12 de julho de 2013
CAVACO (3). Não se vislumbrando como será alcançado um «compromisso de salvação nacional» que passe por um entendimento entre PSD, CDS e PS, como exige Cavaco, qual será o passo seguinte? Aparentemente, um Governo de iniciativa presidencial. Chefiado e constituído por quem? Como a questão ainda não se colocou, só o Presidente saberá. Mas adianto, desde já, um prognóstico: a solução não sairá do papel. Porque o Presidente perdeu a confiança do país para impor uma solução deste tipo. Porque não estou a ver uma figura consensual para chefiar um Governo de «salvação nacional». Porque duvido que os partidos viabilizem uma solução presidencial, tenha ela os contornos que tiver. Contra a sua vontade, Cavaco será, mais dia, menos dia, obrigado a optar pelo cenário que menos deseja: eleições antecipadas antes de Junho do próximo ano. A dúvida é saber quando, e quanto vão custar ao país.
11 de julho de 2013
CAVACO (2). A concretizar-se, o «compromisso de salvação nacional» proposto pelo Presidente da República acabaria, na prática, com a actual oposição, já que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda não conseguiriam, por si só, derrubar o Governo, ou fazê-lo mudar de rumo. O ideal, como em tempos sugeriu Manuela Ferreira Leite, seria suspender a democracia por seis meses, na crise presente talvez por mais algum tempo, e se Manuela na altura estava a brincar, agora começo a ter dúvidas. Embora o PC e o Bloco não me merecem qualquer simpatia, parece-me que o Presidente está a ir longe demais. Dificilmente imaginaria estar de acordo com o líder da CGTP, mas está cheio de razão quando diz que «a declaração do Presidente da República (...) é um condicionamento gravíssimo ao exercício da democracia».
CAVACO (1). Se bem entendi, o Presidente da República defendeu outra solução governamental, logo passou um atestado de incompetência ao actual Governo. A solução que propõe passa por um «compromisso de salvação nacional» (entendimento entre PSD, CDS e PS) até Junho do ano que vem, altura em que haverá eleições — e, à cautela, já foi avisando que o Governo que daí resultar terá que cumprir igual pressuposto. Temos, para começar, que há um Governo em funções que vai estar praticamente em gestão até Junho de 2014 caso não seja possível o tal «compromisso de salvação», se é que se aguenta até lá. Depois, Cavaco condicionou, desde já, o resultado das próximas legislativas, inaceitável em democracia. Finalmente, basta ouvir os analistas para se perceber o óbvio: em vez da instabilidade, que ele sempre disse ser imperioso evitar, resolveu instalar a confusão, o caos, deitar mais gasolina na fogueira.
10 de julho de 2013
9 de julho de 2013
IRREVOGÁVEIS REMENDOS. A confirmar-se as mudanças anunciadas, o primeiro-ministro cedeu em toda a linha ao parceiro de coligação. Se dantes Passos desprezou Portas, agora deu-lhe as chaves do cofre. Vista por um lado, a coisa dá para rir. Vista pelo outro, é inacreditável. Pessoalmente, prefiro Portas a Passos no leme da governação. Mas não foi isso o que os portugueses disseram na últimas legislativas, pois não?
SER E PARECER. Tendo em conta que foi a nova ministra das Finanças quem liderou, enquanto secretária de Estado, o processo de venda da EDP, são legítimas as suspeitas de favorecimento que recaem sobre a contratação do marido por aquela empresa. E mais legítimas se tornam quando, conhecidos os factos, o cavalheiro se apressou a pedir a cessação do contrato que mantinha com a empresa agora liderada pelos chineses. Como não bastassem as dúvidas sobre os «swaps» que recaem sobre Maria Luís Albuquerque, que o bom senso mandaria não «promover» a ministra (além de ter sido a gota que fez transbordar o mal estar na coligação governamental), eis que um novo caso lança ainda mais dúvidas sobre o comportamento da governante, e a fragilizam ainda mais. Decididamente que os governantes desprezam quem representam e a parábola sobre a mulher de César, neste caso se calhar não apenas a parte que respeita às aparências. Será preciso dizer que as suspeitas que recaem sobre a ministra vão estar constantemente a pairar sobre ela e, por arrasto, sobre o Governo de que faz parte?
BOA PERGUNTA. «A que vai ficar reduzido o papel do primeiro-ministro se Paulo Portas passa a ser o responsável pela coordenação económica, pelas negociações com a troika e pela reforma do Estado, num cenário onde é a troika que toma as decisões fundamentais? Ficámos com dois co-primeiros-ministros?» José Vítor Malheiros, Público
5 de julho de 2013
PANTOMINICES. Os governantes que temos puseram os portugueses a pão e água, e pelo modo como as coisas vão caminhando até isso podem tirar-lhes. O retrato é exagerado, mas a verdade é que são cada vez mais os portugueses espoliados dos seus direitos, e só um cego não vê que a miséria cresce de dia para dia. Alguém consegue vislumbrar o desfecho do espectáculo em cena? Até ver, só se viram palpites — mais ou menos fundamentados, mais ou menos verosímeis, mas todos errados. São tantas (e tão contraditórias) as notícias que circulam que duvido que alguém possa, com fundamento, antecipar um desfecho para a pantomina que um bando de irresponsáveis e/ou incompetentes resolveram representar. Imaginem um cenário de eleições antecipadas, talvez inevitável. Estão a ver os militantes e/ou simpatizantes dos partidos no poder (se calhar também os da oposição) a fazer campanha nas ruas sem correrem o risco de serem insultados e, quem sabe, pior? Pelo andar da carruagem, não seria bonito. E não fosse a gravidade que tais actos representariam para o regime que o outro considerou o pior de todos excluindo todos os outros, diria que seria muito bem feito.
2 de julho de 2013
UMA COISA EM FORMA DE ASSIM. Como diria António-Pedro Vasconcelos, a escolha de Maria Luís Albuquerque para render Vítor Gaspar nas Finanças foi um erro de casting. Primeiro, porque há dúvidas sobre o comportamento da nova ministra no caso dos «swaps», que naturalmente a fragilizam, e por arrasto o Governo de que faz parte. Depois, porque a escolha de Passos Coelho não terá agradado a Paulo Portas, e o resultado é conhecido. Perante isto, só faltava o primeiro-ministro vir comunicar ao país não ter aceite a demissão de Portas e implorar o seu regresso (como se fosse possível — e desejável — o regresso de Portas depois do que se passou), uma coisa absolutamente inacreditável. Está visto que mais dia menos dia o poder vai inteirinho para António José Seguro, de que ninguém sabe o que quer e o que pensa, e que também já mostrou propensão para a asneira.
TAPAR O SOL COM A PENEIRA. Nuno Azinheira resolveu insurgir-se contra quem criticou a entrevista de Henrique Cymermann ao presidente angolano com base no seguinte: «Foi Henrique Cymerman, o mesmo que no passado entrevistou o rei Hussein, Isaac Rabin, Yasser Arafat, Ariel Sharon, Mahmoud Abbas, Jimmy Carter, Al Gore, Shimon Peres, José Maria Aznar, Juan Carlos, José Eduardo dos Santos e agora o Papa Francisco.» Currículo, na sua opinião, que devia calar as críticas, incluindo, naturalmente, a minha. De facto, o currículo enunciado por Azinheira impressiona. Mas já tenho dúvidas que impressione pelas melhores razões. Afinal, qual das figuras citadas não gostaria de ter sido entrevistada da forma (vergonhosa, insisto) como foi entrevistado Eduardo dos Santos?
28 de junho de 2013
MORALISTAS DE OCASIÃO. Finalmente, Edward Snowden terá conseguido refúgio num país conhecido — e admirado — pela liberdade que concede aos seus cidadãos, onde não existem escutas telefónicas, vigilância da internet, coisas assim. Se tudo correr bem, dentro de poucos dias estará a jogar à bisca com Julian Assange, outro paladino da liberdade que elegeu o Equador como país modelo das virtudes que apregoa. Só espero que na fuga de Snowden não haja mão de Baltasar Garzón, como muitos garantem. É que o meritíssimo juiz, que se distinguiu por levar à justiça um certo tipo de ditadores e por fazer vista grossa sobre outros iguais ou piores, foi corrido do cargo por ter ordenado escutas ilegais (sim, ilegais), pelo que talvez não tenha autoridade moral para agora vir defender um cavalheiro que revelou escutas legais. Sim, tudo indica que as escutas do Governo americano foram legais. Goste-se, ou não, da ideia.
PRIMAVERA TROPICAL, DIZEM ELES. O tempo dirá se é bom ou mau o que está a ocorrer no Brasil. Para já, é visível que o poder treme que nem varas verdes, e pouco mais. As manifestações por todo o país já levaram o Governo a desistir de aumentar os transportes e da chamada Lei da Impunidade, o Supremo Tribunal apressou-se a fazer cumprir a ordem de prisão de um deputado que ele mesmo condenou por corrupção (coisa que já não sucedia há um quarto de século), e o Senado acaba de aprovar uma lei que passa a designar a corrupção como um «crime hediondo». Aparentemente, tudo boas notícias. Mas palpita-me que a cedência em toda a linha e em tão curto espaço de tempo ainda vai acabar mal.
26 de junho de 2013
OUTRA VEZ A GREVE DOS PROFESSORES. A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) e Mário Nogueira são, provavelmente, a agremiação sindical e o sindicalista mais odiados dos portugueses, na minha opinião com inteira razão. Embora uma e outro se movam segundo a vontade dos seus membros (grande parte dos professores do ensino público), a verdade é que eles atraem o ódio da generalidade dos cidadãos que em matéria laboral vivem muitos furos abaixo, e não têm, como os professores, possibilidade de fazer greve por tudo e por nada. Não, não me parece que por inveja. Mas por ser um direito que, na prática, eles sabem não ter, e que vêem os outros usar de forma incompreensível. Não é admissível que os professores sejam obrigados a fazer 40 horas semanais, como pretende a tutela? Que sejam colocados num regime que designaram por mobilidade especial? Com certeza que ninguém gosta de perder direitos, alguns deles muito difíceis de conquistar. Mas quantos trabalhadores do sector privado, professores incluídos, têm direito a contemplações na hora em que a entidade patronal decidir que já não são precisos? Como é sabido, vão direitinhos para o desemprego, e não há requalificação que os valha. Depois há outro factor de que raramente se fala, e é bom não esquecer: os professores do ensino público querem ser eles a ditar as regras das escolas e o seu papel dentro delas. Será preciso dizer que no ensino privado isto seria absurdo? E que o Governo, por mais absurdas que sejam as medidas que tome, tem a legitimidade para as tomar que os professores não têm?
