30 de janeiro de 2014
ADOÇÃO DE FATO. Mais um reparo ao referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo aprovado pelo PSD: as perguntas não deveriam ter sido formuladas segundo as regras do novo Acordo Ortográfico (AO90), que os deputados sociais-democratas aprovaram? Terá sido porque os «unidos de facto» passariam, no caso, a designar-se «unidos de fato», e porque o «concorda com a adopção» passaria a designar-se «concorda com a adoção»? Tiveram, enfim, receio de cair no ridículo? Nesse caso, que ajam em conformidade quando chegar a hora de desfazer o que nunca deveriam ter feito.
28 de janeiro de 2014
QUANDO A ASNEIRA SE ALIA À IGNORÂNCIA. Já tudo foi dito sobre o referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo, hoje enviado para o Tribunal Constitucional. Mas quase nada foi dito sobre as perguntas propostas, que são as seguintes:
1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?
2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?
Por mim, concordo, desde já, num ponto: isto está escrito num português miserável. O PSD «está disponível para reformular as perguntas» se o Tribunal Constitucional «considerar que elas desrespeitam a lei», disse o líder da JSD, que aprovou o referendo. Como se imagina que o Tribunal Constitucional terá dificuldade em perceber o que se pergunta (além de eventuais dúvidas de natureza constitucional), adivinha-se um molho de brócolos. Como nas novelas, os próximos capítulos prometem. Nada de bom neste caso, até porque já há perdedores: as crianças, cujos direitos deveriam prevalecer sobre todos os outros, e foram, de novo, adiados.
1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?
2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?
Por mim, concordo, desde já, num ponto: isto está escrito num português miserável. O PSD «está disponível para reformular as perguntas» se o Tribunal Constitucional «considerar que elas desrespeitam a lei», disse o líder da JSD, que aprovou o referendo. Como se imagina que o Tribunal Constitucional terá dificuldade em perceber o que se pergunta (além de eventuais dúvidas de natureza constitucional), adivinha-se um molho de brócolos. Como nas novelas, os próximos capítulos prometem. Nada de bom neste caso, até porque já há perdedores: as crianças, cujos direitos deveriam prevalecer sobre todos os outros, e foram, de novo, adiados.
27 de janeiro de 2014
24 de janeiro de 2014
INOVAR A IGNORÂNCIA. Alguém devia explicar ao secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade, se preciso for com um desenho, que a saída para o estrangeiro de portugueses qualificados significa que esses portugueses jamais voltarão. Quando muito voltarão para apanhar sol e banhos de mar, matar saudades da comidinha, rever a família e os amigos — e adeusinho até à próxima. Um governante que considera que a saída para o estrangeiro de pessoas com elevada formação académica «traz coisas boas para Portugal» (poderão, segundo ele, «regressar ainda mais qualificadas e experientes»), ou está a gozar connosco, ou não sabe o que anda a fazer. Convinha, portanto, libertá-lo da tarefa de que a pátria o incumbiu, que inovadores destes já temos que chegue.
MAIS UMA BELA TEORIA QUE A REALIDADE DESMENTE. Afinal, o Aeroporto da Portela, segundo alguns saturado ou em vias disso, vai acolher uma base da Ryanair, a partir da qual tenciona operar quatro novas rotas. Como fosse preciso, por aqui se vê a natureza de quem nos governou nos últimos anos, que se fartou de gastar dinheiro a tentar convencer-nos do que a realidade diariamente desmente.
22 de janeiro de 2014
PRÉMIOS LITERÁRIOS. Um dia destes alguém me disse, a propósito do lançamento de um livro de um jovem autor português, que o dito já foi premiado não sei com que prémios. Respondi-lhe em jeito de provocação: e quem são os escritores portugueses contemporâneos, novos e velhos, que nunca foram premiados? Tirando quem publicou por conta própria, não deve ser fácil encontrar um. Conquistar prémios literários é, hoje em dia, uma meta ao alcance de qualquer alfabetizado, e até conheço casos em que nem isso foi preciso.
20 de janeiro de 2014
COISAS QUE VOU LENDO (1). «Quando já havia luz suficiente para usar os binóculos, levou-os ao rosto e examinou o vale mais abaixo. Tudo perdera a cor e se dissolvia no negrume. A cinza macia era arrastada em remoinhos soltos por cima do asfalto. Perscrutou tudo quanto a sua vista alcançava. Os troços de Estrada lá ao fundo, no meio das árvores mortas. Procurava qualquer mancha colorida, qualquer indício de movimento, qualquer vestígio do penacho de fumo de uma fogueira. Baixou os binóculos e retirou a máscara de algodão do rosto e limpou o nariz ao pulso e depois tornou a examinar as cercanias com os binóculos. Em seguida limitou-se a ficar ali sentado, a segurar os binóculos e a ver a aurora cor de cinza a congelar sobre a terra. Sabia apenas que o rapaz era a sua garantia. Disse: Se ele não é a palavra de Deus, Deus nunca falou.» Cormac McCarthy, A Estrada
17 de janeiro de 2014
PROVAR DO PRÓPRIO VENENO. Embora nuns países mais do que noutros, os candidatos a cargos políticos gostam de exibir as esposas ou os maridos, os filhos e a sogra, o cão e o periquito. Porque isso dá a aparência de que são «pessoas como nós», logo rende votos. A novela à volta de Hollande não foge à regra. A imprensa cor-de-rosa descobriu que o presidente francês terá uma amante, a imprensa cor-de-burro-quando-foge agarrou a história com unhas e dentes — e a oposição, embora fingindo não dar importância ao caso, vai fazendo o que pode para dar cabo dele. Resumindo, um assunto que em países como a civilizadíssima França ninguém dará importância tornou-se, de repente, um assunto de Estado. Alguém duvida que o affaire desestabiliza Hollande e o Governo a que preside?
16 de janeiro de 2014
YELP IS GOOD FOR BUSINESS, NOT FOR CONSUMERS. For those, like me, who believe in Yelp, this is the message they just sent me: «We wanted to let you know that we've removed your review of Mike's Cigars. Our Support team has determined that it falls outside our Content Guidelines because it lacks a firsthand customer experience at this business location.» What I wrote was the following: «Online products arrive in miserable conditions (I bought some Padron cigars and I have to put them in garbage). Service doesn't exist at all (nobody answer my question). Conclusion: don't buy anything from this store, at least the online store. Use Famous Smoke Shop, for example.» Any conclusion to be drawn? Yes, it’s in the title of this post.
15 de janeiro de 2014
SE PODEM MUDAR-SE, POR QUE NÃO SE MUDAM? Pior que complicar a vida às grandes empresas portuguesas que em Portugal produzem riqueza e empregam milhares de pessoas, só dizer-se que os portugueses têm muita sorte em tê-las, pois os seus proprietários poderão facilmente mudá-las para outros países. Como é evidente, o argumento é fraquinho, e escassamente fundamentado. Se podem mudá-las para outros países, naturalmente com vantagens, por que não as mudam? Por razões patrióticas? Não será porque a balbúrdia fiscal em vigor, de que os empresários tanto se queixam, as beneficia? Não será porque, contas feitas, a famosa estabilidade fiscal (e outras condições tidas como fundamentais) dos países para onde poderiam mudar-se significaria ganhar menos?
14 de janeiro de 2014
TALVEZ ISTO DEMONSTRE QUE, UMA VEZ NO PODER, ESQUERDA E DIREITA MODERADAS NÃO SE DISTINGUEM. Hollande expulsou mais ciganos que Sarkozy
O QUE VALE É QUE AINDA NÃO PERDEMOS O SENTIDO DE HUMOR. Pagaram mais por leitão por serem do "Governo que rouba"
10 de janeiro de 2014
JORNALISMO ANEDÓTICO. Forçado pelas circunstâncias a pronunciar-se sobre Eusébio, José Sócrates terá feito uma investigação apressada — e acabou a dizer que se lembrava muitíssimo bem do memorável Portugal-Coreia do Norte onde Eusébio foi rei e senhor, pois nesse mesmo dia o ex-primeiro-ministro estava na escola. O resultado desta revelação é conhecido: alguém se deu ao cuidado de «investigar» (ele há gente para tudo), e logo descobriu que o Portugal-Coreia do Norte foi, afinal, a um sábado, dia em que não há escola. Perante isto, a reacção só podia ser uma: risota geral. Sócrates foi novamente apanhado a mentir, coisa a que já nos habituou e alguns garantem estar-lhe na massa do sangue. Houve, porém, um percalço: um amigo de infância confirmou que nesse dia houve, de facto, escola, onde esteve na companhia de Sócrates e outros colegas. Resumindo, Sócrates não mentiu. Se a história tivesse moral, a moral seria esta: há sempre um desmancha-prazeres disposto a dar cabo de uma bela teoria com a mania dos factos, e um jornalista a omitir os factos se lhe derem cabo da história. (Ler, a propósito, as duas últimas crónicas de Ferreira Fernandes.)
8 de janeiro de 2014
7 de janeiro de 2014
MILES DAVIS.
Comecei por In a Silent Way, a que regresso com frequência. Depois descobri a pérola cuja ligação aqui deixo. Foi ontem à noite, para desenjoar de Eusébio, que me ocupou no trabalho e fora dele. Não tanto ele, mas as dezenas de lugares-comuns que sobre ele disseram e escreveram – que, estou certo, o haveriam de enfastiar tanto como me enfastiaram a mim.
