3 de maio de 2013

ARTE CONCEPTUAL. De um modo geral, não simpatizo com a arte dita conceptual, que as enciclopédias definem como a arte em que a ideia é mais importante que a obra. Quando muito reconheço-lhe utilidade (alertar para situações para as quais é importante alertar que doutro modo passariam despercebidas, por exemplo), e pouco mais. Tirando isso, o escasso mérito da dita é valorizar, por contraste, o que é bom. Estou, aliás, convencido de que a arte conceptual afasta mais gente da arte em geral que aproxima, alguns de forma irremediável. Serve, igualmente, para alguns desculparem (nalguns casos legitimarem) a ignorância ou desinteresse pela arte, aproveitando o que geralmente é um embuste para desvalorizar tudo o que não «entendem» e/ou não lhes interessa — para não falar dos artistas (com aspas ou seu aspas) conceptuais, cujo talento se resume a ter ideias (por vezes boas), à capacidade de chocar, e à autopromoção. Tirando excepções, a arte conceptual é um embuste destinado a impressionar os pategos, e a avaliar pela quantidade deles que se persignam à sua passagem é muito eficaz. Não sei se é o caso de Joana Vasconcelos, de que agora tanto se fala, cuja obra (com aspas ou sem aspas) conheço mal. Mas parece-me bem que se questione o que faz. Bem sei que a arte conceptual por vezes se situa entre a genialidade e o bluff, pelo que não é fácil distinguir uma coisa da outra. E sei, também, que a arte digna desse nome não é para todos, e não me venham com histórias da carochinha. Mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que andam por aí demasiados gatos a ser vendidos por lebres, alguns com o beneplácito de sumidades (com aspas ou seu aspas) de vária ordem, que nos afiançam ser do melhor. Convém, por isso, questionar o que se faz, avaliar antes de consumir, degustar antes de engolir. Até para valorizar o que é realmente bom.
FRUTA DA ÉPOCA. Desculpem a frontalidade, mas sempre me pareceu que António José Seguro é uma anedota. Uma anedota que as notícias diariamente confirmam, e que já vem do tempo em que Seguro era oposição a Sócrates. A última de que há memória reza que Seguro está pronto para governar, mas quanto lhe perguntaram como tenciona resolver os problemas, respondeu que os resolva quem os criou (leia-se o Governo em funções). Resumindo, Seguro governa, os outros que resolvam os problemas. E acaba ele de ser reconduzido na chefia do PS pela maioria dos seus militantes, como se os seus militantes vissem nele o líder que manifestamente não é. Infelizmente, a oposição limitou-se a ir ao congresso assinar o ponto, sorrir para a fotografia, e continua a aguardar melhores dias. São os políticos que há.
CHOQUE E ESPANTO. Não faço a mínima ideia acerca da qualidade do romance Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, que o crítico António Guerreiro considerou «um amontoado de histórias» e uma «falácia metanarrativa» (ligação disponível só para assinantes). Também não sei se o livro anterior de Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros) é bom ou mau, e não me espanta que o livro agora em análise tenha vencido a última edição do Prémio Leya. Espantoso é o Público dar uma estrela a um livro (a escala vai de 1 a 5), que o Público é todo estrelas quando aprecia autores portugueses. Mudou o critério, ou o livro é abaixo de cão?

2 de maio de 2013

COMENTADORES. Não sei se o comentário político nos media devia estar reservado, apenas, aos jornalistas, como defendem alguns. Mas já me parece excessiva a quantidade de políticos, no activo ou não, que proliferam por tudo o que é espaço de comentário. Não tenho dados que permitam demonstrá-lo, mas suspeito que os políticos geram audiências — telespectadores, ouvintes, leitores. Cai assim, portanto, a ideia sobre quem deve opinar sobre o quê, porque são as audiências que os desejam, e o cliente tem razão mesmo quando não tem. Claro que os políticos/comentadores têm as suas próprias agendas, exprimem opiniões mais em função dos seus próprios objectivos que por convicções pessoais (quando as têm), por vezes comentam questões em que são claramente parte interessada, e quem os ouve nem sempre sabe disso. Mas não tenhamos ilusões: também os jornalistas raramente podem dizer o que pensam. Por causa da agenda (alguns também têm), por causa do emprego, por causa de outros interesses ou impedimentos. Discordo, igualmente, da ideia de que há excesso de comentadores, sobretudo nas televisões, incluindo comentadores de que tudo parecem ser especialistas, a que alguém muito apropriadamente chamou «tudólogos». Discordo por uma razão: quanto mais comentadores houver, quanto mais espaço de comentário existir, melhor esclarecidos ficarão os cidadãos — a quem cabe, afinal, rejeitá-los se assim o desejarem. O problema de certo jornalismo é esquecer-se demasiadas vezes a quem se destina — aos telespectadores, aos ouvintes, aos leitores. «O comentário para ser credível deve ser feito por pessoas independentes e não por quem tem interesses directos ou indirectos na matéria que comenta», diz o provedor do telespectador da RTP, que publicamente discordou da «aquisição» de Sócrates pela RTP. Em teoria, faz todo o sentido. Na prática, tenho dúvidas. Quem são — e onde estão — os independentes? Quem não tem interesses directos, ou indirectos, nas matérias que comenta? Por acaso achará o provedor que os jornalistas poderão desempenhar cabalmente esse papel? Valerá a pena lembrar que o actual Governo recrutou uma dezena de jornalistas do DN? Foram lá parar graças a quê?

30 de abril de 2013

MAU PORTUGUÊS. Há um programa na RTP (Bom Português) que é uma espécie de inquérito de rua destinado a saber como se escreve, em português, determinada palavra. Até aqui, tudo a louvar. Acontece que ultimamente têm querido saber como se escreve determinada palavra segundo o novo Acordo Ortográfico. Ora, sabendo-se da controvérsia à volta do assunto, sendo mais ou menos certo que o Acordo vai ser rectificado (senão anulado), o que pretende a televisão pública? Recebeu ordens «de cima» para converter os incréus?
TAMBÉM ME PARECE. El arte contemporáneo es una farsa

26 de abril de 2013

TIRO AO SÓCRATES. Por variadíssimas razões, desde a licenciatura de fim-de-semana ao estado em que deixou o país, passando pelos tiques de autoritarismo e pela má-criação, não tenho estima pessoal ou política por José Sócrates. Mas custa-me vê-lo apoucado por políticos em geral e ex-governantes em particular, que não abririam a boca caso tivessem vergonha na cara. O ex-primeiro-ministro regressou de Paris e, de repente, passou a ser responsável por todos os males da pátria. Ainda não percebi, por exemplo, por que razão devia Sócrates, na entrevista à RTP, pedir desculpas aos portugueses pelos males causados ao país. Não que me escandalize tal prática ou não haja motivos para tal, mas porque nunca vi exigir tal coisa aos antecessores que por aí andam a tagarelar em tudo o que é televisão. Não deviam, também eles, pedir desculpas? Ou o princípio das desculpas só se aplica a Sócrates? Outra coisa que não percebi na entrevista foi a introdução do «fact-checking», mecanismo que se destina a apurar a veracidade do que é dito. O jornalismo português descobriu, de repente, a pólvora, dez séculos após ter sido inventada? A prática veio para ficar? Como não me consta que Sócrates possa voltar a ser primeiro-ministro (ou presidente da República) por decreto, tanto barulho só pode significar uma coisa: têm medo dele. Medo que possa voltar a liderar o PS, como líder ganhar eleições, e ganhando-as voltar a ser primeiro-ministro. Ou, então, Presidente da República, caso se candidate e ganhe. Medo, em suma, da democracia, como dizia o outro o pior dos regimes excluindo todos os outros. Também a mim não me agradam estes cenários. Mas ainda me agrada menos que o queiram afastar por decreto. Pior: desagrada-me não haver políticos capazes de se bater com ele. Coisa, suponho, que não será culpa dele.
COISAS BOAS. Tenho alternado as mais recentes leituras entre Rentes de Carvalho e Nelson Rodrigues. O primeiro, de que leio as últimas páginas de Ernestina, é uma descoberta com algumas décadas que só agora, por via da reedição na Quetzal, disponho dos seus livros. O segundo também descobri há décadas, mas só há pouco consegui deitar a mão a um volume de crónicas publicadas sob o título O Reacionário, que adquiri a pataco num improvável alfarrabista de Manhattan. Não considero que tenha maus livros nas estantes (se considerasse não hesitaria em desfazer-me deles). Mas quando leio estes dois senhores fico cheio de vontade de me desfazer de uns quantos.
A GRANDE MÚSICA. Passei a manhã a ouvir a Norma, de Bellini, cantada por Maria Callas. Apesar de consumidor regular da chamada música clássica, foram escassas as óperas que ouvi, e nenhuma integralmente. De ver, lembro-me de ver uma, num jardim público, mas recordo-me mais do jardim e de quem lá estava que da ópera propriamente dita. Resumindo, ignoro quase tudo sobre ópera. Mas depois da que acabo de ouvir, com passagens que me tocaram profundamente, nada será como dantes.

25 de abril de 2013

25 DE ABRIL. Não sei bem quais foram «os ideais da Revolução dos Cravos», que há anos se diz terem sido traídos. Sei, porém, que o 25 de Abril pôs fim a uma ditadura, e eu sou contra as ditaduras. Também não sei bem se a democracia já viu melhores dias, como se diz nos últimos tempos. Mas também julgo saber que continua a ser o pior dos regimes excluindo todos os outros, como dizia o suspeito do costume. É-me, por isso, absolutamente indiferente que ex-governantes ou agremiações políticas, que agem como donos do regime, se tenham recusado a comparecer nas comemorações oficias do 25 de Abril, alegando que o poder político em funções «está contra o 25 de Abril», ou é contrário aos seus ideais. Indiferente porque o regime não ficou mais frágil sem as suas presenças, e se calhar até será mais forte sem eles. Afinal, para eles a democracia só funciona como tal quando são eles (ou os deles) a mandar, como já o demonstraram em variadíssimas ocasiões. Fizeram bem, portanto, em não pôr lá os pés. A democracia precisa de verdadeiros democratas. Não de quem diz sê-lo, mas não consegue sê-lo para lá do umbigo.
ISALTINO MORAIS. Ainda é cedo para a justiça deitar foguetes, como já vi quem sugerisse. Vendo bem, a justiça nem tem razões para tanto. Há quantos anos condenou Isaltino Morais a variadíssimos crimes? Se bem me lembro, há mais de três. Encarcerá-lo só agora, meia centena de recursos depois, será, quando muito, um alívio.

