24 de julho de 2014

DESCULPAS DE MAU PAGADOR. Gostei da metáfora («dores de crescimento») com que o presidente da TAP caracterizou os actuais problemas da empresa. Gostei, mas não me comovi. Afinal, a TAP está a operar acima das suas possibilidades, vendeu viagens que não pode efectuar. Fernando Pinto diz que o fornecedor não cumpriu os prazos previstos para a entrega de não sei quantas aeronaves que a TAP lhe terá adquirido — razão, sublinha, a que a TAP «é totalmente alheia». Como é evidente, a história não acaba aqui. O problema da TAP com os fornecedores não serve de desculpa para o espectáculo em cena, e o espectáculo em cena diz-nos que foram cancelados 50 voos em apenas quatro dias. Sobra, portanto, uma pergunta: como podia a TAP vender viagens sem estarem asseguradas as condições para as efectuar? Eis, a meu ver, a questão, ou a primeira questão. Estivessem as vítimas de cancelamentos e atrasos habituados a reclamar o que têm direito, e neste preciso momento a TAP estaria a desembolsar indemnizações atrás de indemnizações cujas consequências podiam ser-lhe fatais.

22 de julho de 2014

SE NÃO HÁ PROBLEMA, TALVEZ HAJA UM PROBLEMA. Depois do primeiro-ministro e outros membros do Governo, ontem foi a vez do Presidente da República garantir que o Banco Espírito Santo (BES) e o sistema bancário em geral está sólido e recomenda-se. Evidentemente que quando tanta gente importante nos vem dizer que não há problema com o BES e com o sistema bancário em geral, estamos, de facto, com um problema. Estas manobras recordam-me o célebre repórter que em Bagdade garantia, em directo para a TV, que a tropa americana não tinha entrado na cidade, enquanto o que se passava atrás dele (viaturas militares americanos a passar) atestavam o contrário do que garantia.
À ATENÇÃO DAS EDITORAS PORTUGUESAS. Dei uma vista de olhos pelos principais sites portugueses que vendem livros online e não encontrei uma só edição em português de William Ospina, escritor colombiano de quem leio as últimas páginas do excelente El país de la canela. Estão à espera de quê as editoras portuguesas para deitar mãos à obra?

18 de julho de 2014

CHAMAR OS BOIS PELOS NOMES. Pedro Braz Teixeira defendeu anteontem que os principais responsáveis do GES e do BES devem ser levados a tribunal. «Entendo que seria muito benéfico para o interesse público que houvesse uma acusação conjunta do Ministério Público, do Banco de Portugal e da CMVM», disse o investigador, sugerindo que lhe «parece evidente que uma acusação conjunta daria muito mais força à acusação». Ontem, João Vieira Pereira escreveu no Expresso: «Chegámos a um ponto que não basta saber de quem é a culpa. É preciso que os culpados respondam pelo que fizeram.» Não sei no que isto vai dar, mas não será preciso ser profeta para adivinhar que acabará em nada caso a justiça entenda haver matéria criminal e agir em conformidade. Saúda-se, no entanto, que se comece a dizer o óbvio. E o óbvio é que há demasiados indícios (para não dizer provas) de práticas criminosas que não podem deixar a justiça indiferente. Como algumas empresas com a marca Espírito Santo têm sede noutros países (Luxemburgo e Suíça, por exemplo), e há notícias de que estão a ser investigadas nesses mesmos países, pode ser que daí venha alguma coisa.
JOÃO UBALDO RIBEIRO, 1941-2014.

«Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.» Mesa farta para todos

«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» Veja de 18 de Maio de 2005
JORNALISMO DE CACA. Precisamente no dia em que o exército israelita decidiu fazer uma incursão terrestre em Gaza, por razões que não cabem neste texto, pelo menos um jornalista da nossa praça veio defender a ideia de que alguém mandou abaixo um avião na Ucrânia para desviar a atenção do conflito israelo-palestiniano. A ideia é um bocado amalucada, mas presumo que há quem acredite. As teorias da conspiração têm sucesso garantido, sobretudo junto de quem pouco ou nada sabe sobre os assuntos lá abordados, e nem o facto de nunca se confirmarem demove os entusiastas. Como em tempos escrevi, há quem esteja disposto a perder duas e mais horas a inteirar-se de uma teoria da conspiração, mas não tem meia hora para se inteirar dos factos. Tudo porque as teorias da conspiração são mais interessantes que os factos, que para esta gente só atrapalham.

16 de julho de 2014

FUNERAL SEGUE DENTRO DE MOMENTOS. Parece que os novos administradores do Banco Espírito Santo (BES) são pessoas sérias e competentes. Conheço de ouvir falar, nem sempre bem, mas admito que sejam. Acontece que todo o produto ou serviço que neste momento leve — ou tenha levado — o nome Espírito Santo, foi chão que deu uvas. O que vier depois do BES será outra coisa, que o nome caiu de tal modo na lama que jamais se levantará. Ao contrário do que sucedeu no passado, em que o BES era uma marca de confiança até para os mais desconfiados, agora qualquer produto ligado à família é para desconfiar. Como as últimas notícias bem o demonstram (as acções do BES continuam a cair a pique mesmo depois de anunciada a nova administração, que deveria acalmar os mercados), aos mercados não bastam pessoas sérias e competentes. É preciso que haja resultados, e neste momento só um milagre os trará. Depois, há histórias por contar e factos por apurar, pelo que o caminho nos próximos tempos será sempre a descer. Resta saber se até ao abismo final.
Karajan, para além do bem e do mal (1989-2014). Um belo texto do João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos.

9 de julho de 2014

ARTISTAS SEM OBRA. Imaginem que um cidadão comum não praticante das artes enforca a bandeira portuguesa, e o enforcamento é notícia em tudo que é media. Teria sido absolvido pelo juiz caso alguém lhe movesse um processo? Quase apostaria que não. Mas quando um artista (hesito em pôr-lhe aspas) comete idêntica proeza, o tribunal responde absolvendo-o, alegando liberdade de expressão e de criação artística — ambas garantidas pela Constituição. O mais curioso é que, tirando o cadafalso onde enforcou a bandeira, não se lhe conhece uma única obra. Curioso é como quem diz, que hoje em dia artistas sem obra é corriqueiro.
SOPHIA E O ACORDÊS. Li com atenção, que me lembre pela primeira vez, um texto que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para o Expresso, oportunamente republicado por aquele jornal a propósito da transferência dos restos mortais da poetisa para o Panteão, e que termina de forma que vale a pena recordar: «A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.» Lido o texto, constato que a prosa foi convertida para o novo Acordo Ortográfico, na minha opinião abusivamente, e sem que alguém explicasse porquê. Duvido que Sophia concordasse com a «actualização» da grafia caso estivesse entre nós. Infelizmente, não vi quem se indignasse. A começar pelos que lhe estão mais próximos.

3 de julho de 2014

CLARA E OS EMBUSTES. Por falar em Clara Ferreira Alves (CFA) e em ideias pré-concebidas, na mesma edição do Expresso onde publicou o provincianismo chique assinou uma entrevista a Carlos Cruz, a cumprir uma pena de prisão por abuso sexual de menores. Para começo de conversa, CFA afirma logo no preâmbulo: «Estou convencida, pela leitura do processo e do acórdão, de que não devia ter sido condenado. O que torna a prisão da Carregueira uma brutalidade e uma negação de justiça pelo Estado português.» E foi-o repetindo ao longo da entrevista, nomeadamente quando pergunta ao entrevistado: «Ele [juiz Rui Teixeira] parece ser alguém que gosta de dar nas vistas. Fazia-se fotografar de moto, no género aventura, sem perceber que um juiz não faz aquela figura nos tablóides.» Infelizmente, CFA não demonstrou por que está convencida da inocência de Carlos Cruz, muito menos avançou qualquer argumento que apontasse nesse sentido. Como escrevi quando foi conhecido o desfecho do caso, não sei se Carlos Cruz é culpado, ou inocente. Sei, todos sabemos, que foi condenado por vários juízes e pelo menos dois tribunais, e que o processo passou por demasiadas mãos para que a tese da conspiração ou assim seja uma hipótese a considerar — ou que tenha sido, como alguns garantem, um erro judiciário. Ao que parece, CFA terá evidências que outros não têm, mas infelizmente resolveu guardá-los para ela. É pena, em primeiro lugar, para Carlos Cruz, para quem qualquer ajuda seria, decerto, bem-vinda. Depois, uma entrevista que pretende demonstrar a visão da entrevistadora sobre determinado assunto (no caso coincidente com a do entrevistado), não é bem uma entrevista: é um embuste.
CLARA E O PROVINCIANISMO CHIQUE. Dificilmente haverá coisa mais chique do que ir a Nova Iorque e falar mal de Nova Iorque, e aproveitar a boleia para gozar com os americanos, essa gente primitiva e estúpida. Ele são os «restaurantes de BBQ com cheiro a óleo refrito e a restos de anteontem» e «a bacon queimado e carne fumada», ele é a «cerveja requentada e sarro nos copos», ele é «o tipo de casais que acham que podem ter uma conversa romântica num sítio daqueles [sports bars] enquanto devoram um quilo de batatas fritas», «do estilo que mistura cocktails com rabos de lagosta e ketchup». Foi o que fez Clara Ferreira Alves, a que ainda juntou outra coisa que fica sempre bem nas ocasiões em que, talvez por razões profissionais, se é obrigado a falar de futebol: fingir que não se percebe nada, que não se conhecem os nomes dos jogadores, que futebol é coisa de gente pouco letrada. A receita (uma mistura de estereótipos, lugares-comuns, ideias pré-concebidas, superioridade moral e intelectual e o mais que ignoro) é conhecida, e com sucesso garantido em certos meios. O mais interessante é que Clara Ferreira Alves é uma jornalista dos meios culturais, pelo que seria de esperar um pouco menos de ignorância. Sim, ignorância, que não estou a ver outra coisa que se lhe possa chamar.

