19 de outubro de 2012
RANGEL E A BOLA (2). Como já disse, nada obstará a que o juiz Rui Rangel se candidate à presidência do Benfica, e nada o impedirá de exercer tal função caso seja eleito. Mas continuo a achar, como também já disse, que os juízes em pleno exercício de funções devem, de um modo geral, afastar-se de actividades que, não sendo incompatíveis do ponto de vista legal com a profissão que exercem, são-no claramente do ponto de vista ético. O senso comum, pelo menos a noção que eu tenho do senso comum, recomenda que um juiz no activo paute a sua actividade pelo low profile, e o presidente de um clube como o Benfica não pode dar-se a esse luxo — para já não dizer que por vezes vai ter que esquecer-se de que é juiz se quiser defender o clube a que preside, e esquecer-se do clube a que preside se quiser exercer a profissão como deve ser exercida. Pior, nas próximas eleições do Benfica, só quando José Eduardo Moniz, em directo no Telejornal, se ofereceu ao actual presidente do Benfica para «o que for necessário», sem que alguém percebesse o que o fez mudar de ideias quando ainda há pouco disse o pior de Vieira. O mundo dá muitas voltas, mas nunca pensei que se prestasse a este vexame.
17 de outubro de 2012
15 de outubro de 2012
NO PASA NADA. Das duas, uma: ou é mentira o que o Público tem dito sobre os negócios de Passos Coelho e Miguel Relvas, e nesse caso espera-se que desmintam o jornal e o processem; ou é tudo verdade, e nesse caso há um crime (ou vários), e num país a sério o primeiro-ministro já se teria demitido e o caso estaria nos tribunais. Como estamos em Portugal, onde grande parte dos políticos no activo tem, neste tipo de casos, telhados de vidro, nada sucederá. Mesmo com provas, como tudo indica que existam.
BRINCAR COM O FOGO. Terá havido um único eleitor de Berta Cabral (para já não falar dos eleitores em geral) que tenha acreditado que ela conseguiria, caso o PSD ganhasse as eleições nos Açores, criar quinze mil (repito: 15.000) novos empregos nos próximos quatro anos? Num país em que a taxa de desemprego é enorme e não pára de aumentar, onde todos os dias são conhecidos casos arrepiantes, prometer 15.000 novos empregos devia dar cadeia em caso de incumprimento.
11 de outubro de 2012
ESQUECIMENTOS SUSPEITOS. Parece que o primeiro-ministro se esqueceu de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa. Embora surpreendente (presumo que uma coisa dessas não se esquece), nada a opor, e nada o obrigará a mencionar tais factos. Acontece que a dita empresa onde Passos Coelho foi consultor e administrador, a Tecnoforma, na altura dirigida por destacados militantes da JSD (e não sei se ainda hoje), é suspeita de tratamento de favor por parte do governo de Durão Barroso, mais precisamente através da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo actual ministro Miguel Relvas. Ora, havendo suspeitas sobre a empresa de que Passos foi consultor e administrador, ao que parece nunca tão próspera como quando lá exerceu essas funções, torna-se igualmente suspeita a omissão no currículo. Segundo o Público, desde a primeira hora que Passos Coelho se disponibilizou para responder a todas as perguntas julgadas necessárias ao esclarecimento do caso. Fez bem, mas não chega. Conhecidos os factos sobre a dita empresa, que levantam suspeitas que não param de crescer, a omissão no currículo não pode deixar de ser vista como tentativa de branquear um passado porventura incómodo. Mas como falamos de Portugal, país de brandos costumes, a coisa ficar-se-á pelas suspeitas.
RANGEL E A BOLA (1). Consta que o juiz Rui Rangel pondera candidatar-se à presidência do Benfica. É um direito que lhe assiste, e nada obstará a que isso se concretize. Custa-me, porém, imaginar um juiz no activo a comentar as vicissitudes da bola — os erros da arbitragem, o ambiente do balneário, para já não falar dos nebulosos negócios de compra e venda de jogadores. Não deviam os juízes no activo dedicar-se a actividades mais recatadas?
