22 de julho de 2014

SE NÃO HÁ PROBLEMA, TALVEZ HAJA UM PROBLEMA. Depois do primeiro-ministro e outros membros do Governo, ontem foi a vez do Presidente da República garantir que o Banco Espírito Santo (BES) e o sistema bancário em geral está sólido e recomenda-se. Evidentemente que quando tanta gente importante nos vem dizer que não há problema com o BES e com o sistema bancário em geral, estamos, de facto, com um problema. Estas manobras recordam-me o célebre repórter que em Bagdade garantia, em directo para a TV, que a tropa americana não tinha entrado na cidade, enquanto o que se passava atrás dele (viaturas militares americanos a passar) atestavam o contrário do que garantia.
À ATENÇÃO DAS EDITORAS PORTUGUESAS. Dei uma vista de olhos pelos principais sites portugueses que vendem livros online e não encontrei uma só edição em português de William Ospina, escritor colombiano de quem leio as últimas páginas do excelente El país de la canela. Estão à espera de quê as editoras portuguesas para deitar mãos à obra?

18 de julho de 2014

CHAMAR OS BOIS PELOS NOMES. Pedro Braz Teixeira defendeu anteontem que os principais responsáveis do GES e do BES devem ser levados a tribunal. «Entendo que seria muito benéfico para o interesse público que houvesse uma acusação conjunta do Ministério Público, do Banco de Portugal e da CMVM», disse o investigador, sugerindo que lhe «parece evidente que uma acusação conjunta daria muito mais força à acusação». Ontem, João Vieira Pereira escreveu no Expresso: «Chegámos a um ponto que não basta saber de quem é a culpa. É preciso que os culpados respondam pelo que fizeram.» Não sei no que isto vai dar, mas não será preciso ser profeta para adivinhar que acabará em nada caso a justiça entenda haver matéria criminal e agir em conformidade. Saúda-se, no entanto, que se comece a dizer o óbvio. E o óbvio é que há demasiados indícios (para não dizer provas) de práticas criminosas que não podem deixar a justiça indiferente. Como algumas empresas com a marca Espírito Santo têm sede noutros países (Luxemburgo e Suíça, por exemplo), e há notícias de que estão a ser investigadas nesses mesmos países, pode ser que daí venha alguma coisa.
JOÃO UBALDO RIBEIRO, 1941-2014.

«Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.» Mesa farta para todos

«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» Veja de 18 de Maio de 2005
JORNALISMO DE CACA. Precisamente no dia em que o exército israelita decidiu fazer uma incursão terrestre em Gaza, por razões que não cabem neste texto, pelo menos um jornalista da nossa praça veio defender a ideia de que alguém mandou abaixo um avião na Ucrânia para desviar a atenção do conflito israelo-palestiniano. A ideia é um bocado amalucada, mas presumo que há quem acredite. As teorias da conspiração têm sucesso garantido, sobretudo junto de quem pouco ou nada sabe sobre os assuntos lá abordados, e nem o facto de nunca se confirmarem demove os entusiastas. Como em tempos escrevi, há quem esteja disposto a perder duas e mais horas a inteirar-se de uma teoria da conspiração, mas não tem meia hora para se inteirar dos factos. Tudo porque as teorias da conspiração são mais interessantes que os factos, que para esta gente só atrapalham.

16 de julho de 2014

FUNERAL SEGUE DENTRO DE MOMENTOS. Parece que os novos administradores do Banco Espírito Santo (BES) são pessoas sérias e competentes. Conheço de ouvir falar, nem sempre bem, mas admito que sejam. Acontece que todo o produto ou serviço que neste momento leve — ou tenha levado — o nome Espírito Santo, foi chão que deu uvas. O que vier depois do BES será outra coisa, que o nome caiu de tal modo na lama que jamais se levantará. Ao contrário do que sucedeu no passado, em que o BES era uma marca de confiança até para os mais desconfiados, agora qualquer produto ligado à família é para desconfiar. Como as últimas notícias bem o demonstram (as acções do BES continuam a cair a pique mesmo depois de anunciada a nova administração, que deveria acalmar os mercados), aos mercados não bastam pessoas sérias e competentes. É preciso que haja resultados, e neste momento só um milagre os trará. Depois, há histórias por contar e factos por apurar, pelo que o caminho nos próximos tempos será sempre a descer. Resta saber se até ao abismo final.
Karajan, para além do bem e do mal (1989-2014). Um belo texto do João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos.

