28 de dezembro de 2012

A BANDALHEIRA. Se é verdade o que diz Paulo Morais (há dezenas de deputados que acumulam funções parlamentares com a de administradores, directores ou consultores de empresas que fazem negócios com o Estado), por que se mantêm em funções? Estão à espera de quê as direcções partidárias para correrem com eles? Será mesmo necessário criar um regime de incompatibilidades para acabar com a bandalheira? Sim, é mesmo de bandalheira que se trata, imprópria de um país civilizado. Claro que a promiscuidade entre cargos políticos e empresariais não se fica pelos deputados, mas por algum lado se deve começar.

24 de dezembro de 2012

TIROS DE PÓLVORA SECA. Sou contra a venda de armas à população civil, mesmo nos casos em que a lei dificulta a sua aquisição, ou proíbe a venda de certos modelos (convém lembrar que a lei sobre a venda de armas nos EUA varia de estado para estado). Mas não sou ingénuo a ponto de achar que a proibição teria evitado o massacre na escola do Connecticut, ou outros massacres do género. A proibição evita acidentes, momentos de loucura, e pouco mais. Quando se planeiam massacres como o de Newtown, as armas, proibidas ou não, não são problema. Se forem proibidas, serão, quando muito, mais caras, e só por essa razão mais difíceis de obter. Como as drogas cuja venda a lei proíbe, nada impede os consumidores de as comprar e os traficantes de as vender, e tal com as armas duvido que se vendesse mais droga caso a sua venda não fosse proibida. Sou contra a venda de armas porque ter uma arma ao alcance da mão é meio caminho andado para cometer uma loucura que doutro modo não se cometeria, por causa dos acidentes (as estatísticas apresentam números preocupantes de acidentes cometidos com armas de fogo), e salvo excepções não acredito no porte de arma como método de autodefesa. Ao contrário do que ouço à maioria das pessoas, certamente na pressa de arranjar um bode expiatório e seguramente com a melhor das intenções, não conheço a receita para evitar males destes. O remédio é mais complexo do que parece, e mesmo assim não creio que algum dia venha a ser totalmente eficaz.
JORNALISTAS EM VIA DE EXTINÇÃO. Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios, anunciou que se demitirá caso a Newshold assuma o controlo da Cofina, proprietária, entre outros, do jornal onde trabalha, e que estará, juntamente com a Newshold, na corrida à compra da RTP. Porque a Newshold está envolta num manto de opacidade; porque não se conhecem os seus accionistas; porque duvida das suas intenções; e porque está em causa a liberdade de expressão. É uma decisão corajosa e uma atitude que se saúda. Mas quantos jornalistas podem, hoje em dia, dar-se a esse luxo? Sim, o que outrora seria uma decisão banal tornou-se, hoje, um luxo. Tal como para o resto dos mortais, a vida não está fácil para os jornalistas.

19 de dezembro de 2012

O CERCO. A Newshold, empresa que se diz luso-angolana, detida quase na totalidade por uma sociedade anónima com sede numa offshore do Panamá e cujos accionistas se desconhecem, assumiu ser candidata à compra (ou concessão) da RTP, ou parte da RTP. O anúncio é normal e a intenção normalíssima, mas o tom e os termos em que o fez já não me pareceram normais. A Newshold afirma que não irá desistir do negócio apesar das «afirmações de cariz xenófobo» ou das «teorias da conspiração» que por aí andam com o intuito de denegrir a empresa e seus accionistas. E nada a demoverá de prosseguir a intenção, apesar da hostilidade e da «fúria persecutória» da comunicação social portuguesa, cujas «notícias e opiniões difamatórias» pretenderão, segundo ela, a «liquidação da empresa e da honra dos seus accionistas». Ora, será isto normal? Uma empresa que pretende fazer um negócio com outra empresa ou entidade costuma fugir dos holofotes como o diabo foge da cruz, e «nos entretantos» pautar-se pela discrição. Como se viu, a Newshold fez precisamente o contrário. Alardeou aos sete ventos as suas intenções, e disparou sobre a comunicação social que (ainda) não controla. Vale a pena lembrar que a Newshold detém o Sol, 15% da Cofina (Correio da Manhã, Sábado e Jornal de Negócios), 2% da Impresa (SIC e Expresso), e está na corrida para a compra da Controlinveste (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF). Numa altura em que a comunicação social atravessa a crise que se conhece e ainda ninguém descobriu a receita para sair dela, torna-se cristalino que o objectivo dos angolanos não é o negócio pelo negócio. A ideia é controlar a comunicação social portuguesa, e com isso calar as notícias hostis ao poder angolano. Entretanto, Portugal ficará refém do poder de Luanda. Não, não é só a comunicação social. É o próprio país.

14 de dezembro de 2012

SEGREDO DE JUSTIÇA. É do interesse público saber que altas figuras do Estado estão a ser investigadas por suspeitas de irregularidades? A avaliar pelo que se diz, parece que assim é. Mas eu tenho dúvidas. Por que se exige a punição dos operadores da justiça que «bufam» para os media o que deve estar em segredo de justiça, e se louvam os media que revelam a «bufaria»? Divulgar uma informação obtida de forma criminosa não será, também, um crime? Aliás, revelar publicamente informação obtida de forma criminosa ainda é mais grave, pois só assim o crime tem efeitos práticos — além de que a informação obtida por essa via geralmente não pode ser verificável, e é pouco fiável.

13 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (3). Não sou grande entusiasta das teorias da conspiração, embora não ignore que as haja. Mas seria mesmo necessário afastar Nuno Santos para que a RTP, ou parte dela, possa ser vendida? O ex-director de informação impediria que o eventual negócio com os angolanos (ou outros) se concretizasse? Quem, uma vez na posse da RTP, ficaria impedido de afastar Nuno Santos do cargo ou, até, de o despedir? Por mais voltas que dê ao miolo, por menos que simpatize com o ministro que tutela a televisão pública, por mais que saiba que o cargo de director de informação se preste aos humores do governo em funções, não vejo relação entre o afastamento de Nuno Santos e a venda da RTP, muito menos motivo para «saneamento político», como Nuno Santos invoca. Sei que não é politicamente correcto dizer isto, até porque o ministro Relvas não merece que o defendam. Mas acontece que não aprecio ver os adversários apanhar pelos motivos errados. Porque isso lhe dá razões que doutro modo não teria, e porque sobram motivos para lhe bater.

11 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (2) . É fácil (e barato) acusar o ministro do dia de querer controlar a informação da RTP, além de ser um filme demasiado visto, cujo guião todos conhecemos. Por isso se acusam os sucessivos ministros dos sucessivos governos de intromissões indevidas, reais e imaginárias, que as acusações têm sucesso assegurado: a oposição ao Governo vem logo acusar o dito de tudo fazer para controlar a informação e afastar gente incómoda, mesmo que os factos sejam escassos e escassíssima a sua credibilidade. Repito, portanto, o que já disse sobre as imagens cedidas à PSP: por aquilo que é público, a tese da conspiração não tem pés, nem cabeça. Tudo indica que Nuno Santos geriu mal o caso, mas por razões que ele lá sabe não quer admiti-lo. Se a administração da RTP (e quem nela manda) não gostava de Nuno Santos (não me custa acreditar que assim seja), limitou-se a fazer o que se esperaria: aproveitou o erro para se livrar dele. Simplificando, se a administração da RTP empurrou Nuno Santos para a porta da rua, Nuno Santos pôs-se a jeito.
SOL E SOMBRA. Parece não haver dúvidas de que o nome de Medina Carreira surgiu indevidamente associado ao caso Monte Branco (branqueamento de capitais e fuga ao fisco), como associou, em manchete, a última edição do Sol. Assim sendo, e acreditando que o jornal se precipitou, por que mantém o semanário de José António Saraiva a notícia online tal como saiu na edição em papel? Não devia, no mínimo, fazer uma adenda, explicar aos leitores as circunstâncias que o levaram à sua publicação? Ou a ideia será mesmo que a dúvida se instale, fazer com que os leitores mais distraídos tomem os factos como verdadeiros?

5 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (1). Por razões conhecidas, não simpatizo com o ministro que tutela a RTP. Não me espantaria, sequer, que Miguel Relvas tenha feito os possíveis e os impossíveis para se ver livre de Nuno Santos, até há pouco director de informação da RTP, e que agora se demitiu na sequência da polémica cedência de imagens à PSP. Mas convenhamos que a versão de Nuno Santos contada à Comissão de Ética é, no mínimo, fracota, como foi sempre fracota desde o início. Miguel Relvas não gostou das reportagens sobre a fome que a RTP emitiu? Das notícias que a RTP achou por bem dar sobre a sua licenciatura? Imagino que não, mas tudo isto e o mais que Nuno Santos invoca não cola, nem esconde o essencial. E o essencial aponta para que Nuno Santos tenha autorizado o visionamento das imagens — de maneira informal, por não se ter oposto, por fazer de conta que não viu, por não se ter apercebido da gravidade da situação, por desconhecimento da lei, pelo que quer que tenha sido. Provas? Provavelmente não haverá, e daí Nuno Santos procurar transformar o episódio num «caso de saneamento político», presumivelmente comandado pelo ministro Relvas. Resta saber se a estratégia de lhe dará os frutos que deseja.

