16 de abril de 2014

AI SE FOSSE EU A MANDAR. Não há nada como um exemplo para demonstrar como a ignorância é, de facto, muito atrevida.

11 de abril de 2014

O CIRCO. Como se dizia nos tempos do MRPP, quem com ferros mata, com ferros morre. Poder-se-ia caracterizar assim o arrufo entre Rodrigues dos Santos e José Sócrates, que domingo conheceu novo episódio. Espera-se que o próximo tenha cenas ainda mais picantes, género estaladas e assim. Afinal, o último episódio foi visto por mais 120 mil espectadores que o anterior (números do DN), pelo que será de esperar que o próximo registe uma nova subida. O título do Público (Sócrates e Rodrigues dos Santos mantêm polémica na RTP, mas TVI e Marcelo continuam a ganhar) sugere que tudo isto não passa de uma guerra de audiências, no caso com a TVI, onde à mesma hora comenta Marcelo Rebelo de Sousa. Chega, de facto, a parecer, mas sinceramente duvido. Por mais reparos que mereçam o comportamento de Rodrigues dos Santos, não estou a vê-lo entrar nesse jogo. Rodrigues dos Santos fez o que fez porque é assim, e imagino que seja tarde para ser doutra maneira. O problema é claramente outro, e como as coisas chegaram onde chegaram, só há duas saídas possíveis: acabar com o programa, ou afastar Rodrigues dos Santos. É que o foco do programa deixou de ser o que Sócrates tem a dizer sobre determinados assuntos, mas saber se Rodrigues dos Santos e Sócrates se voltam a desentender — e como a desavença vai acabar. Como entretenimento, não estará mal. Mas como A Opinião de José Sócrates não é um programa de entretenimento (o site da RTP descreve-o como um «espaço de comentário e análise política»), será bom que não se transforme num circo.
INCONSEGUIMENTOS, CAPÍTULO 25. Questionada sobre a ausência da Associação 25 de Abril na sessão comemorativa da revolução, a presidente da Assembleia da República foi taxativa: «O problema é deles.» Como é óbvio, os media pegaram logo no caso, e «o problema é deles» foi título em tudo o que é jornal. Hoje, confrontada pelos jornalistas a propósito de não sei quê, Assunção Esteves debitou a rábula do costume: foram os jornalistas que criaram um facto político e não ela, e não há mais nada a dizer. Desconheço as razões da Associação 25 de Abril, que o parlamento, também por razões que desconheço, entendeu recusar. Há, no entanto, um facto a ter em conta: o parlamento tem toda a legitimidade para decidir o que decidiu. Goste-se, ou não, do que decida, o parlamento foi eleito, e não me consta que tenha havido aldrabices. Mas se a Associação 25 de Abril tem o direito de exigir o que lhe apetecer, mesmo as coisas mais absurdas, e os deputados decidir o que muito bem entenderem, mesmo os assuntos mais controversos, Assunção Esteves devia abster-se de usar linguagem imprópria do cargo que exerce. Por outras palavras, devia pensar as vezes que forem precisas antes de abrir a boca em nome da Assembleia da República. Os desastres que têm vindo a suceder-lhe justificam plenamente todas as cautelas.

9 de abril de 2014

NOS PRELIMINARES NÃO HÁ QUEM NOS BATA. A entrevista de Durão Barroso ao Expresso deixou meio mundo a questionar-lhe o propósito, e outro meio a perguntar: qual foi a ideia de só agora, uma década após ter «emigrado» para Bruxelas e a uns meses de terminar o mandato na Comissão Europeia, vir dizer que enquanto primeiro-ministro por três vezes chamou o então governador do Banco de Portugal para aferir os rumores que circulavam sobre o BPN quando nem sequer lhe perguntaram? Duas semanas depois, permanece o mistério. Candidato à Presidência da República, disse logo que não era. Da Comissão Europeia, sairá em Outubro. Sacudir o BPN do capote e culpar Vítor Constâncio, não se alcança o propósito. Que pretenderá ele, afinal? Mário Soares já veio sugerir que a Procuradoria-Geral da República o deve questionar sobre o BPN. Não sei se deve, nem sei se pode. Mas imaginemos que pode, e que deve. Será preciso dizer que Durão dirá, nessa altura, que não se lembra do que falaram?

