculos, já dizia que Portugal estava à beira do abismo, e a verdade é que ainda aqui estamos. Aliás, terão notado que as catástrofes de que temos sido vítimas (catástrofes naturais, económicas, políticas) ninguém as previu ou anunciou, ao passo que as catástrofes previstas, geralmente anunciadas com grande alarido, nunca se concretizam. Claro que a vida sem dramas e perigos eminentes seria demasiado monótona, e sem estas profecias os media ver-se-iam ainda mais aflitos do que já andam. Mas convém não entrar em alarmismos infundados, que a realidade já nos assusta que chegue.
13 de março de 2012
BIOGRAFIAS. Percebo que as biografias invariavelmente comecem pelos mais verdes anos dos biografados, mesmo pelos antepassados mais remotos, mas a verdade é que raramente vislumbro interesse nos verdes anos e nos antepassados, e quando isso sucede (e sucede quase sempre) geralmente canso-me antes de chegar ao que me interessa, acabando por adiar a leitura para melhores dias. Dos biografados apenas me interessa o que respeita à obra, a não ser que as origens dos biografados os tenham marcado de forma determinante, o que, admito, sucede em alguns casos. Mas tirando o que me parecem excepções, os verdes nada acrescentam. Quando muito acrescentam dezenas de páginas, às vezes centenas, que biografia que se preze tem largas centenas de páginas, que há que encher a todo o custo. Sou dos que lê vários livros ao mesmo tempo, mas nem isso explica as dezenas de biografias começadas e só meia dúzia acabadas.
9 de março de 2012
LAMENTÁVEL. Já aqui defendi a necessidade de ajudar o Presidente da República a terminar o mandato com dignidade. Como hoje voltou a demonstrar-se, não vai ser fácil. Cavaco insiste em protagonizar episódios lamentáveis e despropositados, que apenas servem para distanciar ainda mais os cidadãos dos políticos em geral e dos governantes em particular, e desbaratar o escasso respeito que os portugueses lhe reservam. A «falta de lealdade institucional histórica» do então primeiro-ministro José Sócrates para com ele, Presidente da República, de que Cavaco se queixa no prefácio de um livro, poderá ter acontecido, mas quem já se esqueceu das escutas que a Presidência insinuou que o Governo lhe terá feito que terminaram com Cavaco a meter os pés pelas mãos na mais lamentável declaração ao país de que há memória? O Presidente Cavaco não tem, de facto, autoridade moral para se queixar de falta de lealdade. Nem autoridade, nem sentido de Estado. Afinal, o episódio mais não é que um mero ajuste de contas, que só o diminui como Presidente.
8 de março de 2012
ORTOGRAFIA E IDEOLOGIA. Quem tem seguido a polémica à volta do Acordo Ortográfico, antes e depois de ser aprovado, há-de ter reparado que a generalidade da esquerda foi, e continua a ser, a favor, e a generalidade da direita foi, e continua a ser, contra. Há-de ter reparado mais: tirando um caso ou outro, geralmente porque as publicações onde trabalham (ou colaboram) adoptaram a nova grafia, os nossos melhores cronistas (falo apenas do ponto de vista estilístico) escrevem como se o Acordo não existisse. Porque têm dificuldade em adaptar-se à nova grafia? Porque a mudança implica um esforço que não estão dispostos a fazer? Porque sempre escreveram assim? Não me parece. O que significa, então, esta disputa entre esquerda e direita a propósito do Acordo? Que a esquerda, adoptando o Acordo, é moderna, e a direita, recusando-o, é retrógrada? Que os nossos melhores praticantes da língua a escrever na imprensa (para não falar dos blogues) são de direita ou andam lá perto, é um facto indesmentível, concorde-se, ou não, com as ideias que defendem. Já a esquerda parece adoptar o Acordo porque é moderno, porque será uma atitude progressista, porque sim. Convenhamos que os argumentos são tão incipientes que nem vale a pena rebater, embora, há que dizê-lo, nada surpreendentes. Afinal, há muito que a esquerda nos habituou a vê-la defender ideias que nem como tal se aguentam, e quase sempre impraticáveis. Estou à vontade para dizer o que digo: ao contrário do que muitos julgarão, sou, como sempre fui, independente. E ser independente significa, para mim, concordar com a direita em todos os casos que achar que a direita tem razão, e discordar da esquerda em todos os casos que achar que a esquerda não tem razão. Ou o contrário. Tenho, em política, um princípio sagrado: sou a favor do que julgo estar certo, contra o que julgo estar errado. Implique isso estar ao lado da esquerda ou contra ela, implique isto estar ao lado da direita ou contra ela. A política é demasiado complexa para que possa ser vista a preto e branco, como tende a ser vista pelos fiéis de ambos os lados — embora eu nada tenha contra quem esteja de um lado ou do outro, e não me custe reconhecer que há quem lá esteja e pense pela sua própria cabeça.
