16 de março de 2013
SEGREDOS PAPAIS. Como agnóstico, a eleição de Mario Bergoglio não me aquece, nem me arrefece. Como não me aqueceria nem arrefeceria caso fosse eleito outro qualquer, incluindo os mais controversos ou suspeitos de actividades pouco recomendáveis. Mas acompanhei com natural curiosidade a sucessão de Bento XVI, sobretudo para tentar perceber o que levou Ratzinger a resignar. Depois de tudo o que foi dito até à eleição do Papa Francisco, fiquei praticamente na mesma. Continua a não distinguir-se a verdade da mentira, os factos das suposições. Veremos o que sucederá nas próximas semanas, mas suspeito que haverá importantes mudanças na cúpula da Igreja. Mudanças que Bento XVI não terá sido capaz de fazer — por incapacidade, por achar que tudo estava bem como estava. Desconfiei desde o início dos motivos invocados por Bento XVI para renunciar ao cargo (alegou incapacidade física e espiritual), e ainda estou para saber se foi um acto de coragem e tudo o mais que se disse. Devido à previsível unanimidade da Igreja em torno do novo Papa, se calhar mais aparente que real, provavelmente jamais saberei. Como agnóstico, repito, não me incomoda. Mas os segredos que a cúpula da Igreja se esforça por esconder dão azo a falsas notícias, boatos pouco abonatórios, teorias da conspiração em que as chefias são invariavelmente culpadas das piores maldades. Resumindo, provocam precisamente o contrário do que pretendem. Problema deles, dir-me-ão. Verdade, mas não aprecio ver injustamente acusada (se for o caso) uma instituição que respeito. Não gosto, aliás, de ver ninguém injustamente acusado, mesmo o pior dos inimigos, que nunca hesitei defender quando tal sucedeu.
13 de março de 2013
CRUEL DILEMA.
Bem sei que o dr. Mário Soares apelou à violência a pretexto de que ela pode ocorrer a qualquer momento, que Macário Correia não sai nem à bomba, e que Isaltino Morais foi mandado prender variadíssimas vezes mas ninguém lhe deita a unha. E, claro, habemus papam. Mas o que hoje realmente me interessa é o que me chegou da terrinha: começar por onde?
Bem sei que o dr. Mário Soares apelou à violência a pretexto de que ela pode ocorrer a qualquer momento, que Macário Correia não sai nem à bomba, e que Isaltino Morais foi mandado prender variadíssimas vezes mas ninguém lhe deita a unha. E, claro, habemus papam. Mas o que hoje realmente me interessa é o que me chegou da terrinha: começar por onde?
8 de março de 2013
PREPAREM-SE. Vem aí a receita para salvar o mundo e, quiçá, a paróquia. É, pelo menos, o que promete o Presidente, e já para amanhã. Depois de um mês sem abrir a boca, o Presidente resolveu fazer prova de vida, e de uma assentada dizer que os portugueses que se manifestaram no último sábado têm de ser ouvidos (não disse como nem por quem) e divulgar o prefácio da interessantíssima obra Roteiros VII, que reúne, segundo o próprio, «as intervenções mais significativas» por ele produzidas nos dois primeiros anos do segundo mandato. Só não o fez antes porque um chefe de Estado «sensato e responsável» deve falar pouco com os jornalistas, diz ele, especialmente quando o chefe do Governo é da sua família política, digo eu. Quem se lembra das desgraças nos tempos do engenheiro de fim-de-semana, que punham o Presidente a falar a toda a hora com os jornalistas? Pois, agora a desgraça é ainda maior — e o Presidente só abre a boca quando é espicaçado, e a contragosto. Porque um «Presidente da República que fale muito à comunicação social normalmente não tem influência nas decisões que se toma no país», diz agora, e garante saber bem do que fala. Afinal, ninguém, como ele, «foi primeiro-ministro 10 anos e acumulou com sete anos de Presidente da República», escreveu no Facebook, coisa que lhe permitiu acumular «uma informação que mais ninguém tem». Dezassete anos, portanto, a exercer o poder, sem dúvida uma experiência enriquecedora. Mas uma experiência cujo resultado, convém lembrar, contribuiu generosamente para o estado a que isto chegou.
7 de março de 2013
ESTRANHAS PREPOSIÇÕES. Ninguém do poder parece ralado com o novo Acordo Ortográfico, e se alguém tem uma opinião sobre ele ninguém sabe qual é. Não deixa, por isso, de ser curioso que a Presidência da República tenha detectado uma troca de preposições na lei que pretende limitar os mandatos, erro que poderá permitir a um autarca recandidatar-se a um novo mandato ao fim de três consecutivos. Num país onde o primeiro-ministro dá pontapés na gramática quando escreve e o seu adjunto quando abre a boca, estranha-se tanto zelo com a língua.
6 de março de 2013
AO CUIDADO DO MINISTRO RELVAS. A RTP Internacional passa a vida a transmitir programas onde se diz que o Carnaval foi ontem e o Natal é amanhã, quando na verdade o Carnaval já foi há uma semana e o Natal é daqui a um mês. O «critério» da RTP resume-se a pôr no ar a cassete mais à mão, e quando assim é por vezes a Páscoa calha no Entrudo e o Verão começa no Outono. Como não bastasse, passam dúzias de vezes os mesmos anúncios a chamar a atenção para os mesmos programas, por vezes no espaço de poucos minutos, esgotando a paciência a um santo. Onde está, já agora, o Conselho das Comunidades, e o que pensará ele sobre o assunto? Aliás, tirando as excursões à terrinha (pagas pelo erário público, está bom de ver), onde os conselheiros de vez em quando se juntam para discutir o sexo dos anjos e matérias afins (de que obviamente nada resulta em benefício de quem representam), não se sabe o que pensam os srs. conselheiros sobre este e outros assuntos, se é que pensam alguma coisa. Desconfio, aliás, que o Conselho das Comunidades é um caso de morte que se esqueceram de anunciar.
1 de março de 2013
MOURINHO. Além das qualidades que se lhe reconhecem, Mourinho é um maná para o jornalismo, e não só desportivo. Não há dia em que não seja notícia, pelas melhores e piores razões. Geralmente dão conta de polémicas, reais ou inventadas, públicas ou privadas, que os media apreciam polémicas, e os adversários aproveitam para daí tirar partido. Verdade que Mourinho se excede com frequência, às vezes sem motivo aparente. Mas começo a dar-lhe razão quando ele disse, não me lembro onde nem a que propósito, que a humildade era um defeito (foi assim mesmo que a definiu) que ele, felizmente, não tinha. De facto, a humildade na actividade que desenvolve só atrapalha, e fosse ele humilde e não teria o currículo que se lhe conhece. Agora é o Real, ontem foi o Inter, anteontem o Chelsea, amanhã outro qualquer — mas tudo indica que nada fará diminuir o interesse dos media por tão rentável filão. Nada de novo ao fim de três dias? Inventa-se. Vai para o PSG ou Manchester por incontáveis milhões, regressa a Milão onde será recebido de braços abertos, embolsará uma indemnização astronómica e depois irá caçar gambozinos. Como é evidente, qualquer uma destas «notícias» é verosímil, mesmo completamente inventada. Mourinho queixou-se, há pouco, de ser um desastre a lidar com os media, deixando implícito na queixa que o aparente defeito lhe sai caro. Sinceramente, duvido. Como o próprio já disse variadíssimas vezes, o confronto com o próximo adversário começa na conferência de imprensa imediatamente antes do jogo, embora a mim me pareça que comece antes. Mourinho conhece como ninguém o mundo em que se move, incluindo o mundo dos media, o que lhe permite tirar vantagem das virtudes e defeitos, e consequentemente levar a água ao seu moinho. Se por vezes as coisas não lhe correm como deseja, globalmente não me parece que tenha grandes razões de queixa. Antes pelo contrário.
26 de fevereiro de 2013
FALHANÇOS E ALDRABICES. Percebe-se que os falhanços aconteçam, que o diagnóstico e a receita não encaixem com os resultados, mesmo depois de nos terem vendido como inevitáveis e infalíveis. Mas o que se percebe cada vez menos é que os governantes não assumam as falhas, e não expliquem aos portugueses por que não ocorreu o milagre que lhes prometeram. Os governantes anunciam diariamente medidas de austeridade que significam o falhanço das anteriores — mas nada justificam, nada argumentam, nada dizem. Julgam não ter obrigação de explicar nada a ninguém, e quando condescendem a explicar deliberadamente confundem (nos melhores casos), ou aldrabam. Não me revejo no modo como os protestos têm vindo a ocorrer, sei muito bem de onde vêm e o que pretendem, e duvido da sua eficácia. Mas não há dúvida de que os governantes, e políticos em geral, precisam de ser confrontados com a realidade, e a realidade tem forçosamente que passar por não mentir a quem os elegeu. Os portugueses estão fartos de malabarismos, de quem lhes mente sistematicamente. Que a cantoria com que estão a ser recebidos um pouco por todo o lado lhes sirva, ao menos, de aviso para o que pode vir a seguir.
