20 de agosto de 2014

DESABAFO. Sei que isto não interessa a ninguém, mas já ouvi dezenas de vezes o segundo movimento (Adagio un poco mosso) do que popularmente ficou conhecido por Concerto do Imperador, de Beethoven. Por vezes ouço-o duas e três vezes seguidas, e só não ouço ainda mais porque receio «gastá-lo». A versão que aqui sugiro (da London Symphony Orchestra, dirigida por Colin Davies e com Claudio Arrau no piano) não é, musicalmente, a melhor que conheço. Mas considerando a qualidade do áudio e do vídeo, deve ser do melhor que há.

19 de agosto de 2014

PROCESSAR OS CONTRIBUINTES? (1). Compreende-se que os investidores que não conseguiram escapar à queda do BES (e derivados) queiram, agora, recuperar algum. Também não me custa a crer que o Governo e os organismos que tutela não agiram como deviam, induzindo os investidores a decidir erradamente. Mas que os investidores se achem no direito de fazer com que os contribuintes paguem as aventuras em que se meteram (processar o Estado significa, caso sejam bem sucedidos, embolsar dinheiro dos contribuintes), sabendo de antemão o risco que corriam, é inadmissível. O precedente, a abrir-se, levar-nos-ia para cenários surrealistas. Por exemplo, se o Governo garante que amanhã faz sol e choveu a potes, há sempre um ingénuo que se fiou no Governo e apanhou uma molha por não ter guarda-chuva — logo tem o direito de processar o Governo e embolsar a respectiva indemnização. Se o Presidente da República jurar que os melões de Almeirim vão, este ano, ser os melhores de sempre, e os ditos não cumprem a profecia, qualquer apreciador de melões terá o direito de se sentir enganado e processar o Presidente. Os exemplos podiam continuar, mas julgo que estes bastam para demonstrar o absurdo da ideia. Depois, há a realidade que convém não esquecer. Se os governantes nem sequer se demitem (ou são demitidos) quando cometem aldrabices, como poderiam ser penalizados (ou o país por eles) por erros de avaliação? Por mais tentador que tudo isto possa ser, por mais justo que tudo isto possa parecer, o reverso da medalha é demasiado mau para que se vá por aí. Os erros políticos devem ser pagos nas urnas, e só nas urnas. Não é a solução perfeita, mas é a menos má.

13 de agosto de 2014

A SILLY SEASON JÁ NÃO É O QUE ERA. São tantas as trapalhadas (para não lhe chamar outra coisa) que diariamente se anunciam que praticamente se deixou de falar de Ricardo Salgado, o ex-dono disto tudo que será o principal responsável pela novela em cena. Digo «será» porque são tantas as notícias que a gente chega a um ponto que perde o fio à meada. Ele são heróis que passam a vilões num abrir e fechar d’olhos, contribuintes que não iam desembolsar nem um centavo mas agora já vão, polícias que emprestam dinheiro a ladrões, investidores que põem o deles ao fresco minutos antes da hecatombe por obra e graça de um espírito santo de orelha no local certo à hora certa, e hoje mesmo ficou-se a saber que os investidores que ficaram a arder ameaçam extorquir não sei quanto ao Estado (leia-se contribuintes), alegando que o Estado não fez o que devia — ou fez mal o que devia. Talvez amanhã tudo isto seja doutra maneira, que a silly season está cada vez mais imprevisível.
AINDA OS ERROS ORTOGRÁFICOS. Sinceramente, não me parece normal tanto erro ortográfico (um em cada três professores examinados deu três ou mais erros, 15% cometeram cinco ou mais) e de pontuação (40% erraram três ou mais vezes) numa prova destinada a avaliar docentes contratados pelo Estado. Mesmo considerando que outras classes profissionais também os dão, como um professor se apressou a lembrar — e a exemplificar (com razão) — com os jornalistas, assim julgando desvalorizar uma questão que não pode — nem deve — ser desvalorizada. Mas se a justificação não convence, já me parece extraordinário que a presidente de uma Escola Superior de Educação venha dizer que os erros detectados na tal prova são normais, uma vez que os professores estavam «em situação de tensão» quando fizeram os exames, e segundo ela é normal que se erre quando se está sob tensão. Como é evidente, a explicação não explica coisíssima nenhuma, muito menos vinda de quem vem. Desde quando alguém que tem de prestar provas não está sob tensão? E quem, já agora, melhor que os professores, que periodicamente examinam os seus alunos, saberá que assim é? Eis um exemplo acabado de que os professores do ensino público, contratados ou efectivos, se julgam intocáveis. Definitivamente que não há, para eles, professores incompetentes, como acontece em todos os sectores de actividade. Só isto chega para duvidar das restantes razões que juram ter.