ORTOGRAFIA. É lamentável que o jornal que provavelmente melhor trata a língua portuguesa, e que até tem um provedor especialmente atento a ela, tenha trocado o por que pelo porque, embora já lá tenha visto erros bem mais grosseiros. Mas aproveitar o erro para lembrar que o Público aderiu ao novo Acordo Ortográfico, como fez o Filipe, é uma inverdade que o Público não merece. Então o Filipe ignora que o Público, benza-o deus, é dos poucos jornais portugueses que não só não adoptou o Acordo como se opõe a ele? E que é o jornal que mais tem contribuído para o debate sobre o dito, sem o qual provavelmente já o teríamos aceite como uma inevitalidade? Oh Filipe, preste lá um pouco de atenção ao Público, que diabo. Nem que seja para lhe detectar os erros e arrear-lhe em conformidade.
6 de março de 2012
COISAS ESTRANHAS. De facto, são muito estranhos os números da GfK, empresa alemã que substituiu a Marktest na medição das audiências televisivas. Estranhos porque a incompetência é tanta que se duvida que seja só isso, e mais estranho se torna quando é só a RTP a queixar-se de ter perdido, segundo a nova empresa, um terço das audiências. Não sou entusiasta das teorias da conspiração, mas cheira-me que isto traz água no bico. Resta saber se os números da Marktest eram mais rigorosos ou apenas mais generosos.
ISLÂNDIA. Não faço ideia se o ex-primeiro-ministro islandês é culpado pela falência da banca do seu país, nem se o tribunal que o julga por esse motivo será capaz de o condenar caso se demonstre que Geir Haarde é culpado. Mas agrada-me a ideia de haver um tribunal que pode julgar os governantes — ou ex-governantes — pelos seus actos.
5 de março de 2012
PROPAGANDA. O que já não teria dito o João Gonçalves de Álvaro Santos Pereira caso o ministro não integrasse o Governo que lhe paga para dizer esta estrumeira moral.
MAIS COISAS SIMPLES. «(...) o único ajustamento [ao Acordo Ortográfico] que me parece adequado seria a anulação de tamanha vergonha. (...) Conheço poucos processos tão unilaterais quanto o AO, não só porque alguns dos países envolvidos se recusam a aplicá-lo, mas sobretudo porque se trata de uma invenção de emproados com demasiado tempo livre e de uma imposição política e postiça.»
2 de março de 2012
AO CUIDADO DA ASAE. Acabo de receber dois pares de mouras lá da terra (em alguns sítios também conhecidos por chouriços de sangue), que tenciono despachar daqui a pouco com uns grelos da Califórnia, duas batatas do Idaho, um fio de azeite da Toscânia, e um tinto do Cartaxo. Se tudo correr bem, no final haverá pão-de-ló, e um vinho fino que eu cá sei. Depois falamos de colesterol, de tofu, de ginástica, coisas assim.
1 de março de 2012
DO RESPEITO. Os políticos ignoram as perguntas dos jornalistas? Riem-se deles? Acusam-nos de deturpar o que dizem? Está mal, mas se calhar o primeiro culpado são os próprios jornalistas. Quem já não ouviu, nas televisões e nas rádios, perguntas parvas? Quem já não assistiu a directos que não acrescentam um milímetro ao que é dito em estúdio? Vem nos livros que para ser respeitado é preciso dar-se ao respeito, e os jornalistas nem sempre se dão ao respeito. Verdade que a culpa nem sempre é deles, que muitas vezes é de quem manda neles, também eles pressionados por «objectivos» que é preciso cumprir. Só que o jornalismo que abdicou de se dar ao respeito acabará por perder tudo o que dantes possa ter ganho. É que o respeito, uma vez perdido, jamais se recuperará.
29 de fevereiro de 2012
THOMAS MANN. Após vários adiamentos, li A Montanha Mágica, e escassas páginas bastaram para ver que estava diante um livro notável. Sabia, à partida, que A Montanha é um grande livro, mas devo dizer que a circunstância não condicionou a minha opinião. Nem antes de o ler, nem depois de o ler. As referências elogiosas a um livro ou autor despertam-me, quando muito, curiosidade e incentivam-me a lê-lo (e já não é pouco), mas o juízo final sou eu quem o faz. Sou dos que prefere errar pela sua própria cabeça a acertar pela cabeça dos outros, com todas as virtudes e defeitos daí resultantes. E a minha sentença não me oferece dúvidas: se A Montanha Mágica não é uma obra-prima, não sei o que é uma obra-prima. Li com alguma dificuldade Morte em Veneza, salvo erro numa edição da Europa-América, mas lembro-me que na altura atribuí o escasso entusiasmo à má tradução. Ainda assim lembro-me de algumas passagens, apesar de o ter lido há mais de uma década. Agora vou a meio d’Os Buddenbrook, e apesar do prazer que me está a dar parece-me aquém da Montanha. Espero que Doutor Fausto, que me espreita ali da estante, faça jus à Montanha. Sei que é pedir demasiado, mas quem bebe um vinho fino de cinco estrelas tenderá a pôr defeitos num de quatro.