4 de abril de 2014

SAI UM BORDALO PINHEIRO PARA O PAULO RANGEL. Paulo Rangel, cabeça de lista da coligação governamental às eleições europeias, desafiou António José Seguro e Francisco Assis a dizer se consideram melhor para Portugal que o líder da Comissão Europeia seja alemão, ou português. Isto porque o PS apoia a candidatura de um alemão à presidência da Comissão Europeia, e porque destacados militantes do PS disseram umas coisas sobre Durão Barroso de que Rangel não gostou (Silva Pereira afirmou que o dito foi um mau presidente, José Sócrates considerou-o medíocre). Desconheço, à hora a escrevo, se Rangel teve resposta, e o que Seguro e Assis pensarão sobre o assunto. Mas a pergunta a fazer, agora que se aproximam as europeias e o final do mandado de Barroso, deveria, para mim, ser a seguinte: o que ganhou Portugal com Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia? Que eu saiba, rigorosamente nada. Como a pergunta de Rangel pressupõe que Portugal terá vantagens em ter um presidente português, convinha que explicasse quais, se possível com exemplos concretos. Assim ficaríamos a saber se Rangel fala a sério, se realmente pensa o que disse, o que eu duvido. O episódio tresanda a patriotismo saloio e a demagogia barata — obviamente destinados a confundir quem tenciona votar nas próximas europeias. Como não posso votar, infelizmente Rangel não terá, da minha parte, o que está a pedir. Que seria, evidentemente, o que estão a pensar.
RENTES DE CARVALHO. Soube, pela manhã, que Portugal, a Flor e a Foice estava disponível em eBook. Para quem, como eu, reside fora do país (ou é emigrante, como queiram), não imaginam o que isto significa. Depois de comprado, um livro em papel demora a chegar-me uma semana e tal (nos melhores casos), e como o livro em papel é mais caro que o eBook (e ainda tenho que pagar o transporte), acaba por custar-me mais do dobro. Aqui está, portanto, um caso em que o eBook faz toda a diferença, mas não vou insistir no que há anos tenho vindo a dizer. Quanto ao autor, José Rentes de Carvalho, suspeito que já o disse, mas não me custa repetir: um senhor das letras portuguesas, que descobri tardiamente (as edições portuguesas eram praticamente inexistentes até há poucos anos), e hoje devoro quase ao ritmo dos pastéis de Tentúgal (na verdade, e para mal dos meus pecados, com larga vantagem para estes últimos). Para quem não sabe, Rentes de Carvalho vive na Holanda (parece-me que ultimamente entre a Holanda e Estevais, onde um dia, graças a Ernestina, talvez irei) — daí ser praticamente desconhecido em Portugal até há pouco. A primeira vez que o li foi numa publicação local, a Eito Fora, que apesar disso chegou a ter projecção nacional nos meios, digamos, culturais, e que viria a dar origem à Periférica, de maior fôlego mas com menos tempo de vida. Fiquei fã desde então, já li meia dúzia de livros, e os que faltam não perdem pela demora.
GILBERTO FREYRE. Depois de anos à procura, encontrei, por acaso, o primeiro volume de Casa Grande e Senzala num alfarrabista de Manhattan, e tirando a grafia original, no português em que foi escrito. Leio e choro por mais. Procuro na internet o segundo volume (ou a obra integral), e os poucos que há são relíquias que se fazem pagar como tal. De eBooks, nem falar. Como é possível um livro desta envergadura estar praticamente fora do mercado? Para quando, já agora, edições decentes dos clássicos da língua portuguesa, em papel e digital?
CARSTEN JENSEN. Li pouco mais de duas centenas de páginas de Nós, os Afogados, do dinamarquês Carsten Jensen, mas já deu para ver que é um livro notável. Pena que a tradução tenha sido em português pós-acordo ortográfico, mas o livro vale bem uns impropérios.
COISAS QUE VOU LENDO (8). «Ninguém pode levar a mal a Constâncio não se recordar de factos que aconteceram há uma década. O que não se percebe é por que é que Constâncio convoca os jornalistas para fazer uma revelação de algo sobre o qual não se lembrava.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 4/4/2014

