29 de abril de 2014

DESCULPEM, MAS JÁ DEI PARA O SALAZAR. Já não tenho paciência para a história de que Salazar morreu pobre, nunca acumulou riqueza, criava galinhas e não sei que mais. Até o insuspeito Mário Soares reconheceu, por estes dias, que o ditador de Santa Comba «não mexeu nos dinheiros públicos». Não tenho paciência porque a história, aparentemente verdadeira, esconde uma evidência de que nunca se fala: para que necessitaria ele de fortuna pessoal se era dono de um país inteiro? Por que haveria ele de acumular riqueza, presume-se que para amenizar a velhice, se só sairia do poder para o cemitério? Para que haveria ele de criar um pé-de-meia, de forma honrada ou «mexendo nos dinheiros públicos», se jamais precisaria dele? Pensem um bocadinho antes de abrirem a boca, que diabo.
FINALMENTE ALGUÉM TEM A CORAGEM DE DIZER O ÓBVIO. «A direita não é nem mais nem menos culta do que a esquerda.»

24 de abril de 2014

UM CADÁVER ADIADO. A serem contempladas as pretensões de Angola e Moçambique, na prática o Acordo Ortográfico já era. Só é pena que os países em causa não recusem aplicá-lo, o actual ou outro que vier, pela razão mais substantiva de todas: tirando quem dele beneficia, a começar pelo seu principal responsável, o Acordo não é necessário para coisíssima nenhuma, e ao contrário do que pretendem angolanos e moçambicanos (ver contempladas as variantes locais), a coisa pretende unificar as diversas grafias. Quanto mais tempo se levar a admitir a evidência (e a agir em conformidade), pior será para a língua portuguesa, onde o caos ortográfico está praticamente instalado. Haja coragem para assumir o erro, que as indemnizações (ouvi dizer que milionárias) a que terão direito quem fez contratos com Estado pressupondo a entrada em vigor do novo Acordo se resolverão — e não podem, de modo algum, servir de pretexto para que tudo fique como está.

23 de abril de 2014

DESEJOS PARA O DIA MUNDIAL DO LIVRO. Acho que já disse isto, mas não será demais repeti-lo: gosto de biografias. O problema é que leio a primeira meia centena de páginas e ainda o biografado está na infância, por regra um período que só interessa aos estudiosos. Não há paciência para tanta página de palha, para factos que não interessam nem ao menino Jesus. Contas por alto, devo ter mais de duas dezenas de biografias, começadas mais de uma dezena — mas concluídas só duas ou três. Por que razão têm, as biografias, invariavelmente para cima de 700 páginas, que a grande maioria dificilmente lerá? Hannah Arendt, de Derwent May, que li recentemente, é um exemplo de biografia com menos de meia centena de páginas que nem por isso vê diminuída a sua importância. Definitivamente que alguém devia criar um prémio para quem conseguir escrever uma biografia decente com menos de 200 páginas. (E, já agora, para quem for capaz de escrever um romance legível com menos de 400.)

18 de abril de 2014

IDIOTA ME CONFESSO. Segundo a doutrina em vigor, sou, em política, o que os «meios» designam por «idiota útil». Porque tenho o (péssimo) hábito de defender o que me parece acertado e zurzir o que considero errado, e isso implica defender governos (ou pessoas) que não aprecio, ou atacar governos (ou pessoas) com que simpatizo. Não sei bem o que é um «idiota útil», mas a designação parece aplicar-se a quem, discordando de quase tudo, não se inibe de concordar com uma parte, mesmo que pequena, mas que possa fazer toda a diferença — e com isso beneficiar, ainda que involuntariamente, quem não se pretende beneficiar. É um erro do ponto de vista estratégico, bem sei. Mas como o que penso é tudo o que me move, é-me indiferente que beneficie (ou prejudique) quem quer que seja. Sou, dentro do possível, um cidadão livre, e como tal digo o que penso — e até costumo dizer que prefiro errar pela minha cabeça a acertar pela dos outros. Não creio que influencie uma só criatura, mas também nunca tive essa pretensão. E jamais me apanharão a dizer o que penso com outro propósito que não seja dizer realmente o que penso. Para muitos é um defeito, para alguns um grande defeito. Mas um defeito de que não abdico.

17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 1927-2014. Se não mudou a minha vida, mudou, seguramente, a minha relação com os livros, estou certo que para melhor. Cem Anos de Solidão levou-me não só a outras obras de Márquez, mas também a outros autores latino-americanos de que nunca ouvira falar — Llosa, Rulfo, Carpentier, Cortázar, Onetti, Borges. Ninguém Escreve ao Coronel, que li em espanhol há meia dúzia de anos (experimentem lê-lo em espanhol e verão como tem outro sabor), é das poucas histórias que sei praticamente de cor. E mais não digo, que tudo o que me ocorre são lugares-comuns — coisa que ele odiava, e eu ando lá perto.

16 de abril de 2014

AI SE FOSSE EU A MANDAR. Não há nada como um exemplo para demonstrar como a ignorância é, de facto, muito atrevida.

11 de abril de 2014

O CIRCO. Como se dizia nos tempos do MRPP, quem com ferros mata, com ferros morre. Poder-se-ia caracterizar assim o arrufo entre Rodrigues dos Santos e José Sócrates, que domingo conheceu novo episódio. Espera-se que o próximo tenha cenas ainda mais picantes, género estaladas e assim. Afinal, o último episódio foi visto por mais 120 mil espectadores que o anterior (números do DN), pelo que será de esperar que o próximo registe uma nova subida. O título do Público (Sócrates e Rodrigues dos Santos mantêm polémica na RTP, mas TVI e Marcelo continuam a ganhar) sugere que tudo isto não passa de uma guerra de audiências, no caso com a TVI, onde à mesma hora comenta Marcelo Rebelo de Sousa. Chega, de facto, a parecer, mas sinceramente duvido. Por mais reparos que mereçam o comportamento de Rodrigues dos Santos, não estou a vê-lo entrar nesse jogo. Rodrigues dos Santos fez o que fez porque é assim, e imagino que seja tarde para ser doutra maneira. O problema é claramente outro, e como as coisas chegaram onde chegaram, só há duas saídas possíveis: acabar com o programa, ou afastar Rodrigues dos Santos. É que o foco do programa deixou de ser o que Sócrates tem a dizer sobre determinados assuntos, mas saber se Rodrigues dos Santos e Sócrates se voltam a desentender — e como a desavença vai acabar. Como entretenimento, não estará mal. Mas como A Opinião de José Sócrates não é um programa de entretenimento (o site da RTP descreve-o como um «espaço de comentário e análise política»), será bom que não se transforme num circo.
INCONSEGUIMENTOS, CAPÍTULO 25. Questionada sobre a ausência da Associação 25 de Abril na sessão comemorativa da revolução, a presidente da Assembleia da República foi taxativa: «O problema é deles.» Como é óbvio, os media pegaram logo no caso, e «o problema é deles» foi título em tudo o que é jornal. Hoje, confrontada pelos jornalistas a propósito de não sei quê, Assunção Esteves debitou a rábula do costume: foram os jornalistas que criaram um facto político e não ela, e não há mais nada a dizer. Desconheço as razões da Associação 25 de Abril, que o parlamento, também por razões que desconheço, entendeu recusar. Há, no entanto, um facto a ter em conta: o parlamento tem toda a legitimidade para decidir o que decidiu. Goste-se, ou não, do que decida, o parlamento foi eleito, e não me consta que tenha havido aldrabices. Mas se a Associação 25 de Abril tem o direito de exigir o que lhe apetecer, mesmo as coisas mais absurdas, e os deputados decidir o que muito bem entenderem, mesmo os assuntos mais controversos, Assunção Esteves devia abster-se de usar linguagem imprópria do cargo que exerce. Por outras palavras, devia pensar as vezes que forem precisas antes de abrir a boca em nome da Assembleia da República. Os desastres que têm vindo a suceder-lhe justificam plenamente todas as cautelas.

9 de abril de 2014

NOS PRELIMINARES NÃO HÁ QUEM NOS BATA. A entrevista de Durão Barroso ao Expresso deixou meio mundo a questionar-lhe o propósito, e outro meio a perguntar: qual foi a ideia de só agora, uma década após ter «emigrado» para Bruxelas e a uns meses de terminar o mandato na Comissão Europeia, vir dizer que enquanto primeiro-ministro por três vezes chamou o então governador do Banco de Portugal para aferir os rumores que circulavam sobre o BPN quando nem sequer lhe perguntaram? Duas semanas depois, permanece o mistério. Candidato à Presidência da República, disse logo que não era. Da Comissão Europeia, sairá em Outubro. Sacudir o BPN do capote e culpar Vítor Constâncio, não se alcança o propósito. Que pretenderá ele, afinal? Mário Soares já veio sugerir que a Procuradoria-Geral da República o deve questionar sobre o BPN. Não sei se deve, nem sei se pode. Mas imaginemos que pode, e que deve. Será preciso dizer que Durão dirá, nessa altura, que não se lembra do que falaram?

