11 de setembro de 2013
10 de setembro de 2013
VEM AÍ O JOGO DO GATO E DO RATO. Até ver, a eventual transferência do arsenal químico em poder do governo sírio para as mãos de uma entidade internacional, e posterior destruição, é uma boa notícia. Boa notícia porque assim se evitará, para já, uma intervenção militar de consequências imprevisíveis, e porque todas as partes parecem sair a ganhar — os Estados Unidos, que se podem gabar de ter forçado um acordo substancial, a Rússia, que se pode vangloriar de ter alcançado o que parece uma boa solução, o próprio governo sírio, que não perde inteiramente a face. Dito isto, tenho dúvidas como isso se fará. Tenho dúvidas que o governo sírio cumpra o acordo que se anuncia, e que os previsíveis obstáculos que virão a seguir (haverá sempre dúvidas que será entregue todo o arsenal, que os inspectores da força internacional sejam isentos, obstáculos de toda a ordem e espécie a dificultar a missão) tornem, a prazo, uma intervenção militar mais robusta e perigosa. Oxalá me engane, mas o que agora se anuncia como uma boa saída tem fortes probabilidades de se tornar, a prazo, numa entrada no Inferno.
5 de setembro de 2013
O REGRESSO DOS DINOSSAUROS. Como se previa, o Tribunal Constitucional (TC) autorizou as candidaturas dos «dinossauros». A decisão será inatacável do ponto de vista jurídico-constitucional, mas como alertei desde a primeira hora incompreensível ao comum dos mortais. Vale a pena lembrar que a autorização hoje concedida pelo TC só foi possível graças a uma lei feita com os pés e aprovada por um bando de irresponsáveis, os senhores deputados, que perante a evidência do erro nem sequer se deram ao cuidado de o emendar (preferiram entupir os tribunais, como se os tribunais já não estivessem entupidos que chegasse). Uma lei, nunca é demais repetir, que toda a gente percebeu, desde o início, em que sentido ia, excepto os politiqueiros que temos. Sugiro, portanto, aos eleitores o que sugeri desde a primeira hora, neste momento a única arma que lhes resta: caso apanhem pela frente os «dinossauros» que só a «engenharia política» tornou possível que voltassem a candidatar-se após três mandatos consecutivos, respondam-lhes com um Zé Povinho.
4 de setembro de 2013
QUANDO TUDO ESTÁ MAL, NEM TUDO ESTARÁ MAL. Definitivamente que nada está bem para os professores do ensino público, provisórios e definitivos. Agora é o dirigente de uma associação que exige saber «quantos professores do quadro vão leccionar (...) disciplinas que não correspondem aos grupos para os quais foram recrutados». «Um professor que ensina Informática ou Economia há 20 anos» estará habilitado a dar Matemática?», pergunta o dirigente. E prossegue com perguntas do género, questionando, pela enésima vez, a política educativa do enésimo governo. Imaginam os professores do ensino privado a questionar as decisões de quem os contratou? Com certeza que não imaginam. Porque os professores do ensino público e privado são contratados para ensinar, não para impor as regras. Percebe-se que os professores com vínculo precário ao Estado se preocupem com a eminência do desemprego, que se imagina dramático. Mas daí até quererem impor aos governos a cartilha educativa e determinar as regras das suas próprias funções, vai um abismo. Mal ou bem, os governos exercem funções para os quais foram eleitos. Já os professores não têm legitimidade para isso.
MAIS IMPROVISOS, MENOS TELEPONTOS. O João Miguel Tavares (JMT) começa assim mais uma excelente crónica no Público de ontem: «Eu aconselhava piedosamente o primeiro-ministro a fixar a frase "nunca mais vou voltar a falar de improviso sobre assuntos importantes", e de seguida a repeti-la 100 vezes em voz alta, de preferência na companhia de todos os assessores. Assim, da próxima vez que tivesse a tentação de subir a um palanque sem papéis nem teleponto, alguém o poderia amordaçar por caridade, para evitar que proferisse as bajoujices do último fim-de-semana.» Pois eu defendo precisamente o contrário, pelas razões que o próprio JMT enumerou. O improviso e a falta de teleponto têm a virtude de nos mostrar o que os governantes têm dentro, a sua verdadeira pele, a massa de que são feitos. Pela sucessão de disparates que aponta ao primeiro-ministro, cada um pior que o outro, evidentemente que o rei vai nu. E isso, não sendo motivo de festejos, é bom que se saiba.
3 de setembro de 2013
LAWRENCE DURRELL. Graças ao e-book que reúne os quatro volumes, completei, finalmente, o Quarteto de Alexandria. Há muito que um livro não me dava o gozo que me deu Clea, o último da série, onde se lêem passagens de uma beleza surpreendente.
30 de agosto de 2013
JUÍZOS EM CAUSA PRÓPRIA. Nada contra a decisão do Tribunal Constitucional ontem anunciada. Para ser mais preciso, nem contra, nem a favor, que os meus conhecimentos sobre a Constituição não chegam para formar uma opinião. Mas há duas perguntas que me julgo habilitado a fazer: é normal que juízes decidam em causa própria? Tomarem decisões que os afectam directamente, no caso de ontem escapando a uma lei que, a ser aprovada, os afectaria pessoalmente? Não sei qual será a melhor receita para estes casos, mas esta definitivamente não é.