4 de dezembro de 2012

GREVE É SÓ PARA QUEM PODE. A greve é um direito constitucionalmente consagrado, e ainda bem que assim é. Mas não deixa de ser inquietante, por vezes revoltante, constatar-se que a greve é geralmente feita pelos trabalhadores mais protegidos, os mais bem pagos, os que menos precisam.
PREGAR NO DESERTO. «Há dezenas de deputados que acumulam a função parlamentar com a de administrador, director ou consultor de empresas que desenvolvem grandes negócios com o Estado. Em todas as comissões relevantes há conflitos de interesses, reais ou potenciais. A mais importante, a que acompanha o Programa de Assistência Financeira, tem por funções fiscalizar as medidas previstas no memorando de entendimento com a Troika, nomeadamente as privatizações ou o apoio à Banca. Pois nesta comissão tem assento Miguel Frasquilho que trabalha na Essi, empresa do grupo financeiro BES que, ainda por cima, assessorou os chineses na compra da EDP; a que se junta Adolfo Mesquita Nunes, advogado da poderosa sociedade Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva, justamente o escritório de referência da eléctrica. Na comissão de agricultura, o deputado Manuel Isaac fiscaliza um ministério que influencia a atribuição de subsídios à empresa de que é administrador. O presidente da comissão de Segurança Social, José Manuel Canavarro, é consultor do Montepio Geral, banco cuja actividade se desenvolve na área da solidariedade. Os exemplos sucedem-se. A promiscuidade contamina até o insuspeito Banco de Portugal, em cujo conselho consultivo têm assento Almerindo Marques, ligado ao BES, ou António de Sousa, até há pouco presidente da Associação de Bancos. O banco central tem a sua actividade vigiada por aqueles que deveria supervisionar. Pelo lado dos privados, os grupos económicos que beneficiam desta promiscuidade estão sempre disponíveis para acolher os que os favorecem. Não por acaso, ex-ministros das obras públicas transitam para as empresas com maior participação nas parcerias público-privadas. Ferreira do Amaral preside à Lusoponte, Jorge Coelho e Valente de Oliveira administram a Mota-Engil.»

30 de novembro de 2012

A DEMOCRACIA QUE TEMOS. Ouvi não sei quem dizer que o líder de um partido político é eleito por vinte e tal mil votos, e julgo ter-se referido aos dois maiores partidos. Como é sabido, cabe aos líderes dos partidos escolher quem será candidato a deputado, e também não é segredo que o processo implica escolher quem lhes convém e rejeitar quem não lhes convém, não por razões de mérito ou falta dele, mas por lhes serem fiéis, ou não. Temos, assim, que a chamada «casa da democracia» é escolhida por meia dúzia de pessoas, que votará de acordo com a vontade dos chefes. Quem ouse votar contra eles, ou exprimir opinião diferente da deles, tem o futuro traçado: não será candidato a deputado na próxima legislatura. Somando este a outros poderes, confirma-se que Portugal é dirigido por dois ou três cavalheiros, eleitos por zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Repito: zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Os regimes democráticos não são perfeitos? É sabido que não. Mas tanta imperfeição, que a generalidade dos políticos não contesta nem mostra interesse em corrigir, ainda vai acabar mal.

28 de novembro de 2012

OUTRA VEZ O RELATIVISMO. Dizem os factos que nunca houve tantos ataques americanos a terroristas da Al-Qaeda (ou aparentados), especialmente por aviões não tripulados (mais conhecidos por «drones»), como durante o primeiro mandato de Obama. Curiosamente, raramente os media ocidentais deram conta do sucedido, e a avaliar pelo silêncio generalizado não houve danos colaterais (leia-se vítimas inocentes) ou erros grosseiros, muito menos se questionou a legitimidade de tais actos. A situação não pode deixar de passar despercebida quando comparada a idênticas operações ocorridas no tempo de George W. Bush, que os media então reportaram até à exaustão, sempre com imagens de inocentes (com aspas e sem aspas) mortos e estropiados, nomeadamente crianças, e agora com os ataques a Gaza, de que diariamente nos chegam notícias e imagens cuja credibilidade nem sempre se consegue apurar. É outra vez o relativismo, que tudo legitima quanto é feito pelos nossos, e tudo condena quando é feito pelos outros. Como se pode ver por mais este exemplo (mas podia dar muitos mais), as vítimas choraram-se quando dão jeito, e ignoram-se quando não dão.

27 de novembro de 2012

PRÉMIOS LITERÁRIOS. Nada contra os prémios literários, e até conheço bons livros e bons escritores que os receberam. Mas cada vez dou menos importância aos ditos, sobretudo aos que premeiam uma só obra. Como os best sellers, produtos geralmente a evitar, dou por mim a desconfiar dos prémios literários, todos os prémios literários, mesmo os mais prestigiados. De Valter Hugo Mãe apenas li meia dúzia de coisas dispersas por jornais. Não tenho, portanto, opinião sobre os seus livros. Mas já tenho opinião do pouco que li nos jornais, e devo dizer que pouco lisonjeira. Como se pode ver na sua crónica de estreia no Público, na forma idêntica a todas as outras que li, a prosa é intragável. A Máquina de Fazer Espanhóis, título que lhe valeu o Prémio Portugal Telecom, pode ser um bom livro, mas em literatura quem me decepciona uma vez não tem segunda oportunidade.

23 de novembro de 2012

O QUE SE PASSA? Li há pouco que o Presidente Cavaco pode estar doente, mas não cheguei a perceber se o autor da prosa falava a sério ou ironizava. Hoje, ouvindo o discurso de Cavaco na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo, pareceu-me que o prosador falava a sério. Já se sabia que o Presidente tem um sentido de humor muito peculiar, e quando se mete a ironizar a gente deita as mãos à cabeça. Mas o que ouvi hoje não me pareceu dentro da «normalidade» a que nos habituou.

21 de novembro de 2012

INDIGNADOS E DESORDEIROS. O Jornal de Angola, baluarte do jornalismo universal e provavelmente da Rua Ginga, resolveu disparar sobre a generalidade dos media portugueses e, de caminho, elogiar o regime de Eduardo dos Santos. Segundo um tal Álvaro Domingos, ao que parece um sujeito que se desdobra em prosas por variadíssimas publicações e se distingue pelo uso de variadíssimos pseudónimos (ou heterónimos, ou lá o que seja), por estes dias aconteceu em Portugal «um verdadeiro massacre sobre manifestantes indignados» e «cidadãos indefesos», que «as máfias» que dominam o jornalismo português fingem não ter acontecido. Pior: segundo ele, «os direitos humanos estão em perigo em Portugal», e Angola, na qualidade de país membro da CPLP, não pode «ficar em silêncio». É hora, pois, de «convocar todos os líderes da comunidade para avaliar a situação dos direitos humanos em Portugal», «de cerrar fileiras e exigir que Portugal respeite os direitos humanos». Depois elogia o regime que lhe dá de comer, e dá uns conselhos que Portugal deve seguir. «Angola tem sido (...) o baluarte da democracia e da liberdade na comunidade de países que falam a língua portuguesa», pelo que a polícia portuguesa teria tudo a ganhar indo a Luanda aprender como se faz com a polícia local. Dá um exemplo comovente: quando algumas dezenas de jovens, «manipulados por partidos políticos que ainda têm o cordão umbilical ligado às máfias políticas em Portugal, fizeram manifestações de rua, tudo acabou de uma forma civilizada». E acrescenta: «choveram pedras sobre os agentes da polícia e os seus carros», mas apesar do percalço «tudo se resolveu com a detenção dos desordeiros». Como terão notado, quem, em Portugal, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «manifestantes indignados»; quem, em Luanda, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «desordeiros». Como se costuma dizer nestes casos, todo um programa. Tudo isto porque a Procuradoria-Geral da República terá aberto um inquérito por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais envolvendo três altas figuras do Estado angolano (Manuel Vicente, vice-presidente de Angola e ex-director-geral da Sonangol, Hélder Vieira Dias, ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, e Leopoldino Nascimento, consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República), que obviamente dará em nada. Imaginem se desse nalguma coisa.
ACORDO ORTOGRÁFICO. «(...) estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens).»
AS IDEIAS FEITAS DO COSTUME. O conflito israelo-palestiniano é dos assuntos mais complexos (e controversos) que há, mas colocar em pé de igualdade Israel e o Hamas, como fez o Público de hoje (ver editorial), só por má-fé, ou ignorância. Vendo bem, talvez pelas duas coisas.

20 de novembro de 2012

CUIDADO COM A TROPA. Otelo Saraiva de Carvalho avisou, há duas semanas, que pode haver uma revolução popular apoiada pelas forças de segurança e pelos militares caso o Governo não recue nas medidas de austeridade, embora o eventual apoio dar-se-ia, segundo ele, apenas «para evitar um surto de violência extremo». Como estarão lembrados, Otelo alertou, há um mês, para uma revolução «latente» (que não deverá, como o 25 de Abril, ser pacífica), e para o facto de ser diariamente confrontado com «anónimos» que lhe pedem uma nova revolução, «agora sem cravos», porque os limites foram, segundo ele, «ultrapassados», e há um ano defendeu um golpe de Estado para derrubar o Governo caso os limites fossem ultrapassados. Também Vasco Lourenço considerou há pouco que o actual Governo «perdeu a legitimidade há muito tempo», e ainda há coisa de três semanas deu como inevitável uma guerra na Europa. Entretanto, os militares no activo saíram à rua em protesto contra «as malfeitorias» de que dizem ser alvo, e também eles não se inibem de fazer ameaças mais ou menos veladas ao regime e a quem nele manda. Dirão alguns que a democracia não está em causa, que a União Europeia encarregar-se-á de a repor caso as coisas corram para o torto. Aparentemente, assim será, embora uma intervenção militar destinada a repor a ordem se arrisque a aumentar a desordem — e mesmo que as coisas corram como se espera uma intervenção deste tipo não impedirá que estes e outros senhores percam, um dia, a cabeça, e desatem aos tiros. Se isso suceder, enquanto o pau vai e vem, enquanto a Europa devolve os militares aos quartéis, seguramente que uns quantos acabarão na paz dos cemitérios. Como diria Vergílio Ferreira, serão os que terão a paz verdadeira.

