22 de maio de 2014

A DOENÇA SILENCIOSA. Marco António qualificou a abstenção como uma «doença silenciosa que mata a democracia». Acontece que o dirigente social-democrata apela ao voto na «candidatura que tem pensamento estratégico para a Europa», e eu, sinceramente, não sei a quem se refere. Se há assunto que ainda não vi debatido nesta campanha eleitoral para as europeias foi a Europa propriamente dita, muito menos quem, sobre ela, apresentasse um «pensamento estratégico». A «doença silenciosa» deve-se, sobretudo, às mentiras como a de Marco António, aos políticos que ele tão bem representa no que têm de pior.
GOVERNO APOSTA EM FORMAR EMIGRANTES. Leio que o ministro da Educação, por sinal um dos mais sensatos deste Governo, tenciona introduzir mais uma língua estrangeira (alemão, espanhol, francês ou mandarim, ainda não sabe qual) no ensino obrigatório. A ideia parece-me boa. Afinal, quanto mais línguas os portugueses falarem, maior será o leque de opções quando tencionarem emigrar.

16 de maio de 2014

LÍNGUA PORTUGUESA GUISADA COM ERVILHAS. Um amigo meu, então professor de língua e cultura portuguesas numa escola frequentada por jovens luso-americanos, contou-me, em tempos, que o seu director lhe pediu, um dia, que os seus alunos escrevessem uma redacção destinada a participar num concurso interescolar. Confrontado com o prazo de entrega, dali a dois ou três dias, o meu amigo comunicou-lhe a impossibilidade de cumprir um prazo tão curto. O director deitou as mãos à cabeça — veja lá o que pode fazer, não nos deixe ficar mal, e o mais que se adivinha. À boa maneira portuguesa, o meu amigo lançou mão do expediente em que dizem sermos bons: escreveu ele próprio a redacção, e apresentou-a a concurso como sendo dos alunos da sua escola. O regulamento previa uma fase preliminar (destinada a escolher as melhores), e uma fase final (destinada a escolher a vencedora). Como já adivinharam, a redacção do meu amigo não passou a primeira fase.

14 de maio de 2014

VOTO OBRIGATÓRIO. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, há dias, que as promessas eleitorais não cumpridas afastam os portugueses da política. «Os políticos têm essa tentação terrível de prometer coisas», disse o professor, a maioria das quais sabe, à partida, não poder cumprir, acrescento eu. Poucos dias depois, o ex-presidente do PSD defendeu que o voto passe a ser obrigatório. Leram bem: obrigatório. Porque só o voto obrigatório combaterá, segundo ele, a abstenção, que não pára de aumentar — e tudo indica que baterá um recorde nas próximas europeias. Acontece que em democracia não votar é um direito, e não estou a ver como o eventual voto obrigatório baixaria a abstenção. Mudaria, quando muito, a natureza da abstenção (quem não tencionava votar é previsível que votaria em branco ou nulo caso fosse obrigado a fazê-lo), mas o problema manter-se-ia. Isto na melhor das hipóteses, que votar contrariado tende, a meu ver, a produzir o contrário do que pretende. Depois há outro ponto a considerar: tirando questões de natureza formal, não vejo diferença entre votar branco ou nulo, ou pura e simplesmente não pôr os pés na mesa de voto. Ao contrário das toneladas de livros que semanalmente recomenda, que obviamente não leu e talvez nunca lerá, o prof. Marcelo devia pensar melhor no assunto.

