15 de novembro de 2012

GENERALIZAÇÕES PERIGOSAS. Tudo contra a violência, nada a favor da violência. Como se costuma dizer nestas alturas, a violência nada resolve. Mas apetece-me perguntar: e resolvem o quê as manifestações pacíficas? Não, não defendo a violência. Gostaria é que os protestos da rua, sobretudo quando traduzem o descontentamento de grande parte da população, tivessem consequências, resultassem em algo de concreto e positivo, o que está longe de acontecer. A violência nas ruas talvez seja obra de arruaceiros, de «pessoas que querem destruir a sociedade», como diz o Presidente da República, que pouco antes gracejou sobre coisas que não devia. Mas quantas pessoas, habitualmente incapazes de matar uma mosca, não se reviram na violência de ontem? Seria bom, por isso, não subestimar os incidentes, atribuí-los a meros arruaceiros, considerá-los casos isolados. É que eles podem rapidamente alastrar ao resto dos portugueses — cada vez mais espoliados, cada vez mais desesperados, cada vez mais receosos do radiante futuro que os governantes prometem mas em que já nem eles próprios, governantes, acreditam. Não defendo a complacência das autoridades com actos de violência. Pelo contrário, as autoridades devem agir com profissionalismo e determinação, como terá ocorrido ontem, embora nem todos concordem que assim tenha sido. Defendo é que os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, saibam ler os sinais, e tenham cuidado com as palavras quando falam de arruaceiros e de «pessoas que querem destruir a sociedade». Como sensatamente lembrou Seixas da Costa, talvez os confrontos de ontem possam fazer a Europa perceber que «Portugal também tem um limite para o sacrifício». Ironicamente, a concretizar-se o desejo do embaixador os confrontos serviram, afinal, para alguma coisa.
QUEM FAZ O FAVOR DE EXPLICAR? De facto, não se percebe por que razão a selecção portuguesa de futebol jogou com um adversário de terceira categoria, no quinto dos infernos. A gente olha para o calendário dos jogos particulares disputados ontem e vê a Suécia a jogar com a Inglaterra, a Holanda com a Alemanha, a Itália com a França, e quando chegamos à terrinha descobrimos Portugal a jogar com a 52ª selecção do ranking mundial. Parece que o negócio rendeu 800 mil euros à Federação, até ver a única explicação, mas que não explica coisa nenhuma. Alguém da Federação faz o favor de explicar à rapaziada a importância do jogo para os destinos da pátria?

12 de novembro de 2012

O PRAVDA ANGOLANO. Será a inveja que levou as autoridades portuguesas a investigar suspeitas de vigarices cometidas por gente ligada ao Governo Eduardo dos Santos, como diz o Jornal de Angola. E as suspeitas de corrupção que recaem sobre altas figuras do Estado angolano? Têm, ou não, fundamento? Pelos vistos, isto não interessa ao Jornal de Angola. E não interessa porque o Jornal de Angola é o Pravda lá do sítio, e de um jornal do regime não se espera outra coisa que não seja bajular o regime e quem nele manda, mesmo que alguns dos mandantes sejam uns refinados patifes. Aliás, pelo apetite que o poder angolano tem demonstrado pelos jornais portugueses, não tardará que o assunto deixará de interessar aos próprios jornais portugueses.