21 de junho de 2013
DESTES JÁ NÃO SE FAZEM. Revi Conversas Vadias, para quem não sabe uma série de 13 entrevistas que o professor Agostinho da Silva concedeu à RTP nos anos 90. Tinha eu nessa altura trinta e poucos, e das poucas que então vi pouco ou nada recordo. Vistas agora, surpreendeu-me a impreparação da generalidade dos entrevistadores, ao que sei a fina flor do jornalismo da época (mas não só do jornalismo), que não poucas vezes se perderam nos labirínticos raciocínios do professor e/ou desempenharam um papel que não era o deles. Foram incontáveis as vezes que o interromperam para lhe fazer perguntas a despropósito e sem qualquer motivo lhe cortaram o raciocínio, não poucas vezes com o único propósito de tentarem brilhar como entrevistadores. Os que se portaram pior foram Adelino Gomes, Baptista-Bastos e Joaquim Vieira, de certa maneira uma surpresa. Sobretudo este último, que desde o início procurou apoucar, sem sucesso, o entrevistado. Que passou toda a entrevista armado em carapau, tentando exibir conhecimentos que claramente não tinha. Que a acutilância do entrevistado acabou por colocar no devido lugar, criando-lhe situações tão embaraçosas como hilariantes, virando o feitiço contra o feiticeiro. Claro que não era fácil entrevistar Agostinho da Silva, e nalguns casos notou-se bastante. Afinal, o professor de tudo parecia saber, saltava de assuntos complexos para assuntos complexíssimos como quem se diverte a saltar à corda, por vezes deixava cair ideias tão originais como desconcertantes — e o abismo entre quem perguntava e quem respondia crescia rapidamente. Escusado dizer que aconselho as Conversas a quem nunca as viu (todas no YouTube), e a quem as viu nos anos 90 que as reveja, que seguramente irá ver o que não viu antes, como sucedeu a este vosso criado. Surpreendentemente, a entrevista que mais gostei foi conduzida por dois jovens estudantes, que fizeram perguntas pertinentes, inteligentes, despretensiosas. Também gostei da entrevista do Herman e da Isabel Barreno. Mas podem começar pela última, a de Joaquim Vieira, que a ordem não tem importância — e talvez seja um aperitivo para as restantes.
20 de junho de 2013
VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Como fosse preciso, a justiça que temos voltou a demonstrar, no caso do cavalheiro que insultou o Presidente da República durante as cerimónias do Dia de Portugal, que é célere quando se trata de cidadãos anónimos, e quando não são move-se como o caracol. Miguel Sousa Tavares insultou o Presidente da República durante uma entrevista, recusou pedir desculpa por aquilo que o próprio considerou excessivo, e continua por aí. Não se sabe se será acusado, se houver acusação suspeita-se que vai demorar anos a resolver, e não será preciso ser astrólogo para adivinhar o desfecho. Já o cidadão Carlos Costal foi um caso em que o Tribunal de Elvas não teve dúvidas, e para resolver de forma urgentíssima. Dois dias bastaram para o julgar e condenar a pagar uma multa de 1300 euros, que o Ministério Público considerou «inadmissível» e se apressou a anular. Como novamente ficou demonstrado, a justiça exige respeitinho, mas não se dá ao respeito. Pior: tornou-se risível para quem se pode defender, e cada vez mais perigosa para quem não pode fazê-lo. Bem sei que há dois ou três figurões na cadeia, que apesar das mil e uma artimanhas não conseguiram escapar. Mas essas são excepções, a que a justiça desesperadamente se agarra para tentar demonstrar, até ver sem sucesso, que a todos trata por igual.
JOHN McLAUGHLIN. Vinte anos depois, outra vez John McLaughlin, de novo no Blue Note. A primeira vez em trio — um baixista quase em transe, um baterista de joelhos a tocar com as mãos, e, claro, John McLaughlin, então muito além do que fui capaz de assimilar. Agora com Gary Husband (teclados e bateria), Etienne Mbappé (baixo eléctrico) e Ranjit Barot (bateria), três músicos à altura do «mestre». No primeiro concerto acompanharam-me dois músicos, ambos guitarristas. Ontem acompanhou-me o meu filho, que aos vinte e poucos «tem melhor ouvido» do que eu tinha aos trinta e muitos. As expectativas eram altíssimas, o resultado ficar-me-á para sempre.
18 de junho de 2013
TELHADOS DE VIDRO. Eu também teria imenso prazer que Manuela Ferreira Leite tivesse feito, enquanto governante e presidente do PSD, um trabalho melhor do que fez, que os portugueses se recordassem dela pelas melhores razões. Infelizmente, a ex-ministra das Finanças contribuiu, como tantos outros, para o estado a que as coisas chegaram. Mais valia, por isso, calar-se quando aponta o dedo à esquerda e à direita, incluindo aos governantes da sua própria família política. Até para atirar pedras é preciso um mínimo de credibilidade, coisa que Manuela Ferreira Leite manifestamente não tem.
14 de junho de 2013
MAIS BALELAS ORTOGRÁFICAS. De facto, esquecer-se de noticiar que o primeiro-ministro português e a presidente do Brasil insistem na burrice apesar de todas as evidências, não me parece normal, como notou Seixas da Costa. Mas se isso não me parece normal, já me parece excessivo concluir-se que o esquecimento do Público se deva à discordância do jornal com o novo Acordo Ortográfico. Afinal, o Público é o jornal que mais espaço tem dado ao assunto, e não só a quem o ataca. Esquecer-se de noticiar a burrice de Passos e Dilma não retira um só argumento a favor — ou contra — o Acordo. Assim sendo, que necessidade teria o jornal de recorrer à omissão (ou censura) para impor o seu ponto de vista? Como se tem visto, até os defensores do Acordo já admitiram a existência de erros grosseiros (convenhamos que não é fácil ignorá-los), e que tem de ser revisto. Aliás, quantos mais detalhes do Acordo se vão conhecendo, mais evidente se torna que a coisa não tem ponta por onde se lhe pegue. Não são, portanto, necessários truques, omissões ou outros malabarismos para o demonstrar. Os factos chegam e sobejam.
A GREVE DOS PROFESSORES. Alguém me sabe dizer quantas greves fizeram os professores do ensino público desde que vivemos em democracia? Um só nome de um ministro que eles tenham considerado capaz? Não discuto os motivos que os professores e seus representantes agora invocam para boicotar os exames, que a falta de paciência para o assunto me aconselha a ignorar. Mas bastou-me ouvir a Federação Nacional de Professores dizer que está disponível para dialogar com o Governo «mesmo ao fim de semana» para constatar que nada mudou. Pelos vistos, as crises, para eles, discutem-se apenas durante a semana, mas tendo em conta não sei bem o quê estão dispostos a abrir uma patriótica excepção e discutir ao fim de semana. A coisa fez-me lembrar a guerra do Solnado, em que uns disparavam às segundas, às quartas e às sextas, e os outros às terças, às quintas e aos sábados. Aos domingos fechava a guerra, que os guerreiros também eram gente. A diferença é que a guerra do Solnado era a brincar.
11 de junho de 2013
OUTRA VEZ A BALELA ORTOGRÁFICA. Por onde andarão os arautos do Acordo Ortográfico, que há muito não se ouvem? Os jornais publicam semanalmente textos a desancar o Acordo e quem o pariu, e as criaturas não se ouvem, não se vêem, não se sabe se pensam o mesmo ou se mudaram de ideias. Esgotaram os argumentos? Como sempre foram escassos e pobrezinhos, e nunca concretos, não me surpreenderia. O que é feito do professor Carlos Reis, que em tempos vi defender, como mais sobranceria que argumentos, o novo Acordo? E qual é, já agora, a missão do grupo parlamentar especialmente criado para o efeito (o site do Parlamento é omisso sobre as suas funções), e o que tem feito?
7 de junho de 2013
UM NOJO.
Alertado para a entrevista de José Eduardo dos Santos à SIC, sobre a qual o Daniel Oliveira já disse o que havia a dizer (por uma vez concordo com ele), fui ver. De facto, a coisa podia resumir-se desta maneira: abaixo de cão. O jornalista Henrique Cymerman ri-se constantemente de quê? É só incompetente, não teve tempo para se preparar, recebeu instruções do altíssimo para não perguntar o que devia, ou pura e simplesmente não tem vergonha na cara? E a SIC? Achou normal pôr aquilo no ar? E gabar-se de ter conseguido uma «entrevista» em exclusivo com quem não dá uma há mais de duas décadas? Ou achará a SIC que os fins, a haver, justificam os meios? Alegarão o jornalista e a SIC que não havia condições para fazer melhor. Pelo que vi, a desculpa não cola. Mas se assim foi, se não havia condições para cumprir os mínimos, havia uma saída: não se fazia. Poupar-se-iam a esta triste figura, e ao enxovalho mais que merecido.
Alertado para a entrevista de José Eduardo dos Santos à SIC, sobre a qual o Daniel Oliveira já disse o que havia a dizer (por uma vez concordo com ele), fui ver. De facto, a coisa podia resumir-se desta maneira: abaixo de cão. O jornalista Henrique Cymerman ri-se constantemente de quê? É só incompetente, não teve tempo para se preparar, recebeu instruções do altíssimo para não perguntar o que devia, ou pura e simplesmente não tem vergonha na cara? E a SIC? Achou normal pôr aquilo no ar? E gabar-se de ter conseguido uma «entrevista» em exclusivo com quem não dá uma há mais de duas décadas? Ou achará a SIC que os fins, a haver, justificam os meios? Alegarão o jornalista e a SIC que não havia condições para fazer melhor. Pelo que vi, a desculpa não cola. Mas se assim foi, se não havia condições para cumprir os mínimos, havia uma saída: não se fazia. Poupar-se-iam a esta triste figura, e ao enxovalho mais que merecido.
COISAS INFANTIS. Se bem entendi, Miguel Sousa Tavares voltou, na entrevista a RTP, a admitir que se excedeu, mas não põe a hipótese de pedir desculpa ao Presidente da República — e está, por isso, disposto a pagar pelo erro. Ora, se admite que se excedeu, qual é o problema em pedir desculpa? Confesso que não percebo. Miguel Sousa Tavares diz não ter, do ponto de vista político, consideração por Cavaco Silva, nem tem, obviamente, que ter. Mas continuo a não ver em que isso o impede de pedir desculpa. Parece-me, aliás, uma birra infantil. Admitir que se errou e não pedir desculpa pelo erro é uma coisa que ultrapassa a minha compreensão.