7 de maio de 2014

QUANDO A ARROGÂNCIA ESCONDE A IGNORÂNCIA. Lembro-me de na comissão parlamentar que apreciou a petição contra o Acordo Ortográfico (vídeo aqui) a deputada Isabel Moreira acusar de atitude pidesca alguém que a confrontou com o facto de o ter defendido e votado mas escrever como se ele não existisse (ou numa mistura dos dois, não me lembro bem), procurando demonstrar que a deputada dizia uma coisa e fazia outra. Confesso que a cena me fez subir a mostarda ao nariz, sobretudo pelo desplante com que o fez, assim julgando calar quem a tinha confrontado, e bem, com a flagrante contradição e «matar» o assunto de vez, coisa que a tréplica arrumou em dois tempos. Não será de esperar que um deputado seja consequente com o que vota, que pratique o que subscreve? Que as suas acções sejam escrutinadas pelos cidadãos? Pelos vistos, Isabel Moreira acha normal defender uma coisa e praticar o contrário, e quem lhe escrutina o que faz é pidesco. Cabe-me, portanto, a liberdade de concluir que o assunto não tem, para ela, a mais leve importância — e não será preciso ser bruxo para adivinhar que a sra. deputada não será capaz de explicar a necessidade de um Acordo Ortográfico e respectivas razões por que votou nele. A sra. deputada pensa assim porque sim, votou assim porque sim, e julga não ter satisfações a dar a ninguém. Acontece que Isabel Moreira tem deveres para com o país, e o país inclui os que não votaram no partido (o PS) que a pôs na Assembleia. Devia, por isso, explicar-nos a utilidade do Acordo Ortográfico, bem como os motivos por que votou nele. Fazer-se de vítima, só se for da sua própria ignorância.
FERREIRA FERNANDES. É um lugar-comum, mas não me ocorre dizê-lo doutra maneira. Este senhor é tão bom como os melhores vinhos do Porto. E, como eles, melhora à medida que vai envelhecendo. Leiam-lhe as crónicas no DN e verão do que falo. Esta, por exemplo, que ainda fumega.
POR ACASO NOTA-SE BASTANTE. «Esta crónica foi escrita sob fortes dores lombares, depois de o autor ter-se posto a abrir covas para plantar árvores, abusando claramente das disponibilidades do corpo.»

2 de maio de 2014

A JUSTIÇA É COMO O ARROZ. Corrijam-me se estou enganado, mas julgo ter sido Almeida Santos quem disse, em tempos, que a justiça é como o arroz: quem pode, compra; quem não pode, não compra. Como hoje se voltou a demonstrar, Jardim Gonçalves livra-se de dois anos de prisão efectiva se pagar 600 mil euros — isto se o tribunal para onde o ex-banqueiro já disse que vai recorrer confirmar a pena, o que eu duvido. Depois de ainda há pouco terem prescrito diversos crimes de que foi acusado, por razões que a razão desconhece, eis que o fundador do BCP caminha alegremente para a impunidade total. Ainda o havemos de ver a processar o Estado pelo atrevimento de o ter acusado.

29 de abril de 2014

DESCULPEM, MAS JÁ DEI PARA O SALAZAR. Já não tenho paciência para a história de que Salazar morreu pobre, nunca acumulou riqueza, criava galinhas e não sei que mais. Até o insuspeito Mário Soares reconheceu, por estes dias, que o ditador de Santa Comba «não mexeu nos dinheiros públicos». Não tenho paciência porque a história, aparentemente verdadeira, esconde uma evidência de que nunca se fala: para que necessitaria ele de fortuna pessoal se era dono de um país inteiro? Por que haveria ele de acumular riqueza, presume-se que para amenizar a velhice, se só sairia do poder para o cemitério? Para que haveria ele de criar um pé-de-meia, de forma honrada ou «mexendo nos dinheiros públicos», se jamais precisaria dele? Pensem um bocadinho antes de abrirem a boca, que diabo.
FINALMENTE ALGUÉM TEM A CORAGEM DE DIZER O ÓBVIO. «A direita não é nem mais nem menos culta do que a esquerda.»

24 de abril de 2014

UM CADÁVER ADIADO. A serem contempladas as pretensões de Angola e Moçambique, na prática o Acordo Ortográfico já era. Só é pena que os países em causa não recusem aplicá-lo, o actual ou outro que vier, pela razão mais substantiva de todas: tirando quem dele beneficia, a começar pelo seu principal responsável, o Acordo não é necessário para coisíssima nenhuma, e ao contrário do que pretendem angolanos e moçambicanos (ver contempladas as variantes locais), a coisa pretende unificar as diversas grafias. Quanto mais tempo se levar a admitir a evidência (e a agir em conformidade), pior será para a língua portuguesa, onde o caos ortográfico está praticamente instalado. Haja coragem para assumir o erro, que as indemnizações (ouvi dizer que milionárias) a que terão direito quem fez contratos com Estado pressupondo a entrada em vigor do novo Acordo se resolverão — e não podem, de modo algum, servir de pretexto para que tudo fique como está.

