16 de outubro de 2013
DECLARAÇÕES INFELIZES. A trapalhada em curso nas relações luso-angolanas tem, essencialmente, dois responsáveis: o ministro português dos Negócios Estrangeiros, que resolveu pôr-se de cócoras perante o Estado angolano; e o chefe do Governo português, que prontamente defendeu Rui Machete por considerar que «declarações infelizes» não são razões para o demitir. Evidentemente que o Estado angolano só podia, face a esta anedota, levantar a voz. Primeiro pelos papagaios do costume, depois pelo próprio Presidente José Eduardo dos Santos, para quem a actual relação entre Portugal e Angola «não aconselha à construção da parceria estratégica» entre os dois países. E porque a investigação que decorre na Procuradoria-Geral da República e respectivas notícias sopradas para os media têm vindo, segundo ele, a criar a imagem de que o angolano rico «é corrupto ou suspeito de corrupção», coisa, como sabemos, muito longe de ser verdadeira. Basta, aliás, olhar para o clã Eduardo dos Santos e seus homens de mão para esclarecer todas as dúvidas.
11 de outubro de 2013
SE FOSSE EM ANGOLA A GENTE TRATAVA DISSO. «Não podemos admitir que em Portugal, políticos e jornalistas, intelectuais com ideias submersas em ódios recalcados não respeitem os nossos símbolos nacionais e desonrem os titulares dos nossos órgãos de soberania», diz-se, em editorial, na trombeta angolana. E que fazer para impedir que isso suceda? Calar os políticos portugueses, os jornalistas portugueses, os intelectuais portugueses? Infelizmente, José Ribeiro, director do Jornal de Angola, não explica como proceder. Como a informação em Portugal ainda é relativamente livre apesar de todo o dinheiro angolano despejado sobre ela nos últimos anos (por razões não só empresariais, está bom de ver), e os cidadãos portugueses são livres de expressar as suas opiniões sobre o que entenderem sem que nada lhes suceda, incluindo a corrupção nos círculos do poder angolano (de que a trombeta angolana parece nada saber), não se vê como.
9 de outubro de 2013
QUANDO OS COBARDES DÃO LIÇÕES DE MORAL. Três conclusões a tirar do artigo assinado por Álvaro Domingos no Jornal de Angola de sábado passado: é um crime grave que a justiça portuguesa investigue dois altos representantes do Estado angolano, entre eles o vice-Presidente da República e o Procurador-Geral da República, segundo dizem por suspeitas de irregularidades cometidas em Portugal; a aparente violação do segredo de justiça, tornando público o teor das investigações, feriu «a honra e o bom nome de duas altas figuras do Estado Angolano»; existem, em Portugal, órgãos de informação onde «jornalistas obedientes aos donos fazem o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», segundo ele graças a «uma relação espúria e aviltante entre o Ministério Público e uma comunicação social que actua na lógica das associações de malfeitores». Tiradas as conclusões, três comentários: ao contrário do que o articulista sugere, nada impede que as individualidades citadas sejam investigadas pela justiça portuguesa caso a dita entenda existirem indícios de práticas irregulares cometidas em território português, e até ver não foram acusados de nada; é, de facto, um crime a violação do segredo de justiça, mas toda a gente percebeu que a violação do dito não é, para o sr. Domingos, o verdadeiro problema, sobre o qual preferiu não se pronunciar; finalmente, não custa acreditar que haja, em Portugal, «jornalistas obedientes aos donos», prontos a fazer «o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», mas um sujeito que se esconde atrás de um nome fictício (Álvaro Domingos é um dos vários pseudónimos usados por um cobardolas que todos sabem quem é) e escreve para a trombeta do regime não tem, obviamente, um pingo de autoridade para dar lições de más práticas jornalísticas. Termino com uma pergunta: o que pensará ele e o Jornal de Angola da reportagem da Forbes sobre Isabel dos Santos (original aqui), que a revista acusa de tudo e mais alguma coisa? Fui pesquisar e não vi que o sr. Domingos tivesse escrito uma linha sobre tão melindroso assunto, nem sequer para defender a filha do Presidente — e o Jornal de Angola não só ignorou o episódio como ainda a elogiou por interpostas pessoas. Será preciso dizer mais alguma coisa? Álvaro Domingos esquece-se que o jornal em que escreve pode ser lido em qualquer parte do mundo, e que o resto do mundo não tem, como os angolanos, motivos para recear o Presidente Eduardo dos Santos. Ao contrário dos domingos desta vida, que se escondem atrás de quem são para lamber as botas a quem lhes dá de comer.
8 de outubro de 2013
JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS VANGLORIA-SE DA SUA PRÓPRIA IGNORÂNCIA. «Ah, uma pintura de Picasso é bonita? Não, não é bonita. Nem Picasso queria que fosse. Ele está a cultivar o feio. Stravinsky faz música que são guinchos. O truque está justamente aí. Isto contagia a literatura. Ler o Ulisses do Joyce é um exercício de masoquismo. Ele leva duas páginas a descrever um armário.»
7 de outubro de 2013
MACHETE, O INFELIZ. Como não bastassem as constantes «incorrecções» sempre que se vê obrigado a prestar declarações sobre a sua passagem pela vigarice que foi o BPN, o ministro Rui Machete resolveu, agora, pedir desculpa ao Estado angolano pelas investigações judiciais em curso que atingem, ao que dizem, altas figuras daquele país. «Não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal», garantiu o ministro dos Negócios Estrangeiros a uma rádio angolana. E como soube ele que não há nada digno de relevo? Presumindo-se que não teve acesso aos processos (em segredo de justiça), a garantia dada pelo ministro é um mistério. Mistério que o próprio se encarregou de desvendar, mais uma vez dando o dito por não dito, de novo corrigindo-se a si mesmo. «Ninguém pode ficar diminuído politicamente por usar uma expressão infeliz», disse o primeiro-ministro sobre o episódio. Como é evidente, não foi, apenas, uma «expressão infeliz», mas um erro que envergonha os portugueses — motivo bastante para não passar sem consequências. É bom não esquecer que Machete anda a dizer coisas infelizes ainda antes de tomar posse, e já não merecia o respeito de ninguém ainda antes do episódio angolano. Prolongar-lhe o mandato é, por isso, eticamente insustentável, politicamente inadmissível, e embaraçoso para qualquer português com um pingo de vergonha na cara.
AI A MEMÓRIA. Se bem me lembro, Manuela Ferreira Leite impediu que Passos Coelho se candidatasse a deputado quando Manuela dirigia o PSD. Tudo porque Passos Coelho foi seu adversário na corrida à liderança social-democrata, e não lhe convinha uma ovelha negra na Assembleia da República. Estranho, por isso, que Manuela agora elogie os militantes do partido a que pertence que «não apoiaram determinado tipo de candidaturas», como esquecesse os tempos em que dirigiu o PSD (ou os outros se tivessem esquecido), e que agora seriam ocupados a estudar a melhor forma de os emprateleirar com o máximo de descrição caso continuasse na liderança. Estou à vontade para o dizer: não teria votado nos candidatos sociais-democratas às câmaras do Porto e Gaia caso militasse no PSD e aí residisse, dois evidentes «erros de casting» cujo responsável foi, evidentemente, o actual líder do PSD, que eu veria com bons olhos removido o mais depressa possível. Mas se em política a coerência é uma prática que já ninguém espera, é bom não perder inteiramente a memória — ou agir como se os outros não a tivessem.
28 de setembro de 2013
PEQUENA CONTRIBUIÇÃO PARA AS AUTÁRQUICAS. Calhou-me ser visitado pelo candidato a presidente da junta de uma determinada freguesia e respectiva equipa. Conhecedores da visita, alguém da família resolveu improvisar uma dúzia de sugestões, cada uma mais estapafúrdia que a outra — substituir os transportes públicos locais pelo TGV, instalar uma piscina olímpica onde se encontra uma unidade industrial desactivada, e mais disparates do género. A graça (ou tragédia, para quem leva estas coisas mais a peito) foi quando o candidato a vice-presidente leu as sugestões e começou a levar aquilo a sério, a ponto de comentar que havia ali matéria a considerar. Foi preciso alguém tirar-lhe o papel das mãos e dizer-lhe que era brincadeira para que o sujeito não passasse por um vexame ainda maior, embora já não se livrasse da risota geral. Gostaria de acreditar que isto não é a regra, mas a verdade é que são muitíssimos os casos como este e demasiados os casos ainda piores. Como não votarei nas Autárquicas (resido no estrangeiro), e porque dificilmente me afectará a vitória do candidato A ou a derrota do partido B, o resultado de domingo não me ralará por aí além. Mas gostaria, como português, que ganhassem os melhores, não sendo possível os menos maus. Por aquilo que se conhece, e pelo resto que se imagina, não vai ser fácil.
17 de setembro de 2013
RATAZANAS. Ficou claro desde o início que Maria Luís Albuquerque não tinha condições para exercer o cargo de ministra das Finanças. Por razões amplamente conhecidas, que por isso me dispenso de repetir. Assim não entendeu o primeiro-ministro, e a oposição na altura limitou-se a um pequeno burburinho logo seguido de um silêncio ruidoso. Ontem surgiram mais notícias, até ver toscamente desmentidas, de que Maria Luís Albuquerque teve novas «falhas de memória». O maior partido da oposição volta a exigir a demissão da ministra, a dizer que «não tem condições» para se manter no cargo, mas o destino da ministra parece traçado: três dias de escandaleira, e assunto encerrado. Ao quarto dia tudo voltará a ser como dantes, quartel-general em Abrantes. Como antecipadamente garante Marco António, porta-voz do PSD, «a montanha pariu um rato».
12 de setembro de 2013
PENSAMENTO DE BARBEARIA. Só agora me ocorre que, tirando Kim Jong-un, grande líder da Coreia do Norte, não me lembro de um único ditador que não use — ou tenha usado — bigode. O lembrete veio a propósito do barbeiro que tratou do cabelo que ainda me resta, um brasileiro de Minas Gerais, a quem pedi que me «acertasse» o bigode e a propósito do qual teceu considerações que muito o divertiram, mas cujo alcance não vislumbrei. A ver se medito no assunto nas férias que aí vêm, nos intervalos de umas barrigadas de figos e doutros espécimes que as autoridades alimentares e sanitárias, certamente na esperança de me salvarem não sei bem de quê (se calhar nem eles), desaconselham, e por isso me hão-de saber ainda melhor. Prometo regressar mal tenha o caso resolvido, mas dada a complexidade do assunto calculo que só daqui a duas ou três semanas voltarei com a regularidade habitual. Até lá, é possível que uma indigestão ou outra me leve a fazer um post de vez em quando, que mesmo não sendo uma prática recomendada pelas autoridades por vezes é remédio santo.