2 de julho de 2014

COISAS QUE VOU LENDO (12). «(...) só um sério conflito geopolítico poderá criar uma identidade europeia superior às identidades nacionais.» Henrique Raposo, Expresso de 27/6/2014

1 de julho de 2014

HIROMI (2). Acho que já aqui deixei uma ligação para este vídeo, mas não faz mal repeti-la. Foi gravado em Tóquio, há coisa de dois anos, no Blue Note local. Anteontem, no Blue Note de Nova Iorque, desfrutei desta e doutras músicas, um ano e pouco após tê-la visto no mesmo local com o mesmo trio (Anthony Jackson, no baixo, e Simon Phillips, na bateria). Falo de Hiromi, cujo concerto não hesito em designar como designei o primeiro: soberbo.

OS RESSENTIDOS DA BOLA. Há anos que Manuel José se vem pondo a jeito sempre que é necessário escolher um novo seleccionador, não vá alguém não o escolher por mera distracção. Verdade que quando abre a boca nem sempre entra mosca ou sai asneira, de que agora acusa Ronaldo, a propósito do que Ronaldo afirmou durante o Mundial. Mas só um cego não vê que Portugal deve a Ronaldo ter ido ao Mundial. Não só a ele, com certeza, mas sobretudo a ele. Merecia, por isso, mais respeito, sobretudo de quem vive do futebol e para o futebol. Ao contrário de Manuel José, cujo currículo se resume a relativos sucessos em países do terceiro mundo, Ronaldo tem dado a Portugal provavelmente o que Portugal não merece. Seria bom, portanto, não o julgar pelos defeitos, que as virtudes são infinitamente maiores. Pela minha parte, moderado entusiasta de futebol, inclusive da selecção, só tenho uma coisa a dizer: obrigado, Ronaldo.
UMA QUESTÃO PESSOAL. Diz-se que nada distingue António Costa de António José Seguro em termos ideológicos — ou programáticos, ou estratégicos, ou tudo isso junto. Ora, se pouco ou nada distingue o PS do PSD, por que haveria de existir tão grande diferença entre ambos? Como alguém já escreveu, a diferença entre Costa e Seguro é, essencialmente, entre quem está politica e pessoalmente mais preparado para dirigir o PS. Sim, também é, e de que maneira, uma questão de pessoas, um claramente mais competente que o outro. Onde está o mal que isto se diga com todas as letras?

27 de junho de 2014

BALANÇO DEFINITIVAMENTE PROVISÓRIO. Seguramente que já se fizeram, à hora a que escrevo, todos os balanços, oficiais e não oficiais, sobre o desempenho da selecção no Mundial do Brasil. Olhados por alto, há, para já, um bode expiatório mais ou menos consensual, e que vem mesmo a calhar: Jorge Mendes, o empresário de meio mundo que conta no mundo da bola. É previsível que nas próximas horas aparecem alguns mais, e daqui a uma semana talvez cheguem à meia dúzia. Porque é urgente arranjar bodes expiatórios em quem possamos descarregar as frustrações por não termos conseguido o que os «especialistas» (com aspas e sem aspas) e «quase todo o mundo» (com aspas e sem aspas) nos convenceram estar ao nosso alcance. Nada contra a ideia de que Jorge Mendes, ao que parece «proprietário» de quase toda a selecção, treinador incluído, é um dos responsáveis pelo alegado desastre, que se virmos bem se calhar nem é tanto assim. Mas nesse caso teremos que olhar também para os sucessos que os futebolistas de Mendes alcançam nos clubes onde jogam e nalgumas selecções ainda a competir, onde pontificam alguns dos «seus» jogadores. Sim, porque se ele é culpado quando as coisas correm mal, também terá algum mérito quando as coisas correm bem. Longe de mim ser um desmancha-prazeres, mas se há coisas que não aprecio é histórias mal contadas, juízos precipitados, bodes expiatórios para acudir às frustrações imediatas. Cá para mim, a nossa maior tragédia na bola é não sermos realistas, não admitirmos que há outros melhores do que nós. Como é evidente, ter o melhor jogador do mundo não basta para termos a melhor selecção do mundo. Sonhar é óptimo quando os sonhos resultam agradáveis. Mas chocar de frente com a realidade também tem as suas virtudes.

24 de junho de 2014

SOMOS OS MAIORES, NÃO ÉRAMOS? Não será preciso lembrar que os que ainda ontem colocavam a selecção nos píncaros são os mesmos que agora, conhecida a hecatombe frente à Alemanha e o medíocre desempenho frente aos EUA, a crucificam sem dó, nem piedade. Mas também é preciso lembrar outra evidência: as expectativas à volta da selecção foram criadas, essencialmente, pelos media, sobretudo pelas televisões. Na ânsia de audiências, fizeram directos a toda a hora para ouvir os palpites dos transeuntes e dos vendedores de pirolitos, foram subindo a fasquia de dia para dia até atingir níveis impensáveis, e quando um ou outro desmancha-prazeres aconselhou prudência e caldos de galinha, fizeram ouvidos de mercador. Se tudo corresse bem, nada haveria a dizer. Como correu mal, começou a caça aos culpados, reais e inventados, que o assunto também rende. De uma coisa, porém, podem estar certos: os media sairão isentos de culpas, pois se alguém lhas apontar, dirão que se limitaram a fazer o que deviam. É por estas e por outras que assino por baixo o que disse Estrela Serrano.

20 de junho de 2014

OS SRS. DEPUTADOS PERDERAM A VERGONHA. Afinal, os srs. deputados, incluindo os que sustentam o actual governo (PSD e CDS), nunca tiveram dúvidas acerca da decisão do Tribunal Constitucional (TC) que repõe os cortes salariais impostos pelo Governo, apesar de solicitarem uma aclaração ao mesmíssimo TC sobre o mesmíssimo assunto. Segundo o Expresso, mal foi conhecida a decisão do TC, os deputados trataram logo de agir, isto é, de repor os seus próprios salários auferidos antes da decisão governamental. «No mesmo dia em que os deputados da maioria falavam grosso ao TC», diz o Expresso, «(...) o mesmo PSD e CDS davam luz verde a que o Parlamento repusesse de imediato (...) os salários dos deputados e dos funcionários parlamentares.» Assim ficou demonstrado que os srs. deputados não precisam de aclarações quando estão em causa os superiores interesses deles próprios. A única coisa de que talvez precisem é de vergonha na cara.
UM PAÍS EXTRAORDINÁRIO. O extraordinário não é Mota Pinto renunciar a todos os cargos políticos caso assuma a presidência do Conselho de Administração do BES. O extraordinário é isto ser notícia.
COISAS QUE VOU LENDO (11). «Dialética é um dizer que não, outro, que sim, e no fim ganhar aquele que for mais importante na firma. É um conceito antigo, eu ia dizer que remonta a Sócrates não fosse o receio de que o Correio da Manhã aproveite e faça manchete: "Sócrates roubou a dialética ao grego Zenão de Eleia!» Ferreira Fernandes, DN de 20/6/2014

17 de junho de 2014

ODIAR A FIFA PARA ESCONDER O RESTO. A FIFA tem todos os defeitos que lhe apontam, e provavelmente alguns mais que não sabemos. Mas daí até dizer-se que as regras que impôs ao Brasil para organizar o Mundial em curso «consagra zonas de não aplicação da lei nacional em anéis de dois quilómetros em volta dos estádios, onde vigora um rigoroso monopólio (...) dos patrocinadores oficiais», que «beneficiarão de isenção total de impostos», como escreveu José Manuel Pureza, e responsabilizar a FIFA por estas barbaridades, vai um abismo. Que se saiba, o governo brasileiro candidatou-se a organizar o evento, e para o conseguir teve de preencher determinados requisitos e de se comprometer com determinado caderno de encargos. Se há regras impostas pela FIFA que são autênticas barbaridades (não duvido que haja), seguramente que a culpa não é do organismo que superintende o futebol mundial, por mais ódio que se lhe tenha. Como é óbvio, a culpa é do governo que se candidatou à organização do Mundial, e do Governo actualmente em funções — que podia, em última instância, desistir de organizá-lo. Chamando os bois pelos nomes, a culpa foi de Lula da Silva, e depois de Dilma Rousseff. Porque foram eles, e só eles, que aceitaram as condições de que meio mundo agora se queixa, especialmente os que tentam, por omissão, branquear as decisões dos que são, afinal, os primeiros responsáveis.

13 de junho de 2014

INCOMPETÊNCIAS E TRAPALHADAS. Palavra de honra que eu gostava de saber quanto vão custar aos contribuintes as sucessivas trapalhadas com o leilão dos «Mirós», de que o Estado, através de empresas especialmente criadas para o efeito, se propôs vender para recuperar algum (dizem-me que 35 milhões de euros) do que meteu no banco de Oliveira e Costa e sus muchachos. É que, por este andar, a receita da eventual venda das 85 obras do pintor catalão vai inteirinha para os advogados que trabalham nas trapalhadas jurídicas em curso e no mais que há-de vir. Vendo bem, se calhar nem para isso dará, que em trapalhadas já demonstrámos vezes sem conta que são umas atrás das outras — e isso, naturalmente, tem custos. Isto partindo do princípio que é de trapalhadas que se trata, e quando digo trapalhadas quero dizer, apenas, incompetência. Incompetência, já agora, que dá de comer a muita gente, e para não variar paga pelos mesmos de sempre.