15 de novembro de 2012

GENERALIZAÇÕES PERIGOSAS. Tudo contra a violência, nada a favor da violência. Como se costuma dizer nestas alturas, a violência nada resolve. Mas apetece-me perguntar: e resolvem o quê as manifestações pacíficas? Não, não defendo a violência. Gostaria é que os protestos da rua, sobretudo quando traduzem o descontentamento de grande parte da população, tivessem consequências, resultassem em algo de concreto e positivo, o que está longe de acontecer. A violência nas ruas talvez seja obra de arruaceiros, de «pessoas que querem destruir a sociedade», como diz o Presidente da República, que pouco antes gracejou sobre coisas que não devia. Mas quantas pessoas, habitualmente incapazes de matar uma mosca, não se reviram na violência de ontem? Seria bom, por isso, não subestimar os incidentes, atribuí-los a meros arruaceiros, considerá-los casos isolados. É que eles podem rapidamente alastrar ao resto dos portugueses — cada vez mais espoliados, cada vez mais desesperados, cada vez mais receosos do radiante futuro que os governantes prometem mas em que já nem eles próprios, governantes, acreditam. Não defendo a complacência das autoridades com actos de violência. Pelo contrário, as autoridades devem agir com profissionalismo e determinação, como terá ocorrido ontem, embora nem todos concordem que assim tenha sido. Defendo é que os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, saibam ler os sinais, e tenham cuidado com as palavras quando falam de arruaceiros e de «pessoas que querem destruir a sociedade». Como sensatamente lembrou Seixas da Costa, talvez os confrontos de ontem possam fazer a Europa perceber que «Portugal também tem um limite para o sacrifício». Ironicamente, a concretizar-se o desejo do embaixador os confrontos serviram, afinal, para alguma coisa.
QUEM FAZ O FAVOR DE EXPLICAR? De facto, não se percebe por que razão a selecção portuguesa de futebol jogou com um adversário de terceira categoria, no quinto dos infernos. A gente olha para o calendário dos jogos particulares disputados ontem e vê a Suécia a jogar com a Inglaterra, a Holanda com a Alemanha, a Itália com a França, e quando chegamos à terrinha descobrimos Portugal a jogar com a 52ª selecção do ranking mundial. Parece que o negócio rendeu 800 mil euros à Federação, até ver a única explicação, mas que não explica coisa nenhuma. Alguém da Federação faz o favor de explicar à rapaziada a importância do jogo para os destinos da pátria?

12 de novembro de 2012

O PRAVDA ANGOLANO. Será a inveja que levou as autoridades portuguesas a investigar suspeitas de vigarices cometidas por gente ligada ao Governo Eduardo dos Santos, como diz o Jornal de Angola. E as suspeitas de corrupção que recaem sobre altas figuras do Estado angolano? Têm, ou não, fundamento? Pelos vistos, isto não interessa ao Jornal de Angola. E não interessa porque o Jornal de Angola é o Pravda lá do sítio, e de um jornal do regime não se espera outra coisa que não seja bajular o regime e quem nele manda, mesmo que alguns dos mandantes sejam uns refinados patifes. Aliás, pelo apetite que o poder angolano tem demonstrado pelos jornais portugueses, não tardará que o assunto deixará de interessar aos próprios jornais portugueses.

7 de novembro de 2012

MINISTRO DAS TRAPALHADAS. À excepção dos protagonistas do incidente, ninguém sabe ao certo o que se passou entre o jornalista Nuno Ferreira e o ministro Miguel Relvas. Não se pode, portanto, tirar conclusões, visto que não há dados que nos permitam saber quem é culpado de quê. Mas se há dúvidas quanto ao episódio, uma coisa é certa: tornou-se rotina ver o ministro Relvas envolvido em trapalhadas, e se do ponto de vista legal nada haverá que se lhe possa apontar, a verdade é que cada vez sai pior na fotografia.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS. Conforme anunciei quando disse votar Obama, ganhou o menos mau. Como é evidente, quem assim pensa não espera grande coisa, pelo que o que vier de bom será lucro, e de mau não me surpreenderá. Teria dormido bem na noite eleitoral caso a vitória sorrisse a Romney, por quem nunca nutri simpatia e sempre me pareceu ter um conhecimento superficial do país e praticamente nulo sobre o resto do mundo, que se fartou de fazer promessas irrealistas que nunca explicou como tencionava concretizar, e que se deu «ao luxo» de sofrer uma estrondosa derrota num estado — o Massachusetts — onde ainda há pouco foi governador e se gabou de ter feito obra. Se o segundo mandato de Obama correr como o primeiro, não será, evidentemente, brilhante. Mas com Obama já sei com o que posso contar. Com Romney, tendo em conta as piruetas que já fez e as gaffes (chamo-lhe assim para simplificar) que protagonizou, não sendo uma tragédia seria, no mínimo, uma incógnita.
JÁ NÃO HÁ LADRÕES COMO ANTIGAMENTE. Homem morre de descarga elétrica ao roubar cobre

6 de novembro de 2012

SANDY (2). Só ao quinto dia a dona Sandy me deixou viver como habitualmente. Quase uma semana sem electricidade, sem frigorífico, sem aquecimento. Com filas para o café e para a gasolina, que ainda não terminaram. Sem internet. Com sucessivos jantares à luz das velas, cada vez menos românticos, e com noites seguidas embrulhado em cobertores a sonhar com o paraíso, um modesto interruptor capaz de acender um candeeiro, de ligar o aquecimento. E a ler Mark Twain, A Viagem dos Inocentes, com um sentido no relato e três na electricidade que não vem, na gasolina que escasseia, na temperatura que desce perigosamente. Podia ter sido pior? Podia. O meu vizinho partiu uma perna num acidente de automóvel, mas teve sorte: podia ter partido as duas. O meu vizinho caiu da varanda e partiu a cabeça e um braço, mas teve sorte: podia ter morrido. Resumindo, o meu vizinho partiu uma perna, um braço, a cabeça — e ainda deve mostrar-se agradecido pela sorte que teve.

3 de novembro de 2012

SANDY (1). Há cinco dias sem electricidade, sem frigorífico, sem aquecimento, sem internet, e sem saber quando tudo isto voltará.

29 de outubro de 2012

TALVEZ PESSOA. Alertado para uma biografia de Fernando Pessoa de que nunca ouvira falar, numa rápida pesquisa no Google cheguei a Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. Fiquei então a saber que a obra foi editada no Brasil em 2011, e comecei por estranhar só um ano depois ouvir falar dela. Pior: as entrevistas que fui lendo e ouvindo aumentaram-me a desconfiança. Mesmo assim, resolvi arriscar. Uma vez que resido fora do país, onde os livros comprados em Portugal ou no Brasil me chegam acrescidos de portes proibitivos, optei pelo ebook. Poucos dias depois deparo com uma crítica de Teresa Rita Lopes, ao que parece respeitada investigadora de Pessoa, onde ela diz que a obra contém toda a sorte de erros factuais, alguns deles grosseiros, entre outros defeitos. Posteriormente, António Guerreiro, no Expresso, disse mais ou menos o mesmo: o livro não é credível. Perante isto, que não foi pouco, o biógrafo não tugiu, nem mugiu. Mais recentemente fico a saber que a Academia Brasileira de Letras o considerou «livro do ano» e a «mais importante biografia de Pessoa», e que foi nomeado para o Prémio Jabuti. Mesmo sabendo que o Jabuti não é um prémio qualquer, não me espanta a nomeação, nem me espantará que o ganhe. Já a decisão da Academia causou-me perplexidade, muito acrescida por não ter visto, até agora, quem se espantasse. Perante isto, sobram duas perguntas: o livro é tão mau como os entendidos garantem, ou os membros da Academia são, no mínimo, incompetentes? Como presumo que os primeiros não exageram e a Academia é uma instituição respeitável, tenho um problema. Seriam bem-vindas, portanto, novas polémicas, de modo a saber se o livro vale, ou não, a pena, se é credível, ou não. Como se trata de uma biografia, ou «quase-autobiografia», não me parece uma questão de somenos.

26 de outubro de 2012

MENTIRAS E MAIS MENTIRAS. Toda a gente que anda na política e tem pretensões a governar considera que o Estado tem de cortar na despesa. Uns de uma maneira, outros doutra, mas todos concordam no essencial: o Estado consome mais do que devia. O resultado destes «considerandos» é conhecido: a despesa não só não diminui, como continua a aumentar. Medina Carreira diz que o próximo Orçamento vai aumentar a despesa em 2.3 mil milhões de euros, e ele não costuma enganar-se nas contas. Os cortes na despesa anunciados pelo Governo são, portanto, uma falácia. Convinha que da próxima vez que os governantes (ou políticos no activo) anunciem cortes nas despesas comecem por demonstrar onde pretendem cortar, como pretendem cortar, e quanto pretendem cortar. Enquanto isso não suceder, não contarão com o meu voto. Os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, não podem ficar impunes quando não cumprem o que prometem, quando mentem descaradamente, ou quando recorrem à demagogia para nos criar falsas esperanças, de que a candidata social-democrata à presidência do Governo dos Açores, prometendo criar 15.000 empregos caso fosse eleita, é o exemplo mais recente. Em Portugal «só se ganham eleições com mentiras», diz, ainda, Medina Carreira. É uma verdade mais que demonstrada. Mas os políticos deixarão de mentir no dia em que perceberem que a mentira não compensa. Compete-nos, portanto, fazer chegar esse dia.

23 de outubro de 2012

FITEIROS. Confesso que me espanto sempre que as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa causam tanta celeuma. Espanto-me porque o professor há muito se tornou o clown do regime, passe a expressão, uma figura que os portugueses se habituaram a ouvir mas a quem dão nula importância. Bem sei que Marcelo é candidato a candidato à Presidência da República, embora eu desconfie que nunca passará disso — e honestamente considere que a última coisa que o país precisa é de um malabarista na Presidência da República. Um filme sobre os sacrifícios dos portugueses devido à política de austeridade para mostrar — e comover — a sra. Merkel? Extraordinária ideia! A sra. Merkel irá, certamente, impressionar-se. Não com certeza com os sacrifícios dos portugueses, mas com a estupidez das elites que temos.

