22 de novembro de 2013

BOM FIM-DE-SEMANA.

 

Max Ernst | Family Excursions
PROVA DE AVALIAÇÃO. Se os professores já estão habilitados «tanto no plano científico como profissional» para não necessitaram de prestar provas perante nada e ninguém, como garante o dirigente da FENPROF, porquê tanta indignação com o facto de a chamada Prova de Avaliação prever zero valores para quem tiver dez ou mais dez erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia? Se os professores estão realmente preparados, temem o quê?
ANÓNIMOS. Num texto do Público sobre as caixas de comentários online, pergunta-se a determinada altura: «O anonimato [dos comentários online] é bom ou mau?» Por mim, é péssimo. Sempre defendi que o anonimato em jornalismo só deve ser usado em casos extremos, o que está longe de suceder. Não há semana em que a imprensa não cite fontes anónimas sem que se perceba que valor acrescentado tragam às notícias, e não fique a dúvida acerca da veracidade dos factos que lhes são atribuídos — além de sempre ficar no ar a suspeita de que foram os próprios jornalistas que as inventaram. Mas se em jornalismo por vezes se justifica o anonimato (e convém não esquecer que os jornalistas conhecem a identidade das fontes anónimas), nas caixas de comentários parece-me inadmissível. Desde logo porque, não sendo as identidades verificáveis, o que lá se diz não é de fiar.
POIS É. Hoje, derrubo grades, amanhã defendo-as

21 de novembro de 2013

AS DÚVIDAS DO COSTUME. Duas coisas sobre o caso do procurador-geral da República angolano: a justificação dada pela congénere portuguesa para só há dias ter revelado o desfecho do processo em que o dito se viu envolvido quando era já conhecido há três meses e meio (Joana Marques Vidal alegou que a lei a isso não obrigava) não cola; o arquivamento do processo, instaurado por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais (a que posteriormente se juntou o arquivamento do processo instaurado ao vice-presidente angolano, investigado pelos mesmos motivos), dá azo a algumas suspeitas e a muitas dúvidas. Por que alimentou o Ministério Público, com um silêncio incompreensível, as polémicas das últimas semanas, nomeadamente com o ministro das manchetes, quando facilmente lhes poderia pôr cobro? É só incompetência, ou haverá algo mais? A julgar pelas considerações do procurador que investigou o vice-presidente de Angola (no despacho de arquivamento do processo o magistrado mostrou-se esperançado que o desfecho do caso contribua para «o desanuviar do clima de tensão diplomática» entre Portugal e Angola), haverá algo mais. Nada que surpreenda, que a justiça portuguesa já não surpreende. Muito menos o inquérito disciplinar já instaurado ao magistrado que fez tais considerações, obviamente despropositadas, que há-de acabar da forma do costume.

18 de novembro de 2013

E SE FOSSE DAR LIÇÕES A OUTRO? Bater em Paulo Portas, só se perdem as que caem no chão. Mas quando se vê Fernando Ulrich a fazê-lo, e os motivos por que o faz, apetece sair em defesa de Portas. Goste-se, ou não, o vice-primeiro-ministro foi eleito, Fernando Ulrich não foi. Mais: Fernando Ulrich dirige um banco a quem o Estado emprestou uma pipa de massa para evitar que entrasse pelo cano, dinheiro subtraído aos contribuintes e emprestado em condições de favor — e de que há uma semana disse ter devolvido parte substancial como quem fez um favor e a isso não fosse obrigado. Quem usa o Estado apenas em benefício próprio e dos seus, como o caso de Fernando Ulrich, não tem, obviamente, um pingo de legitimidade para dar lições de moral a ninguém, muito menos a governantes eleitos. Por mais incompetentes que os considere, por mais medíocres que sejam.