7 de novembro de 2012

MINISTRO DAS TRAPALHADAS. À excepção dos protagonistas do incidente, ninguém sabe ao certo o que se passou entre o jornalista Nuno Ferreira e o ministro Miguel Relvas. Não se pode, portanto, tirar conclusões, visto que não há dados que nos permitam saber quem é culpado de quê. Mas se há dúvidas quanto ao episódio, uma coisa é certa: tornou-se rotina ver o ministro Relvas envolvido em trapalhadas, e se do ponto de vista legal nada haverá que se lhe possa apontar, a verdade é que cada vez sai pior na fotografia.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS. Conforme anunciei quando disse votar Obama, ganhou o menos mau. Como é evidente, quem assim pensa não espera grande coisa, pelo que o que vier de bom será lucro, e de mau não me surpreenderá. Teria dormido bem na noite eleitoral caso a vitória sorrisse a Romney, por quem nunca nutri simpatia e sempre me pareceu ter um conhecimento superficial do país e praticamente nulo sobre o resto do mundo, que se fartou de fazer promessas irrealistas que nunca explicou como tencionava concretizar, e que se deu «ao luxo» de sofrer uma estrondosa derrota num estado — o Massachusetts — onde ainda há pouco foi governador e se gabou de ter feito obra. Se o segundo mandato de Obama correr como o primeiro, não será, evidentemente, brilhante. Mas com Obama já sei com o que posso contar. Com Romney, tendo em conta as piruetas que já fez e as gaffes (chamo-lhe assim para simplificar) que protagonizou, não sendo uma tragédia seria, no mínimo, uma incógnita.
JÁ NÃO HÁ LADRÕES COMO ANTIGAMENTE. Homem morre de descarga elétrica ao roubar cobre

6 de novembro de 2012

SANDY (2). Só ao quinto dia a dona Sandy me deixou viver como habitualmente. Quase uma semana sem electricidade, sem frigorífico, sem aquecimento. Com filas para o café e para a gasolina, que ainda não terminaram. Sem internet. Com sucessivos jantares à luz das velas, cada vez menos românticos, e com noites seguidas embrulhado em cobertores a sonhar com o paraíso, um modesto interruptor capaz de acender um candeeiro, de ligar o aquecimento. E a ler Mark Twain, A Viagem dos Inocentes, com um sentido no relato e três na electricidade que não vem, na gasolina que escasseia, na temperatura que desce perigosamente. Podia ter sido pior? Podia. O meu vizinho partiu uma perna num acidente de automóvel, mas teve sorte: podia ter partido as duas. O meu vizinho caiu da varanda e partiu a cabeça e um braço, mas teve sorte: podia ter morrido. Resumindo, o meu vizinho partiu uma perna, um braço, a cabeça — e ainda deve mostrar-se agradecido pela sorte que teve.

3 de novembro de 2012

SANDY (1). Há cinco dias sem electricidade, sem frigorífico, sem aquecimento, sem internet, e sem saber quando tudo isto voltará.

29 de outubro de 2012

TALVEZ PESSOA. Alertado para uma biografia de Fernando Pessoa de que nunca ouvira falar, numa rápida pesquisa no Google cheguei a Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. Fiquei então a saber que a obra foi editada no Brasil em 2011, e comecei por estranhar só um ano depois ouvir falar dela. Pior: as entrevistas que fui lendo e ouvindo aumentaram-me a desconfiança. Mesmo assim, resolvi arriscar. Uma vez que resido fora do país, onde os livros comprados em Portugal ou no Brasil me chegam acrescidos de portes proibitivos, optei pelo ebook. Poucos dias depois deparo com uma crítica de Teresa Rita Lopes, ao que parece respeitada investigadora de Pessoa, onde ela diz que a obra contém toda a sorte de erros factuais, alguns deles grosseiros, entre outros defeitos. Posteriormente, António Guerreiro, no Expresso, disse mais ou menos o mesmo: o livro não é credível. Perante isto, que não foi pouco, o biógrafo não tugiu, nem mugiu. Mais recentemente fico a saber que a Academia Brasileira de Letras o considerou «livro do ano» e a «mais importante biografia de Pessoa», e que foi nomeado para o Prémio Jabuti. Mesmo sabendo que o Jabuti não é um prémio qualquer, não me espanta a nomeação, nem me espantará que o ganhe. Já a decisão da Academia causou-me perplexidade, muito acrescida por não ter visto, até agora, quem se espantasse. Perante isto, sobram duas perguntas: o livro é tão mau como os entendidos garantem, ou os membros da Academia são, no mínimo, incompetentes? Como presumo que os primeiros não exageram e a Academia é uma instituição respeitável, tenho um problema. Seriam bem-vindas, portanto, novas polémicas, de modo a saber se o livro vale, ou não, a pena, se é credível, ou não. Como se trata de uma biografia, ou «quase-autobiografia», não me parece uma questão de somenos.