28 de fevereiro de 2012
FONTES ANÓNIMAS (2). A Agência Lusa diz não ter conseguido «provas conclusivas» de que a fonte anónima que lhe terá garantido que Domingos Paciência terá mantido encontros com dirigentes do FC Porto lhe terá fornecido informações falsas ou agido de má-fé. «Após aturada averiguação feita ao caso», diz a Lusa em nota aos clientes, a direcção de informação decidiu anular a controversa notícia e não divulgar, «para já», a identidade da fonte. Como foi evidente desde o início (disse-o aqui), a «aturada investigação» só podia ter acabado numa mão cheia de nada. Mais valia, portanto, ficarem calados.
COISAS EVIDENTES. Desculpem a presunção, mas há anos que ando a dizer o que agora o director da biblioteca de Harvard confessou à revista Ñ. «Me han invitado a tantas conferencias sobre la muerte del libro que estoy convencido de que el libro está bien vivo. La gente simplifica demasiado las cosas. Pocos entienden que cada año se publican muchos más libros que el año anterior. La impresión de libros se expande a un ritmo vertiginoso, y, de hecho, este año habrá un millón de nuevos títulos impresos. También es cierto que los libros digitales están adquiriendo cada vez más importancia, como nunca antes. Se piensa que el mercado de libros electrónicos ocupa el 15% de las ventas. Es mucho. A los libros electrónicos les está yendo muy bien en EE.UU. Es una tendencia mundial. Los libros electrónicos, por supuesto, se están volviendo cada vez más importantes. Pero, al mismo tiempo, eso sucede con los libros impresos. Entonces, ¿cómo podemos interpretar esta situación? (...) Me parece que la gente hoy comprende la llegada del mundo digital como algo que transforma totalmente nuestra experiencia. Entonces imaginan que los medios de comunicación digitales y analógicos ocupan extremos opuestos del espectro tecnológico. Eso, en mi opinión, es un malentendido de base. Para mí, de hecho, se complementan entre sí.»
27 de fevereiro de 2012
24 de fevereiro de 2012
22 de fevereiro de 2012
TÃO SIMPLES COMO ISTO. «Toda a gente sabe que, não tendo sido ratificado pelas Repúblicas Populares de Angola e de Moçambique, [o Acordo Ortográfico] não entrou em vigor. (…) Ora, sem o AO estar em vigor, a solução é muito simples: continua a vigorar a ortografia que se pretendia alterar. Como estamos num estado de Direito, a solução é só essa e mais nenhuma. E a lei deve ser cumprida por todos.»
21 de fevereiro de 2012
A BOA MOEDA E A MÁ MOEDA (1). Não sei se a atitude de Passos Coelho quando se dirigiu aos manifestantes que o vaiaram em Gouveia foi um acto de modéstia da sua parte ou um gesto devidamente ponderado, mas tiro-lhe o chapéu de qualquer maneira. Não porque o primeiro-ministro tenha feito mais que a sua obrigação, mas porque gestos assim, genuínos ou encenados, são cada vez mais raros, e na minha opinião cada vez mais necessários. Teve uma eficácia acrescida: disparou uma farpa tão oportuna como certeira sobre o Presidente da República, que dias antes vergonhosamente se furtou a uma visita a uma escola onde era aguardado por uma manifestação de descontentamento que nem sequer lhe era directamente destinada. Portugal precisa de um Presidente forte e umas botas? Não há dúvida que precisa. Mas a verdade é que os episódios pouco edificantes protagonizados por Cavaco nos últimos anos em nada contribuíram para que os portugueses o respeitem. Como em tempos se disse de outros governantes, resta, portanto, ajudá-lo a terminar o mandato com dignidade. Pelo rumo que as coisas estão a levar, não vai ser fácil.