11 de setembro de 2013
ORA AQUI ESTÁ UM ESTUDO QUE VAI MUDAR O MUNDO. Tamanho dos testículos associado à capacidade dos pais de cuidarem de crianças
10 de setembro de 2013
VEM AÍ O JOGO DO GATO E DO RATO. Até ver, a eventual transferência do arsenal químico em poder do governo sírio para as mãos de uma entidade internacional, e posterior destruição, é uma boa notícia. Boa notícia porque assim se evitará, para já, uma intervenção militar de consequências imprevisíveis, e porque todas as partes parecem sair a ganhar — os Estados Unidos, que se podem gabar de ter forçado um acordo substancial, a Rússia, que se pode vangloriar de ter alcançado o que parece uma boa solução, o próprio governo sírio, que não perde inteiramente a face. Dito isto, tenho dúvidas como isso se fará. Tenho dúvidas que o governo sírio cumpra o acordo que se anuncia, e que os previsíveis obstáculos que virão a seguir (haverá sempre dúvidas que será entregue todo o arsenal, que os inspectores da força internacional sejam isentos, obstáculos de toda a ordem e espécie a dificultar a missão) tornem, a prazo, uma intervenção militar mais robusta e perigosa. Oxalá me engane, mas o que agora se anuncia como uma boa saída tem fortes probabilidades de se tornar, a prazo, numa entrada no Inferno.
5 de setembro de 2013
O REGRESSO DOS DINOSSAUROS. Como se previa, o Tribunal Constitucional (TC) autorizou as candidaturas dos «dinossauros». A decisão será inatacável do ponto de vista jurídico-constitucional, mas como alertei desde a primeira hora incompreensível ao comum dos mortais. Vale a pena lembrar que a autorização hoje concedida pelo TC só foi possível graças a uma lei feita com os pés e aprovada por um bando de irresponsáveis, os senhores deputados, que perante a evidência do erro nem sequer se deram ao cuidado de o emendar (preferiram entupir os tribunais, como se os tribunais já não estivessem entupidos que chegasse). Uma lei, nunca é demais repetir, que toda a gente percebeu, desde o início, em que sentido ia, excepto os politiqueiros que temos. Sugiro, portanto, aos eleitores o que sugeri desde a primeira hora, neste momento a única arma que lhes resta: caso apanhem pela frente os «dinossauros» que só a «engenharia política» tornou possível que voltassem a candidatar-se após três mandatos consecutivos, respondam-lhes com um Zé Povinho.
4 de setembro de 2013
QUANDO TUDO ESTÁ MAL, NEM TUDO ESTARÁ MAL. Definitivamente que nada está bem para os professores do ensino público, provisórios e definitivos. Agora é o dirigente de uma associação que exige saber «quantos professores do quadro vão leccionar (...) disciplinas que não correspondem aos grupos para os quais foram recrutados». «Um professor que ensina Informática ou Economia há 20 anos» estará habilitado a dar Matemática?», pergunta o dirigente. E prossegue com perguntas do género, questionando, pela enésima vez, a política educativa do enésimo governo. Imaginam os professores do ensino privado a questionar as decisões de quem os contratou? Com certeza que não imaginam. Porque os professores do ensino público e privado são contratados para ensinar, não para impor as regras. Percebe-se que os professores com vínculo precário ao Estado se preocupem com a eminência do desemprego, que se imagina dramático. Mas daí até quererem impor aos governos a cartilha educativa e determinar as regras das suas próprias funções, vai um abismo. Mal ou bem, os governos exercem funções para os quais foram eleitos. Já os professores não têm legitimidade para isso.
MAIS IMPROVISOS, MENOS TELEPONTOS. O João Miguel Tavares (JMT) começa assim mais uma excelente crónica no Público de ontem: «Eu aconselhava piedosamente o primeiro-ministro a fixar a frase "nunca mais vou voltar a falar de improviso sobre assuntos importantes", e de seguida a repeti-la 100 vezes em voz alta, de preferência na companhia de todos os assessores. Assim, da próxima vez que tivesse a tentação de subir a um palanque sem papéis nem teleponto, alguém o poderia amordaçar por caridade, para evitar que proferisse as bajoujices do último fim-de-semana.» Pois eu defendo precisamente o contrário, pelas razões que o próprio JMT enumerou. O improviso e a falta de teleponto têm a virtude de nos mostrar o que os governantes têm dentro, a sua verdadeira pele, a massa de que são feitos. Pela sucessão de disparates que aponta ao primeiro-ministro, cada um pior que o outro, evidentemente que o rei vai nu. E isso, não sendo motivo de festejos, é bom que se saiba.
3 de setembro de 2013
LAWRENCE DURRELL. Graças ao e-book que reúne os quatro volumes, completei, finalmente, o Quarteto de Alexandria. Há muito que um livro não me dava o gozo que me deu Clea, o último da série, onde se lêem passagens de uma beleza surpreendente.
30 de agosto de 2013
JUÍZOS EM CAUSA PRÓPRIA. Nada contra a decisão do Tribunal Constitucional ontem anunciada. Para ser mais preciso, nem contra, nem a favor, que os meus conhecimentos sobre a Constituição não chegam para formar uma opinião. Mas há duas perguntas que me julgo habilitado a fazer: é normal que juízes decidam em causa própria? Tomarem decisões que os afectam directamente, no caso de ontem escapando a uma lei que, a ser aprovada, os afectaria pessoalmente? Não sei qual será a melhor receita para estes casos, mas esta definitivamente não é.
29 de agosto de 2013
IMAGINEM SE A GUERRA JÁ TIVESSE COMEÇADO. O Diário de Notícias diz que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros «discorda das informações norte-americanas» que apontam o regime sírio como responsável pelo ataque com armas químicas sobre os seus concidadãos, e que «a Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque (...) foi realizado por forças rebeldes». Discordar das informações? Foi isso mesmo o que o DN escreveu. Que as informações se considerem insuficientes, pouco credíveis, manipuladas ou até inventadas, percebe-se. Mas discordar dos factos, é coisa que não lembra ao diabo. Quanto às provas que o Governo sírio terá apresentado à ONU, queria o DN dizer alegadas provas? É que o texto está redigido de modo a não deixar dúvidas quanto à veracidade das ditas, e manda o rigor que não se diga que é o que não se sabe se é. Bem sei que numa guerra a verdade é a primeira a tombar, mas a guerra ainda não começou.
28 de agosto de 2013
TALVEZ HAJA AQUI UM LAPSO FREUDIANO. Um dia após ter-se mostrado «profundamente convicto» de que o cancro que vitimou o ex-presidente Hugo Chávez foi inoculado, desta vez não disse por quem, e de garantir a existência de planos para matar o actual presidente venezuelano, por acaso ele próprio, Nicolás Maduro referiu-se, em discurso ao país, ao milagre da «multiplicação dos peixes» atribuído a Jesus Cristo como sendo o «milagre da multiplicação dos pénis». Conheço mal o dr. Sigmund, mas não será isto o que se designa por lapso freudiano?
27 de agosto de 2013
MAIS MINHOCAS. O actual Ministro dos Negócios começou por omitir no currículo a sua passagem pelo BPN/SLN, onde foi presidente do conselho superior e membro do conselho consultivo. Detectado o «esquecimento», admitiu ter comprado acções do BPN a um euro cada que posteriormente vendeu a dois euros e meio, que lhe rendeu um lucro de 150%. Descobriu-se, depois, que Rui Machete comprou acções para a Fundação Luso-Americana (a que então presidia) precisamente no mesmo período em que comprou as suas, mas estas a 2,2 euros. Como a história causou falatório, nos últimos dias achou por bem vir dizer que, afinal, se equivocou. As acções pessoais foram adquiridas ao mesmo preço das acções da FLAD, isto é, a 2,2 euros, não como, por «equívoco», inicialmente admitiu. Veremos no que isto vai dar, mas sempre que alguém mexe no caso é «minhoca por todo o sítio», como diria a juíza Cândida Almeida, que sabia do que falava.
23 de agosto de 2013
PROVAR DO PRÓPRIO VENENO. Afinal, não é só Lorenzo Carvalho que faz festas de anos de 300 mil euros. Também há quem tenha mansões para vender. Adivinhem quem.
22 de agosto de 2013
ISTO VAI BOM PARA AS MINHOCAS. A juíza Cândida Almeida revelou, há pouco, que o BPN é um caso em que cada vez que se mexe na terra «sai minhoca por todo o sítio». A avaliar pelo silêncio à volta do BPN, deixaram de mexer na terra. O Governo resolveu introduzir briefings diários com o propósito de melhorar a comunicação com os cidadãos. Como em meia dúzia de dias puseram a descoberto o que doutro modo ficaria encoberto, começou por torná-los bissemanais, agora promete regressar em Setembro após «afinações» destinadas a «eliminar o ruído», e a seguir acabará com eles. Decididamente que há coisas que os cidadãos não devem saber. Por causa das minhocas, que assim se reproduzem mais facilmente, e para não haver riscos de envolver pessoas e negócios acima de qualquer suspeita, como ainda hoje se viu. Somos, definitivamente, um país de brandos costumes. Fossemos um pouco menos brandos e estaríamos a ampliar a «ala VIP» da Carregueira.
21 de agosto de 2013
FENÓMENO DO ENTRONCAMENTO. Leio em dois jornais britânicos (aqui e aqui) que Samantha Shannon escreveu um livro do outro mundo e se prepara para com ele alcançar um êxito estrondoso. Que os direitos já foram vendidos para vinte países, que recebeu um adiantamento de 100 mil libras de uma importante editora (a Bloomsbury), que é o primeiro de uma série de sete, e que vai dar um filme. Aqui chegado, constato, sem espanto, que Samantha já tem uma entrada na Wikipédia, onde consta a bibliografia... não publicada (The Bone Season, ontem posto à venda em Inglaterra, e Aurora, o seu primeiro romance). Leram bem: Samantha é já uma estrela literária, quiçá digna do panteão, por dois romances... não publicados. Dizem-me que o livro de estreia terá sido lido por gente ligada aos meios, que o terão achado fenomenal. Não deixa, contudo, de espantar que se consagre uma jovem de 21 anos que até ver só escreveu um bestseller, no caso, evidentemente, de se confirmarem as previsões. Bestseller a que o «nosso» O'Neill «traduziu» por «besta célere», e que talvez não passe, como também disse, de «um típico produto da chamada indústria cultural», que exteriormente toma a forma de livro «para melhor se confundir com os verdadeiros livros».