11 de junho de 2014

NOTÍCIAS DE TRAMPA. Bruno de Carvalho chegou há dois dias ao dirigismo desportivo como uma espécie de salvador da moral e bons costumes, mas cada vez que abre a boca (e deus sabe que é raro o dia que não abre), é um fedor que tresanda. O futebol profissional é um mundo de aldrabões e de vigaristas. É frequentado por gente que não se recomenda. Cheira mal, muito mal. Excepto quando envolve a sua excelentíssima pessoa e seus finíssimos métodos, está bom de ver. Valha-nos que o Sporting, apesar de fraquito de bola nos últimos anos, não deixa de ser uma instituição respeitável mesmo quando dirigido por moralistas de vão de escada e justiceiros de taberna, que de moral e justiça só enxergam o que lhes convém — e a caca que eles próprios produzem.

9 de junho de 2014

CONCLUSÕES PRECIPITADAS. Miguel Sousa Tavares afirmou, no Expresso, que os dois terços dos portugueses que não votaram nas Europeias contribuíram, com a ausência das urnas, para que os extremistas «tenham ganho uma força acrescida face ao voto dos outros». É um cenário possível, mas não único. Quem lhe garante que os abstencionistas votariam, caso fossem às urnas, nos partidos, digamos, «do sistema», e não reforçariam ainda mais os extremistas? Decidir não ir as urnas é, de certa maneira, um protesto. Resta, portanto, saber até onde os abstencionistas iriam caso protestassem nas urnas.

5 de junho de 2014

TRUQUES ORTOGRÁFICOS. Comentando para o Observador os erros ortográficos detectados em cartazes de pelo menos duas empresas (a Olá e a Imaginarium), a linguista Susana Valdez sugeriu um truque para evitar o que considera «um dos erros gramaticais mais comuns em português»: «colocar a frase na negativa», por razões que explicou mas não entendi. Como de língua pouco mais sei que o essencial, se calhar nem isso, recomendaria um truque mais simples: usar um corrector ortográfico decente. Se não resultar, então é usar um que nunca falha: aprender gramática.
OS ERROS DA OLÁ. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra, mas a campanha em curso (no Facebook, onde haveria de ser?) contra os gelados Olá (parece que já há outra empresa), por ter distribuído uns cartazes com erros ortográficos, devia dar origem a outra, ainda mais veemente, contra os erros ortográficos na generalidade da imprensa (sobretudo nas suas versões online) e na legendagem das televisões. Não falo de gralhas, que por vezes se confundem com erros ortográficos. Falo de verdadeiros erros de ortografia, alguns de palmatória, que no meu tempo de instruçāo primária me dariam, na melhor das hipóteses, o direito a escrever cada um deles umas dezenas de vezes.
A EMBRULHADA. Consta que Winston Churchill, que qualquer aprendiz de político gosta de citar, terá dito mais ou menos isto: «Por mais absorto que um general esteja na elaboração das suas estratégias, às vezes é importante ter o inimigo em consideração.» (A citação foi roubada do livro Conservadorismo, o mais recente de João Pereira Coutinho.) É o que me apetece dizer de António José Seguro, que de tão entretido com o novo brinquedo (as directas, que ainda há pouco não apreciava e ninguém, a começar por ele, sabe como funcionam), não se dá conta no que se meteu. O expediente do líder do PS é mesmo o que parece: destina-se a prolongar-se no poder, e a dificultar a vida aos adversários. Não é bonito de ver, mas quando os actores são maus, não se espera que o filme seja melhor. Ou Seguro não vive neste mundo (já demonstrou várias vezes que não vive) e não percebe que o que está em causa deve ser tratado com clareza e celeridade, ou percebe muito bem e agarra-se a formalismos para se manter no poder. Escusado será dizer que a estratégia penaliza, antes de mais, o PS, e que Seguro sairá mal desta história. Mesmo num (improvável) cenário de se ver confirmado como líder.

4 de junho de 2014

MARINHO DEMAGOGO PINTO. Marinho Pinto ainda agora chegou à política e já lançou mão do que nela há de pior. Mal foi eleito para o Parlamento Europeu (PE), admitiu candidatar-se às Legislativas, e logo a seguir às Presidenciais. Sobre o PE, tudo o que disse até agora é que achava um exagero a mesada dos deputados (parece-me que 10.000 euros), vencimento que promete gastar «da melhor maneira possível». Sim, o ex-bastonário da Ordem dos Advogados é um homem frontal, chama os bois pelos nomes e aparenta nada temer — valores cada vez mais escassos e que naturalmente aprecio. Mas Marinho Pinto também é um populista, um demagogo, um produto criado pelos media para os media, o que já me desagrada. A candidatura ao Parlamento Europeu foi, para ele, uma espécie de teste ao que vale em termos eleitorais. O resto — a Europa, o cargo que irá desempenhar, o que se propõe fazer ou desfazer — não interessa para nada.

30 de maio de 2014

A EMENDA SÓ PODE SER MELHOR QUE O SONETO. Goste-se, ou não, do PS, a eventual candidatura de António Costa à liderança do PS é uma boa notícia para o país (sim, ainda tenho uma costela romântica). Para já, pouco mais se sabe que se mostrou disponível para se candidatar, e que o actual líder já veio acenar com os estatutos para lhe travar a ambição. Como é evidente, o argumento não vai longe. Quer Seguro queira, quer não queira, haverá eleições antecipadas no PS. A não ser que António Costa recue, como já fez outras vezes, mas nesse caso seria, para ele, um suicídio político. Se não recuar, tudo indica que só um percalço de maior o impedirá de vencer. É uma constatação, mas também um desejo. Afinal, angustia saber que uma espécie de não sei quê sem nada dentro possa, um dia, ser primeiro-ministro, pelo que afastar essa possibilidade é, por si só, positivo. Como já vimos noutros filmes, às vezes nem é preciso ganhar eleições para que isso suceda. Basta que o adversário as perca.
DOS RATOS, E DOS HOMENS. Como seria de esperar, os ratos começam a abandonar o navio. Em apenas 24 horas vi, pelo menos, três socialistas a descolar da actual liderança, e ainda a procissão vai no adro. Adivinha-se que nos próximos dias serão às dezenas, talvez às centenas, a não ser que mudem o filme em exibição. São o que eu designo por espécimes para todas as estações. Se o vento sopra do Norte, deslocam-se para Sul. Se sopra do Sul, deslocam-se para o Norte. É a natureza humana em todo o esplendor.

28 de maio de 2014

SÓ MAIS UMA COISA SOBRE A ABSTENÇÃO. É mais que sabido que os resultados das eleições se prestam às mais variadas leituras — logo a que cada um faça a que mais lhe convém. Mas será razoável dizer-se que a coligação governamental teve uma derrota estrondosa, e que, por mérito próprio ou demérito alheio, o PS teve uma vitória idem? Quatro pontos de diferença entre os dois justificam, no máximo, que se fale de um traque, e mesmo assim com algum comedimento. Afinal, a coligação governamental perdeu por pouco, o PS ganhou por pouco — e ambos perderam milhares de votos para quem conta ainda menos.
A PORTELA CHEGA, AFINAL, PARA AS ENCOMENDAS. Cento e trinta e tal voos a mais que o normal na Portela em apenas dois dias por causa da final da Liga dos Campeões? Mas a Portela já não estava saturada quando, há dois ou três anos, se discutia acaloradamente a urgência de um novo aeroporto não sei onde? Ou percebi mal, ou estamos diante mais um caso em que os factos insistem em estragar as mais belas teorias.
COISAS QUE VOU LENDO (10). «A triste verdade é que dinheiro compra sim felicidade. De modo mais banal, compra férias, qualidade de cotidiano, bons médicos, segurança, casas em ruas com árvores, escolas decentes, conversas mais doces, filhos mais saudáveis, momentos de sensibilidade sofisticada. Dinheiro deixa as mães dos seus filhos sorridentes e generosas no sexo. É claro que existem exceções. Como dizem os darwinistas, o fato de que existam algumas poucas mulheres mais altas do que alguns homens não invalida estatisticamente a seguinte generalização: mulheres são mais fracas e menores do que os homens.» Luiz Felipe Pondé, Contra um Mundo Melhor

22 de maio de 2014

A DOENÇA SILENCIOSA. Marco António qualificou a abstenção como uma «doença silenciosa que mata a democracia». Acontece que o dirigente social-democrata apela ao voto na «candidatura que tem pensamento estratégico para a Europa», e eu, sinceramente, não sei a quem se refere. Se há assunto que ainda não vi debatido nesta campanha eleitoral para as europeias foi a Europa propriamente dita, muito menos quem, sobre ela, apresentasse um «pensamento estratégico». A «doença silenciosa» deve-se, sobretudo, às mentiras como a de Marco António, aos políticos que ele tão bem representa no que têm de pior.
GOVERNO APOSTA EM FORMAR EMIGRANTES. Leio que o ministro da Educação, por sinal um dos mais sensatos deste Governo, tenciona introduzir mais uma língua estrangeira (alemão, espanhol, francês ou mandarim, ainda não sabe qual) no ensino obrigatório. A ideia parece-me boa. Afinal, quanto mais línguas os portugueses falarem, maior será o leque de opções quando tencionarem emigrar.

