18 de setembro de 2012
FIM DE SEMANA. Passei o fim de semana afastado das notícias, que adivinhei piores à medida que o tempo passava, e aproveitei-o para concluir The Road to Oxiana, que iniciei há um par de anos e só agora decidi terminar. Retomo as notícias, as frescas e as outras, e confirmo que assim foi. As de hoje são piores que as de ontem, que já eram piores que as de anteontem. Pior: não se vislumbram melhores notícias para os próximos dias, talvez para os próximos anos. Não fossem as contas a pagar, e passar-me-ia a ocupar exclusivamente do que me interessa, duas ou três coisas sem importância para a generalidade das pessoas mas para mim essenciais.
14 de setembro de 2012
DA OPOSIÇÃO. Que a oposição, toda a oposição, seja contra tudo o que o Governo faz ou deixa de fazer, mesmo as coisas boas, entende-se. Afinal, o papel da oposição nos tempos que correm é opor-se ao Governo, não com a ideia que o Governo faça melhor (ou o que lhe parece melhor), mas com o único propósito de correr com o Governo para lhe tomar o lugar. Mas quando a oposição cresce de dia para dia dentro dos próprios partidos que integram o Governo, como está a acontecer, a coisa ganha outra dimensão. Verdade que os críticos mais destacados que integram os partidos no poder têm contas a ajustar com o líder, mas nem por isso torna menos contundentes as suas críticas. Têm, além disso, a particularidade de passar a ideia de que a família está de tal modo desavinda que já nem consegue disfarçar o mal-estar. Infelizmente, a generalidade dos críticos da família não tem, como a restante oposição, alternativas concretas, e tratando-se de gente que vive da política e para a política, convenhamos que é confrangedor. Quero imaginar que não há alternativas eficazes às actuais medidas governamentais, embora isso não me sirva de consolo. Quem vive da política tem obrigação de fazer mais e melhor. Se discorda das medidas governamentais, faça favor de apresentar alternativas concretas. É esse, afinal, o seu trabalho, e o mínimo que dele se espera.
13 de setembro de 2012
RTP (2). Como já disse e repeti, não tenho uma posição definitiva sobre o futuro da RTP. Parece-me, no entanto, que os funcionários da dita deveriam ser os últimos a manifestar-se sobre o futuro da empresa. Porque têm interesses directos na matéria, e naturalmente isso retira-lhes o distanciamento necessário para se pronunciarem com isenção e seriedade sobre o futuro da dita.
RTP (1). A comissão de trabalhadores da RTP revelou que o primeiro-ministro exigiu que a entrevista hoje concedida à televisão pública fosse em São Bento em vez dos habituais estúdios da empresa, porque assim o primeiro-ministro evitou, segundo eles, encarar «cara-a-cara os trabalhadores de uma empresa que o Governo está em vias de destruir». Revelou mais a comissão de trabalhadores: a entrevista em São Bento representou um gasto «injustificável» de milhares de euros. Ora, face a este cenário, por que não recusou a RTP fazer a entrevista nos moldes exigidos? Alguma lei a obriga a entrevistar o primeiro-ministro?
11 de setembro de 2012
BIZARRIAS. Há coisas difíceis de entender no sistema penal português. Por exemplo, um suspeito de cometer um crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva, e apesar de alguns excessos que terão sido cometidos ao abrigo deste instrumento, o princípio parece-me justo. Já um condenado a prisão efectiva pode aguardar em liberdade até que seja conhecida a decisão de uma segunda instância caso para aí decida recorrer. Resumindo, a justiça é mais lesta a punir um suspeito (metendo-o na prisão) que um condenado (deixando-a à solta).
7 de setembro de 2012
CORRUPÇÃO. Paulo Morais não se tem cansado de denunciar a corrupção. E tem-no feito de modo assinalável: apresenta casos concretos que envolvem pessoas concretas, perante os quais um mínimo de boa vontade bastaria para os levar a tribunal, e uma vez lá facilmente punidos. Como é sabido, não é assim. Apesar das evidências, nada se fez, nada se faz, nada se fará. A justiça funciona exemplarmente para o pé descalço — no caso, evidentemente, de o pé descalço meter a pata na poça, que se for para reclamar um direito ou defender-se de alguém poderoso o caso muda de figura. Sempre que se trata de gente importante, a justiça ou não funciona, ou funciona mal. Tem razão a procuradora-geral adjunta quando diz que «o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos». Afinal, para haver casos de corrupção é preciso que alguém avance contra alguém com processos de corrupção. Como não há, e os poucos que há geralmente acabam em nada, a corrupção passa por ser um fenómeno isolado. É pena que Cândida Almeida pareça mais interessada em questões formais que em questões de facto. Os níveis de corrupção em Portugal não param de aumentar, e julgo desnecessários estudos para o demonstrar. A começar, justamente, pelos nossos políticos, cujos casos em que se suspeita de enriquecimento ilícito são cada vez mais numerosos.