9 de julho de 2014

ARTISTAS SEM OBRA. Imaginem que um cidadão comum não praticante das artes enforca a bandeira portuguesa, e o enforcamento é notícia em tudo que é media. Teria sido absolvido pelo juiz caso alguém lhe movesse um processo? Quase apostaria que não. Mas quando um artista (hesito em pôr-lhe aspas) comete idêntica proeza, o tribunal responde absolvendo-o, alegando liberdade de expressão e de criação artística — ambas garantidas pela Constituição. O mais curioso é que, tirando o cadafalso onde enforcou a bandeira, não se lhe conhece uma única obra. Curioso é como quem diz, que hoje em dia artistas sem obra é corriqueiro.
SOPHIA E O ACORDÊS. Li com atenção, que me lembre pela primeira vez, um texto que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para o Expresso, oportunamente republicado por aquele jornal a propósito da transferência dos restos mortais da poetisa para o Panteão, e que termina de forma que vale a pena recordar: «A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.» Lido o texto, constato que a prosa foi convertida para o novo Acordo Ortográfico, na minha opinião abusivamente, e sem que alguém explicasse porquê. Duvido que Sophia concordasse com a «actualização» da grafia caso estivesse entre nós. Infelizmente, não vi quem se indignasse. A começar pelos que lhe estão mais próximos.

3 de julho de 2014

CLARA E OS EMBUSTES. Por falar em Clara Ferreira Alves (CFA) e em ideias pré-concebidas, na mesma edição do Expresso onde publicou o provincianismo chique assinou uma entrevista a Carlos Cruz, a cumprir uma pena de prisão por abuso sexual de menores. Para começo de conversa, CFA afirma logo no preâmbulo: «Estou convencida, pela leitura do processo e do acórdão, de que não devia ter sido condenado. O que torna a prisão da Carregueira uma brutalidade e uma negação de justiça pelo Estado português.» E foi-o repetindo ao longo da entrevista, nomeadamente quando pergunta ao entrevistado: «Ele [juiz Rui Teixeira] parece ser alguém que gosta de dar nas vistas. Fazia-se fotografar de moto, no género aventura, sem perceber que um juiz não faz aquela figura nos tablóides.» Infelizmente, CFA não demonstrou por que está convencida da inocência de Carlos Cruz, muito menos avançou qualquer argumento que apontasse nesse sentido. Como escrevi quando foi conhecido o desfecho do caso, não sei se Carlos Cruz é culpado, ou inocente. Sei, todos sabemos, que foi condenado por vários juízes e pelo menos dois tribunais, e que o processo passou por demasiadas mãos para que a tese da conspiração ou assim seja uma hipótese a considerar — ou que tenha sido, como alguns garantem, um erro judiciário. Ao que parece, CFA terá evidências que outros não têm, mas infelizmente resolveu guardá-los para ela. É pena, em primeiro lugar, para Carlos Cruz, para quem qualquer ajuda seria, decerto, bem-vinda. Depois, uma entrevista que pretende demonstrar a visão da entrevistadora sobre determinado assunto (no caso coincidente com a do entrevistado), não é bem uma entrevista: é um embuste.
CLARA E O PROVINCIANISMO CHIQUE. Dificilmente haverá coisa mais chique do que ir a Nova Iorque e falar mal de Nova Iorque, e aproveitar a boleia para gozar com os americanos, essa gente primitiva e estúpida. Ele são os «restaurantes de BBQ com cheiro a óleo refrito e a restos de anteontem» e «a bacon queimado e carne fumada», ele é a «cerveja requentada e sarro nos copos», ele é «o tipo de casais que acham que podem ter uma conversa romântica num sítio daqueles [sports bars] enquanto devoram um quilo de batatas fritas», «do estilo que mistura cocktails com rabos de lagosta e ketchup». Foi o que fez Clara Ferreira Alves, a que ainda juntou outra coisa que fica sempre bem nas ocasiões em que, talvez por razões profissionais, se é obrigado a falar de futebol: fingir que não se percebe nada, que não se conhecem os nomes dos jogadores, que futebol é coisa de gente pouco letrada. A receita (uma mistura de estereótipos, lugares-comuns, ideias pré-concebidas, superioridade moral e intelectual e o mais que ignoro) é conhecida, e com sucesso garantido em certos meios. O mais interessante é que Clara Ferreira Alves é uma jornalista dos meios culturais, pelo que seria de esperar um pouco menos de ignorância. Sim, ignorância, que não estou a ver outra coisa que se lhe possa chamar.

2 de julho de 2014

COISAS QUE VOU LENDO (12). «(...) só um sério conflito geopolítico poderá criar uma identidade europeia superior às identidades nacionais.» Henrique Raposo, Expresso de 27/6/2014

1 de julho de 2014

HIROMI (2). Acho que já aqui deixei uma ligação para este vídeo, mas não faz mal repeti-la. Foi gravado em Tóquio, há coisa de dois anos, no Blue Note local. Anteontem, no Blue Note de Nova Iorque, desfrutei desta e doutras músicas, um ano e pouco após tê-la visto no mesmo local com o mesmo trio (Anthony Jackson, no baixo, e Simon Phillips, na bateria). Falo de Hiromi, cujo concerto não hesito em designar como designei o primeiro: soberbo.