22 de fevereiro de 2013
SEM FACTURINHA. Leio que os consumidores são obrigados, desde Janeiro, a pedir facturinha da bica sob pena de serem multados entre 75 e 2000 euros caso não o façam, e estremeço de emoção com o zelo com que o Estado vela por nós. Entretanto, passam-se coisas inacreditáveis. Por que será que os consulados portugueses, pelo menos alguns consulados portugueses nos EUA, só passam facturas pelos serviços prestados caso os utentes as reclamem, e, se as reclamam, as passam a contragosto? Por que será que os mesmos consulados só aceitam como pagamento dinheiro vivo (repito: dinheiro vivo), mesmo que se trate de valores que atingem as centenas de dólares? Alguém faz o favor de me explicar por que não se pode pagar utilizando os métodos correntes (cartões de crédito ou de débito, cheques, etc.)? E, já agora, para onde vai o dinheiro? Entrará ele, como se espera, na contabilidade, digamos, oficial? Se a ideia é criar uma espécie de saco azul destinado a ensinar boas maneiras à gente que lá trabalha, de modo a ter mais respeito pelos utentes, nada a opor. Mas, nesse caso, avisem, que eu também contribuo.
20 de fevereiro de 2013
15 de fevereiro de 2013
POLÍTICOS. É evidente que os políticos não são todos incompetentes, corruptos e aldrabões, embora os haja em demasia. Mas os políticos honestos e capazes não precisam de nos lembrar a toda a hora que o são, e de se escandalizarem sempre que os colocam, a todos, no mesmo saco. Os políticos honestos e capazes precisam, sim, de denunciar os incompetentes, os corruptos e os aldrabões, um dever que simultaneamente lhes salienta a honestidade e a competência. Será distracção minha, mas não os tenho visto, sobre este assunto, mexer uma palha. Outra coisa que se nota bastante: apesar de cada vez pior vistos pela generalidade dos cidadãos, apesar de estarem cada vez mais sujeitos aos piores nomes, apesar de tantas vezes serem injustamente acusados de maldades que não cometeram, a verdade é que a chamada vida política continua a ser uma actividade apetecível e com enorme procura. Porque, lá está, os honestos e capazes não fazem o que devem, e porque os maus geralmente ficam impunes. Dito de outra maneira, porque a desonestidade e a incompetência geralmente compensam. Não surpreende, por isso, que um estudo recente revele que 96% dos portugueses não confiam na classe política. Surpresa é haver 4% que acredita nela.
14 de fevereiro de 2013
A MENTIRA DA RTP. Quem acredita que a RTP aumentará as audiências e, simultaneamente, a qualidade do que transmite? Quem acredita que, deixando de transmitir programação dirigida ao grande auditório (concursos, novelas, nacional-cançonetismo, futebol), substituindo-os por programas culturais (digamos assim para simplificar), as audiências subirão? A avaliar pelo que disse à própria RTP, o actual presidente acredita. Alberto da Ponte afirmou, preto no branco, que os dois canais públicos têm de ter 22% de audiência global em finais de 2014 (no dia da entrevista tinham 16%). Ao contrário de muita gente, que parece não ter dúvidas sobre tão complexa matéria, não sei o que é — ou deve ser — um serviço público de televisão. Há, no entanto, uma coisa que julgo saber: um serviço público de televisão minimamente decente apenas seria visto pela maioria dos cidadãos caso houvesse uma só televisão. Como não é assim, se a actual programação da RTP mudar de rumo, a maioria dos telespectadores mudar-se-á para a concorrência, que não deixará de explorar o filão. Também me parece que os canais públicos não devem operar com a mesma lógica da concorrência, e o pouco que vejo da programação dirigida ao grande auditório é de fugir. Mas então haja coragem para assumir as consequências — e os custos — que isso comportará.
12 de fevereiro de 2013
UNANIMIDADE BURRA. Se é verdade que Bento XVI está muito debilitado fisicamente, como todos admitem, porquê a surpresa da resignação? Será assim tão surpreendente que alguém renuncie a um cargo por se sentir incapaz de exercer com o grau de exigência que entende necessário? Outra coisa que não percebo na unanimidade dos comentários, a começar pelos responsáveis da Igreja Católica, alguns deles próximos do Papa: se Bento XVI mostrou coragem, lucidez e humildade, quer isso dizer que o seu antecessor, que também terá ponderado resignar, não foi corajoso, lúcido e humilde? E se Ratzinger resignou por estar farto dos intermináveis — e desgastantes — problemas internos, que se sente incapaz de resolver? Será assim tão improvável um cenário destes? Como dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra. E esta em volta de Bento XVI não me parece excepção.
O DESERTO. Pela enésima vez, o professor Carlos Reis saiu em defesa do novo Acordo Ortográfico (ver última edição do Expresso). Pela enésima vez, não apresentou um único (repito: um único) argumento. Têm sido assim todos quantos, desde o início, defendem o Acordo: zero argumentos, e quando os têm não passam de abstracções que, espremidas, não dão uma gota. O mínimo que se espera de quem defende uma ideia é que apresente argumentos, de preferência muitos e bons. Quem é contra o Acordo tem-nos apresentado às dúzias, quase todos pertinentes, sempre fundamentados, e com exemplos para todos os gostos. Já os defensores do dito, nem um para amostra. Tirando que é crucial para a «afirmação internacional da língua portuguesa», como ainda há pouco lembrou Jorge Miranda (sem que alguma vez se tenha explicado o que isso significa), é o deserto total. Será abusivo deduzir que não os têm?
8 de fevereiro de 2013
HERÓIS E VILÕES (2). Vi com interesse a entrevista do novo secretário de Estado do Empreendedorismo à RTP e retive, essencialmente, duas coisas: Franquelim Alves não informou o Banco de Portugal (BdP) das aldrabices porque não teria, na altura, dados substantivos que as comprovassem; depois assinou as contas do Banco Português de Negócios (BPN) apesar de lhes ter detectado irregularidades, a pretexto de que o fez depois de chamar a atenção para as irregularidades, e de que se não o fizesse seria o colapso do BPN e de todo o sistema financeiro. Temos, assim que Franquelim Alves assinou as contas assumidamente aldrabadas (de que não deu conhecimento ao BdP, apesar de aqui já haver substância) por razões patrióticas. Leram bem: razões patrióticas. Como dizia o ministro da Economia, o país devia agradecer ao seu novo secretário de Estado por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Eu bem disse que isto ainda vai acabar em homenagem.
7 de fevereiro de 2013
HERÓIS E VILÕES (1). O ministro da Economia tentou transformar o seu novo secretário de Estado num herói a quem o país devia agradecer por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Fez mais: invocou, em defesa de Franquelim Alves, factos que não são verdadeiros, quero acreditar que por mera ignorância, embora isso me sirva de pouco consolo. Quando os factos amplamente conhecidos apontam em sentido contrário, o ministro faz de conta que não ouve e não vê, e ainda tem o desplante de nos vir com a estapafúrdia ideia de que o cavalheiro está a ser vítima de linchamento na praça pública. Só falta ao ministro propor uma homenagem ao dito, naturalmente por relevantes serviços prestados à pátria. Infelizmente, não brinco. A impunidade e a desvergonha chegou a tal ponto que casos como este começam a ser corriqueiros, a que já ninguém liga. E isso, como é óbvio, é meio caminho para se tornarem ainda piores.
5 de fevereiro de 2013
GOZAR COM O PAGODE. Como se diz da mulher de César, não basta ser sério. E convenhamos que o novo secretário de Estado do Empreendedorismo deixa algumas dúvidas a esse respeito. Franquelim Alves pode ter um trajecto imaculado como ex-administrador da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), proprietária do Banco Português de Negócios (BPN), como agora reclama (há quatro anos admitiu ter aprovado irregularidades), mas camuflar a sua passagem por tão malcheirosa coisa não pode deixar de ser visto como um expediente de quem tem algo a esconder. Não basta, portanto, dizer que o novo governante não é arguido nem alvo de investigação, como diz o ministro da Economia, ou o visado jurar que sempre pautou a sua conduta pelo rigor e exigência (já vimos que não foi bem assim). É por demais evidente que o Governo fez mal ao nomeá-lo, e o Presidente fez pior ao dar-lhe posse. Mais: no estado a que o país chegou, em que são cada vez mais necessários sinais contrários ao que daqui emergiu, chega a ser uma provocação. Quem conhece a história da SLN não pode deixar de ficar perplexo quando vê um ex-administrador de uma associação criminosa ser premiado com uma secretaria de Estado. Sim, houve outros que fizeram o mesmo ou pior no caso SLN/BPN. Mas não me consta que algum deles seja governante.
1 de fevereiro de 2013
AGUENTEM, PARTE DOIS. O famoso «Ai aguenta, aguenta» proferido por Fernando Ulrich há três meses, pretendendo dizer que os portugueses ainda aguentariam mais austeridade, foi, segundo o próprio, descontextualizado. Resolveu, por isso, explicar melhor o que então quiz dizer. E o que disse ele agora para esclarecer os mal-intencionados? Comparou a situação dos portugueses aos sem-abrigo. Se os sem-abrigo aguentam a austeridade, diz ele, por que razão não haveremos nós de aguentar? Ficamos, portanto, esclarecidíssimos acerca do «aguenta». Só não percebemos por que razão o Governo resolveu emprestar 1.500 milhões ao banco a que preside quando podia ter dito «aguenta». Empréstimo, já agora, sem o qual o BPI não teria alcançado os 249 milhões de lucro que anuncia, que naturalmente serão repartidos pelos seus accionistas e de que o Governo, que administra o nosso dinheiro, não verá um centavo.