4 de abril de 2014

SAI UM BORDALO PINHEIRO PARA O PAULO RANGEL. Paulo Rangel, cabeça de lista da coligação governamental às eleições europeias, desafiou António José Seguro e Francisco Assis a dizer se consideram melhor para Portugal que o líder da Comissão Europeia seja alemão, ou português. Isto porque o PS apoia a candidatura de um alemão à presidência da Comissão Europeia, e porque destacados militantes do PS disseram umas coisas sobre Durão Barroso de que Rangel não gostou (Silva Pereira afirmou que o dito foi um mau presidente, José Sócrates considerou-o medíocre). Desconheço, à hora a escrevo, se Rangel teve resposta, e o que Seguro e Assis pensarão sobre o assunto. Mas a pergunta a fazer, agora que se aproximam as europeias e o final do mandado de Barroso, deveria, para mim, ser a seguinte: o que ganhou Portugal com Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia? Que eu saiba, rigorosamente nada. Como a pergunta de Rangel pressupõe que Portugal terá vantagens em ter um presidente português, convinha que explicasse quais, se possível com exemplos concretos. Assim ficaríamos a saber se Rangel fala a sério, se realmente pensa o que disse, o que eu duvido. O episódio tresanda a patriotismo saloio e a demagogia barata — obviamente destinados a confundir quem tenciona votar nas próximas europeias. Como não posso votar, infelizmente Rangel não terá, da minha parte, o que está a pedir. Que seria, evidentemente, o que estão a pensar.
RENTES DE CARVALHO. Soube, pela manhã, que Portugal, a Flor e a Foice estava disponível em eBook. Para quem, como eu, reside fora do país (ou é emigrante, como queiram), não imaginam o que isto significa. Depois de comprado, um livro em papel demora a chegar-me uma semana e tal (nos melhores casos), e como o livro em papel é mais caro que o eBook (e ainda tenho que pagar o transporte), acaba por custar-me mais do dobro. Aqui está, portanto, um caso em que o eBook faz toda a diferença, mas não vou insistir no que há anos tenho vindo a dizer. Quanto ao autor, José Rentes de Carvalho, suspeito que já o disse, mas não me custa repetir: um senhor das letras portuguesas, que descobri tardiamente (as edições portuguesas eram praticamente inexistentes até há poucos anos), e hoje devoro quase ao ritmo dos pastéis de Tentúgal (na verdade, e para mal dos meus pecados, com larga vantagem para estes últimos). Para quem não sabe, Rentes de Carvalho vive na Holanda (parece-me que ultimamente entre a Holanda e Estevais, onde um dia, graças a Ernestina, talvez irei) — daí ser praticamente desconhecido em Portugal até há pouco. A primeira vez que o li foi numa publicação local, a Eito Fora, que apesar disso chegou a ter projecção nacional nos meios, digamos, culturais, e que viria a dar origem à Periférica, de maior fôlego mas com menos tempo de vida. Fiquei fã desde então, já li meia dúzia de livros, e os que faltam não perdem pela demora.
GILBERTO FREYRE. Depois de anos à procura, encontrei, por acaso, o primeiro volume de Casa Grande e Senzala num alfarrabista de Manhattan, e tirando a grafia original, no português em que foi escrito. Leio e choro por mais. Procuro na internet o segundo volume (ou a obra integral), e os poucos que há são relíquias que se fazem pagar como tal. De eBooks, nem falar. Como é possível um livro desta envergadura estar praticamente fora do mercado? Para quando, já agora, edições decentes dos clássicos da língua portuguesa, em papel e digital?
CARSTEN JENSEN. Li pouco mais de duas centenas de páginas de Nós, os Afogados, do dinamarquês Carsten Jensen, mas já deu para ver que é um livro notável. Pena que a tradução tenha sido em português pós-acordo ortográfico, mas o livro vale bem uns impropérios.
COISAS QUE VOU LENDO (8). «Ninguém pode levar a mal a Constâncio não se recordar de factos que aconteceram há uma década. O que não se percebe é por que é que Constâncio convoca os jornalistas para fazer uma revelação de algo sobre o qual não se lembrava.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 4/4/2014

2 de abril de 2014

CADA UM LEMBRA-SE DO QUE LHE CONVÉM. Evidentemente que um dos dois está a mentir, e a memória que um diz ter e o outro não ter é só um pretexto. Será possível que Durão Barroso tenha, quando primeiro-ministro, convidado três vezes o então governador do Banco de Portugal (BP) a explicar-lhe os «rumores» que circulavam sobre o BPN, e o então governador do BP não se lembrar de um único convite? Não me constando que Vítor Constâncio tenha perdido a memória, ou está a mentir, ou mente quem diz tê-lo convocado três vezes para explicar-lhe o BPN. Durão Barroso pode, enquanto primeiro-ministro, não ter estado à altura do que seria exigível, mas hoje é um facto que Constâncio também não fez o que devia — por negligência, por incompetência, por impotência, por outra razão que só ele saberá. Acreditar, portanto, em quem? Por mim, não acredito em nenhum, e devo dizer que se há coisa que me tira o sono é não estar em paz com a minha consciência. Há dois dias que tomei conhecimento do assunto, há dois dias que penso desta maneira, há dois dias que durmo que nem uma pedra. Posso, portanto, continuar a dormir descansado.

28 de março de 2014

QUANDO A PROMISCUIDADE NÃO CORRE BEM. Se bem entendi, o Ministério das Finanças convocou informalmente os media para os pôr ao corrente de um eventual corte nas pensões. Mas o membro do Governo que conduziu o processo, ao que parece o secretário de Estado da Administração Pública, impôs uma condição: a informação revelada no briefing só poderia ser divulgada na condição de ser atribuída a uma fonte não identificada. A ideia do Governo era «quantificar» o impacto que tal medida teria na opinião pública, e a partir daí agir em conformidade. Como as reacções de desagrado terão sido maiores que o esperado, o Governo resolveu mandar o ministro da Presidência dar o dito por não dito, e de caminho acusar os media de manipular a informação que lhes foi fornecida no tal briefing. Resumindo, o Governo usou os media para testar o grau de impopularidade de uma medida, e como o resultado foi um «alarmismo injustificado» (palavras do ministro Marques Guedes), fez-se de vítima — e acusou os media de mentir. O truque é conhecido, e o grau de eficácia por de mais comprovado. Verdade que os media vieram logo dizer que cumpriram «todas as regras», rejeitando culpas e atribuindo-as a quem de direito — e até o Governo já reconheceu ter sido «um erro». Mas o problema é que o truque resultou em cheio, e os media voltaram a não fazer o que deviam. É normal um membro do Executivo, no caso José Leite Martins, falar para os media de um eventual corte nas pensões a coberto do anonimato? É normal os media citarem membros do Governo sem lhes revelarem a identidade? Tenho muitíssimas reservas sobre as fontes anónimas, por razões que expliquei em inúmeras ocasiões. Mas admito que nalguns casos sejam úteis, noutros até necessárias. Como é evidente, não é o caso. Um membro do Governo que se presta a falar apenas sob anonimato devia ser denunciado pelos media, e posto imediatamente na rua. Como nada disto sucedeu (os media apressaram-se a dizer que cumpriram o seu dever quando foram acusados de manipulação mas continuaram a não revelar a identidade do membro do Governo, e o membro do Governo continua em funções), estaremos diante um caso normal. Anormal, pelos vistos, seria cada um fazer o que lhe compete, o que dele se exige, o que dele se espera.
NA DESPEDIDA DE MÁRIO CRESPO. Alertado para uma «entrevista demolidora» de Mário Crespo à ministra da Agricultura e do Mar, fui ver. E que vi eu? Sinceramente, nada que me surpreendesse. Conheço mal o desempenho de Assunção Cristas, mas o pouco que sei não abona a seu favor. Mas se o que Mário Crespo fez é jornalismo, eu vou ali e já venho. De um entrevistador espera-se que faça perguntas, e os possíveis para as ver respondidas. Não se esperam opiniões ou comentários, como sucedeu inúmeras vezes. Quem vê uma entrevista quer saber o que o entrevistado tem a dizer, não o que pensa quem lhe faz as perguntas. Crespo passou a entrevista a fazer o contrário. Pior: passou o tempo a tentar que a entrevistada respondesse de modo que ele, Mário Crespo, pretendia. A sorte dele foi a ministra ter sangue frio para lhe aguentar as provocações, os constantes julgamentos sem direito a contraditório. Fosse outro o entrevistado, e tê-lo-ia deixado a falar sozinho. Mário Crespo, que ontem pôs fim à carreira, tem idade (e experiência) para controlar o que lhe vai na alma — além de esqueletos no armário que lhe retiram autoridade para dar lições de moral seja a quem for. Surpreende-me, por isso, que sempre tenha sido visto pela generalidade dos fazedores de opinião como um jornalista que vai do mau ao excelente conforme os amores ou desamores que Crespo tem pelas «vítimas» ou «felizardos» que lhe saem na rifa, e que ninguém lhe tenha questionado o profissionalismo. O profissionalismo, ou a falta dele.
COISAS QUE VOU LENDO (7). «No dia 17 de Março, a RTP usou sete minutos do Telejornal para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular" que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes. No dia 18, concedeu mais sete minutos de tempo de antena a um "endireita" que diz ter um "dom" que "herdou do pai", que trata "males dos ossos e dos nervos de uma forma que não tem explicação", mas que terá demonstrado, com um galo, a validade do seu tratamento em tribunal. No dia 19, mais seis minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública foram dedicados a uma cartomante que diz acertar em 90% das vezes. No dia 20, mais sete minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapeuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, diz tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano". No dia 21 de Março, mais sete minutos de horário nobre para promover um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu, geralmente santos". Em cinco dias, a televisão pública usou 41 minutos e 39 segundos do Telejornal para fazer publicidade a produtos e serviços milagrosos. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estas crenças.» David Marçal, Público de 28/3/2014