23 de abril de 2014

DESEJOS PARA O DIA MUNDIAL DO LIVRO. Acho que já disse isto, mas não será demais repeti-lo: gosto de biografias. O problema é que leio a primeira meia centena de páginas e ainda o biografado está na infância, por regra um período que só interessa aos estudiosos. Não há paciência para tanta página de palha, para factos que não interessam nem ao menino Jesus. Contas por alto, devo ter mais de duas dezenas de biografias, começadas mais de uma dezena — mas concluídas só duas ou três. Por que razão têm, as biografias, invariavelmente para cima de 700 páginas, que a grande maioria dificilmente lerá? Hannah Arendt, de Derwent May, que li recentemente, é um exemplo de biografia com menos de meia centena de páginas que nem por isso vê diminuída a sua importância. Definitivamente que alguém devia criar um prémio para quem conseguir escrever uma biografia decente com menos de 200 páginas. (E, já agora, para quem for capaz de escrever um romance legível com menos de 400.)

18 de abril de 2014

IDIOTA ME CONFESSO. Segundo a doutrina em vigor, sou, em política, o que os «meios» designam por «idiota útil». Porque tenho o (péssimo) hábito de defender o que me parece acertado e zurzir o que considero errado, e isso implica defender governos (ou pessoas) que não aprecio, ou atacar governos (ou pessoas) com que simpatizo. Não sei bem o que é um «idiota útil», mas a designação parece aplicar-se a quem, discordando de quase tudo, não se inibe de concordar com uma parte, mesmo que pequena, mas que possa fazer toda a diferença — e com isso beneficiar, ainda que involuntariamente, quem não se pretende beneficiar. É um erro do ponto de vista estratégico, bem sei. Mas como o que penso é tudo o que me move, é-me indiferente que beneficie (ou prejudique) quem quer que seja. Sou, dentro do possível, um cidadão livre, e como tal digo o que penso — e até costumo dizer que prefiro errar pela minha cabeça a acertar pela dos outros. Não creio que influencie uma só criatura, mas também nunca tive essa pretensão. E jamais me apanharão a dizer o que penso com outro propósito que não seja dizer realmente o que penso. Para muitos é um defeito, para alguns um grande defeito. Mas um defeito de que não abdico.

17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 1927-2014. Se não mudou a minha vida, mudou, seguramente, a minha relação com os livros, estou certo que para melhor. Cem Anos de Solidão levou-me não só a outras obras de Márquez, mas também a outros autores latino-americanos de que nunca ouvira falar — Llosa, Rulfo, Carpentier, Cortázar, Onetti, Borges. Ninguém Escreve ao Coronel, que li em espanhol há meia dúzia de anos (experimentem lê-lo em espanhol e verão como tem outro sabor), é das poucas histórias que sei praticamente de cor. E mais não digo, que tudo o que me ocorre são lugares-comuns — coisa que ele odiava, e eu ando lá perto.

16 de abril de 2014

AI SE FOSSE EU A MANDAR. Não há nada como um exemplo para demonstrar como a ignorância é, de facto, muito atrevida.