16 de maio de 2014

LÍNGUA PORTUGUESA GUISADA COM ERVILHAS. Um amigo meu, então professor de língua e cultura portuguesas numa escola frequentada por jovens luso-americanos, contou-me, em tempos, que o seu director lhe pediu, um dia, que os seus alunos escrevessem uma redacção destinada a participar num concurso interescolar. Confrontado com o prazo de entrega, dali a dois ou três dias, o meu amigo comunicou-lhe a impossibilidade de cumprir um prazo tão curto. O director deitou as mãos à cabeça — veja lá o que pode fazer, não nos deixe ficar mal, e o mais que se adivinha. À boa maneira portuguesa, o meu amigo lançou mão do expediente em que dizem sermos bons: escreveu ele próprio a redacção, e apresentou-a a concurso como sendo dos alunos da sua escola. O regulamento previa uma fase preliminar (destinada a escolher as melhores), e uma fase final (destinada a escolher a vencedora). Como já adivinharam, a redacção do meu amigo não passou a primeira fase.

14 de maio de 2014

VOTO OBRIGATÓRIO. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, há dias, que as promessas eleitorais não cumpridas afastam os portugueses da política. «Os políticos têm essa tentação terrível de prometer coisas», disse o professor, a maioria das quais sabe, à partida, não poder cumprir, acrescento eu. Poucos dias depois, o ex-presidente do PSD defendeu que o voto passe a ser obrigatório. Leram bem: obrigatório. Porque só o voto obrigatório combaterá, segundo ele, a abstenção, que não pára de aumentar — e tudo indica que baterá um recorde nas próximas europeias. Acontece que em democracia não votar é um direito, e não estou a ver como o eventual voto obrigatório baixaria a abstenção. Mudaria, quando muito, a natureza da abstenção (quem não tencionava votar é previsível que votaria em branco ou nulo caso fosse obrigado a fazê-lo), mas o problema manter-se-ia. Isto na melhor das hipóteses, que votar contrariado tende, a meu ver, a produzir o contrário do que pretende. Depois há outro ponto a considerar: tirando questões de natureza formal, não vejo diferença entre votar branco ou nulo, ou pura e simplesmente não pôr os pés na mesa de voto. Ao contrário das toneladas de livros que semanalmente recomenda, que obviamente não leu e talvez nunca lerá, o prof. Marcelo devia pensar melhor no assunto.

7 de maio de 2014

QUANDO A ARROGÂNCIA ESCONDE A IGNORÂNCIA. Lembro-me de na comissão parlamentar que apreciou a petição contra o Acordo Ortográfico (vídeo aqui) a deputada Isabel Moreira acusar de atitude pidesca alguém que a confrontou com o facto de o ter defendido e votado mas escrever como se ele não existisse (ou numa mistura dos dois, não me lembro bem), procurando demonstrar que a deputada dizia uma coisa e fazia outra. Confesso que a cena me fez subir a mostarda ao nariz, sobretudo pelo desplante com que o fez, assim julgando calar quem a tinha confrontado, e bem, com a flagrante contradição e «matar» o assunto de vez, coisa que a tréplica arrumou em dois tempos. Não será de esperar que um deputado seja consequente com o que vota, que pratique o que subscreve? Que as suas acções sejam escrutinadas pelos cidadãos? Pelos vistos, Isabel Moreira acha normal defender uma coisa e praticar o contrário, e quem lhe escrutina o que faz é pidesco. Cabe-me, portanto, a liberdade de concluir que o assunto não tem, para ela, a mais leve importância — e não será preciso ser bruxo para adivinhar que a sra. deputada não será capaz de explicar a necessidade de um Acordo Ortográfico e respectivas razões por que votou nele. A sra. deputada pensa assim porque sim, votou assim porque sim, e julga não ter satisfações a dar a ninguém. Acontece que Isabel Moreira tem deveres para com o país, e o país inclui os que não votaram no partido (o PS) que a pôs na Assembleia. Devia, por isso, explicar-nos a utilidade do Acordo Ortográfico, bem como os motivos por que votou nele. Fazer-se de vítima, só se for da sua própria ignorância.
FERREIRA FERNANDES. É um lugar-comum, mas não me ocorre dizê-lo doutra maneira. Este senhor é tão bom como os melhores vinhos do Porto. E, como eles, melhora à medida que vai envelhecendo. Leiam-lhe as crónicas no DN e verão do que falo. Esta, por exemplo, que ainda fumega.
POR ACASO NOTA-SE BASTANTE. «Esta crónica foi escrita sob fortes dores lombares, depois de o autor ter-se posto a abrir covas para plantar árvores, abusando claramente das disponibilidades do corpo.»

2 de maio de 2014

A JUSTIÇA É COMO O ARROZ. Corrijam-me se estou enganado, mas julgo ter sido Almeida Santos quem disse, em tempos, que a justiça é como o arroz: quem pode, compra; quem não pode, não compra. Como hoje se voltou a demonstrar, Jardim Gonçalves livra-se de dois anos de prisão efectiva se pagar 600 mil euros — isto se o tribunal para onde o ex-banqueiro já disse que vai recorrer confirmar a pena, o que eu duvido. Depois de ainda há pouco terem prescrito diversos crimes de que foi acusado, por razões que a razão desconhece, eis que o fundador do BCP caminha alegremente para a impunidade total. Ainda o havemos de ver a processar o Estado pelo atrevimento de o ter acusado.

29 de abril de 2014

DESCULPEM, MAS JÁ DEI PARA O SALAZAR. Já não tenho paciência para a história de que Salazar morreu pobre, nunca acumulou riqueza, criava galinhas e não sei que mais. Até o insuspeito Mário Soares reconheceu, por estes dias, que o ditador de Santa Comba «não mexeu nos dinheiros públicos». Não tenho paciência porque a história, aparentemente verdadeira, esconde uma evidência de que nunca se fala: para que necessitaria ele de fortuna pessoal se era dono de um país inteiro? Por que haveria ele de acumular riqueza, presume-se que para amenizar a velhice, se só sairia do poder para o cemitério? Para que haveria ele de criar um pé-de-meia, de forma honrada ou «mexendo nos dinheiros públicos», se jamais precisaria dele? Pensem um bocadinho antes de abrirem a boca, que diabo.
FINALMENTE ALGUÉM TEM A CORAGEM DE DIZER O ÓBVIO. «A direita não é nem mais nem menos culta do que a esquerda.»

24 de abril de 2014

UM CADÁVER ADIADO. A serem contempladas as pretensões de Angola e Moçambique, na prática o Acordo Ortográfico já era. Só é pena que os países em causa não recusem aplicá-lo, o actual ou outro que vier, pela razão mais substantiva de todas: tirando quem dele beneficia, a começar pelo seu principal responsável, o Acordo não é necessário para coisíssima nenhuma, e ao contrário do que pretendem angolanos e moçambicanos (ver contempladas as variantes locais), a coisa pretende unificar as diversas grafias. Quanto mais tempo se levar a admitir a evidência (e a agir em conformidade), pior será para a língua portuguesa, onde o caos ortográfico está praticamente instalado. Haja coragem para assumir o erro, que as indemnizações (ouvi dizer que milionárias) a que terão direito quem fez contratos com Estado pressupondo a entrada em vigor do novo Acordo se resolverão — e não podem, de modo algum, servir de pretexto para que tudo fique como está.

23 de abril de 2014

DESEJOS PARA O DIA MUNDIAL DO LIVRO. Acho que já disse isto, mas não será demais repeti-lo: gosto de biografias. O problema é que leio a primeira meia centena de páginas e ainda o biografado está na infância, por regra um período que só interessa aos estudiosos. Não há paciência para tanta página de palha, para factos que não interessam nem ao menino Jesus. Contas por alto, devo ter mais de duas dezenas de biografias, começadas mais de uma dezena — mas concluídas só duas ou três. Por que razão têm, as biografias, invariavelmente para cima de 700 páginas, que a grande maioria dificilmente lerá? Hannah Arendt, de Derwent May, que li recentemente, é um exemplo de biografia com menos de meia centena de páginas que nem por isso vê diminuída a sua importância. Definitivamente que alguém devia criar um prémio para quem conseguir escrever uma biografia decente com menos de 200 páginas. (E, já agora, para quem for capaz de escrever um romance legível com menos de 400.)

18 de abril de 2014

IDIOTA ME CONFESSO. Segundo a doutrina em vigor, sou, em política, o que os «meios» designam por «idiota útil». Porque tenho o (péssimo) hábito de defender o que me parece acertado e zurzir o que considero errado, e isso implica defender governos (ou pessoas) que não aprecio, ou atacar governos (ou pessoas) com que simpatizo. Não sei bem o que é um «idiota útil», mas a designação parece aplicar-se a quem, discordando de quase tudo, não se inibe de concordar com uma parte, mesmo que pequena, mas que possa fazer toda a diferença — e com isso beneficiar, ainda que involuntariamente, quem não se pretende beneficiar. É um erro do ponto de vista estratégico, bem sei. Mas como o que penso é tudo o que me move, é-me indiferente que beneficie (ou prejudique) quem quer que seja. Sou, dentro do possível, um cidadão livre, e como tal digo o que penso — e até costumo dizer que prefiro errar pela minha cabeça a acertar pela dos outros. Não creio que influencie uma só criatura, mas também nunca tive essa pretensão. E jamais me apanharão a dizer o que penso com outro propósito que não seja dizer realmente o que penso. Para muitos é um defeito, para alguns um grande defeito. Mas um defeito de que não abdico.