5 de setembro de 2012
MAIS MENTIRAS. Ao contrário do que Miguel Sousa Tavares defendeu no Expresso em mais um exercício de falta de seriedade, a desregulamentação dos mercados não começou com George W. Bush. Qualquer pesquisa no Google bastará para o demonstrar, pelo que me dispenso de o fazer. Não que me incomodem as opiniões de que discordo, mesmo as opiniões disparatadas. O que realmente me chateia é que se faça passar por factos (por natureza indesmentíveis) o que não passa de pura ignorância (nos casos mais benévolos) ou verdadeiras mentiras. Alguém do Expresso devia lembrar ao cavalheiro que opiniões assentes em factos que não são verdadeiros não é aceitável.
FÉRIAS (2). Para não variar, comprei mais livros nas férias do que li. (Aliás, sempre comprei mais livros do que li, nas férias ou fora delas, mas isso é outra conversa.) Descobri três novos alfarrabistas (aqui, aqui e aqui), onde por uma quantia irrisória comprei meia dúzia de livros — The Journals of André Gide (volumes I e II), Pretexts: Reflections on Literature and Morality, também de Gide, A Sort of Life, de Graham Greene, Bomarzo, de Manuel Mujica Láinez, e Últimas Tardes Con Teresa, de Juan Marsé. Descobri, ainda, mais uma livraria a visitar regularmente, a Three Lives, e na melhor livraria de Manhattan encontrei um livro em português de Nelson Rodrigues (O Reacionário) que perseguia há anos, que adquiri por tuta e meia e posteriormente descobri ter sido autografado pelo próprio autor. Fora isso, concluí The Banquet Years, de Roger Shattuck, e Servidão Humana, de Somerset Maugham. Como previ antes das férias, pouco mais que nada.
3 de setembro de 2012
LIDO (3). «Impossível (...) perceber porque se apressou António Borges a considerar justo o preço oferecido pelos brasileiros da Camargo Côrrea pela Cimpor, quando a própria administração da empresa o considerou baixo — não costuma ser o vendedor a regatear o preço!» João Paulo Batalha, Público de 25/08/2012
LIDO (1). «In Italy, for 30 years under the Borgias, they had warfare, terror, murder and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love, they had 500 years of democracy and peace — and what did that produce? The cuckoo clock», escreveu o filósofo John Gray. Mas adiantou: «This isn't because artists and writers do their best work when they're being persecuted — a Romantic cliche that doesn't stand up to any careful inquiry.»
10 de agosto de 2012
9 de agosto de 2012
MENTIRAS DE VERÃO. Como estivesse necessitado de leitura para férias e não tivesse nas estantes demasiados livros que ainda não li, acaba de me chegar mais meia dúzia, que sempre aguardo com a excitação e a impaciência com que ontem, criança, aguardava um novo brinquedo. Trata-se de My Life, de John Leonard, Italian Journey, de Goethe, Under the Sun, de Bruce Chatwin, Surreal Lives, de Ruth Brandon, Closing the Circle, de Auberon Waugh, e The Banquet Years, de Roger Shattuck. Se não mudar de ideias à última hora, acompanhar-me-ão, nos cinco dias que tenciono ausentar-me, The Banquet Years, de que já li metade, Doutor Fausto (Thomas Mann) e Servidão Humana (Somerset Maugham), que também vão a meio, além de algumas centenas no iPad. Perguntar-me-ão a que propósito vem isto, que só a mim interessará. Respondo com outra pergunta: a quem interessarão os livros que por esta altura a imprensa costuma recomendar como apropriados para ler no Verão? Como é evidente, interessam à imprensa, e apenas à imprensa, que nesta altura está sem assunto. Quem lê regularmente sabe o que há-de ler, no Verão e fora dele, e não precisa de recomendações de ocasião. Quem não lê, obviamente que não é no Verão que vai mudar de hábitos, muito menos vai ler o que dizem os jornais sobre tão entediante assunto. Como a «literatura de Verão», ou a literatura apropriada para ler no Verão (seja lá isso o que for), o aparente interesse dos leitores de jornais por leituras de Verão é uma falácia. Mais: ao contrário do que também se diz, nas férias lê-se menos que no resto do ano, e quem garante reservar para as férias não sei que livros, ou é ingénuo, ou mente.