26 de outubro de 2012

MENTIRAS E MAIS MENTIRAS. Toda a gente que anda na política e tem pretensões a governar considera que o Estado tem de cortar na despesa. Uns de uma maneira, outros doutra, mas todos concordam no essencial: o Estado consome mais do que devia. O resultado destes «considerandos» é conhecido: a despesa não só não diminui, como continua a aumentar. Medina Carreira diz que o próximo Orçamento vai aumentar a despesa em 2.3 mil milhões de euros, e ele não costuma enganar-se nas contas. Os cortes na despesa anunciados pelo Governo são, portanto, uma falácia. Convinha que da próxima vez que os governantes (ou políticos no activo) anunciem cortes nas despesas comecem por demonstrar onde pretendem cortar, como pretendem cortar, e quanto pretendem cortar. Enquanto isso não suceder, não contarão com o meu voto. Os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, não podem ficar impunes quando não cumprem o que prometem, quando mentem descaradamente, ou quando recorrem à demagogia para nos criar falsas esperanças, de que a candidata social-democrata à presidência do Governo dos Açores, prometendo criar 15.000 empregos caso fosse eleita, é o exemplo mais recente. Em Portugal «só se ganham eleições com mentiras», diz, ainda, Medina Carreira. É uma verdade mais que demonstrada. Mas os políticos deixarão de mentir no dia em que perceberem que a mentira não compensa. Compete-nos, portanto, fazer chegar esse dia.

23 de outubro de 2012

FITEIROS. Confesso que me espanto sempre que as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa causam tanta celeuma. Espanto-me porque o professor há muito se tornou o clown do regime, passe a expressão, uma figura que os portugueses se habituaram a ouvir mas a quem dão nula importância. Bem sei que Marcelo é candidato a candidato à Presidência da República, embora eu desconfie que nunca passará disso — e honestamente considere que a última coisa que o país precisa é de um malabarista na Presidência da República. Um filme sobre os sacrifícios dos portugueses devido à política de austeridade para mostrar — e comover — a sra. Merkel? Extraordinária ideia! A sra. Merkel irá, certamente, impressionar-se. Não com certeza com os sacrifícios dos portugueses, mas com a estupidez das elites que temos.

19 de outubro de 2012

RANGEL E A BOLA (2). Como já disse, nada obstará a que o juiz Rui Rangel se candidate à presidência do Benfica, e nada o impedirá de exercer tal função caso seja eleito. Mas continuo a achar, como também já disse, que os juízes em pleno exercício de funções devem, de um modo geral, afastar-se de actividades que, não sendo incompatíveis do ponto de vista legal com a profissão que exercem, são-no claramente do ponto de vista ético. O senso comum, pelo menos a noção que eu tenho do senso comum, recomenda que um juiz no activo paute a sua actividade pelo low profile, e o presidente de um clube como o Benfica não pode dar-se a esse luxo — para já não dizer que por vezes vai ter que esquecer-se de que é juiz se quiser defender o clube a que preside, e esquecer-se do clube a que preside se quiser exercer a profissão como deve ser exercida. Pior, nas próximas eleições do Benfica, só quando José Eduardo Moniz, em directo no Telejornal, se ofereceu ao actual presidente do Benfica para «o que for necessário», sem que alguém percebesse o que o fez mudar de ideias quando ainda há pouco disse o pior de Vieira. O mundo dá muitas voltas, mas nunca pensei que se prestasse a este vexame.

17 de outubro de 2012

O DEBATE. Como já aqui escrevi, votarei Obama nas Presidenciais de Novembro, por razões que também já expliquei. Feita a declaração de interesses, que certamente não contribui para uma visão imparcial sobre o desempenho dos candidatos em debates ou noutros palcos, considero, para não variar, que o «meu» candidato esteve claramente melhor no debate de ontem. Falo do modo como desempenhou o papel que lhe cabia, da performance, que a substância dos debates não tem, infelizmente, grande peso. Tirando uma gaffe ou outra que os candidatos possam cometer, que por vezes lhes pode ser fatal, os debates contam sobretudo pela forma como os candidatos desempenham o guião mais ou menos conhecido antecipadamente. E, nesse aspecto, Obama dificilmente poderia ter estado melhor. O Presidente transmitiu serenidade, demonstrou firmeza em momentos cruciais, e pareceu-me convicto do que defendeu. Começou bem, cresceu à medida que o tempo passava, e terminou de forma arrasadora — primeiro com a questão da Líbia, depois com os famosos 47% dos americanos que o adversário considerou casos perdidos, por si só todo um programa. Se isto vai mudar alguma coisa na relação de forças, se fará diminuir o número de indecisos, talvez nunca se saberá.