23 de abril de 2013

PACIFISTAS DE OCASIÃO. Passam-se meses e anos sem que os «pacifistas» escrevam uma linha sobre atentados terroristas aqui e além, que vêm ocorrendo com tal regularidade que nalguns lados já quase se tornou rotina. Mas quando os atentados terroristas atingem solo americano e se lamenta o sucedido, logo vêm os sujeitos lembrar que ainda ontem houve um atentado não sei onde de que ninguém falou ou chorou os seus mortos. Esquecem-se os «pacifistas» nestas ocasiões de um pormenor: ninguém falou deles ou chorou os seus mortos a começar por eles próprios, que não abriram a boca ou escreveram uma linha. Os mortos no Paquistão, no Iraque, no Afeganistão e países assim só os perturbam quando servem para os contrapor aos mortos americanos. Aí, sim. É um vale de lágrimas de crocodilo, vão ao fim do mundo por uma fotografia de inocentes (reais e imaginários), de preferência crianças, e se houver um polícia e uma câmara de televisão por perto os mais afoitos põem-se a jeito para levar uma bastonada. Ai se a hipocrisia lhes desse uma coisa que eu cá sei.

22 de abril de 2013

19 de abril de 2013

BOSTON. Quis o acaso que o massacre de Boston me apanhasse a ler Filho de Deus, de Cormac McCarthy, escritor americano cujos livros estão recheados de uma violência extrema. Sabe-se, à hora a que escrevo, que um suspeito foi abatido, e o outro capturado pelas autoridades. Que ambos viviam nos EUA, que eram irmãos, e de origem chechena. O resto, para já, são informações desencontradas, especulação, teorias da conspiração. E alívio, um grande alívio. Os próximos dias responderão a algumas perguntas, e há demasiadas perguntas a necessitarem de resposta. Terminou uma parte, porventura a pior. Mas cheira-me que não será bonito o que virá a seguir.

17 de abril de 2013

CORRAM COM ELES. Depois de Fernando Seara, que o Tribunal Cível de Lisboa declarou impossibilitado de candidatar-se à Câmara de Lisboa após três mandatos consecutivos na Câmara de Sintra, Luís Filipe Menezes, que agora viu o tribunal congénere do Porto impedi-lo de se candidatar à Câmara do Porto após quatro mandatos consecutivos à frente na Câmara de Gaia. O primeiro já recorreu da decisão, o segundo promete fazê-lo. Não vou insistir nos motivos que invoquei desde o início: no caso de os recursos lhes darem razão, que não me surpreenderia, restará aos eleitores imitar o gesto imortalizado por Bordalo Pinheiro.
IGNORÂNCIA ATREVIDA. O director-adjunto do Correio da Manhã escreveu que «o terror em Boston acentuou o abismo que separa Obama do antecessor Bush». Porque Bush se apressou a atribuir a extremistas islâmicos os atentados de 11 de Setembro, e porque Obama não o fez e se apressou a aplacar «a paranoia anti-islâmica». Acontece que rapidamente ficou demonstrado que os atentados de Setembro foram cometidos por extremistas islâmicos, e quanto ao atentado de Boston ainda nada se sabe. Resumindo, Bush limitou-se a constatar uma evidência, Obama limitou-se a agir sem ela. São estes os factos. Surpreende, por isso, que um jornalista com funções de chefia esteja tão mal informado, e se atreva a fazer graçolas sobre assuntos sobre os quais nada sabe.
CALMA QUE SÓ MORRERAM AMERICANOS. O lembrete do Bruno tem um pequeno senão: se não fosse o massacre de Boston, provavelmente não teria conhecimento dos atentados bombistas no Iraque que ocorreram no mesmo dia — nem, evidentemente, lhe mereceriam uma linha, mesmo que deles tivesse conhecimento. Definitivamente que para os Brunos desta vida não há americanos bons. Nem mortos.

12 de abril de 2013

NAS ESTRELAS. Conheço mal a literatura contemporânea portuguesa, nomeadamente os escritores mais novos. Mas a fiar-me no ror de estrelas que os críticos lhes dão e nas recensões entusiastas em tudo o que é imprensa dita de referência, parece que temos uma literatura contemporânea pujantíssima e de excepcional qualidade. Infelizmente, a escassa que conheço parece-me vulgaríssima, nalguns casos medíocre. Como já vi quem a pusesse no panteão, desconfio que a restante não seja melhor. Acho bem que as editoras apostem nos novos, na idade ou nunca publicados, que só assim chegarão aos leitores — quem, em última análise, avaliará as suas qualidades. Mas daí até os novos serem excepcionais, como se repete a toda a hora, vai um abismo. Tirando a indústria e um ou outro escritor, todos perdem com os exageros. Perdem os escritores, porque se convencem que são bons e não são. Perdem os leitores, que são levados ao engano. Perde a própria indústria, que na ânsia de tudo vender deliberadamente confunde o bom com o mau e a prazo acaba a perder mais do que a ganhar. Perde, evidentemente, a literatura. Razão tem quem ainda há pouco dizia não ler um livro com menos de 20 anos. Vendo bem, são tantos os que se publicam que se torna cada vez mais difícil escolher, e escolher implica rejeitar. Se nalguns casos duas décadas será muito, globalmente parece-me um excelente princípio.

9 de abril de 2013

CHEFS & COZINHEIROS. Vivemos um tempo em que deixou de haver cozinheiros. Agora todos são chefs (assim mesmo, em francês, não vá confundirem-se com um qualquer chefe de uma oficina de motorizadas). Qualquer sujeito que saiba grelhar um robalo ou confeccionar um gaspacho é logo elevado a génio da gastronomia, e se for praticante da cozinha dita molecular então é preciso banda de música e tapete vermelho. Sim, considero que temos chefs a mais e cozinheiros a menos. Nada contra, mas custa-me ver certos hábitos trocados por outros sem que se perceba porquê. Custa-me ver, por exemplo, que dantes eram os cozinheiros que das cozinhas vinham cumprimentar os comensais, e que agora sejam os comensais que, reverentes, vão às cozinhas cumprimentar os chefs — no caso, evidentemente, de os chefs condescenderem a recebê-los. Provavelmente é uma moda, que vem e vai como todas as outras. Mas é uma moda que me custa quase tanto engolir como algumas das suas criações, que geralmente me deixam a suspirar por uns joaquinzinhos ou um caldinho de cebola, que nesta altura do ano aconchegam o corpo e a alma e até eu, zero em culinária, sou capaz de confeccionar.

5 de abril de 2013

OBVIAMENTE NÃO PODE. Já disse e repeti o que penso acerca da lei dos mandatos. Apesar de não ser clara, nunca saberemos se por incompetência de quem a fez ou aprovou ou propositadamente confusa para dela tirarem partido, há, desde o início, uma coisa que ficou clara: a ideia (ou espírito da lei) foi reduzir a três os mandatos consecutivos que um autarca pode exercer. Toda a interpretação que não seja esta, mesmo dos mais reputados tribunais, resulta, apenas, da deficiência da lei, não de qualquer dúvida digna desse nome. Merecerá, por isso, a minha discordância, e se votasse nas autárquicas (estou impossibilitado de o fazer por residir no estrangeiro), votaria contra quem se apresentasse nessas condições. O chumbo do Tribunal Cível de Lisboa às pretensões de Fernando Seara, que pretende candidatar-se à Câmara de Lisboa após três mandados à frente da Câmara de Sintra, foi, portanto uma boa notícia. Espera-se agora que as próximas instâncias para onde terá recorrido confirmem o óbvio.
POR UM CANUDO. Por tudo o que já disse, se algum reparo merece a demissão de Miguel Relvas seria este: pecou por tardia. Apetece-me, no entanto, deixar aqui uma sugestão: que tal fazer-se uma investigaçãozita às licenciaturas dos nossos políticos no activo, incluindo governantes? Aposto que o resultado seria surpreendente. Ou, vendo bem, talvez não.

3 de abril de 2013

O ESPIÃO QUE SAIU DO QUENTE. Provavelmente nunca se saberá se Silva Carvalho é culpado do que é formalmente acusado, e é provável que os tribunais falharão, de novo, em toda a linha. Mas mandará o bom-senso não reintegrar no Estado um ex-espião que é acusado de abuso de poder e violação de segredo de Estado até que os tribunais se pronunciem sobre o assunto. Não pensa assim o primeiro-ministro, que decidiu reintegrá-lo no Estado, agora na Presidência do Conselho de Ministros, sem que se perceba porquê. Presumo que do ponto de vista legal nada impedirá a contratação, mas parece-me insustentável do ponto de vista ético. Ética, aliás, pela qual o Governo já demonstrou ter pouco apreço, como ficou claro quando surgiram os casos com o ministro Relvas, que em pouco tempo passou a ser enxovalhado por tudo e por todos, inclusive por membros do seu próprio partido, e hoje por todos visto como o chico-esperto que subiu na vida à custa de «milagres» como o da Universidade Lusófona, que lhe atribuiu um canudo por dirigir um rancho folclórico e coisas assim.
AI NÃO ME TOQUES. Já o disse a propósito de outro caso, mas repito-o as vezes que for preciso: por que diabo não pode o Tribunal Constitucional ser alvo de pressões? Acaso não estará o Tribunal Constitucional debaixo de pressão sempre que tem de tomar decisões importantes, mesmo que não as haja de forma directa? A pressão, como também já disse, reforça a ponderação — logo contribui para decidir melhor. E também é bom não esquecer que por cada pressão num sentido haverá, por regra, pressão em sentido inverso.