25 de março de 2014

RODRIGUINHOS. Presumo que o formato do comentário de José Sócrates na RTP, estabelecido entre a estação pública e o ex-primeiro-ministro, prevê um comentário semanal sobre temas da actualidade. Pretextando ter-se limitado a cumprir o papel que lhe cabe (jornalista), profissão que pela enésima vez lembrou ter sido aprendida na BBC (não sei com que intenção), Rodrigues dos Santos resolveu quebrar as regras (confrontou o ex-primeiro-ministro com afirmações proferidas no passado sobre o tema que estava em discussão) previamente acordadas. Manifestada a surpresa de Sócrates (alguns dizem irritação), e criticado por um ror de gente, Rodrigues dos Santos decidiu defender-se no Facebook. E que disse ele? Disse, em resumo, o seguinte: tratou-se de uma entrevista, e o papel do jornalista numa entrevista «é fazer de "oposição" ao entrevistado». Ora, o programa não é uma entrevista. É público que Sócrates foi contratado para comentar a actualidade, não para ser entrevistado. O modelo acordado entre as partes apenas serve para Sócrates branquear o passado e fazer campanha de borla? Nesse caso, reformule-se, ou acabe-se com ele. Depois, o papel do entrevistador não é fazer de «oposição» ao entrevistado, como escreveu Rodrigues dos Santos, mesmo que entre aspas. O papel do entrevistador é fazer as perguntas que as circunstâncias exigem, e fazer os possíveis para as ver respondidas. Só isso. E convenhamos que já não é pouco.
BENEFICIAR O INFRACTOR. Tenho para mim que é mais benéfico para qualquer Governo em funções uma crítica sem pés nem cabeça, especialmente vinda da oposição, que o mais rasgado elogio, venha ele de onde vier. Isto a propósito de Mário Soares, que no DN de hoje afirmou que a globalização «deixou de ter sentido», e que o actual Governo é de «extrema direita». O dr. Soares tem razões de queixa do actual governo? É público que as tem, e muitíssimas. Mas não precisava de socorrer-se de disparates para fundamentar as suas queixas, que só produzem o contrário do desejado. Evidentemente que este Governo não é de extrema-direita, se calhar nem de direita. E a globalização não só continua a fazer todo o sentido, como é irreversível. Irreversível, e desejável. Por mais defeitos que tenha.

21 de março de 2014

POESIA ARTIFICIAL. Ainda não percebi a utilidade disto (PoeTryMe), se é que tem alguma utilidade. Mas, ao que li, não duvido que fará melhor poesia do que muita que por aí se publica. Aliás, nem é preciso muito.

19 de março de 2014

LABREGOS A VINTÉM. Ponto da situação às 21:00 horas da Costa Leste dos EUA: Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, considera que a posição adoptada pelo FC Porto (queixou-se de que os dirigentes leoninos estão a coagir os árbitros e quem neles manda) resulta de «desespero e senilidade». O FC Porto respondeu com um comunicado onde se lê, entre outras pérolas, que Bruno de Carvalho é um labrego disfarçado de visconde. Em resposta, o visado citou um treinador a tempo inteiro e filósofo nas horas vagas: «Um vintém é um vintém e um labrego é um labrego.» De caminho mandou uma farpa ao presidente «encarnado», que lhe terá garantido que o título «já está entregue há muito», e que as arbitragens em muito terão contribuído. Aqui chegado, ainda pensei que o caso abrisse o Telejornal, mas como o Presidente da República se preparava para dizer qualquer coisa, o caso foi remetido lá para o fim. Mas se tudo correr como habitualmente, amanhã haverá novos episódios, invariavelmente com cenas tão edificantes como as de hoje. Assim se caminha alegremente para um desfecho potencialmente explosivo — que os mesmos responsáveis hão-de condenar caso se concretize, e farão de conta que não provocaram. As claques passam por ser o que há de pior no futebol, pelo menos no futebol português. Sinceramente, duvido.
FUI SÓ EU QUE VI? Quem viu o Telejornal de ontem com um mínimo de atenção há-de ter reparado especialmente em duas peças: uma da correspondente da RTP nos EUA, que nos deu a conhecer um extraordinário astrólogo de Miami que lhe garantiu que o presidente venezuelano cairá no próximo ano (ou coisa que o valha, já não me lembro bem); outra, já perto do final, noticiando a morte de Medeiros Ferreira, pouco antes do fait divers com que costumam fechar o jornal. Quem me explica o critério editorial por trás disto?

14 de março de 2014

OLHEM SÓ O QUE ME CAIU NA SOPA. Valter Hugo Mãe dificilmente me surpreenderá. Mas ontem li uma coisa em forma de prosa e ainda não recuperei totalmente. A primeira frase deixou-me logo arrasado: «A Pilar del Río é uma mulher sagrada.» Depois, escreveu que a viúva de Saramago é «um ser humano cidadão», uma mulher «consumada, definida, completa, absoluta». Em duas palavras, «uma demasia». Alguém que usamos sempre que pretendemos «aludir à evolução, à democracia e à liberdade». Que «merece um respeito maior», e cujas entrevistas que vai dando «são invariavelmente lições de grande conversa». Aqui chegado, pergunto ao vento que passa: o cavalheiro apaixonou-se pela senhora e resolveu partilhar o estado de alma, ou é só mais uma redacção medíocre? Terá sido só mais um «inconseguimento», como diria a outra, ou sou eu que ando a ver coisas?
PRESCRIÇÕES E OUTRAS TRADIÇÕES. Os tribunais portugueses protagonizaram, esta semana, mais dois casos incompreensíveis: deixaram prescrever as condenações de que foi alvo o ex-banqueiro Jardim Gonçalves, e condenaram o Estado a pagar retroactivamente a remuneração ao ex-espião Silva Carvalho, reintegrado no Estado após se ter voluntariamente mudado para uma empresa privada, a quem terá fornecido informação privilegiada e por esse motivo (suspeita violação do segredo de Estado, corrupção e abuso de poder) constituído arguido no chamado «caso das Secretas». Como não bastasse, o Ministério Público resolveu pedir penas de prisão efectiva para o ex-ministro Armando Vara (acusado de três crimes de tráfico de influência) e José Penedos (acusado de dois crimes de corrupção e mais outros dois de participação económica em negócio), ambos arguidos no «Face Oculta», e o Conselho Superior de Magistratura acaba de anunciar a abertura de um inquérito à prescrição das condenações de Jardim, como se de antemão não soubéssemos que o primeiro caso vai dar em nada, e o segundo noutro tanto. Há muito que a justiça escreveu nas estrelas: o Estado perde invariavelmente sempre que se mete com quem pode defender-se. Perde o Estado, e nós com ele.
COISAS QUE VOU LENDO (6). «Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente. Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias.» Vasco Graça Moura, DN de 3/12/2013

12 de março de 2014

OS TRABALHADORES PORTUGUESES, ESSES MALANDROS. O extraordinário Belmiro de Azevedo afirmou a semana passada: os salários dos trabalhadores portugueses só podem aumentar quando tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os trabalhadores alemães ou ingleses. Os alemães fazem, por hora, «três ou quatro vezes mais do que os portugueses», justifica o chairman da Sonae. E por que não aumentam os portugueses a produtividade? Sendo eles por esse mundo fora considerados bons trabalhadores, por que não são em Portugal? Parece-me evidente que a razão principal para que isso suceda deve-se, antes de mais, aos empresários que há. Como oportunamente lembrou Nicolau Santos, as empresas multinacionais que se encontram em Portugal, «trabalhando esmagadoramente com portugueses, são das mais produtivas dos grupos onde se inserem». Verdade que Belmiro não disse que os portugueses não produzem o que deviam por culpa deles, trabalhadores. Mas Belmiro devia, quando fala sobre este assunto, olhar-se ao espelho, e fazer um acto de contrição. Não necessariamente por ele, que não sei se terá razões para isso. Mas pela classe a que pertence, os empresários, que não sendo os únicos responsáveis pela escassez de produtividade dos trabalhadores portugueses face aos países citados contribuem muitíssimo.

