21 de fevereiro de 2014

PROÍBAM-SE. Absolutamente de acordo com o professor Jorge Miranda, que ontem defendeu «uma iniciativa legislativa» destinada a proibir definitivamente as praxes académicas, que considera «uma questão de polícia». As praxes integram os caloiros, facilitam o conhecimento entre estudantes, e criam amizades? Nesse caso, não sei como se integram os caloiros nos países onde elas não existem. Também não me parece que a proibição das praxes as tornaria clandestinas, como defendeu dezena e meia organizações académicas, muito menos ainda mais violentas. É que não vislumbro uma lei a proibi-las que não punisse, de facto, os promotores, e quando falo em punir quero dizer punir exemplarmente. Até porque, nesse caso, os caloiros facilmente recusariam as praxes e denunciariam os seus autores — coisa que hoje, por razões óbvias, raramente sucede. Provavelmente a proibição não as erradicaria completamente, como as várias leis contra os vários tipos de crimes não impedem que eles sucedam. Mas não duvido que a proibição as reduziria a níveis insignificantes, e dos excessos jamais se falaria.

19 de fevereiro de 2014

NÃO É VÍTIMA QUEM QUER. Por uma questão de princípio, não aprecio expulsões dos partidos políticos, mas não me choca que o PSD tenha expulsado António Capucho. Digo-o sem a mais leve ironia. Afinal, Capucho resolveu candidatar-se contra alguém indicado pelo seu próprio partido, pelo que vir agora armar-se em vítima soa, no mínimo, forçado. Discordou a tal ponto que o levou a avançar contra o candidato do seu próprio partido? Considera que o PSD se «encontra cada vez mais afastado da matriz social-democrata e progressivamente mais enquistado à volta de um conjunto de oligarquias»? Nesse caso, teria sido mais coerente (e sensato) desvincular-se do partido. Se não se percebe por que não o fez na altura própria, ainda se percebe menos a escandaleira que por aí vai.

14 de fevereiro de 2014

MAIS INCONSEGUIMENTOS. Decididamente que Assunção Esteves não está à altura do cargo que desempenha. Pior: é uma vergonha. Recorrer «ao mecenato (patrocínio) para suportar os custos financeiros de algumas iniciativas para assinalar o próximo 25 de Abril»? «Ornamentar chaimites com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos»? Se no primeiro caso seria inadmissível, no segundo seria ridículo. Inadmissível porque, considerando o mesmo princípio, não se veria inconveniente que o Ministério das Finanças fosse patrocinado pelo Banco Espírito Santo ou o Ministério da Justiça pela sociedade Maria do Rosário Mattos e Associados, boutique full service ao seu dispor. Ridículo porque andamos a vender produtos de primeira qualidade (os «Mirós»), e depois propõe-se contratar uma artista muito contestada nos meios artísticos, a meu ver com razão, e por motivos mais substantivos que a mera dor de cotovelo. Depois dos inconseguimentos frustracionais, com que a presidente da AR pôs a nu o que lhe vai na cabeça, só nos faltava a Colgate patrocinar as comemorações de Abril, e uma artista de terceira ordem enfeitar os calhambeques da tropa. A presidente da Assembleia da República está com um problema, ou foi sempre assim?

11 de fevereiro de 2014

ASSIM VAI O JORNALISMO. A notícia do dia não foi o alegado romance entre Obama e Beyoncé. A notícia do dia foi que o Washington Post se preparava para revelar toda a história, que o jornal prontamente desmentiu, alegando não se prestar a esses papéis. É que o jornalismo não só passou a ser constante matéria de notícia, quase sempre pelas piores razões, como passou a ser notícia sempre que se limita a fazer o que dele se espera.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (2). Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, mandou, em tempos, retirar do currículo a circunstância de ser filha de um alfaiate. A notícia foi dada pela revista Sábado, e nunca vi desmentida. Foi, portanto, sem surpresa que ouvi as recentes declarações da senhora à Rádio Renascença, cuja ligação para o vídeo aqui deixei há três dias. As declarações da segunda figura do Estado ultrapassaram, de facto, o imaginável. Ou talvez não, que de quem esconde as origens humildes não se pode esperar muito mais.
COISAS DO RECTO. Nada de extraordinário o facto de Judite de Sousa terminar o comentário com Marcelo de Sousa com um «aqui fica, então, um reto». O extraordinário foi os «acordistas» não se lembrarem de transformar o repto em reto.
OS COITADINHOS DO BPN. Numa coisa o ex-banqueiro João Rendeiro parece estar cheio de razão: a generalidade dos investidores do BPN foi movida por uma ambição desmedida, e salvo excepções sabiam o risco que corriam. Deveriam, portanto, abster-se de reclamar nos tribunais o que dizem ter direito, e derramar lágrimas sobre os contribuintes — que já têm que pagar as aventuras em que eles se meteram.

10 de fevereiro de 2014

MIGUEL SOUSA TAVARES NO SEU MELHOR (1).