1 de abril de 2013

MAIS UMA CONSPIRAÇÃO. Avesso a teorias da conspiração, não sei se Nuno Santos foi despedido da RTP por «delito de opinião», que por aí se garante à boca cheia. (A fazer fé no que se ouve e diz, não conheço um único jornalista que nos últimos anos tenha sido despedido por outra razão que não fosse «delito de opinião», o que é, no mínimo, estranho.) Por razões que expliquei logo no início do famigerado episódio das imagens cedidas à PSP, que acabou por ditar o afastamento do então director de informação da RTP e posterior despedimento, a história foi mal contada, e as explicações que se seguiram confundiram mais que esclareceram. Mas como as teorias da conspiração têm inúmeros adeptos, há sempre um novo «argumento» para «demonstrar» a mais tosca das teorias. A última garante que a contratação de Sócrates pela RTP se destinou a abafar o «saneamento político» de que Nuno Santos terá sido vítima, pois o caso, segundo o autor, «ameaçava fazer correr muita tinta». Só não se percebe bem por que há-de, a partir de agora, a tinta deixar de correr, por que há-de um caso calar outro. Quem impedirá Nuno Azinheira de falar do «caso» Nuno Santos?

27 de março de 2013

SE O RIDÍCULO MATASSE. Não me consta que o regime tencione obrigar os portugueses a assistir à homilia que José Sócrates se prepara para fazer, semanalmente, na RTP. Assim sendo, que pretende quem se deu ao trabalho de assinar uma petição em que procura impedir a RTP de contratar José Sócrates? Quem os impede de desligar o televisor (ou mudar de canal) quando o ex-primeiro-ministro surgir no écran? Por acaso não será anti-democrático o que pedem na petição? E quais são, já agora, os requisitos que consideram necessários para comentar na RTP?
A BOÇALIDADE DO COSTUME. Pinto da Costa terá os seus motivos para debitar «postas de pescada», como diz Paulo Bento, e para dizer ao seleccionador nacional que o que realmente o incomoda é ver a selecção jogar tão mal. Mas o que eu gostaria de ver do presidente do FC Porto, e presumo que o resto do país, era um pedido de desculpas pelo comportamento inadmissível de um bando de energúmenos antes e depois do jogo em Málaga que opôs os «dragões» à equipa local. Energúmenos, recorde-se, que o clube a que Pinto da Costa preside apoia e protege. Isso, sim, seria de homem.

25 de março de 2013

PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. Imaginem que meia dúzia de sujeitos assalta uma ourivesaria e a polícia consegue apanhá-los com a boca na botija. Qual será o título dos jornais do dia seguinte? Mais ou menos assim: «Larápios apanhados em flagrante pela polícia.» Imaginem que um pai viola a filha e esta decide contar o caso ao fim de 20 anos de abusos constantes. Qual será o título nos jornais do dia seguinte? Mais ou menos assim: «Monstro viola a própria filha durante duas décadas.» Como vêem, os jornais, e os media em geral, tratando por «larápios» e «monstros» sujeitos que à partida a justiça considera inocentes até prova em contrário, acabam a julgá-los na praça pública, e como não vejo reclamações parece que a coisa está bem. Acontece que os protagonistas destes casos deviam merecer a mesma presunção de inocência que se reclama para os figurões que por aí andam a cometer crimes iguais ou piores, cujo poder que detêm obriga os media a medir as palavras e a ser mais cautelosos, e a mesma indignação de quem não se cansa de acusar os media, quase sempre com razão, de fazer julgamentos sumários sempre que dão notícias de que figurões são suspeitos de actividades ilícitas. Até por aqui se vê que o cidadão comum não tem o mesmo tratamento da justiça que tem um figurão, embora dizer isto é o mesmo que dizer que o dinheiro não dá felicidade... mas ajuda bastante.

21 de março de 2013

YO NO CREIO EM LAS BRUJAS. É sabido que a FIFA, organismo que superintende o futebol mundial, costuma ter mão pesada em matéria disciplinar. Estranho, por isso, que desta vez se tenha limitado a emitir um lacónico desmentido após Mourinho a ter acusado de irregularidades na última eleição para melhor treinador do ano (que Mourinho perdeu para Vicente del Bosque), irregularidades já confirmadas por alguns dos votantes (ver aqui e aqui). A acusação de Mourinho só merece um comunicado a dizer que a lista de votos «está correcta»? Sabendo-se que o treinador português já foi castigado por menos, só pode ser estranha tanta benevolência da FIFA. É um facto que nem sempre a existência de fumo comprova a existência de fogo. Mas se a acusação de Mourinho está, digamos, dentro do que se esperaria, a reacção da FIFA é surpreendente.

20 de março de 2013

ARRUACEIROS. Será que o FC Porto não devia, na sua página da internet, condenar a violência gratuita dos seus adeptos antes e depois do jogo de Málaga e, no mínimo, pedir desculpa?
DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Independentemente das deficiências da lei que limita os mandatos, não se sabe se por incompetência ou de propósito, qualquer pessoa medianamente inteligente sabe o que ela pretende: limitar a três os mandatos sucessivos que se podem exercer como presente de Câmara. É o chamado espírito da lei, de que só duvida quem lhe convém. Qualquer interpretação que não seja esta viola o princípio, mesmo que a lei se preste a outras interpretações e os tribunais decidam o contrário. O facto de a justiça ser incapaz de punir meliantes com determinado estatuto não significa que esses meliantes estejam inocentes. A comparação é grosseira, bem sei, mas para o efeito serve perfeitamente. Aliás, quem se candidata nas circunstâncias descritas não merece um pingo de respeito.

16 de março de 2013

SEGREDOS PAPAIS. Como agnóstico, a eleição de Mario Bergoglio não me aquece, nem me arrefece. Como não me aqueceria nem arrefeceria caso fosse eleito outro qualquer, incluindo os mais controversos ou suspeitos de actividades pouco recomendáveis. Mas acompanhei com natural curiosidade a sucessão de Bento XVI, sobretudo para tentar perceber o que levou Ratzinger a resignar. Depois de tudo o que foi dito até à eleição do Papa Francisco, fiquei praticamente na mesma. Continua a não distinguir-se a verdade da mentira, os factos das suposições. Veremos o que sucederá nas próximas semanas, mas suspeito que haverá importantes mudanças na cúpula da Igreja. Mudanças que Bento XVI não terá sido capaz de fazer — por incapacidade, por achar que tudo estava bem como estava. Desconfiei desde o início dos motivos invocados por Bento XVI para renunciar ao cargo (alegou incapacidade física e espiritual), e ainda estou para saber se foi um acto de coragem e tudo o mais que se disse. Devido à previsível unanimidade da Igreja em torno do novo Papa, se calhar mais aparente que real, provavelmente jamais saberei. Como agnóstico, repito, não me incomoda. Mas os segredos que a cúpula da Igreja se esforça por esconder dão azo a falsas notícias, boatos pouco abonatórios, teorias da conspiração em que as chefias são invariavelmente culpadas das piores maldades. Resumindo, provocam precisamente o contrário do que pretendem. Problema deles, dir-me-ão. Verdade, mas não aprecio ver injustamente acusada (se for o caso) uma instituição que respeito. Não gosto, aliás, de ver ninguém injustamente acusado, mesmo o pior dos inimigos, que nunca hesitei defender quando tal sucedeu.

13 de março de 2013

CRUEL DILEMA.


Bem sei que o dr. Mário Soares apelou à violência a pretexto de que ela pode ocorrer a qualquer momento, que Macário Correia não sai nem à bomba, e que Isaltino Morais foi mandado prender variadíssimas vezes mas ninguém lhe deita a unha. E, claro, habemus papam. Mas o que hoje realmente me interessa é o que me chegou da terrinha: começar por onde?

8 de março de 2013

PREPAREM-SE. Vem aí a receita para salvar o mundo e, quiçá, a paróquia. É, pelo menos, o que promete o Presidente, e já para amanhã. Depois de um mês sem abrir a boca, o Presidente resolveu fazer prova de vida, e de uma assentada dizer que os portugueses que se manifestaram no último sábado têm de ser ouvidos (não disse como nem por quem) e divulgar o prefácio da interessantíssima obra Roteiros VII, que reúne, segundo o próprio, «as intervenções mais significativas» por ele produzidas nos dois primeiros anos do segundo mandato. Só não o fez antes porque um chefe de Estado «sensato e responsável» deve falar pouco com os jornalistas, diz ele, especialmente quando o chefe do Governo é da sua família política, digo eu. Quem se lembra das desgraças nos tempos do engenheiro de fim-de-semana, que punham o Presidente a falar a toda a hora com os jornalistas? Pois, agora a desgraça é ainda maior — e o Presidente só abre a boca quando é espicaçado, e a contragosto. Porque um «Presidente da República que fale muito à comunicação social normalmente não tem influência nas decisões que se toma no país», diz agora, e garante saber bem do que fala. Afinal, ninguém, como ele, «foi primeiro-ministro 10 anos e acumulou com sete anos de Presidente da República», escreveu no Facebook, coisa que lhe permitiu acumular «uma informação que mais ninguém tem». Dezassete anos, portanto, a exercer o poder, sem dúvida uma experiência enriquecedora. Mas uma experiência cujo resultado, convém lembrar, contribuiu generosamente para o estado a que isto chegou.

7 de março de 2013

ESTRANHAS PREPOSIÇÕES. Ninguém do poder parece ralado com o novo Acordo Ortográfico, e se alguém tem uma opinião sobre ele ninguém sabe qual é. Não deixa, por isso, de ser curioso que a Presidência da República tenha detectado uma troca de preposições na lei que pretende limitar os mandatos, erro que poderá permitir a um autarca recandidatar-se a um novo mandato ao fim de três consecutivos. Num país onde o primeiro-ministro dá pontapés na gramática quando escreve e o seu adjunto quando abre a boca, estranha-se tanto zelo com a língua.

6 de março de 2013

AO CUIDADO DO MINISTRO RELVAS. A RTP Internacional passa a vida a transmitir programas onde se diz que o Carnaval foi ontem e o Natal é amanhã, quando na verdade o Carnaval já foi há uma semana e o Natal é daqui a um mês. O «critério» da RTP resume-se a pôr no ar a cassete mais à mão, e quando assim é por vezes a Páscoa calha no Entrudo e o Verão começa no Outono. Como não bastasse, passam dúzias de vezes os mesmos anúncios a chamar a atenção para os mesmos programas, por vezes no espaço de poucos minutos, esgotando a paciência a um santo. Onde está, já agora, o Conselho das Comunidades, e o que pensará ele sobre o assunto? Aliás, tirando as excursões à terrinha (pagas pelo erário público, está bom de ver), onde os conselheiros de vez em quando se juntam para discutir o sexo dos anjos e matérias afins (de que obviamente nada resulta em benefício de quem representam), não se sabe o que pensam os srs. conselheiros sobre este e outros assuntos, se é que pensam alguma coisa. Desconfio, aliás, que o Conselho das Comunidades é um caso de morte que se esqueceram de anunciar.

