18 de outubro de 2013
SOARES vs CAVACO. Parece-me um exagero dizer-se que o Presidente Cavaco devia ser julgado, como defende Mário Soares, visto não se vislumbrar matéria para tanto — e o Presidente Cavaco até pode processar criminalmente Soares por aquilo que disse. Mas que a passagem de Cavaco pelo BPN, ainda que só como «depositante», como ele diz (eu diria como investidor), levanta algumas dúvidas, não há dúvida que levanta. Desde logo pelo tratamento que outros investidores não tiveram, e por ter retirado os seus investimentos antes do descalabro do banco. Depois, porque Cavaco era, e continuará a ser, economista, e por mais incompetente que seja um economista custa a crer que os malabarismos de Oliveira e Costa e companhia não tenham sido do seu conhecimento.
16 de outubro de 2013
O QUE ESTÁ EM CAUSA NO EPISÓDIO ANGOLANO. Convém lembrar que a novela luso-angolana em cena, com episódios cada vez mais degradantes, tem um único motivo: a investigação, em Portugal, de altas figuras do Estado angolano, entre elas o vice-presidente e o Procurador-Geral da República, suspeitos de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Por aquilo que se sabe, nada, até ver, aponta para que as ditas figuras tenham cometido os crimes de que são suspeitos. Assim sendo, porquê tanto alarido? Tem medo o Estado angolano do que venha a resultar da investigação, e por isso ameaça Portugal com tudo e mais alguma coisa? Sim, custa a crer que a violação do segredo de justiça, embora crime punível por lei, justifique tamanha indignação.
QUEM SE PÕE DE CÓCORAS NÃO MERECE RESPEITO. Portugal tem interesses em Angola? Evidentemente que tem. E por que razão Angola terá concedido a Portugal todos esses interesses? Porque os portugueses são excelentes pessoas? Se Angola tem acolhido empresas portuguesas, produtos portugueses e dezenas de milhares de portugueses («de braços abertos e fraternalmente», como diz a trombeta angolana), não será porque os portugueses interessam a Angola? Estão a ver Angola estender-nos a mão em nome da amizade, da fraternidade, ou patetices do género? Deixemo-nos de hipocrisias. Portugal precisa tanto de Angola como Angola precisa de Portugal. É, portanto, inadmissível que os governos portugueses se ponham de cócoras perante Angola e seus mandantes — e continuaria a ser inadmissível que nos puséssemos de cócoras mesmo sem esses interesses. Como lembrou ao Público o professor angolano Justino Pinto de Andrade a propósito do episódio Machete, «as autoridades angolanas não respeitam quem se põe de joelhos». Nem elas, nem ninguém.
DECLARAÇÕES INFELIZES. A trapalhada em curso nas relações luso-angolanas tem, essencialmente, dois responsáveis: o ministro português dos Negócios Estrangeiros, que resolveu pôr-se de cócoras perante o Estado angolano; e o chefe do Governo português, que prontamente defendeu Rui Machete por considerar que «declarações infelizes» não são razões para o demitir. Evidentemente que o Estado angolano só podia, face a esta anedota, levantar a voz. Primeiro pelos papagaios do costume, depois pelo próprio Presidente José Eduardo dos Santos, para quem a actual relação entre Portugal e Angola «não aconselha à construção da parceria estratégica» entre os dois países. E porque a investigação que decorre na Procuradoria-Geral da República e respectivas notícias sopradas para os media têm vindo, segundo ele, a criar a imagem de que o angolano rico «é corrupto ou suspeito de corrupção», coisa, como sabemos, muito longe de ser verdadeira. Basta, aliás, olhar para o clã Eduardo dos Santos e seus homens de mão para esclarecer todas as dúvidas.
11 de outubro de 2013
SE FOSSE EM ANGOLA A GENTE TRATAVA DISSO. «Não podemos admitir que em Portugal, políticos e jornalistas, intelectuais com ideias submersas em ódios recalcados não respeitem os nossos símbolos nacionais e desonrem os titulares dos nossos órgãos de soberania», diz-se, em editorial, na trombeta angolana. E que fazer para impedir que isso suceda? Calar os políticos portugueses, os jornalistas portugueses, os intelectuais portugueses? Infelizmente, José Ribeiro, director do Jornal de Angola, não explica como proceder. Como a informação em Portugal ainda é relativamente livre apesar de todo o dinheiro angolano despejado sobre ela nos últimos anos (por razões não só empresariais, está bom de ver), e os cidadãos portugueses são livres de expressar as suas opiniões sobre o que entenderem sem que nada lhes suceda, incluindo a corrupção nos círculos do poder angolano (de que a trombeta angolana parece nada saber), não se vê como.