8 de agosto de 2014

ORA AQUI ESTÁ UM POLÍTICO DIFERENTE... PARA PIOR. Conforme avisou no próprio dia em que foi eleito deputado ao Parlamento Europeu (tencionava candidatar-se às Legislativas de 2015 e/ou às Presidenciais de 2016), Marinho Pinto avisou hoje mesmo que abandonará o cargo daqui a um ano, porque considera que «os problemas nacionais são mais graves do que os europeus». «O elemento agregador da Europa não está nos ideais, nem nas políticas, mas no dinheiro», afirma o ex-bastonário dos Advogados. Como não acredita «numa organização toda construída em torno desse dinheiro», Marinho Pinto promete mudar de vida daqui a um ano. E porquê só daqui a um ano quando podia fazê-lo hoje mesmo? Infelizmente, não explicou por que vai permanecer tanto tempo num órgão que apenas se move pelo dinheiro, em que diz não acreditar. E como não explicou, a decisão presta-se às mais variadas leituras. Por exemplo, talvez lhe convenha a mesada (à volta de 17.000 euros), que em tempos considerou um exagero. Para um cavalheiro que se apresentou a sufrágio tendo como lema combater os interesses instalados e os poderosos sem escrúpulos, naturalmente considerando-se como o oposto disso tudo, a bota não bate com a perdigota. Como há muito se percebeu, Marinho Pinto chegou há dois dias à política, e logo se tornou um ilustre representante do pior que há nela. Bem pode, por mim, candidatar-se ao que lhe convier que não lhe darei uma segunda oportunidade. Aliás, por razões que dei conta no momento apropriado, nunca lhe daria, sequer, a primeira.

6 de agosto de 2014

COISAS NOJENTAS. Desde quando é normal (e permitido) exibir, nos media, fotografias de vítimas menores, no caso uma criança de dois anos? No Correio da Manhã, provavelmente desde sempre. Voltou a hoje a fazê-lo com a notícia de que um tribunal decidiu entregar o pequeno Daniel à guarda do pai, após um episódio grotesco protagonizado pela própria mãe. Pelo menos na edição online, que à outra não tenho acesso.

5 de agosto de 2014

MAIS UNS TROCOS PARA O PEDITÓRIO DOS PROFESSORES. Resido e trabalho num país onde a formação académica e o currículo não bastam para que a entidade patronal, pública ou privada, dispense de examinar, se assim o entender e pelos métodos que julgue adequados, quem pretende contratar. As provas suplementares (chamo-lhe assim para simplificar) destinam-se a escolher o candidato com o perfil que julguem adequado, e parece-me um procedimento normal. Talvez mais do que normal: como nunca vi quem questionasse estes métodos, que certamente terão os seus defeitos, é um não assunto. Como é sabido, sempre que em Portugal um organismo público impõe — ou pretende impor — estas regras, cai logo o Carmo e a Trindade. Porque os candidatos já estão certificados pelas universidades, argumenta-se, daí que mais ninguém deve fazer avaliações suplementares caso os pretenda contratar. Como já perceberam, falo, essencialmente, dos professores do ensino público, que volta e meia invocam este argumento para se esquivarem às avaliações — e no caso de lhes faltar argumentos para se esquivarem às avaliações põem os métodos em causa, alegando erros de toda a espécie. Admitem, quando muito, que as entidades patronais façam avaliações desde que sejam eles, professores, a ditar as regras. O Ministério da Educação pretende, com as avaliações, escolher os melhores e dispensar os restantes? Sabendo-se que há professores a mais no ensino público, parece-me um método justíssimo. A minha única discordância é não assumi-lo com frontalidade, mesmo que os custos políticos lhe saiam caríssimos.