17 de fevereiro de 2012
FONTES ANÓNIMAS (1). Depois de ser alvo de um processo — ou ameaça de um processo — por divulgar uma notícia aparentemente falsa, a Agência Lusa resolveu emitir um comunicado onde se penitencia e explica por que tal sucedeu. Segundo ela, uma fonte anónima de «toda a confiança» terá dito ao autor da notícia que Domingos Paciência, então treinador do Sporting, terá mantido encontros com dirigentes do FC Porto, facto que não será verdadeiro. Disse mais: a elaboração da notícia «não respeitou as normas essenciais do Código Deontológico do Jornalista nem as regras do Livro de Estilo da Agência» previstas para estes casos, e caso venha a apurar que a fonte da notícia agiu de má-fé identificá-la-á. Ora, cometer um erro e assumi-lo, é o mínimo que se exige, mas neste caso parece-me pouco. Desde quando se dá uma notícia, ainda por cima uma notícia que iria causar brado, com base em fontes anónimas de que não se está absolutamente seguro? Depois, como saber — e demonstrar — que a tal fonte agiu de má-fé? Perdoar um erro que não tem perdão, ainda vá. Mas fazerem promessas impossíveis de concretizar, só mesmo para enganar o freguês.
15 de fevereiro de 2012
COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Haverá, no sistema penal português, inúmeros procedimentos difíceis de entender, mas este parece-me flagrante. Um suspeito de ter cometido determinado crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva caso um juiz considere perigoso mantê-lo em liberdade. Já um condenado por um tribunal a uma pena de prisão efectiva pode aguardar em liberdade a decisão de um tribunal superior caso o condenado decida para aí recorrer. Estão a ver a lógica da coisa? Eu confesso que não.
14 de fevereiro de 2012
AGUENTA QUE É SERVIÇO. Pergunto-lhe como vão as coisas por ter de falar sem nada que me ocorra, e o sujeito desata a crescer, a crescer, a encher os pulmões — e a seguir despeja-me em cima um arrazoado que logo desisti de ouvir para lhe observar os danos colaterais que um olho matreiro no mais leve movimento das catraias ao balcão não conseguia esconder. Citou Nietzsche mal e a despropósito, embrulhou-se numa teoria do bem-estar que dizia praticar mas claramente não praticava, meteu os pés pelas mãos vezes sem conta, e concluiu o «raciocínio» a barafustar contra «os filhos da puta que nos governam». Terminou o monólogo a segredar-me o que fazia àquela pequena se ela deixasse, e a pequena a perceber que o sujeito falava dela e não devia ser coisa boa. Às vezes, quando o acaso nos junta, descreve-me as proezas sexuais que diz ter praticado ainda ontem mas obviamente não praticou, nem sequer o «papai e mamãe», como diriam as brasileiras que tanto lhe incendeiam a libido. Tudo dito com uma convicção tal que chega a parecer-me que acredita nas suas próprias mentiras, mesmo depois de ajuntar um ou outro detalhe à história que só lha enfraquece. Mas ninguém é perfeito, como ele costuma dizer, embora a modéstia não seja o seu forte.
9 de fevereiro de 2012
ESTRELAS LITERÁRIAS. Considerando que apenas uma ínfima parte dos livros que diariamente se publicam resistirão ao tempo, esse grande juiz, como entender a quantidade de estrelas que os críticos literários atribuem às novidades que vão saindo? E os autores portugueses contemporâneos, que pela quantidade de estrelas que lhe são concedidas a cada novo livro só podem ser obras-primas? Será que alguém se lembrará desses livros daqui a dois ou três anos? Com certeza que há livros e escritores injustamente esquecidos (estou a lembrar-me de Vergílio Ferreira, mas há mais), mas quer-me parecer que o esquecimento não durará para sempre. Mais tarde ou mais cedo regressarão ao convívio com os leitores, que a passagem do tempo faz esquecer mas não apaga inteiramente. Já as «obras-primas» diariamente apregoadas como tal estão, de um modo geral, condenadas ao esquecimento eterno. Bem sei que os críticos literários têm contas a pagar no final do mês, mas fazia-lhes bem meditar nisto.
7 de fevereiro de 2012
NO CENTENÁRIO DE DICKENS. Suspeito que já aqui falei do assunto (não me apetece consultar os arquivos), mas não me canso de recomendar esta passagem de Dickens em que ele descreve a sua chegada a Veneza:
I was awakened after some time (as I thought) by the stopping of the coach. It was now quite night, and we were at the waterside. There lay here, a black boat, with a little house or cabin in it of the same mournful colour. When I had taken my seat in this, the boat was paddled, by two men, towards a great light, lying in the distance on the sea.
Ever and again, there was a dismal sigh of wind. It ruffled the water, and rocked the boat, and sent the dark clouds flying before the stars. I could not but think how strange it was, to be floating away at that hour: leaving the land behind, and going on, towards this light upon the sea. It soon began to burn brighter; and from being one light became a cluster of tapers, twinkling and shining out of the water, as the boat approached towards them by a dreamy kind of track, marked out upon the sea by posts and piles.