9 de outubro de 2013
QUANDO OS COBARDES DÃO LIÇÕES DE MORAL. Três conclusões a tirar do artigo assinado por Álvaro Domingos no Jornal de Angola de sábado passado: é um crime grave que a justiça portuguesa investigue dois altos representantes do Estado angolano, entre eles o vice-Presidente da República e o Procurador-Geral da República, segundo dizem por suspeitas de irregularidades cometidas em Portugal; a aparente violação do segredo de justiça, tornando público o teor das investigações, feriu «a honra e o bom nome de duas altas figuras do Estado Angolano»; existem, em Portugal, órgãos de informação onde «jornalistas obedientes aos donos fazem o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», segundo ele graças a «uma relação espúria e aviltante entre o Ministério Público e uma comunicação social que actua na lógica das associações de malfeitores». Tiradas as conclusões, três comentários: ao contrário do que o articulista sugere, nada impede que as individualidades citadas sejam investigadas pela justiça portuguesa caso a dita entenda existirem indícios de práticas irregulares cometidas em território português, e até ver não foram acusados de nada; é, de facto, um crime a violação do segredo de justiça, mas toda a gente percebeu que a violação do dito não é, para o sr. Domingos, o verdadeiro problema, sobre o qual preferiu não se pronunciar; finalmente, não custa acreditar que haja, em Portugal, «jornalistas obedientes aos donos», prontos a fazer «o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», mas um sujeito que se esconde atrás de um nome fictício (Álvaro Domingos é um dos vários pseudónimos usados por um cobardolas que todos sabem quem é) e escreve para a trombeta do regime não tem, obviamente, um pingo de autoridade para dar lições de más práticas jornalísticas. Termino com uma pergunta: o que pensará ele e o Jornal de Angola da reportagem da Forbes sobre Isabel dos Santos (original aqui), que a revista acusa de tudo e mais alguma coisa? Fui pesquisar e não vi que o sr. Domingos tivesse escrito uma linha sobre tão melindroso assunto, nem sequer para defender a filha do Presidente — e o Jornal de Angola não só ignorou o episódio como ainda a elogiou por interpostas pessoas. Será preciso dizer mais alguma coisa? Álvaro Domingos esquece-se que o jornal em que escreve pode ser lido em qualquer parte do mundo, e que o resto do mundo não tem, como os angolanos, motivos para recear o Presidente Eduardo dos Santos. Ao contrário dos domingos desta vida, que se escondem atrás de quem são para lamber as botas a quem lhes dá de comer.
8 de outubro de 2013
JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS VANGLORIA-SE DA SUA PRÓPRIA IGNORÂNCIA. «Ah, uma pintura de Picasso é bonita? Não, não é bonita. Nem Picasso queria que fosse. Ele está a cultivar o feio. Stravinsky faz música que são guinchos. O truque está justamente aí. Isto contagia a literatura. Ler o Ulisses do Joyce é um exercício de masoquismo. Ele leva duas páginas a descrever um armário.»
7 de outubro de 2013
MACHETE, O INFELIZ. Como não bastassem as constantes «incorrecções» sempre que se vê obrigado a prestar declarações sobre a sua passagem pela vigarice que foi o BPN, o ministro Rui Machete resolveu, agora, pedir desculpa ao Estado angolano pelas investigações judiciais em curso que atingem, ao que dizem, altas figuras daquele país. «Não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal», garantiu o ministro dos Negócios Estrangeiros a uma rádio angolana. E como soube ele que não há nada digno de relevo? Presumindo-se que não teve acesso aos processos (em segredo de justiça), a garantia dada pelo ministro é um mistério. Mistério que o próprio se encarregou de desvendar, mais uma vez dando o dito por não dito, de novo corrigindo-se a si mesmo. «Ninguém pode ficar diminuído politicamente por usar uma expressão infeliz», disse o primeiro-ministro sobre o episódio. Como é evidente, não foi, apenas, uma «expressão infeliz», mas um erro que envergonha os portugueses — motivo bastante para não passar sem consequências. É bom não esquecer que Machete anda a dizer coisas infelizes ainda antes de tomar posse, e já não merecia o respeito de ninguém ainda antes do episódio angolano. Prolongar-lhe o mandato é, por isso, eticamente insustentável, politicamente inadmissível, e embaraçoso para qualquer português com um pingo de vergonha na cara.
