20 de agosto de 2013

FAÇAM O FAVOR DE LER. Dois textos que subscrevo da primeira à última linha: Agarrados, de Paulo Morais, e Quando a comunicação social se suicida, de Nuno Ramos de Almeida.

16 de agosto de 2013

DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Poderá ser explicável do ponto de vista jurídico, mas que sentido fará que sobre casos iguais uns tribunais decidam uma coisa, e outros o contrário? É o que está a acontecer com os «dinossauros autárquicos», que uns tribunais consideram poder candidatar-se a uma nova autarquia após três mandatos noutra, e outros não. Que uma lei redigida com os pés tenha causado este imbróglio, é grave, embora todos percebam que a ideia era extinguir os dinossauros. Que os tribunais se contradigam e se metam a fazer política em vez de justiça, é inadmissível. Parece que em última instância é o Tribunal Constitucional quem vai decidir estes casos. Valerá a pena lembrar como (e por quem) é formado o Tribunal Constitucional? Só a «engenharia política» permitirá que alguém se candidate a um novo mandato autárquico que já fez três consecutivos, pelo que insisto no que venho dizendo desde a primeira hora: no caso de apanharem gente desta nas urnas, façam-lhes um valente manguito.

15 de agosto de 2013

MEDITAÇÕES DE VERÃO. Duas boas notícias em apenas dois dias: a economia cresceu, e os juros da dívida baixaram. Com praticamente todos os políticos em férias, do Governo e da oposição, é caso para dizer: as coisas tendem a melhorar quando eles saem de cena.

14 de agosto de 2013

DESPEJAR O LIXO NO QUINTAL DO VIZINHO. «Se se confirmar que houve realmente uma alteração de um documento que tinha como objectivo manipular a comunicação social para por sua vez influenciar a opinião pública», disse o ministro Poiares Maduro, estamos diante «um acto gravíssimo». Não conheço o já célebre documento, sobre o qual o Governo se mostrou especialmente zeloso em ver esclarecido mal soube ter origem no executivo anterior. Mas o pressuposto de que a manipulação da comunicação social é «um atentado a aspectos fundamentais do funcionamento de uma democracia», além de «um acto gravíssimo», só mesmo para gozar connosco. As mentiras sobre os swaps e as omissões no currículo de alguns governantes destinaram-se a quê? Não terão sido, também elas, tentativas de manipular a mesmíssima comunicação social, e através dela a opinião pública? Como mais uma vez se demonstra, o desespero é mau conselheiro. Depois de Marco António ter perguntado por que razão o Governo Sócrates não denunciou ao Ministério Público e ao Banco de Portugal a tentativa de lhe venderem swaps como se houvesse alguma ilegalidade a denunciar, Poiares Maduro desesperadamente procura sacudir para terceiros as trapalhadas em que o Governo desastradamente se meteu, e para as quais não se vê fim à vista.

9 de agosto de 2013

JÁ SÓ NOS FALTAM AS BANANAS. Já ouviram falar de uma república das bananas? Pois bem, por aquilo que nos últimos tempos tem sucedido, comparar o país a uma república das bananas se calhar peca por defeito. Franquelim Alves, até há pouco secretário de Estado do Empreendedorismo, e Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros, esconderam nos respectivos currículos as suas passagens pelo BPN. Pais Jorge, ex-secretário de Estado do Tesouro, tentou, em tempos, vender swaps ao Governo Sócrates, negócio que desmentiu e confirmou no espaço de 24 horas e lhe valeu a demissão. Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, mete os pés pelas mãos sempre que é chamada a falar dos swaps sem que se vislumbre porquê. Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, esqueceu-se de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa suspeita de tratamento de favor por parte da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo ex-ministro Miguel Relvas, agora promotor da língua portuguesa (palavra de honra). Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, disse em tempos que teria de nascer duas vezes quem fosse mais honesto do que ele, mas nos entretantos protagonizou uma relação com o BPN de contornos duvidosos e viu-se envolvido num episódio de escutas impróprio de um país civilizado. Perante estes casos, e outros que se adivinham, impõe-se perguntar: esta gente é para levar a sério? Infelizmente, é. É preciso estar de olho neles, que eles não são de fiar. Isto para dizer o mínimo.

7 de agosto de 2013

PODRIDÃO NA POLÍTICA. Depois do ministro dos Negócios Estrangeiros, que considerou «podridão dos hábitos políticos» o facto de os media divulgarem que Machete omitiu no currículo a passagem pelo BPN, o secretário de Estado que hoje se demitiu queixou-se que o fez empurrado pelo «lado podre da política». Acontece que Rui Machete e Joaquim Pais Jorge contribuíram, cada um a seu modo, para a podridão que tanto os incomoda. Para falar só dos casos mais recentes, o primeiro por ter omitido do currículo uma informação obviamente relevante e posteriormente ter dado explicações que não convenceram ninguém, o segundo por num dia não se lembrar de umas reuniões que no dia seguinte admitiu conhecer ao detalhe. Um e outro pertencem, portanto, ao lado mais «podre» da política, pelo que nenhum deles tem autoridade para dar lições de moral.