17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 1927-2014. Se não mudou a minha vida, mudou, seguramente, a minha relação com os livros, estou certo que para melhor. Cem Anos de Solidão levou-me não só a outras obras de Márquez, mas também a outros autores latino-americanos de que nunca ouvira falar — Llosa, Rulfo, Carpentier, Cortázar, Onetti, Borges. Ninguém Escreve ao Coronel, que li em espanhol há meia dúzia de anos (experimentem lê-lo em espanhol e verão como tem outro sabor), é das poucas histórias que sei praticamente de cor. E mais não digo, que tudo o que me ocorre são lugares-comuns — coisa que ele odiava, e eu ando lá perto.

16 de abril de 2014

AI SE FOSSE EU A MANDAR. Não há nada como um exemplo para demonstrar como a ignorância é, de facto, muito atrevida.

11 de abril de 2014

O CIRCO. Como se dizia nos tempos do MRPP, quem com ferros mata, com ferros morre. Poder-se-ia caracterizar assim o arrufo entre Rodrigues dos Santos e José Sócrates, que domingo conheceu novo episódio. Espera-se que o próximo tenha cenas ainda mais picantes, género estaladas e assim. Afinal, o último episódio foi visto por mais 120 mil espectadores que o anterior (números do DN), pelo que será de esperar que o próximo registe uma nova subida. O título do Público (Sócrates e Rodrigues dos Santos mantêm polémica na RTP, mas TVI e Marcelo continuam a ganhar) sugere que tudo isto não passa de uma guerra de audiências, no caso com a TVI, onde à mesma hora comenta Marcelo Rebelo de Sousa. Chega, de facto, a parecer, mas sinceramente duvido. Por mais reparos que mereçam o comportamento de Rodrigues dos Santos, não estou a vê-lo entrar nesse jogo. Rodrigues dos Santos fez o que fez porque é assim, e imagino que seja tarde para ser doutra maneira. O problema é claramente outro, e como as coisas chegaram onde chegaram, só há duas saídas possíveis: acabar com o programa, ou afastar Rodrigues dos Santos. É que o foco do programa deixou de ser o que Sócrates tem a dizer sobre determinados assuntos, mas saber se Rodrigues dos Santos e Sócrates se voltam a desentender — e como a desavença vai acabar. Como entretenimento, não estará mal. Mas como A Opinião de José Sócrates não é um programa de entretenimento (o site da RTP descreve-o como um «espaço de comentário e análise política»), será bom que não se transforme num circo.
INCONSEGUIMENTOS, CAPÍTULO 25. Questionada sobre a ausência da Associação 25 de Abril na sessão comemorativa da revolução, a presidente da Assembleia da República foi taxativa: «O problema é deles.» Como é óbvio, os media pegaram logo no caso, e «o problema é deles» foi título em tudo o que é jornal. Hoje, confrontada pelos jornalistas a propósito de não sei quê, Assunção Esteves debitou a rábula do costume: foram os jornalistas que criaram um facto político e não ela, e não há mais nada a dizer. Desconheço as razões da Associação 25 de Abril, que o parlamento, também por razões que desconheço, entendeu recusar. Há, no entanto, um facto a ter em conta: o parlamento tem toda a legitimidade para decidir o que decidiu. Goste-se, ou não, do que decida, o parlamento foi eleito, e não me consta que tenha havido aldrabices. Mas se a Associação 25 de Abril tem o direito de exigir o que lhe apetecer, mesmo as coisas mais absurdas, e os deputados decidir o que muito bem entenderem, mesmo os assuntos mais controversos, Assunção Esteves devia abster-se de usar linguagem imprópria do cargo que exerce. Por outras palavras, devia pensar as vezes que forem precisas antes de abrir a boca em nome da Assembleia da República. Os desastres que têm vindo a suceder-lhe justificam plenamente todas as cautelas.

9 de abril de 2014

NOS PRELIMINARES NÃO HÁ QUEM NOS BATA. A entrevista de Durão Barroso ao Expresso deixou meio mundo a questionar-lhe o propósito, e outro meio a perguntar: qual foi a ideia de só agora, uma década após ter «emigrado» para Bruxelas e a uns meses de terminar o mandato na Comissão Europeia, vir dizer que enquanto primeiro-ministro por três vezes chamou o então governador do Banco de Portugal para aferir os rumores que circulavam sobre o BPN quando nem sequer lhe perguntaram? Duas semanas depois, permanece o mistério. Candidato à Presidência da República, disse logo que não era. Da Comissão Europeia, sairá em Outubro. Sacudir o BPN do capote e culpar Vítor Constâncio, não se alcança o propósito. Que pretenderá ele, afinal? Mário Soares já veio sugerir que a Procuradoria-Geral da República o deve questionar sobre o BPN. Não sei se deve, nem sei se pode. Mas imaginemos que pode, e que deve. Será preciso dizer que Durão dirá, nessa altura, que não se lembra do que falaram?

4 de abril de 2014

SAI UM BORDALO PINHEIRO PARA O PAULO RANGEL. Paulo Rangel, cabeça de lista da coligação governamental às eleições europeias, desafiou António José Seguro e Francisco Assis a dizer se consideram melhor para Portugal que o líder da Comissão Europeia seja alemão, ou português. Isto porque o PS apoia a candidatura de um alemão à presidência da Comissão Europeia, e porque destacados militantes do PS disseram umas coisas sobre Durão Barroso de que Rangel não gostou (Silva Pereira afirmou que o dito foi um mau presidente, José Sócrates considerou-o medíocre). Desconheço, à hora a escrevo, se Rangel teve resposta, e o que Seguro e Assis pensarão sobre o assunto. Mas a pergunta a fazer, agora que se aproximam as europeias e o final do mandado de Barroso, deveria, para mim, ser a seguinte: o que ganhou Portugal com Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia? Que eu saiba, rigorosamente nada. Como a pergunta de Rangel pressupõe que Portugal terá vantagens em ter um presidente português, convinha que explicasse quais, se possível com exemplos concretos. Assim ficaríamos a saber se Rangel fala a sério, se realmente pensa o que disse, o que eu duvido. O episódio tresanda a patriotismo saloio e a demagogia barata — obviamente destinados a confundir quem tenciona votar nas próximas europeias. Como não posso votar, infelizmente Rangel não terá, da minha parte, o que está a pedir. Que seria, evidentemente, o que estão a pensar.
RENTES DE CARVALHO. Soube, pela manhã, que Portugal, a Flor e a Foice estava disponível em eBook. Para quem, como eu, reside fora do país (ou é emigrante, como queiram), não imaginam o que isto significa. Depois de comprado, um livro em papel demora a chegar-me uma semana e tal (nos melhores casos), e como o livro em papel é mais caro que o eBook (e ainda tenho que pagar o transporte), acaba por custar-me mais do dobro. Aqui está, portanto, um caso em que o eBook faz toda a diferença, mas não vou insistir no que há anos tenho vindo a dizer. Quanto ao autor, José Rentes de Carvalho, suspeito que já o disse, mas não me custa repetir: um senhor das letras portuguesas, que descobri tardiamente (as edições portuguesas eram praticamente inexistentes até há poucos anos), e hoje devoro quase ao ritmo dos pastéis de Tentúgal (na verdade, e para mal dos meus pecados, com larga vantagem para estes últimos). Para quem não sabe, Rentes de Carvalho vive na Holanda (parece-me que ultimamente entre a Holanda e Estevais, onde um dia, graças a Ernestina, talvez irei) — daí ser praticamente desconhecido em Portugal até há pouco. A primeira vez que o li foi numa publicação local, a Eito Fora, que apesar disso chegou a ter projecção nacional nos meios, digamos, culturais, e que viria a dar origem à Periférica, de maior fôlego mas com menos tempo de vida. Fiquei fã desde então, já li meia dúzia de livros, e os que faltam não perdem pela demora.
GILBERTO FREYRE. Depois de anos à procura, encontrei, por acaso, o primeiro volume de Casa Grande e Senzala num alfarrabista de Manhattan, e tirando a grafia original, no português em que foi escrito. Leio e choro por mais. Procuro na internet o segundo volume (ou a obra integral), e os poucos que há são relíquias que se fazem pagar como tal. De eBooks, nem falar. Como é possível um livro desta envergadura estar praticamente fora do mercado? Para quando, já agora, edições decentes dos clássicos da língua portuguesa, em papel e digital?
CARSTEN JENSEN. Li pouco mais de duas centenas de páginas de Nós, os Afogados, do dinamarquês Carsten Jensen, mas já deu para ver que é um livro notável. Pena que a tradução tenha sido em português pós-acordo ortográfico, mas o livro vale bem uns impropérios.
COISAS QUE VOU LENDO (8). «Ninguém pode levar a mal a Constâncio não se recordar de factos que aconteceram há uma década. O que não se percebe é por que é que Constâncio convoca os jornalistas para fazer uma revelação de algo sobre o qual não se lembrava.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 4/4/2014

2 de abril de 2014

CADA UM LEMBRA-SE DO QUE LHE CONVÉM. Evidentemente que um dos dois está a mentir, e a memória que um diz ter e o outro não ter é só um pretexto. Será possível que Durão Barroso tenha, quando primeiro-ministro, convidado três vezes o então governador do Banco de Portugal (BP) a explicar-lhe os «rumores» que circulavam sobre o BPN, e o então governador do BP não se lembrar de um único convite? Não me constando que Vítor Constâncio tenha perdido a memória, ou está a mentir, ou mente quem diz tê-lo convocado três vezes para explicar-lhe o BPN. Durão Barroso pode, enquanto primeiro-ministro, não ter estado à altura do que seria exigível, mas hoje é um facto que Constâncio também não fez o que devia — por negligência, por incompetência, por impotência, por outra razão que só ele saberá. Acreditar, portanto, em quem? Por mim, não acredito em nenhum, e devo dizer que se há coisa que me tira o sono é não estar em paz com a minha consciência. Há dois dias que tomei conhecimento do assunto, há dois dias que penso desta maneira, há dois dias que durmo que nem uma pedra. Posso, portanto, continuar a dormir descansado.