We had floated on, five miles or so, over the dark water, when I heard it rippling in my dream, against some obstruction near at hand. Looking out attentively, I saw, through the gloom, a something black and massive - like a shore, but lying close and flat upon the water, like a raft - which we were gliding past. The chief of the two rowers said it was a burial-place.
Full of the interest and wonder which a cemetery lying out there, in the lonely sea, inspired, I turned to gaze upon it as it should recede in our path, when it was quickly shut out from my view. Before I knew by what, or how, I found that we were gliding up a street - a phantom street; the houses rising on both sides, from the water, and the black boat gliding on beneath their windows. Lights were shining from some of these casements, plumbing the depth of the black stream with their reflected rays, but all was profoundly silent.
So we advanced into this ghostly city, continuing to hold our course through narrow streets and lanes, all filled and flowing with water. Some of the corners where our way branched off, were so acute and narrow, that it seemed impossible for the long slender boat to turn them; but the rowers, with a low melodious cry of warning, sent it skimming on without a pause. Sometimes, the rowers of another black boat like our own, echoed the cry, and slackening their speed (as I thought we did ours) would come flitting past us like a dark shadow. Other boats, of the same sombre hue, were lying moored, I thought, to painted pillars, near to dark mysterious doors that opened straight upon the water. Some of these were empty; in some, the rowers lay asleep; towards one, I saw some figures coming down a gloomy archway from the interior of a palace: gaily dressed, and attended by torch-bearers. It was but a glimpse I had of them; for a bridge, so low and close upon the boat that it seemed ready to fall down and crush us: one of the many bridges that perplexed the Dream: blotted them out, instantly. On we went, floating towards the heart of this strange place - with water all about us where never water was elsewhere - clusters of houses, churches, heaps of stately buildings growing out of it - and, everywhere, the same extraordinary silence. Presently, we shot across a broad and open stream; and passing, as I thought, before a spacious paved quay, where the bright lamps with which it was illuminated showed long rows of arches and pillars, of ponderous construction and great strength, but as light to the eye as garlands of hoarfrost or gossamer - and where, for the first time, I saw people walking - arrived at a flight of steps leading from the water to a large mansion, where, having passed through corridors and galleries innumerable, I lay down to rest; listening to the black boats stealing up and down below the window on the rippling water, till I fell asleep.
O livro, Pictures from Italy, pode ser descarregado aqui.
I was awakened after some time (as I thought) by the stopping of the coach. It was now quite night, and we were at the waterside. There lay here, a black boat, with a little house or cabin in it of the same mournful colour. When I had taken my seat in this, the boat was paddled, by two men, towards a great light, lying in the distance on the sea.
Ever and again, there was a dismal sigh of wind. It ruffled the water, and rocked the boat, and sent the dark clouds flying before the stars. I could not but think how strange it was, to be floating away at that hour: leaving the land behind, and going on, towards this light upon the sea. It soon began to burn brighter; and from being one light became a cluster of tapers, twinkling and shining out of the water, as the boat approached towards them by a dreamy kind of track, marked out upon the sea by posts and piles.
We had floated on, five miles or so, over the dark water, when I heard it rippling in my dream, against some obstruction near at hand. Looking out attentively, I saw, through the gloom, a something black and massive - like a shore, but lying close and flat upon the water, like a raft - which we were gliding past. The chief of the two rowers said it was a burial-place.
Full of the interest and wonder which a cemetery lying out there, in the lonely sea, inspired, I turned to gaze upon it as it should recede in our path, when it was quickly shut out from my view. Before I knew by what, or how, I found that we were gliding up a street - a phantom street; the houses rising on both sides, from the water, and the black boat gliding on beneath their windows. Lights were shining from some of these casements, plumbing the depth of the black stream with their reflected rays, but all was profoundly silent.
So we advanced into this ghostly city, continuing to hold our course through narrow streets and lanes, all filled and flowing with water. Some of the corners where our way branched off, were so acute and narrow, that it seemed impossible for the long slender boat to turn them; but the rowers, with a low melodious cry of warning, sent it skimming on without a pause. Sometimes, the rowers of another black boat like our own, echoed the cry, and slackening their speed (as I thought we did ours) would come flitting past us like a dark shadow. Other boats, of the same sombre hue, were lying moored, I thought, to painted pillars, near to dark mysterious doors that opened straight upon the water. Some of these were empty; in some, the rowers lay asleep; towards one, I saw some figures coming down a gloomy archway from the interior of a palace: gaily dressed, and attended by torch-bearers. It was but a glimpse I had of them; for a bridge, so low and close upon the boat that it seemed ready to fall down and crush us: one of the many bridges that perplexed the Dream: blotted them out, instantly. On we went, floating towards the heart of this strange place - with water all about us where never water was elsewhere - clusters of houses, churches, heaps of stately buildings growing out of it - and, everywhere, the same extraordinary silence. Presently, we shot across a broad and open stream; and passing, as I thought, before a spacious paved quay, where the bright lamps with which it was illuminated showed long rows of arches and pillars, of ponderous construction and great strength, but as light to the eye as garlands of hoarfrost or gossamer - and where, for the first time, I saw people walking - arrived at a flight of steps leading from the water to a large mansion, where, having passed through corridors and galleries innumerable, I lay down to rest; listening to the black boats stealing up and down below the window on the rippling water, till I fell asleep.