12 de novembro de 2013

O JUMENTO. «Você passa a vida a ler», diz-me o jumento que se senta a meu lado sem me pedir licença. «Olhe que de vez em quando é preciso espairecer, que estar sempre a ler não faz bem a ninguém», prosseguiu. Interrompo a leitura para o aturar, porque não vou fazer uma cena no restaurante, e inicio uma conversa de circunstância ignorando o que disse. O jumento responde vagamente a uma pergunta que lhe faço, mas não desarma. «Não me lembro de o ter visto uma única vez sem um livro na mão» — e eu, que já desconfiava, fico com a certeza de que me está a acusar. Não satisfeito, arrebata-me o livro das mãos, olha a capa e a contracapa, folheia rapidamente (talvez à procura de ilustrações), e depois quer saber de que trata. Encho-me de paciência e apelo à misericórdia que há em mim, e procurando pôr fim à conversa o mais depressa possível digo-lhe que o assunto é demasiado complexo para que lho possa resumir em poucos minutos — e volto a tentar, em vão, encerrar o assunto. O sujeito abespinha-se, garante-me que também ele lia muitíssimo quando tinha tempo e só não continua a fazê-lo por razões que nem vale a pena enumerar, e que se eu for capaz de lhe explicar ele certamente compreenderá. Aqui chegado, confesso que já me sinto capaz de lhe enfiar o livro nas ventas, mas faço um último esforço. Começo a explicar-lhe o que de antemão eu sabia não lhe interessar, e ainda a explicação não ia a meio já o sujeito mudava de assunto. Hoje estou convencido de que o remédio mais eficaz para casos destes é complicar a explicação logo no início. É que, assim, não se perde tanto tempo com explicações inúteis, e trata-se o jumento como ele realmente é.
RENTES DE CARVALHO. Conhecida a atribuição do Grande Prémio da Crónica a Mazagran, republico a foto que aqui pus em Março deste ano.

JOHN TAVENER, 1944-2013. 
 

8 de novembro de 2013

BURROCRATÊS. Por razões que não vêm ao caso, tentei, nos últimos dias, resolver uns pequenos assuntos via internet, primeiro numa empresa de telecomunicações, depois num departamento governamental. Porque a paciência tem limites e os ditos assuntos podem esperar, acabei por desistir. Primeiro, porque é preciso meter explicador para perceber o que é dito nos sites da internet; depois, porque na maioria das vezes o apoio ao cliente complica em vez de simplificar, confunde em vez de esclarecer. Não vou dizer o nome da empresa nem de que departamento se trata, porque estou convencido de que os outros funcionam na mesma ou pior. Tudo porque escrevem em burrocratês, uma mistura de português burocrático e estupidez. Agora percebo melhor por que se pede um parecer sempre que se pretende aplicar uma lei, geralmente aos mesmíssimos advogados que a conceberam, que estão familiarizados com as asneiras que fizeram obviamente com o propósito de embolsar mais algum. E se não se percebem coisas que deveriam ser simples, acessíveis a qualquer pessoa alfabetizada, imagine-se o que será uma lei em que se faz os possíveis e os impossíveis para se tornar impenetrável para os cidadãos.

4 de novembro de 2013

SNOWDEN E A DESCOBERTA DA PÓLVORA. O assunto é demasiado complexo, mas há um princípio simples que convém ter em conta quando falamos de escutas: se os EUA não são espiados por outros países, é porque os outros países não têm capacidade para tal. Como é evidente, toda a gente espia toda a gente, todos os meios são válidos, tudo geralmente ilegal. Numa coisa o caso Snowden foi útil: vai-se demonstrando que a generalidade dos países espia os seus próprios cidadãos, incluindo «insuspeitos» como a Inglaterra, a Alemanha e a França, e os líderes da União Europeia até já admitem em privado que os seus próprios serviços de informação poderão estar envolvidos em práticas semelhantes. Só se espantará que países vigiem outros países quem vive noutro planeta, pelo que o caso Snowden é, até ver, uma espécie de descoberta da pólvora. Como toda a gente, tenho dúvidas acerca das escutas que o poder americano estará a fazer aos seus próprios cidadãos, mesmo autorizadas pelo Congresso, embora não me custe acreditar que graças a elas se tenham evitado males maiores. Mas também não sou, sobre tão delicada matéria, adepto do «sim» ou do «não». Seguramente que nalguns casos devem ser adoptadas, seguramente que noutros não. O problema é saber quando deve haver escutas, e quando não deve — e quando o resultado das escutas cai nas mãos erradas, como agora sucedeu com o caso Snowden. Ironicamente, as revelações do sujeito, que no melhor dos cenários visavam proteger cidadãos insuspeitos, deixou-os ainda mais vulneráveis — e mais fortes os seus inimigos.