Comecei por In a Silent Way, a que regresso com frequência. Depois descobri a pérola cuja ligação aqui deixo. Foi ontem à noite, para desenjoar de Eusébio, que me ocupou no trabalho e fora dele. Não tanto ele, mas as dezenas de lugares-comuns que sobre ele disseram e escreveram – que, estou certo, o haveriam de enfastiar tanto como me enfastiaram a mim.
6 de janeiro de 2014
QUANDO OS FACTOS DÃO CABO DAS BELAS TEORIAS. Sem a devida autorização, reproduzo parcialmente a crónica do Alberto Gonçalves no DN de ontem: «É de mim ou está mais frio a cada ano? Desde que entrou em vigor o aquecimento global que a memória adolescente dos banhos na praia de Matosinhos em Dezembro parece não só um acontecimento remoto como um mito. Os banhos sequer existiram? Sob camadas e camadas de roupa, além de gorro, luvas e cachecol, começo a duvidar. E quem também vê as certezas abaladas são os activistas que, há semanas, rumaram de navio à Antártida de modo a denunciar o degelo na região. Afinal, acharam gelo onde não o havia há um século e ficaram encalhados para ali até ao salvamento. Agora, é o barco de resgate que se encontra em perigo. Se era suposto o homem causar o aquecimento global, o homem falhou redondamente.»
3 de janeiro de 2014
TOMA LÁ E CALA-TE. Como estarão lembrados, a revista Forbes publicou, em Setembro último, um artigo onde explicava detalhadamente a origem da riqueza da empresária angolana Isabel dos Santos, filha do presidente Eduardo dos Santos. Estranhamente, o artigo não mereceu qualquer reacção pública de Isabel dos Santos – nem, sequer, da trombeta do regime, sempre muito sensível a estes assuntos. Três meses depois do artigo da Forbes (resumo em português aqui), eis que a revista anuncia uma edição em português. Será um projecto em parceria com a angolana ZAP Publishing, que a revista identifica como líder no mercado de «pay-TV» em Angola e Moçambique. Infelizmente, a notícia não diz quem manda na ZAP Publishing. Adivinhem quem é.
2 de janeiro de 2014
E QUE TAL COMEÇAR PELO QUE INTERESSA? Em vez de legislar sobre o que não deve (ortografia, por exemplo), que tal o Estado rever os portais de que é responsável e pôr o que lá está em português que se entenda? Isso, sim, seria um verdadeiro serviço à língua portuguesa e aos portugueses em geral. Quanto ao Acordo Ortográfico, o chamado AO90, só mais uma achega: quem é contra já exibiu dezenas de argumentos concretos (repito: concretos) a fundamentar a discordância; quem é a favor não apresentou um único argumento concreto (repito: concreto) sustentando a bondade do negócio. Por aqui se vê o absurdo da coisa.
RECOMEÇAR DE NOVO. Terminei o ano com as últimas páginas de Nas Trevas Exteriores, de Cormac McCarthy, comecei o novo retomando The Journals of André Gide após longo interregno. É o que eu chamo acabar bem, e começar melhor — apesar da neve e do frio que se anunciam para as próximas horas. Oxalá seja um bom prenúncio para o que aí vem.
27 de dezembro de 2013
DESVERGONHA. Que atire a primeira pedra quem nunca pecou. Mas há coisas que não se percebem, por mais voltas que se dê ao miolo: como é possível um jornalista que se prestou a este triste papel continuar por aí a vender bitaites? Se o cavalheiro não tem vergonha na cara (e está demonstrado que não), e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista não viu motivo para lhe retirar a licença, lamenta-se no primeiro caso, estranha-se no segundo. Que o sujeito colabore nos media assumidamente conotados com este ou aquele clube, não me chocaria. Mas que os media ditos sérios, como o Expresso e a RTP, contratem os seus serviços, já acho surpreendente. Haverá um só leitor (ou espectador) que lhe atribua um pingo de credibilidade? Se há, decerto não ouviu a gravação que por aí anda, cuja autenticidade não vi quem contestasse e recomendo vivamente.
23 de dezembro de 2013
PÚCARO BÚLGARO. Custou-me os olhos da cara, mas vale cada grama que pesa. Falo d’O Púcaro Búlgaro, romance que perseguia há anos. De um magricelas de 110 páginas, que terá demorado 20 dias a escrever e Cardoso Pires considerou uma obra-prima. Já comecei a caça aos restantes, ao que parece esgotadíssimos, e os poucos que há a preços exorbitantes. Como é possível um escritor como Campos de Carvalho ser ainda hoje praticamente um desconhecido?
19 de dezembro de 2013
PROFESSORES (4). Sei que é uma batalha perdida sair em defesa do ministro da Educação, deste ou anteriores, e nos tempos que correm muitíssimo impopular. Mas há uma pergunta que gostaria de ver respondida: é, ou não, verdade que existem deficiências na formação de professores em algumas escolas? Será preciso nomear uma comissão ou contratar um detective para saber que existem? Assim sendo, porquê tanto escandaleira pelo facto de Nuno Crato se limitar a dizer o óbvio?
PROFESSORES (3). Quem olha para os professores do ensino público (ou candidatos a isso) e seus legítimos representantes (sindicatos e federações sindicais) com um mínimo de distanciamento tende a dar razão a todos quantos foram, são ou venham a ser ministros da Educação. Por uma razão cada vez mais evidente: nada que os ministros decidam sobre os professores está certo para os ditos. Sucessivos ministros da Educação e sucessivas políticas educativas adoptadas pelos diversos ministros foram, segundo os professores e seus representantes, todas desastrosas. Ontem foi a avaliação para efeito de progressão nas carreiras, que consideraram desadequada. Hoje é a chamada «Prova de Avaliação», que consideram inadmissível e mal feita. Amanhã sabe-se lá o que será. Como seria de esperar, a Federação Nacional de Professores (Fenprof), principal agremiação sindical da classe, reagiu à pretensão do Governo de criar a tal «Prova de Avaliação» dizendo tratar-se de um expediente «ilegal», e tratou logo de entregar providências cautelares em meia dúzia de tribunais. E porquê ilegal? Porque o incontornável líder da Fenprof considera que os professores já estão habilitados «tanto no plano científico como profissional», pelo que a prova põe em causa «o direito ao exercício da profissão». Temos, portanto, que o Estado tem a obrigação de dar emprego aos professores porque os professores têm esse direito. E a todos os professores, porque segundo Mário Nogueira todos estão habilitados para isso. Seguindo este admirável princípio, se houver cem candidatos habilitados a preencher duas vagas numa determinada empresa, a empresa deverá admitir os cem, ou os dois que julgar melhores? Segundo o senso comum, deverá admitir os dois que julgar melhores. Segundo a lógica de Nogueira, deverá admitir os cem. Há muito se percebeu que o ideal, para os professores e respectivos sindicatos, seria que os ditos terminassem as licenciaturas e ingressassem automaticamente no ensino público, e uma vez lá cuidassem das suas próprias avaliações e do mais que lhes conviesse — coisa, de certa maneira, que tem vindo a suceder, embora já tivesse sido pior. Será preciso dizer que as exigências dos professores do ensino público e dos sindicatos que os representam atingiram as raias do absurdo?
18 de dezembro de 2013
PROFESSORES (2). Certamente com a pressa de fazer o exercício quinzenal de «tiro ao Crato», que vem fazendo ao actual ministro da Educação mesmo ainda antes de tomar posse, o professor Santana Castilho escreveu a seguinte barbaridade no Público de hoje: «não há professores de primeira e professores de segunda, mas, tão-só, professores». Como é evidente, há professores de primeira e de segunda, médicos de primeira e de segunda, carpinteiros de primeira e de segunda, futebolistas de primeira e de segunda. Dito de outra maneira, há profissionais melhores do que outros. É isso, aliás, o que o actual ministro pretende fazer: escolher os melhores, dispensar os restantes. O processo terá algumas falhas, mas a ideia parece-me justa.
PROFESSORES (1). Sobre os professores do ensino público, só gostava que me alguém me respondesse a três perguntinhas. Quais foram as medidas tomadas pelo Governo (qualquer Governo) com as quais concordaram? Qual foi a proposta de avaliação das suas competência que acharam adequada? Qual foi o ministro da Educação que consideraram sério, competente, e que tenha proposto alguma coisa com pés e cabeça? Que me lembre, todas as medidas tomadas ou propostas foram medíocres, todos os ministros foram maus, todos os governos foram péssimos. Ora, é normal que todos os Governos só tenham feito asneiras, que todos os ministros da Educação tenham sido incompetentes, que tudo esteja errado? Há aqui qualquer coisa que não bate certo, não é?
17 de dezembro de 2013
RESPONDA QUEM SOUBER. O Tribunal Constitucional é a última instância em matéria constitucional. Havendo dúvidas quanto à constitucionalidade de uma lei, ou parte dela, a ele cabe decidir se entra, ou não, em vigor. Decisão que uma vez tomada será irrevogável (não à maneira de Portas), e que poderá, também, ser inconstitucional. Ou não?
