22 de maio de 2013
UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA. Os ex-ministros das Finanças ora são os responsáveis pela ruína do país, ora são as respeitadas figuras que é preciso ouvir com toda a atenção. Quando dá jeito, fala-se deles com nostalgia e veneração; quando não dá, apanham todos pela medida grande. Não há pachorra para as opiniões que variam de manhã para a tarde, consoante faz chuva ou faz sol. Falo dos espaços de comentário que nos últimos anos tomaram conta das televisões. Umas vezes devido à ignorância dos comentadores, outras devido às agendas dos intervenientes, frequentemente devido às duas coisas.
17 de maio de 2013
NÃO VOU COMENTAR. Sempre que um governante — ou dirigente político — é confrontado pelos jornalistas com perguntas incómodas, geralmente acaba a dizer: «Não vou comentar.» Os mais expeditos não só não respondem como aproveitam a ocasião/tempo de antena para dizer o que lhes convém, e sempre que tal acontece os jornalistas metem o rabinho entre as pernas e divulgam o que só aos políticos interessa. Ora, os jornalistas deviam pôr fim a isto. Os políticos não respondem ao que lhe perguntam? Então não há notícia — ou a notícia será a pergunta que o político recusou responder, acrescentada das possíveis razões para a recusa. Veriam que o silêncio não seria boa ideia.
O ABORTO ORTOGRÁFICO. Aprovada coadoção por casais homossexuais (Diário de Notícias). Co-adoção por casais do mesmo sexo foi aprovada (Correio da Manhã). Parlamento aprova co-adopção por casais homossexuais (Público).
15 de maio de 2013
DÉJÀ VUE. Conheço Carlos Abreu Amorim da blogosfera, onde publicou variadíssimos textos com os quais quase sempre estive de acordo. (O comentário político na TV que veio a seguir à blogosfera praticamente não vi.) Foi, por isso, sem surpresa que o vi candidato a deputado, e ser eleito. A surpresa viria depois. Como chegou ele tão rapidamente a vice-presidente da bancada parlamentar social-democrata? Não tendo, que me conste, qualquer experiência partidária antes de ser deputado, a que se deveu o milagre? Vejo-o agora, na condição de candidato à Câmara de Gaia, pedir o afastamento do ministro das Finanças, porque «o tempo político de Vítor Gaspar terminou», e «o país precisa de uma nova etapa». Independência de espírito de Abreu Amorim? Honestamente, duvido. O candidato à Câmara de Gaia já percebeu que é preciso descolar rapidamente do «patinho feio» do Governo de Passos Coelho para agradar aos potenciais eleitores, e em nome disso vale tudo e o seu contrário. Como alguém já escreveu, Abreu Amorim é novo na política, mas aprendeu depressa o pior que ela tem.
13 de maio de 2013
10 de maio de 2013
CAMPEÃO DA CHICO-ESPERTICE. O treinador do FC Porto afirmou, há uma semana, que o Estoril não tinha hipóteses de conquistar pontos ao Benfica, insinuando que por aldrabices. No dia seguinte, a imprensa desportiva escreveu abundantemente: «Vítor Pereira atirou a toalha ao chão.» Dois ou três dias depois, o FC Porto ganhou ao Setúbal, e os jornais titularam: «Jogadores recusam-se a deitar toalha ao chão.» No dia a seguir o Benfica perdeu dois pontos frente ao Estoril, e no Dragão reacendeu-se o sonho do título. Acossado pelas críticas, e colocado perante a perda de pontos do Benfica (que lhe estragaram a teoria), o treinador do FC Porto corrigiu a pontaria dizendo que as palavras por ele proferidas se destinaram a exercer «pressão psicológica» sobre o adversário, estratégia cujo resultado (empate a um golo) lhe deu razão. Resumindo, Vítor Pereira resolveu fugir para a frente. Deve ser por estas e outras como estas que não será treinador do FC Porto na próxima época. Seja, ou não, campeão.