1 de agosto de 2014

A GUERRA CONTINUA A DIZIMAR O JORNALISMO. Nunca tive uma opinião definitiva sobre o conflito israelo-palestiniano (chego a pensar que sou o único), e como toda a gente, lamento a carnificina em curso. Mas também lamento o «jornalismo de causas», que só vê o que lhe convém e esconde o que não lhe convém, deixando quem não percebe bem o que se passa ainda a perceber menos. Relatam que há centenas de vítimas inocentes, geralmente mulheres e crianças, e não há como duvidar. E combatentes do Hamas (ou doutras forças que se opõem a Israel)? Não terá morrido ninguém? Segundo o dito «jornalismo», nem um. Estranha pontaria a do exército israelita.

31 de julho de 2014

AVISO AOS INCAUTOS. Um dia destes resolvi experimentar uma massagem chinesa (chamo-lhe assim porque não sei como se designa), daquelas feitas na rua montado num cavalete. Olhei para a tabela de preços e, desconfiado, escolhi a mais básica, ao que o massagista logo insistiu para que eu escolhesse outra, segundo ele muito melhor, segundo a tabela de preços a custar o dobro. Como foram várias as vezes que me magoou, impossível relaxar durante o exercício — coisa, suponho, ser o objectivo do dito. Saí de lá não sei se na mesma, mas aliviado por não me ter escangalhado o esqueleto — e não sem uma última insistência para que eu fizesse o que me recomendava, que segundo ele me deixaria como novo. Vendo bem, não se pode exigir muito mais de um serviço que me custou doze dólares mais gorjeta, que o sujeito recolheu sem me olhar, nem me agradecer. Serviu-me, ao menos, de lição, e convenhamos que lições por este preço não são fáceis de arranjar.

25 de julho de 2014

DESPROPORÇÃO DE ARGUMENTOS. Como sabe quem acompanha o conflito israelo-palestiniano, sempre que uns e outros se confrontam os israelitas matam mais que os palestinianos, graças aos meios que os primeiros têm de sobra, e aos segundos lhes falta. Enquanto os palestinianos fazem duas ou três vítimas mortais, os israelitas fazem duas ou três centenas. É a famosa desproporção de meios, que muitos usam como argumento para acusar um dos lados (Israel), como se possuir mais meios que o adversário lhe retire razão — e, por consequência, quem os não tem passe a tê-la. Como é óbvio, o argumento não tem pés, nem cabeça. É popular junto de quem, sobre tão delicado assunto, tem ideias definitivas, geralmente pré-concebidas, mas não explica — nem deslegitima — coisíssima nenhuma. Imaginem, já agora, que a desproporção de meios era ao contrário. Alguém duvida que Israel já tinha sido varrido do mapa?
A JUSTIÇA E O EX-DONO DISTO TUDO. Agora que Ricardo Salgado parece ter caído em desgraça, a justiça decidiu deitar-lhe a unha para lhe fazer umas perguntas sobre burlas, abusos de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. Mais: decidiu constituí-lo arguido no âmbito do caso «Monte Branco», e obrigá-lo a depositar uma caução de três milhões de euros para aguardar julgamento em liberdade. Perante isto, impõe-se, desde já, uma pergunta: terá a justiça descoberto, de repente, que havia indícios de crimes que ainda há seis meses não havia? Honestamente, duvido. Regozijemo-nos, contudo, com os últimos desenvolvimentos, apesar de ser mais que provável que tudo termine da forma do costume.