16 de dezembro de 2013
NATAL DOS HOSPITAIS. Como diria uma respeitável senhora, agora ao serviço da Pátria, o Natal dos Hospitais é um daqueles inolvidáveis momentos que consegue a proeza de juntar «a fina flor do entulho». A gente olha para os «artistas» que lá passam, ouve as dúzias de lugares-comuns e o paleio de circunstância dos convidados — e nos casos mais benevolentes apetece correr para a casa de banho, nos piores puxar de pistola. Num país onde tem vindo a aumentar o consumo de antidepressivos, talvez não fosse má ideia acabar com a solidariedade empacotada, a alegria postiça, a mercadoria fora de prazo. Aquilo é visto por consideráveis milhões? Também os bestsellers vendem milhões, e nem por isso passam a valer o papel em que foram impressos.
12 de dezembro de 2013
OS RESULTADOS ESTÃO À VISTA. Apesar de ser demasiado confusa, há uma passagem claríssima na prosa de Raquel Varela, que o Público identifica como investigadora e historiadora do trabalho: a função da Universidade não é adaptar-se «ao que o mercado necessita». «O mercado», diz ela, «é que tem de vir com urgência à universidade para ser criticado», que a universidade é o «lugar onde se produz conhecimento, onde se questiona o óbvio, onde se desafia, com coragem, o senso comum» (eu avisei que a prosa é confusa). Resumindo, deve ser o mercado a adaptar-se ao que as universidades pretendem, não as universidades «ao que o mercado necessita». Assim se percebe melhor por que nos últimos anos milhares de jovens obtiveram canudos que não servem para nada.
ANA, A GENEROSA. Confesso que já tinha saudades das calinadas da eurodeputada Ana Gomes. Tem «vergonha» da «falta de generosidade» de Portugal para acolher refugiados sírios? E que tal começar por praticar a generosidade lá em casa, acolhendo uns quantos?
9 de dezembro de 2013
COISAS QUE TORNAM O MUNDO MELHOR. Passei parte do fim-de-semana com O Leopardo, e outra parte a ler o terceiro volume do «Quarteto Bandini» (Pergunta ao Pó). De Lampedusa pouco mais conhecia que a célebre frase «tudo deve mudar para que tudo fique como está» (a frase varia consoante as traduções), mas a uma centena de páginas do final atrevo-me a dizer que foi do melhor que já li. De Fante, só há dias soube da sua existência, e se já vou no terceiro volume quer dizer alguma coisa. Fante terá sido o principal inspirador de Kerouac e Bukowski, e Bukowski terá mesmo dito que Fante foi, para ele, «um deus». Lido há anos quase todo o Kerouac e algum Bukowski recentemente, a sensação com que fico é que Fante foi, de longe, melhor que os melhores «discípulos».
6 de dezembro de 2013
COMEDOUROS. Almoço num restaurante onde o proprietário cumprimenta os clientes um a um, conhecidos e desconhecidos, que ele parte invariavelmente do princípio que todos os clientes gostam de ser cumprimentados pelo proprietário. Como não bastasse, raramente se fica pelo passou bem. Entabula conversa de circunstância quer os clientes queiram, quer não, ri-se alarvemente com a graça que julga ter, balbucia em vernáculo a propósito e a despropósito com os clientes mais chegados mas sempre audível para os restantes, e se os clientes lhe são desconhecidos trata logo de saber quem são, o que fazem, e onde penduram o pote. A primeira vez que lá fui cumprimentou-me com parcimónia, quis saber o que eu achava da comida, e passou adiante. Três clientes depois voltou atrás, pôs-me a manápula no ombro, e perguntou-me o que eu fazia. Satisfeita a curiosidade, voltou à vida dele, mas não por muito tempo. Regressou para que lhe desculpasse a curiosidade, que ele era assim mesmo, que não o levasse a mal. Ou talvez fosse outro o motivo, que o sujeito pode ser burro mas parvo é que não é.
4 de dezembro de 2013
COISAS INADMISSÍVEIS. É, de facto, inconcebível uma greve dos juízes, como diz o bastonário dos Advogados, por mais que nenhuma lei o impeça, e por mais que discorde de Marinho Pinto em variadíssimas matérias. Como me parecem inconcebíveis greves das forças policiais (PSP, GNR, PJ) ou das Forças Armadas, e inadmissíveis manifestações — de que a última, de várias forças policiais, terminou da forma que se sabe. Há sectores da sociedade que pura e simplesmente deveriam ser impedidos de ter sindicatos, de fazer greve e/ou se manifestarem. Dir-me-ão que juízes e polícias são cidadãos como os outros, com direitos e deveres como os outros. Segundo a lei, assim é. Na prática, espera-se de juízes e polícias que estejam à altura das funções que desempenham, e convenhamos que fazer greve ou manifestações são actividades que não se compadecem com as funções que desempenham. Podem, profissionalmente, ganhar alguma coisa com isso, mas perdem o respeito dos cidadãos — e abrem a porta a práticas ainda mais graves.
2 de dezembro de 2013
HÁ MALES QUE VÊM POR BEM. Numa prosa por vezes analfabeta (leiam e verão que não exagero), o escritor Valter Hugo Mãe diz estarem em perigo os livros extensos quando o livro for apenas digital — que passarão, segundo ele, a ser produzidos de modo a irem «ao encontro da especificação rigorosa dos assuntos e da falta de paciência do leitor». Mas nem tudo será mau caso a profecia se cumpra, digo eu. Por exemplo, a prosa de Mãe ganharia muitíssimo caso fosse reduzida a um parágrafo, de preferência não muito extenso.
29 de novembro de 2013
POR ONDE ANDARÁ O LÍDER DA OPOSIÇÃO? Revejo-me em quase todas as críticas a Passos Coelho, vindas de dentro (as mais substantivas) e de fora do PSD. Mas se amanhã houvesse eleições legislativas, não votaria em Seguro. (Ao contrário do que a lógica sugere, não voto no partido A ou no partido B, mas em quem me parecer melhor candidato a primeiro-ministro.) Se bem me lembro, o secretário-geral do PS exigiu, indignado, a demissão da actual ministra das Finanças, e depois, ainda mais indignado, a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros — indignações que duraram dois dias e acabaram da forma que se sabe. Quer num caso, quer noutro, ao terceiro dia o líder do PS já estava noutra, e as demissões até ali reclamadas como imperativo nacional deixaram de justificar-se sem que se vislumbrasse um único motivo que o fizesse mudar de ideias. Verdade que nos últimos dias o líder do PS tem somado alguns pontos a seu favor. Por exemplo, o que pensará ele das manifestações dos polícias? E da invasão dos ministérios? E dos «empurrões» da polícia ao sr. Arménio e a dois deputados? A avaliar pela ausência de notícias, ninguém sabe. Seguro não tem aberto a boca sobre estas e outras matérias, o que sempre o poupa a embaraços. Será pouco, mas é já um começo.
26 de novembro de 2013
EXTRAORDINÁRIA COISA. O extraordinário não é a chamada Prova de Avaliação atribuir zero valores aos professores que tiverem dez ou mais erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia no texto de 250 a 350 caracteres que vão ter que escrever. O extraordinário é a prova admitir como bons professores que cometem nove erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia num texto de 250 a 350 caracteres.
AI NÃO? Não temos autoridade para criticar os polícias porque levantaram as grades de protecção e subiram e desceram ordeiramente as escadas da Assembleia da República? Ora essa! Temos toda a autoridade não só para criticar os polícias que o fizeram como os polícias que o permitiram. Porque se as grades tivessem sido levantadas por cidadãos, digamos, normais, teria havido pancada. E porque se exige a quem zela pela ordem um comportamento condizente com as funções que desempenha. Que são, já agora, manter a ordem, e se for necessário impô-la.
22 de novembro de 2013
PROVA DE AVALIAÇÃO. Se os professores já estão habilitados «tanto no plano científico como profissional» para não necessitaram de prestar provas perante nada e ninguém, como garante o dirigente da FENPROF, porquê tanta indignação com o facto de a chamada Prova de Avaliação prever zero valores para quem tiver dez ou mais dez erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia? Se os professores estão realmente preparados, temem o quê?
ANÓNIMOS. Num texto do Público sobre as caixas de comentários online, pergunta-se a determinada altura: «O anonimato [dos comentários online] é bom ou mau?» Por mim, é péssimo. Sempre defendi que o anonimato em jornalismo só deve ser usado em casos extremos, o que está longe de suceder. Não há semana em que a imprensa não cite fontes anónimas sem que se perceba que valor acrescentado tragam às notícias, e não fique a dúvida acerca da veracidade dos factos que lhes são atribuídos — além de sempre ficar no ar a suspeita de que foram os próprios jornalistas que as inventaram. Mas se em jornalismo por vezes se justifica o anonimato (e convém não esquecer que os jornalistas conhecem a identidade das fontes anónimas), nas caixas de comentários parece-me inadmissível. Desde logo porque, não sendo as identidades verificáveis, o que lá se diz não é de fiar.