19 de outubro de 2012

RANGEL E A BOLA (2). Como já disse, nada obstará a que o juiz Rui Rangel se candidate à presidência do Benfica, e nada o impedirá de exercer tal função caso seja eleito. Mas continuo a achar, como também já disse, que os juízes em pleno exercício de funções devem, de um modo geral, afastar-se de actividades que, não sendo incompatíveis do ponto de vista legal com a profissão que exercem, são-no claramente do ponto de vista ético. O senso comum, pelo menos a noção que eu tenho do senso comum, recomenda que um juiz no activo paute a sua actividade pelo low profile, e o presidente de um clube como o Benfica não pode dar-se a esse luxo — para já não dizer que por vezes vai ter que esquecer-se de que é juiz se quiser defender o clube a que preside, e esquecer-se do clube a que preside se quiser exercer a profissão como deve ser exercida. Pior, nas próximas eleições do Benfica, só quando José Eduardo Moniz, em directo no Telejornal, se ofereceu ao actual presidente do Benfica para «o que for necessário», sem que alguém percebesse o que o fez mudar de ideias quando ainda há pouco disse o pior de Vieira. O mundo dá muitas voltas, mas nunca pensei que se prestasse a este vexame.

17 de outubro de 2012

O DEBATE. Como já aqui escrevi, votarei Obama nas Presidenciais de Novembro, por razões que também já expliquei. Feita a declaração de interesses, que certamente não contribui para uma visão imparcial sobre o desempenho dos candidatos em debates ou noutros palcos, considero, para não variar, que o «meu» candidato esteve claramente melhor no debate de ontem. Falo do modo como desempenhou o papel que lhe cabia, da performance, que a substância dos debates não tem, infelizmente, grande peso. Tirando uma gaffe ou outra que os candidatos possam cometer, que por vezes lhes pode ser fatal, os debates contam sobretudo pela forma como os candidatos desempenham o guião mais ou menos conhecido antecipadamente. E, nesse aspecto, Obama dificilmente poderia ter estado melhor. O Presidente transmitiu serenidade, demonstrou firmeza em momentos cruciais, e pareceu-me convicto do que defendeu. Começou bem, cresceu à medida que o tempo passava, e terminou de forma arrasadora — primeiro com a questão da Líbia, depois com os famosos 47% dos americanos que o adversário considerou casos perdidos, por si só todo um programa. Se isto vai mudar alguma coisa na relação de forças, se fará diminuir o número de indecisos, talvez nunca se saberá.

15 de outubro de 2012

NO PASA NADA. Das duas, uma: ou é mentira o que o Público tem dito sobre os negócios de Passos Coelho e Miguel Relvas, e nesse caso espera-se que desmintam o jornal e o processem; ou é tudo verdade, e nesse caso há um crime (ou vários), e num país a sério o primeiro-ministro já se teria demitido e o caso estaria nos tribunais. Como estamos em Portugal, onde grande parte dos políticos no activo tem, neste tipo de casos, telhados de vidro, nada sucederá. Mesmo com provas, como tudo indica que existam.
BRINCAR COM O FOGO. Terá havido um único eleitor de Berta Cabral (para já não falar dos eleitores em geral) que tenha acreditado que ela conseguiria, caso o PSD ganhasse as eleições nos Açores, criar quinze mil (repito: 15.000) novos empregos nos próximos quatro anos? Num país em que a taxa de desemprego é enorme e não pára de aumentar, onde todos os dias são conhecidos casos arrepiantes, prometer 15.000 novos empregos devia dar cadeia em caso de incumprimento.

11 de outubro de 2012

ESQUECIMENTOS SUSPEITOS. Parece que o primeiro-ministro se esqueceu de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa. Embora surpreendente (presumo que uma coisa dessas não se esquece), nada a opor, e nada o obrigará a mencionar tais factos. Acontece que a dita empresa onde Passos Coelho foi consultor e administrador, a Tecnoforma, na altura dirigida por destacados militantes da JSD (e não sei se ainda hoje), é suspeita de tratamento de favor por parte do governo de Durão Barroso, mais precisamente através da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo actual ministro Miguel Relvas. Ora, havendo suspeitas sobre a empresa de que Passos foi consultor e administrador, ao que parece nunca tão próspera como quando lá exerceu essas funções, torna-se igualmente suspeita a omissão no currículo. Segundo o Público, desde a primeira hora que Passos Coelho se disponibilizou para responder a todas as perguntas julgadas necessárias ao esclarecimento do caso. Fez bem, mas não chega. Conhecidos os factos sobre a dita empresa, que levantam suspeitas que não param de crescer, a omissão no currículo não pode deixar de ser vista como tentativa de branquear um passado porventura incómodo. Mas como falamos de Portugal, país de brandos costumes, a coisa ficar-se-á pelas suspeitas.
RANGEL E A BOLA (1). Consta que o juiz Rui Rangel pondera candidatar-se à presidência do Benfica. É um direito que lhe assiste, e nada obstará a que isso se concretize. Custa-me, porém, imaginar um juiz no activo a comentar as vicissitudes da bola — os erros da arbitragem, o ambiente do balneário, para já não falar dos nebulosos negócios de compra e venda de jogadores. Não deviam os juízes no activo dedicar-se a actividades mais recatadas?
AGONIA NO PÚBLICO. A administração e a Direcção Editorial do Público entenderam necessário despedir 48 trabalhadores, por considerarem que só assim será possível reduzir custos de modo a viabilizar o jornal. O futuro dirá se a medida foi necessária — e será, ou não, bem-sucedida. Mas a reacção da Comissão de Trabalhadores e do Conselho de Redacção do jornal, que rejeitaram liminarmente as medidas e propõem ir para a greve, só aponta uma solução: o fim do Público. Espero — e desejo — que me engane, que apesar de há muito deixar de ser o que era o Público faz falta. (Ver, a propósito, este link.)

3 de outubro de 2012

PAUSA. Por razões de ordem pessoal, farei uma pausa durante alguns dias.

28 de setembro de 2012

ÉTICA DE CASA DE BANHO. «Vivemos numa sociedade em que (...) não é possível em termos de cuidados de saúde todos terem acesso a tudo. Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?» Não, não foi um ditadorzeco quem disse isto. Foi o presidente de uma organização que dá pelo nome de Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida, que propôs ao Ministério da Saúde como receita para reduzir o que considera um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. Ninguém se admire, portanto, que a seguir proponham eliminar cirurgias cardíacas em anciãos de 90 e mais anos, que previsivelmente não vão durar muito mais tempo depois disso, e a cirurgias são, como se sabe, caríssimas.
INIMIGOS DA DEMOCRACIA. Francisco Assis escreveu, no Público, que publicações como o Jornal de Notícias e Correio da Manhã «constituem verdadeiros inimigos da democracia». Porque as «actuais linhas editoriais» dessas duas publicações apelam «às piores pulsões populares», que só contribuem «para a degradação de um espaço público que é indispensável para a afirmação de um verdadeiro debate democrático». Devo dizer que aprecio os políticos que enfrentam a comunicação social, e não me refiro aos que o fazem para se defenderem de alguma acusação. Aprecio porque é mais fácil não o fazer, e há muito se demonstrou não ser boa política atacar os media. Dito isto, Assis bem podia, sobre o caso a que se refere, acrescentar mais alguns. Podia, por exemplo, acrescentar o próprio jornal onde escreve, a SIC e a RTP.

27 de setembro de 2012

ENTRE O MAU E O PÉSSIMO. O mais engraçado nesta história de Romney, pelos vistos falsa, foi o modo como a generalidade dos cidadãos, conservadores ou liberais, republicanos ou democráticos, facilmente a tomou por verdadeira. Os americanos já se habituaram de tal modo às gaffes (chamemos-lhe gaffes para simplificar) de Romney que se o candidato republicano amanhã disser que a terra é quadrada já não estranham, nem sorriem. Depois de num jantar de angariação de fundos considerar que mais de metade dos americanos foge aos impostos e vive à custa do Estado, entre outras pérolas do mesmo quilate, já nada espanta em Romney. É por estas e por outras que me preparo, como há quatro anos, para votar Obama, então porque Obama me pareceu o menos mau, agora porque um é mau e o outro péssimo.

24 de setembro de 2012

DEMAGOGIA. A ministra da Agricultura resolveu cortar uvas no Douro como forma de mostrar, disse ela, que está atenta às dificuldades que afectam a viticultura duriense. Admito que possa estar enganado, mas se isto não é demagogia, então não sei o que é demagogia. Aliás, não é a primeira vez que a ministra se mete em exercícios demagógicos. Para quem, como ela, se meteu na política há dois dias, pelo menos na política partidária, convenhamos que aprendeu depressa o pior que há na política.

21 de setembro de 2012

ESPECIALISTAS E OUTROS MALABARISTAS. Como não se espera que o Governo nos venha explicar os motivos que o levaram a contratar 29 colaboradores com menos de 30 anos (o mais novo parece que tem 24), por que não exige a oposição que o Governo as explique? Afinal, se o Governo tem deveres nesta matéria, a oposição também os tem. Aliás, é mais estranha a mudez da oposição que a do Governo. Se ao Governo não convém explicar o que se adivinha difícil de explicar, já a oposição teria oportunidade de prestar um serviço ao país, e de caminho conquistar mais uns adeptos para a sua causa. Como não o fez, e se adivinha que não o fará, só pode ser por uma razão: a oposição, nomeadamente a que já foi Governo, não pode denunciar pecados que também cometeu.

20 de setembro de 2012

BEM PREGA FREI TOMÁS. Por falar em coerência, onde está a do João Gonçalves, que se fartou de dizer cobras e lagartos de quem, agora, instalado no gabinete de Miguel Relvas (olhem só quem havia de lhe calhar), já só lhe falta deitar-se no chão para que lhe passem por cima?
PÓLVORA SECA. Prestei escassa atenção à entrevista do líder do PS à RTP, mas lembro-me de lhe perguntarem quanto podia o Governo arrecadar com um imposto sobre as Parcerias Público-Privadas (PPPs), por ele mesmo proposto como alternativa às medidas anunciadas pelo primeiro-ministro (subida de 7% na contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores por conta de outrem e descida de 5.25% da taxa social única das empresas), e Seguro responder que os números ainda estão a ser estudados pelos técnicos. Ora, se assim é, como pode ele dizer que o tal imposto sobre as PPPs poderia ser uma alternativa?