6 de junho de 2013
GRAFITAS. Um pândego que dá pelo nome artístico Mesk e se intitula writer declarou ao Público que vai entrar em guerra com a Câmara do Porto. Porque uma brigada daquele município decidiu, «às cegas», limpar os graffitis na baixa portuense, porque na opinião dele a limpeza deve ser feita de forma ponderada e após juízo crítico sobre o que se limpa, porque não se pode meter tudo no mesmo saco. Daí sugerir que se analise o que por aí anda antes de proceder à limpeza. Hazul Luzah, outro activista da seita, foi mais longe: a Câmara deveria apoiar os writers e disponibilizar-lhes paredes para que eles possam livremente derramar o que lhes vai na alma. Estão a ver uma comissão a analisar graffiti por graffiti, decidir o que é bom e não presta? Os sujeitos acham não só que é possível como é desejável, e assim sendo não há muito a fazer. Imagino que apreciar graffitis é ser culto, moderno, cosmopolita, e quem não aprecia é o contrário. Mas devo dizer que geralmente não aprecio, e ainda aprecio menos o direito que os sujeitos julgam ter para os fazer onde bem lhes apetecer. Por que carga de água hão-de os transeuntes ser obrigados a ver as suas «obras», e por que razão hão-de os contribuintes pagar a limpeza das paredes onde elas são derramadas?
5 de junho de 2013
COISAS QUE ME DEPRIMEM. A propósito deste caso, para o qual o Filipe chamou a atenção, vale a pena ler este trabalho publicado no Washington Post, e este na Vanity Fair. Sete anos passados no primeiro caso e dois no segundo, o assunto mantém-se actualíssimo.
4 de junho de 2013
OS PORTUGUESES NÃO QUEREM TRABALHAR. Depois do «ai aguenta, aguenta» de Fernando Ulrich, querendo dizer que o Governo ainda pode aumentar mais os impostos, o presidente do Banco Espírito Santo veio dizer que «os portugueses não querem trabalhar», antes preferem viver do subsídio de desemprego (Ricardo Salgado deve estar convencido que os milhares de portugueses que nos últimos meses emigraram foram passar férias). Definitivamente que os nossos banqueiros, que têm ganho rios de dinheiro à custa de negócios ruinosos para o Estado, não têm um pingo de vergonha. Imagina-se que os bancos que dirigem ganhariam mais caso os portugueses trabalhassem mais. Assim sendo, quem os impede de mudar de país, de se mudarem para onde se trabalha e produz mais? Impede-os, é claro, uma razão de peso: não encontrariam um Estado como o nosso, que descaradamente controlam e sugam até à medula.
31 de maio de 2013
BOLA. Presumo que as televisões, pelo menos as privadas, dão aos clientes o que eles querem ver. Goste-se, ou não, do que lhes é oferecido. Também acho excessivo que se abra o Jornal da Tarde da RTP com o rescaldo da Taça de Portugal, como ainda há pouco sucedeu, e como não chegasse a coisa prolongou-se por intermináveis minutos. Mas se neste caso falamos da televisão pública, mais questionável que as outras, há pouco a dizer sobre as privadas. Devo dizer, já agora, que geralmente me incomodam mais os comentários anti-bola que os excessos da dita. Já repararam que os anti-bola são tão ou mais insuportáveis como os fanáticos da bola? Nalguns casos, piores, que os segundos pelo menos são genuínos, e os primeiros nunca se sabe.
30 de maio de 2013
FUGIR AO PROBLEMA. Os impostos não cobrados sobre o dinheiro escondido em paraísos fiscais daria para «acabar duas vezes com a pobreza extrema no mundo», dizia, há dias, uma organização não-governamental, segundo a qual há 14 biliões de euros escondidos, dois terços dos quais na União Europeia, de que anualmente resulta uma perda de 120 mil milhões de euros em receita fiscal. Somando a isto os impostos que nem precisam dos paraísos fiscais para não ser pagos, ou pagos na totalidade, é obscena a quantidade de dinheiro que circula apenas em benefício de uns poucos e em prejuízo dos restantes. É preciso acabar com isto, disse a União Europeia pela enésima vez, mas a realidade é que nem a uma lista de países que promovem essas práticas consegue chegar. E porquê? Porque alguns países que integram a União Europeia beneficiam com os paraísos fiscais, Portugal incluído. Temos, assim, que a União está interessada em resolver o problema, mas não está interessada em resolver problema nenhum. Como diria o outro, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
29 de maio de 2013
A MEDIOCRIDADE QUE NOS GOVERNA. Viram o vídeo onde um eurodeputado se insurge contra quem, na sua opinião, não tem legitimidade para mandar na Europa? Se viram, hão-de ter reparado em Durão Barroso a fingir que procura não sei o quê durante todo o discurso, e quando o dito termina também ele dá por finda a inadiável procura. Devo dizer que o presidente da Comissão Europeia nunca foi da minha simpatia, e esbanjou o escasso respeito que lhe tinha quando trocou o cargo de primeiro-ministro por mais interessantes pastagens. Mas nunca pensei que se tornasse um símbolo dos políticos que há, da União Europeia que temos — uma coisa cada vez mais artificial, cada vez menos democrática, cada vez mais distante dos cidadãos. Durão Barroso é o mais rematado exemplo da mediocridade que nos governa.
24 de maio de 2013
PALHAÇADAS. Chamar «palhaço» ao Presidente da República é, de facto, excessivo, e ao que parece punível por lei. Fez bem, portanto, Miguel Sousa Tavares admitir que se excedeu, provavelmente mais por temer o processo que aí vem que por arrependimento, digamos, genuíno. É que Sousa Tavares já tentou contextualizar o que disse, isto é, dividir com terceiros (entrevistadora e/ou editores do Jornal de Negócios) a culpa do sucedido. Também não aprecio o actual Presidente, sobretudo a partir da palhaçada das escutas que admitiu ter sido alvo por parte do anterior Governo, que rapidamente se percebeu terem sido inventadas pelos seus colaboradores, com, ou sem, o seu conhecimento. Mas chegar onde chegou Sousa Tavares, é inadmissível. Adivinha-se que o processo, a haver, acabará por questionar a natureza do que foi dito. Afinal, há sempre a possibilidade de «palhaço» não ser ofensivo, pois sabemos que «palhaço» também pode ser uma actividade respeitável — e os tribunais funcionam como se sabe. Surpreende-me, por isso, que Sousa Tavares já tenha admitido um erro que juridicamente ainda está por demonstrar que cometeu.
22 de maio de 2013
UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA. Os ex-ministros das Finanças ora são os responsáveis pela ruína do país, ora são as respeitadas figuras que é preciso ouvir com toda a atenção. Quando dá jeito, fala-se deles com nostalgia e veneração; quando não dá, apanham todos pela medida grande. Não há pachorra para as opiniões que variam de manhã para a tarde, consoante faz chuva ou faz sol. Falo dos espaços de comentário que nos últimos anos tomaram conta das televisões. Umas vezes devido à ignorância dos comentadores, outras devido às agendas dos intervenientes, frequentemente devido às duas coisas.
17 de maio de 2013
NÃO VOU COMENTAR. Sempre que um governante — ou dirigente político — é confrontado pelos jornalistas com perguntas incómodas, geralmente acaba a dizer: «Não vou comentar.» Os mais expeditos não só não respondem como aproveitam a ocasião/tempo de antena para dizer o que lhes convém, e sempre que tal acontece os jornalistas metem o rabinho entre as pernas e divulgam o que só aos políticos interessa. Ora, os jornalistas deviam pôr fim a isto. Os políticos não respondem ao que lhe perguntam? Então não há notícia — ou a notícia será a pergunta que o político recusou responder, acrescentada das possíveis razões para a recusa. Veriam que o silêncio não seria boa ideia.
O ABORTO ORTOGRÁFICO. Aprovada coadoção por casais homossexuais (Diário de Notícias). Co-adoção por casais do mesmo sexo foi aprovada (Correio da Manhã). Parlamento aprova co-adopção por casais homossexuais (Público).
15 de maio de 2013
DÉJÀ VUE. Conheço Carlos Abreu Amorim da blogosfera, onde publicou variadíssimos textos com os quais quase sempre estive de acordo. (O comentário político na TV que veio a seguir à blogosfera praticamente não vi.) Foi, por isso, sem surpresa que o vi candidato a deputado, e ser eleito. A surpresa viria depois. Como chegou ele tão rapidamente a vice-presidente da bancada parlamentar social-democrata? Não tendo, que me conste, qualquer experiência partidária antes de ser deputado, a que se deveu o milagre? Vejo-o agora, na condição de candidato à Câmara de Gaia, pedir o afastamento do ministro das Finanças, porque «o tempo político de Vítor Gaspar terminou», e «o país precisa de uma nova etapa». Independência de espírito de Abreu Amorim? Honestamente, duvido. O candidato à Câmara de Gaia já percebeu que é preciso descolar rapidamente do «patinho feio» do Governo de Passos Coelho para agradar aos potenciais eleitores, e em nome disso vale tudo e o seu contrário. Como alguém já escreveu, Abreu Amorim é novo na política, mas aprendeu depressa o pior que ela tem.
13 de maio de 2013
10 de maio de 2013
CAMPEÃO DA CHICO-ESPERTICE. O treinador do FC Porto afirmou, há uma semana, que o Estoril não tinha hipóteses de conquistar pontos ao Benfica, insinuando que por aldrabices. No dia seguinte, a imprensa desportiva escreveu abundantemente: «Vítor Pereira atirou a toalha ao chão.» Dois ou três dias depois, o FC Porto ganhou ao Setúbal, e os jornais titularam: «Jogadores recusam-se a deitar toalha ao chão.» No dia a seguir o Benfica perdeu dois pontos frente ao Estoril, e no Dragão reacendeu-se o sonho do título. Acossado pelas críticas, e colocado perante a perda de pontos do Benfica (que lhe estragaram a teoria), o treinador do FC Porto corrigiu a pontaria dizendo que as palavras por ele proferidas se destinaram a exercer «pressão psicológica» sobre o adversário, estratégia cujo resultado (empate a um golo) lhe deu razão. Resumindo, Vítor Pereira resolveu fugir para a frente. Deve ser por estas e outras como estas que não será treinador do FC Porto na próxima época. Seja, ou não, campeão.