21 de novembro de 2013
AS DÚVIDAS DO COSTUME. Duas coisas sobre o caso do procurador-geral da República angolano: a justificação dada pela congénere portuguesa para só há dias ter revelado o desfecho do processo em que o dito se viu envolvido quando era já conhecido há três meses e meio (Joana Marques Vidal alegou que a lei a isso não obrigava) não cola; o arquivamento do processo, instaurado por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais (a que posteriormente se juntou o arquivamento do processo instaurado ao vice-presidente angolano, investigado pelos mesmos motivos), dá azo a algumas suspeitas e a muitas dúvidas. Por que alimentou o Ministério Público, com um silêncio incompreensível, as polémicas das últimas semanas, nomeadamente com o ministro das manchetes, quando facilmente lhes poderia pôr cobro? É só incompetência, ou haverá algo mais? A julgar pelas considerações do procurador que investigou o vice-presidente de Angola (no despacho de arquivamento do processo o magistrado mostrou-se esperançado que o desfecho do caso contribua para «o desanuviar do clima de tensão diplomática» entre Portugal e Angola), haverá algo mais. Nada que surpreenda, que a justiça portuguesa já não surpreende. Muito menos o inquérito disciplinar já instaurado ao magistrado que fez tais considerações, obviamente despropositadas, que há-de acabar da forma do costume.
18 de novembro de 2013
E SE FOSSE DAR LIÇÕES A OUTRO? Bater em Paulo Portas, só se perdem as que caem no chão. Mas quando se vê Fernando Ulrich a fazê-lo, e os motivos por que o faz, apetece sair em defesa de Portas. Goste-se, ou não, o vice-primeiro-ministro foi eleito, Fernando Ulrich não foi. Mais: Fernando Ulrich dirige um banco a quem o Estado emprestou uma pipa de massa para evitar que entrasse pelo cano, dinheiro subtraído aos contribuintes e emprestado em condições de favor — e de que há uma semana disse ter devolvido parte substancial como quem fez um favor e a isso não fosse obrigado. Quem usa o Estado apenas em benefício próprio e dos seus, como o caso de Fernando Ulrich, não tem, obviamente, um pingo de legitimidade para dar lições de moral a ninguém, muito menos a governantes eleitos. Por mais incompetentes que os considere, por mais medíocres que sejam.
15 de novembro de 2013
É ISTO MESMO. Estrela Serrano disse, no Vai e Vem, o que havia a dizer sobre o caso Bárbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho: «São os jornalistas que tornam público o que nós conhecemos sobre a vida pública, privada e íntima das figuras públicas. A responsabilidade da publicação é dos jornalistas. Digam as figuras públicas o que disserem sobre as suas vidas íntimas ou dos seus familiares (...).»
12 de novembro de 2013
O JUMENTO. «Você passa a vida a ler», diz-me o jumento que se senta a meu lado sem me pedir licença. «Olhe que de vez em quando é preciso espairecer, que estar sempre a ler não faz bem a ninguém», prosseguiu. Interrompo a leitura para o aturar, porque não vou fazer uma cena no restaurante, e inicio uma conversa de circunstância ignorando o que disse. O jumento responde vagamente a uma pergunta que lhe faço, mas não desarma. «Não me lembro de o ter visto uma única vez sem um livro na mão» — e eu, que já desconfiava, fico com a certeza de que me está a acusar. Não satisfeito, arrebata-me o livro das mãos, olha a capa e a contracapa, folheia rapidamente (talvez à procura de ilustrações), e depois quer saber de que trata. Encho-me de paciência e apelo à misericórdia que há em mim, e procurando pôr fim à conversa o mais depressa possível digo-lhe que o assunto é demasiado complexo para que lho possa resumir em poucos minutos — e volto a tentar, em vão, encerrar o assunto. O sujeito abespinha-se, garante-me que também ele lia muitíssimo quando tinha tempo e só não continua a fazê-lo por razões que nem vale a pena enumerar, e que se eu for capaz de lhe explicar ele certamente compreenderá. Aqui chegado, confesso que já me sinto capaz de lhe enfiar o livro nas ventas, mas faço um último esforço. Começo a explicar-lhe o que de antemão eu sabia não lhe interessar, e ainda a explicação não ia a meio já o sujeito mudava de assunto. Hoje estou convencido de que o remédio mais eficaz para casos destes é complicar a explicação logo no início. É que, assim, não se perde tanto tempo com explicações inúteis, e trata-se o jumento como ele realmente é.
RENTES DE CARVALHO. Conhecida a atribuição do Grande Prémio da Crónica a Mazagran, republico a foto que aqui pus em Março deste ano.
8 de novembro de 2013
BURROCRATÊS. Por razões que não vêm ao caso, tentei, nos últimos dias, resolver uns pequenos assuntos via internet, primeiro numa empresa de telecomunicações, depois num departamento governamental. Porque a paciência tem limites e os ditos assuntos podem esperar, acabei por desistir. Primeiro, porque é preciso meter explicador para perceber o que é dito nos sites da internet; depois, porque na maioria das vezes o apoio ao cliente complica em vez de simplificar, confunde em vez de esclarecer. Não vou dizer o nome da empresa nem de que departamento se trata, porque estou convencido de que os outros funcionam na mesma ou pior. Tudo porque escrevem em burrocratês, uma mistura de português burocrático e estupidez. Agora percebo melhor por que se pede um parecer sempre que se pretende aplicar uma lei, geralmente aos mesmíssimos advogados que a conceberam, que estão familiarizados com as asneiras que fizeram obviamente com o propósito de embolsar mais algum. E se não se percebem coisas que deveriam ser simples, acessíveis a qualquer pessoa alfabetizada, imagine-se o que será uma lei em que se faz os possíveis e os impossíveis para se tornar impenetrável para os cidadãos.
4 de novembro de 2013
SNOWDEN E A DESCOBERTA DA PÓLVORA. O assunto é demasiado complexo, mas há um princípio simples que convém ter em conta quando falamos de escutas: se os EUA não são espiados por outros países, é porque os outros países não têm capacidade para tal. Como é evidente, toda a gente espia toda a gente, todos os meios são válidos, tudo geralmente ilegal. Numa coisa o caso Snowden foi útil: vai-se demonstrando que a generalidade dos países espia os seus próprios cidadãos, incluindo «insuspeitos» como a Inglaterra, a Alemanha e a França, e os líderes da União Europeia até já admitem em privado que os seus próprios serviços de informação poderão estar envolvidos em práticas semelhantes. Só se espantará que países vigiem outros países quem vive noutro planeta, pelo que o caso Snowden é, até ver, uma espécie de descoberta da pólvora. Como toda a gente, tenho dúvidas acerca das escutas que o poder americano estará a fazer aos seus próprios cidadãos, mesmo autorizadas pelo Congresso, embora não me custe acreditar que graças a elas se tenham evitado males maiores. Mas também não sou, sobre tão delicada matéria, adepto do «sim» ou do «não». Seguramente que nalguns casos devem ser adoptadas, seguramente que noutros não. O problema é saber quando deve haver escutas, e quando não deve — e quando o resultado das escutas cai nas mãos erradas, como agora sucedeu com o caso Snowden. Ironicamente, as revelações do sujeito, que no melhor dos cenários visavam proteger cidadãos insuspeitos, deixou-os ainda mais vulneráveis — e mais fortes os seus inimigos.
1 de novembro de 2013
RIR COM COISAS SÉRIAS. A novela das escutas que os EUA fazem ou deixam de fazer está a tornar-se hilariante. Num dia são os espanhóis que acusam os americanos de lhes terem escutado milhares de chamadas, no dia seguinte descobre-se que as escutas foram, afinal, feitas pelos próprios espanhóis. A seguir é a vez dos franceses se indignarem pelas dezenas de milhares de escutas atribuídas aos americanos, no dia seguinte calam-se muito caladinhos porque entretanto descobriram que, afinal, foram os próprios franceses quem forneceu a informação aos americanos. Bem sei que o assunto é demasiado sério, mas é cada vez mais difícil conter um sorriso a cada novo detalhe que se vai conhecendo.
QUEM COM FERROS MATA. Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães casaram-se nos media e exibiram os rebentos nos media, agora andam à estalada nos media e a divorciar-se nos media. Pior: dão entrevistas onde revelam as misérias caseiras, cada um atribuindo ao outro a culpa pelo sucedido. Descontando os filhos menores, que pagam caríssimo os erros dos pais, tudo indica que estão bem um para o outro. Começo, aliás, a suspeitar que nada disto teria sucedido não fossem os media, para os quais sempre viveram pelas melhores e piores razões — e que um dia acabarão trucidados por eles.
30 de outubro de 2013
29 de outubro de 2013
NOVAMENTE DE CÓCORAS. Colocado perante as baboseiras do quadrúpede que manda na FIFA, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) começou por dizer que a nomeação de Ronaldo para a Bola de Ouro de 2013 é «mais que justa e merecida pelo que tem feito ao longo dos anos», que deverá ser Ronaldo a ganhar o ambicionado troféu, que é um «fã incondicional» de Ronaldo, que Ronaldo até se destaca pelas qualidades humanas. Resumindo, Fernando Gomes resolveu enaltecer as qualidades do craque da bola, como se as baboseiras proferidas pela cavalgadura que manda no futebol mundial necessitassem de justificação ou desculpa, e não fossem, como deviam, motivo para exigir um pedido de desculpas. Horas depois, conhecida a exigência do Real Madrid (para quem não sabe o clube onde joga), Fernando Gomes apressou-se a apanhar boleia e a corrigir o tiro: «Não posso, de nenhuma forma, concordar com o posicionamento da pessoa que lidera o futebol mundial, tecendo tal tipo de considerações sobre aquele que é um dos símbolos do futebol português», disse Fernando Gomes, acrescentando que foram «desajustados» e «desapropriados» os termos em que foram feitas as declarações de Blatter, segundo ele «uma falta de respeito quer com Cristiano Ronaldo, quer com Portugal». Como se vê, foi preciso o clube do jogador fazer o mínimo que se exigia para que o presidente da FPF dissesse o que devia ter dito logo desde o início, de forma clara e inequívoca. Triste país, o meu, que nos últimos tempos a única coisa que faz bem é pôr-se de cócoras.