AI A MEMÓRIA. Se bem me lembro, Manuela Ferreira Leite impediu que Passos Coelho se candidatasse a deputado quando Manuela dirigia o PSD. Tudo porque Passos Coelho foi seu adversário na corrida à liderança social-democrata, e não lhe convinha uma ovelha negra na Assembleia da República. Estranho, por isso, que Manuela agora elogie os militantes do partido a que pertence que «não apoiaram determinado tipo de candidaturas», como esquecesse os tempos em que dirigiu o PSD (ou os outros se tivessem esquecido), e que agora seriam ocupados a estudar a melhor forma de os emprateleirar com o máximo de descrição caso continuasse na liderança. Estou à vontade para o dizer: não teria votado nos candidatos sociais-democratas às câmaras do Porto e Gaia caso militasse no PSD e aí residisse, dois evidentes «erros de casting» cujo responsável foi, evidentemente, o actual líder do PSD, que eu veria com bons olhos removido o mais depressa possível. Mas se em política a coerência é uma prática que já ninguém espera, é bom não perder inteiramente a memória — ou agir como se os outros não a tivessem.
28 de setembro de 2013
PEQUENA CONTRIBUIÇÃO PARA AS AUTÁRQUICAS. Calhou-me ser visitado pelo candidato a presidente da junta de uma determinada freguesia e respectiva equipa. Conhecedores da visita, alguém da família resolveu improvisar uma dúzia de sugestões, cada uma mais estapafúrdia que a outra — substituir os transportes públicos locais pelo TGV, instalar uma piscina olímpica onde se encontra uma unidade industrial desactivada, e mais disparates do género. A graça (ou tragédia, para quem leva estas coisas mais a peito) foi quando o candidato a vice-presidente leu as sugestões e começou a levar aquilo a sério, a ponto de comentar que havia ali matéria a considerar. Foi preciso alguém tirar-lhe o papel das mãos e dizer-lhe que era brincadeira para que o sujeito não passasse por um vexame ainda maior, embora já não se livrasse da risota geral. Gostaria de acreditar que isto não é a regra, mas a verdade é que são muitíssimos os casos como este e demasiados os casos ainda piores. Como não votarei nas Autárquicas (resido no estrangeiro), e porque dificilmente me afectará a vitória do candidato A ou a derrota do partido B, o resultado de domingo não me ralará por aí além. Mas gostaria, como português, que ganhassem os melhores, não sendo possível os menos maus. Por aquilo que se conhece, e pelo resto que se imagina, não vai ser fácil.
17 de setembro de 2013
RATAZANAS. Ficou claro desde o início que Maria Luís Albuquerque não tinha condições para exercer o cargo de ministra das Finanças. Por razões amplamente conhecidas, que por isso me dispenso de repetir. Assim não entendeu o primeiro-ministro, e a oposição na altura limitou-se a um pequeno burburinho logo seguido de um silêncio ruidoso. Ontem surgiram mais notícias, até ver toscamente desmentidas, de que Maria Luís Albuquerque teve novas «falhas de memória». O maior partido da oposição volta a exigir a demissão da ministra, a dizer que «não tem condições» para se manter no cargo, mas o destino da ministra parece traçado: três dias de escandaleira, e assunto encerrado. Ao quarto dia tudo voltará a ser como dantes, quartel-general em Abrantes. Como antecipadamente garante Marco António, porta-voz do PSD, «a montanha pariu um rato».
12 de setembro de 2013
PENSAMENTO DE BARBEARIA. Só agora me ocorre que, tirando Kim Jong-un, grande líder da Coreia do Norte, não me lembro de um único ditador que não use — ou tenha usado — bigode. O lembrete veio a propósito do barbeiro que tratou do cabelo que ainda me resta, um brasileiro de Minas Gerais, a quem pedi que me «acertasse» o bigode e a propósito do qual teceu considerações que muito o divertiram, mas cujo alcance não vislumbrei. A ver se medito no assunto nas férias que aí vêm, nos intervalos de umas barrigadas de figos e doutros espécimes que as autoridades alimentares e sanitárias, certamente na esperança de me salvarem não sei bem de quê (se calhar nem eles), desaconselham, e por isso me hão-de saber ainda melhor. Prometo regressar mal tenha o caso resolvido, mas dada a complexidade do assunto calculo que só daqui a duas ou três semanas voltarei com a regularidade habitual. Até lá, é possível que uma indigestão ou outra me leve a fazer um post de vez em quando, que mesmo não sendo uma prática recomendada pelas autoridades por vezes é remédio santo.