20 de agosto de 2013
A INCONTORNÁVEL JUDITE. Judite de Sousa terá apanhado demasiado sol no Algarve, como as fotos em variadíssimos jornais bem o demonstram, e terá outros problemas que não me dizem respeito. Mas daí até indignar meio mundo com uma entrevista palerma a um jovem milionário, vai um abismo. É pecado que um jovem de 22 anos gaste uma fortuna do seu próprio bolso numa festa de anos num país (o nosso) onde tantos vivem na penúria? Que o sujeito não se sinta constrangido por gastar um balúrdio em coisas supérfluas, e culpado por ter tanto dinheiro? Para Judite de Sousa, não só é pecado, como é um escândalo. Como é evidente, e até a própria já admitiu que o tom da entrevista «foi desajustado» (pena não ter admitido tratar-se de um não assunto, muito menos motivo para entrevista), o pressuposto é idiota, e lamenta-se que a contundência das perguntas ao jovem Lorenzo nem sempre se verifique com quem realmente interessa ouvir. (Houve entrevistas de Judite de Sousa a personalidades com responsabilidades no país que me irritaram muito mais e passaram sem comentários.) Uma coisa houve que não vi comentada e me incomodou mais que as palermices de Judite de Sousa: a peça emitida antes da entrevista, que segundo o entrevistado continha, pelo menos, três erros factuais. Segundo Lorenzo Carvalho, que perante as provocações manteve uma notável presença de espírito para um jovem da sua idade, não é verdade que pague um milhão de euros para correr cada prova de não sei que campeonato automobilístico, não é verdade que aspire chegar à Fórmula 1, não é verdade que tenha contratado (e pago em conformidade) uma estrela de cinema para estar na tal festa em que terá gasto 300 mil euros. Três erros factuais de palmatória numa peça de escassos segundos, e que a TVI não desmentiu.
FAÇAM O FAVOR DE LER. Dois textos que subscrevo da primeira à última linha: Agarrados, de Paulo Morais, e Quando a comunicação social se suicida, de Nuno Ramos de Almeida.
16 de agosto de 2013
DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Poderá ser explicável do ponto de vista jurídico, mas que sentido fará que sobre casos iguais uns tribunais decidam uma coisa, e outros o contrário? É o que está a acontecer com os «dinossauros autárquicos», que uns tribunais consideram poder candidatar-se a uma nova autarquia após três mandatos noutra, e outros não. Que uma lei redigida com os pés tenha causado este imbróglio, é grave, embora todos percebam que a ideia era extinguir os dinossauros. Que os tribunais se contradigam e se metam a fazer política em vez de justiça, é inadmissível. Parece que em última instância é o Tribunal Constitucional quem vai decidir estes casos. Valerá a pena lembrar como (e por quem) é formado o Tribunal Constitucional? Só a «engenharia política» permitirá que alguém se candidate a um novo mandato autárquico que já fez três consecutivos, pelo que insisto no que venho dizendo desde a primeira hora: no caso de apanharem gente desta nas urnas, façam-lhes um valente manguito.
15 de agosto de 2013
MEDITAÇÕES DE VERÃO. Duas boas notícias em apenas dois dias: a economia cresceu, e os juros da dívida baixaram. Com praticamente todos os políticos em férias, do Governo e da oposição, é caso para dizer: as coisas tendem a melhorar quando eles saem de cena.
14 de agosto de 2013
DESPEJAR O LIXO NO QUINTAL DO VIZINHO. «Se se confirmar que houve realmente uma alteração de um documento que tinha como objectivo manipular a comunicação social para por sua vez influenciar a opinião pública», disse o ministro Poiares Maduro, estamos diante «um acto gravíssimo». Não conheço o já célebre documento, sobre o qual o Governo se mostrou especialmente zeloso em ver esclarecido mal soube ter origem no executivo anterior. Mas o pressuposto de que a manipulação da comunicação social é «um atentado a aspectos fundamentais do funcionamento de uma democracia», além de «um acto gravíssimo», só mesmo para gozar connosco. As mentiras sobre os swaps e as omissões no currículo de alguns governantes destinaram-se a quê? Não terão sido, também elas, tentativas de manipular a mesmíssima comunicação social, e através dela a opinião pública? Como mais uma vez se demonstra, o desespero é mau conselheiro. Depois de Marco António ter perguntado por que razão o Governo Sócrates não denunciou ao Ministério Público e ao Banco de Portugal a tentativa de lhe venderem swaps como se houvesse alguma ilegalidade a denunciar, Poiares Maduro desesperadamente procura sacudir para terceiros as trapalhadas em que o Governo desastradamente se meteu, e para as quais não se vê fim à vista.
9 de agosto de 2013
JÁ SÓ NOS FALTAM AS BANANAS. Já ouviram falar de uma república das bananas? Pois bem, por aquilo que nos últimos tempos tem sucedido, comparar o país a uma república das bananas se calhar peca por defeito. Franquelim Alves, até há pouco secretário de Estado do Empreendedorismo, e Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros, esconderam nos respectivos currículos as suas passagens pelo BPN. Pais Jorge, ex-secretário de Estado do Tesouro, tentou, em tempos, vender swaps ao Governo Sócrates, negócio que desmentiu e confirmou no espaço de 24 horas e lhe valeu a demissão. Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, mete os pés pelas mãos sempre que é chamada a falar dos swaps sem que se vislumbre porquê. Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, esqueceu-se de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa suspeita de tratamento de favor por parte da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo ex-ministro Miguel Relvas, agora promotor da língua portuguesa (palavra de honra). Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, disse em tempos que teria de nascer duas vezes quem fosse mais honesto do que ele, mas nos entretantos protagonizou uma relação com o BPN de contornos duvidosos e viu-se envolvido num episódio de escutas impróprio de um país civilizado. Perante estes casos, e outros que se adivinham, impõe-se perguntar: esta gente é para levar a sério? Infelizmente, é. É preciso estar de olho neles, que eles não são de fiar. Isto para dizer o mínimo.
7 de agosto de 2013
PODRIDÃO NA POLÍTICA. Depois do ministro dos Negócios Estrangeiros, que considerou «podridão dos hábitos políticos» o facto de os media divulgarem que Machete omitiu no currículo a passagem pelo BPN, o secretário de Estado que hoje se demitiu queixou-se que o fez empurrado pelo «lado podre da política». Acontece que Rui Machete e Joaquim Pais Jorge contribuíram, cada um a seu modo, para a podridão que tanto os incomoda. Para falar só dos casos mais recentes, o primeiro por ter omitido do currículo uma informação obviamente relevante e posteriormente ter dado explicações que não convenceram ninguém, o segundo por num dia não se lembrar de umas reuniões que no dia seguinte admitiu conhecer ao detalhe. Um e outro pertencem, portanto, ao lado mais «podre» da política, pelo que nenhum deles tem autoridade para dar lições de moral.
6 de agosto de 2013
AI MÃE. Começa assim a última crónica de Valter Hugo Mãe na revista do Público: «Um menino a brincar com uma borboleta. Feito de porcelana, muito simples e delicadíssimo. Uma criança expectante a observar a borboleta que tem pousada na mão. Comprei no mercado das tralhas de Kiev, perdido que estava entre outras figuras, sujo, sempre miúdo e puro.» Comovente, não é? Prossegue com parágrafos e parágrafos de pérolas como esta até ao período final, também ele uma pérola: «Porque muito do que nos acontece de assustador nem sempre apaga o mais precioso que contemos.» Maravilha, não é? Imaginem se o cavalheiro soubesse escrever.
2 de agosto de 2013
SWAPS. Se os swaps lesaram o Estado em muitos milhões de euros e vêm do governo anterior, por que motivo resolveu a ministra das Finanças assumir um comportamento, no mínimo, pouco claro? Esta é, presumo, a pergunta que os portugueses farão, e para a qual ninguém deu, até agora, resposta. Convenhamos que são demasiadas as contradições, as meias verdades, as omissões — e demasiados os membros do Governo que, de um modo ou doutro, estão ligados a estes produtos, até ver nenhum pelas melhores razões.
A LÓGICA DE RIO. Rui Rio considera a ministra das Finanças tecnicamente «muito má», que «não tinha condições» para substituir Vítor Gaspar, que a sua nomeação foi «um erro», e que se tornou «um problema» para o Governo. Dito isto, considera que deve manter-se no posto, na sua opinião porque a eventual saída provocaria uma nova crise política. Confesso que a lógica me escapa. É preferível manter uma ministra incompetente a criar uma eventual crise política? A mim parece-me que a substituição de Maria Luís Albuquerque valia bem uma crise política, embora não vislumbre por que motivo haveria de causar uma crise política. Como ainda há pouco se viu, Rio gosta de dar lições de moral aos políticos. Convinha, por isso, não dar uma no cravo, outra na ferradura.
UM MINISTRO BOM É UM MINISTRO MORTO. O ministro que toda a gente gozava e de que todos se riam transformou-se, de repente, por via do afastamento do Governo, em tudo o que não era dantes. A fazer fé no que agora se diz, afinal o homem era excelente, competente, sério, fez obra, e mais não sei quê. Definitivamente que um ministro bom é um ex-ministro, parafraseando alguém que dizia que o poeta bom é o poeta morto.
31 de julho de 2013
BRINCAR AOS POBREZINHOS. Alertado por meio mundo, fui ler a reportagem do Expresso sobre a Comporta, ao que dizem um «refúgio das elites». A fazer fé no que lá vem, aquilo é espíritos santos e realezas por todo o lado, nomes sonantes de toda a espécie e proveniência que lá decidiram assentar arraiais, festas na praia regadas a champanhe — mas quando se fala dos habitantes locais (também há), o jornalista resume-os ao «arrozeiro», ao «maneta», e ao «patusco». Um só habitante é identificado pelo nome próprio, mas só pelo primeiro, ao contrário das «elites», identificadas uma a uma do primeiro ao último nome, incluindo o petit nom. Estar na Comporta «é como brincar aos pobrezinhos», refere, às tantas, uma Espírito Santo, que já deu origem a um movimento que promete ir brincar para o local e a um pedido de desculpas da própria. Visto e revisto, confesso que se alguma coisa me incomodou foi o papel a que o jornalista se prestou, certamente para agradar a quem o acolheu durante um mês inteiro. Bernardo Mendonça esqueceu-se que os habitantes locais têm nome e dignidade.