Expresso de 8 de Fevereiro de 2014

7 de fevereiro de 2014

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Não é novidade para ninguém, mas não fará mal recordar como são escolhidos os candidatos a deputados ao Parlamento Europeu e Assembleia da República: alguém sugere os nomes, e o chefe do partido por quem se candidatam aprova, ou não. Depois, os eleitores votam em quem os chefes determinaram, e caso não gostem dos nomes propostos resta-lhes votar nos «outros», abster-se, ou não por os pés nas mesas de voto. Também será desnecessário lembrar que os eleitos do chefe «têm que se portar bem» — antes de serem candidatos, porque doutro modo não serão escolhidos; depois de já terem sido deputados, porque serão excluídos das próximas listas caso tencionem recandidatar-se. Temos, portanto, centenas de deputados no Parlamento a fazer o que quatro ou cinco chefes partidários faria com a mesma legitimidade dos duzentos e tal, e com maior economia de meios. Sim, as coisas são o que são graças ao sistema que temos. Mas convém lembrar que o sistema que temos é assim porque ninguém quer que seja doutra maneira. O resultado deste embuste democrático (chamemos-lhe assim para simplificar) é um sistema onde quatro ou cinco mandam em todos, que por sua vez obedecem a quem tem o livro de cheques. Queiramos, ou não, é a democracia que há. Ou a «ausência de democracia», de que há pouco se queixava Rui Rio, que ainda no dia anterior, então presidente de uma autarquia, não o incomodou por aí além.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (1).

COISAS QUE VOU LENDO (3). «Viajar é uma solidão em trânsito.» Cardoso Pires, prefácio a O Jogo do Reverso, de Antonio Tabuchi

4 de fevereiro de 2014

UM AUTOCARRO PARA INGLÊS VER. A mais recente vitória do Chelsea de Mourinho (sobre o Manchester City) derreteu a imprensa inglesa. Vejam, além doutros, o que dizem The Guardian (aqui e aqui), The Telegraph (aqui e aqui), e The Independent (aqui e aqui). O que parecia a «técnica do autocarro», como os meios futebolísticos designam a estratégia das equipas que tudo defendem e nada atacam, era, afinal, um refinado embuste, e o mais engraçado foi ter enganado até os mais sabidos, a começar pelo treinador adversário, um respeitável cavalheiro com muitos quilómetros de bola. No final, cereja em cima do bolo: Mourinho revelou que a derradeira palestra antes do jogo não foi proferida por ele, como habitualmente sucede. A perlenga esteve a cargo do seu mui estimável massagista, um escocês que descreveu como um sujeito que gritou umas coisas incompreensíveis num sotaque impenetrável, mas a quem os jogadores não regatearam aplausos.
UNION SQUARE, NY. 

30 de janeiro de 2014

ADOÇÃO DE FATO. Mais um reparo ao referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo aprovado pelo PSD: as perguntas não deveriam ter sido formuladas segundo as regras do novo Acordo Ortográfico (AO90), que os deputados sociais-democratas aprovaram? Terá sido porque os «unidos de facto» passariam, no caso, a designar-se «unidos de fato», e porque o «concorda com a adopção» passaria a designar-se «concorda com a adoção»? Tiveram, enfim, receio de cair no ridículo? Nesse caso, que ajam em conformidade quando chegar a hora de desfazer o que nunca deveriam ter feito.

28 de janeiro de 2014

QUANDO A ASNEIRA SE ALIA À IGNORÂNCIA. Já tudo foi dito sobre o referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo, hoje enviado para o Tribunal Constitucional. Mas quase nada foi dito sobre as perguntas propostas, que são as seguintes:

1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?

2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?

Por mim, concordo, desde já, num ponto: isto está escrito num português miserável. O PSD «está disponível para reformular as perguntas» se o Tribunal Constitucional «considerar que elas desrespeitam a lei», disse o líder da JSD, que aprovou o referendo. Como se imagina que o Tribunal Constitucional terá dificuldade em perceber o que se pergunta (além de eventuais dúvidas de natureza constitucional), adivinha-se um molho de brócolos. Como nas novelas, os próximos capítulos prometem. Nada de bom neste caso, até porque já há perdedores: as crianças, cujos direitos deveriam prevalecer sobre todos os outros, e foram, de novo, adiados.

27 de janeiro de 2014

COISAS QUE VOU LENDO (2). «All I can say about Italians is this: they are children of Nature, who, for all the pomp and circumstance of their religion and art, are not a whit different from what they would be if they where still living in forests and caves.» Goethe, Italian Journey

24 de janeiro de 2014

INOVAR A IGNORÂNCIA. Alguém devia explicar ao secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade, se preciso for com um desenho, que a saída para o estrangeiro de portugueses qualificados significa que esses portugueses jamais voltarão. Quando muito voltarão para apanhar sol e banhos de mar, matar saudades da comidinha, rever a família e os amigos — e adeusinho até à próxima. Um governante que considera que a saída para o estrangeiro de pessoas com elevada formação académica «traz coisas boas para Portugal» (poderão, segundo ele, «regressar ainda mais qualificadas e experientes»), ou está a gozar connosco, ou não sabe o que anda a fazer. Convinha, portanto, libertá-lo da tarefa de que a pátria o incumbiu, que inovadores destes já temos que chegue.
MAIS UMA BELA TEORIA QUE A REALIDADE DESMENTE. Afinal, o Aeroporto da Portela, segundo alguns saturado ou em vias disso, vai acolher uma base da Ryanair, a partir da qual tenciona operar quatro novas rotas. Como fosse preciso, por aqui se vê a natureza de quem nos governou nos últimos anos, que se fartou de gastar dinheiro a tentar convencer-nos do que a realidade diariamente desmente.