OS RESSENTIDOS DA BOLA. Há anos que Manuel José se vem pondo a jeito sempre que é necessário escolher um novo seleccionador, não vá alguém não o escolher por mera distracção. Verdade que quando abre a boca nem sempre entra mosca ou sai asneira, de que agora acusa Ronaldo, a propósito do que Ronaldo afirmou durante o Mundial. Mas só um cego não vê que Portugal deve a Ronaldo ter ido ao Mundial. Não só a ele, com certeza, mas sobretudo a ele. Merecia, por isso, mais respeito, sobretudo de quem vive do futebol e para o futebol. Ao contrário de Manuel José, cujo currículo se resume a relativos sucessos em países do terceiro mundo, Ronaldo tem dado a Portugal provavelmente o que Portugal não merece. Seria bom, portanto, não o julgar pelos defeitos, que as virtudes são infinitamente maiores. Pela minha parte, moderado entusiasta de futebol, inclusive da selecção, só tenho uma coisa a dizer: obrigado, Ronaldo.
UMA QUESTÃO PESSOAL. Diz-se que nada distingue António Costa de António José Seguro em termos ideológicos — ou programáticos, ou estratégicos, ou tudo isso junto. Ora, se pouco ou nada distingue o PS do PSD, por que haveria de existir tão grande diferença entre ambos? Como alguém já escreveu, a diferença entre Costa e Seguro é, essencialmente, entre quem está politica e pessoalmente mais preparado para dirigir o PS. Sim, também é, e de que maneira, uma questão de pessoas, um claramente mais competente que o outro. Onde está o mal que isto se diga com todas as letras?

27 de junho de 2014

BALANÇO DEFINITIVAMENTE PROVISÓRIO. Seguramente que já se fizeram, à hora a que escrevo, todos os balanços, oficiais e não oficiais, sobre o desempenho da selecção no Mundial do Brasil. Olhados por alto, há, para já, um bode expiatório mais ou menos consensual, e que vem mesmo a calhar: Jorge Mendes, o empresário de meio mundo que conta no mundo da bola. É previsível que nas próximas horas aparecem alguns mais, e daqui a uma semana talvez cheguem à meia dúzia. Porque é urgente arranjar bodes expiatórios em quem possamos descarregar as frustrações por não termos conseguido o que os «especialistas» (com aspas e sem aspas) e «quase todo o mundo» (com aspas e sem aspas) nos convenceram estar ao nosso alcance. Nada contra a ideia de que Jorge Mendes, ao que parece «proprietário» de quase toda a selecção, treinador incluído, é um dos responsáveis pelo alegado desastre, que se virmos bem se calhar nem é tanto assim. Mas nesse caso teremos que olhar também para os sucessos que os futebolistas de Mendes alcançam nos clubes onde jogam e nalgumas selecções ainda a competir, onde pontificam alguns dos «seus» jogadores. Sim, porque se ele é culpado quando as coisas correm mal, também terá algum mérito quando as coisas correm bem. Longe de mim ser um desmancha-prazeres, mas se há coisas que não aprecio é histórias mal contadas, juízos precipitados, bodes expiatórios para acudir às frustrações imediatas. Cá para mim, a nossa maior tragédia na bola é não sermos realistas, não admitirmos que há outros melhores do que nós. Como é evidente, ter o melhor jogador do mundo não basta para termos a melhor selecção do mundo. Sonhar é óptimo quando os sonhos resultam agradáveis. Mas chocar de frente com a realidade também tem as suas virtudes.

24 de junho de 2014

SOMOS OS MAIORES, NÃO ÉRAMOS? Não será preciso lembrar que os que ainda ontem colocavam a selecção nos píncaros são os mesmos que agora, conhecida a hecatombe frente à Alemanha e o medíocre desempenho frente aos EUA, a crucificam sem dó, nem piedade. Mas também é preciso lembrar outra evidência: as expectativas à volta da selecção foram criadas, essencialmente, pelos media, sobretudo pelas televisões. Na ânsia de audiências, fizeram directos a toda a hora para ouvir os palpites dos transeuntes e dos vendedores de pirolitos, foram subindo a fasquia de dia para dia até atingir níveis impensáveis, e quando um ou outro desmancha-prazeres aconselhou prudência e caldos de galinha, fizeram ouvidos de mercador. Se tudo corresse bem, nada haveria a dizer. Como correu mal, começou a caça aos culpados, reais e inventados, que o assunto também rende. De uma coisa, porém, podem estar certos: os media sairão isentos de culpas, pois se alguém lhas apontar, dirão que se limitaram a fazer o que deviam. É por estas e por outras que assino por baixo o que disse Estrela Serrano.