2 de abril de 2014

CADA UM LEMBRA-SE DO QUE LHE CONVÉM. Evidentemente que um dos dois está a mentir, e a memória que um diz ter e o outro não ter é só um pretexto. Será possível que Durão Barroso tenha, quando primeiro-ministro, convidado três vezes o então governador do Banco de Portugal (BP) a explicar-lhe os «rumores» que circulavam sobre o BPN, e o então governador do BP não se lembrar de um único convite? Não me constando que Vítor Constâncio tenha perdido a memória, ou está a mentir, ou mente quem diz tê-lo convocado três vezes para explicar-lhe o BPN. Durão Barroso pode, enquanto primeiro-ministro, não ter estado à altura do que seria exigível, mas hoje é um facto que Constâncio também não fez o que devia — por negligência, por incompetência, por impotência, por outra razão que só ele saberá. Acreditar, portanto, em quem? Por mim, não acredito em nenhum, e devo dizer que se há coisa que me tira o sono é não estar em paz com a minha consciência. Há dois dias que tomei conhecimento do assunto, há dois dias que penso desta maneira, há dois dias que durmo que nem uma pedra. Posso, portanto, continuar a dormir descansado.

28 de março de 2014

QUANDO A PROMISCUIDADE NÃO CORRE BEM. Se bem entendi, o Ministério das Finanças convocou informalmente os media para os pôr ao corrente de um eventual corte nas pensões. Mas o membro do Governo que conduziu o processo, ao que parece o secretário de Estado da Administração Pública, impôs uma condição: a informação revelada no briefing só poderia ser divulgada na condição de ser atribuída a uma fonte não identificada. A ideia do Governo era «quantificar» o impacto que tal medida teria na opinião pública, e a partir daí agir em conformidade. Como as reacções de desagrado terão sido maiores que o esperado, o Governo resolveu mandar o ministro da Presidência dar o dito por não dito, e de caminho acusar os media de manipular a informação que lhes foi fornecida no tal briefing. Resumindo, o Governo usou os media para testar o grau de impopularidade de uma medida, e como o resultado foi um «alarmismo injustificado» (palavras do ministro Marques Guedes), fez-se de vítima — e acusou os media de mentir. O truque é conhecido, e o grau de eficácia por de mais comprovado. Verdade que os media vieram logo dizer que cumpriram «todas as regras», rejeitando culpas e atribuindo-as a quem de direito — e até o Governo já reconheceu ter sido «um erro». Mas o problema é que o truque resultou em cheio, e os media voltaram a não fazer o que deviam. É normal um membro do Executivo, no caso José Leite Martins, falar para os media de um eventual corte nas pensões a coberto do anonimato? É normal os media citarem membros do Governo sem lhes revelarem a identidade? Tenho muitíssimas reservas sobre as fontes anónimas, por razões que expliquei em inúmeras ocasiões. Mas admito que nalguns casos sejam úteis, noutros até necessárias. Como é evidente, não é o caso. Um membro do Governo que se presta a falar apenas sob anonimato devia ser denunciado pelos media, e posto imediatamente na rua. Como nada disto sucedeu (os media apressaram-se a dizer que cumpriram o seu dever quando foram acusados de manipulação mas continuaram a não revelar a identidade do membro do Governo, e o membro do Governo continua em funções), estaremos diante um caso normal. Anormal, pelos vistos, seria cada um fazer o que lhe compete, o que dele se exige, o que dele se espera.
NA DESPEDIDA DE MÁRIO CRESPO. Alertado para uma «entrevista demolidora» de Mário Crespo à ministra da Agricultura e do Mar, fui ver. E que vi eu? Sinceramente, nada que me surpreendesse. Conheço mal o desempenho de Assunção Cristas, mas o pouco que sei não abona a seu favor. Mas se o que Mário Crespo fez é jornalismo, eu vou ali e já venho. De um entrevistador espera-se que faça perguntas, e os possíveis para as ver respondidas. Não se esperam opiniões ou comentários, como sucedeu inúmeras vezes. Quem vê uma entrevista quer saber o que o entrevistado tem a dizer, não o que pensa quem lhe faz as perguntas. Crespo passou a entrevista a fazer o contrário. Pior: passou o tempo a tentar que a entrevistada respondesse de modo que ele, Mário Crespo, pretendia. A sorte dele foi a ministra ter sangue frio para lhe aguentar as provocações, os constantes julgamentos sem direito a contraditório. Fosse outro o entrevistado, e tê-lo-ia deixado a falar sozinho. Mário Crespo, que ontem pôs fim à carreira, tem idade (e experiência) para controlar o que lhe vai na alma — além de esqueletos no armário que lhe retiram autoridade para dar lições de moral seja a quem for. Surpreende-me, por isso, que sempre tenha sido visto pela generalidade dos fazedores de opinião como um jornalista que vai do mau ao excelente conforme os amores ou desamores que Crespo tem pelas «vítimas» ou «felizardos» que lhe saem na rifa, e que ninguém lhe tenha questionado o profissionalismo. O profissionalismo, ou a falta dele.
COISAS QUE VOU LENDO (7). «No dia 17 de Março, a RTP usou sete minutos do Telejornal para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular" que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes. No dia 18, concedeu mais sete minutos de tempo de antena a um "endireita" que diz ter um "dom" que "herdou do pai", que trata "males dos ossos e dos nervos de uma forma que não tem explicação", mas que terá demonstrado, com um galo, a validade do seu tratamento em tribunal. No dia 19, mais seis minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública foram dedicados a uma cartomante que diz acertar em 90% das vezes. No dia 20, mais sete minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapeuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, diz tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano". No dia 21 de Março, mais sete minutos de horário nobre para promover um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu, geralmente santos". Em cinco dias, a televisão pública usou 41 minutos e 39 segundos do Telejornal para fazer publicidade a produtos e serviços milagrosos. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estas crenças.» David Marçal, Público de 28/3/2014