15 de outubro de 2012

NO PASA NADA. Das duas, uma: ou é mentira o que o Público tem dito sobre os negócios de Passos Coelho e Miguel Relvas, e nesse caso espera-se que desmintam o jornal e o processem; ou é tudo verdade, e nesse caso há um crime (ou vários), e num país a sério o primeiro-ministro já se teria demitido e o caso estaria nos tribunais. Como estamos em Portugal, onde grande parte dos políticos no activo tem, neste tipo de casos, telhados de vidro, nada sucederá. Mesmo com provas, como tudo indica que existam.
BRINCAR COM O FOGO. Terá havido um único eleitor de Berta Cabral (para já não falar dos eleitores em geral) que tenha acreditado que ela conseguiria, caso o PSD ganhasse as eleições nos Açores, criar quinze mil (repito: 15.000) novos empregos nos próximos quatro anos? Num país em que a taxa de desemprego é enorme e não pára de aumentar, onde todos os dias são conhecidos casos arrepiantes, prometer 15.000 novos empregos devia dar cadeia em caso de incumprimento.

11 de outubro de 2012

ESQUECIMENTOS SUSPEITOS. Parece que o primeiro-ministro se esqueceu de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa. Embora surpreendente (presumo que uma coisa dessas não se esquece), nada a opor, e nada o obrigará a mencionar tais factos. Acontece que a dita empresa onde Passos Coelho foi consultor e administrador, a Tecnoforma, na altura dirigida por destacados militantes da JSD (e não sei se ainda hoje), é suspeita de tratamento de favor por parte do governo de Durão Barroso, mais precisamente através da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo actual ministro Miguel Relvas. Ora, havendo suspeitas sobre a empresa de que Passos foi consultor e administrador, ao que parece nunca tão próspera como quando lá exerceu essas funções, torna-se igualmente suspeita a omissão no currículo. Segundo o Público, desde a primeira hora que Passos Coelho se disponibilizou para responder a todas as perguntas julgadas necessárias ao esclarecimento do caso. Fez bem, mas não chega. Conhecidos os factos sobre a dita empresa, que levantam suspeitas que não param de crescer, a omissão no currículo não pode deixar de ser vista como tentativa de branquear um passado porventura incómodo. Mas como falamos de Portugal, país de brandos costumes, a coisa ficar-se-á pelas suspeitas.
RANGEL E A BOLA (1). Consta que o juiz Rui Rangel pondera candidatar-se à presidência do Benfica. É um direito que lhe assiste, e nada obstará a que isso se concretize. Custa-me, porém, imaginar um juiz no activo a comentar as vicissitudes da bola — os erros da arbitragem, o ambiente do balneário, para já não falar dos nebulosos negócios de compra e venda de jogadores. Não deviam os juízes no activo dedicar-se a actividades mais recatadas?
AGONIA NO PÚBLICO. A administração e a Direcção Editorial do Público entenderam necessário despedir 48 trabalhadores, por considerarem que só assim será possível reduzir custos de modo a viabilizar o jornal. O futuro dirá se a medida foi necessária — e será, ou não, bem-sucedida. Mas a reacção da Comissão de Trabalhadores e do Conselho de Redacção do jornal, que rejeitaram liminarmente as medidas e propõem ir para a greve, só aponta uma solução: o fim do Público. Espero — e desejo — que me engane, que apesar de há muito deixar de ser o que era o Público faz falta. (Ver, a propósito, este link.)

3 de outubro de 2012

PAUSA. Por razões de ordem pessoal, farei uma pausa durante alguns dias.