11 de setembro de 2013
ORA AQUI ESTÁ UM ESTUDO QUE VAI MUDAR O MUNDO. Tamanho dos testículos associado à capacidade dos pais de cuidarem de crianças
10 de setembro de 2013
VEM AÍ O JOGO DO GATO E DO RATO. Até ver, a eventual transferência do arsenal químico em poder do governo sírio para as mãos de uma entidade internacional, e posterior destruição, é uma boa notícia. Boa notícia porque assim se evitará, para já, uma intervenção militar de consequências imprevisíveis, e porque todas as partes parecem sair a ganhar — os Estados Unidos, que se podem gabar de ter forçado um acordo substancial, a Rússia, que se pode vangloriar de ter alcançado o que parece uma boa solução, o próprio governo sírio, que não perde inteiramente a face. Dito isto, tenho dúvidas como isso se fará. Tenho dúvidas que o governo sírio cumpra o acordo que se anuncia, e que os previsíveis obstáculos que virão a seguir (haverá sempre dúvidas que será entregue todo o arsenal, que os inspectores da força internacional sejam isentos, obstáculos de toda a ordem e espécie a dificultar a missão) tornem, a prazo, uma intervenção militar mais robusta e perigosa. Oxalá me engane, mas o que agora se anuncia como uma boa saída tem fortes probabilidades de se tornar, a prazo, numa entrada no Inferno.
5 de setembro de 2013
O REGRESSO DOS DINOSSAUROS. Como se previa, o Tribunal Constitucional (TC) autorizou as candidaturas dos «dinossauros». A decisão será inatacável do ponto de vista jurídico-constitucional, mas como alertei desde a primeira hora incompreensível ao comum dos mortais. Vale a pena lembrar que a autorização hoje concedida pelo TC só foi possível graças a uma lei feita com os pés e aprovada por um bando de irresponsáveis, os senhores deputados, que perante a evidência do erro nem sequer se deram ao cuidado de o emendar (preferiram entupir os tribunais, como se os tribunais já não estivessem entupidos que chegasse). Uma lei, nunca é demais repetir, que toda a gente percebeu, desde o início, em que sentido ia, excepto os politiqueiros que temos. Sugiro, portanto, aos eleitores o que sugeri desde a primeira hora, neste momento a única arma que lhes resta: caso apanhem pela frente os «dinossauros» que só a «engenharia política» tornou possível que voltassem a candidatar-se após três mandatos consecutivos, respondam-lhes com um Zé Povinho.
4 de setembro de 2013
QUANDO TUDO ESTÁ MAL, NEM TUDO ESTARÁ MAL. Definitivamente que nada está bem para os professores do ensino público, provisórios e definitivos. Agora é o dirigente de uma associação que exige saber «quantos professores do quadro vão leccionar (...) disciplinas que não correspondem aos grupos para os quais foram recrutados». «Um professor que ensina Informática ou Economia há 20 anos» estará habilitado a dar Matemática?», pergunta o dirigente. E prossegue com perguntas do género, questionando, pela enésima vez, a política educativa do enésimo governo. Imaginam os professores do ensino privado a questionar as decisões de quem os contratou? Com certeza que não imaginam. Porque os professores do ensino público e privado são contratados para ensinar, não para impor as regras. Percebe-se que os professores com vínculo precário ao Estado se preocupem com a eminência do desemprego, que se imagina dramático. Mas daí até quererem impor aos governos a cartilha educativa e determinar as regras das suas próprias funções, vai um abismo. Mal ou bem, os governos exercem funções para os quais foram eleitos. Já os professores não têm legitimidade para isso.
MAIS IMPROVISOS, MENOS TELEPONTOS. O João Miguel Tavares (JMT) começa assim mais uma excelente crónica no Público de ontem: «Eu aconselhava piedosamente o primeiro-ministro a fixar a frase "nunca mais vou voltar a falar de improviso sobre assuntos importantes", e de seguida a repeti-la 100 vezes em voz alta, de preferência na companhia de todos os assessores. Assim, da próxima vez que tivesse a tentação de subir a um palanque sem papéis nem teleponto, alguém o poderia amordaçar por caridade, para evitar que proferisse as bajoujices do último fim-de-semana.» Pois eu defendo precisamente o contrário, pelas razões que o próprio JMT enumerou. O improviso e a falta de teleponto têm a virtude de nos mostrar o que os governantes têm dentro, a sua verdadeira pele, a massa de que são feitos. Pela sucessão de disparates que aponta ao primeiro-ministro, cada um pior que o outro, evidentemente que o rei vai nu. E isso, não sendo motivo de festejos, é bom que se saiba.
3 de setembro de 2013
LAWRENCE DURRELL. Graças ao e-book que reúne os quatro volumes, completei, finalmente, o Quarteto de Alexandria. Há muito que um livro não me dava o gozo que me deu Clea, o último da série, onde se lêem passagens de uma beleza surpreendente.
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