24 de outubro de 2014
ARGUMENTOS DESPROPORCIONAIS. Já disse e repeti o que penso do conflito israelo-palestiniano. Mas há uma coisa que me tira do sério: acusar Israel de responder aos seus inimigos «de forma desproporcional», como ainda ouvi esta semana. Alguém explica por que se deve responder de forma proporcional? E o que será, já agora, responder de forma proporcional? À pedrada se se for apedrejado, e com o mesmo número de pedras? Nunca vi argumento mais tão sem pés, nem cabeça. Num conflito, valem as razões que cada um diz ter para atacar ou defender-se. Quem lhe escasseia os meios não tem, como pretende a «tese» da desproporcionalidade, mais razão que o outro, nem retira ao outro legitimidade para os usar.
23 de outubro de 2014
OU HÁ MORALIDADE, OU COMEM TODOS. O presidente da República e o primeiro-ministro enganaram os investidores do Banco Espírito Santo (BES), assegura Daniel Oliveira. Porque ambos conheciam a real situação do BES, e aconselharam outra. Não conheço as declarações dos governantes, mas acredito que o Daniel saiba do que fala. Assim sendo, é grave? Com certeza que é grave. E mentir aos portugueses sobre variadíssimas matérias sobre as quais também sabem, à partida, estar a mentir? Não será igualmente grave, talvez ainda mais grave? Mentir aos accionistas de determinado banco, que de antemão sabem os riscos que correm, é mais grave que mentir aos eleitores? Na opinião do Daniel Oliveira (e doutros mais), é mais grave. Não vou repetir o que já disse por duas ou três vezes. Se os accionistas lesados pelas mentiras dos governantes têm direito a ser ressarcidos, então a generalidade dos cidadãos também tem. Parece-me que isto chega e sobeja para demonstrar o absurdo da teoria.
22 de outubro de 2014
INCOMPATIBILIDADES. Para usar uma expressão que detesto mas muito em voga, os episódios à volta do universo Espírito Santo são, para os comentadores políticos, incontornáveis. O assunto tornou-se obrigatório para quem comenta a actualidade, e tudo indica que por muito mais tempo. Como já se viu, Miguel Sousa Tavares não tem condições para se pronunciar sobre o caso (é compadre de Ricardo Salgado) com um mínimo de isenção. Marcelo Rebelo de Sousa é amigo do banqueiro agora em desgraça, e está tudo dito. Haverá outros, mas estes são, seguramente, os mais influentes. Nada contra Miguel Sousa Tavares ou Marcelo Rebelo de Sousa, mas é preciso que isto se diga — e repita — as vezes que for preciso. A ver se alguém decide o óbvio.
15 de outubro de 2014
COLHEITA DAS VINDIMAS.
Além de meia dúzia de garrafas de origem certificada e proveniência segura, e da gastronomia capaz de ressuscitar um moribundo, nos primeiros dias do santíssimo descanso dediquei-me à colheita de Viagem a Itália, de Goethe, Através do Continente Negro (Volumes I e II), de Henry Morton Stanley, O Homem sem Qualidades (Volumes II e III), de Robert Musil, Enviado Especial, de Evelyn Waugh, O Doutor Glas, de Hjalmar Soderberg, As Maçãs Douradas, de Eudora Welty, e Vidas Perdidas, de Nelson Algren — todos encomendados com prudente antecedência, e prudentemente guardados em local seguro. Depois foram A Estrada do Tabaco, de Erskine Caldwell, A História Não Acabou, de Claudio Magris, Arquivos do Norte, de Marguerite Yourcenar, Novelas e Textos Para Nada, de Samuel Beckett, O Caminho de San Giovanni, de Italo Calvino, Portugal, Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, A Travessia, de Cormac McCarthy, Arte de Amar, de Ovídio, Sonhos de Bunker Hill, de John Fante, O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, Sapho, de Alphonse Daudet, A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo, O Ente Querido, de Evelyn Waugh, A Divina Comédia, de Dante (oferta do meu sobrinho), Confissões de Uma Liberal, de Maria Filomena Mónica (que comprei sem saber que já tinha), e Pan, de Knut Hamsun (que voltei a comprar pelo mesmo motivo). O pior é o espaço para os acomodar, cada vez mais escasso. Já faltou mais para começar a pô-los debaixo da cama.