30 de janeiro de 2013
E OS ADVOGADOS, SR. BASTONÁRIO? O bastonário dos Advogados falou e disse: há, em Portugal, «demasiadas violações dos direitos dos cidadãos» e dos «direitos humanos». Disse mais: fazem-se alterações de «leis essenciais ao funcionamento da Justiça» com a finalidade de «conquistar popularidade fácil». «Políticos sequiosos de popularidade fácil, jornalistas moralmente corrompidos, polícias fundamentalistas, magistrados indignos da sua função - todos convergem para gerar o ambiente social que exige sempre penas mais pesadas, medidas de coação mais duras», prosseguiu Marinho Pinto. E disse ainda: há interrogatórios policiais sem a presença de advogados, abundância de «fundamentalismo justiceiro de muitos magistrados e polícias», e «leis grosseiramente inconstitucionais». Sobre os advogados, co-responsáveis pelo retrato que faz da justiça em Portugal (basta ver a quantidade de advogados sentados na Assembleia da República a fazerem as tais leis essenciais), nem uma palavra. Bem prega frei Tomás.
VOLTA NA TUMBA. Li com atenção os motivos invocadas pela família para a reedição, esta semana, da correspondência entre Eça de Queirós e a mulher, mas não fiquei convencido. A coisa destina-se a rebater a tese de João Gaspar Simões, segundo a qual o escritor terá feito um «casamento de conveniência» e sido um pai pouco afectuoso? Porque não terá, segundo os filhos, sido assim? A ser verdade o que dizem, que importância terão esses factos na obra de Eça? Admitindo que o pai não teve, ao escrevê-las, «a mais leve suspeita que olhos curiosos devassariam o que fora escrito apenas para uns olhos» (os da esposa), como admitem, não estarão os filhos, organizadores do volume, a desrespeitar um desejo do pai? Quem tinha dúvidas sobre estes assuntos irá, depois do livro, continuar a tê-las, e não vejo que Eça de Queiroz entre os seus, agora reeditado pela Caminho, acrescente uma vírgula à obra. Ou era outra a ideia?
28 de janeiro de 2013
ORA CONVERTAM LÁ. Miguel Sousa Tavares defendeu, no Expresso, que os sábios que cozinharam o Acordo Ortográfico deviam aparecer em público com a cara pintada de preto e pedir desculpas, e dar-lhes-ia como castigo a conversão à nova ortografia do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Por uma vez concordo com o Miguel, e o castigo parece-me justíssimo. Para quem não sabe do que está a falar, eis o primeiro parágrafo do Grande Sertão: « — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.» Ora digam lá que não ficava uma maravilha.
25 de janeiro de 2013
MENTIRA ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO. Há uma coisa que todos já perceberam na malcheirosa história do doping no ciclismo: se os principais protagonistas contarem «tudo o que sabem», como alguns ameaçam, o ciclismo profissional, pelo menos o ciclismo profissional tal como o conhecemos, vai ter que começar do zero. Alguém duvida que existam muitíssimos mais ciclistas de primeiríssimo plano (para já não falar dos outros) que consomem, há anos, substâncias proibidas destinadas a aumentar a performance? Com, ou sem, o conhecimento das autoridades, nacionais e internacionais, também elas cada vez mais suspeitas? Se alguém tem dúvidas, os próximos meses encarregar-se-ão de as desfazer. É por isso que já aqui defendi a legalização do doping no ciclismo, que estendo a outras modalidades, que o doping sempre existiu, antes e depois de ser proibido. Por mais sofisticados que se tornem os mecanismos para o detectar, haverá sempre mecanismos ainda mais sofisticados para o esconder. O consumo de substâncias proibidas adquiriu tal dimensão que a suspeição é generalizada, criando a ideia de que todos se dopam até prova em contrário. Poderá ser um exagero, em alguns casos uma injustiça, mas a verdade é que são tantos os casos que se conhecem e/ou se suspeita que se torna difícil pensar doutro modo.
24 de janeiro de 2013
ESTÁ TUDO DOIDO. O presidente do Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida propôs ao Ministério da Saúde, em Setembro do ano passado, uma receita para reduzir o que considerou um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. «Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?», questionou, então, o sujeito. Ontem, o ministro japonês das Finanças defendeu que os doentes idosos deviam morrer o mais depressa possível, pois os tratamentos de que geralmente necessitam representam uma «carga financeira» muito elevada para o país. Hoje ficamos a saber que um tribunal português decidiu retirar sete filhos a uma mãe e disponibilizá-los para adopção, alegando o juiz que a mãe não arranjou emprego nem laqueou as trompas, como terá sido acordado com a Segurança Social. Outros casos haverá que não chegaram aos media, mas estes sobejam para constatar uma evidência: a obsessão pela economia e finanças dos «políticos modernos» tornou-se de tal movo perigosa que convém estar atento. Sim, é preciso ter cuidado com esta gente, que tudo reduz a contabilidade e para quem as pessoas não contam.
LEVIANO PINTO. Seguramente que o bastonário dos Advogados conhece os meandros da justiça melhor que qualquer cidadão, mas é evidente que não são apenas os juízes e os tribunais os responsáveis pelos males da justiça, como defendeu num congresso. Os advogados e o seu bastonário são co-responsáveis pelo seu mau funcionamento, e o próprio Marinho Pinto, tantas vezes louvado pelo desassombro com que diz algumas verdades, contribui mais para agravar os problemas que para os resolver. Se a ideia é melhorar o funcionamento da justiça, seria bom começar por admitir erros próprios antes de apontar os alheios.
22 de janeiro de 2013
SIMPLIFICAR COMPLICANDO (2). O extraordinário «negócio» do Acordo Ortográfico não pára de surpreender. Segundo a professora Maria Regina Rocha, a coisa, que pretendia unificar a grafia dos povos que falam a mesma língua, acabou por aumentar, e muito, as variantes usadas nos diversos países. Contas por alto, o novo Acordo acrescentou seis centenas e meia de palavras, que passaram a escrever-se de forma diferente. Estão à espera de quê para suspender a aberração, como já fez o Brasil e Angola? Aliás, a ser verdade o que diz Vasco Graça Moura (e não há razão para duvidar), nem é preciso suspendê-lo, que por não ter sido ratificado por todas as partes nem chegou a entrar em vigor. E como não entrou em vigor, vigora, como é óbvio, o anterior. Alguma dúvida?
SIMPLIFICAR COMPLICANDO (1). À medida que se vão conhecendo mais exemplos, não há dúvida de que o professor Malaca e seus colaboradores, e depois os srs. deputados, pariram um monstro. Alguns exemplos de substituições previstas no novo Acordo Ortográfico enviados ao ministro da Educação por um conjunto de personalidades que contesta a nova ortografia: pato por pacto; impato por impacto; reto por repto; intato por intacto; adeto por adepto; oção por opção; invita por invicta; convito por convicto; inteletual por intelectual; compato por compacto, seção por secção; fição por ficção; fitício por fictício. Bonito, não é?
18 de janeiro de 2013
EMIGREM, EMIGREM. O primeiro-ministro negou, em Paris, que alguma vez tenha aconselhado os portugueses a emigrar. Negou mais: «ninguém» do seu Governo alguma vez «aconselhou os portugueses a emigrar». Acontece que os factos demonstram o contrário. O primeiro-ministro sugeriu, em finais de 2011, que os professores desempregados emigrassem para os países que deles necessitassem, e até apontou Angola e Brasil como possíveis destinos. Também o secretário de Estado da Juventude do seu Governo aconselhou, uns meses antes, os jovens desempregados a emigrar. Há um mês, o secretário de Estado das Comunidades anunciou, em São Paulo, ainda haver espaço de emigração para o Brasil. Disse mais: «O momento do Brasil é de demanda de quadros preparados», e segundo ele Portugal tem-nos em qualquer área. Reparem bem: os portugueses mais qualificados, que tanto custaram ao país a formar. Valerá a pena dizer que num país a sério o discurso do Governo seria prometer aos seus concidadãos tudo fazer para evitar que emigrem?
16 de janeiro de 2013
MASSACRES EM ANGOLA. João Brandão Ferreira deu à estampa, no Público, uma prosa indignadíssima sobre uma peça publicada naquele mesmo jornal onde foi dito, citando um relatório de um militar português, que o Exército português participou numa «acção punitiva» em Angola de que resultaram «terroristas» decapitados. Segundo o sujeito, que se intitula «oficial piloto-aviador e português com vergonha na cara», a tropa portuguesa teve motivos, que depois passou a explicar. Acontece que Brandão Ferreira afirma a determinado ponto: «Não tenho qualquer dúvida que o relatório aludido é verdadeiro e que o caso relatado não foi o único que ocorreu.» Vai mais longe: «Não foi a única vez que se cortaram cabeças aos bandidos que nos retalharam a carne e os haveres», e no caso que tanto o indignou até diz que «se justificou». Ora, João Brandão acha que o relatório não devia ser notícia? O facto de a «corja de assassinos» (como ele designa as vítimas da «acção punitiva») terem feito mil vezes pior aos nossos justifica que também o façamos a eles? Ou apenas sugere que se escondam estas vergonhas? Fui ler o artigo que tanto o incomodou e não vi, ao contrário do que sugeriu, a opinião das «moças jornalistas» a fazerem-se «de virgens ofendidas». Se li bem, as jornalistas limitaram-se a transcrever o documento e a citar, a propósito, variadíssimas fontes, que tiveram o cuidado de isolar (e contextualizar) o incidente, tornando-o, eventualmente, menos chocante. Ao contrário do que diz, a peça do Público foi oportuna, e o jornalismo a que torce o nariz só peca por não fazer mais coisas destas. Se «todas as guerras acarretam actos de violência gratuita e inumana», como afirma, por que não admiti-los? Brandão Ferreira chama a isto um exercício de autoflagelação «sem motivo para tal», característica, segundo ele, do povo mais masoquista que conhece. Eu chamar-lhe-ia enfrentar as coisas tal como são, não como gostaríamos que fossem. Por mais que se revelem verdades que nos envergonham, que todos sabemos existir.