SER OU NÃO SER. É fácil, barato e muitíssimo popular dizer-se que determinado jornalista foi afastado de determinada redacção por ter feito algo que politicamente não agradou às chefias. De facto, não me lembro de um único caso em que um jornalista tenha sido despedido (ou demitido de um cargo) por incompetência, falta de profissionalismo, ou coisa que o valha. A fazer fé no que se tem dito, os despedimentos/afastamentos de jornalistas configuraram invariavelmente atentados à liberdade de expressão, actos de censura. Não sei se é o caso Ana Leal vs Judite de Sousa, de que só conheço o que saiu nos jornais. Convém, no entanto, não fazer juízos apressados, não julgar pelas aparências. Provavelmente nunca saberemos quem tem razão e não tem, se o caso traz água no bico ou não tem história. Mais uma razão, portanto, para não endeusar uns e demonizar outros. Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
JORNALISMO BARATO QUE SAI CARO. O jornalista X da publicação Y viajou a convite de Z. É isto o que dizem as publicações mais sérias (as outras omitem-no) sempre que se deslocam ao estrangeiro para fazer uma reportagem, cada vez com maior frequência, porque ficarão com um problema de consciência caso não o assumam. É bom, de facto, que os leitores conheçam as circunstâncias em que a reportagem foi feita sempre que as circunstâncias possam interferir no que se faz. Mas será preciso dizer que não há almoços grátis, que não se morde a mão de quem nos dá de comer? Constatar a evidência serve, de facto, de pouco consolo. Ainda agora li que o jornalismo de investigação praticamente morreu. Porque é caríssimo, e cada vez há menos dinheiro até para o mais básico. É um facto, nota-se bastante, e há muito. Mas nos tempos que correm já me contentaria se o jornalismo viajasse pelos seus próprios meios. Não investigar é preocupante, não há dúvida que é. Mas fazer fretes é inadmissível.
8 de maio de 2013
O MANICÓMIO. O primeiro-ministro anunciou ao país um «pacote» de austeridade, e dois dias depois o segundo ministro (há quem diga ser o terceiro) afirmou discordar. Confusos? Não é caso para tanto. Afinal, falamos de Portugal, país onde tudo acontece, inclusive fenómenos que nem a imaginação mais delirante se atreveria a prever. Quando o senso comum aconselharia que as medidas de austeridade anunciadas por Passos Coelho fossem primeiro discutidas — e aprovadas — no interior do Governo, eis que o dito vem à praça pública esgrimir discordâncias, ainda por cima quando acaba de eleger o consenso como supremo desígnio da pátria. Bem sei que há quem garanta que tudo isto não passou de uma tragicomédia, embora destinada não sei bem a quê. Mas como poderá a oposição chegar a um consenso com gente assim?
3 de maio de 2013
ARTE CONCEPTUAL. De um modo geral, não simpatizo com a arte dita conceptual, que as enciclopédias definem como a arte em que a ideia é mais importante que a obra. Quando muito reconheço-lhe utilidade (alertar para situações para as quais é importante alertar que doutro modo passariam despercebidas, por exemplo), e pouco mais. Tirando isso, o escasso mérito da dita é valorizar, por contraste, o que é bom. Estou, aliás, convencido de que a arte conceptual afasta mais gente da arte em geral que aproxima, alguns de forma irremediável. Serve, igualmente, para alguns desculparem (nalguns casos legitimarem) a ignorância ou desinteresse pela arte, aproveitando o que geralmente é um embuste para desvalorizar tudo o que não «entendem» e/ou não lhes interessa — para não falar dos artistas (com aspas ou seu aspas) conceptuais, cujo talento se resume a ter ideias (por vezes boas), à capacidade de chocar, e à autopromoção. Tirando excepções, a arte conceptual é um embuste destinado a impressionar os pategos, e a avaliar pela quantidade deles que se persignam à sua passagem é muito eficaz. Não sei se é o caso de Joana Vasconcelos, de que agora tanto se fala, cuja obra (com aspas ou sem aspas) conheço mal. Mas parece-me bem que se questione o que faz. Bem sei que a arte conceptual por vezes se situa entre a genialidade e o bluff, pelo que não é fácil distinguir uma coisa da outra. E sei, também, que a arte digna desse nome não é para todos, e não me venham com histórias da carochinha. Mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que andam por aí demasiados gatos a ser vendidos por lebres, alguns com o beneplácito de sumidades (com aspas ou seu aspas) de vária ordem, que nos afiançam ser do melhor. Convém, por isso, questionar o que se faz, avaliar antes de consumir, degustar antes de engolir. Até para valorizar o que é realmente bom.
FRUTA DA ÉPOCA. Desculpem a frontalidade, mas sempre me pareceu que António José Seguro é uma anedota. Uma anedota que as notícias diariamente confirmam, e que já vem do tempo em que Seguro era oposição a Sócrates. A última de que há memória reza que Seguro está pronto para governar, mas quanto lhe perguntaram como tenciona resolver os problemas, respondeu que os resolva quem os criou (leia-se o Governo em funções). Resumindo, Seguro governa, os outros que resolvam os problemas. E acaba ele de ser reconduzido na chefia do PS pela maioria dos seus militantes, como se os seus militantes vissem nele o líder que manifestamente não é. Infelizmente, a oposição limitou-se a ir ao congresso assinar o ponto, sorrir para a fotografia, e continua a aguardar melhores dias. São os políticos que há.
CHOQUE E ESPANTO. Não faço a mínima ideia acerca da qualidade do romance Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, que o crítico António Guerreiro considerou «um amontoado de histórias» e uma «falácia metanarrativa» (ligação disponível só para assinantes). Também não sei se o livro anterior de Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros) é bom ou mau, e não me espanta que o livro agora em análise tenha vencido a última edição do Prémio Leya. Espantoso é o Público dar uma estrela a um livro (a escala vai de 1 a 5), que o Público é todo estrelas quando aprecia autores portugueses. Mudou o critério, ou o livro é abaixo de cão?
2 de maio de 2013
COMENTADORES. Não sei se o comentário político nos media devia estar reservado, apenas, aos jornalistas, como defendem alguns. Mas já me parece excessiva a quantidade de políticos, no activo ou não, que proliferam por tudo o que é espaço de comentário. Não tenho dados que permitam demonstrá-lo, mas suspeito que os políticos geram audiências — telespectadores, ouvintes, leitores. Cai assim, portanto, a ideia sobre quem deve opinar sobre o quê, porque são as audiências que os desejam, e o cliente tem razão mesmo quando não tem. Claro que os políticos/comentadores têm as suas próprias agendas, exprimem opiniões mais em função dos seus próprios objectivos que por convicções pessoais (quando as têm), por vezes comentam questões em que são claramente parte interessada, e quem os ouve nem sempre sabe disso. Mas não tenhamos ilusões: também os jornalistas raramente podem dizer o que pensam. Por causa da agenda (alguns também têm), por causa do emprego, por causa de outros interesses ou impedimentos. Discordo, igualmente, da ideia de que há excesso de comentadores, sobretudo nas televisões, incluindo comentadores de que tudo parecem ser especialistas, a que alguém muito apropriadamente chamou «tudólogos». Discordo por uma razão: quanto mais comentadores houver, quanto mais espaço de comentário existir, melhor esclarecidos ficarão os cidadãos — a quem cabe, afinal, rejeitá-los se assim o desejarem. O problema de certo jornalismo é esquecer-se demasiadas vezes a quem se destina — aos telespectadores, aos ouvintes, aos leitores. «O comentário para ser credível deve ser feito por pessoas independentes e não por quem tem interesses directos ou indirectos na matéria que comenta», diz o provedor do telespectador da RTP, que publicamente discordou da «aquisição» de Sócrates pela RTP. Em teoria, faz todo o sentido. Na prática, tenho dúvidas. Quem são — e onde estão — os independentes? Quem não tem interesses directos, ou indirectos, nas matérias que comenta? Por acaso achará o provedor que os jornalistas poderão desempenhar cabalmente esse papel? Valerá a pena lembrar que o actual Governo recrutou uma dezena de jornalistas do DN? Foram lá parar graças a quê?
30 de abril de 2013
MAU PORTUGUÊS. Há um programa na RTP (Bom Português) que é uma espécie de inquérito de rua destinado a saber como se escreve, em português, determinada palavra. Até aqui, tudo a louvar. Acontece que ultimamente têm querido saber como se escreve determinada palavra segundo o novo Acordo Ortográfico. Ora, sabendo-se da controvérsia à volta do assunto, sendo mais ou menos certo que o Acordo vai ser rectificado (senão anulado), o que pretende a televisão pública? Recebeu ordens «de cima» para converter os incréus?
26 de abril de 2013
TIRO AO SÓCRATES. Por variadíssimas razões, desde a licenciatura de fim-de-semana ao estado em que deixou o país, passando pelos tiques de autoritarismo e pela má-criação, não tenho estima pessoal ou política por José Sócrates. Mas custa-me vê-lo apoucado por políticos em geral e ex-governantes em particular, que não abririam a boca caso tivessem vergonha na cara. O ex-primeiro-ministro regressou de Paris e, de repente, passou a ser responsável por todos os males da pátria. Ainda não percebi, por exemplo, por que razão devia Sócrates, na entrevista à RTP, pedir desculpas aos portugueses pelos males causados ao país. Não que me escandalize tal prática ou não haja motivos para tal, mas porque nunca vi exigir tal coisa aos antecessores que por aí andam a tagarelar em tudo o que é televisão. Não deviam, também eles, pedir desculpas? Ou o princípio das desculpas só se aplica a Sócrates? Outra coisa que não percebi na entrevista foi a introdução do «fact-checking», mecanismo que se destina a apurar a veracidade do que é dito. O jornalismo português descobriu, de repente, a pólvora, dez séculos após ter sido inventada? A prática veio para ficar? Como não me consta que Sócrates possa voltar a ser primeiro-ministro (ou presidente da República) por decreto, tanto barulho só pode significar uma coisa: têm medo dele. Medo que possa voltar a liderar o PS, como líder ganhar eleições, e ganhando-as voltar a ser primeiro-ministro. Ou, então, Presidente da República, caso se candidate e ganhe. Medo, em suma, da democracia, como dizia o outro o pior dos regimes excluindo todos os outros. Também a mim não me agradam estes cenários. Mas ainda me agrada menos que o queiram afastar por decreto. Pior: desagrada-me não haver políticos capazes de se bater com ele. Coisa, suponho, que não será culpa dele.