25 de março de 2014

RODRIGUINHOS. Presumo que o formato do comentário de José Sócrates na RTP, estabelecido entre a estação pública e o ex-primeiro-ministro, prevê um comentário semanal sobre temas da actualidade. Pretextando ter-se limitado a cumprir o papel que lhe cabe (jornalista), profissão que pela enésima vez lembrou ter sido aprendida na BBC (não sei com que intenção), Rodrigues dos Santos resolveu quebrar as regras (confrontou o ex-primeiro-ministro com afirmações proferidas no passado sobre o tema que estava em discussão) previamente acordadas. Manifestada a surpresa de Sócrates (alguns dizem irritação), e criticado por um ror de gente, Rodrigues dos Santos decidiu defender-se no Facebook. E que disse ele? Disse, em resumo, o seguinte: tratou-se de uma entrevista, e o papel do jornalista numa entrevista «é fazer de "oposição" ao entrevistado». Ora, o programa não é uma entrevista. É público que Sócrates foi contratado para comentar a actualidade, não para ser entrevistado. O modelo acordado entre as partes apenas serve para Sócrates branquear o passado e fazer campanha de borla? Nesse caso, reformule-se, ou acabe-se com ele. Depois, o papel do entrevistador não é fazer de «oposição» ao entrevistado, como escreveu Rodrigues dos Santos, mesmo que entre aspas. O papel do entrevistador é fazer as perguntas que as circunstâncias exigem, e fazer os possíveis para as ver respondidas. Só isso. E convenhamos que já não é pouco.
BENEFICIAR O INFRACTOR. Tenho para mim que é mais benéfico para qualquer Governo em funções uma crítica sem pés nem cabeça, especialmente vinda da oposição, que o mais rasgado elogio, venha ele de onde vier. Isto a propósito de Mário Soares, que no DN de hoje afirmou que a globalização «deixou de ter sentido», e que o actual Governo é de «extrema direita». O dr. Soares tem razões de queixa do actual governo? É público que as tem, e muitíssimas. Mas não precisava de socorrer-se de disparates para fundamentar as suas queixas, que só produzem o contrário do desejado. Evidentemente que este Governo não é de extrema-direita, se calhar nem de direita. E a globalização não só continua a fazer todo o sentido, como é irreversível. Irreversível, e desejável. Por mais defeitos que tenha.

21 de março de 2014

POESIA ARTIFICIAL. Ainda não percebi a utilidade disto (PoeTryMe), se é que tem alguma utilidade. Mas, ao que li, não duvido que fará melhor poesia do que muita que por aí se publica. Aliás, nem é preciso muito.