25 de outubro de 2013
UMA PEQUENA DÚVIDA. Se os pais são culpados pela morte da filha, ainda que por acidente, como sustentou o então investigador Gonçalo Amaral, e tendo o assunto sido arquivado por falta de provas, como explicar que os pais da pequena Madeleine McCann tenham lutado, com sucesso, pela reabertura do caso se têm, segundo Amaral, culpas no cartório? Eis uma pergunta à qual o ex-inspector que então conduziu a investigação devia responder. A ver vamos o que vai dar a investigação da polícia britânica, e agora também da Judiciária, que ontem anunciou ter «identificado testemunhas que nunca foram inquiridas enquanto o processo esteve a decorrer» — o que, a ser verdade, aponta para falhas na anterior investigação. Recorde-se que Gonçalo Amaral, para quem os novos desenvolvimentos não passam de uma «manobra publicitária» (destinada a quê?), foi afastado da investigação, e depois tentou demonstrar em livro (Maddie: A Verdade da Mentira) o que não conseguiu demonstrar como investigador. E que foi julgado — e condenado a ano e meio de prisão com pena suspensa — por ter espancado uma suspeita de homicídio. Leram bem: espancado. Como no tempo da outra senhora.
23 de outubro de 2013
MASCARENHAS NÃO É GAY. Estou-me absolutamente nas tintas para o facto de Sócrates ser, ou não ser, homossexual. Mas que Sócrates foi alvo de uma campanha nesse sentido, isto é, uma campanha insinuando que ele era homossexual, obviamente com o objectivo de o prejudicar, não há dúvida que foi. Estranho, por isso, que o problema de Paulo Pinto Mascarenhas com José Sócrates seja o facto de o ex-primeiro-ministro ter agora abordado o assunto em entrevista ao Expresso, não a miserável campanha de que foi vítima, que Mascarenhas não só duvida ter existido (um jornalista que ignora os factos é sempre de assinalar), como considerou inofensiva caso tenha existido. Sócrates tem todos os defeitos que lhe queiram apontar e terá cometido todos os erros que dizem ter cometido, e escrevi sobre alguns desde a primeira hora. Parecem-me, por isso, desnecessárias insinuações rasteiras para o demonstrar, que os factos sobejam para o provar as vezes que forem precisas. Sim, o que Mascarenhas disse sem dizer é mais uma insinuação rasteira, que define mais quem a profere que quem pretende atingir. Com certeza que «chamar homossexual a alguém» não é um insulto, como diz com fingida candura. Mas Mascarenhas é tudo menos ingénuo, e não o sendo sabe bem que quem espalhou o boato (ou notícia) sabia que isso prejudicaria José Sócrates. «Há razões fundadas para duvidar da origem da fortuna da sua mãe, dos luxos em Paris, do envolvimento no ‘caso Freeport’ ou da sua licenciatura», remata o jornalista. Nesse caso, investigue, e depois diga alguma coisa.
COISAS REALMENTE IMPORTANTES. Manuela Moura Guedes não perde uma oportunidade para se pôr em bicos de pés. Depois de negar ter cometido um erro num concurso televisivo que agora apresenta quando todas as evidências apontavam o contrário (insistiu no Facebook ser verdadeiro um provérbio inexistente e acabou por remover o post onde o pretendeu demonstrar), eis que agora revelou ao mundo, novamente no Facebook (desta vez com direito a reprodução no DN), que jantou no restaurante onde Sócrates, segundo ela acompanhado por alguns dos seus antigos ministros, assistia a uma entrevista por ele concedida à RTP. E não se esqueceu de acrescentar um detalhe que reputou de grande importância: o ex-primeiro-ministro terá abandonado o restaurante já depois de Manuela, assim evitando cruzar-se com ela. E por que terá isso sucedido? Infelizmente, Manuela apenas insinuou. Por razões que então escrevi, nunca apreciei o famoso jornal da TVI por ela apresentado, onde se fartou de lançar «bombas atómicas» que ao terceiro dia já nem de fumo havia vestígios. Previsivelmente, acabou despedida. Não por pressão de José Sócrates, como ela gostaria e se fartou de insinuar. Mas por práticas jornalísticas que qualquer pessoa com vergonha na cara considerou inadmissíveis.
18 de outubro de 2013
MÁRIO SOARES, O INIMPUTÁVEL. Ao contrário do que Fernando Dacosta sugere, Mário Soares tornou-se, há muito, inimputável. Diga o que disser, só os admiradores indefectíveis e os detractores idem dão importância ao que Soares diz, até porque as consequências do que tem vindo a dizer nos últimos anos têm sido zero. A entrevista «escacha pessegueiro» de Soares ao DN e à TSF, como Dacosta a descreve, esteve longe de ter, como gostaria o articulista, «efeitos de furacão num país amodorrado». Com o devido respeito, as declarações do ex-presidente da República há muito que passaram a ser vistas «com o devido desconto», e tirando Dacosta e meia dúzia de entusiastas ninguém se lembra do que Soares disse em tão importante entrevista — e sobre o «furacão» não se ouviu a mais leve brisa. Não digo isto com prazer ou desprazer: limito-me a constatar uma evidência.
SOARES vs CAVACO. Parece-me um exagero dizer-se que o Presidente Cavaco devia ser julgado, como defende Mário Soares, visto não se vislumbrar matéria para tanto — e o Presidente Cavaco até pode processar criminalmente Soares por aquilo que disse. Mas que a passagem de Cavaco pelo BPN, ainda que só como «depositante», como ele diz (eu diria como investidor), levanta algumas dúvidas, não há dúvida que levanta. Desde logo pelo tratamento que outros investidores não tiveram, e por ter retirado os seus investimentos antes do descalabro do banco. Depois, porque Cavaco era, e continuará a ser, economista, e por mais incompetente que seja um economista custa a crer que os malabarismos de Oliveira e Costa e companhia não tenham sido do seu conhecimento.
16 de outubro de 2013
O QUE ESTÁ EM CAUSA NO EPISÓDIO ANGOLANO. Convém lembrar que a novela luso-angolana em cena, com episódios cada vez mais degradantes, tem um único motivo: a investigação, em Portugal, de altas figuras do Estado angolano, entre elas o vice-presidente e o Procurador-Geral da República, suspeitos de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Por aquilo que se sabe, nada, até ver, aponta para que as ditas figuras tenham cometido os crimes de que são suspeitos. Assim sendo, porquê tanto alarido? Tem medo o Estado angolano do que venha a resultar da investigação, e por isso ameaça Portugal com tudo e mais alguma coisa? Sim, custa a crer que a violação do segredo de justiça, embora crime punível por lei, justifique tamanha indignação.
QUEM SE PÕE DE CÓCORAS NÃO MERECE RESPEITO. Portugal tem interesses em Angola? Evidentemente que tem. E por que razão Angola terá concedido a Portugal todos esses interesses? Porque os portugueses são excelentes pessoas? Se Angola tem acolhido empresas portuguesas, produtos portugueses e dezenas de milhares de portugueses («de braços abertos e fraternalmente», como diz a trombeta angolana), não será porque os portugueses interessam a Angola? Estão a ver Angola estender-nos a mão em nome da amizade, da fraternidade, ou patetices do género? Deixemo-nos de hipocrisias. Portugal precisa tanto de Angola como Angola precisa de Portugal. É, portanto, inadmissível que os governos portugueses se ponham de cócoras perante Angola e seus mandantes — e continuaria a ser inadmissível que nos puséssemos de cócoras mesmo sem esses interesses. Como lembrou ao Público o professor angolano Justino Pinto de Andrade a propósito do episódio Machete, «as autoridades angolanas não respeitam quem se põe de joelhos». Nem elas, nem ninguém.
DECLARAÇÕES INFELIZES. A trapalhada em curso nas relações luso-angolanas tem, essencialmente, dois responsáveis: o ministro português dos Negócios Estrangeiros, que resolveu pôr-se de cócoras perante o Estado angolano; e o chefe do Governo português, que prontamente defendeu Rui Machete por considerar que «declarações infelizes» não são razões para o demitir. Evidentemente que o Estado angolano só podia, face a esta anedota, levantar a voz. Primeiro pelos papagaios do costume, depois pelo próprio Presidente José Eduardo dos Santos, para quem a actual relação entre Portugal e Angola «não aconselha à construção da parceria estratégica» entre os dois países. E porque a investigação que decorre na Procuradoria-Geral da República e respectivas notícias sopradas para os media têm vindo, segundo ele, a criar a imagem de que o angolano rico «é corrupto ou suspeito de corrupção», coisa, como sabemos, muito longe de ser verdadeira. Basta, aliás, olhar para o clã Eduardo dos Santos e seus homens de mão para esclarecer todas as dúvidas.