COISAS BOAS. Tenho alternado as mais recentes leituras entre Rentes de Carvalho e Nelson Rodrigues. O primeiro, de que leio as últimas páginas de Ernestina, é uma descoberta com algumas décadas que só agora, por via da reedição na Quetzal, disponho dos seus livros. O segundo também descobri há décadas, mas só há pouco consegui deitar a mão a um volume de crónicas publicadas sob o título O Reacionário, que adquiri a pataco num improvável alfarrabista de Manhattan. Não considero que tenha maus livros nas estantes (se considerasse não hesitaria em desfazer-me deles). Mas quando leio estes dois senhores fico cheio de vontade de me desfazer de uns quantos.
A GRANDE MÚSICA. Passei a manhã a ouvir a Norma, de Bellini, cantada por Maria Callas. Apesar de consumidor regular da chamada música clássica, foram escassas as óperas que ouvi, e nenhuma integralmente. De ver, lembro-me de ver uma, num jardim público, mas recordo-me mais do jardim e de quem lá estava que da ópera propriamente dita. Resumindo, ignoro quase tudo sobre ópera. Mas depois da que acabo de ouvir, com passagens que me tocaram profundamente, nada será como dantes.
25 de abril de 2013
25 DE ABRIL. Não sei bem quais foram «os ideais da Revolução dos Cravos», que há anos se diz terem sido traídos. Sei, porém, que o 25 de Abril pôs fim a uma ditadura, e eu sou contra as ditaduras. Também não sei bem se a democracia já viu melhores dias, como se diz nos últimos tempos. Mas também julgo saber que continua a ser o pior dos regimes excluindo todos os outros, como dizia o suspeito do costume. É-me, por isso, absolutamente indiferente que ex-governantes ou agremiações políticas, que agem como donos do regime, se tenham recusado a comparecer nas comemorações oficias do 25 de Abril, alegando que o poder político em funções «está contra o 25 de Abril», ou é contrário aos seus ideais. Indiferente porque o regime não ficou mais frágil sem as suas presenças, e se calhar até será mais forte sem eles. Afinal, para eles a democracia só funciona como tal quando são eles (ou os deles) a mandar, como já o demonstraram em variadíssimas ocasiões. Fizeram bem, portanto, em não pôr lá os pés. A democracia precisa de verdadeiros democratas. Não de quem diz sê-lo, mas não consegue sê-lo para lá do umbigo.
ISALTINO MORAIS. Ainda é cedo para a justiça deitar foguetes, como já vi quem sugerisse. Vendo bem, a justiça nem tem razões para tanto. Há quantos anos condenou Isaltino Morais a variadíssimos crimes? Se bem me lembro, há mais de três. Encarcerá-lo só agora, meia centena de recursos depois, será, quando muito, um alívio.
23 de abril de 2013
PACIFISTAS DE OCASIÃO. Passam-se meses e anos sem que os «pacifistas» escrevam uma linha sobre atentados terroristas aqui e além, que vêm ocorrendo com tal regularidade que nalguns lados já quase se tornou rotina. Mas quando os atentados terroristas atingem solo americano e se lamenta o sucedido, logo vêm os sujeitos lembrar que ainda ontem houve um atentado não sei onde de que ninguém falou ou chorou os seus mortos. Esquecem-se os «pacifistas» nestas ocasiões de um pormenor: ninguém falou deles ou chorou os seus mortos a começar por eles próprios, que não abriram a boca ou escreveram uma linha. Os mortos no Paquistão, no Iraque, no Afeganistão e países assim só os perturbam quando servem para os contrapor aos mortos americanos. Aí, sim. É um vale de lágrimas de crocodilo, vão ao fim do mundo por uma fotografia de inocentes (reais e imaginários), de preferência crianças, e se houver um polícia e uma câmara de televisão por perto os mais afoitos põem-se a jeito para levar uma bastonada. Ai se a hipocrisia lhes desse uma coisa que eu cá sei.
22 de abril de 2013
HIROMI (1). Um só adjectivo para definir o concerto de Hiromi* no Blue Note no sábado passado: soberbo.
* Com Anthony Jackson (baixo) e Simon Phillips (bateria)
* Com Anthony Jackson (baixo) e Simon Phillips (bateria)
19 de abril de 2013
BOSTON. Quis o acaso que o massacre de Boston me apanhasse a ler Filho de Deus, de Cormac McCarthy, escritor americano cujos livros estão recheados de uma violência extrema. Sabe-se, à hora a que escrevo, que um suspeito foi abatido, e o outro capturado pelas autoridades. Que ambos viviam nos EUA, que eram irmãos, e de origem chechena. O resto, para já, são informações desencontradas, especulação, teorias da conspiração. E alívio, um grande alívio. Os próximos dias responderão a algumas perguntas, e há demasiadas perguntas a necessitarem de resposta. Terminou uma parte, porventura a pior. Mas cheira-me que não será bonito o que virá a seguir.
17 de abril de 2013
CORRAM COM ELES. Depois de Fernando Seara, que o Tribunal Cível de Lisboa declarou impossibilitado de candidatar-se à Câmara de Lisboa após três mandatos consecutivos na Câmara de Sintra, Luís Filipe Menezes, que agora viu o tribunal congénere do Porto impedi-lo de se candidatar à Câmara do Porto após quatro mandatos consecutivos à frente na Câmara de Gaia. O primeiro já recorreu da decisão, o segundo promete fazê-lo. Não vou insistir nos motivos que invoquei desde o início: no caso de os recursos lhes darem razão, que não me surpreenderia, restará aos eleitores imitar o gesto imortalizado por Bordalo Pinheiro.
IGNORÂNCIA ATREVIDA. O director-adjunto do Correio da Manhã escreveu que «o terror em Boston acentuou o abismo que separa Obama do antecessor Bush». Porque Bush se apressou a atribuir a extremistas islâmicos os atentados de 11 de Setembro, e porque Obama não o fez e se apressou a aplacar «a paranoia anti-islâmica». Acontece que rapidamente ficou demonstrado que os atentados de Setembro foram cometidos por extremistas islâmicos, e quanto ao atentado de Boston ainda nada se sabe. Resumindo, Bush limitou-se a constatar uma evidência, Obama limitou-se a agir sem ela. São estes os factos. Surpreende, por isso, que um jornalista com funções de chefia esteja tão mal informado, e se atreva a fazer graçolas sobre assuntos sobre os quais nada sabe.
CALMA QUE SÓ MORRERAM AMERICANOS. O lembrete do Bruno tem um pequeno senão: se não fosse o massacre de Boston, provavelmente não teria conhecimento dos atentados bombistas no Iraque que ocorreram no mesmo dia — nem, evidentemente, lhe mereceriam uma linha, mesmo que deles tivesse conhecimento. Definitivamente que para os Brunos desta vida não há americanos bons. Nem mortos.
12 de abril de 2013
NAS ESTRELAS. Conheço mal a literatura contemporânea portuguesa, nomeadamente os escritores mais novos. Mas a fiar-me no ror de estrelas que os críticos lhes dão e nas recensões entusiastas em tudo o que é imprensa dita de referência, parece que temos uma literatura contemporânea pujantíssima e de excepcional qualidade. Infelizmente, a escassa que conheço parece-me vulgaríssima, nalguns casos medíocre. Como já vi quem a pusesse no panteão, desconfio que a restante não seja melhor. Acho bem que as editoras apostem nos novos, na idade ou nunca publicados, que só assim chegarão aos leitores — quem, em última análise, avaliará as suas qualidades. Mas daí até os novos serem excepcionais, como se repete a toda a hora, vai um abismo. Tirando a indústria e um ou outro escritor, todos perdem com os exageros. Perdem os escritores, porque se convencem que são bons e não são. Perdem os leitores, que são levados ao engano. Perde a própria indústria, que na ânsia de tudo vender deliberadamente confunde o bom com o mau e a prazo acaba a perder mais do que a ganhar. Perde, evidentemente, a literatura. Razão tem quem ainda há pouco dizia não ler um livro com menos de 20 anos. Vendo bem, são tantos os que se publicam que se torna cada vez mais difícil escolher, e escolher implica rejeitar. Se nalguns casos duas décadas será muito, globalmente parece-me um excelente princípio.
9 de abril de 2013
CHEFS & COZINHEIROS. Vivemos um tempo em que deixou de haver cozinheiros. Agora todos são chefs (assim mesmo, em francês, não vá confundirem-se com um qualquer chefe de uma oficina de motorizadas). Qualquer sujeito que saiba grelhar um robalo ou confeccionar um gaspacho é logo elevado a génio da gastronomia, e se for praticante da cozinha dita molecular então é preciso banda de música e tapete vermelho. Sim, considero que temos chefs a mais e cozinheiros a menos. Nada contra, mas custa-me ver certos hábitos trocados por outros sem que se perceba porquê. Custa-me ver, por exemplo, que dantes eram os cozinheiros que das cozinhas vinham cumprimentar os comensais, e que agora sejam os comensais que, reverentes, vão às cozinhas cumprimentar os chefs — no caso, evidentemente, de os chefs condescenderem a recebê-los. Provavelmente é uma moda, que vem e vai como todas as outras. Mas é uma moda que me custa quase tanto engolir como algumas das suas criações, que geralmente me deixam a suspirar por uns joaquinzinhos ou um caldinho de cebola, que nesta altura do ano aconchegam o corpo e a alma e até eu, zero em culinária, sou capaz de confeccionar.
5 de abril de 2013
OBVIAMENTE NÃO PODE. Já disse e repeti o que penso acerca da lei dos mandatos. Apesar de não ser clara, nunca saberemos se por incompetência de quem a fez ou aprovou ou propositadamente confusa para dela tirarem partido, há, desde o início, uma coisa que ficou clara: a ideia (ou espírito da lei) foi reduzir a três os mandatos consecutivos que um autarca pode exercer. Toda a interpretação que não seja esta, mesmo dos mais reputados tribunais, resulta, apenas, da deficiência da lei, não de qualquer dúvida digna desse nome. Merecerá, por isso, a minha discordância, e se votasse nas autárquicas (estou impossibilitado de o fazer por residir no estrangeiro), votaria contra quem se apresentasse nessas condições. O chumbo do Tribunal Cível de Lisboa às pretensões de Fernando Seara, que pretende candidatar-se à Câmara de Lisboa após três mandados à frente da Câmara de Sintra, foi, portanto uma boa notícia. Espera-se agora que as próximas instâncias para onde terá recorrido confirmem o óbvio.