10 de março de 2014

COMEÇAR BEM A SEMANA. Se alguém me apontasse uma pistola à cabeça e ameaçasse estourar-me os miolos caso eu não dissesse o nome do meu compositor favorito, um só, diria o que noutra circunstância não diria: Beethoven. Fico, portanto, de pé atrás sempre que alguém decide usar uma composição de Beethoven e transformá-la noutra coisa qualquer, por vezes tornando-a irreconhecível, como sucede muito no jazz. Não é o caso que o vídeo documenta, onde o compositor não sai, seguramente, a perder. Ora vejam.

7 de março de 2014

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU. Quem leu a entrevista de Fernando Tordo ao Público ficou a saber que ele já fez tudo. Gravou com os músicos e as orquestras mais prestigiados, é o único português que já cantou uma dúzia de poetas «nobelizados» em não sei quantas línguas, já gravou nos estúdios dos Beatles. Infelizmente, tem uns pequenos problemas. As autarquias não têm dinheiro para lhe pagar, os discos vendem-se pouco, o trabalho é escasso e mal pago. Como não bastasse, Portugal é um dos poucos países no mundo em que os artistas com 50 e mais anos de carreira são tratados «como cães», puro «lixo», e quem está no poder faz o que pode para varrer de cena os artistas com um passado como o dele. Disse mais Fernando Tordo: «Nos dois últimos anos o que tenho feito é mostrar às pessoas algumas coisas que os portugueses deitaram fora.» Resumindo, os portugueses não o merecem. (Não chegou a tanto, mas ficou implícito no que disse.) Desculpem a presunção, mas julgo perceber o problema de Tordo. Atrevo-me, por isso, a dizer: também eu gostava que a meia dúzia de leitores deste blogue se multiplicasse por seis milhões, que eu dou tudo o que sei para fazer o que julgo merecer mais atenção. Infelizmente, a maioria dos meus conterrâneos não lê, os que lêem interessam-se por outras coisas, e a concorrência nunca mais acaba. Depois há outro problema: se calhar não sou tão bom como julgo. Por tudo o que lhe ouvi até hoje a propósito da emigração para o Brasil, é um problema que ele não tem. Não sei se felizmente.

4 de março de 2014

28 de fevereiro de 2014

AS RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE. O Partido Comunista diz que «a adoção de uma grafia comum para o conjunto de países de Língua Oficial Portuguesa é um objectivo que apresenta indiscutíveis vantagens, mas suscita incontornáveis dúvidas e dificuldades». Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, afirmou que o seu partido «continua a ver vantagens na aproximação ortográfica» entre as várias grafias da língua portuguesa. Paulo Pisco, deputado do PS, argumentou que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) está «indissociavelmente ligado à projecção e estratégia global da língua portuguesa», e que o «ruído que se tem criado (...) contra o acordo tem argumentos pouco consistentes». Infelizmente, nenhum entrou em detalhes. Que o acordo suscita «incontornáveis dúvidas e dificuldades», como diz o PC, só não percebeu quem anda distraído. Mas quais serão as «indiscutíveis vantagens»? Para não variar, não especifica. Sobre as vantagens de uma «aproximação ortográfica», de que Fazenda parece não duvidar, o que se vê é que o negócio produziu um maior distanciamento ortográfico, e está por demonstrar que uma «aproximação» seria benéfica. Finalmente, Paulo Pisco repete a cartilha politicamente correcta: o acordo é fundamental para a «projecção e estratégia global da língua portuguesa», coisa de altíssima política que só os iluminados saberão o que é. Depois, ou o sr. deputado tem andado distraído (e nesse caso devia abster-se de se pronunciar sobre coisas que não sabe), ou mente descaradamente quando diz que o «ruído» contra o AO90 «tem argumentos pouco consistentes». Ao contrário do que afirma, há dezenas de argumentos devidamente fundamentados contra o acordo (meia hora de Google bastarão para o demonstrar). Quem os não tem (pelo menos não os tem apresentado) é quem o defende, que se fica por frases pomposas, certamente destinados a impressionar os pategos, a enganar os incautos, e a esconder a ignorância.
PROGRESSISTAS DO RESTELO. Para não variar, e porque assim se julgam dispensados de argumentar, alguns defensores do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) chamam aos seus detractores velhos do Restelo, preguiçosos, snobs, como se a questão fosse entre velhos e novos, «conservadores» e «progressistas». É o caso de Carlos Enes, deputado do PS, que também para não variar não apresentou um único argumento a favor do dito, muito menos se deu ao cuidado de explicar por que é necessário um acordo ortográfico entre falantes da língua portuguesa quando é sabido que as grandes potências linguísticas convivem diariamente com dezenas de variantes da mesma língua e nunca precisaram de um acordo para coisíssima nenhuma. Aliás, os «acordistas» distinguiram-se desde a primeira hora por uma impressionante miséria argumentativa, e ultimamente por um silêncio sepulcral. Tirando abstraccionismos quase sempre embrulhados em frases pomposas, que qualquer semi-letrado descobre vazias de substância, não se lhes vê o mais leve argumento. Por que será? Como é cada vez mais evidente, porque não os têm.

26 de fevereiro de 2014

EMIGRAR PARA PORTUGUÊS VER. Por razões que não interessam, emigrei há mais de duas décadas. Hoje, olhando para o estado a que um bando de irresponsáveis deixou o meu país, não exagero se disser que me saiu a sorte grande. Por variadíssimas razões, à cabeça das quais porque a esta hora estaria a fazer as malas, depois de perder o emprego e a esperança de arranjar outro. Triste país, o meu, que investe fortunas em educação para formar cidadãos que depois vão criar riqueza para países que neles não investiram um centavo. Triste país, o meu, que nos últimos dois anos viu emigrar mais de 200 mil portugueses, oito mil (repito: oito mil) com mais de 65 anos. Triste país, o meu, que se comove com artistas menores, que em público vertem lágrimas que não vertem em privado — e que de uma hora para a outra, graças a uma investigaçãozita, vêem a «tragédia» de emigrar tornar-se uma verdadeira comédia. Comédia, por sinal, que custou milhares de euros aos contribuintes, e com a qual certamente não se terão divertido — nem saído mais instruídos, como pretendem estes «profetas».

21 de fevereiro de 2014

PROÍBAM-SE. Absolutamente de acordo com o professor Jorge Miranda, que ontem defendeu «uma iniciativa legislativa» destinada a proibir definitivamente as praxes académicas, que considera «uma questão de polícia». As praxes integram os caloiros, facilitam o conhecimento entre estudantes, e criam amizades? Nesse caso, não sei como se integram os caloiros nos países onde elas não existem. Também não me parece que a proibição das praxes as tornaria clandestinas, como defendeu dezena e meia organizações académicas, muito menos ainda mais violentas. É que não vislumbro uma lei a proibi-las que não punisse, de facto, os promotores, e quando falo em punir quero dizer punir exemplarmente. Até porque, nesse caso, os caloiros facilmente recusariam as praxes e denunciariam os seus autores — coisa que hoje, por razões óbvias, raramente sucede. Provavelmente a proibição não as erradicaria completamente, como as várias leis contra os vários tipos de crimes não impedem que eles sucedam. Mas não duvido que a proibição as reduziria a níveis insignificantes, e dos excessos jamais se falaria.