DESEMPREGO. Quando se fala da taxa de desemprego, que terá caído pela segunda vez no espaço de poucos meses, ter-se-á em conta os portugueses que emigraram, que terão desaparecido da lista dos desempregados?
26 de julho de 2013
RECAUCHUTAGEM GOVERNAMENTAL. A recauchutagem governamental resultou na entrada de dois novos ministros que já estavam debaixo de fogo ainda antes de o serem. A nova ministra das Finanças é suspeita de não ter feito o que devia e mentir ao Parlamento, e o novo ministro dos Negócios Estrangeiros omitiu na biografia enviada ao primeiro-ministro e à comunicação social a circunstância de ter sido, durante anos, presidente do conselho superior da entidade proprietária do banco que lesou os contribuintes em vários milhares de milhões de euros (esse mesmo, o BPN). Alega Maria Luís Albuquerque que desconhecia os chamados swaps e jamais ter mentido no Parlamento, apesar das notícias dizerem o contrário. Alega Rui Machete que a omissão no currículo só foi notícia porque vivemos num clima de «podridão dos hábitos políticos», para o qual naturalmente considera não ter contribuído. Chegados a este ponto, os senhores ministros podem continuar a alegar o que muito bem entenderem que as suspeitas que recaem sobre eles continuarão, e convém não esquecer que as suspeitas assentam em factos. Repito, por isso, o que aqui já mencionei: não basta à mulher de César ser séria. As suspeitas que recaem sobre um e outro bastariam para não serem nomeados, e se já o tivessem sido para se demitirem. É isto o que sucede nos países em que os governantes respeitam os seus cidadãos.
24 de julho de 2013
QUE BEM PREGA FREI TOMÁS. Não li as reportagens do Público sobre a última greve dos professores e as peças do Diário de Notícias sobre um alegado corte de medicamentos aos idosos e sobre não sei que argumento que terá levado o DN a concluir que os juízes não condenam os ricos, que Miguel Sousa Tavares considerou facciosas, e a propósito das quais sentenciou que o jornalismo já viu melhores dias. Mas dou de barato que tem razões de queixa sobre as peças a que se refere e que o jornalismo já viu melhores dias, embora sobre este último ponto eu tenha mais dúvidas que certezas. Acontece que Miguel Sousa Tavares não tem autoridade para dar lições de jornalismo. Quem leu o que ele publicou sobre a invasão do Iraque por Bush filho? Eu li, tenho presente o essencial do que ele então disse, e devo dizer que não gostei. Não por causa das suas opiniões, mas pelas constantes inverdades e manipulação dos factos de modo a concluir — e a fazer concluir — o que pretendia. Lembro-me bem disso, e por várias vezes escrevi contra tais práticas (ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui). Convém, portanto, que o Miguel recorde o seu próprio passado, e que ponha a mão na consciência antes de vir dar lições sobre as quais me parece não ter autoridade.
22 de julho de 2013
ALFARRABISTAS. Apesar dos ebooks, que leio cada vez mais, passo a vida a comprar livros, alguns que nunca lerei. Agora quase só nos alfarrabistas, onde vou descobrindo preciosidades que nem sabia que existiam. Foi o caso no fim-de-semana, em que por meia dúzia de patacos adquiri Hermit in Paris: Autobiographical Writings, compilação de textos autobiográficos de Italo Calvino que comecei a ler a todo o vapor.
UM FRACASSO ANUNCIADO. Estava escrito nas estrelas que o «compromisso de salvação nacional» (entendimento entre PSD, CDS e PS pelo menos até Junho do ano que vem), praticamente imposto pelo Presidente da República, iria acabar num rotundo fracasso. Afastada a hipótese de um Governo de iniciativa presidencial, o Presidente optou por manter o Executivo em funções, não se sabe se com a remodelação tal como foi anunciada. Resumindo, há dez dias o Presidente não confiava no Governo, e exigiu um «compromisso de salvação nacional». Agora, que o compromisso falhou e nada mudou, passou a confiar, mantendo-o em funções sabe-se lá até quando. Será preciso fazer um desenho para demonstrar que nem este Governo nem este Presidente merecem a confiança dos portugueses, a começar por quem votou neles?
19 de julho de 2013
ESTALOS À CLASSE POLÍTICA. Como estarão lembrados, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o Presidente da República deu um «estalo à classe política». Acontece que o Presidente integra, e de que maneira, a classe política, pelo que me irrita que se insista em colocá-lo acima dela. Um cavalheiro que foi primeiro-ministro durante uma década e já vai no segundo mandato como Presidente da República não faz parte da classe política? Percebo que Cavaco se queira distanciar do que há de pior na política, mas honestamente não me parece que o passado o ajude. Bem pelo contrário. Como tantos outros, Cavaco representa o pior que ela tem, e as trapalhadas (chamo-lhe trapalhadas para não ir mais longe) em que se viu metido bastarão para o demonstrar.
17 de julho de 2013
POLITIQUICES. Se o PS aceitar o «compromisso de salvação nacional», como deseja o Presidente da República, no final da legislatura (ou antes, no caso de o Governo não chegar até lá) será, como o PSD e o CDS, co-responsável pelo fracasso da governação. Se não aceitar, será, obviamente, acusado de apenas se ralar com o umbigo, de não quer saber do país, e com um pouco de esforço ainda acabará como o primeiro responsável pelo estado a que isto chegou. É isto, no fundo, que resultará do «compromisso» proposto pelo Presidente, em que o PS será preso por ter cão, e preso por não ter. Mas há pior: não se vislumbra o que o país possa ganhar com um eventual negócio do Governo com o PS. Servirá, quando muito, para calar o PS durante algum tempo, e correr com o líder logo a seguir. Se apear Seguro talvez seja benéfico para o país, o silêncio dos cemitérios só aos mortos interessa.
12 de julho de 2013
CAVACO (3). Não se vislumbrando como será alcançado um «compromisso de salvação nacional» que passe por um entendimento entre PSD, CDS e PS, como exige Cavaco, qual será o passo seguinte? Aparentemente, um Governo de iniciativa presidencial. Chefiado e constituído por quem? Como a questão ainda não se colocou, só o Presidente saberá. Mas adianto, desde já, um prognóstico: a solução não sairá do papel. Porque o Presidente perdeu a confiança do país para impor uma solução deste tipo. Porque não estou a ver uma figura consensual para chefiar um Governo de «salvação nacional». Porque duvido que os partidos viabilizem uma solução presidencial, tenha ela os contornos que tiver. Contra a sua vontade, Cavaco será, mais dia, menos dia, obrigado a optar pelo cenário que menos deseja: eleições antecipadas antes de Junho do próximo ano. A dúvida é saber quando, e quanto vão custar ao país.
11 de julho de 2013
CAVACO (2). A concretizar-se, o «compromisso de salvação nacional» proposto pelo Presidente da República acabaria, na prática, com a actual oposição, já que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda não conseguiriam, por si só, derrubar o Governo, ou fazê-lo mudar de rumo. O ideal, como em tempos sugeriu Manuela Ferreira Leite, seria suspender a democracia por seis meses, na crise presente talvez por mais algum tempo, e se Manuela na altura estava a brincar, agora começo a ter dúvidas. Embora o PC e o Bloco não me merecem qualquer simpatia, parece-me que o Presidente está a ir longe demais. Dificilmente imaginaria estar de acordo com o líder da CGTP, mas está cheio de razão quando diz que «a declaração do Presidente da República (...) é um condicionamento gravíssimo ao exercício da democracia».
CAVACO (1). Se bem entendi, o Presidente da República defendeu outra solução governamental, logo passou um atestado de incompetência ao actual Governo. A solução que propõe passa por um «compromisso de salvação nacional» (entendimento entre PSD, CDS e PS) até Junho do ano que vem, altura em que haverá eleições — e, à cautela, já foi avisando que o Governo que daí resultar terá que cumprir igual pressuposto. Temos, para começar, que há um Governo em funções que vai estar praticamente em gestão até Junho de 2014 caso não seja possível o tal «compromisso de salvação», se é que se aguenta até lá. Depois, Cavaco condicionou, desde já, o resultado das próximas legislativas, inaceitável em democracia. Finalmente, basta ouvir os analistas para se perceber o óbvio: em vez da instabilidade, que ele sempre disse ser imperioso evitar, resolveu instalar a confusão, o caos, deitar mais gasolina na fogueira.
10 de julho de 2013
9 de julho de 2013
IRREVOGÁVEIS REMENDOS. A confirmar-se as mudanças anunciadas, o primeiro-ministro cedeu em toda a linha ao parceiro de coligação. Se dantes Passos desprezou Portas, agora deu-lhe as chaves do cofre. Vista por um lado, a coisa dá para rir. Vista pelo outro, é inacreditável. Pessoalmente, prefiro Portas a Passos no leme da governação. Mas não foi isso o que os portugueses disseram na últimas legislativas, pois não?
SER E PARECER. Tendo em conta que foi a nova ministra das Finanças quem liderou, enquanto secretária de Estado, o processo de venda da EDP, são legítimas as suspeitas de favorecimento que recaem sobre a contratação do marido por aquela empresa. E mais legítimas se tornam quando, conhecidos os factos, o cavalheiro se apressou a pedir a cessação do contrato que mantinha com a empresa agora liderada pelos chineses. Como não bastassem as dúvidas sobre os «swaps» que recaem sobre Maria Luís Albuquerque, que o bom senso mandaria não «promover» a ministra (além de ter sido a gota que fez transbordar o mal estar na coligação governamental), eis que um novo caso lança ainda mais dúvidas sobre o comportamento da governante, e a fragilizam ainda mais. Decididamente que os governantes desprezam quem representam e a parábola sobre a mulher de César, neste caso se calhar não apenas a parte que respeita às aparências. Será preciso dizer que as suspeitas que recaem sobre a ministra vão estar constantemente a pairar sobre ela e, por arrasto, sobre o Governo de que faz parte?