28 de março de 2014

QUANDO A PROMISCUIDADE NÃO CORRE BEM. Se bem entendi, o Ministério das Finanças convocou informalmente os media para os pôr ao corrente de um eventual corte nas pensões. Mas o membro do Governo que conduziu o processo, ao que parece o secretário de Estado da Administração Pública, impôs uma condição: a informação revelada no briefing só poderia ser divulgada na condição de ser atribuída a uma fonte não identificada. A ideia do Governo era «quantificar» o impacto que tal medida teria na opinião pública, e a partir daí agir em conformidade. Como as reacções de desagrado terão sido maiores que o esperado, o Governo resolveu mandar o ministro da Presidência dar o dito por não dito, e de caminho acusar os media de manipular a informação que lhes foi fornecida no tal briefing. Resumindo, o Governo usou os media para testar o grau de impopularidade de uma medida, e como o resultado foi um «alarmismo injustificado» (palavras do ministro Marques Guedes), fez-se de vítima — e acusou os media de mentir. O truque é conhecido, e o grau de eficácia por de mais comprovado. Verdade que os media vieram logo dizer que cumpriram «todas as regras», rejeitando culpas e atribuindo-as a quem de direito — e até o Governo já reconheceu ter sido «um erro». Mas o problema é que o truque resultou em cheio, e os media voltaram a não fazer o que deviam. É normal um membro do Executivo, no caso José Leite Martins, falar para os media de um eventual corte nas pensões a coberto do anonimato? É normal os media citarem membros do Governo sem lhes revelarem a identidade? Tenho muitíssimas reservas sobre as fontes anónimas, por razões que expliquei em inúmeras ocasiões. Mas admito que nalguns casos sejam úteis, noutros até necessárias. Como é evidente, não é o caso. Um membro do Governo que se presta a falar apenas sob anonimato devia ser denunciado pelos media, e posto imediatamente na rua. Como nada disto sucedeu (os media apressaram-se a dizer que cumpriram o seu dever quando foram acusados de manipulação mas continuaram a não revelar a identidade do membro do Governo, e o membro do Governo continua em funções), estaremos diante um caso normal. Anormal, pelos vistos, seria cada um fazer o que lhe compete, o que dele se exige, o que dele se espera.
NA DESPEDIDA DE MÁRIO CRESPO. Alertado para uma «entrevista demolidora» de Mário Crespo à ministra da Agricultura e do Mar, fui ver. E que vi eu? Sinceramente, nada que me surpreendesse. Conheço mal o desempenho de Assunção Cristas, mas o pouco que sei não abona a seu favor. Mas se o que Mário Crespo fez é jornalismo, eu vou ali e já venho. De um entrevistador espera-se que faça perguntas, e os possíveis para as ver respondidas. Não se esperam opiniões ou comentários, como sucedeu inúmeras vezes. Quem vê uma entrevista quer saber o que o entrevistado tem a dizer, não o que pensa quem lhe faz as perguntas. Crespo passou a entrevista a fazer o contrário. Pior: passou o tempo a tentar que a entrevistada respondesse de modo que ele, Mário Crespo, pretendia. A sorte dele foi a ministra ter sangue frio para lhe aguentar as provocações, os constantes julgamentos sem direito a contraditório. Fosse outro o entrevistado, e tê-lo-ia deixado a falar sozinho. Mário Crespo, que ontem pôs fim à carreira, tem idade (e experiência) para controlar o que lhe vai na alma — além de esqueletos no armário que lhe retiram autoridade para dar lições de moral seja a quem for. Surpreende-me, por isso, que sempre tenha sido visto pela generalidade dos fazedores de opinião como um jornalista que vai do mau ao excelente conforme os amores ou desamores que Crespo tem pelas «vítimas» ou «felizardos» que lhe saem na rifa, e que ninguém lhe tenha questionado o profissionalismo. O profissionalismo, ou a falta dele.
COISAS QUE VOU LENDO (7). «No dia 17 de Março, a RTP usou sete minutos do Telejornal para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular" que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes. No dia 18, concedeu mais sete minutos de tempo de antena a um "endireita" que diz ter um "dom" que "herdou do pai", que trata "males dos ossos e dos nervos de uma forma que não tem explicação", mas que terá demonstrado, com um galo, a validade do seu tratamento em tribunal. No dia 19, mais seis minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública foram dedicados a uma cartomante que diz acertar em 90% das vezes. No dia 20, mais sete minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapeuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, diz tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano". No dia 21 de Março, mais sete minutos de horário nobre para promover um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu, geralmente santos". Em cinco dias, a televisão pública usou 41 minutos e 39 segundos do Telejornal para fazer publicidade a produtos e serviços milagrosos. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estas crenças.» David Marçal, Público de 28/3/2014

25 de março de 2014

RODRIGUINHOS. Presumo que o formato do comentário de José Sócrates na RTP, estabelecido entre a estação pública e o ex-primeiro-ministro, prevê um comentário semanal sobre temas da actualidade. Pretextando ter-se limitado a cumprir o papel que lhe cabe (jornalista), profissão que pela enésima vez lembrou ter sido aprendida na BBC (não sei com que intenção), Rodrigues dos Santos resolveu quebrar as regras (confrontou o ex-primeiro-ministro com afirmações proferidas no passado sobre o tema que estava em discussão) previamente acordadas. Manifestada a surpresa de Sócrates (alguns dizem irritação), e criticado por um ror de gente, Rodrigues dos Santos decidiu defender-se no Facebook. E que disse ele? Disse, em resumo, o seguinte: tratou-se de uma entrevista, e o papel do jornalista numa entrevista «é fazer de "oposição" ao entrevistado». Ora, o programa não é uma entrevista. É público que Sócrates foi contratado para comentar a actualidade, não para ser entrevistado. O modelo acordado entre as partes apenas serve para Sócrates branquear o passado e fazer campanha de borla? Nesse caso, reformule-se, ou acabe-se com ele. Depois, o papel do entrevistador não é fazer de «oposição» ao entrevistado, como escreveu Rodrigues dos Santos, mesmo que entre aspas. O papel do entrevistador é fazer as perguntas que as circunstâncias exigem, e fazer os possíveis para as ver respondidas. Só isso. E convenhamos que já não é pouco.
BENEFICIAR O INFRACTOR. Tenho para mim que é mais benéfico para qualquer Governo em funções uma crítica sem pés nem cabeça, especialmente vinda da oposição, que o mais rasgado elogio, venha ele de onde vier. Isto a propósito de Mário Soares, que no DN de hoje afirmou que a globalização «deixou de ter sentido», e que o actual Governo é de «extrema direita». O dr. Soares tem razões de queixa do actual governo? É público que as tem, e muitíssimas. Mas não precisava de socorrer-se de disparates para fundamentar as suas queixas, que só produzem o contrário do desejado. Evidentemente que este Governo não é de extrema-direita, se calhar nem de direita. E a globalização não só continua a fazer todo o sentido, como é irreversível. Irreversível, e desejável. Por mais defeitos que tenha.

21 de março de 2014

POESIA ARTIFICIAL. Ainda não percebi a utilidade disto (PoeTryMe), se é que tem alguma utilidade. Mas, ao que li, não duvido que fará melhor poesia do que muita que por aí se publica. Aliás, nem é preciso muito.

19 de março de 2014

LABREGOS A VINTÉM. Ponto da situação às 21:00 horas da Costa Leste dos EUA: Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, considera que a posição adoptada pelo FC Porto (queixou-se de que os dirigentes leoninos estão a coagir os árbitros e quem neles manda) resulta de «desespero e senilidade». O FC Porto respondeu com um comunicado onde se lê, entre outras pérolas, que Bruno de Carvalho é um labrego disfarçado de visconde. Em resposta, o visado citou um treinador a tempo inteiro e filósofo nas horas vagas: «Um vintém é um vintém e um labrego é um labrego.» De caminho mandou uma farpa ao presidente «encarnado», que lhe terá garantido que o título «já está entregue há muito», e que as arbitragens em muito terão contribuído. Aqui chegado, ainda pensei que o caso abrisse o Telejornal, mas como o Presidente da República se preparava para dizer qualquer coisa, o caso foi remetido lá para o fim. Mas se tudo correr como habitualmente, amanhã haverá novos episódios, invariavelmente com cenas tão edificantes como as de hoje. Assim se caminha alegremente para um desfecho potencialmente explosivo — que os mesmos responsáveis hão-de condenar caso se concretize, e farão de conta que não provocaram. As claques passam por ser o que há de pior no futebol, pelo menos no futebol português. Sinceramente, duvido.
FUI SÓ EU QUE VI? Quem viu o Telejornal de ontem com um mínimo de atenção há-de ter reparado especialmente em duas peças: uma da correspondente da RTP nos EUA, que nos deu a conhecer um extraordinário astrólogo de Miami que lhe garantiu que o presidente venezuelano cairá no próximo ano (ou coisa que o valha, já não me lembro bem); outra, já perto do final, noticiando a morte de Medeiros Ferreira, pouco antes do fait divers com que costumam fechar o jornal. Quem me explica o critério editorial por trás disto?