1 de novembro de 2013

RIR COM COISAS SÉRIAS. A novela das escutas que os EUA fazem ou deixam de fazer está a tornar-se hilariante. Num dia são os espanhóis que acusam os americanos de lhes terem escutado milhares de chamadas, no dia seguinte descobre-se que as escutas foram, afinal, feitas pelos próprios espanhóis. A seguir é a vez dos franceses se indignarem pelas dezenas de milhares de escutas atribuídas aos americanos, no dia seguinte calam-se muito caladinhos porque entretanto descobriram que, afinal, foram os próprios franceses quem forneceu a informação aos americanos. Bem sei que o assunto é demasiado sério, mas é cada vez mais difícil conter um sorriso a cada novo detalhe que se vai conhecendo.
QUEM COM FERROS MATA. Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães casaram-se nos media e exibiram os rebentos nos media, agora andam à estalada nos media e a divorciar-se nos media. Pior: dão entrevistas onde revelam as misérias caseiras, cada um atribuindo ao outro a culpa pelo sucedido. Descontando os filhos menores, que pagam caríssimo os erros dos pais, tudo indica que estão bem um para o outro. Começo, aliás, a suspeitar que nada disto teria sucedido não fossem os media, para os quais sempre viveram pelas melhores e piores razões — e que um dia acabarão trucidados por eles.
FAÇAM O FAVOR DE LER (2). O tratado europeu do autoclismo

29 de outubro de 2013

NOVAMENTE DE CÓCORAS. Colocado perante as baboseiras do quadrúpede que manda na FIFA, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) começou por dizer que a nomeação de Ronaldo para a Bola de Ouro de 2013 é «mais que justa e merecida pelo que tem feito ao longo dos anos», que deverá ser Ronaldo a ganhar o ambicionado troféu, que é um «fã incondicional» de Ronaldo, que Ronaldo até se destaca pelas qualidades humanas. Resumindo, Fernando Gomes resolveu enaltecer as qualidades do craque da bola, como se as baboseiras proferidas pela cavalgadura que manda no futebol mundial necessitassem de justificação ou desculpa, e não fossem, como deviam, motivo para exigir um pedido de desculpas. Horas depois, conhecida a exigência do Real Madrid (para quem não sabe o clube onde joga), Fernando Gomes apressou-se a apanhar boleia e a corrigir o tiro: «Não posso, de nenhuma forma, concordar com o posicionamento da pessoa que lidera o futebol mundial, tecendo tal tipo de considerações sobre aquele que é um dos símbolos do futebol português», disse Fernando Gomes, acrescentando que foram «desajustados» e «desapropriados» os termos em que foram feitas as declarações de Blatter, segundo ele «uma falta de respeito quer com Cristiano Ronaldo, quer com Portugal». Como se vê, foi preciso o clube do jogador fazer o mínimo que se exigia para que o presidente da FPF dissesse o que devia ter dito logo desde o início, de forma clara e inequívoca. Triste país, o meu, que nos últimos tempos a única coisa que faz bem é pôr-se de cócoras.