POR UM CANUDO. Por tudo o que já disse, se algum reparo merece a demissão de Miguel Relvas seria este: pecou por tardia. Apetece-me, no entanto, deixar aqui uma sugestão: que tal fazer-se uma investigaçãozita às licenciaturas dos nossos políticos no activo, incluindo governantes? Aposto que o resultado seria surpreendente. Ou, vendo bem, talvez não.
3 de abril de 2013
O ESPIÃO QUE SAIU DO QUENTE. Provavelmente nunca se saberá se Silva Carvalho é culpado do que é formalmente acusado, e é provável que os tribunais falharão, de novo, em toda a linha. Mas mandará o bom-senso não reintegrar no Estado um ex-espião que é acusado de abuso de poder e violação de segredo de Estado até que os tribunais se pronunciem sobre o assunto. Não pensa assim o primeiro-ministro, que decidiu reintegrá-lo no Estado, agora na Presidência do Conselho de Ministros, sem que se perceba porquê. Presumo que do ponto de vista legal nada impedirá a contratação, mas parece-me insustentável do ponto de vista ético. Ética, aliás, pela qual o Governo já demonstrou ter pouco apreço, como ficou claro quando surgiram os casos com o ministro Relvas, que em pouco tempo passou a ser enxovalhado por tudo e por todos, inclusive por membros do seu próprio partido, e hoje por todos visto como o chico-esperto que subiu na vida à custa de «milagres» como o da Universidade Lusófona, que lhe atribuiu um canudo por dirigir um rancho folclórico e coisas assim.
AI NÃO ME TOQUES. Já o disse a propósito de outro caso, mas repito-o as vezes que for preciso: por que diabo não pode o Tribunal Constitucional ser alvo de pressões? Acaso não estará o Tribunal Constitucional debaixo de pressão sempre que tem de tomar decisões importantes, mesmo que não as haja de forma directa? A pressão, como também já disse, reforça a ponderação — logo contribui para decidir melhor. E também é bom não esquecer que por cada pressão num sentido haverá, por regra, pressão em sentido inverso.
1 de abril de 2013
MAIS UMA CONSPIRAÇÃO. Avesso a teorias da conspiração, não sei se Nuno Santos foi despedido da RTP por «delito de opinião», que por aí se garante à boca cheia. (A fazer fé no que se ouve e diz, não conheço um único jornalista que nos últimos anos tenha sido despedido por outra razão que não fosse «delito de opinião», o que é, no mínimo, estranho.) Por razões que expliquei logo no início do famigerado episódio das imagens cedidas à PSP, que acabou por ditar o afastamento do então director de informação da RTP e posterior despedimento, a história foi mal contada, e as explicações que se seguiram confundiram mais que esclareceram. Mas como as teorias da conspiração têm inúmeros adeptos, há sempre um novo «argumento» para «demonstrar» a mais tosca das teorias. A última garante que a contratação de Sócrates pela RTP se destinou a abafar o «saneamento político» de que Nuno Santos terá sido vítima, pois o caso, segundo o autor, «ameaçava fazer correr muita tinta». Só não se percebe bem por que há-de, a partir de agora, a tinta deixar de correr, por que há-de um caso calar outro. Quem impedirá Nuno Azinheira de falar do «caso» Nuno Santos?
27 de março de 2013
SE O RIDÍCULO MATASSE. Não me consta que o regime tencione obrigar os portugueses a assistir à homilia que José Sócrates se prepara para fazer, semanalmente, na RTP. Assim sendo, que pretende quem se deu ao trabalho de assinar uma petição em que procura impedir a RTP de contratar José Sócrates? Quem os impede de desligar o televisor (ou mudar de canal) quando o ex-primeiro-ministro surgir no écran? Por acaso não será anti-democrático o que pedem na petição? E quais são, já agora, os requisitos que consideram necessários para comentar na RTP?
A BOÇALIDADE DO COSTUME. Pinto da Costa terá os seus motivos para debitar «postas de pescada», como diz Paulo Bento, e para dizer ao seleccionador nacional que o que realmente o incomoda é ver a selecção jogar tão mal. Mas o que eu gostaria de ver do presidente do FC Porto, e presumo que o resto do país, era um pedido de desculpas pelo comportamento inadmissível de um bando de energúmenos antes e depois do jogo em Málaga que opôs os «dragões» à equipa local. Energúmenos, recorde-se, que o clube a que Pinto da Costa preside apoia e protege. Isso, sim, seria de homem.
25 de março de 2013
PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. Imaginem que meia dúzia de sujeitos assalta uma ourivesaria e a polícia consegue apanhá-los com a boca na botija. Qual será o título dos jornais do dia seguinte? Mais ou menos assim: «Larápios apanhados em flagrante pela polícia.» Imaginem que um pai viola a filha e esta decide contar o caso ao fim de 20 anos de abusos constantes. Qual será o título nos jornais do dia seguinte? Mais ou menos assim: «Monstro viola a própria filha durante duas décadas.» Como vêem, os jornais, e os media em geral, tratando por «larápios» e «monstros» sujeitos que à partida a justiça considera inocentes até prova em contrário, acabam a julgá-los na praça pública, e como não vejo reclamações parece que a coisa está bem. Acontece que os protagonistas destes casos deviam merecer a mesma presunção de inocência que se reclama para os figurões que por aí andam a cometer crimes iguais ou piores, cujo poder que detêm obriga os media a medir as palavras e a ser mais cautelosos, e a mesma indignação de quem não se cansa de acusar os media, quase sempre com razão, de fazer julgamentos sumários sempre que dão notícias de que figurões são suspeitos de actividades ilícitas. Até por aqui se vê que o cidadão comum não tem o mesmo tratamento da justiça que tem um figurão, embora dizer isto é o mesmo que dizer que o dinheiro não dá felicidade... mas ajuda bastante.
21 de março de 2013
YO NO CREIO EM LAS BRUJAS. É sabido que a FIFA, organismo que superintende o futebol mundial, costuma ter mão pesada em matéria disciplinar. Estranho, por isso, que desta vez se tenha limitado a emitir um lacónico desmentido após Mourinho a ter acusado de irregularidades na última eleição para melhor treinador do ano (que Mourinho perdeu para Vicente del Bosque), irregularidades já confirmadas por alguns dos votantes (ver aqui e aqui). A acusação de Mourinho só merece um comunicado a dizer que a lista de votos «está correcta»? Sabendo-se que o treinador português já foi castigado por menos, só pode ser estranha tanta benevolência da FIFA. É um facto que nem sempre a existência de fumo comprova a existência de fogo. Mas se a acusação de Mourinho está, digamos, dentro do que se esperaria, a reacção da FIFA é surpreendente.
20 de março de 2013
ARRUACEIROS. Será que o FC Porto não devia, na sua página da internet, condenar a violência gratuita dos seus adeptos antes e depois do jogo de Málaga e, no mínimo, pedir desculpa?
DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Independentemente das deficiências da lei que limita os mandatos, não se sabe se por incompetência ou de propósito, qualquer pessoa medianamente inteligente sabe o que ela pretende: limitar a três os mandatos sucessivos que se podem exercer como presente de Câmara. É o chamado espírito da lei, de que só duvida quem lhe convém. Qualquer interpretação que não seja esta viola o princípio, mesmo que a lei se preste a outras interpretações e os tribunais decidam o contrário. O facto de a justiça ser incapaz de punir meliantes com determinado estatuto não significa que esses meliantes estejam inocentes. A comparação é grosseira, bem sei, mas para o efeito serve perfeitamente. Aliás, quem se candidata nas circunstâncias descritas não merece um pingo de respeito.
16 de março de 2013
SEGREDOS PAPAIS. Como agnóstico, a eleição de Mario Bergoglio não me aquece, nem me arrefece. Como não me aqueceria nem arrefeceria caso fosse eleito outro qualquer, incluindo os mais controversos ou suspeitos de actividades pouco recomendáveis. Mas acompanhei com natural curiosidade a sucessão de Bento XVI, sobretudo para tentar perceber o que levou Ratzinger a resignar. Depois de tudo o que foi dito até à eleição do Papa Francisco, fiquei praticamente na mesma. Continua a não distinguir-se a verdade da mentira, os factos das suposições. Veremos o que sucederá nas próximas semanas, mas suspeito que haverá importantes mudanças na cúpula da Igreja. Mudanças que Bento XVI não terá sido capaz de fazer — por incapacidade, por achar que tudo estava bem como estava. Desconfiei desde o início dos motivos invocados por Bento XVI para renunciar ao cargo (alegou incapacidade física e espiritual), e ainda estou para saber se foi um acto de coragem e tudo o mais que se disse. Devido à previsível unanimidade da Igreja em torno do novo Papa, se calhar mais aparente que real, provavelmente jamais saberei. Como agnóstico, repito, não me incomoda. Mas os segredos que a cúpula da Igreja se esforça por esconder dão azo a falsas notícias, boatos pouco abonatórios, teorias da conspiração em que as chefias são invariavelmente culpadas das piores maldades. Resumindo, provocam precisamente o contrário do que pretendem. Problema deles, dir-me-ão. Verdade, mas não aprecio ver injustamente acusada (se for o caso) uma instituição que respeito. Não gosto, aliás, de ver ninguém injustamente acusado, mesmo o pior dos inimigos, que nunca hesitei defender quando tal sucedeu.
13 de março de 2013
CRUEL DILEMA.
Bem sei que o dr. Mário Soares apelou à violência a pretexto de que ela pode ocorrer a qualquer momento, que Macário Correia não sai nem à bomba, e que Isaltino Morais foi mandado prender variadíssimas vezes mas ninguém lhe deita a unha. E, claro, habemus papam. Mas o que hoje realmente me interessa é o que me chegou da terrinha: começar por onde?
Bem sei que o dr. Mário Soares apelou à violência a pretexto de que ela pode ocorrer a qualquer momento, que Macário Correia não sai nem à bomba, e que Isaltino Morais foi mandado prender variadíssimas vezes mas ninguém lhe deita a unha. E, claro, habemus papam. Mas o que hoje realmente me interessa é o que me chegou da terrinha: começar por onde?