O livro, Pictures from Italy, pode ser descarregado aqui.
6 de fevereiro de 2012
APLAUSOS. Vasco Graça Moura mandou, e bem, remover a aplicação informática que no Centro Cultural de Belém convertia os textos em português para a grafia imposta pelo novo Acordo Ortográfico. Graça Moura foi dos primeiros a contestar o Acordo, quem mais deu a cara e argumentos contra a sua entrada em vigor, e apesar de ter sido aprovado pela Assembleia da República jamais desistiu de o contestar. Mais: defende que o Acordo não pode entrar em vigor sem a ratificação de Angola e Moçambique, e que é inconstitucional. Não se perceberia, portanto, que aceitasse presidir a uma instituição onde a língua portuguesa não seja tratada segundo os princípios que defende e pelos quais se tem batido. Parece que o estatuto do CCB, fundação pública de direito privado, dispensará a instituição de adoptar o Acordo até 2014, pelo que não terá havido desobediência governamental, como chegou a ser dito. Assim sendo, é uma decisão que se aplaude. Graça Moura foi coerente com o que defende, corajoso num país onde a coragem não abunda, e espevitou o debate à volta de um tema sobre o qual existem cada vez mais dúvidas. Três coelhos de uma só cajadada não é obra para qualquer um.
3 de fevereiro de 2012
AUTOCENSURA. Ele há coincidências, toda a gente sabe que há. Mas quem acredita que a decisão de acabar com um programa da RDP e afastar o colaborador que lá denunciou a fantochada que a RTP transmitiu a partir de Luanda estava tomada antes das críticas irem para o ar? Quem acredita que o afastamento de Pedro Rosa Mendes e a suspensão do programa em que colaborava foi um «acto de gestão normal»? Desconheço se o responsável pela decisão foi pressionado pelo poder, directa ou subtilmente, mas não errarei muito se disser que foi um caso de autocensura. Autocensura, como sabemos, que é a pior das censuras.
1 de fevereiro de 2012
ELOGIO DO CONFLITO. Presidente e Governo garantiram, à vez, que não há problema entre eles. E por que se deram a esse trabalho? Porque há, de facto, um problema entre eles, como até o mais distraído já notou. Mas será um conflito entre o Presidente e o Governo um mal em si mesmo? Depende, claro, da natureza do conflito, mas de um modo geral parece-me positivo. E quando o conflito é entre membros da mesma família política, como o caso presente, ainda me parece melhor. Claro que não é fácil perceber quando o conflito resulta de diferentes pontos de vista ou de razões, digamos, de pequena política. Mas em política o conflito é saudável, se calhar mesmo quando motivado pela pequena política. A unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues já não me lembro a que propósito. A unanimidade em política ainda é mais burra, acrescentaria eu.
31 de janeiro de 2012
INOCENTE PORQUE SIM. Mário Soares escreveu, a propósito do livro Inocente para além de qualquer dúvida, que Carlos Cruz tem vindo «a demonstrar a sua inocência». Ora, de que modo? Publicando livros onde não se espera que diga outra coisa? Publicando livros onde apenas se lê a sua versão dos factos? Publicando livros onde se apresenta como juiz em causa própria? Já disse e repeti que não sei se Cruz é culpado dos crimes de que foi acusado — e, já agora, condenado, apesar do recurso ainda correr no Tribunal da Relação de Lisboa. Mas não será evidente que os livros que ele vem publicando não demonstram coisa alguma? Muitos acham que Cruz está inocente porque se recusam a acreditar que ele foi capaz de cometer os crimes por que foi condenado, porque acham que Cruz é uma pessoa decente, porque são amigos dele e os amigos são para as ocasiões. Resumindo, acreditam na sua inocência porque sim. Já o tribunal considerou-o culpado com base em evidências mais sólidas que o porque sim. Claro que o tribunal se pode ter enganado, mas a quantidade de material que lhe passou pelas mãos e o ror de gente que o processo envolveu torna difícil acreditar na existência de um erro, muito menos numa conspiração. Haverá, quando muito, pequenos erros processuais, mas custa-me a crer que o tribunal tenha errado no essencial. Nada contra Carlos Cruz, mas acredito mais facilmente no tribunal que na versão dele. Pela simples razão de que a versão do tribunal é mais consistente, e presumo que o tribunal não tinha, à partida, interesse que o desfecho do caso fosse numa determinada direcção, como vi insinuado mas nunca fundamentado. Já a versão de Carlos Cruz é a versão de parte interessada. Por mais objectiva e distanciada que se reclame.