14 de março de 2014

OLHEM SÓ O QUE ME CAIU NA SOPA. Valter Hugo Mãe dificilmente me surpreenderá. Mas ontem li uma coisa em forma de prosa e ainda não recuperei totalmente. A primeira frase deixou-me logo arrasado: «A Pilar del Río é uma mulher sagrada.» Depois, escreveu que a viúva de Saramago é «um ser humano cidadão», uma mulher «consumada, definida, completa, absoluta». Em duas palavras, «uma demasia». Alguém que usamos sempre que pretendemos «aludir à evolução, à democracia e à liberdade». Que «merece um respeito maior», e cujas entrevistas que vai dando «são invariavelmente lições de grande conversa». Aqui chegado, pergunto ao vento que passa: o cavalheiro apaixonou-se pela senhora e resolveu partilhar o estado de alma, ou é só mais uma redacção medíocre? Terá sido só mais um «inconseguimento», como diria a outra, ou sou eu que ando a ver coisas?
PRESCRIÇÕES E OUTRAS TRADIÇÕES. Os tribunais portugueses protagonizaram, esta semana, mais dois casos incompreensíveis: deixaram prescrever as condenações de que foi alvo o ex-banqueiro Jardim Gonçalves, e condenaram o Estado a pagar retroactivamente a remuneração ao ex-espião Silva Carvalho, reintegrado no Estado após se ter voluntariamente mudado para uma empresa privada, a quem terá fornecido informação privilegiada e por esse motivo (suspeita violação do segredo de Estado, corrupção e abuso de poder) constituído arguido no chamado «caso das Secretas». Como não bastasse, o Ministério Público resolveu pedir penas de prisão efectiva para o ex-ministro Armando Vara (acusado de três crimes de tráfico de influência) e José Penedos (acusado de dois crimes de corrupção e mais outros dois de participação económica em negócio), ambos arguidos no «Face Oculta», e o Conselho Superior de Magistratura acaba de anunciar a abertura de um inquérito à prescrição das condenações de Jardim, como se de antemão não soubéssemos que o primeiro caso vai dar em nada, e o segundo noutro tanto. Há muito que a justiça escreveu nas estrelas: o Estado perde invariavelmente sempre que se mete com quem pode defender-se. Perde o Estado, e nós com ele.
COISAS QUE VOU LENDO (6). «Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente. Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias.» Vasco Graça Moura, DN de 3/12/2013

12 de março de 2014

OS TRABALHADORES PORTUGUESES, ESSES MALANDROS. O extraordinário Belmiro de Azevedo afirmou a semana passada: os salários dos trabalhadores portugueses só podem aumentar quando tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os trabalhadores alemães ou ingleses. Os alemães fazem, por hora, «três ou quatro vezes mais do que os portugueses», justifica o chairman da Sonae. E por que não aumentam os portugueses a produtividade? Sendo eles por esse mundo fora considerados bons trabalhadores, por que não são em Portugal? Parece-me evidente que a razão principal para que isso suceda deve-se, antes de mais, aos empresários que há. Como oportunamente lembrou Nicolau Santos, as empresas multinacionais que se encontram em Portugal, «trabalhando esmagadoramente com portugueses, são das mais produtivas dos grupos onde se inserem». Verdade que Belmiro não disse que os portugueses não produzem o que deviam por culpa deles, trabalhadores. Mas Belmiro devia, quando fala sobre este assunto, olhar-se ao espelho, e fazer um acto de contrição. Não necessariamente por ele, que não sei se terá razões para isso. Mas pela classe a que pertence, os empresários, que não sendo os únicos responsáveis pela escassez de produtividade dos trabalhadores portugueses face aos países citados contribuem muitíssimo.

10 de março de 2014

COMEÇAR BEM A SEMANA. Se alguém me apontasse uma pistola à cabeça e ameaçasse estourar-me os miolos caso eu não dissesse o nome do meu compositor favorito, um só, diria o que noutra circunstância não diria: Beethoven. Fico, portanto, de pé atrás sempre que alguém decide usar uma composição de Beethoven e transformá-la noutra coisa qualquer, por vezes tornando-a irreconhecível, como sucede muito no jazz. Não é o caso que o vídeo documenta, onde o compositor não sai, seguramente, a perder. Ora vejam.

7 de março de 2014

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU. Quem leu a entrevista de Fernando Tordo ao Público ficou a saber que ele já fez tudo. Gravou com os músicos e as orquestras mais prestigiados, é o único português que já cantou uma dúzia de poetas «nobelizados» em não sei quantas línguas, já gravou nos estúdios dos Beatles. Infelizmente, tem uns pequenos problemas. As autarquias não têm dinheiro para lhe pagar, os discos vendem-se pouco, o trabalho é escasso e mal pago. Como não bastasse, Portugal é um dos poucos países no mundo em que os artistas com 50 e mais anos de carreira são tratados «como cães», puro «lixo», e quem está no poder faz o que pode para varrer de cena os artistas com um passado como o dele. Disse mais Fernando Tordo: «Nos dois últimos anos o que tenho feito é mostrar às pessoas algumas coisas que os portugueses deitaram fora.» Resumindo, os portugueses não o merecem. (Não chegou a tanto, mas ficou implícito no que disse.) Desculpem a presunção, mas julgo perceber o problema de Tordo. Atrevo-me, por isso, a dizer: também eu gostava que a meia dúzia de leitores deste blogue se multiplicasse por seis milhões, que eu dou tudo o que sei para fazer o que julgo merecer mais atenção. Infelizmente, a maioria dos meus conterrâneos não lê, os que lêem interessam-se por outras coisas, e a concorrência nunca mais acaba. Depois há outro problema: se calhar não sou tão bom como julgo. Por tudo o que lhe ouvi até hoje a propósito da emigração para o Brasil, é um problema que ele não tem. Não sei se felizmente.

4 de março de 2014

28 de fevereiro de 2014

AS RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE. O Partido Comunista diz que «a adoção de uma grafia comum para o conjunto de países de Língua Oficial Portuguesa é um objectivo que apresenta indiscutíveis vantagens, mas suscita incontornáveis dúvidas e dificuldades». Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, afirmou que o seu partido «continua a ver vantagens na aproximação ortográfica» entre as várias grafias da língua portuguesa. Paulo Pisco, deputado do PS, argumentou que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) está «indissociavelmente ligado à projecção e estratégia global da língua portuguesa», e que o «ruído que se tem criado (...) contra o acordo tem argumentos pouco consistentes». Infelizmente, nenhum entrou em detalhes. Que o acordo suscita «incontornáveis dúvidas e dificuldades», como diz o PC, só não percebeu quem anda distraído. Mas quais serão as «indiscutíveis vantagens»? Para não variar, não especifica. Sobre as vantagens de uma «aproximação ortográfica», de que Fazenda parece não duvidar, o que se vê é que o negócio produziu um maior distanciamento ortográfico, e está por demonstrar que uma «aproximação» seria benéfica. Finalmente, Paulo Pisco repete a cartilha politicamente correcta: o acordo é fundamental para a «projecção e estratégia global da língua portuguesa», coisa de altíssima política que só os iluminados saberão o que é. Depois, ou o sr. deputado tem andado distraído (e nesse caso devia abster-se de se pronunciar sobre coisas que não sabe), ou mente descaradamente quando diz que o «ruído» contra o AO90 «tem argumentos pouco consistentes». Ao contrário do que afirma, há dezenas de argumentos devidamente fundamentados contra o acordo (meia hora de Google bastarão para o demonstrar). Quem os não tem (pelo menos não os tem apresentado) é quem o defende, que se fica por frases pomposas, certamente destinados a impressionar os pategos, a enganar os incautos, e a esconder a ignorância.
PROGRESSISTAS DO RESTELO. Para não variar, e porque assim se julgam dispensados de argumentar, alguns defensores do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) chamam aos seus detractores velhos do Restelo, preguiçosos, snobs, como se a questão fosse entre velhos e novos, «conservadores» e «progressistas». É o caso de Carlos Enes, deputado do PS, que também para não variar não apresentou um único argumento a favor do dito, muito menos se deu ao cuidado de explicar por que é necessário um acordo ortográfico entre falantes da língua portuguesa quando é sabido que as grandes potências linguísticas convivem diariamente com dezenas de variantes da mesma língua e nunca precisaram de um acordo para coisíssima nenhuma. Aliás, os «acordistas» distinguiram-se desde a primeira hora por uma impressionante miséria argumentativa, e ultimamente por um silêncio sepulcral. Tirando abstraccionismos quase sempre embrulhados em frases pomposas, que qualquer semi-letrado descobre vazias de substância, não se lhes vê o mais leve argumento. Por que será? Como é cada vez mais evidente, porque não os têm.

26 de fevereiro de 2014

EMIGRAR PARA PORTUGUÊS VER. Por razões que não interessam, emigrei há mais de duas décadas. Hoje, olhando para o estado a que um bando de irresponsáveis deixou o meu país, não exagero se disser que me saiu a sorte grande. Por variadíssimas razões, à cabeça das quais porque a esta hora estaria a fazer as malas, depois de perder o emprego e a esperança de arranjar outro. Triste país, o meu, que investe fortunas em educação para formar cidadãos que depois vão criar riqueza para países que neles não investiram um centavo. Triste país, o meu, que nos últimos dois anos viu emigrar mais de 200 mil portugueses, oito mil (repito: oito mil) com mais de 65 anos. Triste país, o meu, que se comove com artistas menores, que em público vertem lágrimas que não vertem em privado — e que de uma hora para a outra, graças a uma investigaçãozita, vêem a «tragédia» de emigrar tornar-se uma verdadeira comédia. Comédia, por sinal, que custou milhares de euros aos contribuintes, e com a qual certamente não se terão divertido — nem saído mais instruídos, como pretendem estes «profetas».