8 de março de 2013
PREPAREM-SE. Vem aí a receita para salvar o mundo e, quiçá, a paróquia. É, pelo menos, o que promete o Presidente, e já para amanhã. Depois de um mês sem abrir a boca, o Presidente resolveu fazer prova de vida, e de uma assentada dizer que os portugueses que se manifestaram no último sábado têm de ser ouvidos (não disse como nem por quem) e divulgar o prefácio da interessantíssima obra Roteiros VII, que reúne, segundo o próprio, «as intervenções mais significativas» por ele produzidas nos dois primeiros anos do segundo mandato. Só não o fez antes porque um chefe de Estado «sensato e responsável» deve falar pouco com os jornalistas, diz ele, especialmente quando o chefe do Governo é da sua família política, digo eu. Quem se lembra das desgraças nos tempos do engenheiro de fim-de-semana, que punham o Presidente a falar a toda a hora com os jornalistas? Pois, agora a desgraça é ainda maior — e o Presidente só abre a boca quando é espicaçado, e a contragosto. Porque um «Presidente da República que fale muito à comunicação social normalmente não tem influência nas decisões que se toma no país», diz agora, e garante saber bem do que fala. Afinal, ninguém, como ele, «foi primeiro-ministro 10 anos e acumulou com sete anos de Presidente da República», escreveu no Facebook, coisa que lhe permitiu acumular «uma informação que mais ninguém tem». Dezassete anos, portanto, a exercer o poder, sem dúvida uma experiência enriquecedora. Mas uma experiência cujo resultado, convém lembrar, contribuiu generosamente para o estado a que isto chegou.
7 de março de 2013
ESTRANHAS PREPOSIÇÕES. Ninguém do poder parece ralado com o novo Acordo Ortográfico, e se alguém tem uma opinião sobre ele ninguém sabe qual é. Não deixa, por isso, de ser curioso que a Presidência da República tenha detectado uma troca de preposições na lei que pretende limitar os mandatos, erro que poderá permitir a um autarca recandidatar-se a um novo mandato ao fim de três consecutivos. Num país onde o primeiro-ministro dá pontapés na gramática quando escreve e o seu adjunto quando abre a boca, estranha-se tanto zelo com a língua.
6 de março de 2013
AO CUIDADO DO MINISTRO RELVAS. A RTP Internacional passa a vida a transmitir programas onde se diz que o Carnaval foi ontem e o Natal é amanhã, quando na verdade o Carnaval já foi há uma semana e o Natal é daqui a um mês. O «critério» da RTP resume-se a pôr no ar a cassete mais à mão, e quando assim é por vezes a Páscoa calha no Entrudo e o Verão começa no Outono. Como não bastasse, passam dúzias de vezes os mesmos anúncios a chamar a atenção para os mesmos programas, por vezes no espaço de poucos minutos, esgotando a paciência a um santo. Onde está, já agora, o Conselho das Comunidades, e o que pensará ele sobre o assunto? Aliás, tirando as excursões à terrinha (pagas pelo erário público, está bom de ver), onde os conselheiros de vez em quando se juntam para discutir o sexo dos anjos e matérias afins (de que obviamente nada resulta em benefício de quem representam), não se sabe o que pensam os srs. conselheiros sobre este e outros assuntos, se é que pensam alguma coisa. Desconfio, aliás, que o Conselho das Comunidades é um caso de morte que se esqueceram de anunciar.
1 de março de 2013
MOURINHO. Além das qualidades que se lhe reconhecem, Mourinho é um maná para o jornalismo, e não só desportivo. Não há dia em que não seja notícia, pelas melhores e piores razões. Geralmente dão conta de polémicas, reais ou inventadas, públicas ou privadas, que os media apreciam polémicas, e os adversários aproveitam para daí tirar partido. Verdade que Mourinho se excede com frequência, às vezes sem motivo aparente. Mas começo a dar-lhe razão quando ele disse, não me lembro onde nem a que propósito, que a humildade era um defeito (foi assim mesmo que a definiu) que ele, felizmente, não tinha. De facto, a humildade na actividade que desenvolve só atrapalha, e fosse ele humilde e não teria o currículo que se lhe conhece. Agora é o Real, ontem foi o Inter, anteontem o Chelsea, amanhã outro qualquer — mas tudo indica que nada fará diminuir o interesse dos media por tão rentável filão. Nada de novo ao fim de três dias? Inventa-se. Vai para o PSG ou Manchester por incontáveis milhões, regressa a Milão onde será recebido de braços abertos, embolsará uma indemnização astronómica e depois irá caçar gambozinos. Como é evidente, qualquer uma destas «notícias» é verosímil, mesmo completamente inventada. Mourinho queixou-se, há pouco, de ser um desastre a lidar com os media, deixando implícito na queixa que o aparente defeito lhe sai caro. Sinceramente, duvido. Como o próprio já disse variadíssimas vezes, o confronto com o próximo adversário começa na conferência de imprensa imediatamente antes do jogo, embora a mim me pareça que comece antes. Mourinho conhece como ninguém o mundo em que se move, incluindo o mundo dos media, o que lhe permite tirar vantagem das virtudes e defeitos, e consequentemente levar a água ao seu moinho. Se por vezes as coisas não lhe correm como deseja, globalmente não me parece que tenha grandes razões de queixa. Antes pelo contrário.
26 de fevereiro de 2013
FALHANÇOS E ALDRABICES. Percebe-se que os falhanços aconteçam, que o diagnóstico e a receita não encaixem com os resultados, mesmo depois de nos terem vendido como inevitáveis e infalíveis. Mas o que se percebe cada vez menos é que os governantes não assumam as falhas, e não expliquem aos portugueses por que não ocorreu o milagre que lhes prometeram. Os governantes anunciam diariamente medidas de austeridade que significam o falhanço das anteriores — mas nada justificam, nada argumentam, nada dizem. Julgam não ter obrigação de explicar nada a ninguém, e quando condescendem a explicar deliberadamente confundem (nos melhores casos), ou aldrabam. Não me revejo no modo como os protestos têm vindo a ocorrer, sei muito bem de onde vêm e o que pretendem, e duvido da sua eficácia. Mas não há dúvida de que os governantes, e políticos em geral, precisam de ser confrontados com a realidade, e a realidade tem forçosamente que passar por não mentir a quem os elegeu. Os portugueses estão fartos de malabarismos, de quem lhes mente sistematicamente. Que a cantoria com que estão a ser recebidos um pouco por todo o lado lhes sirva, ao menos, de aviso para o que pode vir a seguir.
22 de fevereiro de 2013
SEM FACTURINHA. Leio que os consumidores são obrigados, desde Janeiro, a pedir facturinha da bica sob pena de serem multados entre 75 e 2000 euros caso não o façam, e estremeço de emoção com o zelo com que o Estado vela por nós. Entretanto, passam-se coisas inacreditáveis. Por que será que os consulados portugueses, pelo menos alguns consulados portugueses nos EUA, só passam facturas pelos serviços prestados caso os utentes as reclamem, e, se as reclamam, as passam a contragosto? Por que será que os mesmos consulados só aceitam como pagamento dinheiro vivo (repito: dinheiro vivo), mesmo que se trate de valores que atingem as centenas de dólares? Alguém faz o favor de me explicar por que não se pode pagar utilizando os métodos correntes (cartões de crédito ou de débito, cheques, etc.)? E, já agora, para onde vai o dinheiro? Entrará ele, como se espera, na contabilidade, digamos, oficial? Se a ideia é criar uma espécie de saco azul destinado a ensinar boas maneiras à gente que lá trabalha, de modo a ter mais respeito pelos utentes, nada a opor. Mas, nesse caso, avisem, que eu também contribuo.
20 de fevereiro de 2013
15 de fevereiro de 2013
POLÍTICOS. É evidente que os políticos não são todos incompetentes, corruptos e aldrabões, embora os haja em demasia. Mas os políticos honestos e capazes não precisam de nos lembrar a toda a hora que o são, e de se escandalizarem sempre que os colocam, a todos, no mesmo saco. Os políticos honestos e capazes precisam, sim, de denunciar os incompetentes, os corruptos e os aldrabões, um dever que simultaneamente lhes salienta a honestidade e a competência. Será distracção minha, mas não os tenho visto, sobre este assunto, mexer uma palha. Outra coisa que se nota bastante: apesar de cada vez pior vistos pela generalidade dos cidadãos, apesar de estarem cada vez mais sujeitos aos piores nomes, apesar de tantas vezes serem injustamente acusados de maldades que não cometeram, a verdade é que a chamada vida política continua a ser uma actividade apetecível e com enorme procura. Porque, lá está, os honestos e capazes não fazem o que devem, e porque os maus geralmente ficam impunes. Dito de outra maneira, porque a desonestidade e a incompetência geralmente compensam. Não surpreende, por isso, que um estudo recente revele que 96% dos portugueses não confiam na classe política. Surpresa é haver 4% que acredita nela.
14 de fevereiro de 2013
A MENTIRA DA RTP. Quem acredita que a RTP aumentará as audiências e, simultaneamente, a qualidade do que transmite? Quem acredita que, deixando de transmitir programação dirigida ao grande auditório (concursos, novelas, nacional-cançonetismo, futebol), substituindo-os por programas culturais (digamos assim para simplificar), as audiências subirão? A avaliar pelo que disse à própria RTP, o actual presidente acredita. Alberto da Ponte afirmou, preto no branco, que os dois canais públicos têm de ter 22% de audiência global em finais de 2014 (no dia da entrevista tinham 16%). Ao contrário de muita gente, que parece não ter dúvidas sobre tão complexa matéria, não sei o que é — ou deve ser — um serviço público de televisão. Há, no entanto, uma coisa que julgo saber: um serviço público de televisão minimamente decente apenas seria visto pela maioria dos cidadãos caso houvesse uma só televisão. Como não é assim, se a actual programação da RTP mudar de rumo, a maioria dos telespectadores mudar-se-á para a concorrência, que não deixará de explorar o filão. Também me parece que os canais públicos não devem operar com a mesma lógica da concorrência, e o pouco que vejo da programação dirigida ao grande auditório é de fugir. Mas então haja coragem para assumir as consequências — e os custos — que isso comportará.
12 de fevereiro de 2013
UNANIMIDADE BURRA. Se é verdade que Bento XVI está muito debilitado fisicamente, como todos admitem, porquê a surpresa da resignação? Será assim tão surpreendente que alguém renuncie a um cargo por se sentir incapaz de exercer com o grau de exigência que entende necessário? Outra coisa que não percebo na unanimidade dos comentários, a começar pelos responsáveis da Igreja Católica, alguns deles próximos do Papa: se Bento XVI mostrou coragem, lucidez e humildade, quer isso dizer que o seu antecessor, que também terá ponderado resignar, não foi corajoso, lúcido e humilde? E se Ratzinger resignou por estar farto dos intermináveis — e desgastantes — problemas internos, que se sente incapaz de resolver? Será assim tão improvável um cenário destes? Como dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra. E esta em volta de Bento XVI não me parece excepção.