19 de fevereiro de 2014

NÃO É VÍTIMA QUEM QUER. Por uma questão de princípio, não aprecio expulsões dos partidos políticos, mas não me choca que o PSD tenha expulsado António Capucho. Digo-o sem a mais leve ironia. Afinal, Capucho resolveu candidatar-se contra alguém indicado pelo seu próprio partido, pelo que vir agora armar-se em vítima soa, no mínimo, forçado. Discordou a tal ponto que o levou a avançar contra o candidato do seu próprio partido? Considera que o PSD se «encontra cada vez mais afastado da matriz social-democrata e progressivamente mais enquistado à volta de um conjunto de oligarquias»? Nesse caso, teria sido mais coerente (e sensato) desvincular-se do partido. Se não se percebe por que não o fez na altura própria, ainda se percebe menos a escandaleira que por aí vai.

14 de fevereiro de 2014

MAIS INCONSEGUIMENTOS. Decididamente que Assunção Esteves não está à altura do cargo que desempenha. Pior: é uma vergonha. Recorrer «ao mecenato (patrocínio) para suportar os custos financeiros de algumas iniciativas para assinalar o próximo 25 de Abril»? «Ornamentar chaimites com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos»? Se no primeiro caso seria inadmissível, no segundo seria ridículo. Inadmissível porque, considerando o mesmo princípio, não se veria inconveniente que o Ministério das Finanças fosse patrocinado pelo Banco Espírito Santo ou o Ministério da Justiça pela sociedade Maria do Rosário Mattos e Associados, boutique full service ao seu dispor. Ridículo porque andamos a vender produtos de primeira qualidade (os «Mirós»), e depois propõe-se contratar uma artista muito contestada nos meios artísticos, a meu ver com razão, e por motivos mais substantivos que a mera dor de cotovelo. Depois dos inconseguimentos frustracionais, com que a presidente da AR pôs a nu o que lhe vai na cabeça, só nos faltava a Colgate patrocinar as comemorações de Abril, e uma artista de terceira ordem enfeitar os calhambeques da tropa. A presidente da Assembleia da República está com um problema, ou foi sempre assim?

11 de fevereiro de 2014

ASSIM VAI O JORNALISMO. A notícia do dia não foi o alegado romance entre Obama e Beyoncé. A notícia do dia foi que o Washington Post se preparava para revelar toda a história, que o jornal prontamente desmentiu, alegando não se prestar a esses papéis. É que o jornalismo não só passou a ser constante matéria de notícia, quase sempre pelas piores razões, como passou a ser notícia sempre que se limita a fazer o que dele se espera.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (2). Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, mandou, em tempos, retirar do currículo a circunstância de ser filha de um alfaiate. A notícia foi dada pela revista Sábado, e nunca vi desmentida. Foi, portanto, sem surpresa que ouvi as recentes declarações da senhora à Rádio Renascença, cuja ligação para o vídeo aqui deixei há três dias. As declarações da segunda figura do Estado ultrapassaram, de facto, o imaginável. Ou talvez não, que de quem esconde as origens humildes não se pode esperar muito mais.
COISAS DO RECTO. Nada de extraordinário o facto de Judite de Sousa terminar o comentário com Marcelo de Sousa com um «aqui fica, então, um reto». O extraordinário foi os «acordistas» não se lembrarem de transformar o repto em reto.
OS COITADINHOS DO BPN. Numa coisa o ex-banqueiro João Rendeiro parece estar cheio de razão: a generalidade dos investidores do BPN foi movida por uma ambição desmedida, e salvo excepções sabiam o risco que corriam. Deveriam, portanto, abster-se de reclamar nos tribunais o que dizem ter direito, e derramar lágrimas sobre os contribuintes — que já têm que pagar as aventuras em que eles se meteram.

10 de fevereiro de 2014

MIGUEL SOUSA TAVARES NO SEU MELHOR (1).



Expresso de 8 de Fevereiro de 2014

7 de fevereiro de 2014

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Não é novidade para ninguém, mas não fará mal recordar como são escolhidos os candidatos a deputados ao Parlamento Europeu e Assembleia da República: alguém sugere os nomes, e o chefe do partido por quem se candidatam aprova, ou não. Depois, os eleitores votam em quem os chefes determinaram, e caso não gostem dos nomes propostos resta-lhes votar nos «outros», abster-se, ou não por os pés nas mesas de voto. Também será desnecessário lembrar que os eleitos do chefe «têm que se portar bem» — antes de serem candidatos, porque doutro modo não serão escolhidos; depois de já terem sido deputados, porque serão excluídos das próximas listas caso tencionem recandidatar-se. Temos, portanto, centenas de deputados no Parlamento a fazer o que quatro ou cinco chefes partidários faria com a mesma legitimidade dos duzentos e tal, e com maior economia de meios. Sim, as coisas são o que são graças ao sistema que temos. Mas convém lembrar que o sistema que temos é assim porque ninguém quer que seja doutra maneira. O resultado deste embuste democrático (chamemos-lhe assim para simplificar) é um sistema onde quatro ou cinco mandam em todos, que por sua vez obedecem a quem tem o livro de cheques. Queiramos, ou não, é a democracia que há. Ou a «ausência de democracia», de que há pouco se queixava Rui Rio, que ainda no dia anterior, então presidente de uma autarquia, não o incomodou por aí além.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (1).

COISAS QUE VOU LENDO (3). «Viajar é uma solidão em trânsito.» Cardoso Pires, prefácio a O Jogo do Reverso, de Antonio Tabuchi

4 de fevereiro de 2014

UM AUTOCARRO PARA INGLÊS VER. A mais recente vitória do Chelsea de Mourinho (sobre o Manchester City) derreteu a imprensa inglesa. Vejam, além doutros, o que dizem The Guardian (aqui e aqui), The Telegraph (aqui e aqui), e The Independent (aqui e aqui). O que parecia a «técnica do autocarro», como os meios futebolísticos designam a estratégia das equipas que tudo defendem e nada atacam, era, afinal, um refinado embuste, e o mais engraçado foi ter enganado até os mais sabidos, a começar pelo treinador adversário, um respeitável cavalheiro com muitos quilómetros de bola. No final, cereja em cima do bolo: Mourinho revelou que a derradeira palestra antes do jogo não foi proferida por ele, como habitualmente sucede. A perlenga esteve a cargo do seu mui estimável massagista, um escocês que descreveu como um sujeito que gritou umas coisas incompreensíveis num sotaque impenetrável, mas a quem os jogadores não regatearam aplausos.
UNION SQUARE, NY. 

30 de janeiro de 2014

ADOÇÃO DE FATO. Mais um reparo ao referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo aprovado pelo PSD: as perguntas não deveriam ter sido formuladas segundo as regras do novo Acordo Ortográfico (AO90), que os deputados sociais-democratas aprovaram? Terá sido porque os «unidos de facto» passariam, no caso, a designar-se «unidos de fato», e porque o «concorda com a adopção» passaria a designar-se «concorda com a adoção»? Tiveram, enfim, receio de cair no ridículo? Nesse caso, que ajam em conformidade quando chegar a hora de desfazer o que nunca deveriam ter feito.

28 de janeiro de 2014

QUANDO A ASNEIRA SE ALIA À IGNORÂNCIA. Já tudo foi dito sobre o referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo, hoje enviado para o Tribunal Constitucional. Mas quase nada foi dito sobre as perguntas propostas, que são as seguintes:

1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?

2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?

Por mim, concordo, desde já, num ponto: isto está escrito num português miserável. O PSD «está disponível para reformular as perguntas» se o Tribunal Constitucional «considerar que elas desrespeitam a lei», disse o líder da JSD, que aprovou o referendo. Como se imagina que o Tribunal Constitucional terá dificuldade em perceber o que se pergunta (além de eventuais dúvidas de natureza constitucional), adivinha-se um molho de brócolos. Como nas novelas, os próximos capítulos prometem. Nada de bom neste caso, até porque já há perdedores: as crianças, cujos direitos deveriam prevalecer sobre todos os outros, e foram, de novo, adiados.

27 de janeiro de 2014

COISAS QUE VOU LENDO (2). «All I can say about Italians is this: they are children of Nature, who, for all the pomp and circumstance of their religion and art, are not a whit different from what they would be if they where still living in forests and caves.» Goethe, Italian Journey

24 de janeiro de 2014

INOVAR A IGNORÂNCIA. Alguém devia explicar ao secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade, se preciso for com um desenho, que a saída para o estrangeiro de portugueses qualificados significa que esses portugueses jamais voltarão. Quando muito voltarão para apanhar sol e banhos de mar, matar saudades da comidinha, rever a família e os amigos — e adeusinho até à próxima. Um governante que considera que a saída para o estrangeiro de pessoas com elevada formação académica «traz coisas boas para Portugal» (poderão, segundo ele, «regressar ainda mais qualificadas e experientes»), ou está a gozar connosco, ou não sabe o que anda a fazer. Convinha, portanto, libertá-lo da tarefa de que a pátria o incumbiu, que inovadores destes já temos que chegue.
MAIS UMA BELA TEORIA QUE A REALIDADE DESMENTE. Afinal, o Aeroporto da Portela, segundo alguns saturado ou em vias disso, vai acolher uma base da Ryanair, a partir da qual tenciona operar quatro novas rotas. Como fosse preciso, por aqui se vê a natureza de quem nos governou nos últimos anos, que se fartou de gastar dinheiro a tentar convencer-nos do que a realidade diariamente desmente.