1 de março de 2013

MOURINHO. Além das qualidades que se lhe reconhecem, Mourinho é um maná para o jornalismo, e não só desportivo. Não há dia em que não seja notícia, pelas melhores e piores razões. Geralmente dão conta de polémicas, reais ou inventadas, públicas ou privadas, que os media apreciam polémicas, e os adversários aproveitam para daí tirar partido. Verdade que Mourinho se excede com frequência, às vezes sem motivo aparente. Mas começo a dar-lhe razão quando ele disse, não me lembro onde nem a que propósito, que a humildade era um defeito (foi assim mesmo que a definiu) que ele, felizmente, não tinha. De facto, a humildade na actividade que desenvolve só atrapalha, e fosse ele humilde e não teria o currículo que se lhe conhece. Agora é o Real, ontem foi o Inter, anteontem o Chelsea, amanhã outro qualquer — mas tudo indica que nada fará diminuir o interesse dos media por tão rentável filão. Nada de novo ao fim de três dias? Inventa-se. Vai para o PSG ou Manchester por incontáveis milhões, regressa a Milão onde será recebido de braços abertos, embolsará uma indemnização astronómica e depois irá caçar gambozinos. Como é evidente, qualquer uma destas «notícias» é verosímil, mesmo completamente inventada. Mourinho queixou-se, há pouco, de ser um desastre a lidar com os media, deixando implícito na queixa que o aparente defeito lhe sai caro. Sinceramente, duvido. Como o próprio já disse variadíssimas vezes, o confronto com o próximo adversário começa na conferência de imprensa imediatamente antes do jogo, embora a mim me pareça que comece antes. Mourinho conhece como ninguém o mundo em que se move, incluindo o mundo dos media, o que lhe permite tirar vantagem das virtudes e defeitos, e consequentemente levar a água ao seu moinho. Se por vezes as coisas não lhe correm como deseja, globalmente não me parece que tenha grandes razões de queixa. Antes pelo contrário.

26 de fevereiro de 2013

FALHANÇOS E ALDRABICES. Percebe-se que os falhanços aconteçam, que o diagnóstico e a receita não encaixem com os resultados, mesmo depois de nos terem vendido como inevitáveis e infalíveis. Mas o que se percebe cada vez menos é que os governantes não assumam as falhas, e não expliquem aos portugueses por que não ocorreu o milagre que lhes prometeram. Os governantes anunciam diariamente medidas de austeridade que significam o falhanço das anteriores — mas nada justificam, nada argumentam, nada dizem. Julgam não ter obrigação de explicar nada a ninguém, e quando condescendem a explicar deliberadamente confundem (nos melhores casos), ou aldrabam. Não me revejo no modo como os protestos têm vindo a ocorrer, sei muito bem de onde vêm e o que pretendem, e duvido da sua eficácia. Mas não há dúvida de que os governantes, e políticos em geral, precisam de ser confrontados com a realidade, e a realidade tem forçosamente que passar por não mentir a quem os elegeu. Os portugueses estão fartos de malabarismos, de quem lhes mente sistematicamente. Que a cantoria com que estão a ser recebidos um pouco por todo o lado lhes sirva, ao menos, de aviso para o que pode vir a seguir.

22 de fevereiro de 2013

SEM FACTURINHA. Leio que os consumidores são obrigados, desde Janeiro, a pedir facturinha da bica sob pena de serem multados entre 75 e 2000 euros caso não o façam, e estremeço de emoção com o zelo com que o Estado vela por nós. Entretanto, passam-se coisas inacreditáveis. Por que será que os consulados portugueses, pelo menos alguns consulados portugueses nos EUA, só passam facturas pelos serviços prestados caso os utentes as reclamem, e, se as reclamam, as passam a contragosto? Por que será que os mesmos consulados só aceitam como pagamento dinheiro vivo (repito: dinheiro vivo), mesmo que se trate de valores que atingem as centenas de dólares? Alguém faz o favor de me explicar por que não se pode pagar utilizando os métodos correntes (cartões de crédito ou de débito, cheques, etc.)? E, já agora, para onde vai o dinheiro? Entrará ele, como se espera, na contabilidade, digamos, oficial? Se a ideia é criar uma espécie de saco azul destinado a ensinar boas maneiras à gente que lá trabalha, de modo a ter mais respeito pelos utentes, nada a opor. Mas, nesse caso, avisem, que eu também contribuo.

20 de fevereiro de 2013

POR QUE SERÁ? Tirando o Francisco José Viegas e o Ferreira Fernandes, o primeiro nunca soube porquê e o segundo talvez por pertencer aos quadros do DN, que adoptou o novo Acordo Ortográfico, já repararam que os nossos melhores cronistas escrevem, todos, com a antiga grafia?

15 de fevereiro de 2013

POLÍTICOS. É evidente que os políticos não são todos incompetentes, corruptos e aldrabões, embora os haja em demasia. Mas os políticos honestos e capazes não precisam de nos lembrar a toda a hora que o são, e de se escandalizarem sempre que os colocam, a todos, no mesmo saco. Os políticos honestos e capazes precisam, sim, de denunciar os incompetentes, os corruptos e os aldrabões, um dever que simultaneamente lhes salienta a honestidade e a competência. Será distracção minha, mas não os tenho visto, sobre este assunto, mexer uma palha. Outra coisa que se nota bastante: apesar de cada vez pior vistos pela generalidade dos cidadãos, apesar de estarem cada vez mais sujeitos aos piores nomes, apesar de tantas vezes serem injustamente acusados de maldades que não cometeram, a verdade é que a chamada vida política continua a ser uma actividade apetecível e com enorme procura. Porque, lá está, os honestos e capazes não fazem o que devem, e porque os maus geralmente ficam impunes. Dito de outra maneira, porque a desonestidade e a incompetência geralmente compensam. Não surpreende, por isso, que um estudo recente revele que 96% dos portugueses não confiam na classe política. Surpresa é haver 4% que acredita nela.

14 de fevereiro de 2013

A MENTIRA DA RTP. Quem acredita que a RTP aumentará as audiências e, simultaneamente, a qualidade do que transmite? Quem acredita que, deixando de transmitir programação dirigida ao grande auditório (concursos, novelas, nacional-cançonetismo, futebol), substituindo-os por programas culturais (digamos assim para simplificar), as audiências subirão? A avaliar pelo que disse à própria RTP, o actual presidente acredita. Alberto da Ponte afirmou, preto no branco, que os dois canais públicos têm de ter 22% de audiência global em finais de 2014 (no dia da entrevista tinham 16%). Ao contrário de muita gente, que parece não ter dúvidas sobre tão complexa matéria, não sei o que é — ou deve ser — um serviço público de televisão. Há, no entanto, uma coisa que julgo saber: um serviço público de televisão minimamente decente apenas seria visto pela maioria dos cidadãos caso houvesse uma só televisão. Como não é assim, se a actual programação da RTP mudar de rumo, a maioria dos telespectadores mudar-se-á para a concorrência, que não deixará de explorar o filão. Também me parece que os canais públicos não devem operar com a mesma lógica da concorrência, e o pouco que vejo da programação dirigida ao grande auditório é de fugir. Mas então haja coragem para assumir as consequências — e os custos — que isso comportará.

12 de fevereiro de 2013

UNANIMIDADE BURRA. Se é verdade que Bento XVI está muito debilitado fisicamente, como todos admitem, porquê a surpresa da resignação? Será assim tão surpreendente que alguém renuncie a um cargo por se sentir incapaz de exercer com o grau de exigência que entende necessário? Outra coisa que não percebo na unanimidade dos comentários, a começar pelos responsáveis da Igreja Católica, alguns deles próximos do Papa: se Bento XVI mostrou coragem, lucidez e humildade, quer isso dizer que o seu antecessor, que também terá ponderado resignar, não foi corajoso, lúcido e humilde? E se Ratzinger resignou por estar farto dos intermináveis — e desgastantes — problemas internos, que se sente incapaz de resolver? Será assim tão improvável um cenário destes? Como dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra. E esta em volta de Bento XVI não me parece excepção.
O DESERTO. Pela enésima vez, o professor Carlos Reis saiu em defesa do novo Acordo Ortográfico (ver última edição do Expresso). Pela enésima vez, não apresentou um único (repito: um único) argumento. Têm sido assim todos quantos, desde o início, defendem o Acordo: zero argumentos, e quando os têm não passam de abstracções que, espremidas, não dão uma gota. O mínimo que se espera de quem defende uma ideia é que apresente argumentos, de preferência muitos e bons. Quem é contra o Acordo tem-nos apresentado às dúzias, quase todos pertinentes, sempre fundamentados, e com exemplos para todos os gostos. Já os defensores do dito, nem um para amostra. Tirando que é crucial para a «afirmação internacional da língua portuguesa», como ainda há pouco lembrou Jorge Miranda (sem que alguma vez se tenha explicado o que isso significa), é o deserto total. Será abusivo deduzir que não os têm?

8 de fevereiro de 2013

HERÓIS E VILÕES (2). Vi com interesse a entrevista do novo secretário de Estado do Empreendedorismo à RTP e retive, essencialmente, duas coisas: Franquelim Alves não informou o Banco de Portugal (BdP) das aldrabices porque não teria, na altura, dados substantivos que as comprovassem; depois assinou as contas do Banco Português de Negócios (BPN) apesar de lhes ter detectado irregularidades, a pretexto de que o fez depois de chamar a atenção para as irregularidades, e de que se não o fizesse seria o colapso do BPN e de todo o sistema financeiro. Temos, assim que Franquelim Alves assinou as contas assumidamente aldrabadas (de que não deu conhecimento ao BdP, apesar de aqui já haver substância) por razões patrióticas. Leram bem: razões patrióticas. Como dizia o ministro da Economia, o país devia agradecer ao seu novo secretário de Estado por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Eu bem disse que isto ainda vai acabar em homenagem.