29 de agosto de 2013
IMAGINEM SE A GUERRA JÁ TIVESSE COMEÇADO. O Diário de Notícias diz que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros «discorda das informações norte-americanas» que apontam o regime sírio como responsável pelo ataque com armas químicas sobre os seus concidadãos, e que «a Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque (...) foi realizado por forças rebeldes». Discordar das informações? Foi isso mesmo o que o DN escreveu. Que as informações se considerem insuficientes, pouco credíveis, manipuladas ou até inventadas, percebe-se. Mas discordar dos factos, é coisa que não lembra ao diabo. Quanto às provas que o Governo sírio terá apresentado à ONU, queria o DN dizer alegadas provas? É que o texto está redigido de modo a não deixar dúvidas quanto à veracidade das ditas, e manda o rigor que não se diga que é o que não se sabe se é. Bem sei que numa guerra a verdade é a primeira a tombar, mas a guerra ainda não começou.
28 de agosto de 2013
TALVEZ HAJA AQUI UM LAPSO FREUDIANO. Um dia após ter-se mostrado «profundamente convicto» de que o cancro que vitimou o ex-presidente Hugo Chávez foi inoculado, desta vez não disse por quem, e de garantir a existência de planos para matar o actual presidente venezuelano, por acaso ele próprio, Nicolás Maduro referiu-se, em discurso ao país, ao milagre da «multiplicação dos peixes» atribuído a Jesus Cristo como sendo o «milagre da multiplicação dos pénis». Conheço mal o dr. Sigmund, mas não será isto o que se designa por lapso freudiano?
27 de agosto de 2013
MAIS MINHOCAS. O actual Ministro dos Negócios começou por omitir no currículo a sua passagem pelo BPN/SLN, onde foi presidente do conselho superior e membro do conselho consultivo. Detectado o «esquecimento», admitiu ter comprado acções do BPN a um euro cada que posteriormente vendeu a dois euros e meio, que lhe rendeu um lucro de 150%. Descobriu-se, depois, que Rui Machete comprou acções para a Fundação Luso-Americana (a que então presidia) precisamente no mesmo período em que comprou as suas, mas estas a 2,2 euros. Como a história causou falatório, nos últimos dias achou por bem vir dizer que, afinal, se equivocou. As acções pessoais foram adquiridas ao mesmo preço das acções da FLAD, isto é, a 2,2 euros, não como, por «equívoco», inicialmente admitiu. Veremos no que isto vai dar, mas sempre que alguém mexe no caso é «minhoca por todo o sítio», como diria a juíza Cândida Almeida, que sabia do que falava.
23 de agosto de 2013
PROVAR DO PRÓPRIO VENENO. Afinal, não é só Lorenzo Carvalho que faz festas de anos de 300 mil euros. Também há quem tenha mansões para vender. Adivinhem quem.
22 de agosto de 2013
ISTO VAI BOM PARA AS MINHOCAS. A juíza Cândida Almeida revelou, há pouco, que o BPN é um caso em que cada vez que se mexe na terra «sai minhoca por todo o sítio». A avaliar pelo silêncio à volta do BPN, deixaram de mexer na terra. O Governo resolveu introduzir briefings diários com o propósito de melhorar a comunicação com os cidadãos. Como em meia dúzia de dias puseram a descoberto o que doutro modo ficaria encoberto, começou por torná-los bissemanais, agora promete regressar em Setembro após «afinações» destinadas a «eliminar o ruído», e a seguir acabará com eles. Decididamente que há coisas que os cidadãos não devem saber. Por causa das minhocas, que assim se reproduzem mais facilmente, e para não haver riscos de envolver pessoas e negócios acima de qualquer suspeita, como ainda hoje se viu. Somos, definitivamente, um país de brandos costumes. Fossemos um pouco menos brandos e estaríamos a ampliar a «ala VIP» da Carregueira.
21 de agosto de 2013
FENÓMENO DO ENTRONCAMENTO. Leio em dois jornais britânicos (aqui e aqui) que Samantha Shannon escreveu um livro do outro mundo e se prepara para com ele alcançar um êxito estrondoso. Que os direitos já foram vendidos para vinte países, que recebeu um adiantamento de 100 mil libras de uma importante editora (a Bloomsbury), que é o primeiro de uma série de sete, e que vai dar um filme. Aqui chegado, constato, sem espanto, que Samantha já tem uma entrada na Wikipédia, onde consta a bibliografia... não publicada (The Bone Season, ontem posto à venda em Inglaterra, e Aurora, o seu primeiro romance). Leram bem: Samantha é já uma estrela literária, quiçá digna do panteão, por dois romances... não publicados. Dizem-me que o livro de estreia terá sido lido por gente ligada aos meios, que o terão achado fenomenal. Não deixa, contudo, de espantar que se consagre uma jovem de 21 anos que até ver só escreveu um bestseller, no caso, evidentemente, de se confirmarem as previsões. Bestseller a que o «nosso» O'Neill «traduziu» por «besta célere», e que talvez não passe, como também disse, de «um típico produto da chamada indústria cultural», que exteriormente toma a forma de livro «para melhor se confundir com os verdadeiros livros».