11 de janeiro de 2013
POR QUE NÃO EXPLICAM? Provavelmente a ajuda do Governo ao BANIF é a melhor solução para o país, ou a solução menos má, e digo-o sem qualquer ironia. Mas por que não explica o Governo aos portugueses as razões que o levaram a injectar 1100 milhões de euros no banco, tornando-se, assim, o primeiro accionista? Por que razão situações destas nunca são devidamente explicadas aos portugueses? Presumindo que decisões de teor levantam inúmeras interrogações, e se prestam a ser vistas como dar dinheiro a quem mais tem extorquindo-o a quem menos tem, por que não explica o Governo tudo muito bem explicadinho? Como julgo evidente, por uma razão simples: por mais voltas que dê, jamais o Governo demonstrará cabalmente a bondade da coisa. Até porque os portugueses já viram filmes do género, igualmente pagos pelos contribuintes, e sabem como acabaram.
9 de janeiro de 2013
PRESSÕES. Alguém me explica por que razão os juízes do Tribunal Constitucional não podem ser pressionados? Será que os digníssimos cavalheiros não estão, mais que ninguém, «blindados» contra pressões? Se não estão preparados para pressões, ou para não ceder a pressões, quem estará preparado? Acaso não somos, todos nós, pressionados diariamente? Era só o que faltava que se criasse uma espécie de muro de silêncio em volta dos senhores juízes sempre que eles têm importantes decisões a tomar. Pelo contrário, considero a pressão útil e saudável. Considero mais: as pressões obrigá-los-ão a ponderar melhor a matéria que vão decidir — logo ajudá-los-ão a decidir melhor.
7 de janeiro de 2013
HISTÓRIAS POUCO EDIFICANTES. Não sou sportinguista, e de bola pouco mais sei que o essencial. Parece-me, no entanto, que a actual situação dos «leões» não é motivo de regozijo para um só português que goste de futebol. Mas a gente olha para a actual estrutura directiva e pasma com o que vê. Vai haver uma grande mudança, prometeram os dirigentes. Só que após a entrada de Jesualdo Ferreira passou a haver declarações diárias sobre o treinador em funções, cedo se tornando evidente que a ideia do manager era criar-lhe uma situação de tal modo insustentável que só podia chegar onde hoje chegou, pois Jesualdo nunca escondeu a ambição de lhe tomar o lugar. Como ninguém quis assumir a responsabilidade logo à primeira hora, antes preferindo passar a ideia de que o Sporting ensaiava um novo modelo de gestão desportiva, os dirigentes leoninos mais não fizeram que prolongar a agonia do treinador — e, o que foi pior, desmotivá-lo, e com ele o «grupo de trabalho». O espectáculo em cena, de que hoje conhecemos o fim do primeiro acto, começou mal e acabará pior.
2 de janeiro de 2013
ESTADOS DE ALMA.
Terminei o ano a ler Factotum, de Bukowski, e comecei o novo a reler As Farpas, de Eça, agora como foram inicialmente editadas. Pelo menos duas coisas em comum entre Eça e Bukowski: pessimismo e desencanto, embora por motivos diferentes. Há dias voltei a Ficções, de Jorge Luis Borges, e a’Os Passos em Volta, de Herberto Helder, dois livros que não me canso de reler e a que hei-de voltar. Tal como hoje voltei à música de Morten Lauridsen (no vídeo), simplesmente divina.
Terminei o ano a ler Factotum, de Bukowski, e comecei o novo a reler As Farpas, de Eça, agora como foram inicialmente editadas. Pelo menos duas coisas em comum entre Eça e Bukowski: pessimismo e desencanto, embora por motivos diferentes. Há dias voltei a Ficções, de Jorge Luis Borges, e a’Os Passos em Volta, de Herberto Helder, dois livros que não me canso de reler e a que hei-de voltar. Tal como hoje voltei à música de Morten Lauridsen (no vídeo), simplesmente divina.
28 de dezembro de 2012
A BANDALHEIRA. Se é verdade o que diz Paulo Morais (há dezenas de deputados que acumulam funções parlamentares com a de administradores, directores ou consultores de empresas que fazem negócios com o Estado), por que se mantêm em funções? Estão à espera de quê as direcções partidárias para correrem com eles? Será mesmo necessário criar um regime de incompatibilidades para acabar com a bandalheira? Sim, é mesmo de bandalheira que se trata, imprópria de um país civilizado. Claro que a promiscuidade entre cargos políticos e empresariais não se fica pelos deputados, mas por algum lado se deve começar.
24 de dezembro de 2012
TIROS DE PÓLVORA SECA. Sou contra a venda de armas à população civil, mesmo nos casos em que a lei dificulta a sua aquisição, ou proíbe a venda de certos modelos (convém lembrar que a lei sobre a venda de armas nos EUA varia de estado para estado). Mas não sou ingénuo a ponto de achar que a proibição teria evitado o massacre na escola do Connecticut, ou outros massacres do género. A proibição evita acidentes, momentos de loucura, e pouco mais. Quando se planeiam massacres como o de Newtown, as armas, proibidas ou não, não são problema. Se forem proibidas, serão, quando muito, mais caras, e só por essa razão mais difíceis de obter. Como as drogas cuja venda a lei proíbe, nada impede os consumidores de as comprar e os traficantes de as vender, e tal com as armas duvido que se vendesse mais droga caso a sua venda não fosse proibida. Sou contra a venda de armas porque ter uma arma ao alcance da mão é meio caminho andado para cometer uma loucura que doutro modo não se cometeria, por causa dos acidentes (as estatísticas apresentam números preocupantes de acidentes cometidos com armas de fogo), e salvo excepções não acredito no porte de arma como método de autodefesa. Ao contrário do que ouço à maioria das pessoas, certamente na pressa de arranjar um bode expiatório e seguramente com a melhor das intenções, não conheço a receita para evitar males destes. O remédio é mais complexo do que parece, e mesmo assim não creio que algum dia venha a ser totalmente eficaz.
JORNALISTAS EM VIA DE EXTINÇÃO. Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios, anunciou que se demitirá caso a Newshold assuma o controlo da Cofina, proprietária, entre outros, do jornal onde trabalha, e que estará, juntamente com a Newshold, na corrida à compra da RTP. Porque a Newshold está envolta num manto de opacidade; porque não se conhecem os seus accionistas; porque duvida das suas intenções; e porque está em causa a liberdade de expressão. É uma decisão corajosa e uma atitude que se saúda. Mas quantos jornalistas podem, hoje em dia, dar-se a esse luxo? Sim, o que outrora seria uma decisão banal tornou-se, hoje, um luxo. Tal como para o resto dos mortais, a vida não está fácil para os jornalistas.
19 de dezembro de 2012
O CERCO. A Newshold, empresa que se diz luso-angolana, detida quase na totalidade por uma sociedade anónima com sede numa offshore do Panamá e cujos accionistas se desconhecem, assumiu ser candidata à compra (ou concessão) da RTP, ou parte da RTP. O anúncio é normal e a intenção normalíssima, mas o tom e os termos em que o fez já não me pareceram normais. A Newshold afirma que não irá desistir do negócio apesar das «afirmações de cariz xenófobo» ou das «teorias da conspiração» que por aí andam com o intuito de denegrir a empresa e seus accionistas. E nada a demoverá de prosseguir a intenção, apesar da hostilidade e da «fúria persecutória» da comunicação social portuguesa, cujas «notícias e opiniões difamatórias» pretenderão, segundo ela, a «liquidação da empresa e da honra dos seus accionistas». Ora, será isto normal? Uma empresa que pretende fazer um negócio com outra empresa ou entidade costuma fugir dos holofotes como o diabo foge da cruz, e «nos entretantos» pautar-se pela discrição. Como se viu, a Newshold fez precisamente o contrário. Alardeou aos sete ventos as suas intenções, e disparou sobre a comunicação social que (ainda) não controla. Vale a pena lembrar que a Newshold detém o Sol, 15% da Cofina (Correio da Manhã, Sábado e Jornal de Negócios), 2% da Impresa (SIC e Expresso), e está na corrida para a compra da Controlinveste (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF). Numa altura em que a comunicação social atravessa a crise que se conhece e ainda ninguém descobriu a receita para sair dela, torna-se cristalino que o objectivo dos angolanos não é o negócio pelo negócio. A ideia é controlar a comunicação social portuguesa, e com isso calar as notícias hostis ao poder angolano. Entretanto, Portugal ficará refém do poder de Luanda. Não, não é só a comunicação social. É o próprio país.
14 de dezembro de 2012
SEGREDO DE JUSTIÇA. É do interesse público saber que altas figuras do Estado estão a ser investigadas por suspeitas de irregularidades? A avaliar pelo que se diz, parece que assim é. Mas eu tenho dúvidas. Por que se exige a punição dos operadores da justiça que «bufam» para os media o que deve estar em segredo de justiça, e se louvam os media que revelam a «bufaria»? Divulgar uma informação obtida de forma criminosa não será, também, um crime? Aliás, revelar publicamente informação obtida de forma criminosa ainda é mais grave, pois só assim o crime tem efeitos práticos — além de que a informação obtida por essa via geralmente não pode ser verificável, e é pouco fiável.