19 de março de 2014

LABREGOS A VINTÉM. Ponto da situação às 21:00 horas da Costa Leste dos EUA: Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, considera que a posição adoptada pelo FC Porto (queixou-se de que os dirigentes leoninos estão a coagir os árbitros e quem neles manda) resulta de «desespero e senilidade». O FC Porto respondeu com um comunicado onde se lê, entre outras pérolas, que Bruno de Carvalho é um labrego disfarçado de visconde. Em resposta, o visado citou um treinador a tempo inteiro e filósofo nas horas vagas: «Um vintém é um vintém e um labrego é um labrego.» De caminho mandou uma farpa ao presidente «encarnado», que lhe terá garantido que o título «já está entregue há muito», e que as arbitragens em muito terão contribuído. Aqui chegado, ainda pensei que o caso abrisse o Telejornal, mas como o Presidente da República se preparava para dizer qualquer coisa, o caso foi remetido lá para o fim. Mas se tudo correr como habitualmente, amanhã haverá novos episódios, invariavelmente com cenas tão edificantes como as de hoje. Assim se caminha alegremente para um desfecho potencialmente explosivo — que os mesmos responsáveis hão-de condenar caso se concretize, e farão de conta que não provocaram. As claques passam por ser o que há de pior no futebol, pelo menos no futebol português. Sinceramente, duvido.
FUI SÓ EU QUE VI? Quem viu o Telejornal de ontem com um mínimo de atenção há-de ter reparado especialmente em duas peças: uma da correspondente da RTP nos EUA, que nos deu a conhecer um extraordinário astrólogo de Miami que lhe garantiu que o presidente venezuelano cairá no próximo ano (ou coisa que o valha, já não me lembro bem); outra, já perto do final, noticiando a morte de Medeiros Ferreira, pouco antes do fait divers com que costumam fechar o jornal. Quem me explica o critério editorial por trás disto?

14 de março de 2014

OLHEM SÓ O QUE ME CAIU NA SOPA. Valter Hugo Mãe dificilmente me surpreenderá. Mas ontem li uma coisa em forma de prosa e ainda não recuperei totalmente. A primeira frase deixou-me logo arrasado: «A Pilar del Río é uma mulher sagrada.» Depois, escreveu que a viúva de Saramago é «um ser humano cidadão», uma mulher «consumada, definida, completa, absoluta». Em duas palavras, «uma demasia». Alguém que usamos sempre que pretendemos «aludir à evolução, à democracia e à liberdade». Que «merece um respeito maior», e cujas entrevistas que vai dando «são invariavelmente lições de grande conversa». Aqui chegado, pergunto ao vento que passa: o cavalheiro apaixonou-se pela senhora e resolveu partilhar o estado de alma, ou é só mais uma redacção medíocre? Terá sido só mais um «inconseguimento», como diria a outra, ou sou eu que ando a ver coisas?
PRESCRIÇÕES E OUTRAS TRADIÇÕES. Os tribunais portugueses protagonizaram, esta semana, mais dois casos incompreensíveis: deixaram prescrever as condenações de que foi alvo o ex-banqueiro Jardim Gonçalves, e condenaram o Estado a pagar retroactivamente a remuneração ao ex-espião Silva Carvalho, reintegrado no Estado após se ter voluntariamente mudado para uma empresa privada, a quem terá fornecido informação privilegiada e por esse motivo (suspeita violação do segredo de Estado, corrupção e abuso de poder) constituído arguido no chamado «caso das Secretas». Como não bastasse, o Ministério Público resolveu pedir penas de prisão efectiva para o ex-ministro Armando Vara (acusado de três crimes de tráfico de influência) e José Penedos (acusado de dois crimes de corrupção e mais outros dois de participação económica em negócio), ambos arguidos no «Face Oculta», e o Conselho Superior de Magistratura acaba de anunciar a abertura de um inquérito à prescrição das condenações de Jardim, como se de antemão não soubéssemos que o primeiro caso vai dar em nada, e o segundo noutro tanto. Há muito que a justiça escreveu nas estrelas: o Estado perde invariavelmente sempre que se mete com quem pode defender-se. Perde o Estado, e nós com ele.