AGONIA NO PÚBLICO. A administração e a Direcção Editorial do Público entenderam necessário despedir 48 trabalhadores, por considerarem que só assim será possível reduzir custos de modo a viabilizar o jornal. O futuro dirá se a medida foi necessária — e será, ou não, bem-sucedida. Mas a reacção da Comissão de Trabalhadores e do Conselho de Redacção do jornal, que rejeitaram liminarmente as medidas e propõem ir para a greve, só aponta uma solução: o fim do Público. Espero — e desejo — que me engane, que apesar de há muito deixar de ser o que era o Público faz falta. (Ver, a propósito, este link.)
28 de setembro de 2012
ÉTICA DE CASA DE BANHO. «Vivemos numa sociedade em que (...) não é possível em termos de cuidados de saúde todos terem acesso a tudo. Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?» Não, não foi um ditadorzeco quem disse isto. Foi o presidente de uma organização que dá pelo nome de Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida, que propôs ao Ministério da Saúde como receita para reduzir o que considera um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. Ninguém se admire, portanto, que a seguir proponham eliminar cirurgias cardíacas em anciãos de 90 e mais anos, que previsivelmente não vão durar muito mais tempo depois disso, e a cirurgias são, como se sabe, caríssimas.
INIMIGOS DA DEMOCRACIA. Francisco Assis escreveu, no Público, que publicações como o Jornal de Notícias e Correio da Manhã «constituem verdadeiros inimigos da democracia». Porque as «actuais linhas editoriais» dessas duas publicações apelam «às piores pulsões populares», que só contribuem «para a degradação de um espaço público que é indispensável para a afirmação de um verdadeiro debate democrático». Devo dizer que aprecio os políticos que enfrentam a comunicação social, e não me refiro aos que o fazem para se defenderem de alguma acusação. Aprecio porque é mais fácil não o fazer, e há muito se demonstrou não ser boa política atacar os media. Dito isto, Assis bem podia, sobre o caso a que se refere, acrescentar mais alguns. Podia, por exemplo, acrescentar o próprio jornal onde escreve, a SIC e a RTP.
27 de setembro de 2012
ENTRE O MAU E O PÉSSIMO. O mais engraçado nesta história de Romney, pelos vistos falsa, foi o modo como a generalidade dos cidadãos, conservadores ou liberais, republicanos ou democráticos, facilmente a tomou por verdadeira. Os americanos já se habituaram de tal modo às gaffes (chamemos-lhe gaffes para simplificar) de Romney que se o candidato republicano amanhã disser que a terra é quadrada já não estranham, nem sorriem. Depois de num jantar de angariação de fundos considerar que mais de metade dos americanos foge aos impostos e vive à custa do Estado, entre outras pérolas do mesmo quilate, já nada espanta em Romney. É por estas e por outras que me preparo, como há quatro anos, para votar Obama, então porque Obama me pareceu o menos mau, agora porque um é mau e o outro péssimo.
24 de setembro de 2012
DEMAGOGIA. A ministra da Agricultura resolveu cortar uvas no Douro como forma de mostrar, disse ela, que está atenta às dificuldades que afectam a viticultura duriense. Admito que possa estar enganado, mas se isto não é demagogia, então não sei o que é demagogia. Aliás, não é a primeira vez que a ministra se mete em exercícios demagógicos. Para quem, como ela, se meteu na política há dois dias, pelo menos na política partidária, convenhamos que aprendeu depressa o pior que há na política.
21 de setembro de 2012
ESPECIALISTAS E OUTROS MALABARISTAS. Como não se espera que o Governo nos venha explicar os motivos que o levaram a contratar 29 colaboradores com menos de 30 anos (o mais novo parece que tem 24), por que não exige a oposição que o Governo as explique? Afinal, se o Governo tem deveres nesta matéria, a oposição também os tem. Aliás, é mais estranha a mudez da oposição que a do Governo. Se ao Governo não convém explicar o que se adivinha difícil de explicar, já a oposição teria oportunidade de prestar um serviço ao país, e de caminho conquistar mais uns adeptos para a sua causa. Como não o fez, e se adivinha que não o fará, só pode ser por uma razão: a oposição, nomeadamente a que já foi Governo, não pode denunciar pecados que também cometeu.