7 de fevereiro de 2013

HERÓIS E VILÕES (1). O ministro da Economia tentou transformar o seu novo secretário de Estado num herói a quem o país devia agradecer por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Fez mais: invocou, em defesa de Franquelim Alves, factos que não são verdadeiros, quero acreditar que por mera ignorância, embora isso me sirva de pouco consolo. Quando os factos amplamente conhecidos apontam em sentido contrário, o ministro faz de conta que não ouve e não vê, e ainda tem o desplante de nos vir com a estapafúrdia ideia de que o cavalheiro está a ser vítima de linchamento na praça pública. Só falta ao ministro propor uma homenagem ao dito, naturalmente por relevantes serviços prestados à pátria. Infelizmente, não brinco. A impunidade e a desvergonha chegou a tal ponto que casos como este começam a ser corriqueiros, a que já ninguém liga. E isso, como é óbvio, é meio caminho para se tornarem ainda piores.

5 de fevereiro de 2013

GOZAR COM O PAGODE. Como se diz da mulher de César, não basta ser sério. E convenhamos que o novo secretário de Estado do Empreendedorismo deixa algumas dúvidas a esse respeito. Franquelim Alves pode ter um trajecto imaculado como ex-administrador da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), proprietária do Banco Português de Negócios (BPN), como agora reclama (há quatro anos admitiu ter aprovado irregularidades), mas camuflar a sua passagem por tão malcheirosa coisa não pode deixar de ser visto como um expediente de quem tem algo a esconder. Não basta, portanto, dizer que o novo governante não é arguido nem alvo de investigação, como diz o ministro da Economia, ou o visado jurar que sempre pautou a sua conduta pelo rigor e exigência (já vimos que não foi bem assim). É por demais evidente que o Governo fez mal ao nomeá-lo, e o Presidente fez pior ao dar-lhe posse. Mais: no estado a que o país chegou, em que são cada vez mais necessários sinais contrários ao que daqui emergiu, chega a ser uma provocação. Quem conhece a história da SLN não pode deixar de ficar perplexo quando vê um ex-administrador de uma associação criminosa ser premiado com uma secretaria de Estado. Sim, houve outros que fizeram o mesmo ou pior no caso SLN/BPN. Mas não me consta que algum deles seja governante.

1 de fevereiro de 2013

AGUENTEM, PARTE DOIS. O famoso «Ai aguenta, aguenta» proferido por Fernando Ulrich há três meses, pretendendo dizer que os portugueses ainda aguentariam mais austeridade, foi, segundo o próprio, descontextualizado. Resolveu, por isso, explicar melhor o que então quiz dizer. E o que disse ele agora para esclarecer os mal-intencionados? Comparou a situação dos portugueses aos sem-abrigo. Se os sem-abrigo aguentam a austeridade, diz ele, por que razão não haveremos nós de aguentar? Ficamos, portanto, esclarecidíssimos acerca do «aguenta». Só não percebemos por que razão o Governo resolveu emprestar 1.500 milhões ao banco a que preside quando podia ter dito «aguenta». Empréstimo, já agora, sem o qual o BPI não teria alcançado os 249 milhões de lucro que anuncia, que naturalmente serão repartidos pelos seus accionistas e de que o Governo, que administra o nosso dinheiro, não verá um centavo.

30 de janeiro de 2013

E OS ADVOGADOS, SR. BASTONÁRIO? O bastonário dos Advogados falou e disse: há, em Portugal, «demasiadas violações dos direitos dos cidadãos» e dos «direitos humanos». Disse mais: fazem-se alterações de «leis essenciais ao funcionamento da Justiça» com a finalidade de «conquistar popularidade fácil». «Políticos sequiosos de popularidade fácil, jornalistas moralmente corrompidos, polícias fundamentalistas, magistrados indignos da sua função - todos convergem para gerar o ambiente social que exige sempre penas mais pesadas, medidas de coação mais duras», prosseguiu Marinho Pinto. E disse ainda: há interrogatórios policiais sem a presença de advogados, abundância de «fundamentalismo justiceiro de muitos magistrados e polícias», e «leis grosseiramente inconstitucionais». Sobre os advogados, co-responsáveis pelo retrato que faz da justiça em Portugal (basta ver a quantidade de advogados sentados na Assembleia da República a fazerem as tais leis essenciais), nem uma palavra. Bem prega frei Tomás.
VOLTA NA TUMBA. Li com atenção os motivos invocadas pela família para a reedição, esta semana, da correspondência entre Eça de Queirós e a mulher, mas não fiquei convencido. A coisa destina-se a rebater a tese de João Gaspar Simões, segundo a qual o escritor terá feito um «casamento de conveniência» e sido um pai pouco afectuoso? Porque não terá, segundo os filhos, sido assim? A ser verdade o que dizem, que importância terão esses factos na obra de Eça? Admitindo que o pai não teve, ao escrevê-las, «a mais leve suspeita que olhos curiosos devassariam o que fora escrito apenas para uns olhos» (os da esposa), como admitem, não estarão os filhos, organizadores do volume, a desrespeitar um desejo do pai? Quem tinha dúvidas sobre estes assuntos irá, depois do livro, continuar a tê-las, e não vejo que Eça de Queiroz entre os seus, agora reeditado pela Caminho, acrescente uma vírgula à obra. Ou era outra a ideia?

28 de janeiro de 2013

ORA CONVERTAM LÁ. Miguel Sousa Tavares defendeu, no Expresso, que os sábios que cozinharam o Acordo Ortográfico deviam aparecer em público com a cara pintada de preto e pedir desculpas, e dar-lhes-ia como castigo a conversão à nova ortografia do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Por uma vez concordo com o Miguel, e o castigo parece-me justíssimo. Para quem não sabe do que está a falar, eis o primeiro parágrafo do Grande Sertão: « — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.» Ora digam lá que não ficava uma maravilha.

25 de janeiro de 2013

MENTIRA ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO. Há uma coisa que todos já perceberam na malcheirosa história do doping no ciclismo: se os principais protagonistas contarem «tudo o que sabem», como alguns ameaçam, o ciclismo profissional, pelo menos o ciclismo profissional tal como o conhecemos, vai ter que começar do zero. Alguém duvida que existam muitíssimos mais ciclistas de primeiríssimo plano (para já não falar dos outros) que consomem, há anos, substâncias proibidas destinadas a aumentar a performance? Com, ou sem, o conhecimento das autoridades, nacionais e internacionais, também elas cada vez mais suspeitas? Se alguém tem dúvidas, os próximos meses encarregar-se-ão de as desfazer. É por isso que já aqui defendi a legalização do doping no ciclismo, que estendo a outras modalidades, que o doping sempre existiu, antes e depois de ser proibido. Por mais sofisticados que se tornem os mecanismos para o detectar, haverá sempre mecanismos ainda mais sofisticados para o esconder. O consumo de substâncias proibidas adquiriu tal dimensão que a suspeição é generalizada, criando a ideia de que todos se dopam até prova em contrário. Poderá ser um exagero, em alguns casos uma injustiça, mas a verdade é que são tantos os casos que se conhecem e/ou se suspeita que se torna difícil pensar doutro modo.

24 de janeiro de 2013

ESTÁ TUDO DOIDO. O presidente do Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida propôs ao Ministério da Saúde, em Setembro do ano passado, uma receita para reduzir o que considerou um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. «Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?», questionou, então, o sujeito. Ontem, o ministro japonês das Finanças defendeu que os doentes idosos deviam morrer o mais depressa possível, pois os tratamentos de que geralmente necessitam representam uma «carga financeira» muito elevada para o país. Hoje ficamos a saber que um tribunal português decidiu retirar sete filhos a uma mãe e disponibilizá-los para adopção, alegando o juiz que a mãe não arranjou emprego nem laqueou as trompas, como terá sido acordado com a Segurança Social. Outros casos haverá que não chegaram aos media, mas estes sobejam para constatar uma evidência: a obsessão pela economia e finanças dos «políticos modernos» tornou-se de tal movo perigosa que convém estar atento. Sim, é preciso ter cuidado com esta gente, que tudo reduz a contabilidade e para quem as pessoas não contam.
LEVIANO PINTO. Seguramente que o bastonário dos Advogados conhece os meandros da justiça melhor que qualquer cidadão, mas é evidente que não são apenas os juízes e os tribunais os responsáveis pelos males da justiça, como defendeu num congresso. Os advogados e o seu bastonário são co-responsáveis pelo seu mau funcionamento, e o próprio Marinho Pinto, tantas vezes louvado pelo desassombro com que diz algumas verdades, contribui mais para agravar os problemas que para os resolver. Se a ideia é melhorar o funcionamento da justiça, seria bom começar por admitir erros próprios antes de apontar os alheios.
ABUTRES. Imaginemos que a foto era verdadeira. Ter-se-ia justificado a sua publicação?

22 de janeiro de 2013

SIMPLIFICAR COMPLICANDO (2). O extraordinário «negócio» do Acordo Ortográfico não pára de surpreender. Segundo a professora Maria Regina Rocha, a coisa, que pretendia unificar a grafia dos povos que falam a mesma língua, acabou por aumentar, e muito, as variantes usadas nos diversos países. Contas por alto, o novo Acordo acrescentou seis centenas e meia de palavras, que passaram a escrever-se de forma diferente. Estão à espera de quê para suspender a aberração, como já fez o Brasil e Angola? Aliás, a ser verdade o que diz Vasco Graça Moura (e não há razão para duvidar), nem é preciso suspendê-lo, que por não ter sido ratificado por todas as partes nem chegou a entrar em vigor. E como não entrou em vigor, vigora, como é óbvio, o anterior. Alguma dúvida?
SIMPLIFICAR COMPLICANDO (1). À medida que se vão conhecendo mais exemplos, não há dúvida de que o professor Malaca e seus colaboradores, e depois os srs. deputados, pariram um monstro. Alguns exemplos de substituições previstas no novo Acordo Ortográfico enviados ao ministro da Educação por um conjunto de personalidades que contesta a nova ortografia: pato por pacto; impato por impacto; reto por repto; intato por intacto; adeto por adepto; oção por opção; invita por invicta; convito por convicto; inteletual por intelectual; compato por compacto, seção por secção; fição por ficção; fitício por fictício. Bonito, não é?