SER OU NÃO SER. É fácil, barato e muitíssimo popular dizer-se que determinado jornalista foi afastado de determinada redacção por ter feito algo que politicamente não agradou às chefias. De facto, não me lembro de um único caso em que um jornalista tenha sido despedido (ou demitido de um cargo) por incompetência, falta de profissionalismo, ou coisa que o valha. A fazer fé no que se tem dito, os despedimentos/afastamentos de jornalistas configuraram invariavelmente atentados à liberdade de expressão, actos de censura. Não sei se é o caso Ana Leal vs Judite de Sousa, de que só conheço o que saiu nos jornais. Convém, no entanto, não fazer juízos apressados, não julgar pelas aparências. Provavelmente nunca saberemos quem tem razão e não tem, se o caso traz água no bico ou não tem história. Mais uma razão, portanto, para não endeusar uns e demonizar outros. Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
JORNALISMO BARATO QUE SAI CARO. O jornalista X da publicação Y viajou a convite de Z. É isto o que dizem as publicações mais sérias (as outras omitem-no) sempre que se deslocam ao estrangeiro para fazer uma reportagem, cada vez com maior frequência, porque ficarão com um problema de consciência caso não o assumam. É bom, de facto, que os leitores conheçam as circunstâncias em que a reportagem foi feita sempre que as circunstâncias possam interferir no que se faz. Mas será preciso dizer que não há almoços grátis, que não se morde a mão de quem nos dá de comer? Constatar a evidência serve, de facto, de pouco consolo. Ainda agora li que o jornalismo de investigação praticamente morreu. Porque é caríssimo, e cada vez há menos dinheiro até para o mais básico. É um facto, nota-se bastante, e há muito. Mas nos tempos que correm já me contentaria se o jornalismo viajasse pelos seus próprios meios. Não investigar é preocupante, não há dúvida que é. Mas fazer fretes é inadmissível.
8 de maio de 2013
O MANICÓMIO. O primeiro-ministro anunciou ao país um «pacote» de austeridade, e dois dias depois o segundo ministro (há quem diga ser o terceiro) afirmou discordar. Confusos? Não é caso para tanto. Afinal, falamos de Portugal, país onde tudo acontece, inclusive fenómenos que nem a imaginação mais delirante se atreveria a prever. Quando o senso comum aconselharia que as medidas de austeridade anunciadas por Passos Coelho fossem primeiro discutidas — e aprovadas — no interior do Governo, eis que o dito vem à praça pública esgrimir discordâncias, ainda por cima quando acaba de eleger o consenso como supremo desígnio da pátria. Bem sei que há quem garanta que tudo isto não passou de uma tragicomédia, embora destinada não sei bem a quê. Mas como poderá a oposição chegar a um consenso com gente assim?
3 de maio de 2013
ARTE CONCEPTUAL. De um modo geral, não simpatizo com a arte dita conceptual, que as enciclopédias definem como a arte em que a ideia é mais importante que a obra. Quando muito reconheço-lhe utilidade (alertar para situações para as quais é importante alertar que doutro modo passariam despercebidas, por exemplo), e pouco mais. Tirando isso, o escasso mérito da dita é valorizar, por contraste, o que é bom. Estou, aliás, convencido de que a arte conceptual afasta mais gente da arte em geral que aproxima, alguns de forma irremediável. Serve, igualmente, para alguns desculparem (nalguns casos legitimarem) a ignorância ou desinteresse pela arte, aproveitando o que geralmente é um embuste para desvalorizar tudo o que não «entendem» e/ou não lhes interessa — para não falar dos artistas (com aspas ou seu aspas) conceptuais, cujo talento se resume a ter ideias (por vezes boas), à capacidade de chocar, e à autopromoção. Tirando excepções, a arte conceptual é um embuste destinado a impressionar os pategos, e a avaliar pela quantidade deles que se persignam à sua passagem é muito eficaz. Não sei se é o caso de Joana Vasconcelos, de que agora tanto se fala, cuja obra (com aspas ou sem aspas) conheço mal. Mas parece-me bem que se questione o que faz. Bem sei que a arte conceptual por vezes se situa entre a genialidade e o bluff, pelo que não é fácil distinguir uma coisa da outra. E sei, também, que a arte digna desse nome não é para todos, e não me venham com histórias da carochinha. Mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que andam por aí demasiados gatos a ser vendidos por lebres, alguns com o beneplácito de sumidades (com aspas ou seu aspas) de vária ordem, que nos afiançam ser do melhor. Convém, por isso, questionar o que se faz, avaliar antes de consumir, degustar antes de engolir. Até para valorizar o que é realmente bom.