18 de setembro de 2012

FIM DE SEMANA. Passei o fim de semana afastado das notícias, que adivinhei piores à medida que o tempo passava, e aproveitei-o para concluir The Road to Oxiana, que iniciei há um par de anos e só agora decidi terminar. Retomo as notícias, as frescas e as outras, e confirmo que assim foi. As de hoje são piores que as de ontem, que já eram piores que as de anteontem. Pior: não se vislumbram melhores notícias para os próximos dias, talvez para os próximos anos. Não fossem as contas a pagar, e passar-me-ia a ocupar exclusivamente do que me interessa, duas ou três coisas sem importância para a generalidade das pessoas mas para mim essenciais.
PPPs. «A primeira de todas as PPP foi a Ponte Vasco da Gama. Os privados financiaram apenas um quarto do valor da ponte e, com isso, ganharam o direito às receitas com portagens da Ponte Vasco da Gama, da ‘25 de Abril’ e ainda o exclusivo das travessias rodoviárias do Tejo por toda uma geração. O governante que concebeu este calamitoso negócio, Ferreira do Amaral, preside hoje à empresa concessionária, a Lusoponte. Os seus sucessores seguiram-lhe o triste exemplo. Jorge Coelho e Valente de Oliveira, ministros das Obras Públicas de Guterres e Barroso, são administradores na maior concessionária de PPP, a Mota-Engil. Todos estes negócios ruinosos para o Estado têm responsáveis, que a Justiça portuguesa jamais pune. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos. E continuaremos a passar se não for erradicada a causa que está na origem desta situação a que chegámos: a corrupção.»

14 de setembro de 2012

DA OPOSIÇÃO. Que a oposição, toda a oposição, seja contra tudo o que o Governo faz ou deixa de fazer, mesmo as coisas boas, entende-se. Afinal, o papel da oposição nos tempos que correm é opor-se ao Governo, não com a ideia que o Governo faça melhor (ou o que lhe parece melhor), mas com o único propósito de correr com o Governo para lhe tomar o lugar. Mas quando a oposição cresce de dia para dia dentro dos próprios partidos que integram o Governo, como está a acontecer, a coisa ganha outra dimensão. Verdade que os críticos mais destacados que integram os partidos no poder têm contas a ajustar com o líder, mas nem por isso torna menos contundentes as suas críticas. Têm, além disso, a particularidade de passar a ideia de que a família está de tal modo desavinda que já nem consegue disfarçar o mal-estar. Infelizmente, a generalidade dos críticos da família não tem, como a restante oposição, alternativas concretas, e tratando-se de gente que vive da política e para a política, convenhamos que é confrangedor. Quero imaginar que não há alternativas eficazes às actuais medidas governamentais, embora isso não me sirva de consolo. Quem vive da política tem obrigação de fazer mais e melhor. Se discorda das medidas governamentais, faça favor de apresentar alternativas concretas. É esse, afinal, o seu trabalho, e o mínimo que dele se espera.

13 de setembro de 2012

RTP (2). Como já disse e repeti, não tenho uma posição definitiva sobre o futuro da RTP. Parece-me, no entanto, que os funcionários da dita deveriam ser os últimos a manifestar-se sobre o futuro da empresa. Porque têm interesses directos na matéria, e naturalmente isso retira-lhes o distanciamento necessário para se pronunciarem com isenção e seriedade sobre o futuro da dita.
RTP (1). A comissão de trabalhadores da RTP revelou que o primeiro-ministro exigiu que a entrevista hoje concedida à televisão pública fosse em São Bento em vez dos habituais estúdios da empresa, porque assim o primeiro-ministro evitou, segundo eles, encarar «cara-a-cara os trabalhadores de uma empresa que o Governo está em vias de destruir». Revelou mais a comissão de trabalhadores: a entrevista em São Bento representou um gasto «injustificável» de milhares de euros. Ora, face a este cenário, por que não recusou a RTP fazer a entrevista nos moldes exigidos? Alguma lei a obriga a entrevistar o primeiro-ministro?
SERVIÇO PÚBLICO. A lista de boys do governo, todos especialistas bem pagos e de tenra idade...

11 de setembro de 2012

BIZARRIAS. Há coisas difíceis de entender no sistema penal português. Por exemplo, um suspeito de cometer um crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva, e apesar de alguns excessos que terão sido cometidos ao abrigo deste instrumento, o princípio parece-me justo. Já um condenado a prisão efectiva pode aguardar em liberdade até que seja conhecida a decisão de uma segunda instância caso para aí decida recorrer. Resumindo, a justiça é mais lesta a punir um suspeito (metendo-o na prisão) que um condenado (deixando-a à solta).

7 de setembro de 2012

CORRUPÇÃO. Paulo Morais não se tem cansado de denunciar a corrupção. E tem-no feito de modo assinalável: apresenta casos concretos que envolvem pessoas concretas, perante os quais um mínimo de boa vontade bastaria para os levar a tribunal, e uma vez lá facilmente punidos. Como é sabido, não é assim. Apesar das evidências, nada se fez, nada se faz, nada se fará. A justiça funciona exemplarmente para o pé descalço — no caso, evidentemente, de o pé descalço meter a pata na poça, que se for para reclamar um direito ou defender-se de alguém poderoso o caso muda de figura. Sempre que se trata de gente importante, a justiça ou não funciona, ou funciona mal. Tem razão a procuradora-geral adjunta quando diz que «o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos». Afinal, para haver casos de corrupção é preciso que alguém avance contra alguém com processos de corrupção. Como não há, e os poucos que há geralmente acabam em nada, a corrupção passa por ser um fenómeno isolado. É pena que Cândida Almeida pareça mais interessada em questões formais que em questões de facto. Os níveis de corrupção em Portugal não param de aumentar, e julgo desnecessários estudos para o demonstrar. A começar, justamente, pelos nossos políticos, cujos casos em que se suspeita de enriquecimento ilícito são cada vez mais numerosos.

5 de setembro de 2012

MAIS MENTIRAS. Ao contrário do que Miguel Sousa Tavares defendeu no Expresso em mais um exercício de falta de seriedade, a desregulamentação dos mercados não começou com George W. Bush. Qualquer pesquisa no Google bastará para o demonstrar, pelo que me dispenso de o fazer. Não que me incomodem as opiniões de que discordo, mesmo as opiniões disparatadas. O que realmente me chateia é que se faça passar por factos (por natureza indesmentíveis) o que não passa de pura ignorância (nos casos mais benévolos) ou verdadeiras mentiras. Alguém do Expresso devia lembrar ao cavalheiro que opiniões assentes em factos que não são verdadeiros não é aceitável.
FÉRIAS (2). Para não variar, comprei mais livros nas férias do que li. (Aliás, sempre comprei mais livros do que li, nas férias ou fora delas, mas isso é outra conversa.) Descobri três novos alfarrabistas (aqui, aqui e aqui), onde por uma quantia irrisória comprei meia dúzia de livros — The Journals of André Gide (volumes I e II), Pretexts: Reflections on Literature and Morality, também de Gide, A Sort of Life, de Graham Greene, Bomarzo, de Manuel Mujica Láinez, e Últimas Tardes Con Teresa, de Juan Marsé. Descobri, ainda, mais uma livraria a visitar regularmente, a Three Lives, e na melhor livraria de Manhattan encontrei um livro em português de Nelson Rodrigues (O Reacionário) que perseguia há anos, que adquiri por tuta e meia e posteriormente descobri ter sido autografado pelo próprio autor. Fora isso, concluí The Banquet Years, de Roger Shattuck, e Servidão Humana, de Somerset Maugham. Como previ antes das férias, pouco mais que nada.

3 de setembro de 2012

LIDO (4). «O dinheiro é como um sexto sentido, sem o qual não podemos usar de modo completo os outros cinco.» Personagem de Servidão Humana, de Somerset Maugham
LIDO (3). «Impossível (...) perceber porque se apressou António Borges a considerar justo o preço oferecido pelos brasileiros da Camargo Côrrea pela Cimpor, quando a própria administração da empresa o considerou baixo — não costuma ser o vendedor a regatear o preço!» João Paulo Batalha, Público de 25/08/2012
LIDO (2). «At sundown a huge corteje formed with a ragtime band in the lead. Whitman’s coffin followed, carried by six drunken pallbearers, and after it the crowd.» Apollinaire, citado por Roger Shattuck no livro The Banquet Years
LIDO (1). «In Italy, for 30 years under the Borgias, they had warfare, terror, murder and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love, they had 500 years of democracy and peace — and what did that produce? The cuckoo clock», escreveu o filósofo John Gray. Mas adiantou: «This isn't because artists and writers do their best work when they're being persecuted — a Romantic cliche that doesn't stand up to any careful inquiry.»

10 de agosto de 2012

FÉRIAS (1). Como os leitores terão reparado, os posts têm vindo a ser cada vez mais espaçados. É já o espírito das férias, que começam hoje mesmo. Se tudo correr como espero, serão escassos — ou nulos — os posts durante esse período. Regressarei a 3 de Setembro.