6 de agosto de 2013

AI MÃE. Começa assim a última crónica de Valter Hugo Mãe na revista do Público: «Um menino a brincar com uma borboleta. Feito de porcelana, muito simples e delicadíssimo. Uma criança expectante a observar a borboleta que tem pousada na mão. Comprei no mercado das tralhas de Kiev, perdido que estava entre outras figuras, sujo, sempre miúdo e puro.» Comovente, não é? Prossegue com parágrafos e parágrafos de pérolas como esta até ao período final, também ele uma pérola: «Porque muito do que nos acontece de assustador nem sempre apaga o mais precioso que contemos.» Maravilha, não é? Imaginem se o cavalheiro soubesse escrever.

2 de agosto de 2013

SWAPS. Se os swaps lesaram o Estado em muitos milhões de euros e vêm do governo anterior, por que motivo resolveu a ministra das Finanças assumir um comportamento, no mínimo, pouco claro? Esta é, presumo, a pergunta que os portugueses farão, e para a qual ninguém deu, até agora, resposta. Convenhamos que são demasiadas as contradições, as meias verdades, as omissões — e demasiados os membros do Governo que, de um modo ou doutro, estão ligados a estes produtos, até ver nenhum pelas melhores razões.
A LÓGICA DE RIO. Rui Rio considera a ministra das Finanças tecnicamente «muito má», que «não tinha condições» para substituir Vítor Gaspar, que a sua nomeação foi «um erro», e que se tornou «um problema» para o Governo. Dito isto, considera que deve manter-se no posto, na sua opinião porque a eventual saída provocaria uma nova crise política. Confesso que a lógica me escapa. É preferível manter uma ministra incompetente a criar uma eventual crise política? A mim parece-me que a substituição de Maria Luís Albuquerque valia bem uma crise política, embora não vislumbre por que motivo haveria de causar uma crise política. Como ainda há pouco se viu, Rio gosta de dar lições de moral aos políticos. Convinha, por isso, não dar uma no cravo, outra na ferradura.
UM MINISTRO BOM É UM MINISTRO MORTO. O ministro que toda a gente gozava e de que todos se riam transformou-se, de repente, por via do afastamento do Governo, em tudo o que não era dantes. A fazer fé no que agora se diz, afinal o homem era excelente, competente, sério, fez obra, e mais não sei quê. Definitivamente que um ministro bom é um ex-ministro, parafraseando alguém que dizia que o poeta bom é o poeta morto.

31 de julho de 2013

BRINCAR AOS POBREZINHOS. Alertado por meio mundo, fui ler a reportagem do Expresso sobre a Comporta, ao que dizem um «refúgio das elites». A fazer fé no que lá vem, aquilo é espíritos santos e realezas por todo o lado, nomes sonantes de toda a espécie e proveniência que lá decidiram assentar arraiais, festas na praia regadas a champanhe — mas quando se fala dos habitantes locais (também há), o jornalista resume-os ao «arrozeiro», ao «maneta», e ao «patusco». Um só habitante é identificado pelo nome próprio, mas só pelo primeiro, ao contrário das «elites», identificadas uma a uma do primeiro ao último nome, incluindo o petit nom. Estar na Comporta «é como brincar aos pobrezinhos», refere, às tantas, uma Espírito Santo, que já deu origem a um movimento que promete ir brincar para o local e a um pedido de desculpas da própria. Visto e revisto, confesso que se alguma coisa me incomodou foi o papel a que o jornalista se prestou, certamente para agradar a quem o acolheu durante um mês inteiro. Bernardo Mendonça esqueceu-se que os habitantes locais têm nome e dignidade.
DESEMPREGO. Quando se fala da taxa de desemprego, que terá caído pela segunda vez no espaço de poucos meses, ter-se-á em conta os portugueses que emigraram, que terão desaparecido da lista dos desempregados?

26 de julho de 2013

RECAUCHUTAGEM GOVERNAMENTAL. A recauchutagem governamental resultou na entrada de dois novos ministros que já estavam debaixo de fogo ainda antes de o serem. A nova ministra das Finanças é suspeita de não ter feito o que devia e mentir ao Parlamento, e o novo ministro dos Negócios Estrangeiros omitiu na biografia enviada ao primeiro-ministro e à comunicação social a circunstância de ter sido, durante anos, presidente do conselho superior da entidade proprietária do banco que lesou os contribuintes em vários milhares de milhões de euros (esse mesmo, o BPN). Alega Maria Luís Albuquerque que desconhecia os chamados swaps e jamais ter mentido no Parlamento, apesar das notícias dizerem o contrário. Alega Rui Machete que a omissão no currículo só foi notícia porque vivemos num clima de «podridão dos hábitos políticos», para o qual naturalmente considera não ter contribuído. Chegados a este ponto, os senhores ministros podem continuar a alegar o que muito bem entenderem que as suspeitas que recaem sobre eles continuarão, e convém não esquecer que as suspeitas assentam em factos. Repito, por isso, o que aqui já mencionei: não basta à mulher de César ser séria. As suspeitas que recaem sobre um e outro bastariam para não serem nomeados, e se já o tivessem sido para se demitirem. É isto o que sucede nos países em que os governantes respeitam os seus cidadãos.
COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Alguém me explica para que servem as moções de confiança (ou de censura) quando antecipadamente se conhece o resultado e o resultado não muda um milímetro?