FRUTA DA ÉPOCA. Desculpem a frontalidade, mas sempre me pareceu que António José Seguro é uma anedota. Uma anedota que as notícias diariamente confirmam, e que já vem do tempo em que Seguro era oposição a Sócrates. A última de que há memória reza que Seguro está pronto para governar, mas quanto lhe perguntaram como tenciona resolver os problemas, respondeu que os resolva quem os criou (leia-se o Governo em funções). Resumindo, Seguro governa, os outros que resolvam os problemas. E acaba ele de ser reconduzido na chefia do PS pela maioria dos seus militantes, como se os seus militantes vissem nele o líder que manifestamente não é. Infelizmente, a oposição limitou-se a ir ao congresso assinar o ponto, sorrir para a fotografia, e continua a aguardar melhores dias. São os políticos que há.
CHOQUE E ESPANTO. Não faço a mínima ideia acerca da qualidade do romance Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, que o crítico António Guerreiro considerou «um amontoado de histórias» e uma «falácia metanarrativa» (ligação disponível só para assinantes). Também não sei se o livro anterior de Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros) é bom ou mau, e não me espanta que o livro agora em análise tenha vencido a última edição do Prémio Leya. Espantoso é o Público dar uma estrela a um livro (a escala vai de 1 a 5), que o Público é todo estrelas quando aprecia autores portugueses. Mudou o critério, ou o livro é abaixo de cão?
2 de maio de 2013
COMENTADORES. Não sei se o comentário político nos media devia estar reservado, apenas, aos jornalistas, como defendem alguns. Mas já me parece excessiva a quantidade de políticos, no activo ou não, que proliferam por tudo o que é espaço de comentário. Não tenho dados que permitam demonstrá-lo, mas suspeito que os políticos geram audiências — telespectadores, ouvintes, leitores. Cai assim, portanto, a ideia sobre quem deve opinar sobre o quê, porque são as audiências que os desejam, e o cliente tem razão mesmo quando não tem. Claro que os políticos/comentadores têm as suas próprias agendas, exprimem opiniões mais em função dos seus próprios objectivos que por convicções pessoais (quando as têm), por vezes comentam questões em que são claramente parte interessada, e quem os ouve nem sempre sabe disso. Mas não tenhamos ilusões: também os jornalistas raramente podem dizer o que pensam. Por causa da agenda (alguns também têm), por causa do emprego, por causa de outros interesses ou impedimentos. Discordo, igualmente, da ideia de que há excesso de comentadores, sobretudo nas televisões, incluindo comentadores de que tudo parecem ser especialistas, a que alguém muito apropriadamente chamou «tudólogos». Discordo por uma razão: quanto mais comentadores houver, quanto mais espaço de comentário existir, melhor esclarecidos ficarão os cidadãos — a quem cabe, afinal, rejeitá-los se assim o desejarem. O problema de certo jornalismo é esquecer-se demasiadas vezes a quem se destina — aos telespectadores, aos ouvintes, aos leitores. «O comentário para ser credível deve ser feito por pessoas independentes e não por quem tem interesses directos ou indirectos na matéria que comenta», diz o provedor do telespectador da RTP, que publicamente discordou da «aquisição» de Sócrates pela RTP. Em teoria, faz todo o sentido. Na prática, tenho dúvidas. Quem são — e onde estão — os independentes? Quem não tem interesses directos, ou indirectos, nas matérias que comenta? Por acaso achará o provedor que os jornalistas poderão desempenhar cabalmente esse papel? Valerá a pena lembrar que o actual Governo recrutou uma dezena de jornalistas do DN? Foram lá parar graças a quê?
30 de abril de 2013
MAU PORTUGUÊS. Há um programa na RTP (Bom Português) que é uma espécie de inquérito de rua destinado a saber como se escreve, em português, determinada palavra. Até aqui, tudo a louvar. Acontece que ultimamente têm querido saber como se escreve determinada palavra segundo o novo Acordo Ortográfico. Ora, sabendo-se da controvérsia à volta do assunto, sendo mais ou menos certo que o Acordo vai ser rectificado (senão anulado), o que pretende a televisão pública? Recebeu ordens «de cima» para converter os incréus?