21 de fevereiro de 2014

PROÍBAM-SE. Absolutamente de acordo com o professor Jorge Miranda, que ontem defendeu «uma iniciativa legislativa» destinada a proibir definitivamente as praxes académicas, que considera «uma questão de polícia». As praxes integram os caloiros, facilitam o conhecimento entre estudantes, e criam amizades? Nesse caso, não sei como se integram os caloiros nos países onde elas não existem. Também não me parece que a proibição das praxes as tornaria clandestinas, como defendeu dezena e meia organizações académicas, muito menos ainda mais violentas. É que não vislumbro uma lei a proibi-las que não punisse, de facto, os promotores, e quando falo em punir quero dizer punir exemplarmente. Até porque, nesse caso, os caloiros facilmente recusariam as praxes e denunciariam os seus autores — coisa que hoje, por razões óbvias, raramente sucede. Provavelmente a proibição não as erradicaria completamente, como as várias leis contra os vários tipos de crimes não impedem que eles sucedam. Mas não duvido que a proibição as reduziria a níveis insignificantes, e dos excessos jamais se falaria.

19 de fevereiro de 2014

NÃO É VÍTIMA QUEM QUER. Por uma questão de princípio, não aprecio expulsões dos partidos políticos, mas não me choca que o PSD tenha expulsado António Capucho. Digo-o sem a mais leve ironia. Afinal, Capucho resolveu candidatar-se contra alguém indicado pelo seu próprio partido, pelo que vir agora armar-se em vítima soa, no mínimo, forçado. Discordou a tal ponto que o levou a avançar contra o candidato do seu próprio partido? Considera que o PSD se «encontra cada vez mais afastado da matriz social-democrata e progressivamente mais enquistado à volta de um conjunto de oligarquias»? Nesse caso, teria sido mais coerente (e sensato) desvincular-se do partido. Se não se percebe por que não o fez na altura própria, ainda se percebe menos a escandaleira que por aí vai.

14 de fevereiro de 2014

MAIS INCONSEGUIMENTOS. Decididamente que Assunção Esteves não está à altura do cargo que desempenha. Pior: é uma vergonha. Recorrer «ao mecenato (patrocínio) para suportar os custos financeiros de algumas iniciativas para assinalar o próximo 25 de Abril»? «Ornamentar chaimites com cravos criados pela artista plástica Joana Vasconcelos»? Se no primeiro caso seria inadmissível, no segundo seria ridículo. Inadmissível porque, considerando o mesmo princípio, não se veria inconveniente que o Ministério das Finanças fosse patrocinado pelo Banco Espírito Santo ou o Ministério da Justiça pela sociedade Maria do Rosário Mattos e Associados, boutique full service ao seu dispor. Ridículo porque andamos a vender produtos de primeira qualidade (os «Mirós»), e depois propõe-se contratar uma artista muito contestada nos meios artísticos, a meu ver com razão, e por motivos mais substantivos que a mera dor de cotovelo. Depois dos inconseguimentos frustracionais, com que a presidente da AR pôs a nu o que lhe vai na cabeça, só nos faltava a Colgate patrocinar as comemorações de Abril, e uma artista de terceira ordem enfeitar os calhambeques da tropa. A presidente da Assembleia da República está com um problema, ou foi sempre assim?

11 de fevereiro de 2014

ASSIM VAI O JORNALISMO. A notícia do dia não foi o alegado romance entre Obama e Beyoncé. A notícia do dia foi que o Washington Post se preparava para revelar toda a história, que o jornal prontamente desmentiu, alegando não se prestar a esses papéis. É que o jornalismo não só passou a ser constante matéria de notícia, quase sempre pelas piores razões, como passou a ser notícia sempre que se limita a fazer o que dele se espera.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (2). Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, mandou, em tempos, retirar do currículo a circunstância de ser filha de um alfaiate. A notícia foi dada pela revista Sábado, e nunca vi desmentida. Foi, portanto, sem surpresa que ouvi as recentes declarações da senhora à Rádio Renascença, cuja ligação para o vídeo aqui deixei há três dias. As declarações da segunda figura do Estado ultrapassaram, de facto, o imaginável. Ou talvez não, que de quem esconde as origens humildes não se pode esperar muito mais.
COISAS DO RECTO. Nada de extraordinário o facto de Judite de Sousa terminar o comentário com Marcelo de Sousa com um «aqui fica, então, um reto». O extraordinário foi os «acordistas» não se lembrarem de transformar o repto em reto.
OS COITADINHOS DO BPN. Numa coisa o ex-banqueiro João Rendeiro parece estar cheio de razão: a generalidade dos investidores do BPN foi movida por uma ambição desmedida, e salvo excepções sabiam o risco que corriam. Deveriam, portanto, abster-se de reclamar nos tribunais o que dizem ter direito, e derramar lágrimas sobre os contribuintes — que já têm que pagar as aventuras em que eles se meteram.

10 de fevereiro de 2014

MIGUEL SOUSA TAVARES NO SEU MELHOR (1).



Expresso de 8 de Fevereiro de 2014

7 de fevereiro de 2014

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Não é novidade para ninguém, mas não fará mal recordar como são escolhidos os candidatos a deputados ao Parlamento Europeu e Assembleia da República: alguém sugere os nomes, e o chefe do partido por quem se candidatam aprova, ou não. Depois, os eleitores votam em quem os chefes determinaram, e caso não gostem dos nomes propostos resta-lhes votar nos «outros», abster-se, ou não por os pés nas mesas de voto. Também será desnecessário lembrar que os eleitos do chefe «têm que se portar bem» — antes de serem candidatos, porque doutro modo não serão escolhidos; depois de já terem sido deputados, porque serão excluídos das próximas listas caso tencionem recandidatar-se. Temos, portanto, centenas de deputados no Parlamento a fazer o que quatro ou cinco chefes partidários faria com a mesma legitimidade dos duzentos e tal, e com maior economia de meios. Sim, as coisas são o que são graças ao sistema que temos. Mas convém lembrar que o sistema que temos é assim porque ninguém quer que seja doutra maneira. O resultado deste embuste democrático (chamemos-lhe assim para simplificar) é um sistema onde quatro ou cinco mandam em todos, que por sua vez obedecem a quem tem o livro de cheques. Queiramos, ou não, é a democracia que há. Ou a «ausência de democracia», de que há pouco se queixava Rui Rio, que ainda no dia anterior, então presidente de uma autarquia, não o incomodou por aí além.
INCONSEGUIMENTOS INACREDITÁVEIS (1).

COISAS QUE VOU LENDO (3). «Viajar é uma solidão em trânsito.» Cardoso Pires, prefácio a O Jogo do Reverso, de Antonio Tabuchi

4 de fevereiro de 2014

UM AUTOCARRO PARA INGLÊS VER. A mais recente vitória do Chelsea de Mourinho (sobre o Manchester City) derreteu a imprensa inglesa. Vejam, além doutros, o que dizem The Guardian (aqui e aqui), The Telegraph (aqui e aqui), e The Independent (aqui e aqui). O que parecia a «técnica do autocarro», como os meios futebolísticos designam a estratégia das equipas que tudo defendem e nada atacam, era, afinal, um refinado embuste, e o mais engraçado foi ter enganado até os mais sabidos, a começar pelo treinador adversário, um respeitável cavalheiro com muitos quilómetros de bola. No final, cereja em cima do bolo: Mourinho revelou que a derradeira palestra antes do jogo não foi proferida por ele, como habitualmente sucede. A perlenga esteve a cargo do seu mui estimável massagista, um escocês que descreveu como um sujeito que gritou umas coisas incompreensíveis num sotaque impenetrável, mas a quem os jogadores não regatearam aplausos.
UNION SQUARE, NY. 

30 de janeiro de 2014

ADOÇÃO DE FATO. Mais um reparo ao referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo aprovado pelo PSD: as perguntas não deveriam ter sido formuladas segundo as regras do novo Acordo Ortográfico (AO90), que os deputados sociais-democratas aprovaram? Terá sido porque os «unidos de facto» passariam, no caso, a designar-se «unidos de fato», e porque o «concorda com a adopção» passaria a designar-se «concorda com a adoção»? Tiveram, enfim, receio de cair no ridículo? Nesse caso, que ajam em conformidade quando chegar a hora de desfazer o que nunca deveriam ter feito.

28 de janeiro de 2014

QUANDO A ASNEIRA SE ALIA À IGNORÂNCIA. Já tudo foi dito sobre o referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo, hoje enviado para o Tribunal Constitucional. Mas quase nada foi dito sobre as perguntas propostas, que são as seguintes:

1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adoptar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?

2. Concorda com a adopção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?

Por mim, concordo, desde já, num ponto: isto está escrito num português miserável. O PSD «está disponível para reformular as perguntas» se o Tribunal Constitucional «considerar que elas desrespeitam a lei», disse o líder da JSD, que aprovou o referendo. Como se imagina que o Tribunal Constitucional terá dificuldade em perceber o que se pergunta (além de eventuais dúvidas de natureza constitucional), adivinha-se um molho de brócolos. Como nas novelas, os próximos capítulos prometem. Nada de bom neste caso, até porque já há perdedores: as crianças, cujos direitos deveriam prevalecer sobre todos os outros, e foram, de novo, adiados.

27 de janeiro de 2014

COISAS QUE VOU LENDO (2). «All I can say about Italians is this: they are children of Nature, who, for all the pomp and circumstance of their religion and art, are not a whit different from what they would be if they where still living in forests and caves.» Goethe, Italian Journey