9 de agosto de 2012

MENTIRAS DE VERÃO. Como estivesse necessitado de leitura para férias e não tivesse nas estantes demasiados livros que ainda não li, acaba de me chegar mais meia dúzia, que sempre aguardo com a excitação e a impaciência com que ontem, criança, aguardava um novo brinquedo. Trata-se de My Life, de John Leonard, Italian Journey, de Goethe, Under the Sun, de Bruce Chatwin, Surreal Lives, de Ruth Brandon, Closing the Circle, de Auberon Waugh, e The Banquet Years, de Roger Shattuck. Se não mudar de ideias à última hora, acompanhar-me-ão, nos cinco dias que tenciono ausentar-me, The Banquet Years, de que já li metade, Doutor Fausto (Thomas Mann) e Servidão Humana (Somerset Maugham), que também vão a meio, além de algumas centenas no iPad. Perguntar-me-ão a que propósito vem isto, que só a mim interessará. Respondo com outra pergunta: a quem interessarão os livros que por esta altura a imprensa costuma recomendar como apropriados para ler no Verão? Como é evidente, interessam à imprensa, e apenas à imprensa, que nesta altura está sem assunto. Quem lê regularmente sabe o que há-de ler, no Verão e fora dele, e não precisa de recomendações de ocasião. Quem não lê, obviamente que não é no Verão que vai mudar de hábitos, muito menos vai ler o que dizem os jornais sobre tão entediante assunto. Como a «literatura de Verão», ou a literatura apropriada para ler no Verão (seja lá isso o que for), o aparente interesse dos leitores de jornais por leituras de Verão é uma falácia. Mais: ao contrário do que também se diz, nas férias lê-se menos que no resto do ano, e quem garante reservar para as férias não sei que livros, ou é ingénuo, ou mente.

7 de agosto de 2012

TELHADOS DE VIDRO. Se bem me lembro, Arons de Carvalho em tempos escreveu que Mário Crespo, então correspondente da RTP em Washington, lhe pediu que intercedesse em seu favor junto da administração da RTP num processo disciplinar de que então foi alvo, e que acabou por ditar o regresso de Crespo a Lisboa. Face à gravidade do que disse o actual vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, na altura do pedido Crespo secretário de Estado da Comunicação Social, o actual jornalista da SIC não tugiu, nem mugiu. Posteriormente noticiou-se que Crespo tentou regressar a Washington pela mão do actual ministro que tutela a comunicação social, novamente como corresponde da RTP, processo que não terá corrido bem e cujos contornos não se perceberam (Crespo não era, como não é, jornalista da RTP, e ao que parece o cargo estará reservado a jornalistas da RTP). Não espanta, portanto, que Mário Crespo, que no tempo de Sócrates tanto pregou a favor da liberdade de expressão e na Assembleia da República chegou a protagonizar um episódio que envergonhou o jornalismo e os jornalistas, venha agora dizer que o ministro Miguel Relvas tenha, coitado, sido «a única vítima» no caso do canudo da Lusófona (via A Douta Ignorância), e que há uma campanha contra o ministro que tutela a comunicação social (via Vida Breve). Como dizia o outro, cada um trata a coluna vertebral como bem entende, e não se pede a Crespo que faça outra coisa. Escusava era de agir como se fôssemos estúpidos.
DESPERDIÇAR DINHEIRO PÚBLICO. Não tenho uma opinião definitiva sobre o futuro da RTP. Não sei se deve manter-se no Estado, se deve passar para os privados. Todos os canais, ou parte dos canais. Mas agora, que o Governo se prepara para vender um canal, a pretexto de que o Estado não deve possuir uma televisão (ou tem demasiados canais) e se torna imperioso reduzir as despesas (e de caminho encaixar uns milhões), insisto na pergunta que já aqui fiz: alguém me explica por que razão a RTP necessita de um correspondente em Washington? Haverá lá matéria que justifique uma delegação permanente? Considerando os custos que isso comportará, não ficaria mais barato à RTP deslocar de Lisboa uma equipa sempre que tal se justifique? Não será a delegação em Washington um claro desperdício de dinheiros públicos?

3 de agosto de 2012

A OBSESSÃO DE CASTILHO. Segundo o professor Castilho, não há nada, absolutamente nada, que o ministro Nuno Crato tenha feito como deve ser. Como julgo ser prática do ilustre professor, não acompanho ao detalhe o que se passa no Ministério da Educação, as medidas que têm sido tomadas, e o impacto que terão tido. Mas há, desde logo, uma evidência: quando se acusa um ministro de fazer tudo mal, torna-se claro que não é bem assim. Por mais incompetente que alguém possa ser, seguramente que não faz tudo mal. Há mais evidências: Castilho terá estado na lista dos ministeriáveis, precisamente para o Ministério da Educação, e por razões que desconheço não foi escolhido. Vai daí, nunca mais recuperou, e se não tem um problema pessoal com Nuno Crato, parece. A obsessão cresceu de tal modo que já não enxerga o óbvio: quanto mais bate no ministro, mais razão dá ao ministro. Uma pena. Porque não faltarão razões para questionar com seriedade as políticas do Ministério da Educação e quem o dirige.

2 de agosto de 2012

ROMNEY. É cada vez mais provável que votarei, de novo, Obama nas próximas Presidenciais, novamente porque Obama me parece, como há quatro anos, o menos mau. Como não bastassem os inúmeros erros já cometidos e as constantes mudanças de opinião sem que se vislumbre outro motivo que não seja oportunismo, Romney resolveu deslocar-se a Israel e deitar ainda mais gasolina na fogueira. O tradicional voto judeu no Partido Democrático, que as sondagens dizem estar a deslocar-se para o Partido Republicano, não explicam o desvario, muito menos a irresponsabilidade. Um sujeito que age como Romney agiu face a um problema tão sensível como o conflito israelo-palestiniano, que lida com a pólvora como quem lida com o mais trivial dos assuntos, só pode causar apreensão. Bem sei que as declarações de Telavive se destinaram a consumo interno, no caso ao eleitorado judeu. Mas nada disso apaga o que disse, e o que disse não se pode dizer. Aliás, parece-me evidente que Romney não dá grande importância à política externa, um erro que a história americana já demonstrou ser clamoroso.

30 de julho de 2012

TRABALHO POLÍTICO. Segundo a Lusa, a maioria das 1055 faltas registadas nas últimas 134 sessões parlamentares foram justificadas com trabalho político, sendo as restantes por doença, paternidade e outros motivos de força maior. Curiosamente, ou talvez não, a grande maioria das faltas registou-se às sextas-feiras, logo seguida das quintas. Leram bem: às quintas, e às sextas. Talvez valha a pena acrescentar que Vasco Pulido Valente explicou, em tempos, que o trabalho político consistia numa coisa que servia — e presumo que continua a servir — para quase tudo, inclusive ir ao cinema, de que se gabou de ter ido vezes sem conta no escasso tempo em que foi deputado.
UM HOMEM SEM QUALIDADES. Não há dúvida de que António Costa tem «algumas qualidades» para ser secretário-geral do PS, como admitiu em entrevista recente. Mas também é bom não esquecer que, face à mediocridade do actual líder do PS, quem as não tem? Aliás, seria bom para o PS remover quanto antes o actual líder, que não é carne nem peixe, não anda nem desanda, muito menos se distingue por uma ideia ou acção. Sempre que abre a boca nada mais diz que lugares-comuns, e invariavelmente opta por um discurso destinado a agradar a todos que verdadeiramente não agrada a ninguém. Excepto, claro, ao primeiro-ministro em funções e aos partidos que o apoiam, que dificilmente lhes poderia calhar em sorte um chefe da oposição tão incapaz como António José Seguro.

25 de julho de 2012

VIVER COMO HABITUALMENTE. Já toda a gente percebeu que Miguel Relvas não vai sair do Governo, pelo menos para já. A menos que nos próximos dias rebente mais um escândalo, o ministro apenas sairá quando houver remodelação governamental, e nem aí há a certeza. O primeiro-ministro dará, assim, a ideia de que Relvas não sairá do Governo devido às trapalhadas em que se meteu, muito menos por pressões da rua ou da oposição. Quando se esperaria que Passos Coelho decidisse o óbvio, que o convidasse a demitir-se, o primeiro-ministro faz de conta que nada se passou. Valha a verdade que não surpreende (afinal sempre assim foi), mas é pena. Pena porque se espera que os bons exemplos venham de cima, e desnecessário será repetir que num país civilizado Miguel Relvas deixaria de ser ministro por um terço do que fez.
ARTISTAS. Como foi dito e repetido, a turbolicenciatura do ministro Miguel Relvas é explicável do ponto de vista técnico, e apesar das suspeitas que não podem deixar de recair sobre quem obteve uma licenciatura em apenas um ano (depois de lhe terem sido contados inúmeros créditos por actividades desenvolvidas pelo agora ministro que fazem sorrir o mais sisudo), não haverá qualquer ilegalidade. Não vale, portanto, a pena continuar a bater no ceguinho, insistir no que todos já perceberam. O ministro Relvas é só mais um artista que nos últimos anos tomou conta dos partidos do poder e pacientemente aguardou a sua vez de nos pastorear. Seguir-se-á mais do mesmo nos próximos anos, ora do PSD, ora do PS, que nesta matéria ninguém os distingue. Bem, não só nesta matéria, mas isso são outros quinhentos.

20 de julho de 2012

CHEQUE AO BISPO. Há um mês, D. Januário comparou o actual primeiro-ministro ao ditador Salazar. Agora, não sei por que razão, acusou o Governo de ser «profundamente corrupto». Nada contra a opinião do sr. bispo, embora discorde de tudo o que disse. Seguramente que o actual primeiro-ministro não é comparável a Salazar, nem o Governo que dirige um bando de corruptos — e, a serem o que diz, não se perceberia por que ainda não se afastou do cargo que mantém nas Forças Armadas. Convinha, portanto, que D. Januário apresente argumentos que fundamentem o que disse, que o modo como disse sugere que os tem. Isso, sim, seria de homem. Desabafos de taberna são impróprios para figuras como ele, e não levam a lado nenhum.