26 de abril de 2013
TIRO AO SÓCRATES. Por variadíssimas razões, desde a licenciatura de fim-de-semana ao estado em que deixou o país, passando pelos tiques de autoritarismo e pela má-criação, não tenho estima pessoal ou política por José Sócrates. Mas custa-me vê-lo apoucado por políticos em geral e ex-governantes em particular, que não abririam a boca caso tivessem vergonha na cara. O ex-primeiro-ministro regressou de Paris e, de repente, passou a ser responsável por todos os males da pátria. Ainda não percebi, por exemplo, por que razão devia Sócrates, na entrevista à RTP, pedir desculpas aos portugueses pelos males causados ao país. Não que me escandalize tal prática ou não haja motivos para tal, mas porque nunca vi exigir tal coisa aos antecessores que por aí andam a tagarelar em tudo o que é televisão. Não deviam, também eles, pedir desculpas? Ou o princípio das desculpas só se aplica a Sócrates? Outra coisa que não percebi na entrevista foi a introdução do «fact-checking», mecanismo que se destina a apurar a veracidade do que é dito. O jornalismo português descobriu, de repente, a pólvora, dez séculos após ter sido inventada? A prática veio para ficar? Como não me consta que Sócrates possa voltar a ser primeiro-ministro (ou presidente da República) por decreto, tanto barulho só pode significar uma coisa: têm medo dele. Medo que possa voltar a liderar o PS, como líder ganhar eleições, e ganhando-as voltar a ser primeiro-ministro. Ou, então, Presidente da República, caso se candidate e ganhe. Medo, em suma, da democracia, como dizia o outro o pior dos regimes excluindo todos os outros. Também a mim não me agradam estes cenários. Mas ainda me agrada menos que o queiram afastar por decreto. Pior: desagrada-me não haver políticos capazes de se bater com ele. Coisa, suponho, que não será culpa dele.
COISAS BOAS. Tenho alternado as mais recentes leituras entre Rentes de Carvalho e Nelson Rodrigues. O primeiro, de que leio as últimas páginas de Ernestina, é uma descoberta com algumas décadas que só agora, por via da reedição na Quetzal, disponho dos seus livros. O segundo também descobri há décadas, mas só há pouco consegui deitar a mão a um volume de crónicas publicadas sob o título O Reacionário, que adquiri a pataco num improvável alfarrabista de Manhattan. Não considero que tenha maus livros nas estantes (se considerasse não hesitaria em desfazer-me deles). Mas quando leio estes dois senhores fico cheio de vontade de me desfazer de uns quantos.
A GRANDE MÚSICA. Passei a manhã a ouvir a Norma, de Bellini, cantada por Maria Callas. Apesar de consumidor regular da chamada música clássica, foram escassas as óperas que ouvi, e nenhuma integralmente. De ver, lembro-me de ver uma, num jardim público, mas recordo-me mais do jardim e de quem lá estava que da ópera propriamente dita. Resumindo, ignoro quase tudo sobre ópera. Mas depois da que acabo de ouvir, com passagens que me tocaram profundamente, nada será como dantes.
25 de abril de 2013
25 DE ABRIL. Não sei bem quais foram «os ideais da Revolução dos Cravos», que há anos se diz terem sido traídos. Sei, porém, que o 25 de Abril pôs fim a uma ditadura, e eu sou contra as ditaduras. Também não sei bem se a democracia já viu melhores dias, como se diz nos últimos tempos. Mas também julgo saber que continua a ser o pior dos regimes excluindo todos os outros, como dizia o suspeito do costume. É-me, por isso, absolutamente indiferente que ex-governantes ou agremiações políticas, que agem como donos do regime, se tenham recusado a comparecer nas comemorações oficias do 25 de Abril, alegando que o poder político em funções «está contra o 25 de Abril», ou é contrário aos seus ideais. Indiferente porque o regime não ficou mais frágil sem as suas presenças, e se calhar até será mais forte sem eles. Afinal, para eles a democracia só funciona como tal quando são eles (ou os deles) a mandar, como já o demonstraram em variadíssimas ocasiões. Fizeram bem, portanto, em não pôr lá os pés. A democracia precisa de verdadeiros democratas. Não de quem diz sê-lo, mas não consegue sê-lo para lá do umbigo.
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