25 de outubro de 2013

UMA PEQUENA DÚVIDA. Se os pais são culpados pela morte da filha, ainda que por acidente, como sustentou o então investigador Gonçalo Amaral, e tendo o assunto sido arquivado por falta de provas, como explicar que os pais da pequena Madeleine McCann tenham lutado, com sucesso, pela reabertura do caso se têm, segundo Amaral, culpas no cartório? Eis uma pergunta à qual o ex-inspector que então conduziu a investigação devia responder. A ver vamos o que vai dar a investigação da polícia britânica, e agora também da Judiciária, que ontem anunciou ter «identificado testemunhas que nunca foram inquiridas enquanto o processo esteve a decorrer» — o que, a ser verdade, aponta para falhas na anterior investigação. Recorde-se que Gonçalo Amaral, para quem os novos desenvolvimentos não passam de uma «manobra publicitária» (destinada a quê?), foi afastado da investigação, e depois tentou demonstrar em livro (Maddie: A Verdade da Mentira) o que não conseguiu demonstrar como investigador. E que foi julgado — e condenado a ano e meio de prisão com pena suspensa — por ter espancado uma suspeita de homicídio. Leram bem: espancado. Como no tempo da outra senhora.

23 de outubro de 2013

MASCARENHAS NÃO É GAY. Estou-me absolutamente nas tintas para o facto de Sócrates ser, ou não ser, homossexual. Mas que Sócrates foi alvo de uma campanha nesse sentido, isto é, uma campanha insinuando que ele era homossexual, obviamente com o objectivo de o prejudicar, não há dúvida que foi. Estranho, por isso, que o problema de Paulo Pinto Mascarenhas com José Sócrates seja o facto de o ex-primeiro-ministro ter agora abordado o assunto em entrevista ao Expresso, não a miserável campanha de que foi vítima, que Mascarenhas não só duvida ter existido (um jornalista que ignora os factos é sempre de assinalar), como considerou inofensiva caso tenha existido. Sócrates tem todos os defeitos que lhe queiram apontar e terá cometido todos os erros que dizem ter cometido, e escrevi sobre alguns desde a primeira hora. Parecem-me, por isso, desnecessárias insinuações rasteiras para o demonstrar, que os factos sobejam para o provar as vezes que forem precisas. Sim, o que Mascarenhas disse sem dizer é mais uma insinuação rasteira, que define mais quem a profere que quem pretende atingir. Com certeza que «chamar homossexual a alguém» não é um insulto, como diz com fingida candura. Mas Mascarenhas é tudo menos ingénuo, e não o sendo sabe bem que quem espalhou o boato (ou notícia) sabia que isso prejudicaria José Sócrates. «Há razões fundadas para duvidar da origem da fortuna da sua mãe, dos luxos em Paris, do envolvimento no ‘caso Freeport’ ou da sua licenciatura», remata o jornalista. Nesse caso, investigue, e depois diga alguma coisa.
COISAS REALMENTE IMPORTANTES. Manuela Moura Guedes não perde uma oportunidade para se pôr em bicos de pés. Depois de negar ter cometido um erro num concurso televisivo que agora apresenta quando todas as evidências apontavam o contrário (insistiu no Facebook ser verdadeiro um provérbio inexistente e acabou por remover o post onde o pretendeu demonstrar), eis que agora revelou ao mundo, novamente no Facebook (desta vez com direito a reprodução no DN), que jantou no restaurante onde Sócrates, segundo ela acompanhado por alguns dos seus antigos ministros, assistia a uma entrevista por ele concedida à RTP. E não se esqueceu de acrescentar um detalhe que reputou de grande importância: o ex-primeiro-ministro terá abandonado o restaurante já depois de Manuela, assim evitando cruzar-se com ela. E por que terá isso sucedido? Infelizmente, Manuela apenas insinuou. Por razões que então escrevi, nunca apreciei o famoso jornal da TVI por ela apresentado, onde se fartou de lançar «bombas atómicas» que ao terceiro dia já nem de fumo havia vestígios. Previsivelmente, acabou despedida. Não por pressão de José Sócrates, como ela gostaria e se fartou de insinuar. Mas por práticas jornalísticas que qualquer pessoa com vergonha na cara considerou inadmissíveis.