BOA PERGUNTA. «A que vai ficar reduzido o papel do primeiro-ministro se Paulo Portas passa a ser o responsável pela coordenação económica, pelas negociações com a troika e pela reforma do Estado, num cenário onde é a troika que toma as decisões fundamentais? Ficámos com dois co-primeiros-ministros?» José Vítor Malheiros, Público
5 de julho de 2013
PANTOMINICES. Os governantes que temos puseram os portugueses a pão e água, e pelo modo como as coisas vão caminhando até isso podem tirar-lhes. O retrato é exagerado, mas a verdade é que são cada vez mais os portugueses espoliados dos seus direitos, e só um cego não vê que a miséria cresce de dia para dia. Alguém consegue vislumbrar o desfecho do espectáculo em cena? Até ver, só se viram palpites — mais ou menos fundamentados, mais ou menos verosímeis, mas todos errados. São tantas (e tão contraditórias) as notícias que circulam que duvido que alguém possa, com fundamento, antecipar um desfecho para a pantomina que um bando de irresponsáveis e/ou incompetentes resolveram representar. Imaginem um cenário de eleições antecipadas, talvez inevitável. Estão a ver os militantes e/ou simpatizantes dos partidos no poder (se calhar também os da oposição) a fazer campanha nas ruas sem correrem o risco de serem insultados e, quem sabe, pior? Pelo andar da carruagem, não seria bonito. E não fosse a gravidade que tais actos representariam para o regime que o outro considerou o pior de todos excluindo todos os outros, diria que seria muito bem feito.
2 de julho de 2013
UMA COISA EM FORMA DE ASSIM. Como diria António-Pedro Vasconcelos, a escolha de Maria Luís Albuquerque para render Vítor Gaspar nas Finanças foi um erro de casting. Primeiro, porque há dúvidas sobre o comportamento da nova ministra no caso dos «swaps», que naturalmente a fragilizam, e por arrasto o Governo de que faz parte. Depois, porque a escolha de Passos Coelho não terá agradado a Paulo Portas, e o resultado é conhecido. Perante isto, só faltava o primeiro-ministro vir comunicar ao país não ter aceite a demissão de Portas e implorar o seu regresso (como se fosse possível — e desejável — o regresso de Portas depois do que se passou), uma coisa absolutamente inacreditável. Está visto que mais dia menos dia o poder vai inteirinho para António José Seguro, de que ninguém sabe o que quer e o que pensa, e que também já mostrou propensão para a asneira.
TAPAR O SOL COM A PENEIRA. Nuno Azinheira resolveu insurgir-se contra quem criticou a entrevista de Henrique Cymermann ao presidente angolano com base no seguinte: «Foi Henrique Cymerman, o mesmo que no passado entrevistou o rei Hussein, Isaac Rabin, Yasser Arafat, Ariel Sharon, Mahmoud Abbas, Jimmy Carter, Al Gore, Shimon Peres, José Maria Aznar, Juan Carlos, José Eduardo dos Santos e agora o Papa Francisco.» Currículo, na sua opinião, que devia calar as críticas, incluindo, naturalmente, a minha. De facto, o currículo enunciado por Azinheira impressiona. Mas já tenho dúvidas que impressione pelas melhores razões. Afinal, qual das figuras citadas não gostaria de ter sido entrevistada da forma (vergonhosa, insisto) como foi entrevistado Eduardo dos Santos?
28 de junho de 2013
MORALISTAS DE OCASIÃO. Finalmente, Edward Snowden terá conseguido refúgio num país conhecido — e admirado — pela liberdade que concede aos seus cidadãos, onde não existem escutas telefónicas, vigilância da internet, coisas assim. Se tudo correr bem, dentro de poucos dias estará a jogar à bisca com Julian Assange, outro paladino da liberdade que elegeu o Equador como país modelo das virtudes que apregoa. Só espero que na fuga de Snowden não haja mão de Baltasar Garzón, como muitos garantem. É que o meritíssimo juiz, que se distinguiu por levar à justiça um certo tipo de ditadores e por fazer vista grossa sobre outros iguais ou piores, foi corrido do cargo por ter ordenado escutas ilegais (sim, ilegais), pelo que talvez não tenha autoridade moral para agora vir defender um cavalheiro que revelou escutas legais. Sim, tudo indica que as escutas do Governo americano foram legais. Goste-se, ou não, da ideia.
PRIMAVERA TROPICAL, DIZEM ELES. O tempo dirá se é bom ou mau o que está a ocorrer no Brasil. Para já, é visível que o poder treme que nem varas verdes, e pouco mais. As manifestações por todo o país já levaram o Governo a desistir de aumentar os transportes e da chamada Lei da Impunidade, o Supremo Tribunal apressou-se a fazer cumprir a ordem de prisão de um deputado que ele mesmo condenou por corrupção (coisa que já não sucedia há um quarto de século), e o Senado acaba de aprovar uma lei que passa a designar a corrupção como um «crime hediondo». Aparentemente, tudo boas notícias. Mas palpita-me que a cedência em toda a linha e em tão curto espaço de tempo ainda vai acabar mal.
26 de junho de 2013
OUTRA VEZ A GREVE DOS PROFESSORES. A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) e Mário Nogueira são, provavelmente, a agremiação sindical e o sindicalista mais odiados dos portugueses, na minha opinião com inteira razão. Embora uma e outro se movam segundo a vontade dos seus membros (grande parte dos professores do ensino público), a verdade é que eles atraem o ódio da generalidade dos cidadãos que em matéria laboral vivem muitos furos abaixo, e não têm, como os professores, possibilidade de fazer greve por tudo e por nada. Não, não me parece que por inveja. Mas por ser um direito que, na prática, eles sabem não ter, e que vêem os outros usar de forma incompreensível. Não é admissível que os professores sejam obrigados a fazer 40 horas semanais, como pretende a tutela? Que sejam colocados num regime que designaram por mobilidade especial? Com certeza que ninguém gosta de perder direitos, alguns deles muito difíceis de conquistar. Mas quantos trabalhadores do sector privado, professores incluídos, têm direito a contemplações na hora em que a entidade patronal decidir que já não são precisos? Como é sabido, vão direitinhos para o desemprego, e não há requalificação que os valha. Depois há outro factor de que raramente se fala, e é bom não esquecer: os professores do ensino público querem ser eles a ditar as regras das escolas e o seu papel dentro delas. Será preciso dizer que no ensino privado isto seria absurdo? E que o Governo, por mais absurdas que sejam as medidas que tome, tem a legitimidade para as tomar que os professores não têm?
21 de junho de 2013
DESTES JÁ NÃO SE FAZEM. Revi Conversas Vadias, para quem não sabe uma série de 13 entrevistas que o professor Agostinho da Silva concedeu à RTP nos anos 90. Tinha eu nessa altura trinta e poucos, e das poucas que então vi pouco ou nada recordo. Vistas agora, surpreendeu-me a impreparação da generalidade dos entrevistadores, ao que sei a fina flor do jornalismo da época (mas não só do jornalismo), que não poucas vezes se perderam nos labirínticos raciocínios do professor e/ou desempenharam um papel que não era o deles. Foram incontáveis as vezes que o interromperam para lhe fazer perguntas a despropósito e sem qualquer motivo lhe cortaram o raciocínio, não poucas vezes com o único propósito de tentarem brilhar como entrevistadores. Os que se portaram pior foram Adelino Gomes, Baptista-Bastos e Joaquim Vieira, de certa maneira uma surpresa. Sobretudo este último, que desde o início procurou apoucar, sem sucesso, o entrevistado. Que passou toda a entrevista armado em carapau, tentando exibir conhecimentos que claramente não tinha. Que a acutilância do entrevistado acabou por colocar no devido lugar, criando-lhe situações tão embaraçosas como hilariantes, virando o feitiço contra o feiticeiro. Claro que não era fácil entrevistar Agostinho da Silva, e nalguns casos notou-se bastante. Afinal, o professor de tudo parecia saber, saltava de assuntos complexos para assuntos complexíssimos como quem se diverte a saltar à corda, por vezes deixava cair ideias tão originais como desconcertantes — e o abismo entre quem perguntava e quem respondia crescia rapidamente. Escusado dizer que aconselho as Conversas a quem nunca as viu (todas no YouTube), e a quem as viu nos anos 90 que as reveja, que seguramente irá ver o que não viu antes, como sucedeu a este vosso criado. Surpreendentemente, a entrevista que mais gostei foi conduzida por dois jovens estudantes, que fizeram perguntas pertinentes, inteligentes, despretensiosas. Também gostei da entrevista do Herman e da Isabel Barreno. Mas podem começar pela última, a de Joaquim Vieira, que a ordem não tem importância — e talvez seja um aperitivo para as restantes.
20 de junho de 2013
VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Como fosse preciso, a justiça que temos voltou a demonstrar, no caso do cavalheiro que insultou o Presidente da República durante as cerimónias do Dia de Portugal, que é célere quando se trata de cidadãos anónimos, e quando não são move-se como o caracol. Miguel Sousa Tavares insultou o Presidente da República durante uma entrevista, recusou pedir desculpa por aquilo que o próprio considerou excessivo, e continua por aí. Não se sabe se será acusado, se houver acusação suspeita-se que vai demorar anos a resolver, e não será preciso ser astrólogo para adivinhar o desfecho. Já o cidadão Carlos Costal foi um caso em que o Tribunal de Elvas não teve dúvidas, e para resolver de forma urgentíssima. Dois dias bastaram para o julgar e condenar a pagar uma multa de 1300 euros, que o Ministério Público considerou «inadmissível» e se apressou a anular. Como novamente ficou demonstrado, a justiça exige respeitinho, mas não se dá ao respeito. Pior: tornou-se risível para quem se pode defender, e cada vez mais perigosa para quem não pode fazê-lo. Bem sei que há dois ou três figurões na cadeia, que apesar das mil e uma artimanhas não conseguiram escapar. Mas essas são excepções, a que a justiça desesperadamente se agarra para tentar demonstrar, até ver sem sucesso, que a todos trata por igual.
JOHN McLAUGHLIN. Vinte anos depois, outra vez John McLaughlin, de novo no Blue Note. A primeira vez em trio — um baixista quase em transe, um baterista de joelhos a tocar com as mãos, e, claro, John McLaughlin, então muito além do que fui capaz de assimilar. Agora com Gary Husband (teclados e bateria), Etienne Mbappé (baixo eléctrico) e Ranjit Barot (bateria), três músicos à altura do «mestre». No primeiro concerto acompanharam-me dois músicos, ambos guitarristas. Ontem acompanhou-me o meu filho, que aos vinte e poucos «tem melhor ouvido» do que eu tinha aos trinta e muitos. As expectativas eram altíssimas, o resultado ficar-me-á para sempre.