22 de janeiro de 2014

PRÉMIOS LITERÁRIOS. Um dia destes alguém me disse, a propósito do lançamento de um livro de um jovem autor português, que o dito já foi premiado não sei com que prémios. Respondi-lhe em jeito de provocação: e quem são os escritores portugueses contemporâneos, novos e velhos, que nunca foram premiados? Tirando quem publicou por conta própria, não deve ser fácil encontrar um. Conquistar prémios literários é, hoje em dia, uma meta ao alcance de qualquer alfabetizado, e até conheço casos em que nem isso foi preciso.

20 de janeiro de 2014

CLAUDIO ABBADO, 1933-2014.


Obrigado por me ter ensinado a gostar de música.
COISAS QUE VOU LENDO (1). «Quando já havia luz suficiente para usar os binóculos, levou-os ao rosto e examinou o vale mais abaixo. Tudo perdera a cor e se dissolvia no negrume. A cinza macia era arrastada em remoinhos soltos por cima do asfalto. Perscrutou tudo quanto a sua vista alcançava. Os troços de Estrada lá ao fundo, no meio das árvores mortas. Procurava qualquer mancha colorida, qualquer indício de movimento, qualquer vestígio do penacho de fumo de uma fogueira. Baixou os binóculos e retirou a máscara de algodão do rosto e limpou o nariz ao pulso e depois tornou a examinar as cercanias com os binóculos. Em seguida limitou-se a ficar ali sentado, a segurar os binóculos e a ver a aurora cor de cinza a congelar sobre a terra. Sabia apenas que o rapaz era a sua garantia. Disse: Se ele não é a palavra de Deus, Deus nunca falou.» Cormac McCarthy, A Estrada

17 de janeiro de 2014

PROVAR DO PRÓPRIO VENENO. Embora nuns países mais do que noutros, os candidatos a cargos políticos gostam de exibir as esposas ou os maridos, os filhos e a sogra, o cão e o periquito. Porque isso dá a aparência de que são «pessoas como nós», logo rende votos. A novela à volta de Hollande não foge à regra. A imprensa cor-de-rosa descobriu que o presidente francês terá uma amante, a imprensa cor-de-burro-quando-foge agarrou a história com unhas e dentes — e a oposição, embora fingindo não dar importância ao caso, vai fazendo o que pode para dar cabo dele. Resumindo, um assunto que em países como a civilizadíssima França ninguém dará importância tornou-se, de repente, um assunto de Estado. Alguém duvida que o affaire desestabiliza Hollande e o Governo a que preside?

16 de janeiro de 2014

YELP IS GOOD FOR BUSINESS, NOT FOR CONSUMERS. For those, like me, who believe in Yelp, this is the message they just sent me: «We wanted to let you know that we've removed your review of Mike's Cigars. Our Support team has determined that it falls outside our Content Guidelines because it lacks a firsthand customer experience at this business location.» What I wrote was the following: «Online products arrive in miserable conditions (I bought some Padron cigars and I have to put them in garbage). Service doesn't exist at all (nobody answer my question). Conclusion: don't buy anything from this store, at least the online store. Use Famous Smoke Shop, for example.» Any conclusion to be drawn? Yes, it’s in the title of this post.

15 de janeiro de 2014

SE PODEM MUDAR-SE, POR QUE NÃO SE MUDAM? Pior que complicar a vida às grandes empresas portuguesas que em Portugal produzem riqueza e empregam milhares de pessoas, só dizer-se que os portugueses têm muita sorte em tê-las, pois os seus proprietários poderão facilmente mudá-las para outros países. Como é evidente, o argumento é fraquinho, e escassamente fundamentado. Se podem mudá-las para outros países, naturalmente com vantagens, por que não as mudam? Por razões patrióticas? Não será porque a balbúrdia fiscal em vigor, de que os empresários tanto se queixam, as beneficia? Não será porque, contas feitas, a famosa estabilidade fiscal (e outras condições tidas como fundamentais) dos países para onde poderiam mudar-se significaria ganhar menos?

10 de janeiro de 2014

JORNALISMO ANEDÓTICO. Forçado pelas circunstâncias a pronunciar-se sobre Eusébio, José Sócrates terá feito uma investigação apressada — e acabou a dizer que se lembrava muitíssimo bem do memorável Portugal-Coreia do Norte onde Eusébio foi rei e senhor, pois nesse mesmo dia o ex-primeiro-ministro estava na escola. O resultado desta revelação é conhecido: alguém se deu ao cuidado de «investigar» (ele há gente para tudo), e logo descobriu que o Portugal-Coreia do Norte foi, afinal, a um sábado, dia em que não há escola. Perante isto, a reacção só podia ser uma: risota geral. Sócrates foi novamente apanhado a mentir, coisa a que já nos habituou e alguns garantem estar-lhe na massa do sangue. Houve, porém, um percalço: um amigo de infância confirmou que nesse dia houve, de facto, escola, onde esteve na companhia de Sócrates e outros colegas. Resumindo, Sócrates não mentiu. Se a história tivesse moral, a moral seria esta: há sempre um desmancha-prazeres disposto a dar cabo de uma bela teoria com a mania dos factos, e um jornalista a omitir os factos se lhe derem cabo da história. (Ler, a propósito, as duas últimas crónicas de Ferreira Fernandes.)

8 de janeiro de 2014

TÍTULO MAIS «ACORDISTA» QUE O ACORDO. Cirurgia de Nélson Évora "correu de forma expetável"

7 de janeiro de 2014

MILES DAVIS.
 

Comecei por In a Silent Way, a que regresso com frequência. Depois descobri a pérola cuja ligação aqui deixo. Foi ontem à noite, para desenjoar de Eusébio, que me ocupou no trabalho e fora dele. Não tanto ele, mas as dezenas de lugares-comuns que sobre ele disseram e escreveram – que, estou certo, o haveriam de enfastiar tanto como me enfastiaram a mim.

3 de janeiro de 2014

TOMA LÁ E CALA-TE. Como estarão lembrados, a revista Forbes publicou, em Setembro último, um artigo onde explicava detalhadamente a origem da riqueza da empresária angolana Isabel dos Santos, filha do presidente Eduardo dos Santos. Estranhamente, o artigo não mereceu qualquer reacção pública de Isabel dos Santos – nem, sequer, da trombeta do regime, sempre muito sensível a estes assuntos. Três meses depois do artigo da Forbes (resumo em português aqui), eis que a revista anuncia uma edição em português. Será um projecto em parceria com a angolana ZAP Publishing, que a revista identifica como líder no mercado de «pay-TV» em Angola e Moçambique. Infelizmente, a notícia não diz quem manda na ZAP Publishing. Adivinhem quem é.

2 de janeiro de 2014

E QUE TAL COMEÇAR PELO QUE INTERESSA? Em vez de legislar sobre o que não deve (ortografia, por exemplo), que tal o Estado rever os portais de que é responsável e pôr o que lá está em português que se entenda? Isso, sim, seria um verdadeiro serviço à língua portuguesa e aos portugueses em geral. Quanto ao Acordo Ortográfico, o chamado AO90, só mais uma achega: quem é contra já exibiu dezenas de argumentos concretos (repito: concretos) a fundamentar a discordância; quem é a favor não apresentou um único argumento concreto (repito: concreto) sustentando a bondade do negócio. Por aqui se vê o absurdo da coisa.
RECOMEÇAR DE NOVO. Terminei o ano com as últimas páginas de Nas Trevas Exteriores, de Cormac McCarthy, comecei o novo retomando The Journals of André Gide após longo interregno. É o que eu chamo acabar bem, e começar melhor — apesar da neve e do frio que se anunciam para as próximas horas. Oxalá seja um bom prenúncio para o que aí vem.