24 de julho de 2013

QUE BEM PREGA FREI TOMÁS. Não li as reportagens do Público sobre a última greve dos professores e as peças do Diário de Notícias sobre um alegado corte de medicamentos aos idosos e sobre não sei que argumento que terá levado o DN a concluir que os juízes não condenam os ricos, que Miguel Sousa Tavares considerou facciosas, e a propósito das quais sentenciou que o jornalismo já viu melhores dias. Mas dou de barato que tem razões de queixa sobre as peças a que se refere e que o jornalismo já viu melhores dias, embora sobre este último ponto eu tenha mais dúvidas que certezas. Acontece que Miguel Sousa Tavares não tem autoridade para dar lições de jornalismo. Quem leu o que ele publicou sobre a invasão do Iraque por Bush filho? Eu li, tenho presente o essencial do que ele então disse, e devo dizer que não gostei. Não por causa das suas opiniões, mas pelas constantes inverdades e manipulação dos factos de modo a concluir — e a fazer concluir — o que pretendia. Lembro-me bem disso, e por várias vezes escrevi contra tais práticas (ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui). Convém, portanto, que o Miguel recorde o seu próprio passado, e que ponha a mão na consciência antes de vir dar lições sobre as quais me parece não ter autoridade.

22 de julho de 2013

ALFARRABISTAS. Apesar dos ebooks, que leio cada vez mais, passo a vida a comprar livros, alguns que nunca lerei. Agora quase só nos alfarrabistas, onde vou descobrindo preciosidades que nem sabia que existiam. Foi o caso no fim-de-semana, em que por meia dúzia de patacos adquiri Hermit in Paris: Autobiographical Writings, compilação de textos autobiográficos de Italo Calvino que comecei a ler a todo o vapor.
UM FRACASSO ANUNCIADO. Estava escrito nas estrelas que o «compromisso de salvação nacional» (entendimento entre PSD, CDS e PS pelo menos até Junho do ano que vem), praticamente imposto pelo Presidente da República, iria acabar num rotundo fracasso. Afastada a hipótese de um Governo de iniciativa presidencial, o Presidente optou por manter o Executivo em funções, não se sabe se com a remodelação tal como foi anunciada. Resumindo, há dez dias o Presidente não confiava no Governo, e exigiu um «compromisso de salvação nacional». Agora, que o compromisso falhou e nada mudou, passou a confiar, mantendo-o em funções sabe-se lá até quando. Será preciso fazer um desenho para demonstrar que nem este Governo nem este Presidente merecem a confiança dos portugueses, a começar por quem votou neles?

19 de julho de 2013

ESTALOS À CLASSE POLÍTICA. Como estarão lembrados, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o Presidente da República deu um «estalo à classe política». Acontece que o Presidente integra, e de que maneira, a classe política, pelo que me irrita que se insista em colocá-lo acima dela. Um cavalheiro que foi primeiro-ministro durante uma década e já vai no segundo mandato como Presidente da República não faz parte da classe política? Percebo que Cavaco se queira distanciar do que há de pior na política, mas honestamente não me parece que o passado o ajude. Bem pelo contrário. Como tantos outros, Cavaco representa o pior que ela tem, e as trapalhadas (chamo-lhe trapalhadas para não ir mais longe) em que se viu metido bastarão para o demonstrar.

17 de julho de 2013

POLITIQUICES. Se o PS aceitar o «compromisso de salvação nacional», como deseja o Presidente da República, no final da legislatura (ou antes, no caso de o Governo não chegar até lá) será, como o PSD e o CDS, co-responsável pelo fracasso da governação. Se não aceitar, será, obviamente, acusado de apenas se ralar com o umbigo, de não quer saber do país, e com um pouco de esforço ainda acabará como o primeiro responsável pelo estado a que isto chegou. É isto, no fundo, que resultará do «compromisso» proposto pelo Presidente, em que o PS será preso por ter cão, e preso por não ter. Mas há pior: não se vislumbra o que o país possa ganhar com um eventual negócio do Governo com o PS. Servirá, quando muito, para calar o PS durante algum tempo, e correr com o líder logo a seguir. Se apear Seguro talvez seja benéfico para o país, o silêncio dos cemitérios só aos mortos interessa.