18 de junho de 2013
TELHADOS DE VIDRO. Eu também teria imenso prazer que Manuela Ferreira Leite tivesse feito, enquanto governante e presidente do PSD, um trabalho melhor do que fez, que os portugueses se recordassem dela pelas melhores razões. Infelizmente, a ex-ministra das Finanças contribuiu, como tantos outros, para o estado a que as coisas chegaram. Mais valia, por isso, calar-se quando aponta o dedo à esquerda e à direita, incluindo aos governantes da sua própria família política. Até para atirar pedras é preciso um mínimo de credibilidade, coisa que Manuela Ferreira Leite manifestamente não tem.
14 de junho de 2013
MAIS BALELAS ORTOGRÁFICAS. De facto, esquecer-se de noticiar que o primeiro-ministro português e a presidente do Brasil insistem na burrice apesar de todas as evidências, não me parece normal, como notou Seixas da Costa. Mas se isso não me parece normal, já me parece excessivo concluir-se que o esquecimento do Público se deva à discordância do jornal com o novo Acordo Ortográfico. Afinal, o Público é o jornal que mais espaço tem dado ao assunto, e não só a quem o ataca. Esquecer-se de noticiar a burrice de Passos e Dilma não retira um só argumento a favor — ou contra — o Acordo. Assim sendo, que necessidade teria o jornal de recorrer à omissão (ou censura) para impor o seu ponto de vista? Como se tem visto, até os defensores do Acordo já admitiram a existência de erros grosseiros (convenhamos que não é fácil ignorá-los), e que tem de ser revisto. Aliás, quantos mais detalhes do Acordo se vão conhecendo, mais evidente se torna que a coisa não tem ponta por onde se lhe pegue. Não são, portanto, necessários truques, omissões ou outros malabarismos para o demonstrar. Os factos chegam e sobejam.
A GREVE DOS PROFESSORES. Alguém me sabe dizer quantas greves fizeram os professores do ensino público desde que vivemos em democracia? Um só nome de um ministro que eles tenham considerado capaz? Não discuto os motivos que os professores e seus representantes agora invocam para boicotar os exames, que a falta de paciência para o assunto me aconselha a ignorar. Mas bastou-me ouvir a Federação Nacional de Professores dizer que está disponível para dialogar com o Governo «mesmo ao fim de semana» para constatar que nada mudou. Pelos vistos, as crises, para eles, discutem-se apenas durante a semana, mas tendo em conta não sei bem o quê estão dispostos a abrir uma patriótica excepção e discutir ao fim de semana. A coisa fez-me lembrar a guerra do Solnado, em que uns disparavam às segundas, às quartas e às sextas, e os outros às terças, às quintas e aos sábados. Aos domingos fechava a guerra, que os guerreiros também eram gente. A diferença é que a guerra do Solnado era a brincar.
11 de junho de 2013
OUTRA VEZ A BALELA ORTOGRÁFICA. Por onde andarão os arautos do Acordo Ortográfico, que há muito não se ouvem? Os jornais publicam semanalmente textos a desancar o Acordo e quem o pariu, e as criaturas não se ouvem, não se vêem, não se sabe se pensam o mesmo ou se mudaram de ideias. Esgotaram os argumentos? Como sempre foram escassos e pobrezinhos, e nunca concretos, não me surpreenderia. O que é feito do professor Carlos Reis, que em tempos vi defender, como mais sobranceria que argumentos, o novo Acordo? E qual é, já agora, a missão do grupo parlamentar especialmente criado para o efeito (o site do Parlamento é omisso sobre as suas funções), e o que tem feito?
7 de junho de 2013
UM NOJO.
Alertado para a entrevista de José Eduardo dos Santos à SIC, sobre a qual o Daniel Oliveira já disse o que havia a dizer (por uma vez concordo com ele), fui ver. De facto, a coisa podia resumir-se desta maneira: abaixo de cão. O jornalista Henrique Cymerman ri-se constantemente de quê? É só incompetente, não teve tempo para se preparar, recebeu instruções do altíssimo para não perguntar o que devia, ou pura e simplesmente não tem vergonha na cara? E a SIC? Achou normal pôr aquilo no ar? E gabar-se de ter conseguido uma «entrevista» em exclusivo com quem não dá uma há mais de duas décadas? Ou achará a SIC que os fins, a haver, justificam os meios? Alegarão o jornalista e a SIC que não havia condições para fazer melhor. Pelo que vi, a desculpa não cola. Mas se assim foi, se não havia condições para cumprir os mínimos, havia uma saída: não se fazia. Poupar-se-iam a esta triste figura, e ao enxovalho mais que merecido.
Alertado para a entrevista de José Eduardo dos Santos à SIC, sobre a qual o Daniel Oliveira já disse o que havia a dizer (por uma vez concordo com ele), fui ver. De facto, a coisa podia resumir-se desta maneira: abaixo de cão. O jornalista Henrique Cymerman ri-se constantemente de quê? É só incompetente, não teve tempo para se preparar, recebeu instruções do altíssimo para não perguntar o que devia, ou pura e simplesmente não tem vergonha na cara? E a SIC? Achou normal pôr aquilo no ar? E gabar-se de ter conseguido uma «entrevista» em exclusivo com quem não dá uma há mais de duas décadas? Ou achará a SIC que os fins, a haver, justificam os meios? Alegarão o jornalista e a SIC que não havia condições para fazer melhor. Pelo que vi, a desculpa não cola. Mas se assim foi, se não havia condições para cumprir os mínimos, havia uma saída: não se fazia. Poupar-se-iam a esta triste figura, e ao enxovalho mais que merecido.
COISAS INFANTIS. Se bem entendi, Miguel Sousa Tavares voltou, na entrevista a RTP, a admitir que se excedeu, mas não põe a hipótese de pedir desculpa ao Presidente da República — e está, por isso, disposto a pagar pelo erro. Ora, se admite que se excedeu, qual é o problema em pedir desculpa? Confesso que não percebo. Miguel Sousa Tavares diz não ter, do ponto de vista político, consideração por Cavaco Silva, nem tem, obviamente, que ter. Mas continuo a não ver em que isso o impede de pedir desculpa. Parece-me, aliás, uma birra infantil. Admitir que se errou e não pedir desculpa pelo erro é uma coisa que ultrapassa a minha compreensão.
6 de junho de 2013
GRAFITAS. Um pândego que dá pelo nome artístico Mesk e se intitula writer declarou ao Público que vai entrar em guerra com a Câmara do Porto. Porque uma brigada daquele município decidiu, «às cegas», limpar os graffitis na baixa portuense, porque na opinião dele a limpeza deve ser feita de forma ponderada e após juízo crítico sobre o que se limpa, porque não se pode meter tudo no mesmo saco. Daí sugerir que se analise o que por aí anda antes de proceder à limpeza. Hazul Luzah, outro activista da seita, foi mais longe: a Câmara deveria apoiar os writers e disponibilizar-lhes paredes para que eles possam livremente derramar o que lhes vai na alma. Estão a ver uma comissão a analisar graffiti por graffiti, decidir o que é bom e não presta? Os sujeitos acham não só que é possível como é desejável, e assim sendo não há muito a fazer. Imagino que apreciar graffitis é ser culto, moderno, cosmopolita, e quem não aprecia é o contrário. Mas devo dizer que geralmente não aprecio, e ainda aprecio menos o direito que os sujeitos julgam ter para os fazer onde bem lhes apetecer. Por que carga de água hão-de os transeuntes ser obrigados a ver as suas «obras», e por que razão hão-de os contribuintes pagar a limpeza das paredes onde elas são derramadas?
5 de junho de 2013
COISAS QUE ME DEPRIMEM. A propósito deste caso, para o qual o Filipe chamou a atenção, vale a pena ler este trabalho publicado no Washington Post, e este na Vanity Fair. Sete anos passados no primeiro caso e dois no segundo, o assunto mantém-se actualíssimo.
4 de junho de 2013
OS PORTUGUESES NÃO QUEREM TRABALHAR. Depois do «ai aguenta, aguenta» de Fernando Ulrich, querendo dizer que o Governo ainda pode aumentar mais os impostos, o presidente do Banco Espírito Santo veio dizer que «os portugueses não querem trabalhar», antes preferem viver do subsídio de desemprego (Ricardo Salgado deve estar convencido que os milhares de portugueses que nos últimos meses emigraram foram passar férias). Definitivamente que os nossos banqueiros, que têm ganho rios de dinheiro à custa de negócios ruinosos para o Estado, não têm um pingo de vergonha. Imagina-se que os bancos que dirigem ganhariam mais caso os portugueses trabalhassem mais. Assim sendo, quem os impede de mudar de país, de se mudarem para onde se trabalha e produz mais? Impede-os, é claro, uma razão de peso: não encontrariam um Estado como o nosso, que descaradamente controlam e sugam até à medula.
31 de maio de 2013
BOLA. Presumo que as televisões, pelo menos as privadas, dão aos clientes o que eles querem ver. Goste-se, ou não, do que lhes é oferecido. Também acho excessivo que se abra o Jornal da Tarde da RTP com o rescaldo da Taça de Portugal, como ainda há pouco sucedeu, e como não chegasse a coisa prolongou-se por intermináveis minutos. Mas se neste caso falamos da televisão pública, mais questionável que as outras, há pouco a dizer sobre as privadas. Devo dizer, já agora, que geralmente me incomodam mais os comentários anti-bola que os excessos da dita. Já repararam que os anti-bola são tão ou mais insuportáveis como os fanáticos da bola? Nalguns casos, piores, que os segundos pelo menos são genuínos, e os primeiros nunca se sabe.
30 de maio de 2013
FUGIR AO PROBLEMA. Os impostos não cobrados sobre o dinheiro escondido em paraísos fiscais daria para «acabar duas vezes com a pobreza extrema no mundo», dizia, há dias, uma organização não-governamental, segundo a qual há 14 biliões de euros escondidos, dois terços dos quais na União Europeia, de que anualmente resulta uma perda de 120 mil milhões de euros em receita fiscal. Somando a isto os impostos que nem precisam dos paraísos fiscais para não ser pagos, ou pagos na totalidade, é obscena a quantidade de dinheiro que circula apenas em benefício de uns poucos e em prejuízo dos restantes. É preciso acabar com isto, disse a União Europeia pela enésima vez, mas a realidade é que nem a uma lista de países que promovem essas práticas consegue chegar. E porquê? Porque alguns países que integram a União Europeia beneficiam com os paraísos fiscais, Portugal incluído. Temos, assim, que a União está interessada em resolver o problema, mas não está interessada em resolver problema nenhum. Como diria o outro, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
29 de maio de 2013
A MEDIOCRIDADE QUE NOS GOVERNA. Viram o vídeo onde um eurodeputado se insurge contra quem, na sua opinião, não tem legitimidade para mandar na Europa? Se viram, hão-de ter reparado em Durão Barroso a fingir que procura não sei o quê durante todo o discurso, e quando o dito termina também ele dá por finda a inadiável procura. Devo dizer que o presidente da Comissão Europeia nunca foi da minha simpatia, e esbanjou o escasso respeito que lhe tinha quando trocou o cargo de primeiro-ministro por mais interessantes pastagens. Mas nunca pensei que se tornasse um símbolo dos políticos que há, da União Europeia que temos — uma coisa cada vez mais artificial, cada vez menos democrática, cada vez mais distante dos cidadãos. Durão Barroso é o mais rematado exemplo da mediocridade que nos governa.