Além de meia dúzia de garrafas de origem certificada e proveniência segura, e da gastronomia capaz de ressuscitar um moribundo, nos primeiros dias do santíssimo descanso dediquei-me à colheita de Viagem a Itália, de Goethe, Através do Continente Negro (Volumes I e II), de Henry Morton Stanley, O Homem sem Qualidades (Volumes II e III), de Robert Musil, Enviado Especial, de Evelyn Waugh, O Doutor Glas, de Hjalmar Soderberg, As Maçãs Douradas, de Eudora Welty, e Vidas Perdidas, de Nelson Algren — todos encomendados com prudente antecedência, e prudentemente guardados em local seguro. Depois foram A Estrada do Tabaco, de Erskine Caldwell, A História Não Acabou, de Claudio Magris, Arquivos do Norte, de Marguerite Yourcenar, Novelas e Textos Para Nada, de Samuel Beckett, O Caminho de San Giovanni, de Italo Calvino, Portugal, Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, A Travessia, de Cormac McCarthy, Arte de Amar, de Ovídio, Sonhos de Bunker Hill, de John Fante, O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, Sapho, de Alphonse Daudet, A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo, O Ente Querido, de Evelyn Waugh, A Divina Comédia, de Dante (oferta do meu sobrinho), Confissões de Uma Liberal, de Maria Filomena Mónica (que comprei sem saber que já tinha), e Pan, de Knut Hamsun (que voltei a comprar pelo mesmo motivo). O pior é o espaço para os acomodar, cada vez mais escasso. Já faltou mais para começar a pô-los debaixo da cama.
REGRESSO ANUNCIADO. Andei afastado das notícias nas últimas três semanas, demasiado tempo para quem vive delas. Regresso com a impressão de me ter escapado algo importante, mas talvez seja apenas um sentimento de culpa. Dediquei os últimos dias a ler incontáveis publicações atrasadas, na esperança de recuperar o tempo perdido. Terei ficado melhor informado, mas a sensação permanece.
18 de setembro de 2014
12 de setembro de 2014
ADIVINHEM DE QUEM É A CULPA. Loureiro dos Santos afirmou, no Público, que a «emergência da tentativa de restauração do califado na região Síria/Iraque resulta de dois erros estratégicos cometidos pelos EUA». Segundo ele, o primeiro é da responsabilidade de Bush (por ter invadido o Iraque), e o segundo da responsabilidade de Obama (por não ter dado o apoio militar que os insurgentes requeriam). Daniel Oliveira, no Expresso, junta-se ao coro: «(...) o “Estado Islâmico” é filho da intervenção norte-americana no Iraque.» Resumindo, nada de novo, muito menos de surpreendente. A culpa é dos americanos, dos americanos, e dos americanos. O argumento é fraquinho, para não dizer pior. Dizer-se que o fundamentalismo islâmico resulta da política externa americana é, desde logo, um facto que carece de sustentação, uma mentira que qualquer livrito de História desmente. Mas nem é preciso tanto. Qualquer pessoa mediamente informada, e que não vê apenas o que lhe convém, sabe que o fundamentalismo islâmico não nasceu ontem, muito menos do ódio à América (leia-se EUA).
LIVRARIAS. Boas notícias, más notícias, e notícias assim-assim para quem gosta de livros e livrarias. A Shakespeare & Co. da Broadway acaba de fechar. Desmontavam as últimas estantes quando lá estive, faz hoje uma semana . (Ainda me lembro da Strand da Fulton Street pouco antes de fechar e da tristeza que me causaram as estantes vazias.) Nas boas notícias, descobri a Idlewild Books, livraria especializada em literatura de viagens que hei-de explorar com mais tempo na próxima visita. Nas assim-assim, vi na McNally Jackson e na livraria da NYU uma maquineta que imprime livros enquanto o diabo esfrega um olho. A avaliar pela informação disponível e por alguns exemplares expostos, a qualidade é boa. Digo assim-assim, porque não sei bem o que isto significa. Se é bom, se é mau. Quando o mercado dos eBooks cresce de dia para dia, deparar com uma coisa destas é, no mínimo, surpreendente.