11 de outubro de 2013
SE FOSSE EM ANGOLA A GENTE TRATAVA DISSO. «Não podemos admitir que em Portugal, políticos e jornalistas, intelectuais com ideias submersas em ódios recalcados não respeitem os nossos símbolos nacionais e desonrem os titulares dos nossos órgãos de soberania», diz-se, em editorial, na trombeta angolana. E que fazer para impedir que isso suceda? Calar os políticos portugueses, os jornalistas portugueses, os intelectuais portugueses? Infelizmente, José Ribeiro, director do Jornal de Angola, não explica como proceder. Como a informação em Portugal ainda é relativamente livre apesar de todo o dinheiro angolano despejado sobre ela nos últimos anos (por razões não só empresariais, está bom de ver), e os cidadãos portugueses são livres de expressar as suas opiniões sobre o que entenderem sem que nada lhes suceda, incluindo a corrupção nos círculos do poder angolano (de que a trombeta angolana parece nada saber), não se vê como.
9 de outubro de 2013
QUANDO OS COBARDES DÃO LIÇÕES DE MORAL. Três conclusões a tirar do artigo assinado por Álvaro Domingos no Jornal de Angola de sábado passado: é um crime grave que a justiça portuguesa investigue dois altos representantes do Estado angolano, entre eles o vice-Presidente da República e o Procurador-Geral da República, segundo dizem por suspeitas de irregularidades cometidas em Portugal; a aparente violação do segredo de justiça, tornando público o teor das investigações, feriu «a honra e o bom nome de duas altas figuras do Estado Angolano»; existem, em Portugal, órgãos de informação onde «jornalistas obedientes aos donos fazem o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», segundo ele graças a «uma relação espúria e aviltante entre o Ministério Público e uma comunicação social que actua na lógica das associações de malfeitores». Tiradas as conclusões, três comentários: ao contrário do que o articulista sugere, nada impede que as individualidades citadas sejam investigadas pela justiça portuguesa caso a dita entenda existirem indícios de práticas irregulares cometidas em território português, e até ver não foram acusados de nada; é, de facto, um crime a violação do segredo de justiça, mas toda a gente percebeu que a violação do dito não é, para o sr. Domingos, o verdadeiro problema, sobre o qual preferiu não se pronunciar; finalmente, não custa acreditar que haja, em Portugal, «jornalistas obedientes aos donos», prontos a fazer «o papel aviltante de juízes de um Santo Ofício», mas um sujeito que se esconde atrás de um nome fictício (Álvaro Domingos é um dos vários pseudónimos usados por um cobardolas que todos sabem quem é) e escreve para a trombeta do regime não tem, obviamente, um pingo de autoridade para dar lições de más práticas jornalísticas. Termino com uma pergunta: o que pensará ele e o Jornal de Angola da reportagem da Forbes sobre Isabel dos Santos (original aqui), que a revista acusa de tudo e mais alguma coisa? Fui pesquisar e não vi que o sr. Domingos tivesse escrito uma linha sobre tão melindroso assunto, nem sequer para defender a filha do Presidente — e o Jornal de Angola não só ignorou o episódio como ainda a elogiou por interpostas pessoas. Será preciso dizer mais alguma coisa? Álvaro Domingos esquece-se que o jornal em que escreve pode ser lido em qualquer parte do mundo, e que o resto do mundo não tem, como os angolanos, motivos para recear o Presidente Eduardo dos Santos. Ao contrário dos domingos desta vida, que se escondem atrás de quem são para lamber as botas a quem lhes dá de comer.
8 de outubro de 2013
JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS VANGLORIA-SE DA SUA PRÓPRIA IGNORÂNCIA. «Ah, uma pintura de Picasso é bonita? Não, não é bonita. Nem Picasso queria que fosse. Ele está a cultivar o feio. Stravinsky faz música que são guinchos. O truque está justamente aí. Isto contagia a literatura. Ler o Ulisses do Joyce é um exercício de masoquismo. Ele leva duas páginas a descrever um armário.»
7 de outubro de 2013
MACHETE, O INFELIZ. Como não bastassem as constantes «incorrecções» sempre que se vê obrigado a prestar declarações sobre a sua passagem pela vigarice que foi o BPN, o ministro Rui Machete resolveu, agora, pedir desculpa ao Estado angolano pelas investigações judiciais em curso que atingem, ao que dizem, altas figuras daquele país. «Não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal», garantiu o ministro dos Negócios Estrangeiros a uma rádio angolana. E como soube ele que não há nada digno de relevo? Presumindo-se que não teve acesso aos processos (em segredo de justiça), a garantia dada pelo ministro é um mistério. Mistério que o próprio se encarregou de desvendar, mais uma vez dando o dito por não dito, de novo corrigindo-se a si mesmo. «Ninguém pode ficar diminuído politicamente por usar uma expressão infeliz», disse o primeiro-ministro sobre o episódio. Como é evidente, não foi, apenas, uma «expressão infeliz», mas um erro que envergonha os portugueses — motivo bastante para não passar sem consequências. É bom não esquecer que Machete anda a dizer coisas infelizes ainda antes de tomar posse, e já não merecia o respeito de ninguém ainda antes do episódio angolano. Prolongar-lhe o mandato é, por isso, eticamente insustentável, politicamente inadmissível, e embaraçoso para qualquer português com um pingo de vergonha na cara.
AI A MEMÓRIA. Se bem me lembro, Manuela Ferreira Leite impediu que Passos Coelho se candidatasse a deputado quando Manuela dirigia o PSD. Tudo porque Passos Coelho foi seu adversário na corrida à liderança social-democrata, e não lhe convinha uma ovelha negra na Assembleia da República. Estranho, por isso, que Manuela agora elogie os militantes do partido a que pertence que «não apoiaram determinado tipo de candidaturas», como esquecesse os tempos em que dirigiu o PSD (ou os outros se tivessem esquecido), e que agora seriam ocupados a estudar a melhor forma de os emprateleirar com o máximo de descrição caso continuasse na liderança. Estou à vontade para o dizer: não teria votado nos candidatos sociais-democratas às câmaras do Porto e Gaia caso militasse no PSD e aí residisse, dois evidentes «erros de casting» cujo responsável foi, evidentemente, o actual líder do PSD, que eu veria com bons olhos removido o mais depressa possível. Mas se em política a coerência é uma prática que já ninguém espera, é bom não perder inteiramente a memória — ou agir como se os outros não a tivessem.
28 de setembro de 2013
PEQUENA CONTRIBUIÇÃO PARA AS AUTÁRQUICAS. Calhou-me ser visitado pelo candidato a presidente da junta de uma determinada freguesia e respectiva equipa. Conhecedores da visita, alguém da família resolveu improvisar uma dúzia de sugestões, cada uma mais estapafúrdia que a outra — substituir os transportes públicos locais pelo TGV, instalar uma piscina olímpica onde se encontra uma unidade industrial desactivada, e mais disparates do género. A graça (ou tragédia, para quem leva estas coisas mais a peito) foi quando o candidato a vice-presidente leu as sugestões e começou a levar aquilo a sério, a ponto de comentar que havia ali matéria a considerar. Foi preciso alguém tirar-lhe o papel das mãos e dizer-lhe que era brincadeira para que o sujeito não passasse por um vexame ainda maior, embora já não se livrasse da risota geral. Gostaria de acreditar que isto não é a regra, mas a verdade é que são muitíssimos os casos como este e demasiados os casos ainda piores. Como não votarei nas Autárquicas (resido no estrangeiro), e porque dificilmente me afectará a vitória do candidato A ou a derrota do partido B, o resultado de domingo não me ralará por aí além. Mas gostaria, como português, que ganhassem os melhores, não sendo possível os menos maus. Por aquilo que se conhece, e pelo resto que se imagina, não vai ser fácil.
17 de setembro de 2013
RATAZANAS. Ficou claro desde o início que Maria Luís Albuquerque não tinha condições para exercer o cargo de ministra das Finanças. Por razões amplamente conhecidas, que por isso me dispenso de repetir. Assim não entendeu o primeiro-ministro, e a oposição na altura limitou-se a um pequeno burburinho logo seguido de um silêncio ruidoso. Ontem surgiram mais notícias, até ver toscamente desmentidas, de que Maria Luís Albuquerque teve novas «falhas de memória». O maior partido da oposição volta a exigir a demissão da ministra, a dizer que «não tem condições» para se manter no cargo, mas o destino da ministra parece traçado: três dias de escandaleira, e assunto encerrado. Ao quarto dia tudo voltará a ser como dantes, quartel-general em Abrantes. Como antecipadamente garante Marco António, porta-voz do PSD, «a montanha pariu um rato».
12 de setembro de 2013
PENSAMENTO DE BARBEARIA. Só agora me ocorre que, tirando Kim Jong-un, grande líder da Coreia do Norte, não me lembro de um único ditador que não use — ou tenha usado — bigode. O lembrete veio a propósito do barbeiro que tratou do cabelo que ainda me resta, um brasileiro de Minas Gerais, a quem pedi que me «acertasse» o bigode e a propósito do qual teceu considerações que muito o divertiram, mas cujo alcance não vislumbrei. A ver se medito no assunto nas férias que aí vêm, nos intervalos de umas barrigadas de figos e doutros espécimes que as autoridades alimentares e sanitárias, certamente na esperança de me salvarem não sei bem de quê (se calhar nem eles), desaconselham, e por isso me hão-de saber ainda melhor. Prometo regressar mal tenha o caso resolvido, mas dada a complexidade do assunto calculo que só daqui a duas ou três semanas voltarei com a regularidade habitual. Até lá, é possível que uma indigestão ou outra me leve a fazer um post de vez em quando, que mesmo não sendo uma prática recomendada pelas autoridades por vezes é remédio santo.