20 de setembro de 2012
BEM PREGA FREI TOMÁS. Por falar em coerência, onde está a do João Gonçalves, que se fartou de dizer cobras e lagartos de quem, agora, instalado no gabinete de Miguel Relvas (olhem só quem havia de lhe calhar), já só lhe falta deitar-se no chão para que lhe passem por cima?
PÓLVORA SECA. Prestei escassa atenção à entrevista do líder do PS à RTP, mas lembro-me de lhe perguntarem quanto podia o Governo arrecadar com um imposto sobre as Parcerias Público-Privadas (PPPs), por ele mesmo proposto como alternativa às medidas anunciadas pelo primeiro-ministro (subida de 7% na contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores por conta de outrem e descida de 5.25% da taxa social única das empresas), e Seguro responder que os números ainda estão a ser estudados pelos técnicos. Ora, se assim é, como pode ele dizer que o tal imposto sobre as PPPs poderia ser uma alternativa?
18 de setembro de 2012
FIM DE SEMANA. Passei o fim de semana afastado das notícias, que adivinhei piores à medida que o tempo passava, e aproveitei-o para concluir The Road to Oxiana, que iniciei há um par de anos e só agora decidi terminar. Retomo as notícias, as frescas e as outras, e confirmo que assim foi. As de hoje são piores que as de ontem, que já eram piores que as de anteontem. Pior: não se vislumbram melhores notícias para os próximos dias, talvez para os próximos anos. Não fossem as contas a pagar, e passar-me-ia a ocupar exclusivamente do que me interessa, duas ou três coisas sem importância para a generalidade das pessoas mas para mim essenciais.
14 de setembro de 2012
DA OPOSIÇÃO. Que a oposição, toda a oposição, seja contra tudo o que o Governo faz ou deixa de fazer, mesmo as coisas boas, entende-se. Afinal, o papel da oposição nos tempos que correm é opor-se ao Governo, não com a ideia que o Governo faça melhor (ou o que lhe parece melhor), mas com o único propósito de correr com o Governo para lhe tomar o lugar. Mas quando a oposição cresce de dia para dia dentro dos próprios partidos que integram o Governo, como está a acontecer, a coisa ganha outra dimensão. Verdade que os críticos mais destacados que integram os partidos no poder têm contas a ajustar com o líder, mas nem por isso torna menos contundentes as suas críticas. Têm, além disso, a particularidade de passar a ideia de que a família está de tal modo desavinda que já nem consegue disfarçar o mal-estar. Infelizmente, a generalidade dos críticos da família não tem, como a restante oposição, alternativas concretas, e tratando-se de gente que vive da política e para a política, convenhamos que é confrangedor. Quero imaginar que não há alternativas eficazes às actuais medidas governamentais, embora isso não me sirva de consolo. Quem vive da política tem obrigação de fazer mais e melhor. Se discorda das medidas governamentais, faça favor de apresentar alternativas concretas. É esse, afinal, o seu trabalho, e o mínimo que dele se espera.
13 de setembro de 2012
RTP (2). Como já disse e repeti, não tenho uma posição definitiva sobre o futuro da RTP. Parece-me, no entanto, que os funcionários da dita deveriam ser os últimos a manifestar-se sobre o futuro da empresa. Porque têm interesses directos na matéria, e naturalmente isso retira-lhes o distanciamento necessário para se pronunciarem com isenção e seriedade sobre o futuro da dita.
RTP (1). A comissão de trabalhadores da RTP revelou que o primeiro-ministro exigiu que a entrevista hoje concedida à televisão pública fosse em São Bento em vez dos habituais estúdios da empresa, porque assim o primeiro-ministro evitou, segundo eles, encarar «cara-a-cara os trabalhadores de uma empresa que o Governo está em vias de destruir». Revelou mais a comissão de trabalhadores: a entrevista em São Bento representou um gasto «injustificável» de milhares de euros. Ora, face a este cenário, por que não recusou a RTP fazer a entrevista nos moldes exigidos? Alguma lei a obriga a entrevistar o primeiro-ministro?
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