27 de dezembro de 2013

DESVERGONHA. Que atire a primeira pedra quem nunca pecou. Mas há coisas que não se percebem, por mais voltas que se dê ao miolo: como é possível um jornalista que se prestou a este triste papel continuar por aí a vender bitaites? Se o cavalheiro não tem vergonha na cara (e está demonstrado que não), e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista não viu motivo para lhe retirar a licença, lamenta-se no primeiro caso, estranha-se no segundo. Que o sujeito colabore nos media assumidamente conotados com este ou aquele clube, não me chocaria. Mas que os media ditos sérios, como o Expresso e a RTP, contratem os seus serviços, já acho surpreendente. Haverá um só leitor (ou espectador) que lhe atribua um pingo de credibilidade? Se há, decerto não ouviu a gravação que por aí anda, cuja autenticidade não vi quem contestasse e recomendo vivamente.

23 de dezembro de 2013

PÚCARO BÚLGARO. Custou-me os olhos da cara, mas vale cada grama que pesa. Falo d’O Púcaro Búlgaro, romance que perseguia há anos. De um magricelas de 110 páginas, que terá demorado 20 dias a escrever e Cardoso Pires considerou uma obra-prima. Já comecei a caça aos restantes, ao que parece esgotadíssimos, e os poucos que há a preços exorbitantes. Como é possível um escritor como Campos de Carvalho ser ainda hoje praticamente um desconhecido?

19 de dezembro de 2013

PROFESSORES (4). Sei que é uma batalha perdida sair em defesa do ministro da Educação, deste ou anteriores, e nos tempos que correm muitíssimo impopular. Mas há uma pergunta que gostaria de ver respondida: é, ou não, verdade que existem deficiências na formação de professores em algumas escolas? Será preciso nomear uma comissão ou contratar um detective para saber que existem? Assim sendo, porquê tanto escandaleira pelo facto de Nuno Crato se limitar a dizer o óbvio?
PROFESSORES (3). Quem olha para os professores do ensino público (ou candidatos a isso) e seus legítimos representantes (sindicatos e federações sindicais) com um mínimo de distanciamento tende a dar razão a todos quantos foram, são ou venham a ser ministros da Educação. Por uma razão cada vez mais evidente: nada que os ministros decidam sobre os professores está certo para os ditos. Sucessivos ministros da Educação e sucessivas políticas educativas adoptadas pelos diversos ministros foram, segundo os professores e seus representantes, todas desastrosas. Ontem foi a avaliação para efeito de progressão nas carreiras, que consideraram desadequada. Hoje é a chamada «Prova de Avaliação», que consideram inadmissível e mal feita. Amanhã sabe-se lá o que será. Como seria de esperar, a Federação Nacional de Professores (Fenprof), principal agremiação sindical da classe, reagiu à pretensão do Governo de criar a tal «Prova de Avaliação» dizendo tratar-se de um expediente «ilegal», e tratou logo de entregar providências cautelares em meia dúzia de tribunais. E porquê ilegal? Porque o incontornável líder da Fenprof considera que os professores já estão habilitados «tanto no plano científico como profissional», pelo que a prova põe em causa «o direito ao exercício da profissão». Temos, portanto, que o Estado tem a obrigação de dar emprego aos professores porque os professores têm esse direito. E a todos os professores, porque segundo Mário Nogueira todos estão habilitados para isso. Seguindo este admirável princípio, se houver cem candidatos habilitados a preencher duas vagas numa determinada empresa, a empresa deverá admitir os cem, ou os dois que julgar melhores? Segundo o senso comum, deverá admitir os dois que julgar melhores. Segundo a lógica de Nogueira, deverá admitir os cem. Há muito se percebeu que o ideal, para os professores e respectivos sindicatos, seria que os ditos terminassem as licenciaturas e ingressassem automaticamente no ensino público, e uma vez lá cuidassem das suas próprias avaliações e do mais que lhes conviesse — coisa, de certa maneira, que tem vindo a suceder, embora já tivesse sido pior. Será preciso dizer que as exigências dos professores do ensino público e dos sindicatos que os representam atingiram as raias do absurdo?
ISTO É IMPERDÍVEL.

18 de dezembro de 2013

PROFESSORES (2). Certamente com a pressa de fazer o exercício quinzenal de «tiro ao Crato», que vem fazendo ao actual ministro da Educação mesmo ainda antes de tomar posse, o professor Santana Castilho escreveu a seguinte barbaridade no Público de hoje: «não há professores de primeira e professores de segunda, mas, tão-só, professores». Como é evidente, há professores de primeira e de segunda, médicos de primeira e de segunda, carpinteiros de primeira e de segunda, futebolistas de primeira e de segunda. Dito de outra maneira, há profissionais melhores do que outros. É isso, aliás, o que o actual ministro pretende fazer: escolher os melhores, dispensar os restantes. O processo terá algumas falhas, mas a ideia parece-me justa.
PROFESSORES (1). Sobre os professores do ensino público, só gostava que me alguém me respondesse a três perguntinhas. Quais foram as medidas tomadas pelo Governo (qualquer Governo) com as quais concordaram? Qual foi a proposta de avaliação das suas competência que acharam adequada? Qual foi o ministro da Educação que consideraram sério, competente, e que tenha proposto alguma coisa com pés e cabeça? Que me lembre, todas as medidas tomadas ou propostas foram medíocres, todos os ministros foram maus, todos os governos foram péssimos. Ora, é normal que todos os Governos só tenham feito asneiras, que todos os ministros da Educação tenham sido incompetentes, que tudo esteja errado? Há aqui qualquer coisa que não bate certo, não é?

17 de dezembro de 2013

RESPONDA QUEM SOUBER. O Tribunal Constitucional é a última instância em matéria constitucional. Havendo dúvidas quanto à constitucionalidade de uma lei, ou parte dela, a ele cabe decidir se entra, ou não, em vigor. Decisão que uma vez tomada será irrevogável (não à maneira de Portas), e que poderá, também, ser inconstitucional. Ou não?

16 de dezembro de 2013

NATAL DOS HOSPITAIS. Como diria uma respeitável senhora, agora ao serviço da Pátria, o Natal dos Hospitais é um daqueles inolvidáveis momentos que consegue a proeza de juntar «a fina flor do entulho». A gente olha para os «artistas» que lá passam, ouve as dúzias de lugares-comuns e o paleio de circunstância dos convidados — e nos casos mais benevolentes apetece correr para a casa de banho, nos piores puxar de pistola. Num país onde tem vindo a aumentar o consumo de antidepressivos, talvez não fosse má ideia acabar com a solidariedade empacotada, a alegria postiça, a mercadoria fora de prazo. Aquilo é visto por consideráveis milhões? Também os bestsellers vendem milhões, e nem por isso passam a valer o papel em que foram impressos.

12 de dezembro de 2013

OS RESULTADOS ESTÃO À VISTA. Apesar de ser demasiado confusa, há uma passagem claríssima na prosa de Raquel Varela, que o Público identifica como investigadora e historiadora do trabalho: a função da Universidade não é adaptar-se «ao que o mercado necessita». «O mercado», diz ela, «é que tem de vir com urgência à universidade para ser criticado», que a universidade é o «lugar onde se produz conhecimento, onde se questiona o óbvio, onde se desafia, com coragem, o senso comum» (eu avisei que a prosa é confusa). Resumindo, deve ser o mercado a adaptar-se ao que as universidades pretendem, não as universidades «ao que o mercado necessita». Assim se percebe melhor por que nos últimos anos milhares de jovens obtiveram canudos que não servem para nada.
ANA, A GENEROSA. Confesso que já tinha saudades das calinadas da eurodeputada Ana Gomes. Tem «vergonha» da «falta de generosidade» de Portugal para acolher refugiados sírios? E que tal começar por praticar a generosidade lá em casa, acolhendo uns quantos?

11 de dezembro de 2013

9 de dezembro de 2013

COISAS QUE TORNAM O MUNDO MELHOR. Passei parte do fim-de-semana com O Leopardo, e outra parte a ler o terceiro volume do «Quarteto Bandini» (Pergunta ao Pó). De Lampedusa pouco mais conhecia que a célebre frase «tudo deve mudar para que tudo fique como está» (a frase varia consoante as traduções), mas a uma centena de páginas do final atrevo-me a dizer que foi do melhor que já li. De Fante, só há dias soube da sua existência, e se já vou no terceiro volume quer dizer alguma coisa. Fante terá sido o principal inspirador de Kerouac e Bukowski, e Bukowski terá mesmo dito que Fante foi, para ele, «um deus». Lido há anos quase todo o Kerouac e algum Bukowski recentemente, a sensação com que fico é que Fante foi, de longe, melhor que os melhores «discípulos».