11 de setembro de 2013
ORA AQUI ESTÁ UM ESTUDO QUE VAI MUDAR O MUNDO. Tamanho dos testículos associado à capacidade dos pais de cuidarem de crianças
10 de setembro de 2013
VEM AÍ O JOGO DO GATO E DO RATO. Até ver, a eventual transferência do arsenal químico em poder do governo sírio para as mãos de uma entidade internacional, e posterior destruição, é uma boa notícia. Boa notícia porque assim se evitará, para já, uma intervenção militar de consequências imprevisíveis, e porque todas as partes parecem sair a ganhar — os Estados Unidos, que se podem gabar de ter forçado um acordo substancial, a Rússia, que se pode vangloriar de ter alcançado o que parece uma boa solução, o próprio governo sírio, que não perde inteiramente a face. Dito isto, tenho dúvidas como isso se fará. Tenho dúvidas que o governo sírio cumpra o acordo que se anuncia, e que os previsíveis obstáculos que virão a seguir (haverá sempre dúvidas que será entregue todo o arsenal, que os inspectores da força internacional sejam isentos, obstáculos de toda a ordem e espécie a dificultar a missão) tornem, a prazo, uma intervenção militar mais robusta e perigosa. Oxalá me engane, mas o que agora se anuncia como uma boa saída tem fortes probabilidades de se tornar, a prazo, numa entrada no Inferno.
5 de setembro de 2013
O REGRESSO DOS DINOSSAUROS. Como se previa, o Tribunal Constitucional (TC) autorizou as candidaturas dos «dinossauros». A decisão será inatacável do ponto de vista jurídico-constitucional, mas como alertei desde a primeira hora incompreensível ao comum dos mortais. Vale a pena lembrar que a autorização hoje concedida pelo TC só foi possível graças a uma lei feita com os pés e aprovada por um bando de irresponsáveis, os senhores deputados, que perante a evidência do erro nem sequer se deram ao cuidado de o emendar (preferiram entupir os tribunais, como se os tribunais já não estivessem entupidos que chegasse). Uma lei, nunca é demais repetir, que toda a gente percebeu, desde o início, em que sentido ia, excepto os politiqueiros que temos. Sugiro, portanto, aos eleitores o que sugeri desde a primeira hora, neste momento a única arma que lhes resta: caso apanhem pela frente os «dinossauros» que só a «engenharia política» tornou possível que voltassem a candidatar-se após três mandatos consecutivos, respondam-lhes com um Zé Povinho.
4 de setembro de 2013
QUANDO TUDO ESTÁ MAL, NEM TUDO ESTARÁ MAL. Definitivamente que nada está bem para os professores do ensino público, provisórios e definitivos. Agora é o dirigente de uma associação que exige saber «quantos professores do quadro vão leccionar (...) disciplinas que não correspondem aos grupos para os quais foram recrutados». «Um professor que ensina Informática ou Economia há 20 anos» estará habilitado a dar Matemática?», pergunta o dirigente. E prossegue com perguntas do género, questionando, pela enésima vez, a política educativa do enésimo governo. Imaginam os professores do ensino privado a questionar as decisões de quem os contratou? Com certeza que não imaginam. Porque os professores do ensino público e privado são contratados para ensinar, não para impor as regras. Percebe-se que os professores com vínculo precário ao Estado se preocupem com a eminência do desemprego, que se imagina dramático. Mas daí até quererem impor aos governos a cartilha educativa e determinar as regras das suas próprias funções, vai um abismo. Mal ou bem, os governos exercem funções para os quais foram eleitos. Já os professores não têm legitimidade para isso.
MAIS IMPROVISOS, MENOS TELEPONTOS. O João Miguel Tavares (JMT) começa assim mais uma excelente crónica no Público de ontem: «Eu aconselhava piedosamente o primeiro-ministro a fixar a frase "nunca mais vou voltar a falar de improviso sobre assuntos importantes", e de seguida a repeti-la 100 vezes em voz alta, de preferência na companhia de todos os assessores. Assim, da próxima vez que tivesse a tentação de subir a um palanque sem papéis nem teleponto, alguém o poderia amordaçar por caridade, para evitar que proferisse as bajoujices do último fim-de-semana.» Pois eu defendo precisamente o contrário, pelas razões que o próprio JMT enumerou. O improviso e a falta de teleponto têm a virtude de nos mostrar o que os governantes têm dentro, a sua verdadeira pele, a massa de que são feitos. Pela sucessão de disparates que aponta ao primeiro-ministro, cada um pior que o outro, evidentemente que o rei vai nu. E isso, não sendo motivo de festejos, é bom que se saiba.
3 de setembro de 2013
LAWRENCE DURRELL. Graças ao e-book que reúne os quatro volumes, completei, finalmente, o Quarteto de Alexandria. Há muito que um livro não me dava o gozo que me deu Clea, o último da série, onde se lêem passagens de uma beleza surpreendente.
30 de agosto de 2013
JUÍZOS EM CAUSA PRÓPRIA. Nada contra a decisão do Tribunal Constitucional ontem anunciada. Para ser mais preciso, nem contra, nem a favor, que os meus conhecimentos sobre a Constituição não chegam para formar uma opinião. Mas há duas perguntas que me julgo habilitado a fazer: é normal que juízes decidam em causa própria? Tomarem decisões que os afectam directamente, no caso de ontem escapando a uma lei que, a ser aprovada, os afectaria pessoalmente? Não sei qual será a melhor receita para estes casos, mas esta definitivamente não é.
29 de agosto de 2013
IMAGINEM SE A GUERRA JÁ TIVESSE COMEÇADO. O Diário de Notícias diz que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros «discorda das informações norte-americanas» que apontam o regime sírio como responsável pelo ataque com armas químicas sobre os seus concidadãos, e que «a Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque (...) foi realizado por forças rebeldes». Discordar das informações? Foi isso mesmo o que o DN escreveu. Que as informações se considerem insuficientes, pouco credíveis, manipuladas ou até inventadas, percebe-se. Mas discordar dos factos, é coisa que não lembra ao diabo. Quanto às provas que o Governo sírio terá apresentado à ONU, queria o DN dizer alegadas provas? É que o texto está redigido de modo a não deixar dúvidas quanto à veracidade das ditas, e manda o rigor que não se diga que é o que não se sabe se é. Bem sei que numa guerra a verdade é a primeira a tombar, mas a guerra ainda não começou.
28 de agosto de 2013
TALVEZ HAJA AQUI UM LAPSO FREUDIANO. Um dia após ter-se mostrado «profundamente convicto» de que o cancro que vitimou o ex-presidente Hugo Chávez foi inoculado, desta vez não disse por quem, e de garantir a existência de planos para matar o actual presidente venezuelano, por acaso ele próprio, Nicolás Maduro referiu-se, em discurso ao país, ao milagre da «multiplicação dos peixes» atribuído a Jesus Cristo como sendo o «milagre da multiplicação dos pénis». Conheço mal o dr. Sigmund, mas não será isto o que se designa por lapso freudiano?
27 de agosto de 2013
MAIS MINHOCAS. O actual Ministro dos Negócios começou por omitir no currículo a sua passagem pelo BPN/SLN, onde foi presidente do conselho superior e membro do conselho consultivo. Detectado o «esquecimento», admitiu ter comprado acções do BPN a um euro cada que posteriormente vendeu a dois euros e meio, que lhe rendeu um lucro de 150%. Descobriu-se, depois, que Rui Machete comprou acções para a Fundação Luso-Americana (a que então presidia) precisamente no mesmo período em que comprou as suas, mas estas a 2,2 euros. Como a história causou falatório, nos últimos dias achou por bem vir dizer que, afinal, se equivocou. As acções pessoais foram adquiridas ao mesmo preço das acções da FLAD, isto é, a 2,2 euros, não como, por «equívoco», inicialmente admitiu. Veremos no que isto vai dar, mas sempre que alguém mexe no caso é «minhoca por todo o sítio», como diria a juíza Cândida Almeida, que sabia do que falava.
23 de agosto de 2013
PROVAR DO PRÓPRIO VENENO. Afinal, não é só Lorenzo Carvalho que faz festas de anos de 300 mil euros. Também há quem tenha mansões para vender. Adivinhem quem.
22 de agosto de 2013
ISTO VAI BOM PARA AS MINHOCAS. A juíza Cândida Almeida revelou, há pouco, que o BPN é um caso em que cada vez que se mexe na terra «sai minhoca por todo o sítio». A avaliar pelo silêncio à volta do BPN, deixaram de mexer na terra. O Governo resolveu introduzir briefings diários com o propósito de melhorar a comunicação com os cidadãos. Como em meia dúzia de dias puseram a descoberto o que doutro modo ficaria encoberto, começou por torná-los bissemanais, agora promete regressar em Setembro após «afinações» destinadas a «eliminar o ruído», e a seguir acabará com eles. Decididamente que há coisas que os cidadãos não devem saber. Por causa das minhocas, que assim se reproduzem mais facilmente, e para não haver riscos de envolver pessoas e negócios acima de qualquer suspeita, como ainda hoje se viu. Somos, definitivamente, um país de brandos costumes. Fossemos um pouco menos brandos e estaríamos a ampliar a «ala VIP» da Carregueira.