13 de dezembro de 2012
MÁRTIRES DE OCASIÃO (3). Não sou grande entusiasta das teorias da conspiração, embora não ignore que as haja. Mas seria mesmo necessário afastar Nuno Santos para que a RTP, ou parte dela, possa ser vendida? O ex-director de informação impediria que o eventual negócio com os angolanos (ou outros) se concretizasse? Quem, uma vez na posse da RTP, ficaria impedido de afastar Nuno Santos do cargo ou, até, de o despedir? Por mais voltas que dê ao miolo, por menos que simpatize com o ministro que tutela a televisão pública, por mais que saiba que o cargo de director de informação se preste aos humores do governo em funções, não vejo relação entre o afastamento de Nuno Santos e a venda da RTP, muito menos motivo para «saneamento político», como Nuno Santos invoca. Sei que não é politicamente correcto dizer isto, até porque o ministro Relvas não merece que o defendam. Mas acontece que não aprecio ver os adversários apanhar pelos motivos errados. Porque isso lhe dá razões que doutro modo não teria, e porque sobram motivos para lhe bater.
11 de dezembro de 2012
MÁRTIRES DE OCASIÃO (2) . É fácil (e barato) acusar o ministro do dia de querer controlar a informação da RTP, além de ser um filme demasiado visto, cujo guião todos conhecemos. Por isso se acusam os sucessivos ministros dos sucessivos governos de intromissões indevidas, reais e imaginárias, que as acusações têm sucesso assegurado: a oposição ao Governo vem logo acusar o dito de tudo fazer para controlar a informação e afastar gente incómoda, mesmo que os factos sejam escassos e escassíssima a sua credibilidade. Repito, portanto, o que já disse sobre as imagens cedidas à PSP: por aquilo que é público, a tese da conspiração não tem pés, nem cabeça. Tudo indica que Nuno Santos geriu mal o caso, mas por razões que ele lá sabe não quer admiti-lo. Se a administração da RTP (e quem nela manda) não gostava de Nuno Santos (não me custa acreditar que assim seja), limitou-se a fazer o que se esperaria: aproveitou o erro para se livrar dele. Simplificando, se a administração da RTP empurrou Nuno Santos para a porta da rua, Nuno Santos pôs-se a jeito.
SOL E SOMBRA. Parece não haver dúvidas de que o nome de Medina Carreira surgiu indevidamente associado ao caso Monte Branco (branqueamento de capitais e fuga ao fisco), como associou, em manchete, a última edição do Sol. Assim sendo, e acreditando que o jornal se precipitou, por que mantém o semanário de José António Saraiva a notícia online tal como saiu na edição em papel? Não devia, no mínimo, fazer uma adenda, explicar aos leitores as circunstâncias que o levaram à sua publicação? Ou a ideia será mesmo que a dúvida se instale, fazer com que os leitores mais distraídos tomem os factos como verdadeiros?
7 de dezembro de 2012
5 de dezembro de 2012
MÁRTIRES DE OCASIÃO (1). Por razões conhecidas, não simpatizo com o ministro que tutela a RTP. Não me espantaria, sequer, que Miguel Relvas tenha feito os possíveis e os impossíveis para se ver livre de Nuno Santos, até há pouco director de informação da RTP, e que agora se demitiu na sequência da polémica cedência de imagens à PSP. Mas convenhamos que a versão de Nuno Santos contada à Comissão de Ética é, no mínimo, fracota, como foi sempre fracota desde o início. Miguel Relvas não gostou das reportagens sobre a fome que a RTP emitiu? Das notícias que a RTP achou por bem dar sobre a sua licenciatura? Imagino que não, mas tudo isto e o mais que Nuno Santos invoca não cola, nem esconde o essencial. E o essencial aponta para que Nuno Santos tenha autorizado o visionamento das imagens — de maneira informal, por não se ter oposto, por fazer de conta que não viu, por não se ter apercebido da gravidade da situação, por desconhecimento da lei, pelo que quer que tenha sido. Provas? Provavelmente não haverá, e daí Nuno Santos procurar transformar o episódio num «caso de saneamento político», presumivelmente comandado pelo ministro Relvas. Resta saber se a estratégia de lhe dará os frutos que deseja.
4 de dezembro de 2012
30 de novembro de 2012
A DEMOCRACIA QUE TEMOS. Ouvi não sei quem dizer que o líder de um partido político é eleito por vinte e tal mil votos, e julgo ter-se referido aos dois maiores partidos. Como é sabido, cabe aos líderes dos partidos escolher quem será candidato a deputado, e também não é segredo que o processo implica escolher quem lhes convém e rejeitar quem não lhes convém, não por razões de mérito ou falta dele, mas por lhes serem fiéis, ou não. Temos, assim, que a chamada «casa da democracia» é escolhida por meia dúzia de pessoas, que votará de acordo com a vontade dos chefes. Quem ouse votar contra eles, ou exprimir opinião diferente da deles, tem o futuro traçado: não será candidato a deputado na próxima legislatura. Somando este a outros poderes, confirma-se que Portugal é dirigido por dois ou três cavalheiros, eleitos por zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Repito: zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Os regimes democráticos não são perfeitos? É sabido que não. Mas tanta imperfeição, que a generalidade dos políticos não contesta nem mostra interesse em corrigir, ainda vai acabar mal.
28 de novembro de 2012
OUTRA VEZ O RELATIVISMO. Dizem os factos que nunca houve tantos ataques americanos a terroristas da Al-Qaeda (ou aparentados), especialmente por aviões não tripulados (mais conhecidos por «drones»), como durante o primeiro mandato de Obama. Curiosamente, raramente os media ocidentais deram conta do sucedido, e a avaliar pelo silêncio generalizado não houve danos colaterais (leia-se vítimas inocentes) ou erros grosseiros, muito menos se questionou a legitimidade de tais actos. A situação não pode deixar de passar despercebida quando comparada a idênticas operações ocorridas no tempo de George W. Bush, que os media então reportaram até à exaustão, sempre com imagens de inocentes (com aspas e sem aspas) mortos e estropiados, nomeadamente crianças, e agora com os ataques a Gaza, de que diariamente nos chegam notícias e imagens cuja credibilidade nem sempre se consegue apurar. É outra vez o relativismo, que tudo legitima quanto é feito pelos nossos, e tudo condena quando é feito pelos outros. Como se pode ver por mais este exemplo (mas podia dar muitos mais), as vítimas choraram-se quando dão jeito, e ignoram-se quando não dão.
27 de novembro de 2012
PRÉMIOS LITERÁRIOS. Nada contra os prémios literários, e até conheço bons livros e bons escritores que os receberam. Mas cada vez dou menos importância aos ditos, sobretudo aos que premeiam uma só obra. Como os best sellers, produtos geralmente a evitar, dou por mim a desconfiar dos prémios literários, todos os prémios literários, mesmo os mais prestigiados. De Valter Hugo Mãe apenas li meia dúzia de coisas dispersas por jornais. Não tenho, portanto, opinião sobre os seus livros. Mas já tenho opinião do pouco que li nos jornais, e devo dizer que pouco lisonjeira. Como se pode ver na sua crónica de estreia no Público, na forma idêntica a todas as outras que li, a prosa é intragável. A Máquina de Fazer Espanhóis, título que lhe valeu o Prémio Portugal Telecom, pode ser um bom livro, mas em literatura quem me decepciona uma vez não tem segunda oportunidade.
23 de novembro de 2012
O QUE SE PASSA? Li há pouco que o Presidente Cavaco pode estar doente, mas não cheguei a perceber se o autor da prosa falava a sério ou ironizava. Hoje, ouvindo o discurso de Cavaco na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo, pareceu-me que o prosador falava a sério. Já se sabia que o Presidente tem um sentido de humor muito peculiar, e quando se mete a ironizar a gente deita as mãos à cabeça. Mas o que ouvi hoje não me pareceu dentro da «normalidade» a que nos habituou.
21 de novembro de 2012
INDIGNADOS E DESORDEIROS. O Jornal de Angola, baluarte do jornalismo universal e provavelmente da Rua Ginga, resolveu disparar sobre a generalidade dos media portugueses e, de caminho, elogiar o regime de Eduardo dos Santos. Segundo um tal Álvaro Domingos, ao que parece um sujeito que se desdobra em prosas por variadíssimas publicações e se distingue pelo uso de variadíssimos pseudónimos (ou heterónimos, ou lá o que seja), por estes dias aconteceu em Portugal «um verdadeiro massacre sobre manifestantes indignados» e «cidadãos indefesos», que «as máfias» que dominam o jornalismo português fingem não ter acontecido. Pior: segundo ele, «os direitos humanos estão em perigo em Portugal», e Angola, na qualidade de país membro da CPLP, não pode «ficar em silêncio». É hora, pois, de «convocar todos os líderes da comunidade para avaliar a situação dos direitos humanos em Portugal», «de cerrar fileiras e exigir que Portugal respeite os direitos humanos». Depois elogia o regime que lhe dá de comer, e dá uns conselhos que Portugal deve seguir. «Angola tem sido (...) o baluarte da democracia e da liberdade na comunidade de países que falam a língua portuguesa», pelo que a polícia portuguesa teria tudo a ganhar indo a Luanda aprender como se faz com a polícia local. Dá um exemplo comovente: quando algumas dezenas de jovens, «manipulados por partidos políticos que ainda têm o cordão umbilical ligado às máfias políticas em Portugal, fizeram manifestações de rua, tudo acabou de uma forma civilizada». E acrescenta: «choveram pedras sobre os agentes da polícia e os seus carros», mas apesar do percalço «tudo se resolveu com a detenção dos desordeiros». Como terão notado, quem, em Portugal, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «manifestantes indignados»; quem, em Luanda, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «desordeiros». Como se costuma dizer nestes casos, todo um programa. Tudo isto porque a Procuradoria-Geral da República terá aberto um inquérito por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais envolvendo três altas figuras do Estado angolano (Manuel Vicente, vice-presidente de Angola e ex-director-geral da Sonangol, Hélder Vieira Dias, ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, e Leopoldino Nascimento, consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República), que obviamente dará em nada. Imaginem se desse nalguma coisa.