18 de janeiro de 2013

EMIGREM, EMIGREM. O primeiro-ministro negou, em Paris, que alguma vez tenha aconselhado os portugueses a emigrar. Negou mais: «ninguém» do seu Governo alguma vez «aconselhou os portugueses a emigrar». Acontece que os factos demonstram o contrário. O primeiro-ministro sugeriu, em finais de 2011, que os professores desempregados emigrassem para os países que deles necessitassem, e até apontou Angola e Brasil como possíveis destinos. Também o secretário de Estado da Juventude do seu Governo aconselhou, uns meses antes, os jovens desempregados a emigrar. Há um mês, o secretário de Estado das Comunidades anunciou, em São Paulo, ainda haver espaço de emigração para o Brasil. Disse mais: «O momento do Brasil é de demanda de quadros preparados», e segundo ele Portugal tem-nos em qualquer área. Reparem bem: os portugueses mais qualificados, que tanto custaram ao país a formar. Valerá a pena dizer que num país a sério o discurso do Governo seria prometer aos seus concidadãos tudo fazer para evitar que emigrem?

16 de janeiro de 2013

MASSACRES EM ANGOLA. João Brandão Ferreira deu à estampa, no Público, uma prosa indignadíssima sobre uma peça publicada naquele mesmo jornal onde foi dito, citando um relatório de um militar português, que o Exército português participou numa «acção punitiva» em Angola de que resultaram «terroristas» decapitados. Segundo o sujeito, que se intitula «oficial piloto-aviador e português com vergonha na cara», a tropa portuguesa teve motivos, que depois passou a explicar. Acontece que Brandão Ferreira afirma a determinado ponto: «Não tenho qualquer dúvida que o relatório aludido é verdadeiro e que o caso relatado não foi o único que ocorreu.» Vai mais longe: «Não foi a única vez que se cortaram cabeças aos bandidos que nos retalharam a carne e os haveres», e no caso que tanto o indignou até diz que «se justificou». Ora, João Brandão acha que o relatório não devia ser notícia? O facto de a «corja de assassinos» (como ele designa as vítimas da «acção punitiva») terem feito mil vezes pior aos nossos justifica que também o façamos a eles? Ou apenas sugere que se escondam estas vergonhas? Fui ler o artigo que tanto o incomodou e não vi, ao contrário do que sugeriu, a opinião das «moças jornalistas» a fazerem-se «de virgens ofendidas». Se li bem, as jornalistas limitaram-se a transcrever o documento e a citar, a propósito, variadíssimas fontes, que tiveram o cuidado de isolar (e contextualizar) o incidente, tornando-o, eventualmente, menos chocante. Ao contrário do que diz, a peça do Público foi oportuna, e o jornalismo a que torce o nariz só peca por não fazer mais coisas destas. Se «todas as guerras acarretam actos de violência gratuita e inumana», como afirma, por que não admiti-los? Brandão Ferreira chama a isto um exercício de autoflagelação «sem motivo para tal», característica, segundo ele, do povo mais masoquista que conhece. Eu chamar-lhe-ia enfrentar as coisas tal como são, não como gostaríamos que fossem. Por mais que se revelem verdades que nos envergonham, que todos sabemos existir.

11 de janeiro de 2013

POR QUE NÃO EXPLICAM? Provavelmente a ajuda do Governo ao BANIF é a melhor solução para o país, ou a solução menos má, e digo-o sem qualquer ironia. Mas por que não explica o Governo aos portugueses as razões que o levaram a injectar 1100 milhões de euros no banco, tornando-se, assim, o primeiro accionista? Por que razão situações destas nunca são devidamente explicadas aos portugueses? Presumindo que decisões de teor levantam inúmeras interrogações, e se prestam a ser vistas como dar dinheiro a quem mais tem extorquindo-o a quem menos tem, por que não explica o Governo tudo muito bem explicadinho? Como julgo evidente, por uma razão simples: por mais voltas que dê, jamais o Governo demonstrará cabalmente a bondade da coisa. Até porque os portugueses já viram filmes do género, igualmente pagos pelos contribuintes, e sabem como acabaram.

9 de janeiro de 2013

PRESSÕES. Alguém me explica por que razão os juízes do Tribunal Constitucional não podem ser pressionados? Será que os digníssimos cavalheiros não estão, mais que ninguém, «blindados» contra pressões? Se não estão preparados para pressões, ou para não ceder a pressões, quem estará preparado? Acaso não somos, todos nós, pressionados diariamente? Era só o que faltava que se criasse uma espécie de muro de silêncio em volta dos senhores juízes sempre que eles têm importantes decisões a tomar. Pelo contrário, considero a pressão útil e saudável. Considero mais: as pressões obrigá-los-ão a ponderar melhor a matéria que vão decidir — logo ajudá-los-ão a decidir melhor.

7 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS POUCO EDIFICANTES. Não sou sportinguista, e de bola pouco mais sei que o essencial. Parece-me, no entanto, que a actual situação dos «leões» não é motivo de regozijo para um só português que goste de futebol. Mas a gente olha para a actual estrutura directiva e pasma com o que vê. Vai haver uma grande mudança, prometeram os dirigentes. Só que após a entrada de Jesualdo Ferreira passou a haver declarações diárias sobre o treinador em funções, cedo se tornando evidente que a ideia do manager era criar-lhe uma situação de tal modo insustentável que só podia chegar onde hoje chegou, pois Jesualdo nunca escondeu a ambição de lhe tomar o lugar. Como ninguém quis assumir a responsabilidade logo à primeira hora, antes preferindo passar a ideia de que o Sporting ensaiava um novo modelo de gestão desportiva, os dirigentes leoninos mais não fizeram que prolongar a agonia do treinador — e, o que foi pior, desmotivá-lo, e com ele o «grupo de trabalho». O espectáculo em cena, de que hoje conhecemos o fim do primeiro acto, começou mal e acabará pior.

2 de janeiro de 2013

ESTADOS DE ALMA.


Terminei o ano a ler Factotum, de Bukowski, e comecei o novo a reler As Farpas, de Eça, agora como foram inicialmente editadas. Pelo menos duas coisas em comum entre Eça e Bukowski: pessimismo e desencanto, embora por motivos diferentes. Há dias voltei a Ficções, de Jorge Luis Borges, e a’Os Passos em Volta, de Herberto Helder, dois livros que não me canso de reler e a que hei-de voltar. Tal como hoje voltei à música de Morten Lauridsen (no vídeo), simplesmente divina.

28 de dezembro de 2012

A BANDALHEIRA. Se é verdade o que diz Paulo Morais (há dezenas de deputados que acumulam funções parlamentares com a de administradores, directores ou consultores de empresas que fazem negócios com o Estado), por que se mantêm em funções? Estão à espera de quê as direcções partidárias para correrem com eles? Será mesmo necessário criar um regime de incompatibilidades para acabar com a bandalheira? Sim, é mesmo de bandalheira que se trata, imprópria de um país civilizado. Claro que a promiscuidade entre cargos políticos e empresariais não se fica pelos deputados, mas por algum lado se deve começar.

24 de dezembro de 2012

TIROS DE PÓLVORA SECA. Sou contra a venda de armas à população civil, mesmo nos casos em que a lei dificulta a sua aquisição, ou proíbe a venda de certos modelos (convém lembrar que a lei sobre a venda de armas nos EUA varia de estado para estado). Mas não sou ingénuo a ponto de achar que a proibição teria evitado o massacre na escola do Connecticut, ou outros massacres do género. A proibição evita acidentes, momentos de loucura, e pouco mais. Quando se planeiam massacres como o de Newtown, as armas, proibidas ou não, não são problema. Se forem proibidas, serão, quando muito, mais caras, e só por essa razão mais difíceis de obter. Como as drogas cuja venda a lei proíbe, nada impede os consumidores de as comprar e os traficantes de as vender, e tal com as armas duvido que se vendesse mais droga caso a sua venda não fosse proibida. Sou contra a venda de armas porque ter uma arma ao alcance da mão é meio caminho andado para cometer uma loucura que doutro modo não se cometeria, por causa dos acidentes (as estatísticas apresentam números preocupantes de acidentes cometidos com armas de fogo), e salvo excepções não acredito no porte de arma como método de autodefesa. Ao contrário do que ouço à maioria das pessoas, certamente na pressa de arranjar um bode expiatório e seguramente com a melhor das intenções, não conheço a receita para evitar males destes. O remédio é mais complexo do que parece, e mesmo assim não creio que algum dia venha a ser totalmente eficaz.
JORNALISTAS EM VIA DE EXTINÇÃO. Pedro Santos Guerreiro, director do Jornal de Negócios, anunciou que se demitirá caso a Newshold assuma o controlo da Cofina, proprietária, entre outros, do jornal onde trabalha, e que estará, juntamente com a Newshold, na corrida à compra da RTP. Porque a Newshold está envolta num manto de opacidade; porque não se conhecem os seus accionistas; porque duvida das suas intenções; e porque está em causa a liberdade de expressão. É uma decisão corajosa e uma atitude que se saúda. Mas quantos jornalistas podem, hoje em dia, dar-se a esse luxo? Sim, o que outrora seria uma decisão banal tornou-se, hoje, um luxo. Tal como para o resto dos mortais, a vida não está fácil para os jornalistas.

19 de dezembro de 2012

O CERCO. A Newshold, empresa que se diz luso-angolana, detida quase na totalidade por uma sociedade anónima com sede numa offshore do Panamá e cujos accionistas se desconhecem, assumiu ser candidata à compra (ou concessão) da RTP, ou parte da RTP. O anúncio é normal e a intenção normalíssima, mas o tom e os termos em que o fez já não me pareceram normais. A Newshold afirma que não irá desistir do negócio apesar das «afirmações de cariz xenófobo» ou das «teorias da conspiração» que por aí andam com o intuito de denegrir a empresa e seus accionistas. E nada a demoverá de prosseguir a intenção, apesar da hostilidade e da «fúria persecutória» da comunicação social portuguesa, cujas «notícias e opiniões difamatórias» pretenderão, segundo ela, a «liquidação da empresa e da honra dos seus accionistas». Ora, será isto normal? Uma empresa que pretende fazer um negócio com outra empresa ou entidade costuma fugir dos holofotes como o diabo foge da cruz, e «nos entretantos» pautar-se pela discrição. Como se viu, a Newshold fez precisamente o contrário. Alardeou aos sete ventos as suas intenções, e disparou sobre a comunicação social que (ainda) não controla. Vale a pena lembrar que a Newshold detém o Sol, 15% da Cofina (Correio da Manhã, Sábado e Jornal de Negócios), 2% da Impresa (SIC e Expresso), e está na corrida para a compra da Controlinveste (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF). Numa altura em que a comunicação social atravessa a crise que se conhece e ainda ninguém descobriu a receita para sair dela, torna-se cristalino que o objectivo dos angolanos não é o negócio pelo negócio. A ideia é controlar a comunicação social portuguesa, e com isso calar as notícias hostis ao poder angolano. Entretanto, Portugal ficará refém do poder de Luanda. Não, não é só a comunicação social. É o próprio país.