17 de julho de 2012

OS POLÍTICOS QUE TEMOS. Percebe-se que o presidente da Câmara de Santarém suspenda o mandato por razões de saúde (a serem verdadeiras, evidentemente), mas como compreender que invoque, ainda para efeito da suspensão do mandato, compromissos literários? Como compreender que Moita Flores tenha manifestado, há uma semana, disponibilidade para se candidatar à Câmara de Oeiras? Estará ele, aquando das autárquicas (próximo ano), restabelecido, e livre de compromissos literários? A ser o que parece, que a doença e a literatura não passam de meros pretextos para se desembaraçar de Santarém e virar-se para Oeiras, é mais um exemplo do que há de pior na política. Espera-se, portanto, que tenha a derrota que merece.
MEXER COM OS INTERESSES. Miguel Relvas está a ser atacado por causa da RTP e doutros interesses igualmente importantes? Provavelmente. Mas em que é que isso diminui a importância dos episódios com o ex-espião das secretas, com a jornalista do Público, com a licenciatura da Lusófona, e com todo um passado, pelos vistos, demasiado conhecido, inclusive do primeiro-ministro?

13 de julho de 2012

FITAS. A cineasta Raquel Freire resolveu queimar uma cópia de um dos seus filmes num terraço com vista para a Assembleia da República e pô-lo na internet como forma de «protesto radical» contra a política do Governo para a cultura em geral e para o cinema em particular. Porque «ser artista é uma questão existencial» para ela, e ela garante que não vai desistir ou emigrar. Para isso escolheu a sua primeira longa metragem (Rasganço), segundo ela «o seu filme mais emblemático», por ter tido um «impacto não só no meio cinematográfico mas também no meio académico de Coimbra». Não vi o filme em causa, mas fui ver o filme do incêndio — ou parte do filme do incêndio, que a coisa promete mais episódios. Vi, e gostei. Não que o filme seja especialmente exaltante do ponto de vista artístico, mas porque deve ter sido o único filme que, nos últimos anos, não custou um centavo aos contribuintes. Bem, julgo eu, pois nada me garante que não venha a custar..
CADA MACACO NO SEU GALHO. Pelo que se vai percebendo, os médicos lutam pela manutenção do Serviço Nacional de Saúde, os professores do ensino público porque o actual modelo de ensino estará em perigo, e os pilotos porque querem mandar na TAP e por vezes não os deixam. Quando seria de esperar que os profissionais destes e doutros sectores exigissem melhores condições de trabalho, aumento salariais e coisas assim, os ditos profissionais revelam quer substituir-se aos governos nas medidas a tomar ou não tomar. Será preciso dizer que os governos, ao contrário dos sectores profissionais, foram eleitos? Que ninguém é bom juiz em causa própria? Que os interesses do país que dizem defender não passam, afinal, dos seus próprios interesses? Era só o que faltava que as políticas para os diversos sectores fossem determinadas pelos profissionais que neles trabalham, ao sabor dos interesses de classe — embora isso suceda demasiadas vezes.
GREVE É SÓ PARA QUEM PODE. Independentemente das razões que possam ter e da legitimidade que lhes assiste, não deixa de ser irónico constatar-se que as últimas greves sectoriais (pilotos, médicos) foram feitas por classes privilegiadas, pelos que melhor estão instalados na vida, por quem tem, afinal, menos razões de queixa. Os que pior estão nem voz têm para protestar, têm escassas — ou nulas — hipóteses de fazer greve, e se a fizerem arriscam-se a ficar ainda pior. Se a ideia é defender a generalidade dos trabalhadores, sobretudo os que mais precisam, as centrais sindicais deviam meditar nisto.
DISPARATES CONSTITUCIONAIS (2). O presidente do Tribunal Constitucional (TC) acha que o Governo devia taxar os rendimentos do capital e cortar nas subvenções partidárias? Considera que há outras formas de emagrecer as contas do Estado? Que a alternativa poderia passar por alargar os cortes de subsídios de férias e Natal aos privados? Já se tinha percebido que o TC gostaria de substituir-se ao Governo quando considerou inconstitucional o corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos alegando desigualdade de tratamento entre funcionários públicos e privados, mas não há como deixar isso claro. O extraordinário é que as luminárias que por lá andam não consigam enxergar um pouco mais que o comum dos mortais, para quem o texto do acórdão foi claríssimo: ao intrometer-se nas competências de outrem, no caso do Governo, o tribunal excedeu as suas competências. Vir agora dizer que o acórdão foi mal interpretado, soa a rábula demasiado vista. Mais: como se pode ver por esta notícia, as explicações que o meritíssimo juiz entendeu dar sobre o acórdão só vieram reforçar o que lá foi dito.
SERVIÇO PÚBLICO.

12 de julho de 2012

DISPARATES CONSTITUCIONAIS (1). Não discuto a constitucionalidade — ou inconstitucionalidade — da suspensão dos subsídios de férias e Natal aos funcionários públicos decretada pelo Tribunal Constitucional (TC), que considerou uma violação do «princípio da igualdade» consagrado na Constituição, muito menos a justiça — ou injustiça — da medida governamental. Discordo, porém, quando o TC fundamenta a decisão alegando que a medida «se traduzia numa imposição de um sacrifício adicional que não tinha equivalente para a generalidade dos outros cidadãos», configura desigualdade de tratamento entre funcionários públicos e privados, e viola o princípio da igualdade. Apesar de não se vislumbrar no texto do acórdão qualquer referência nesse sentido, presume-se que quando o TC fala de equivalência com a generalidade dos cidadãos pretende dizer equivalência com os cidadãos que trabalham no sector privado. E os trabalhadores do sector privado não têm, como sabemos, as mesmas regalias que os funcionários públicos, como também sabemos que quando as coisas não correm bem para os trabalhadores os privados apanham por tabela e aos públicos geralmente nada acontece — ou nada acontece que se compare aos privados. Parece-me, portanto, um disparate falar de equidade, equivalência, desigualdade de tratamento, comparar o que não é comparável. Um disparate que acaba por ser uma provocação aos privados, que pretendem equiparar aos públicos quando se trata de deveres mas que já não são equiparáveis quando se trata de direitos.

11 de julho de 2012

CANUDOS DE AVIÁRIO.aqui critiquei o Miguel por este post, e voltaria a fazê-lo pelos mesmos motivos. Mas curvo-me à recente série de posts no Combustões sobre as universidades portuguesas, cuja leitura aconselho vivamente.

10 de julho de 2012

A MULHER DE CÉSAR. Como se diz da mulher de César, não basta a um ministro ser sério: há que parecê-lo. Não basta a Miguel Relvas considerar encerrado o seu caso com o Público a pretexto de que a deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) o ilibou em toda a linha, e terá deixado claro, no seu entender, a inexistência de qualquer pressão política. Não pondo em causa a legitimidade da decisão da ERC, quem não ficou com dúvidas sobre o veredicto? Quem não sabe que a decisão da ERC foi tomada por três membros do PSD e dois do PS, e que os três primeiros votaram pela ilibação e os segundos pela condenação? Depois há casos anteriores (envolvimento com um ex-espião das secretas a contas com a justiça e uma ex-presidente da Ordem dos Arquitectos acusou Relvas de lhe ter feito uma proposta desonesta) e posteriores (uma licenciatura com contornos cada vez mais hilariantes) que não abonam a mulher de César. Infelizmente, não são casos bastantes para o primeiro-ministro dispensar os seus serviços, muito menos para que o cavalheiro saia pelo seu próprio pé. Pior: tirando uns fogachos inconsequentes, a oposição parlamentar age como estivesse diante uma coisa normal. Triste país o meu.
Grandes primeiras páginas

6 de julho de 2012

O POVO CHEIRA MAL. O povo é inteligente e tudo o mais lisonjeiro que possam imaginar quando os políticos pretendem que ele ponha a cruzinha no sítio que os leve a mandar nele. Feito isso, o povo passa a estorvar, a incomodar, cheira a suor, e quando trata de exigir o que lhe prometeram torna-se insuportável. Que o diga o primeiro-ministro. Avisado de que um grupo de manifestantes o aguardava à porta de uma empresa que tencionava visitar, Passos Coelho resolveu trocar-lhes as voltas e entrar por uma porta alternativa. O povo que o aguardava foi mobilizado pelos sindicatos? Mais que provavelmente. Mas em que é que isso retira ao povo o motivo — e a legitimidade — para se manifestar, e justifica a esperteza saloia do primeiro-ministro?
A PALHAÇADA. Como anteontem se voltou a demonstrar, a entidade que regula a comunicação social nem para «lavar mais branco» tem vocação. Então o cavalheiro que lá manda estava convencido de que a expressão «houve uma pressão inaceitável» do ministro Relvas sobre o Público constava da deliberação? E, não constando, orgulha-se do que lá vem escrito, apesar das contradições que admite existirem? O presidente da ERC quer dizer que a tal expressão nada mudaria caso constasse no documento que ilibou o ministro? Que o sr. Carlos Magno é um «artista», até o mais distraído já tinha notado. Mas nunca julguei que se atrevesse a tanto.

4 de julho de 2012

AO CUIDADO DO GOVERNO ANGOLANO. O Público editou, por estes dias, uma peça sobre as próximas eleições angolanas onde se diz, entre outras coisas, que o Governo que lá manda e o partido que o sustenta controlam a comunicação social pública e alguma privada, ataca activistas e reprime quem lhe faz frente, e que não haverá condições para a realização de eleições livres e justas daqui a dois meses. Como suspeito que o Público é lido em Angola, está à espera de quê o poder angolano para falar com o eng. Belmiro? Como ainda há pouco lembrei, os angolanos detêm 96,6% do Sol, 15,08% da Cofina (Correio da Manhã e Sábado), 2% da Impresa (Expresso e SIC), estarão interessados num canal da RTP, e correm rumores de que pretendem adquirir 20% da Globalnotícias (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF). Pode ser distracção minha, mas não vi, nos últimos tempos, uma única notícia hostil ao Governo angolano nos media que enunciei. Será preciso explicar porquê?