24 de julho de 2014

DESCULPAS DE MAU PAGADOR. Gostei da metáfora («dores de crescimento») com que o presidente da TAP caracterizou os actuais problemas da empresa. Gostei, mas não me comovi. Afinal, a TAP está a operar acima das suas possibilidades, vendeu viagens que não pode efectuar. Fernando Pinto diz que o fornecedor não cumpriu os prazos previstos para a entrega de não sei quantas aeronaves que a TAP lhe terá adquirido — razão, sublinha, a que a TAP «é totalmente alheia». Como é evidente, a história não acaba aqui. O problema da TAP com os fornecedores não serve de desculpa para o espectáculo em cena, e o espectáculo em cena diz-nos que foram cancelados 50 voos em apenas quatro dias. Sobra, portanto, uma pergunta: como podia a TAP vender viagens sem estarem asseguradas as condições para as efectuar? Eis, a meu ver, a questão, ou a primeira questão. Estivessem as vítimas de cancelamentos e atrasos habituados a reclamar o que têm direito, e neste preciso momento a TAP estaria a desembolsar indemnizações atrás de indemnizações cujas consequências podiam ser-lhe fatais.

22 de julho de 2014

SE NÃO HÁ PROBLEMA, TALVEZ HAJA UM PROBLEMA. Depois do primeiro-ministro e outros membros do Governo, ontem foi a vez do Presidente da República garantir que o Banco Espírito Santo (BES) e o sistema bancário em geral está sólido e recomenda-se. Evidentemente que quando tanta gente importante nos vem dizer que não há problema com o BES e com o sistema bancário em geral, estamos, de facto, com um problema. Estas manobras recordam-me o célebre repórter que em Bagdade garantia, em directo para a TV, que a tropa americana não tinha entrado na cidade, enquanto o que se passava atrás dele (viaturas militares americanos a passar) atestavam o contrário do que garantia.
À ATENÇÃO DAS EDITORAS PORTUGUESAS. Dei uma vista de olhos pelos principais sites portugueses que vendem livros online e não encontrei uma só edição em português de William Ospina, escritor colombiano de quem leio as últimas páginas do excelente El país de la canela. Estão à espera de quê as editoras portuguesas para deitar mãos à obra?

18 de julho de 2014

CHAMAR OS BOIS PELOS NOMES. Pedro Braz Teixeira defendeu anteontem que os principais responsáveis do GES e do BES devem ser levados a tribunal. «Entendo que seria muito benéfico para o interesse público que houvesse uma acusação conjunta do Ministério Público, do Banco de Portugal e da CMVM», disse o investigador, sugerindo que lhe «parece evidente que uma acusação conjunta daria muito mais força à acusação». Ontem, João Vieira Pereira escreveu no Expresso: «Chegámos a um ponto que não basta saber de quem é a culpa. É preciso que os culpados respondam pelo que fizeram.» Não sei no que isto vai dar, mas não será preciso ser profeta para adivinhar que acabará em nada caso a justiça entenda haver matéria criminal e agir em conformidade. Saúda-se, no entanto, que se comece a dizer o óbvio. E o óbvio é que há demasiados indícios (para não dizer provas) de práticas criminosas que não podem deixar a justiça indiferente. Como algumas empresas com a marca Espírito Santo têm sede noutros países (Luxemburgo e Suíça, por exemplo), e há notícias de que estão a ser investigadas nesses mesmos países, pode ser que daí venha alguma coisa.
JOÃO UBALDO RIBEIRO, 1941-2014.

«Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.» Mesa farta para todos

«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» Veja de 18 de Maio de 2005
JORNALISMO DE CACA. Precisamente no dia em que o exército israelita decidiu fazer uma incursão terrestre em Gaza, por razões que não cabem neste texto, pelo menos um jornalista da nossa praça veio defender a ideia de que alguém mandou abaixo um avião na Ucrânia para desviar a atenção do conflito israelo-palestiniano. A ideia é um bocado amalucada, mas presumo que há quem acredite. As teorias da conspiração têm sucesso garantido, sobretudo junto de quem pouco ou nada sabe sobre os assuntos lá abordados, e nem o facto de nunca se confirmarem demove os entusiastas. Como em tempos escrevi, há quem esteja disposto a perder duas e mais horas a inteirar-se de uma teoria da conspiração, mas não tem meia hora para se inteirar dos factos. Tudo porque as teorias da conspiração são mais interessantes que os factos, que para esta gente só atrapalham.