14 de dezembro de 2012

SEGREDO DE JUSTIÇA. É do interesse público saber que altas figuras do Estado estão a ser investigadas por suspeitas de irregularidades? A avaliar pelo que se diz, parece que assim é. Mas eu tenho dúvidas. Por que se exige a punição dos operadores da justiça que «bufam» para os media o que deve estar em segredo de justiça, e se louvam os media que revelam a «bufaria»? Divulgar uma informação obtida de forma criminosa não será, também, um crime? Aliás, revelar publicamente informação obtida de forma criminosa ainda é mais grave, pois só assim o crime tem efeitos práticos — além de que a informação obtida por essa via geralmente não pode ser verificável, e é pouco fiável.

13 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (3). Não sou grande entusiasta das teorias da conspiração, embora não ignore que as haja. Mas seria mesmo necessário afastar Nuno Santos para que a RTP, ou parte dela, possa ser vendida? O ex-director de informação impediria que o eventual negócio com os angolanos (ou outros) se concretizasse? Quem, uma vez na posse da RTP, ficaria impedido de afastar Nuno Santos do cargo ou, até, de o despedir? Por mais voltas que dê ao miolo, por menos que simpatize com o ministro que tutela a televisão pública, por mais que saiba que o cargo de director de informação se preste aos humores do governo em funções, não vejo relação entre o afastamento de Nuno Santos e a venda da RTP, muito menos motivo para «saneamento político», como Nuno Santos invoca. Sei que não é politicamente correcto dizer isto, até porque o ministro Relvas não merece que o defendam. Mas acontece que não aprecio ver os adversários apanhar pelos motivos errados. Porque isso lhe dá razões que doutro modo não teria, e porque sobram motivos para lhe bater.

11 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (2) . É fácil (e barato) acusar o ministro do dia de querer controlar a informação da RTP, além de ser um filme demasiado visto, cujo guião todos conhecemos. Por isso se acusam os sucessivos ministros dos sucessivos governos de intromissões indevidas, reais e imaginárias, que as acusações têm sucesso assegurado: a oposição ao Governo vem logo acusar o dito de tudo fazer para controlar a informação e afastar gente incómoda, mesmo que os factos sejam escassos e escassíssima a sua credibilidade. Repito, portanto, o que já disse sobre as imagens cedidas à PSP: por aquilo que é público, a tese da conspiração não tem pés, nem cabeça. Tudo indica que Nuno Santos geriu mal o caso, mas por razões que ele lá sabe não quer admiti-lo. Se a administração da RTP (e quem nela manda) não gostava de Nuno Santos (não me custa acreditar que assim seja), limitou-se a fazer o que se esperaria: aproveitou o erro para se livrar dele. Simplificando, se a administração da RTP empurrou Nuno Santos para a porta da rua, Nuno Santos pôs-se a jeito.
SOL E SOMBRA. Parece não haver dúvidas de que o nome de Medina Carreira surgiu indevidamente associado ao caso Monte Branco (branqueamento de capitais e fuga ao fisco), como associou, em manchete, a última edição do Sol. Assim sendo, e acreditando que o jornal se precipitou, por que mantém o semanário de José António Saraiva a notícia online tal como saiu na edição em papel? Não devia, no mínimo, fazer uma adenda, explicar aos leitores as circunstâncias que o levaram à sua publicação? Ou a ideia será mesmo que a dúvida se instale, fazer com que os leitores mais distraídos tomem os factos como verdadeiros?

5 de dezembro de 2012

MÁRTIRES DE OCASIÃO (1). Por razões conhecidas, não simpatizo com o ministro que tutela a RTP. Não me espantaria, sequer, que Miguel Relvas tenha feito os possíveis e os impossíveis para se ver livre de Nuno Santos, até há pouco director de informação da RTP, e que agora se demitiu na sequência da polémica cedência de imagens à PSP. Mas convenhamos que a versão de Nuno Santos contada à Comissão de Ética é, no mínimo, fracota, como foi sempre fracota desde o início. Miguel Relvas não gostou das reportagens sobre a fome que a RTP emitiu? Das notícias que a RTP achou por bem dar sobre a sua licenciatura? Imagino que não, mas tudo isto e o mais que Nuno Santos invoca não cola, nem esconde o essencial. E o essencial aponta para que Nuno Santos tenha autorizado o visionamento das imagens — de maneira informal, por não se ter oposto, por fazer de conta que não viu, por não se ter apercebido da gravidade da situação, por desconhecimento da lei, pelo que quer que tenha sido. Provas? Provavelmente não haverá, e daí Nuno Santos procurar transformar o episódio num «caso de saneamento político», presumivelmente comandado pelo ministro Relvas. Resta saber se a estratégia de lhe dará os frutos que deseja.

4 de dezembro de 2012

GREVE É SÓ PARA QUEM PODE. A greve é um direito constitucionalmente consagrado, e ainda bem que assim é. Mas não deixa de ser inquietante, por vezes revoltante, constatar-se que a greve é geralmente feita pelos trabalhadores mais protegidos, os mais bem pagos, os que menos precisam.
PREGAR NO DESERTO. «Há dezenas de deputados que acumulam a função parlamentar com a de administrador, director ou consultor de empresas que desenvolvem grandes negócios com o Estado. Em todas as comissões relevantes há conflitos de interesses, reais ou potenciais. A mais importante, a que acompanha o Programa de Assistência Financeira, tem por funções fiscalizar as medidas previstas no memorando de entendimento com a Troika, nomeadamente as privatizações ou o apoio à Banca. Pois nesta comissão tem assento Miguel Frasquilho que trabalha na Essi, empresa do grupo financeiro BES que, ainda por cima, assessorou os chineses na compra da EDP; a que se junta Adolfo Mesquita Nunes, advogado da poderosa sociedade Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva, justamente o escritório de referência da eléctrica. Na comissão de agricultura, o deputado Manuel Isaac fiscaliza um ministério que influencia a atribuição de subsídios à empresa de que é administrador. O presidente da comissão de Segurança Social, José Manuel Canavarro, é consultor do Montepio Geral, banco cuja actividade se desenvolve na área da solidariedade. Os exemplos sucedem-se. A promiscuidade contamina até o insuspeito Banco de Portugal, em cujo conselho consultivo têm assento Almerindo Marques, ligado ao BES, ou António de Sousa, até há pouco presidente da Associação de Bancos. O banco central tem a sua actividade vigiada por aqueles que deveria supervisionar. Pelo lado dos privados, os grupos económicos que beneficiam desta promiscuidade estão sempre disponíveis para acolher os que os favorecem. Não por acaso, ex-ministros das obras públicas transitam para as empresas com maior participação nas parcerias público-privadas. Ferreira do Amaral preside à Lusoponte, Jorge Coelho e Valente de Oliveira administram a Mota-Engil.»

30 de novembro de 2012

A DEMOCRACIA QUE TEMOS. Ouvi não sei quem dizer que o líder de um partido político é eleito por vinte e tal mil votos, e julgo ter-se referido aos dois maiores partidos. Como é sabido, cabe aos líderes dos partidos escolher quem será candidato a deputado, e também não é segredo que o processo implica escolher quem lhes convém e rejeitar quem não lhes convém, não por razões de mérito ou falta dele, mas por lhes serem fiéis, ou não. Temos, assim, que a chamada «casa da democracia» é escolhida por meia dúzia de pessoas, que votará de acordo com a vontade dos chefes. Quem ouse votar contra eles, ou exprimir opinião diferente da deles, tem o futuro traçado: não será candidato a deputado na próxima legislatura. Somando este a outros poderes, confirma-se que Portugal é dirigido por dois ou três cavalheiros, eleitos por zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Repito: zero vírgula poucos por cento dos cidadãos. Os regimes democráticos não são perfeitos? É sabido que não. Mas tanta imperfeição, que a generalidade dos políticos não contesta nem mostra interesse em corrigir, ainda vai acabar mal.

28 de novembro de 2012

OUTRA VEZ O RELATIVISMO. Dizem os factos que nunca houve tantos ataques americanos a terroristas da Al-Qaeda (ou aparentados), especialmente por aviões não tripulados (mais conhecidos por «drones»), como durante o primeiro mandato de Obama. Curiosamente, raramente os media ocidentais deram conta do sucedido, e a avaliar pelo silêncio generalizado não houve danos colaterais (leia-se vítimas inocentes) ou erros grosseiros, muito menos se questionou a legitimidade de tais actos. A situação não pode deixar de passar despercebida quando comparada a idênticas operações ocorridas no tempo de George W. Bush, que os media então reportaram até à exaustão, sempre com imagens de inocentes (com aspas e sem aspas) mortos e estropiados, nomeadamente crianças, e agora com os ataques a Gaza, de que diariamente nos chegam notícias e imagens cuja credibilidade nem sempre se consegue apurar. É outra vez o relativismo, que tudo legitima quanto é feito pelos nossos, e tudo condena quando é feito pelos outros. Como se pode ver por mais este exemplo (mas podia dar muitos mais), as vítimas choraram-se quando dão jeito, e ignoram-se quando não dão.

27 de novembro de 2012

PRÉMIOS LITERÁRIOS. Nada contra os prémios literários, e até conheço bons livros e bons escritores que os receberam. Mas cada vez dou menos importância aos ditos, sobretudo aos que premeiam uma só obra. Como os best sellers, produtos geralmente a evitar, dou por mim a desconfiar dos prémios literários, todos os prémios literários, mesmo os mais prestigiados. De Valter Hugo Mãe apenas li meia dúzia de coisas dispersas por jornais. Não tenho, portanto, opinião sobre os seus livros. Mas já tenho opinião do pouco que li nos jornais, e devo dizer que pouco lisonjeira. Como se pode ver na sua crónica de estreia no Público, na forma idêntica a todas as outras que li, a prosa é intragável. A Máquina de Fazer Espanhóis, título que lhe valeu o Prémio Portugal Telecom, pode ser um bom livro, mas em literatura quem me decepciona uma vez não tem segunda oportunidade.