6 de dezembro de 2013

COMEDOUROS. Almoço num restaurante onde o proprietário cumprimenta os clientes um a um, conhecidos e desconhecidos, que ele parte invariavelmente do princípio que todos os clientes gostam de ser cumprimentados pelo proprietário. Como não bastasse, raramente se fica pelo passou bem. Entabula conversa de circunstância quer os clientes queiram, quer não, ri-se alarvemente com a graça que julga ter, balbucia em vernáculo a propósito e a despropósito com os clientes mais chegados mas sempre audível para os restantes, e se os clientes lhe são desconhecidos trata logo de saber quem são, o que fazem, e onde penduram o pote. A primeira vez que lá fui cumprimentou-me com parcimónia, quis saber o que eu achava da comida, e passou adiante. Três clientes depois voltou atrás, pôs-me a manápula no ombro, e perguntou-me o que eu fazia. Satisfeita a curiosidade, voltou à vida dele, mas não por muito tempo. Regressou para que lhe desculpasse a curiosidade, que ele era assim mesmo, que não o levasse a mal. Ou talvez fosse outro o motivo, que o sujeito pode ser burro mas parvo é que não é.

4 de dezembro de 2013

COISAS INADMISSÍVEIS. É, de facto, inconcebível uma greve dos juízes, como diz o bastonário dos Advogados, por mais que nenhuma lei o impeça, e por mais que discorde de Marinho Pinto em variadíssimas matérias. Como me parecem inconcebíveis greves das forças policiais (PSP, GNR, PJ) ou das Forças Armadas, e inadmissíveis manifestações — de que a última, de várias forças policiais, terminou da forma que se sabe. Há sectores da sociedade que pura e simplesmente deveriam ser impedidos de ter sindicatos, de fazer greve e/ou se manifestarem. Dir-me-ão que juízes e polícias são cidadãos como os outros, com direitos e deveres como os outros. Segundo a lei, assim é. Na prática, espera-se de juízes e polícias que estejam à altura das funções que desempenham, e convenhamos que fazer greve ou manifestações são actividades que não se compadecem com as funções que desempenham. Podem, profissionalmente, ganhar alguma coisa com isso, mas perdem o respeito dos cidadãos — e abrem a porta a práticas ainda mais graves.

2 de dezembro de 2013

HÁ MALES QUE VÊM POR BEM. Numa prosa por vezes analfabeta (leiam e verão que não exagero), o escritor Valter Hugo Mãe diz estarem em perigo os livros extensos quando o livro for apenas digital — que passarão, segundo ele, a ser produzidos de modo a irem «ao encontro da especificação rigorosa dos assuntos e da falta de paciência do leitor». Mas nem tudo será mau caso a profecia se cumpra, digo eu. Por exemplo, a prosa de Mãe ganharia muitíssimo caso fosse reduzida a um parágrafo, de preferência não muito extenso.

29 de novembro de 2013

POR ONDE ANDARÁ O LÍDER DA OPOSIÇÃO? Revejo-me em quase todas as críticas a Passos Coelho, vindas de dentro (as mais substantivas) e de fora do PSD. Mas se amanhã houvesse eleições legislativas, não votaria em Seguro. (Ao contrário do que a lógica sugere, não voto no partido A ou no partido B, mas em quem me parecer melhor candidato a primeiro-ministro.) Se bem me lembro, o secretário-geral do PS exigiu, indignado, a demissão da actual ministra das Finanças, e depois, ainda mais indignado, a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros — indignações que duraram dois dias e acabaram da forma que se sabe. Quer num caso, quer noutro, ao terceiro dia o líder do PS já estava noutra, e as demissões até ali reclamadas como imperativo nacional deixaram de justificar-se sem que se vislumbrasse um único motivo que o fizesse mudar de ideias. Verdade que nos últimos dias o líder do PS tem somado alguns pontos a seu favor. Por exemplo, o que pensará ele das manifestações dos polícias? E da invasão dos ministérios? E dos «empurrões» da polícia ao sr. Arménio e a dois deputados? A avaliar pela ausência de notícias, ninguém sabe. Seguro não tem aberto a boca sobre estas e outras matérias, o que sempre o poupa a embaraços. Será pouco, mas é já um começo.

26 de novembro de 2013

EXTRAORDINÁRIA COISA. O extraordinário não é a chamada Prova de Avaliação atribuir zero valores aos professores que tiverem dez ou mais erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia no texto de 250 a 350 caracteres que vão ter que escrever. O extraordinário é a prova admitir como bons professores que cometem nove erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia num texto de 250 a 350 caracteres.
AI NÃO? Não temos autoridade para criticar os polícias porque levantaram as grades de protecção e subiram e desceram ordeiramente as escadas da Assembleia da República? Ora essa! Temos toda a autoridade não só para criticar os polícias que o fizeram como os polícias que o permitiram. Porque se as grades tivessem sido levantadas por cidadãos, digamos, normais, teria havido pancada. E porque se exige a quem zela pela ordem um comportamento condizente com as funções que desempenha. Que são, já agora, manter a ordem, e se for necessário impô-la.

22 de novembro de 2013

BOM FIM-DE-SEMANA.

 

Max Ernst | Family Excursions
PROVA DE AVALIAÇÃO. Se os professores já estão habilitados «tanto no plano científico como profissional» para não necessitaram de prestar provas perante nada e ninguém, como garante o dirigente da FENPROF, porquê tanta indignação com o facto de a chamada Prova de Avaliação prever zero valores para quem tiver dez ou mais dez erros de ortografia, de pontuação ou de morfologia? Se os professores estão realmente preparados, temem o quê?
ANÓNIMOS. Num texto do Público sobre as caixas de comentários online, pergunta-se a determinada altura: «O anonimato [dos comentários online] é bom ou mau?» Por mim, é péssimo. Sempre defendi que o anonimato em jornalismo só deve ser usado em casos extremos, o que está longe de suceder. Não há semana em que a imprensa não cite fontes anónimas sem que se perceba que valor acrescentado tragam às notícias, e não fique a dúvida acerca da veracidade dos factos que lhes são atribuídos — além de sempre ficar no ar a suspeita de que foram os próprios jornalistas que as inventaram. Mas se em jornalismo por vezes se justifica o anonimato (e convém não esquecer que os jornalistas conhecem a identidade das fontes anónimas), nas caixas de comentários parece-me inadmissível. Desde logo porque, não sendo as identidades verificáveis, o que lá se diz não é de fiar.
POIS É. Hoje, derrubo grades, amanhã defendo-as

21 de novembro de 2013

AS DÚVIDAS DO COSTUME. Duas coisas sobre o caso do procurador-geral da República angolano: a justificação dada pela congénere portuguesa para só há dias ter revelado o desfecho do processo em que o dito se viu envolvido quando era já conhecido há três meses e meio (Joana Marques Vidal alegou que a lei a isso não obrigava) não cola; o arquivamento do processo, instaurado por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais (a que posteriormente se juntou o arquivamento do processo instaurado ao vice-presidente angolano, investigado pelos mesmos motivos), dá azo a algumas suspeitas e a muitas dúvidas. Por que alimentou o Ministério Público, com um silêncio incompreensível, as polémicas das últimas semanas, nomeadamente com o ministro das manchetes, quando facilmente lhes poderia pôr cobro? É só incompetência, ou haverá algo mais? A julgar pelas considerações do procurador que investigou o vice-presidente de Angola (no despacho de arquivamento do processo o magistrado mostrou-se esperançado que o desfecho do caso contribua para «o desanuviar do clima de tensão diplomática» entre Portugal e Angola), haverá algo mais. Nada que surpreenda, que a justiça portuguesa já não surpreende. Muito menos o inquérito disciplinar já instaurado ao magistrado que fez tais considerações, obviamente despropositadas, que há-de acabar da forma do costume.

18 de novembro de 2013

E SE FOSSE DAR LIÇÕES A OUTRO? Bater em Paulo Portas, só se perdem as que caem no chão. Mas quando se vê Fernando Ulrich a fazê-lo, e os motivos por que o faz, apetece sair em defesa de Portas. Goste-se, ou não, o vice-primeiro-ministro foi eleito, Fernando Ulrich não foi. Mais: Fernando Ulrich dirige um banco a quem o Estado emprestou uma pipa de massa para evitar que entrasse pelo cano, dinheiro subtraído aos contribuintes e emprestado em condições de favor — e de que há uma semana disse ter devolvido parte substancial como quem fez um favor e a isso não fosse obrigado. Quem usa o Estado apenas em benefício próprio e dos seus, como o caso de Fernando Ulrich, não tem, obviamente, um pingo de legitimidade para dar lições de moral a ninguém, muito menos a governantes eleitos. Por mais incompetentes que os considere, por mais medíocres que sejam.