3 de julho de 2012

PÚBLICO. O Público está cada vez mais surpreendente. Agora por publicar uma nota, assinada pela direcção editorial e pelo Sporting, onde se dá conta da desistência das queixas apresentadas na ERC quer pelo Sporting quer pelo Público devido a não sei que notícias então publicadas pelo jornal sobre não sei que problema no acesso aos balneários de Alvalade. Será isto notícia? Motivo para uma nota editorial? Suspeito que a notícia, a existir, seria a origem da «notícia».

28 de junho de 2012

GOZAR COM O PAGODE. Pelo rumo que as coisas estão a levar, o deputado agora condenado por furtar os gravadores aos jornalistas da Sábado ainda vai transformar-se em herói. Tudo porque o cavalheiro renunciou ao cargo de vice-presidente do Grupo Parlamentar socialista e a não sei que outros cargos parlamentares, gesto que o partido a que pertence considerou de «grande sentido de responsabilidade». Ora, grande sentido de responsabilidade teria sido se o sr. deputado Ricardo Rodrigues renunciasse aos cargos mal cometeu o crime pelo que agora foi condenado, pois desde o início ficou claro que agiu de forma inaceitável a um cidadão, e inadmissível a um detentor de cargos políticos. Afastando-se agora dos cargos que se afastou, mais não fez, tardiamente, o que não poderia deixar de fazer. Falar de «grande sentido de responsabilidade» nesta altura do campeonato é, por isso, gozar com o pagode.

26 de junho de 2012

COISAS ESTRANHAS. O jogo entre a Croácia e a Espanha ficou marcado por duas grandes penalidades não assinaladas a favor da primeira que poderiam ditar o afastamento da segunda. Como não bastasse, o presidente da UEFA veio dizer que gostaria de ver uma final entre a Espanha e a Alemanha, e talvez por isso o responsável pelos árbitros colocou o português Pedro Proença na lista dos candidatos a apitar a final, como se Portugal já estivesse arredado do jogo do título. Mas há mais: se o critério fosse a qualidade do trabalho até agora efectuado, o árbitro escolhido para o jogo de Portugal com a Espanha (até agora o protagonista do pior desempenho neste Europeu) já devia ter pendurado o apito. Verdade que o presidente da UEFA também queria o Barcelona e o Real na final da Liga dos Campeões, e nem por isso assim sucedeu. Mas também é bom não esquecer o célebre dito de Cervantes: «Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.»

22 de junho de 2012

UM FILME DEMASIADO VISTO. «É condição essencial para fazer um julgamento imparcial ser independente das partes em conflito», escreveu, há pouco, Vítor Malheiros. Porque «não se pode ser juiz em causa própria ou próxima», acrescentou, suponho que para o caso de alguém se esquecer de tamanha evidência. Mas acontece que as regras, a serem observadas, impediriam meio mundo de julgar qualquer sujeito importante. Para só falar do episódio que envolveu o ministro Miguel Relvas e a ex-jornalista do Público Maria José Oliveira, quantos independentes haverá na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) que se pronunciou sobre o caso? Seria a ex-jornalista Raquel Alexandra, que se declarou amiga de Relvas, a única sem condições? Que outra coisa seria de esperar dos decisores da ERC, cinco membros do PSD e dois do PS, que não fosse decidir o que decidiram? Compreende-se que a ERC não decida com base em suposições, que não culpe ninguém sem motivos para tanto, muito menos o ministro que tutela a comunicação social. Mas há uma coisa em que a decisão não deixou quaisquer dúvidas: Maria José Oliveira mentiu quando disse ter sido ameaçada por Relvas de divulgar, na internet, factos da sua vida privada, bem como o Público e a sua directora, que denunciaram as ameaças. E também deixou claro que, segundo a doutrina adoptada, jamais a ERC demonstrará a existência de pressões de órgãos de soberania sobre a comunicação social caso venham a surgir. Não se percebe, portanto, por que razão não são estes casos tratados pelos tribunais comuns, que certamente os resolveriam mais eficazmente.

21 de junho de 2012

LAMENTÁVEL. A edição de uma revista dedicada aos estudos pessoanos é um acontecimento que se saúda. Foi pena, porém, que a nota introdutória ao primeiro número da Pessoa Pessoal tenha sido escrita em tão mau português (1), e ao abrigo do novo Acordo Ortográfico mas com inúmeras palavras do «antigo» (2). Como é evidente, não basta uma boa ideia. É preciso estar à altura dela, e o cartão-de-visita do primeiro número não cumpriu os mínimos.
(1) «Embora não haja nenhum “dia triunfal” na génese de Pessoa Plural, os diretores desta nova revista dedicada aos estudos pessoanos pensamos que a data do seu lançamento, no aniversário do nascimento poeta, assinala um novo marco no campo e por razões várias.» (...) «Ela permitirá um veículo para a divulgação de materiais inéditos recolhidos da vasta coleção de documentos do espólio, assim como a correção e revisão de outros já publicados.» (...) «A publicação tradicional, impressa, de edições críticas dos textos de Pessoa e de estudos críticos sobre eles mantêm-se absolutamente necessária.»
(2) Electrónica em vez de eletrónica, objectivos em vez de objetivos, perspectivas em vez de perspetivas, objectivos em vez de objetivos, adoptar em vez de adotar.

19 de junho de 2012

DE BESTA A BESTIAL. Como qualquer entusiasta de futebol, aprecio os dotes futebolísticos de Ronaldo, e não será preciso saber muito de bola para ver que ele é excepcional. É normal, portanto, o estatuto de que goza, e não espanta o dinheiro que ganha. Mas o estatuto e o dinheiro causam incómodo a muita gente, que logo se manifesta quando Ronaldo não tem um desempenho ao seu melhor nível. Acontece na equipa onde joga e acontece na selecção, onde foi notório um rendimento aquém do esperado até ao jogo com a Holanda. Se no clube que lhe paga por vezes se justifica, na selecção é um exagero. Esperar que Ronaldo exorcize as nossas frustrações e nos devolva o império perdido, parece-me injusto e demasiado. Aconteceu frente à Holanda, onde passou de besta a bestial, mas não surpreenderá que volte a ser besta já não no próximo jogo caso não volte a ser excepcional. Sim, continuo a achar que não temos razões para exigir a Ronaldo que não tenhamos para exigir à generalidade dos portugueses. Acho mais: por aquilo que Ronaldo já fez pelo país e por aquilo que o país tem dito dele, os portugueses não o merecem. Falo de Ronaldo enquanto profissional, que a sua vida privada não é da minha conta, nem me interessa para nada.

18 de junho de 2012

EUROPA. Diz o ditado que numa casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, mas uma Europa — ou União Europeia — onde há anos apenas se fala de economia e finanças, não tem futuro. Pior: têm sido cada vez mais os atropelos à democracia, e cada vez se vêem mais governantes (e políticos em geral) defender soluções administrativas (ou coisa que o valha) em vez de governos eleitos, na prática modelos anti-democráticos. Os eleitores cada vez pesam menos, quem tem dinheiro (ou poder, ou as duas coisas) cada vez pesa mais. Como é evidente, só pode acabar mal. A utopia da Europa vai acabar como acabaram quase todas as utopias: mal. Esperemos, ao menos, que não acabe em tragédia.

15 de junho de 2012

ESQUECIMENTOS. Conheci uma sujeita a quem tratavam por doutora que costumava exibir um cartão-de-visita onde luziam vários títulos académicos, e que terminavam com um etc. a sugerir alguns mais. Uma vez chegou a enunciá-los de viva voz durante uma palestra, e quando chegou ao etc. traduziu-o «por outros que já não me lembro». Não me espanto, por isso, que um sujeito que exerceu funções pedagógicas e executivas numa escola durante algumas décadas venha agora declarar-se convencido de que «sempre deteve a licenciatura». Afinal, há para aí licenciados que nunca foram à universidade. E não se pode exigir a ninguém que se lembre de um sítio onde nunca pôs os pés.

13 de junho de 2012

COISAS DA BOLA (2). Para não variar, as grandes competições futebolísticas que envolvem a selecção portuguesa trazem consigo a euforia para uns, e a depressão para outros. Dos primeiros, essencialmente por causa dos media, que exploram a coisa até ao insuportável e atraem até os mais distraídos; dos segundos, por causa desse mesmo excesso dos media, e porque não suportam ver os portugueses, ainda que por umas horas, trocar a vidinha pelo «ópio do povo». Falo, essencialmente, de alguns intelectuais, para quem gostar de futebol (ou da selecção, que nem sempre é a mesma coisa) lhes parece incompatível com A Montanha Mágica ou O Anel do Nibelungo. Que mal tem os portugueses vibrarem com a selecção? Que mal tem esquecer as agruras da vida por umas horas? Considero-me um mediano entusiasta de futebol, mas confesso que ainda me irritam mais a sobranceria e os comentários de alguns intelectuais que as intermináveis horas de televisão sobre nada e coisa nenhuma.
COISAS DA BOLA (1). Já repararam na quantidade de gente que, nos jornais, se transformou, de um dia para o outro, em cronista da bola? Nada contra quem precisa de ganhar a vidinha ou vender mais alguns exemplares. O problema é que, salvo excepções (não conheço, mas haverá), é puro encher linguiça, como este caso bem demonstra.

11 de junho de 2012

INIMPUTÁVEIS. Não há dúvida de que existe, em Portugal, demasiada gente que se julga inimputável, e quase sempre com razões para isso. Ele é o ex-inspector da Judiciária que se mete a fazer uma tramóia hedionda e se esquece de uma banal câmara de vigilância que tudo regista; ele é o espião que troca emails e SMS com quem não deve sobre assuntos que não pode; ele é o governante que ameaça divulgar a vida privada de uma jornalista caso a jornalista publique o que não lhe convém. Podem ser casos de mera incompetência, como já admiti, mas a verdade é que custa a crer em tanta incompetência. E a não ser incompetência, só pode ser porque esta gente vive tão lá em cima que não lhes ocorre que alguém ouse incomodá-los, muito menos que os possam, um dia, punir. Como está amplamente demonstrado, a impunidade generalizada desta gente é uma regra que praticamente não contempla excepções.