24 de maio de 2013
PALHAÇADAS. Chamar «palhaço» ao Presidente da República é, de facto, excessivo, e ao que parece punível por lei. Fez bem, portanto, Miguel Sousa Tavares admitir que se excedeu, provavelmente mais por temer o processo que aí vem que por arrependimento, digamos, genuíno. É que Sousa Tavares já tentou contextualizar o que disse, isto é, dividir com terceiros (entrevistadora e/ou editores do Jornal de Negócios) a culpa do sucedido. Também não aprecio o actual Presidente, sobretudo a partir da palhaçada das escutas que admitiu ter sido alvo por parte do anterior Governo, que rapidamente se percebeu terem sido inventadas pelos seus colaboradores, com, ou sem, o seu conhecimento. Mas chegar onde chegou Sousa Tavares, é inadmissível. Adivinha-se que o processo, a haver, acabará por questionar a natureza do que foi dito. Afinal, há sempre a possibilidade de «palhaço» não ser ofensivo, pois sabemos que «palhaço» também pode ser uma actividade respeitável — e os tribunais funcionam como se sabe. Surpreende-me, por isso, que Sousa Tavares já tenha admitido um erro que juridicamente ainda está por demonstrar que cometeu.
22 de maio de 2013
UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA. Os ex-ministros das Finanças ora são os responsáveis pela ruína do país, ora são as respeitadas figuras que é preciso ouvir com toda a atenção. Quando dá jeito, fala-se deles com nostalgia e veneração; quando não dá, apanham todos pela medida grande. Não há pachorra para as opiniões que variam de manhã para a tarde, consoante faz chuva ou faz sol. Falo dos espaços de comentário que nos últimos anos tomaram conta das televisões. Umas vezes devido à ignorância dos comentadores, outras devido às agendas dos intervenientes, frequentemente devido às duas coisas.
17 de maio de 2013
NÃO VOU COMENTAR. Sempre que um governante — ou dirigente político — é confrontado pelos jornalistas com perguntas incómodas, geralmente acaba a dizer: «Não vou comentar.» Os mais expeditos não só não respondem como aproveitam a ocasião/tempo de antena para dizer o que lhes convém, e sempre que tal acontece os jornalistas metem o rabinho entre as pernas e divulgam o que só aos políticos interessa. Ora, os jornalistas deviam pôr fim a isto. Os políticos não respondem ao que lhe perguntam? Então não há notícia — ou a notícia será a pergunta que o político recusou responder, acrescentada das possíveis razões para a recusa. Veriam que o silêncio não seria boa ideia.
O ABORTO ORTOGRÁFICO. Aprovada coadoção por casais homossexuais (Diário de Notícias). Co-adoção por casais do mesmo sexo foi aprovada (Correio da Manhã). Parlamento aprova co-adopção por casais homossexuais (Público).
15 de maio de 2013
DÉJÀ VUE. Conheço Carlos Abreu Amorim da blogosfera, onde publicou variadíssimos textos com os quais quase sempre estive de acordo. (O comentário político na TV que veio a seguir à blogosfera praticamente não vi.) Foi, por isso, sem surpresa que o vi candidato a deputado, e ser eleito. A surpresa viria depois. Como chegou ele tão rapidamente a vice-presidente da bancada parlamentar social-democrata? Não tendo, que me conste, qualquer experiência partidária antes de ser deputado, a que se deveu o milagre? Vejo-o agora, na condição de candidato à Câmara de Gaia, pedir o afastamento do ministro das Finanças, porque «o tempo político de Vítor Gaspar terminou», e «o país precisa de uma nova etapa». Independência de espírito de Abreu Amorim? Honestamente, duvido. O candidato à Câmara de Gaia já percebeu que é preciso descolar rapidamente do «patinho feio» do Governo de Passos Coelho para agradar aos potenciais eleitores, e em nome disso vale tudo e o seu contrário. Como alguém já escreveu, Abreu Amorim é novo na política, mas aprendeu depressa o pior que ela tem.
13 de maio de 2013
10 de maio de 2013
CAMPEÃO DA CHICO-ESPERTICE. O treinador do FC Porto afirmou, há uma semana, que o Estoril não tinha hipóteses de conquistar pontos ao Benfica, insinuando que por aldrabices. No dia seguinte, a imprensa desportiva escreveu abundantemente: «Vítor Pereira atirou a toalha ao chão.» Dois ou três dias depois, o FC Porto ganhou ao Setúbal, e os jornais titularam: «Jogadores recusam-se a deitar toalha ao chão.» No dia a seguir o Benfica perdeu dois pontos frente ao Estoril, e no Dragão reacendeu-se o sonho do título. Acossado pelas críticas, e colocado perante a perda de pontos do Benfica (que lhe estragaram a teoria), o treinador do FC Porto corrigiu a pontaria dizendo que as palavras por ele proferidas se destinaram a exercer «pressão psicológica» sobre o adversário, estratégia cujo resultado (empate a um golo) lhe deu razão. Resumindo, Vítor Pereira resolveu fugir para a frente. Deve ser por estas e outras como estas que não será treinador do FC Porto na próxima época. Seja, ou não, campeão.
SER OU NÃO SER. É fácil, barato e muitíssimo popular dizer-se que determinado jornalista foi afastado de determinada redacção por ter feito algo que politicamente não agradou às chefias. De facto, não me lembro de um único caso em que um jornalista tenha sido despedido (ou demitido de um cargo) por incompetência, falta de profissionalismo, ou coisa que o valha. A fazer fé no que se tem dito, os despedimentos/afastamentos de jornalistas configuraram invariavelmente atentados à liberdade de expressão, actos de censura. Não sei se é o caso Ana Leal vs Judite de Sousa, de que só conheço o que saiu nos jornais. Convém, no entanto, não fazer juízos apressados, não julgar pelas aparências. Provavelmente nunca saberemos quem tem razão e não tem, se o caso traz água no bico ou não tem história. Mais uma razão, portanto, para não endeusar uns e demonizar outros. Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
JORNALISMO BARATO QUE SAI CARO. O jornalista X da publicação Y viajou a convite de Z. É isto o que dizem as publicações mais sérias (as outras omitem-no) sempre que se deslocam ao estrangeiro para fazer uma reportagem, cada vez com maior frequência, porque ficarão com um problema de consciência caso não o assumam. É bom, de facto, que os leitores conheçam as circunstâncias em que a reportagem foi feita sempre que as circunstâncias possam interferir no que se faz. Mas será preciso dizer que não há almoços grátis, que não se morde a mão de quem nos dá de comer? Constatar a evidência serve, de facto, de pouco consolo. Ainda agora li que o jornalismo de investigação praticamente morreu. Porque é caríssimo, e cada vez há menos dinheiro até para o mais básico. É um facto, nota-se bastante, e há muito. Mas nos tempos que correm já me contentaria se o jornalismo viajasse pelos seus próprios meios. Não investigar é preocupante, não há dúvida que é. Mas fazer fretes é inadmissível.
8 de maio de 2013
O MANICÓMIO. O primeiro-ministro anunciou ao país um «pacote» de austeridade, e dois dias depois o segundo ministro (há quem diga ser o terceiro) afirmou discordar. Confusos? Não é caso para tanto. Afinal, falamos de Portugal, país onde tudo acontece, inclusive fenómenos que nem a imaginação mais delirante se atreveria a prever. Quando o senso comum aconselharia que as medidas de austeridade anunciadas por Passos Coelho fossem primeiro discutidas — e aprovadas — no interior do Governo, eis que o dito vem à praça pública esgrimir discordâncias, ainda por cima quando acaba de eleger o consenso como supremo desígnio da pátria. Bem sei que há quem garanta que tudo isto não passou de uma tragicomédia, embora destinada não sei bem a quê. Mas como poderá a oposição chegar a um consenso com gente assim?
3 de maio de 2013
ARTE CONCEPTUAL. De um modo geral, não simpatizo com a arte dita conceptual, que as enciclopédias definem como a arte em que a ideia é mais importante que a obra. Quando muito reconheço-lhe utilidade (alertar para situações para as quais é importante alertar que doutro modo passariam despercebidas, por exemplo), e pouco mais. Tirando isso, o escasso mérito da dita é valorizar, por contraste, o que é bom. Estou, aliás, convencido de que a arte conceptual afasta mais gente da arte em geral que aproxima, alguns de forma irremediável. Serve, igualmente, para alguns desculparem (nalguns casos legitimarem) a ignorância ou desinteresse pela arte, aproveitando o que geralmente é um embuste para desvalorizar tudo o que não «entendem» e/ou não lhes interessa — para não falar dos artistas (com aspas ou seu aspas) conceptuais, cujo talento se resume a ter ideias (por vezes boas), à capacidade de chocar, e à autopromoção. Tirando excepções, a arte conceptual é um embuste destinado a impressionar os pategos, e a avaliar pela quantidade deles que se persignam à sua passagem é muito eficaz. Não sei se é o caso de Joana Vasconcelos, de que agora tanto se fala, cuja obra (com aspas ou sem aspas) conheço mal. Mas parece-me bem que se questione o que faz. Bem sei que a arte conceptual por vezes se situa entre a genialidade e o bluff, pelo que não é fácil distinguir uma coisa da outra. E sei, também, que a arte digna desse nome não é para todos, e não me venham com histórias da carochinha. Mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que andam por aí demasiados gatos a ser vendidos por lebres, alguns com o beneplácito de sumidades (com aspas ou seu aspas) de vária ordem, que nos afiançam ser do melhor. Convém, por isso, questionar o que se faz, avaliar antes de consumir, degustar antes de engolir. Até para valorizar o que é realmente bom.