20 de agosto de 2013
A INCONTORNÁVEL JUDITE. Judite de Sousa terá apanhado demasiado sol no Algarve, como as fotos em variadíssimos jornais bem o demonstram, e terá outros problemas que não me dizem respeito. Mas daí até indignar meio mundo com uma entrevista palerma a um jovem milionário, vai um abismo. É pecado que um jovem de 22 anos gaste uma fortuna do seu próprio bolso numa festa de anos num país (o nosso) onde tantos vivem na penúria? Que o sujeito não se sinta constrangido por gastar um balúrdio em coisas supérfluas, e culpado por ter tanto dinheiro? Para Judite de Sousa, não só é pecado, como é um escândalo. Como é evidente, e até a própria já admitiu que o tom da entrevista «foi desajustado» (pena não ter admitido tratar-se de um não assunto, muito menos motivo para entrevista), o pressuposto é idiota, e lamenta-se que a contundência das perguntas ao jovem Lorenzo nem sempre se verifique com quem realmente interessa ouvir. (Houve entrevistas de Judite de Sousa a personalidades com responsabilidades no país que me irritaram muito mais e passaram sem comentários.) Uma coisa houve que não vi comentada e me incomodou mais que as palermices de Judite de Sousa: a peça emitida antes da entrevista, que segundo o entrevistado continha, pelo menos, três erros factuais. Segundo Lorenzo Carvalho, que perante as provocações manteve uma notável presença de espírito para um jovem da sua idade, não é verdade que pague um milhão de euros para correr cada prova de não sei que campeonato automobilístico, não é verdade que aspire chegar à Fórmula 1, não é verdade que tenha contratado (e pago em conformidade) uma estrela de cinema para estar na tal festa em que terá gasto 300 mil euros. Três erros factuais de palmatória numa peça de escassos segundos, e que a TVI não desmentiu.
FAÇAM O FAVOR DE LER. Dois textos que subscrevo da primeira à última linha: Agarrados, de Paulo Morais, e Quando a comunicação social se suicida, de Nuno Ramos de Almeida.
16 de agosto de 2013
DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Poderá ser explicável do ponto de vista jurídico, mas que sentido fará que sobre casos iguais uns tribunais decidam uma coisa, e outros o contrário? É o que está a acontecer com os «dinossauros autárquicos», que uns tribunais consideram poder candidatar-se a uma nova autarquia após três mandatos noutra, e outros não. Que uma lei redigida com os pés tenha causado este imbróglio, é grave, embora todos percebam que a ideia era extinguir os dinossauros. Que os tribunais se contradigam e se metam a fazer política em vez de justiça, é inadmissível. Parece que em última instância é o Tribunal Constitucional quem vai decidir estes casos. Valerá a pena lembrar como (e por quem) é formado o Tribunal Constitucional? Só a «engenharia política» permitirá que alguém se candidate a um novo mandato autárquico que já fez três consecutivos, pelo que insisto no que venho dizendo desde a primeira hora: no caso de apanharem gente desta nas urnas, façam-lhes um valente manguito.
15 de agosto de 2013
MEDITAÇÕES DE VERÃO. Duas boas notícias em apenas dois dias: a economia cresceu, e os juros da dívida baixaram. Com praticamente todos os políticos em férias, do Governo e da oposição, é caso para dizer: as coisas tendem a melhorar quando eles saem de cena.
14 de agosto de 2013
DESPEJAR O LIXO NO QUINTAL DO VIZINHO. «Se se confirmar que houve realmente uma alteração de um documento que tinha como objectivo manipular a comunicação social para por sua vez influenciar a opinião pública», disse o ministro Poiares Maduro, estamos diante «um acto gravíssimo». Não conheço o já célebre documento, sobre o qual o Governo se mostrou especialmente zeloso em ver esclarecido mal soube ter origem no executivo anterior. Mas o pressuposto de que a manipulação da comunicação social é «um atentado a aspectos fundamentais do funcionamento de uma democracia», além de «um acto gravíssimo», só mesmo para gozar connosco. As mentiras sobre os swaps e as omissões no currículo de alguns governantes destinaram-se a quê? Não terão sido, também elas, tentativas de manipular a mesmíssima comunicação social, e através dela a opinião pública? Como mais uma vez se demonstra, o desespero é mau conselheiro. Depois de Marco António ter perguntado por que razão o Governo Sócrates não denunciou ao Ministério Público e ao Banco de Portugal a tentativa de lhe venderem swaps como se houvesse alguma ilegalidade a denunciar, Poiares Maduro desesperadamente procura sacudir para terceiros as trapalhadas em que o Governo desastradamente se meteu, e para as quais não se vê fim à vista.
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