20 de novembro de 2012
CUIDADO COM A TROPA. Otelo Saraiva de Carvalho avisou, há duas semanas, que pode haver uma revolução popular apoiada pelas forças de segurança e pelos militares caso o Governo não recue nas medidas de austeridade, embora o eventual apoio dar-se-ia, segundo ele, apenas «para evitar um surto de violência extremo». Como estarão lembrados, Otelo alertou, há um mês, para uma revolução «latente» (que não deverá, como o 25 de Abril, ser pacífica), e para o facto de ser diariamente confrontado com «anónimos» que lhe pedem uma nova revolução, «agora sem cravos», porque os limites foram, segundo ele, «ultrapassados», e há um ano defendeu um golpe de Estado para derrubar o Governo caso os limites fossem ultrapassados. Também Vasco Lourenço considerou há pouco que o actual Governo «perdeu a legitimidade há muito tempo», e ainda há coisa de três semanas deu como inevitável uma guerra na Europa. Entretanto, os militares no activo saíram à rua em protesto contra «as malfeitorias» de que dizem ser alvo, e também eles não se inibem de fazer ameaças mais ou menos veladas ao regime e a quem nele manda. Dirão alguns que a democracia não está em causa, que a União Europeia encarregar-se-á de a repor caso as coisas corram para o torto. Aparentemente, assim será, embora uma intervenção militar destinada a repor a ordem se arrisque a aumentar a desordem — e mesmo que as coisas corram como se espera uma intervenção deste tipo não impedirá que estes e outros senhores percam, um dia, a cabeça, e desatem aos tiros. Se isso suceder, enquanto o pau vai e vem, enquanto a Europa devolve os militares aos quartéis, seguramente que uns quantos acabarão na paz dos cemitérios. Como diria Vergílio Ferreira, serão os que terão a paz verdadeira.
15 de novembro de 2012
GENERALIZAÇÕES PERIGOSAS. Tudo contra a violência, nada a favor da violência. Como se costuma dizer nestas alturas, a violência nada resolve. Mas apetece-me perguntar: e resolvem o quê as manifestações pacíficas? Não, não defendo a violência. Gostaria é que os protestos da rua, sobretudo quando traduzem o descontentamento de grande parte da população, tivessem consequências, resultassem em algo de concreto e positivo, o que está longe de acontecer. A violência nas ruas talvez seja obra de arruaceiros, de «pessoas que querem destruir a sociedade», como diz o Presidente da República, que pouco antes gracejou sobre coisas que não devia. Mas quantas pessoas, habitualmente incapazes de matar uma mosca, não se reviram na violência de ontem? Seria bom, por isso, não subestimar os incidentes, atribuí-los a meros arruaceiros, considerá-los casos isolados. É que eles podem rapidamente alastrar ao resto dos portugueses — cada vez mais espoliados, cada vez mais desesperados, cada vez mais receosos do radiante futuro que os governantes prometem mas em que já nem eles próprios, governantes, acreditam. Não defendo a complacência das autoridades com actos de violência. Pelo contrário, as autoridades devem agir com profissionalismo e determinação, como terá ocorrido ontem, embora nem todos concordem que assim tenha sido. Defendo é que os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, saibam ler os sinais, e tenham cuidado com as palavras quando falam de arruaceiros e de «pessoas que querem destruir a sociedade». Como sensatamente lembrou Seixas da Costa, talvez os confrontos de ontem possam fazer a Europa perceber que «Portugal também tem um limite para o sacrifício». Ironicamente, a concretizar-se o desejo do embaixador os confrontos serviram, afinal, para alguma coisa.
QUEM FAZ O FAVOR DE EXPLICAR? De facto, não se percebe por que razão a selecção portuguesa de futebol jogou com um adversário de terceira categoria, no quinto dos infernos. A gente olha para o calendário dos jogos particulares disputados ontem e vê a Suécia a jogar com a Inglaterra, a Holanda com a Alemanha, a Itália com a França, e quando chegamos à terrinha descobrimos Portugal a jogar com a 52ª selecção do ranking mundial. Parece que o negócio rendeu 800 mil euros à Federação, até ver a única explicação, mas que não explica coisa nenhuma. Alguém da Federação faz o favor de explicar à rapaziada a importância do jogo para os destinos da pátria?
13 de novembro de 2012
12 de novembro de 2012
O PRAVDA ANGOLANO. Será a inveja que levou as autoridades portuguesas a investigar suspeitas de vigarices cometidas por gente ligada ao Governo Eduardo dos Santos, como diz o Jornal de Angola. E as suspeitas de corrupção que recaem sobre altas figuras do Estado angolano? Têm, ou não, fundamento? Pelos vistos, isto não interessa ao Jornal de Angola. E não interessa porque o Jornal de Angola é o Pravda lá do sítio, e de um jornal do regime não se espera outra coisa que não seja bajular o regime e quem nele manda, mesmo que alguns dos mandantes sejam uns refinados patifes. Aliás, pelo apetite que o poder angolano tem demonstrado pelos jornais portugueses, não tardará que o assunto deixará de interessar aos próprios jornais portugueses.
7 de novembro de 2012
MINISTRO DAS TRAPALHADAS. À excepção dos protagonistas do incidente, ninguém sabe ao certo o que se passou entre o jornalista Nuno Ferreira e o ministro Miguel Relvas. Não se pode, portanto, tirar conclusões, visto que não há dados que nos permitam saber quem é culpado de quê. Mas se há dúvidas quanto ao episódio, uma coisa é certa: tornou-se rotina ver o ministro Relvas envolvido em trapalhadas, e se do ponto de vista legal nada haverá que se lhe possa apontar, a verdade é que cada vez sai pior na fotografia.
6 de novembro de 2012
SANDY (2). Só ao quinto dia a dona Sandy me deixou viver como habitualmente. Quase uma semana sem electricidade, sem frigorífico, sem aquecimento. Com filas para o café e para a gasolina, que ainda não terminaram. Sem internet. Com sucessivos jantares à luz das velas, cada vez menos românticos, e com noites seguidas embrulhado em cobertores a sonhar com o paraíso, um modesto interruptor capaz de acender um candeeiro, de ligar o aquecimento. E a ler Mark Twain, A Viagem dos Inocentes, com um sentido no relato e três na electricidade que não vem, na gasolina que escasseia, na temperatura que desce perigosamente. Podia ter sido pior? Podia. O meu vizinho partiu uma perna num acidente de automóvel, mas teve sorte: podia ter partido as duas. O meu vizinho caiu da varanda e partiu a cabeça e um braço, mas teve sorte: podia ter morrido. Resumindo, o meu vizinho partiu uma perna, um braço, a cabeça — e ainda deve mostrar-se agradecido pela sorte que teve.
3 de novembro de 2012
29 de outubro de 2012
TALVEZ PESSOA. Alertado para uma biografia de Fernando Pessoa de que nunca ouvira falar, numa rápida pesquisa no Google cheguei a Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. Fiquei então a saber que a obra foi editada no Brasil em 2011, e comecei por estranhar só um ano depois ouvir falar dela. Pior: as entrevistas que fui lendo e ouvindo aumentaram-me a desconfiança. Mesmo assim, resolvi arriscar. Uma vez que resido fora do país, onde os livros comprados em Portugal ou no Brasil me chegam acrescidos de portes proibitivos, optei pelo ebook. Poucos dias depois deparo com uma crítica de Teresa Rita Lopes, ao que parece respeitada investigadora de Pessoa, onde ela diz que a obra contém toda a sorte de erros factuais, alguns deles grosseiros, entre outros defeitos. Posteriormente, António Guerreiro, no Expresso, disse mais ou menos o mesmo: o livro não é credível. Perante isto, que não foi pouco, o biógrafo não tugiu, nem mugiu. Mais recentemente fico a saber que a Academia Brasileira de Letras o considerou «livro do ano» e a «mais importante biografia de Pessoa», e que foi nomeado para o Prémio Jabuti. Mesmo sabendo que o Jabuti não é um prémio qualquer, não me espanta a nomeação, nem me espantará que o ganhe. Já a decisão da Academia causou-me perplexidade, muito acrescida por não ter visto, até agora, quem se espantasse. Perante isto, sobram duas perguntas: o livro é tão mau como os entendidos garantem, ou os membros da Academia são, no mínimo, incompetentes? Como presumo que os primeiros não exageram e a Academia é uma instituição respeitável, tenho um problema. Seriam bem-vindas, portanto, novas polémicas, de modo a saber se o livro vale, ou não, a pena, se é credível, ou não. Como se trata de uma biografia, ou «quase-autobiografia», não me parece uma questão de somenos.