30 de janeiro de 2012
UM FAIT DIVERS? Aparentemente, a petição que pede a demissão de Cavaco vai dar em nada. Por força da lei (ninguém o pode demitir), e porque a lei é para cumprir. Mas 39 mil assinaturas a pedir a demissão do Presidente da República por este ter dito o que não devia, convenhamos que não é o fait divers que alguns pretendem fazer crer. Não que eu defenda a demissão de Cavaco por causa do lamentável episódio. Mas não me venham dizer que o que disse o PR sobre a sua reforma e a petição que agora pede a sua demissão não são coisas para levar a sério. Especialmente depois de Cavaco não ter sido capaz de matar o assunto à nascença, como lhe competia, e quando finalmente condescendeu a dar explicações mais valia estar calado.
ISTO ANDA TUDO LIGADO. Como estarão lembrados, há pouco mais de uma semana a RTP promoveu uma espécie de Prós e Prós a partir de Luanda que dificilmente se distinguiria da propaganda do antigo regime, e que ditou o encerramento de um programa da RDP após um seu colaborador denunciar a tramóia. Dois ou três dias depois noticiaram-se mudanças na administração do BCP, por vontade de um dos seus maiores accionistas (a Sonangol), e o despedimento de duas dezenas de jornalistas do Sol, cujo maior accionista é, adivinharam, um grupo angolano. Isto para só falar do que veio a lume na última semana, que os casos multiplicam-se e parte deles nem chega às notícias. Como é evidente, isto não augura nada de bom.
A RTP NÃO TEM NADA A DIZER? Como se viu, foram às dezenas as críticas que nos media se ouviram sobre o Prós e Contras travestido de Reencontro que a RTP emitiu a partir de Luanda. Ora, face a este cenário, a direcção de informação da televisão pública não tem nada a dizer? Não seria de esperar que a RTP, serviço público de televisão, explicasse o critério editorial que presidiu àquilo, e que saísse em defesa da casa e de quem nela trabalha?
25 de janeiro de 2012
FICAMOS À ESPERA DA CURA. Há uma justiça para os ricos e uma justiça para os pobres, disse a ministra da Justiça. Disse mais: há um sem número de fraudes no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente praticados por laboratórios farmacêuticos e fornecedores de equipamentos. Nada que não se detecte a olho nu no primeiro caso, e que não se suspeite no segundo. Mas é bom que seja a ministra a dizê-lo, embora dizê-lo não baste para mudar o que quer que seja. Duvido, aliás, que a ministra consiga curar os males que apontou, como julgo ser sua intenção, mesmo genuinamente convencida de que é capaz e que a vontade nunca lhe falte.
23 de janeiro de 2012
POBREZA DE ESPÍRITO. O Presidente da República demorou três dias a dizer aos portugueses que não foi «suficientemente claro» quando falou sobre as suas pensões de reforma. Ora, se o que disse Cavaco sobre o assunto constituiu um insulto aos portugueses, particularmente aos portugueses que recebem pensões de miséria ou estão no desemprego, vir agora dizer que não foi claro naquilo que foi claro como água, é mais um insulto aos portugueses. O Presidente achará mesmo que a generalidade dos portugueses se identifica com o seu caso, que também ele, como a generalidade dos seus concidadãos, sofreu com as medidas de austeridade impostas pelo Governo? Se acha, só posso concordar com o Alberto Gonçalves quando ele diz que «a tentativa de se aproximar do homem comum na pobreza material levou Cavaco Silva a suplantá-lo em pobreza de espírito». Isto na melhor das hipóteses, que já é suficientemente má para se imaginarem outras piores.
PROPAGANDA VERGONHOSA. O que não diria o João Gonçalves, hoje adjunto do ministro Relvas, do Prós e Contras disfarçado de Reencontro que a RTP, serviço público de televisão, se prestou a fazer a partir de Luanda. Não foi, aliás, por acaso que Pacheco Pereira, destacado militante do PSD, comparou a fantochada às práticas do Estado Novo, e Eduardo Cintra Torres, militante do PSD ou lá próximo, lhe chamou «porcaria». De facto, não me lembro de nada tão vergonhoso.