11 de abril de 2014

O CIRCO. Como se dizia nos tempos do MRPP, quem com ferros mata, com ferros morre. Poder-se-ia caracterizar assim o arrufo entre Rodrigues dos Santos e José Sócrates, que domingo conheceu novo episódio. Espera-se que o próximo tenha cenas ainda mais picantes, género estaladas e assim. Afinal, o último episódio foi visto por mais 120 mil espectadores que o anterior (números do DN), pelo que será de esperar que o próximo registe uma nova subida. O título do Público (Sócrates e Rodrigues dos Santos mantêm polémica na RTP, mas TVI e Marcelo continuam a ganhar) sugere que tudo isto não passa de uma guerra de audiências, no caso com a TVI, onde à mesma hora comenta Marcelo Rebelo de Sousa. Chega, de facto, a parecer, mas sinceramente duvido. Por mais reparos que mereçam o comportamento de Rodrigues dos Santos, não estou a vê-lo entrar nesse jogo. Rodrigues dos Santos fez o que fez porque é assim, e imagino que seja tarde para ser doutra maneira. O problema é claramente outro, e como as coisas chegaram onde chegaram, só há duas saídas possíveis: acabar com o programa, ou afastar Rodrigues dos Santos. É que o foco do programa deixou de ser o que Sócrates tem a dizer sobre determinados assuntos, mas saber se Rodrigues dos Santos e Sócrates se voltam a desentender — e como a desavença vai acabar. Como entretenimento, não estará mal. Mas como A Opinião de José Sócrates não é um programa de entretenimento (o site da RTP descreve-o como um «espaço de comentário e análise política»), será bom que não se transforme num circo.
INCONSEGUIMENTOS, CAPÍTULO 25. Questionada sobre a ausência da Associação 25 de Abril na sessão comemorativa da revolução, a presidente da Assembleia da República foi taxativa: «O problema é deles.» Como é óbvio, os media pegaram logo no caso, e «o problema é deles» foi título em tudo o que é jornal. Hoje, confrontada pelos jornalistas a propósito de não sei quê, Assunção Esteves debitou a rábula do costume: foram os jornalistas que criaram um facto político e não ela, e não há mais nada a dizer. Desconheço as razões da Associação 25 de Abril, que o parlamento, também por razões que desconheço, entendeu recusar. Há, no entanto, um facto a ter em conta: o parlamento tem toda a legitimidade para decidir o que decidiu. Goste-se, ou não, do que decida, o parlamento foi eleito, e não me consta que tenha havido aldrabices. Mas se a Associação 25 de Abril tem o direito de exigir o que lhe apetecer, mesmo as coisas mais absurdas, e os deputados decidir o que muito bem entenderem, mesmo os assuntos mais controversos, Assunção Esteves devia abster-se de usar linguagem imprópria do cargo que exerce. Por outras palavras, devia pensar as vezes que forem precisas antes de abrir a boca em nome da Assembleia da República. Os desastres que têm vindo a suceder-lhe justificam plenamente todas as cautelas.

9 de abril de 2014

NOS PRELIMINARES NÃO HÁ QUEM NOS BATA. A entrevista de Durão Barroso ao Expresso deixou meio mundo a questionar-lhe o propósito, e outro meio a perguntar: qual foi a ideia de só agora, uma década após ter «emigrado» para Bruxelas e a uns meses de terminar o mandato na Comissão Europeia, vir dizer que enquanto primeiro-ministro por três vezes chamou o então governador do Banco de Portugal para aferir os rumores que circulavam sobre o BPN quando nem sequer lhe perguntaram? Duas semanas depois, permanece o mistério. Candidato à Presidência da República, disse logo que não era. Da Comissão Europeia, sairá em Outubro. Sacudir o BPN do capote e culpar Vítor Constâncio, não se alcança o propósito. Que pretenderá ele, afinal? Mário Soares já veio sugerir que a Procuradoria-Geral da República o deve questionar sobre o BPN. Não sei se deve, nem sei se pode. Mas imaginemos que pode, e que deve. Será preciso dizer que Durão dirá, nessa altura, que não se lembra do que falaram?

4 de abril de 2014

SAI UM BORDALO PINHEIRO PARA O PAULO RANGEL. Paulo Rangel, cabeça de lista da coligação governamental às eleições europeias, desafiou António José Seguro e Francisco Assis a dizer se consideram melhor para Portugal que o líder da Comissão Europeia seja alemão, ou português. Isto porque o PS apoia a candidatura de um alemão à presidência da Comissão Europeia, e porque destacados militantes do PS disseram umas coisas sobre Durão Barroso de que Rangel não gostou (Silva Pereira afirmou que o dito foi um mau presidente, José Sócrates considerou-o medíocre). Desconheço, à hora a escrevo, se Rangel teve resposta, e o que Seguro e Assis pensarão sobre o assunto. Mas a pergunta a fazer, agora que se aproximam as europeias e o final do mandado de Barroso, deveria, para mim, ser a seguinte: o que ganhou Portugal com Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia? Que eu saiba, rigorosamente nada. Como a pergunta de Rangel pressupõe que Portugal terá vantagens em ter um presidente português, convinha que explicasse quais, se possível com exemplos concretos. Assim ficaríamos a saber se Rangel fala a sério, se realmente pensa o que disse, o que eu duvido. O episódio tresanda a patriotismo saloio e a demagogia barata — obviamente destinados a confundir quem tenciona votar nas próximas europeias. Como não posso votar, infelizmente Rangel não terá, da minha parte, o que está a pedir. Que seria, evidentemente, o que estão a pensar.