7 de agosto de 2012
TELHADOS DE VIDRO. Se bem me lembro, Arons de Carvalho em tempos escreveu que Mário Crespo, então correspondente da RTP em Washington, lhe pediu que intercedesse em seu favor junto da administração da RTP num processo disciplinar de que então foi alvo, e que acabou por ditar o regresso de Crespo a Lisboa. Face à gravidade do que disse o actual vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, na altura do pedido Crespo secretário de Estado da Comunicação Social, o actual jornalista da SIC não tugiu, nem mugiu. Posteriormente noticiou-se que Crespo tentou regressar a Washington pela mão do actual ministro que tutela a comunicação social, novamente como corresponde da RTP, processo que não terá corrido bem e cujos contornos não se perceberam (Crespo não era, como não é, jornalista da RTP, e ao que parece o cargo estará reservado a jornalistas da RTP). Não espanta, portanto, que Mário Crespo, que no tempo de Sócrates tanto pregou a favor da liberdade de expressão e na Assembleia da República chegou a protagonizar um episódio que envergonhou o jornalismo e os jornalistas, venha agora dizer que o ministro Miguel Relvas tenha, coitado, sido «a única vítima» no caso do canudo da Lusófona (via A Douta Ignorância), e que há uma campanha contra o ministro que tutela a comunicação social (via Vida Breve). Como dizia o outro, cada um trata a coluna vertebral como bem entende, e não se pede a Crespo que faça outra coisa. Escusava era de agir como se fôssemos estúpidos.
DESPERDIÇAR DINHEIRO PÚBLICO. Não tenho uma opinião definitiva sobre o futuro da RTP. Não sei se deve manter-se no Estado, se deve passar para os privados. Todos os canais, ou parte dos canais. Mas agora, que o Governo se prepara para vender um canal, a pretexto de que o Estado não deve possuir uma televisão (ou tem demasiados canais) e se torna imperioso reduzir as despesas (e de caminho encaixar uns milhões), insisto na pergunta que já aqui fiz: alguém me explica por que razão a RTP necessita de um correspondente em Washington? Haverá lá matéria que justifique uma delegação permanente? Considerando os custos que isso comportará, não ficaria mais barato à RTP deslocar de Lisboa uma equipa sempre que tal se justifique? Não será a delegação em Washington um claro desperdício de dinheiros públicos?
3 de agosto de 2012
A OBSESSÃO DE CASTILHO. Segundo o professor Castilho, não há nada, absolutamente nada, que o ministro Nuno Crato tenha feito como deve ser. Como julgo ser prática do ilustre professor, não acompanho ao detalhe o que se passa no Ministério da Educação, as medidas que têm sido tomadas, e o impacto que terão tido. Mas há, desde logo, uma evidência: quando se acusa um ministro de fazer tudo mal, torna-se claro que não é bem assim. Por mais incompetente que alguém possa ser, seguramente que não faz tudo mal. Há mais evidências: Castilho terá estado na lista dos ministeriáveis, precisamente para o Ministério da Educação, e por razões que desconheço não foi escolhido. Vai daí, nunca mais recuperou, e se não tem um problema pessoal com Nuno Crato, parece. A obsessão cresceu de tal modo que já não enxerga o óbvio: quanto mais bate no ministro, mais razão dá ao ministro. Uma pena. Porque não faltarão razões para questionar com seriedade as políticas do Ministério da Educação e quem o dirige.
2 de agosto de 2012
ROMNEY. É cada vez mais provável que votarei, de novo, Obama nas próximas Presidenciais, novamente porque Obama me parece, como há quatro anos, o menos mau. Como não bastassem os inúmeros erros já cometidos e as constantes mudanças de opinião sem que se vislumbre outro motivo que não seja oportunismo, Romney resolveu deslocar-se a Israel e deitar ainda mais gasolina na fogueira. O tradicional voto judeu no Partido Democrático, que as sondagens dizem estar a deslocar-se para o Partido Republicano, não explicam o desvario, muito menos a irresponsabilidade. Um sujeito que age como Romney agiu face a um problema tão sensível como o conflito israelo-palestiniano, que lida com a pólvora como quem lida com o mais trivial dos assuntos, só pode causar apreensão. Bem sei que as declarações de Telavive se destinaram a consumo interno, no caso ao eleitorado judeu. Mas nada disso apaga o que disse, e o que disse não se pode dizer. Aliás, parece-me evidente que Romney não dá grande importância à política externa, um erro que a história americana já demonstrou ser clamoroso.
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