26 de outubro de 2012
MENTIRAS E MAIS MENTIRAS. Toda a gente que anda na política e tem pretensões a governar considera que o Estado tem de cortar na despesa. Uns de uma maneira, outros doutra, mas todos concordam no essencial: o Estado consome mais do que devia. O resultado destes «considerandos» é conhecido: a despesa não só não diminui, como continua a aumentar. Medina Carreira diz que o próximo Orçamento vai aumentar a despesa em 2.3 mil milhões de euros, e ele não costuma enganar-se nas contas. Os cortes na despesa anunciados pelo Governo são, portanto, uma falácia. Convinha que da próxima vez que os governantes (ou políticos no activo) anunciem cortes nas despesas comecem por demonstrar onde pretendem cortar, como pretendem cortar, e quanto pretendem cortar. Enquanto isso não suceder, não contarão com o meu voto. Os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, não podem ficar impunes quando não cumprem o que prometem, quando mentem descaradamente, ou quando recorrem à demagogia para nos criar falsas esperanças, de que a candidata social-democrata à presidência do Governo dos Açores, prometendo criar 15.000 empregos caso fosse eleita, é o exemplo mais recente. Em Portugal «só se ganham eleições com mentiras», diz, ainda, Medina Carreira. É uma verdade mais que demonstrada. Mas os políticos deixarão de mentir no dia em que perceberem que a mentira não compensa. Compete-nos, portanto, fazer chegar esse dia.
23 de outubro de 2012
FITEIROS. Confesso que me espanto sempre que as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa causam tanta celeuma. Espanto-me porque o professor há muito se tornou o clown do regime, passe a expressão, uma figura que os portugueses se habituaram a ouvir mas a quem dão nula importância. Bem sei que Marcelo é candidato a candidato à Presidência da República, embora eu desconfie que nunca passará disso — e honestamente considere que a última coisa que o país precisa é de um malabarista na Presidência da República. Um filme sobre os sacrifícios dos portugueses devido à política de austeridade para mostrar — e comover — a sra. Merkel? Extraordinária ideia! A sra. Merkel irá, certamente, impressionar-se. Não com certeza com os sacrifícios dos portugueses, mas com a estupidez das elites que temos.
19 de outubro de 2012
RANGEL E A BOLA (2). Como já disse, nada obstará a que o juiz Rui Rangel se candidate à presidência do Benfica, e nada o impedirá de exercer tal função caso seja eleito. Mas continuo a achar, como também já disse, que os juízes em pleno exercício de funções devem, de um modo geral, afastar-se de actividades que, não sendo incompatíveis do ponto de vista legal com a profissão que exercem, são-no claramente do ponto de vista ético. O senso comum, pelo menos a noção que eu tenho do senso comum, recomenda que um juiz no activo paute a sua actividade pelo low profile, e o presidente de um clube como o Benfica não pode dar-se a esse luxo — para já não dizer que por vezes vai ter que esquecer-se de que é juiz se quiser defender o clube a que preside, e esquecer-se do clube a que preside se quiser exercer a profissão como deve ser exercida. Pior, nas próximas eleições do Benfica, só quando José Eduardo Moniz, em directo no Telejornal, se ofereceu ao actual presidente do Benfica para «o que for necessário», sem que alguém percebesse o que o fez mudar de ideias quando ainda há pouco disse o pior de Vieira. O mundo dá muitas voltas, mas nunca pensei que se prestasse a este vexame.
17 de outubro de 2012
15 de outubro de 2012
NO PASA NADA. Das duas, uma: ou é mentira o que o Público tem dito sobre os negócios de Passos Coelho e Miguel Relvas, e nesse caso espera-se que desmintam o jornal e o processem; ou é tudo verdade, e nesse caso há um crime (ou vários), e num país a sério o primeiro-ministro já se teria demitido e o caso estaria nos tribunais. Como estamos em Portugal, onde grande parte dos políticos no activo tem, neste tipo de casos, telhados de vidro, nada sucederá. Mesmo com provas, como tudo indica que existam.
BRINCAR COM O FOGO. Terá havido um único eleitor de Berta Cabral (para já não falar dos eleitores em geral) que tenha acreditado que ela conseguiria, caso o PSD ganhasse as eleições nos Açores, criar quinze mil (repito: 15.000) novos empregos nos próximos quatro anos? Num país em que a taxa de desemprego é enorme e não pára de aumentar, onde todos os dias são conhecidos casos arrepiantes, prometer 15.000 novos empregos devia dar cadeia em caso de incumprimento.
11 de outubro de 2012
ESQUECIMENTOS SUSPEITOS. Parece que o primeiro-ministro se esqueceu de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa. Embora surpreendente (presumo que uma coisa dessas não se esquece), nada a opor, e nada o obrigará a mencionar tais factos. Acontece que a dita empresa onde Passos Coelho foi consultor e administrador, a Tecnoforma, na altura dirigida por destacados militantes da JSD (e não sei se ainda hoje), é suspeita de tratamento de favor por parte do governo de Durão Barroso, mais precisamente através da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo actual ministro Miguel Relvas. Ora, havendo suspeitas sobre a empresa de que Passos foi consultor e administrador, ao que parece nunca tão próspera como quando lá exerceu essas funções, torna-se igualmente suspeita a omissão no currículo. Segundo o Público, desde a primeira hora que Passos Coelho se disponibilizou para responder a todas as perguntas julgadas necessárias ao esclarecimento do caso. Fez bem, mas não chega. Conhecidos os factos sobre a dita empresa, que levantam suspeitas que não param de crescer, a omissão no currículo não pode deixar de ser vista como tentativa de branquear um passado porventura incómodo. Mas como falamos de Portugal, país de brandos costumes, a coisa ficar-se-á pelas suspeitas.
RANGEL E A BOLA (1). Consta que o juiz Rui Rangel pondera candidatar-se à presidência do Benfica. É um direito que lhe assiste, e nada obstará a que isso se concretize. Custa-me, porém, imaginar um juiz no activo a comentar as vicissitudes da bola — os erros da arbitragem, o ambiente do balneário, para já não falar dos nebulosos negócios de compra e venda de jogadores. Não deviam os juízes no activo dedicar-se a actividades mais recatadas?
AGONIA NO PÚBLICO. A administração e a Direcção Editorial do Público entenderam necessário despedir 48 trabalhadores, por considerarem que só assim será possível reduzir custos de modo a viabilizar o jornal. O futuro dirá se a medida foi necessária — e será, ou não, bem-sucedida. Mas a reacção da Comissão de Trabalhadores e do Conselho de Redacção do jornal, que rejeitaram liminarmente as medidas e propõem ir para a greve, só aponta uma solução: o fim do Público. Espero — e desejo — que me engane, que apesar de há muito deixar de ser o que era o Público faz falta. (Ver, a propósito, este link.)
28 de setembro de 2012
ÉTICA DE CASA DE BANHO. «Vivemos numa sociedade em que (...) não é possível em termos de cuidados de saúde todos terem acesso a tudo. Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?» Não, não foi um ditadorzeco quem disse isto. Foi o presidente de uma organização que dá pelo nome de Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida, que propôs ao Ministério da Saúde como receita para reduzir o que considera um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. Ninguém se admire, portanto, que a seguir proponham eliminar cirurgias cardíacas em anciãos de 90 e mais anos, que previsivelmente não vão durar muito mais tempo depois disso, e a cirurgias são, como se sabe, caríssimas.
INIMIGOS DA DEMOCRACIA. Francisco Assis escreveu, no Público, que publicações como o Jornal de Notícias e Correio da Manhã «constituem verdadeiros inimigos da democracia». Porque as «actuais linhas editoriais» dessas duas publicações apelam «às piores pulsões populares», que só contribuem «para a degradação de um espaço público que é indispensável para a afirmação de um verdadeiro debate democrático». Devo dizer que aprecio os políticos que enfrentam a comunicação social, e não me refiro aos que o fazem para se defenderem de alguma acusação. Aprecio porque é mais fácil não o fazer, e há muito se demonstrou não ser boa política atacar os media. Dito isto, Assis bem podia, sobre o caso a que se refere, acrescentar mais alguns. Podia, por exemplo, acrescentar o próprio jornal onde escreve, a SIC e a RTP.
27 de setembro de 2012
ENTRE O MAU E O PÉSSIMO. O mais engraçado nesta história de Romney, pelos vistos falsa, foi o modo como a generalidade dos cidadãos, conservadores ou liberais, republicanos ou democráticos, facilmente a tomou por verdadeira. Os americanos já se habituaram de tal modo às gaffes (chamemos-lhe gaffes para simplificar) de Romney que se o candidato republicano amanhã disser que a terra é quadrada já não estranham, nem sorriem. Depois de num jantar de angariação de fundos considerar que mais de metade dos americanos foge aos impostos e vive à custa do Estado, entre outras pérolas do mesmo quilate, já nada espanta em Romney. É por estas e por outras que me preparo, como há quatro anos, para votar Obama, então porque Obama me pareceu o menos mau, agora porque um é mau e o outro péssimo.