O DESERTO. Pela enésima vez, o professor Carlos Reis saiu em defesa do novo Acordo Ortográfico (ver última edição do Expresso). Pela enésima vez, não apresentou um único (repito: um único) argumento. Têm sido assim todos quantos, desde o início, defendem o Acordo: zero argumentos, e quando os têm não passam de abstracções que, espremidas, não dão uma gota. O mínimo que se espera de quem defende uma ideia é que apresente argumentos, de preferência muitos e bons. Quem é contra o Acordo tem-nos apresentado às dúzias, quase todos pertinentes, sempre fundamentados, e com exemplos para todos os gostos. Já os defensores do dito, nem um para amostra. Tirando que é crucial para a «afirmação internacional da língua portuguesa», como ainda há pouco lembrou Jorge Miranda (sem que alguma vez se tenha explicado o que isso significa), é o deserto total. Será abusivo deduzir que não os têm?
8 de fevereiro de 2013
HERÓIS E VILÕES (2). Vi com interesse a entrevista do novo secretário de Estado do Empreendedorismo à RTP e retive, essencialmente, duas coisas: Franquelim Alves não informou o Banco de Portugal (BdP) das aldrabices porque não teria, na altura, dados substantivos que as comprovassem; depois assinou as contas do Banco Português de Negócios (BPN) apesar de lhes ter detectado irregularidades, a pretexto de que o fez depois de chamar a atenção para as irregularidades, e de que se não o fizesse seria o colapso do BPN e de todo o sistema financeiro. Temos, assim que Franquelim Alves assinou as contas assumidamente aldrabadas (de que não deu conhecimento ao BdP, apesar de aqui já haver substância) por razões patrióticas. Leram bem: razões patrióticas. Como dizia o ministro da Economia, o país devia agradecer ao seu novo secretário de Estado por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Eu bem disse que isto ainda vai acabar em homenagem.
7 de fevereiro de 2013
HERÓIS E VILÕES (1). O ministro da Economia tentou transformar o seu novo secretário de Estado num herói a quem o país devia agradecer por ter contribuído para ajudar «a desmascarar a fraude do BPN». Fez mais: invocou, em defesa de Franquelim Alves, factos que não são verdadeiros, quero acreditar que por mera ignorância, embora isso me sirva de pouco consolo. Quando os factos amplamente conhecidos apontam em sentido contrário, o ministro faz de conta que não ouve e não vê, e ainda tem o desplante de nos vir com a estapafúrdia ideia de que o cavalheiro está a ser vítima de linchamento na praça pública. Só falta ao ministro propor uma homenagem ao dito, naturalmente por relevantes serviços prestados à pátria. Infelizmente, não brinco. A impunidade e a desvergonha chegou a tal ponto que casos como este começam a ser corriqueiros, a que já ninguém liga. E isso, como é óbvio, é meio caminho para se tornarem ainda piores.
5 de fevereiro de 2013
GOZAR COM O PAGODE. Como se diz da mulher de César, não basta ser sério. E convenhamos que o novo secretário de Estado do Empreendedorismo deixa algumas dúvidas a esse respeito. Franquelim Alves pode ter um trajecto imaculado como ex-administrador da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), proprietária do Banco Português de Negócios (BPN), como agora reclama (há quatro anos admitiu ter aprovado irregularidades), mas camuflar a sua passagem por tão malcheirosa coisa não pode deixar de ser visto como um expediente de quem tem algo a esconder. Não basta, portanto, dizer que o novo governante não é arguido nem alvo de investigação, como diz o ministro da Economia, ou o visado jurar que sempre pautou a sua conduta pelo rigor e exigência (já vimos que não foi bem assim). É por demais evidente que o Governo fez mal ao nomeá-lo, e o Presidente fez pior ao dar-lhe posse. Mais: no estado a que o país chegou, em que são cada vez mais necessários sinais contrários ao que daqui emergiu, chega a ser uma provocação. Quem conhece a história da SLN não pode deixar de ficar perplexo quando vê um ex-administrador de uma associação criminosa ser premiado com uma secretaria de Estado. Sim, houve outros que fizeram o mesmo ou pior no caso SLN/BPN. Mas não me consta que algum deles seja governante.
1 de fevereiro de 2013
AGUENTEM, PARTE DOIS. O famoso «Ai aguenta, aguenta» proferido por Fernando Ulrich há três meses, pretendendo dizer que os portugueses ainda aguentariam mais austeridade, foi, segundo o próprio, descontextualizado. Resolveu, por isso, explicar melhor o que então quiz dizer. E o que disse ele agora para esclarecer os mal-intencionados? Comparou a situação dos portugueses aos sem-abrigo. Se os sem-abrigo aguentam a austeridade, diz ele, por que razão não haveremos nós de aguentar? Ficamos, portanto, esclarecidíssimos acerca do «aguenta». Só não percebemos por que razão o Governo resolveu emprestar 1.500 milhões ao banco a que preside quando podia ter dito «aguenta». Empréstimo, já agora, sem o qual o BPI não teria alcançado os 249 milhões de lucro que anuncia, que naturalmente serão repartidos pelos seus accionistas e de que o Governo, que administra o nosso dinheiro, não verá um centavo.
30 de janeiro de 2013
E OS ADVOGADOS, SR. BASTONÁRIO? O bastonário dos Advogados falou e disse: há, em Portugal, «demasiadas violações dos direitos dos cidadãos» e dos «direitos humanos». Disse mais: fazem-se alterações de «leis essenciais ao funcionamento da Justiça» com a finalidade de «conquistar popularidade fácil». «Políticos sequiosos de popularidade fácil, jornalistas moralmente corrompidos, polícias fundamentalistas, magistrados indignos da sua função - todos convergem para gerar o ambiente social que exige sempre penas mais pesadas, medidas de coação mais duras», prosseguiu Marinho Pinto. E disse ainda: há interrogatórios policiais sem a presença de advogados, abundância de «fundamentalismo justiceiro de muitos magistrados e polícias», e «leis grosseiramente inconstitucionais». Sobre os advogados, co-responsáveis pelo retrato que faz da justiça em Portugal (basta ver a quantidade de advogados sentados na Assembleia da República a fazerem as tais leis essenciais), nem uma palavra. Bem prega frei Tomás.
VOLTA NA TUMBA. Li com atenção os motivos invocadas pela família para a reedição, esta semana, da correspondência entre Eça de Queirós e a mulher, mas não fiquei convencido. A coisa destina-se a rebater a tese de João Gaspar Simões, segundo a qual o escritor terá feito um «casamento de conveniência» e sido um pai pouco afectuoso? Porque não terá, segundo os filhos, sido assim? A ser verdade o que dizem, que importância terão esses factos na obra de Eça? Admitindo que o pai não teve, ao escrevê-las, «a mais leve suspeita que olhos curiosos devassariam o que fora escrito apenas para uns olhos» (os da esposa), como admitem, não estarão os filhos, organizadores do volume, a desrespeitar um desejo do pai? Quem tinha dúvidas sobre estes assuntos irá, depois do livro, continuar a tê-las, e não vejo que Eça de Queiroz entre os seus, agora reeditado pela Caminho, acrescente uma vírgula à obra. Ou era outra a ideia?
28 de janeiro de 2013
ORA CONVERTAM LÁ. Miguel Sousa Tavares defendeu, no Expresso, que os sábios que cozinharam o Acordo Ortográfico deviam aparecer em público com a cara pintada de preto e pedir desculpas, e dar-lhes-ia como castigo a conversão à nova ortografia do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Por uma vez concordo com o Miguel, e o castigo parece-me justíssimo. Para quem não sabe do que está a falar, eis o primeiro parágrafo do Grande Sertão: « — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.» Ora digam lá que não ficava uma maravilha.
25 de janeiro de 2013
MENTIRA ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO. Há uma coisa que todos já perceberam na malcheirosa história do doping no ciclismo: se os principais protagonistas contarem «tudo o que sabem», como alguns ameaçam, o ciclismo profissional, pelo menos o ciclismo profissional tal como o conhecemos, vai ter que começar do zero. Alguém duvida que existam muitíssimos mais ciclistas de primeiríssimo plano (para já não falar dos outros) que consomem, há anos, substâncias proibidas destinadas a aumentar a performance? Com, ou sem, o conhecimento das autoridades, nacionais e internacionais, também elas cada vez mais suspeitas? Se alguém tem dúvidas, os próximos meses encarregar-se-ão de as desfazer. É por isso que já aqui defendi a legalização do doping no ciclismo, que estendo a outras modalidades, que o doping sempre existiu, antes e depois de ser proibido. Por mais sofisticados que se tornem os mecanismos para o detectar, haverá sempre mecanismos ainda mais sofisticados para o esconder. O consumo de substâncias proibidas adquiriu tal dimensão que a suspeição é generalizada, criando a ideia de que todos se dopam até prova em contrário. Poderá ser um exagero, em alguns casos uma injustiça, mas a verdade é que são tantos os casos que se conhecem e/ou se suspeita que se torna difícil pensar doutro modo.
24 de janeiro de 2013
ESTÁ TUDO DOIDO. O presidente do Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida propôs ao Ministério da Saúde, em Setembro do ano passado, uma receita para reduzir o que considerou um desperdício de recursos nos tratamentos mais caros para doenças como o cancro e a sida. «Será que mais dois meses de vida (...) justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?», questionou, então, o sujeito. Ontem, o ministro japonês das Finanças defendeu que os doentes idosos deviam morrer o mais depressa possível, pois os tratamentos de que geralmente necessitam representam uma «carga financeira» muito elevada para o país. Hoje ficamos a saber que um tribunal português decidiu retirar sete filhos a uma mãe e disponibilizá-los para adopção, alegando o juiz que a mãe não arranjou emprego nem laqueou as trompas, como terá sido acordado com a Segurança Social. Outros casos haverá que não chegaram aos media, mas estes sobejam para constatar uma evidência: a obsessão pela economia e finanças dos «políticos modernos» tornou-se de tal movo perigosa que convém estar atento. Sim, é preciso ter cuidado com esta gente, que tudo reduz a contabilidade e para quem as pessoas não contam.
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