21 de agosto de 2013
FENÓMENO DO ENTRONCAMENTO. Leio em dois jornais britânicos (aqui e aqui) que Samantha Shannon escreveu um livro do outro mundo e se prepara para com ele alcançar um êxito estrondoso. Que os direitos já foram vendidos para vinte países, que recebeu um adiantamento de 100 mil libras de uma importante editora (a Bloomsbury), que é o primeiro de uma série de sete, e que vai dar um filme. Aqui chegado, constato, sem espanto, que Samantha já tem uma entrada na Wikipédia, onde consta a bibliografia... não publicada (The Bone Season, ontem posto à venda em Inglaterra, e Aurora, o seu primeiro romance). Leram bem: Samantha é já uma estrela literária, quiçá digna do panteão, por dois romances... não publicados. Dizem-me que o livro de estreia terá sido lido por gente ligada aos meios, que o terão achado fenomenal. Não deixa, contudo, de espantar que se consagre uma jovem de 21 anos que até ver só escreveu um bestseller, no caso, evidentemente, de se confirmarem as previsões. Bestseller a que o «nosso» O'Neill «traduziu» por «besta célere», e que talvez não passe, como também disse, de «um típico produto da chamada indústria cultural», que exteriormente toma a forma de livro «para melhor se confundir com os verdadeiros livros».
20 de agosto de 2013
A INCONTORNÁVEL JUDITE. Judite de Sousa terá apanhado demasiado sol no Algarve, como as fotos em variadíssimos jornais bem o demonstram, e terá outros problemas que não me dizem respeito. Mas daí até indignar meio mundo com uma entrevista palerma a um jovem milionário, vai um abismo. É pecado que um jovem de 22 anos gaste uma fortuna do seu próprio bolso numa festa de anos num país (o nosso) onde tantos vivem na penúria? Que o sujeito não se sinta constrangido por gastar um balúrdio em coisas supérfluas, e culpado por ter tanto dinheiro? Para Judite de Sousa, não só é pecado, como é um escândalo. Como é evidente, e até a própria já admitiu que o tom da entrevista «foi desajustado» (pena não ter admitido tratar-se de um não assunto, muito menos motivo para entrevista), o pressuposto é idiota, e lamenta-se que a contundência das perguntas ao jovem Lorenzo nem sempre se verifique com quem realmente interessa ouvir. (Houve entrevistas de Judite de Sousa a personalidades com responsabilidades no país que me irritaram muito mais e passaram sem comentários.) Uma coisa houve que não vi comentada e me incomodou mais que as palermices de Judite de Sousa: a peça emitida antes da entrevista, que segundo o entrevistado continha, pelo menos, três erros factuais. Segundo Lorenzo Carvalho, que perante as provocações manteve uma notável presença de espírito para um jovem da sua idade, não é verdade que pague um milhão de euros para correr cada prova de não sei que campeonato automobilístico, não é verdade que aspire chegar à Fórmula 1, não é verdade que tenha contratado (e pago em conformidade) uma estrela de cinema para estar na tal festa em que terá gasto 300 mil euros. Três erros factuais de palmatória numa peça de escassos segundos, e que a TVI não desmentiu.
FAÇAM O FAVOR DE LER. Dois textos que subscrevo da primeira à última linha: Agarrados, de Paulo Morais, e Quando a comunicação social se suicida, de Nuno Ramos de Almeida.
16 de agosto de 2013
DA EXTINÇÃO DOS DINOSSAUROS. Poderá ser explicável do ponto de vista jurídico, mas que sentido fará que sobre casos iguais uns tribunais decidam uma coisa, e outros o contrário? É o que está a acontecer com os «dinossauros autárquicos», que uns tribunais consideram poder candidatar-se a uma nova autarquia após três mandatos noutra, e outros não. Que uma lei redigida com os pés tenha causado este imbróglio, é grave, embora todos percebam que a ideia era extinguir os dinossauros. Que os tribunais se contradigam e se metam a fazer política em vez de justiça, é inadmissível. Parece que em última instância é o Tribunal Constitucional quem vai decidir estes casos. Valerá a pena lembrar como (e por quem) é formado o Tribunal Constitucional? Só a «engenharia política» permitirá que alguém se candidate a um novo mandato autárquico que já fez três consecutivos, pelo que insisto no que venho dizendo desde a primeira hora: no caso de apanharem gente desta nas urnas, façam-lhes um valente manguito.
15 de agosto de 2013
MEDITAÇÕES DE VERÃO. Duas boas notícias em apenas dois dias: a economia cresceu, e os juros da dívida baixaram. Com praticamente todos os políticos em férias, do Governo e da oposição, é caso para dizer: as coisas tendem a melhorar quando eles saem de cena.
14 de agosto de 2013
DESPEJAR O LIXO NO QUINTAL DO VIZINHO. «Se se confirmar que houve realmente uma alteração de um documento que tinha como objectivo manipular a comunicação social para por sua vez influenciar a opinião pública», disse o ministro Poiares Maduro, estamos diante «um acto gravíssimo». Não conheço o já célebre documento, sobre o qual o Governo se mostrou especialmente zeloso em ver esclarecido mal soube ter origem no executivo anterior. Mas o pressuposto de que a manipulação da comunicação social é «um atentado a aspectos fundamentais do funcionamento de uma democracia», além de «um acto gravíssimo», só mesmo para gozar connosco. As mentiras sobre os swaps e as omissões no currículo de alguns governantes destinaram-se a quê? Não terão sido, também elas, tentativas de manipular a mesmíssima comunicação social, e através dela a opinião pública? Como mais uma vez se demonstra, o desespero é mau conselheiro. Depois de Marco António ter perguntado por que razão o Governo Sócrates não denunciou ao Ministério Público e ao Banco de Portugal a tentativa de lhe venderem swaps como se houvesse alguma ilegalidade a denunciar, Poiares Maduro desesperadamente procura sacudir para terceiros as trapalhadas em que o Governo desastradamente se meteu, e para as quais não se vê fim à vista.
9 de agosto de 2013
JÁ SÓ NOS FALTAM AS BANANAS. Já ouviram falar de uma república das bananas? Pois bem, por aquilo que nos últimos tempos tem sucedido, comparar o país a uma república das bananas se calhar peca por defeito. Franquelim Alves, até há pouco secretário de Estado do Empreendedorismo, e Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros, esconderam nos respectivos currículos as suas passagens pelo BPN. Pais Jorge, ex-secretário de Estado do Tesouro, tentou, em tempos, vender swaps ao Governo Sócrates, negócio que desmentiu e confirmou no espaço de 24 horas e lhe valeu a demissão. Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças, mete os pés pelas mãos sempre que é chamada a falar dos swaps sem que se vislumbre porquê. Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, esqueceu-se de pôr no currículo ter sido consultor e administrador de uma empresa suspeita de tratamento de favor por parte da Secretaria de Estado da Administração Local então tutelada pelo ex-ministro Miguel Relvas, agora promotor da língua portuguesa (palavra de honra). Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, disse em tempos que teria de nascer duas vezes quem fosse mais honesto do que ele, mas nos entretantos protagonizou uma relação com o BPN de contornos duvidosos e viu-se envolvido num episódio de escutas impróprio de um país civilizado. Perante estes casos, e outros que se adivinham, impõe-se perguntar: esta gente é para levar a sério? Infelizmente, é. É preciso estar de olho neles, que eles não são de fiar. Isto para dizer o mínimo.
7 de agosto de 2013
PODRIDÃO NA POLÍTICA. Depois do ministro dos Negócios Estrangeiros, que considerou «podridão dos hábitos políticos» o facto de os media divulgarem que Machete omitiu no currículo a passagem pelo BPN, o secretário de Estado que hoje se demitiu queixou-se que o fez empurrado pelo «lado podre da política». Acontece que Rui Machete e Joaquim Pais Jorge contribuíram, cada um a seu modo, para a podridão que tanto os incomoda. Para falar só dos casos mais recentes, o primeiro por ter omitido do currículo uma informação obviamente relevante e posteriormente ter dado explicações que não convenceram ninguém, o segundo por num dia não se lembrar de umas reuniões que no dia seguinte admitiu conhecer ao detalhe. Um e outro pertencem, portanto, ao lado mais «podre» da política, pelo que nenhum deles tem autoridade para dar lições de moral.
6 de agosto de 2013
AI MÃE. Começa assim a última crónica de Valter Hugo Mãe na revista do Público: «Um menino a brincar com uma borboleta. Feito de porcelana, muito simples e delicadíssimo. Uma criança expectante a observar a borboleta que tem pousada na mão. Comprei no mercado das tralhas de Kiev, perdido que estava entre outras figuras, sujo, sempre miúdo e puro.» Comovente, não é? Prossegue com parágrafos e parágrafos de pérolas como esta até ao período final, também ele uma pérola: «Porque muito do que nos acontece de assustador nem sempre apaga o mais precioso que contemos.» Maravilha, não é? Imaginem se o cavalheiro soubesse escrever.
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