FRUTA DA ÉPOCA. Desculpem a frontalidade, mas sempre me pareceu que António José Seguro é uma anedota. Uma anedota que as notícias diariamente confirmam, e que já vem do tempo em que Seguro era oposição a Sócrates. A última de que há memória reza que Seguro está pronto para governar, mas quanto lhe perguntaram como tenciona resolver os problemas, respondeu que os resolva quem os criou (leia-se o Governo em funções). Resumindo, Seguro governa, os outros que resolvam os problemas. E acaba ele de ser reconduzido na chefia do PS pela maioria dos seus militantes, como se os seus militantes vissem nele o líder que manifestamente não é. Infelizmente, a oposição limitou-se a ir ao congresso assinar o ponto, sorrir para a fotografia, e continua a aguardar melhores dias. São os políticos que há.
CHOQUE E ESPANTO. Não faço a mínima ideia acerca da qualidade do romance Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, que o crítico António Guerreiro considerou «um amontoado de histórias» e uma «falácia metanarrativa» (ligação disponível só para assinantes). Também não sei se o livro anterior de Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros) é bom ou mau, e não me espanta que o livro agora em análise tenha vencido a última edição do Prémio Leya. Espantoso é o Público dar uma estrela a um livro (a escala vai de 1 a 5), que o Público é todo estrelas quando aprecia autores portugueses. Mudou o critério, ou o livro é abaixo de cão?
2 de maio de 2013
COMENTADORES. Não sei se o comentário político nos media devia estar reservado, apenas, aos jornalistas, como defendem alguns. Mas já me parece excessiva a quantidade de políticos, no activo ou não, que proliferam por tudo o que é espaço de comentário. Não tenho dados que permitam demonstrá-lo, mas suspeito que os políticos geram audiências — telespectadores, ouvintes, leitores. Cai assim, portanto, a ideia sobre quem deve opinar sobre o quê, porque são as audiências que os desejam, e o cliente tem razão mesmo quando não tem. Claro que os políticos/comentadores têm as suas próprias agendas, exprimem opiniões mais em função dos seus próprios objectivos que por convicções pessoais (quando as têm), por vezes comentam questões em que são claramente parte interessada, e quem os ouve nem sempre sabe disso. Mas não tenhamos ilusões: também os jornalistas raramente podem dizer o que pensam. Por causa da agenda (alguns também têm), por causa do emprego, por causa de outros interesses ou impedimentos. Discordo, igualmente, da ideia de que há excesso de comentadores, sobretudo nas televisões, incluindo comentadores de que tudo parecem ser especialistas, a que alguém muito apropriadamente chamou «tudólogos». Discordo por uma razão: quanto mais comentadores houver, quanto mais espaço de comentário existir, melhor esclarecidos ficarão os cidadãos — a quem cabe, afinal, rejeitá-los se assim o desejarem. O problema de certo jornalismo é esquecer-se demasiadas vezes a quem se destina — aos telespectadores, aos ouvintes, aos leitores. «O comentário para ser credível deve ser feito por pessoas independentes e não por quem tem interesses directos ou indirectos na matéria que comenta», diz o provedor do telespectador da RTP, que publicamente discordou da «aquisição» de Sócrates pela RTP. Em teoria, faz todo o sentido. Na prática, tenho dúvidas. Quem são — e onde estão — os independentes? Quem não tem interesses directos, ou indirectos, nas matérias que comenta? Por acaso achará o provedor que os jornalistas poderão desempenhar cabalmente esse papel? Valerá a pena lembrar que o actual Governo recrutou uma dezena de jornalistas do DN? Foram lá parar graças a quê?
30 de abril de 2013
MAU PORTUGUÊS. Há um programa na RTP (Bom Português) que é uma espécie de inquérito de rua destinado a saber como se escreve, em português, determinada palavra. Até aqui, tudo a louvar. Acontece que ultimamente têm querido saber como se escreve determinada palavra segundo o novo Acordo Ortográfico. Ora, sabendo-se da controvérsia à volta do assunto, sendo mais ou menos certo que o Acordo vai ser rectificado (senão anulado), o que pretende a televisão pública? Recebeu ordens «de cima» para converter os incréus?
26 de abril de 2013
TIRO AO SÓCRATES. Por variadíssimas razões, desde a licenciatura de fim-de-semana ao estado em que deixou o país, passando pelos tiques de autoritarismo e pela má-criação, não tenho estima pessoal ou política por José Sócrates. Mas custa-me vê-lo apoucado por políticos em geral e ex-governantes em particular, que não abririam a boca caso tivessem vergonha na cara. O ex-primeiro-ministro regressou de Paris e, de repente, passou a ser responsável por todos os males da pátria. Ainda não percebi, por exemplo, por que razão devia Sócrates, na entrevista à RTP, pedir desculpas aos portugueses pelos males causados ao país. Não que me escandalize tal prática ou não haja motivos para tal, mas porque nunca vi exigir tal coisa aos antecessores que por aí andam a tagarelar em tudo o que é televisão. Não deviam, também eles, pedir desculpas? Ou o princípio das desculpas só se aplica a Sócrates? Outra coisa que não percebi na entrevista foi a introdução do «fact-checking», mecanismo que se destina a apurar a veracidade do que é dito. O jornalismo português descobriu, de repente, a pólvora, dez séculos após ter sido inventada? A prática veio para ficar? Como não me consta que Sócrates possa voltar a ser primeiro-ministro (ou presidente da República) por decreto, tanto barulho só pode significar uma coisa: têm medo dele. Medo que possa voltar a liderar o PS, como líder ganhar eleições, e ganhando-as voltar a ser primeiro-ministro. Ou, então, Presidente da República, caso se candidate e ganhe. Medo, em suma, da democracia, como dizia o outro o pior dos regimes excluindo todos os outros. Também a mim não me agradam estes cenários. Mas ainda me agrada menos que o queiram afastar por decreto. Pior: desagrada-me não haver políticos capazes de se bater com ele. Coisa, suponho, que não será culpa dele.
COISAS BOAS. Tenho alternado as mais recentes leituras entre Rentes de Carvalho e Nelson Rodrigues. O primeiro, de que leio as últimas páginas de Ernestina, é uma descoberta com algumas décadas que só agora, por via da reedição na Quetzal, disponho dos seus livros. O segundo também descobri há décadas, mas só há pouco consegui deitar a mão a um volume de crónicas publicadas sob o título O Reacionário, que adquiri a pataco num improvável alfarrabista de Manhattan. Não considero que tenha maus livros nas estantes (se considerasse não hesitaria em desfazer-me deles). Mas quando leio estes dois senhores fico cheio de vontade de me desfazer de uns quantos.
A GRANDE MÚSICA. Passei a manhã a ouvir a Norma, de Bellini, cantada por Maria Callas. Apesar de consumidor regular da chamada música clássica, foram escassas as óperas que ouvi, e nenhuma integralmente. De ver, lembro-me de ver uma, num jardim público, mas recordo-me mais do jardim e de quem lá estava que da ópera propriamente dita. Resumindo, ignoro quase tudo sobre ópera. Mas depois da que acabo de ouvir, com passagens que me tocaram profundamente, nada será como dantes.
25 de abril de 2013
25 DE ABRIL. Não sei bem quais foram «os ideais da Revolução dos Cravos», que há anos se diz terem sido traídos. Sei, porém, que o 25 de Abril pôs fim a uma ditadura, e eu sou contra as ditaduras. Também não sei bem se a democracia já viu melhores dias, como se diz nos últimos tempos. Mas também julgo saber que continua a ser o pior dos regimes excluindo todos os outros, como dizia o suspeito do costume. É-me, por isso, absolutamente indiferente que ex-governantes ou agremiações políticas, que agem como donos do regime, se tenham recusado a comparecer nas comemorações oficias do 25 de Abril, alegando que o poder político em funções «está contra o 25 de Abril», ou é contrário aos seus ideais. Indiferente porque o regime não ficou mais frágil sem as suas presenças, e se calhar até será mais forte sem eles. Afinal, para eles a democracia só funciona como tal quando são eles (ou os deles) a mandar, como já o demonstraram em variadíssimas ocasiões. Fizeram bem, portanto, em não pôr lá os pés. A democracia precisa de verdadeiros democratas. Não de quem diz sê-lo, mas não consegue sê-lo para lá do umbigo.
ISALTINO MORAIS. Ainda é cedo para a justiça deitar foguetes, como já vi quem sugerisse. Vendo bem, a justiça nem tem razões para tanto. Há quantos anos condenou Isaltino Morais a variadíssimos crimes? Se bem me lembro, há mais de três. Encarcerá-lo só agora, meia centena de recursos depois, será, quando muito, um alívio.
23 de abril de 2013
PACIFISTAS DE OCASIÃO. Passam-se meses e anos sem que os «pacifistas» escrevam uma linha sobre atentados terroristas aqui e além, que vêm ocorrendo com tal regularidade que nalguns lados já quase se tornou rotina. Mas quando os atentados terroristas atingem solo americano e se lamenta o sucedido, logo vêm os sujeitos lembrar que ainda ontem houve um atentado não sei onde de que ninguém falou ou chorou os seus mortos. Esquecem-se os «pacifistas» nestas ocasiões de um pormenor: ninguém falou deles ou chorou os seus mortos a começar por eles próprios, que não abriram a boca ou escreveram uma linha. Os mortos no Paquistão, no Iraque, no Afeganistão e países assim só os perturbam quando servem para os contrapor aos mortos americanos. Aí, sim. É um vale de lágrimas de crocodilo, vão ao fim do mundo por uma fotografia de inocentes (reais e imaginários), de preferência crianças, e se houver um polícia e uma câmara de televisão por perto os mais afoitos põem-se a jeito para levar uma bastonada. Ai se a hipocrisia lhes desse uma coisa que eu cá sei.
22 de abril de 2013
HIROMI (1). Um só adjectivo para definir o concerto de Hiromi* no Blue Note no sábado passado: soberbo.
* Com Anthony Jackson (baixo) e Simon Phillips (bateria)
* Com Anthony Jackson (baixo) e Simon Phillips (bateria)
19 de abril de 2013
BOSTON. Quis o acaso que o massacre de Boston me apanhasse a ler Filho de Deus, de Cormac McCarthy, escritor americano cujos livros estão recheados de uma violência extrema. Sabe-se, à hora a que escrevo, que um suspeito foi abatido, e o outro capturado pelas autoridades. Que ambos viviam nos EUA, que eram irmãos, e de origem chechena. O resto, para já, são informações desencontradas, especulação, teorias da conspiração. E alívio, um grande alívio. Os próximos dias responderão a algumas perguntas, e há demasiadas perguntas a necessitarem de resposta. Terminou uma parte, porventura a pior. Mas cheira-me que não será bonito o que virá a seguir.
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