24 de setembro de 2012
DEMAGOGIA. A ministra da Agricultura resolveu cortar uvas no Douro como forma de mostrar, disse ela, que está atenta às dificuldades que afectam a viticultura duriense. Admito que possa estar enganado, mas se isto não é demagogia, então não sei o que é demagogia. Aliás, não é a primeira vez que a ministra se mete em exercícios demagógicos. Para quem, como ela, se meteu na política há dois dias, pelo menos na política partidária, convenhamos que aprendeu depressa o pior que há na política.
21 de setembro de 2012
ESPECIALISTAS E OUTROS MALABARISTAS. Como não se espera que o Governo nos venha explicar os motivos que o levaram a contratar 29 colaboradores com menos de 30 anos (o mais novo parece que tem 24), por que não exige a oposição que o Governo as explique? Afinal, se o Governo tem deveres nesta matéria, a oposição também os tem. Aliás, é mais estranha a mudez da oposição que a do Governo. Se ao Governo não convém explicar o que se adivinha difícil de explicar, já a oposição teria oportunidade de prestar um serviço ao país, e de caminho conquistar mais uns adeptos para a sua causa. Como não o fez, e se adivinha que não o fará, só pode ser por uma razão: a oposição, nomeadamente a que já foi Governo, não pode denunciar pecados que também cometeu.
20 de setembro de 2012
BEM PREGA FREI TOMÁS. Por falar em coerência, onde está a do João Gonçalves, que se fartou de dizer cobras e lagartos de quem, agora, instalado no gabinete de Miguel Relvas (olhem só quem havia de lhe calhar), já só lhe falta deitar-se no chão para que lhe passem por cima?
PÓLVORA SECA. Prestei escassa atenção à entrevista do líder do PS à RTP, mas lembro-me de lhe perguntarem quanto podia o Governo arrecadar com um imposto sobre as Parcerias Público-Privadas (PPPs), por ele mesmo proposto como alternativa às medidas anunciadas pelo primeiro-ministro (subida de 7% na contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores por conta de outrem e descida de 5.25% da taxa social única das empresas), e Seguro responder que os números ainda estão a ser estudados pelos técnicos. Ora, se assim é, como pode ele dizer que o tal imposto sobre as PPPs poderia ser uma alternativa?
18 de setembro de 2012
FIM DE SEMANA. Passei o fim de semana afastado das notícias, que adivinhei piores à medida que o tempo passava, e aproveitei-o para concluir The Road to Oxiana, que iniciei há um par de anos e só agora decidi terminar. Retomo as notícias, as frescas e as outras, e confirmo que assim foi. As de hoje são piores que as de ontem, que já eram piores que as de anteontem. Pior: não se vislumbram melhores notícias para os próximos dias, talvez para os próximos anos. Não fossem as contas a pagar, e passar-me-ia a ocupar exclusivamente do que me interessa, duas ou três coisas sem importância para a generalidade das pessoas mas para mim essenciais.
14 de setembro de 2012
DA OPOSIÇÃO. Que a oposição, toda a oposição, seja contra tudo o que o Governo faz ou deixa de fazer, mesmo as coisas boas, entende-se. Afinal, o papel da oposição nos tempos que correm é opor-se ao Governo, não com a ideia que o Governo faça melhor (ou o que lhe parece melhor), mas com o único propósito de correr com o Governo para lhe tomar o lugar. Mas quando a oposição cresce de dia para dia dentro dos próprios partidos que integram o Governo, como está a acontecer, a coisa ganha outra dimensão. Verdade que os críticos mais destacados que integram os partidos no poder têm contas a ajustar com o líder, mas nem por isso torna menos contundentes as suas críticas. Têm, além disso, a particularidade de passar a ideia de que a família está de tal modo desavinda que já nem consegue disfarçar o mal-estar. Infelizmente, a generalidade dos críticos da família não tem, como a restante oposição, alternativas concretas, e tratando-se de gente que vive da política e para a política, convenhamos que é confrangedor. Quero imaginar que não há alternativas eficazes às actuais medidas governamentais, embora isso não me sirva de consolo. Quem vive da política tem obrigação de fazer mais e melhor. Se discorda das medidas governamentais, faça favor de apresentar alternativas concretas. É esse, afinal, o seu trabalho, e o mínimo que dele se espera.
13 de setembro de 2012
RTP (2). Como já disse e repeti, não tenho uma posição definitiva sobre o futuro da RTP. Parece-me, no entanto, que os funcionários da dita deveriam ser os últimos a manifestar-se sobre o futuro da empresa. Porque têm interesses directos na matéria, e naturalmente isso retira-lhes o distanciamento necessário para se pronunciarem com isenção e seriedade sobre o futuro da dita.
RTP (1). A comissão de trabalhadores da RTP revelou que o primeiro-ministro exigiu que a entrevista hoje concedida à televisão pública fosse em São Bento em vez dos habituais estúdios da empresa, porque assim o primeiro-ministro evitou, segundo eles, encarar «cara-a-cara os trabalhadores de uma empresa que o Governo está em vias de destruir». Revelou mais a comissão de trabalhadores: a entrevista em São Bento representou um gasto «injustificável» de milhares de euros. Ora, face a este cenário, por que não recusou a RTP fazer a entrevista nos moldes exigidos? Alguma lei a obriga a entrevistar o primeiro-ministro?
11 de setembro de 2012
BIZARRIAS. Há coisas difíceis de entender no sistema penal português. Por exemplo, um suspeito de cometer um crime pode ser obrigado a aguardar julgamento em prisão preventiva, e apesar de alguns excessos que terão sido cometidos ao abrigo deste instrumento, o princípio parece-me justo. Já um condenado a prisão efectiva pode aguardar em liberdade até que seja conhecida a decisão de uma segunda instância caso para aí decida recorrer. Resumindo, a justiça é mais lesta a punir um suspeito (metendo-o na prisão) que um condenado (deixando-a à solta).
7 de setembro de 2012
CORRUPÇÃO. Paulo Morais não se tem cansado de denunciar a corrupção. E tem-no feito de modo assinalável: apresenta casos concretos que envolvem pessoas concretas, perante os quais um mínimo de boa vontade bastaria para os levar a tribunal, e uma vez lá facilmente punidos. Como é sabido, não é assim. Apesar das evidências, nada se fez, nada se faz, nada se fará. A justiça funciona exemplarmente para o pé descalço — no caso, evidentemente, de o pé descalço meter a pata na poça, que se for para reclamar um direito ou defender-se de alguém poderoso o caso muda de figura. Sempre que se trata de gente importante, a justiça ou não funciona, ou funciona mal. Tem razão a procuradora-geral adjunta quando diz que «o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos». Afinal, para haver casos de corrupção é preciso que alguém avance contra alguém com processos de corrupção. Como não há, e os poucos que há geralmente acabam em nada, a corrupção passa por ser um fenómeno isolado. É pena que Cândida Almeida pareça mais interessada em questões formais que em questões de facto. Os níveis de corrupção em Portugal não param de aumentar, e julgo desnecessários estudos para o demonstrar. A começar, justamente, pelos nossos políticos, cujos casos em que se suspeita de enriquecimento ilícito são cada vez mais numerosos.
5 de setembro de 2012
MAIS MENTIRAS. Ao contrário do que Miguel Sousa Tavares defendeu no Expresso em mais um exercício de falta de seriedade, a desregulamentação dos mercados não começou com George W. Bush. Qualquer pesquisa no Google bastará para o demonstrar, pelo que me dispenso de o fazer. Não que me incomodem as opiniões de que discordo, mesmo as opiniões disparatadas. O que realmente me chateia é que se faça passar por factos (por natureza indesmentíveis) o que não passa de pura ignorância (nos casos mais benévolos) ou verdadeiras mentiras. Alguém do Expresso devia lembrar ao cavalheiro que opiniões assentes em factos que não são verdadeiros não é aceitável.
FÉRIAS (2). Para não variar, comprei mais livros nas férias do que li. (Aliás, sempre comprei mais livros do que li, nas férias ou fora delas, mas isso é outra conversa.) Descobri três novos alfarrabistas (aqui, aqui e aqui), onde por uma quantia irrisória comprei meia dúzia de livros — The Journals of André Gide (volumes I e II), Pretexts: Reflections on Literature and Morality, também de Gide, A Sort of Life, de Graham Greene, Bomarzo, de Manuel Mujica Láinez, e Últimas Tardes Con Teresa, de Juan Marsé. Descobri, ainda, mais uma livraria a visitar regularmente, a Three Lives, e na melhor livraria de Manhattan encontrei um livro em português de Nelson Rodrigues (O Reacionário) que perseguia há anos, que adquiri por tuta e meia e posteriormente descobri ter sido autografado pelo próprio autor. Fora isso, concluí The Banquet Years, de Roger Shattuck, e Servidão Humana, de Somerset Maugham. Como previ antes das férias, pouco mais que nada.
3 de setembro de 2012
LIDO (3). «Impossível (...) perceber porque se apressou António Borges a considerar justo o preço oferecido pelos brasileiros da Camargo Côrrea pela Cimpor, quando a própria administração da empresa o considerou baixo — não costuma ser o vendedor a regatear o preço!» João Paulo Batalha, Público de 25/08/2012
LIDO (1). «In Italy, for 30 years under the Borgias, they had warfare, terror, murder and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love, they had 500 years of democracy and peace — and what did that produce? The cuckoo clock», escreveu o filósofo John Gray. Mas adiantou: «This isn't because artists and writers do their best work when they're being persecuted — a Romantic cliche that doesn't stand up to any careful inquiry.»
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