23 de novembro de 2012

O QUE SE PASSA? Li há pouco que o Presidente Cavaco pode estar doente, mas não cheguei a perceber se o autor da prosa falava a sério ou ironizava. Hoje, ouvindo o discurso de Cavaco na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo, pareceu-me que o prosador falava a sério. Já se sabia que o Presidente tem um sentido de humor muito peculiar, e quando se mete a ironizar a gente deita as mãos à cabeça. Mas o que ouvi hoje não me pareceu dentro da «normalidade» a que nos habituou.

21 de novembro de 2012

INDIGNADOS E DESORDEIROS. O Jornal de Angola, baluarte do jornalismo universal e provavelmente da Rua Ginga, resolveu disparar sobre a generalidade dos media portugueses e, de caminho, elogiar o regime de Eduardo dos Santos. Segundo um tal Álvaro Domingos, ao que parece um sujeito que se desdobra em prosas por variadíssimas publicações e se distingue pelo uso de variadíssimos pseudónimos (ou heterónimos, ou lá o que seja), por estes dias aconteceu em Portugal «um verdadeiro massacre sobre manifestantes indignados» e «cidadãos indefesos», que «as máfias» que dominam o jornalismo português fingem não ter acontecido. Pior: segundo ele, «os direitos humanos estão em perigo em Portugal», e Angola, na qualidade de país membro da CPLP, não pode «ficar em silêncio». É hora, pois, de «convocar todos os líderes da comunidade para avaliar a situação dos direitos humanos em Portugal», «de cerrar fileiras e exigir que Portugal respeite os direitos humanos». Depois elogia o regime que lhe dá de comer, e dá uns conselhos que Portugal deve seguir. «Angola tem sido (...) o baluarte da democracia e da liberdade na comunidade de países que falam a língua portuguesa», pelo que a polícia portuguesa teria tudo a ganhar indo a Luanda aprender como se faz com a polícia local. Dá um exemplo comovente: quando algumas dezenas de jovens, «manipulados por partidos políticos que ainda têm o cordão umbilical ligado às máfias políticas em Portugal, fizeram manifestações de rua, tudo acabou de uma forma civilizada». E acrescenta: «choveram pedras sobre os agentes da polícia e os seus carros», mas apesar do percalço «tudo se resolveu com a detenção dos desordeiros». Como terão notado, quem, em Portugal, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «manifestantes indignados»; quem, em Luanda, se manifesta contra o Governo de forma violenta, são «desordeiros». Como se costuma dizer nestes casos, todo um programa. Tudo isto porque a Procuradoria-Geral da República terá aberto um inquérito por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais envolvendo três altas figuras do Estado angolano (Manuel Vicente, vice-presidente de Angola e ex-director-geral da Sonangol, Hélder Vieira Dias, ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, e Leopoldino Nascimento, consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República), que obviamente dará em nada. Imaginem se desse nalguma coisa.
ACORDO ORTOGRÁFICO. «(...) estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens).»
AS IDEIAS FEITAS DO COSTUME. O conflito israelo-palestiniano é dos assuntos mais complexos (e controversos) que há, mas colocar em pé de igualdade Israel e o Hamas, como fez o Público de hoje (ver editorial), só por má-fé, ou ignorância. Vendo bem, talvez pelas duas coisas.

20 de novembro de 2012

CUIDADO COM A TROPA. Otelo Saraiva de Carvalho avisou, há duas semanas, que pode haver uma revolução popular apoiada pelas forças de segurança e pelos militares caso o Governo não recue nas medidas de austeridade, embora o eventual apoio dar-se-ia, segundo ele, apenas «para evitar um surto de violência extremo». Como estarão lembrados, Otelo alertou, há um mês, para uma revolução «latente» (que não deverá, como o 25 de Abril, ser pacífica), e para o facto de ser diariamente confrontado com «anónimos» que lhe pedem uma nova revolução, «agora sem cravos», porque os limites foram, segundo ele, «ultrapassados», e há um ano defendeu um golpe de Estado para derrubar o Governo caso os limites fossem ultrapassados. Também Vasco Lourenço considerou há pouco que o actual Governo «perdeu a legitimidade há muito tempo», e ainda há coisa de três semanas deu como inevitável uma guerra na Europa. Entretanto, os militares no activo saíram à rua em protesto contra «as malfeitorias» de que dizem ser alvo, e também eles não se inibem de fazer ameaças mais ou menos veladas ao regime e a quem nele manda. Dirão alguns que a democracia não está em causa, que a União Europeia encarregar-se-á de a repor caso as coisas corram para o torto. Aparentemente, assim será, embora uma intervenção militar destinada a repor a ordem se arrisque a aumentar a desordem — e mesmo que as coisas corram como se espera uma intervenção deste tipo não impedirá que estes e outros senhores percam, um dia, a cabeça, e desatem aos tiros. Se isso suceder, enquanto o pau vai e vem, enquanto a Europa devolve os militares aos quartéis, seguramente que uns quantos acabarão na paz dos cemitérios. Como diria Vergílio Ferreira, serão os que terão a paz verdadeira.

15 de novembro de 2012

GENERALIZAÇÕES PERIGOSAS. Tudo contra a violência, nada a favor da violência. Como se costuma dizer nestas alturas, a violência nada resolve. Mas apetece-me perguntar: e resolvem o quê as manifestações pacíficas? Não, não defendo a violência. Gostaria é que os protestos da rua, sobretudo quando traduzem o descontentamento de grande parte da população, tivessem consequências, resultassem em algo de concreto e positivo, o que está longe de acontecer. A violência nas ruas talvez seja obra de arruaceiros, de «pessoas que querem destruir a sociedade», como diz o Presidente da República, que pouco antes gracejou sobre coisas que não devia. Mas quantas pessoas, habitualmente incapazes de matar uma mosca, não se reviram na violência de ontem? Seria bom, por isso, não subestimar os incidentes, atribuí-los a meros arruaceiros, considerá-los casos isolados. É que eles podem rapidamente alastrar ao resto dos portugueses — cada vez mais espoliados, cada vez mais desesperados, cada vez mais receosos do radiante futuro que os governantes prometem mas em que já nem eles próprios, governantes, acreditam. Não defendo a complacência das autoridades com actos de violência. Pelo contrário, as autoridades devem agir com profissionalismo e determinação, como terá ocorrido ontem, embora nem todos concordem que assim tenha sido. Defendo é que os políticos, sobretudo os políticos que nos governam, saibam ler os sinais, e tenham cuidado com as palavras quando falam de arruaceiros e de «pessoas que querem destruir a sociedade». Como sensatamente lembrou Seixas da Costa, talvez os confrontos de ontem possam fazer a Europa perceber que «Portugal também tem um limite para o sacrifício». Ironicamente, a concretizar-se o desejo do embaixador os confrontos serviram, afinal, para alguma coisa.
QUEM FAZ O FAVOR DE EXPLICAR? De facto, não se percebe por que razão a selecção portuguesa de futebol jogou com um adversário de terceira categoria, no quinto dos infernos. A gente olha para o calendário dos jogos particulares disputados ontem e vê a Suécia a jogar com a Inglaterra, a Holanda com a Alemanha, a Itália com a França, e quando chegamos à terrinha descobrimos Portugal a jogar com a 52ª selecção do ranking mundial. Parece que o negócio rendeu 800 mil euros à Federação, até ver a única explicação, mas que não explica coisa nenhuma. Alguém da Federação faz o favor de explicar à rapaziada a importância do jogo para os destinos da pátria?

12 de novembro de 2012

O PRAVDA ANGOLANO. Será a inveja que levou as autoridades portuguesas a investigar suspeitas de vigarices cometidas por gente ligada ao Governo Eduardo dos Santos, como diz o Jornal de Angola. E as suspeitas de corrupção que recaem sobre altas figuras do Estado angolano? Têm, ou não, fundamento? Pelos vistos, isto não interessa ao Jornal de Angola. E não interessa porque o Jornal de Angola é o Pravda lá do sítio, e de um jornal do regime não se espera outra coisa que não seja bajular o regime e quem nele manda, mesmo que alguns dos mandantes sejam uns refinados patifes. Aliás, pelo apetite que o poder angolano tem demonstrado pelos jornais portugueses, não tardará que o assunto deixará de interessar aos próprios jornais portugueses.

7 de novembro de 2012

MINISTRO DAS TRAPALHADAS. À excepção dos protagonistas do incidente, ninguém sabe ao certo o que se passou entre o jornalista Nuno Ferreira e o ministro Miguel Relvas. Não se pode, portanto, tirar conclusões, visto que não há dados que nos permitam saber quem é culpado de quê. Mas se há dúvidas quanto ao episódio, uma coisa é certa: tornou-se rotina ver o ministro Relvas envolvido em trapalhadas, e se do ponto de vista legal nada haverá que se lhe possa apontar, a verdade é que cada vez sai pior na fotografia.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS. Conforme anunciei quando disse votar Obama, ganhou o menos mau. Como é evidente, quem assim pensa não espera grande coisa, pelo que o que vier de bom será lucro, e de mau não me surpreenderá. Teria dormido bem na noite eleitoral caso a vitória sorrisse a Romney, por quem nunca nutri simpatia e sempre me pareceu ter um conhecimento superficial do país e praticamente nulo sobre o resto do mundo, que se fartou de fazer promessas irrealistas que nunca explicou como tencionava concretizar, e que se deu «ao luxo» de sofrer uma estrondosa derrota num estado — o Massachusetts — onde ainda há pouco foi governador e se gabou de ter feito obra. Se o segundo mandato de Obama correr como o primeiro, não será, evidentemente, brilhante. Mas com Obama já sei com o que posso contar. Com Romney, tendo em conta as piruetas que já fez e as gaffes (chamo-lhe assim para simplificar) que protagonizou, não sendo uma tragédia seria, no mínimo, uma incógnita.
JÁ NÃO HÁ LADRÕES COMO ANTIGAMENTE. Homem morre de descarga elétrica ao roubar cobre