10 de setembro de 2014
A BARBÁRIE. Parece que o presidente Obama não sabe o que fazer face à escalada do jihadismo do autodenominado Estado Islâmico (escrevo antes de Obama falar aos americanos, que deverá suceder esta noite). Pelo menos foi isso que deu a entender um dia destes, quando assumiu não ter uma estratégia para enfrentar o problema. É grave? Segundo alguns, é gravíssimo. Na minha opinião, a gravidade, a existir, foi tê-lo assumido publicamente, que neste tipo de assuntos a verdade não é um bem absoluto. Depois, por que é que os americanos têm que ter uma estratégia para tudo, estar prontos a intervir em todo o lado sempre que estão em causa problemas que dizem respeito a meio mundo? Por que não se exige o mesmo aos outros países, nomeadamente da União Europeia, cujos mandantes se limitam à retórica quando são postos diante casos destes? Por que não se denunciam abertamente os países, alguns da União Europeia, que em segredo pagam resgates astronómicos pela libertação dos seus cidadãos que tiveram o azar de cair nas mãos dos jihadistas, entregando a um bando de assassinos não só o dinheiro que lhes é exigido mas o mais elementar dos princípios? Evidentemente que o problema dos jihadistas do Estado Islâmico é global, pelo que a resposta só pode ser global. Infelizmente, não se vêem passos concretos nesse sentido, nem como o jihadismo possa ser erradicado com paninhos quentes. Entretanto, decapita-se, crucifica-se e fuzila-se, e quanto mais tempo levar a encarar a realidade de frente — e a agir em conformidade — mais vítimas haverá para contar. O islão é uma religião de paz? Acho que vou rever o debate entre Christopher Hitchens e Tariq Ramadan, realizado há quatro anos precisamente com esse título. A ver se desta vez saio mais esclarecido.
NÃO SE FAZEM OMELETAS SEM OVOS. Paulo Bento já foi. Não é um desejo (nem deixa de ser), mas uma constatação. Por tudo o que se diz desde a derrota frente à Albânia (e ainda antes), falta apenas acertar as contas e fazer a mala. E porquê? Porque os resultados não têm sido brilhantes, e os resultados é que contam. Todos sabem que quando não há resultados, a primeira cabeça a rolar é a do treinador. Haja, ou não, razões para isso, e no caso de Paulo Bento não sei se haverá. A mim parece-me que o problema da selecção é outro. Tirando três ou quatro jogadores, não temos matéria-prima. Por uma vez dou razão a Miguel Sousa Tavares: se a selecção disputasse o campeonato português, acabaria em quinto ou em sexto. Vendo bem, se calhar nem isso.
5 de setembro de 2014
SEM REI, NEM ROQUE. A RTP, pelo menos a RTP Internacional, passa a maior parte do dia a promover o que há de pior na música portuguesa. É normal que uma televisão pública passe dias inteiros a promover entulho? Outra coisa, já agora, sobre a dita. Por acaso saberão quantas vezes passam, diariamente, durante meses a fio, os mesmos anúncios aos mesmos programas? Para quem não vê, eu respondo: nas três ou quatro horas diárias que tenho visto nos últimos meses chega a ultrapassar a meia dúzia. O pior é a música de qualidade (também há, também há) e um ou outro programa de divulgação cultural, que de tanto passarem se tornaram insuportáveis. A última vítima foi Cardoso Pires, cujo programa (Ler Mais, Ler Melhor, salvo erro) ouvi tantas vezes e durante tanto tempo que já conheço de cor. A RTP Internacional, como está, promove o que há de pior, e destrói o que há de melhor. Pior seria difícil.