DEMOCRACIA. Provavelmente grande parte dos inquiridos não tem bem a noção do que a democracia representa, mas ainda assim preocupa que apenas 56% dos portugueses considere preferível a democracia a qualquer outra forma de governo. Pior: segundo o estudo há pouco divulgado, estes números têm vindo a baixar, e 15% dos inquiridos acham mesmo que «nalgumas circunstâncias» é preferível um governo autoritário a um sistema democrático. Porque, diz-se no estudo, os portugueses se sentem cada vez menos representados pelos partidos políticos e cada vez mais pelos «movimentos sociais de protesto». Ora, que os partidos políticos estão cada vez mais distantes dos cidadãos, é uma evidência que se nota cada vez mais e motivo de preocupação. Mas preocupante mesmo é saber que os portugueses se vêm distanciando da democracia. Ficou célebre a frase de Churchill sobre a democracia, que considerou o pior dos sistemas exceptuando todos os outros. Infelizmente, nenhum outro sistema o superou até agora. Com todos os defeitos (que são muitos), a democracia continua a ser o menos mau dos sistemas, o único que permite o que mais prezo: a liberdade, tenha ela as condicionantes que tiver.
19 de janeiro de 2012
UM FILME DEMASIADO VISTO. Para não variar, a história das nomeações para a empresa Águas de Portugal está pessimamente contada, e cheira a um expediente demasiado familiar. Os administradores acabadinhos de nomear são competentes? Serão, e também pertencem aos partidos que integram a coligação governamental — e ninguém acredita em coincidências. Depois há um dos nomeados que enquanto presidente de câmara mantém um contencioso com a Águas de Portugal por não ter pago alguns milhões de euros. Como conciliar os interesses do município que governa com os interesses da empresa de que agora é administrador? Se dúvidas houvesse que as nomeações se destinaram a satisfazer clientelas, este episódio acaba com elas. Evidentemente que nada disto surpreende. Mas é preciso lembrar que, neste aspecto, o actual Governo não se distingue dos anteriores, como tanto gosta de alardear. E ainda a procissão vai no adro.
17 de janeiro de 2012
KAZANTZAKIS. Nova incursão pelos alfarrabistas, mais duas preciosidades a preços ridículos: Report to Greco, de Nikos Kazantzakis, e The Autobiography of William Butler Yeats. Agarrei-me logo ao primeiro como quem não tem mais nada para ler, e desconfio que não porei a vista noutros enquanto não o acabar. Pouco mais de uma centena de páginas bastaram para ver que é um livro a ler devagar, a saborear palavra a palavra como quem saboreia o que mais gosta. O tempo amareleceu-lhe as páginas, e a sujidade é maior que o normal nestes casos. Mas também há sublinhados e comentários nas margens, coisas que irritarão a maioria dos leitores mas que eu encaro como mais-valias.
13 de janeiro de 2012
CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL? O Miguel Castelo Branco esqueceu-se, ao referir-se às abomináveis imagens de soldados americanos a urinar sobre cadáveres talibãs, de um detalhe importante: nas guerras de antigamente não havia máquinas fotográficas, câmaras de filmar e internet ao alcance de qualquer um — e isso, convenhamos, faz toda a diferença. Pior: confunde um episódio isolado com a América, de que demonstra ter uma visão assente nos estereótipos do costume.
MAÇONARIA. O jornalista Ferreira Fernandes publicou, há pouco, uma crónica com o seguinte título: «Hoje, os maçons escondem-se de quê?» De facto, tendo em conta que vivemos em regime democrático, onde os maçons não correm o risco de ser presos ou vítimas de patifarias, a pergunta impõe-se. Exigir que os deputados maçons e outros detentores de cargos políticos declarem a condição de maçons em nome da transparência, como alguns defendem, talvez seja um exagero, e provavelmente é ilegal. Mas não há dúvida de que esta história de amor entre a Maçonaria e o poder, ou entre uma certa Maçonaria e um certo poder, fede que tresanda. Daí que não viria mal ao mundo que os maçons detentores de cargos políticos livremente se assumam como tal. Não duvido que a maçonaria é respeitável, e não estou a ironizar. Mas como distinguir os maçons bons dos maçons maus? E porque não acabam, já agora, com o secretismo, que até hoje ninguém explicou e só gera desconfianças?
POLÍTICA E INTERESSES. Concordo com a generalidade do que disse Francisco Assis no Público de ontem, mas com uma ressalva: é evidente que existe uma direita política e uma direita dos interesses, como ele disse, como é evidente que existe uma esquerda política e uma esquerda dos interesses, como ele não disse. Esquerda e direita não se distinguem neste aspecto, pelo menos a esquerda e a direita moderadas. Talvez seja um exagero dizer que o posicionamento ideológico da maioria dos que actualmente se interessam por política funciona mais por interesse que por convicção, mas a verdade é que são cada vez mais os casos em que isso se torna evidente.
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