4 de setembro de 2014
PROCESSAR OS CONTRIBUINTES? (2). Se bem entendi, alguns accionistas do BES insistem em processar o Estado, a pretexto de que o Estado, pela boca de alguns dos seus mais altos representantes (Presidente da República à cabeça), os induziu a tomar decisões desastrosas. Já dei para este peditório, mas espanta-me que a teoria continue a fazer caminho, a ponto de o próprio Presidente da República resolver recordar o que disse sobre o BES que tanto os terá prejudicado. Alguns accionistas perderam quase tudo o que tinham? Imagino a tragédia. Mas, lamento dizê-lo, problema deles. Quem se mete nessas coisas sabe, desde o início, ao que vai, e os riscos que corre. Era só o que faltava que os contribuintes pagassem as perdas de quem jogou e perdeu.
O NOSSO HOMEM EM BRUXELAS. Talvez não chegue a Presidente da República, como será seu desejo. Mas foi graças a exercícios como este que o homem chegou onde chegou.
SERVIÇO PÚBLICO. Obrigatório o artigo do médico Manuel Pinto Coelho sobre o vírus Ébola no Público de hoje.
29 de agosto de 2014
LIVROS DE VERÃO. Depois de muita pesquisa, descobri, finalmente, um livro de Verão, ou um livro cuja leitura me parece adequada a quem vai de férias no Verão e tenciona ler alguma coisa que não lhe exija demasiado esforço. Chama-se Um ano na Provença, o autor é o inglês Peter Mayle, e desde o início (1990) que foi um sucesso de vendas. Não o recomendo por vender muito, que os sucessos de vendas geralmente são tão maus que não se recomendam. Recomendo-o porque é um livro que se lê com agrado, por ter uma boa dose de humor, por estar bem escrito, por ser infinitamente melhor que grandes coisas que por aí apregoam. Pesquisei no Google e constatei, com surpresa, que não está editado em Portugal. Como é possível?
28 de agosto de 2014
O TUDO EM UM. Depois do Parlamento Europeu, de que disse o pior e onde se mantém a embolsar uma mesada que ainda há pouco considerou escandalosa (parece que 17 mil euros), Marinho Pinto já se assumiu como candidato a deputado nas Legislativas de 2015, a Presidente da República em 2016, e a ministro da Saúde quando calhar. Como já disse e repeti, nunca lhe apreciei a mercadoria que por aí anda a vender, muito menos lhe compraria um carro em segunda mão. Definitivamente que a frontalidade e o desassombro com que diz umas verdades (que não me custa reconhecer-lhe) não bastam para ser melhor que os outros. Por aquilo que já demonstrou, não duvido que o ex-bastonário dos Advogados faria igual ou pior aos que hoje critica caso estivesse no lugar deles.
22 de agosto de 2014
ANDAM POR AÍ A VER COISAS. Li na Lusa que a PSP «identificou» duas mulheres que se faziam passar por videntes, ao que parece um crime de burla. Também parece que as sujeitas abordaram não sei quem na via pública, a quem «leram» as mãos e garantiram ter «problemas de saúde e familiares». Perturbada, a vítima terá cedido ao pedido das falsas videntes, a quem entregaram «bens no valor de cerca de dois mil euros». Acontece que algum tempo depois a vítima encontrou as suspeitas a vender numa feira, e decidiu chamar a polícia. O episódio acabou com as ditas numa esquadra, onde lhes foram apreendidos «três anéis, cinco brincos, uma medalha de um signo, um frasco de perfume, dois carrinhos de linhas, 11 dentes de alho, seis pontas de alecrim seco, uma caixa de palitos e cerca de um metro de papel higiénico». Segundo a PSP, as suspeitas fazem da burla os seus modos de vida, sendo a venda nas feiras um mero disfarce. E foi-lhes imposto o Termo de Identidade e Residência, não fossem elas fugir, sei lá, para as Seychelles. Infelizmente, nem a PSP nem a notícia esclarecem dois pequenos detalhes. Como as sujeitas se faziam passar por videntes e não são, significa que há as verdadeiras, presumo que com licença para exercer a respectiva actividade, e, presumo de novo, sem facturinha? Tudo indica que sim. Assim sendo, como vamos nós distinguir as verdadeiras das falsas na hora em que nos faltar a cabeça e sobrar o dinheiro?
O POVO DA TELEVISÃO. Obrigatório o texto de António Guerreiro no Público de hoje. Só um cheirinho: «Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco.»
20 de agosto de 2014
DESABAFO. Sei que isto não interessa a ninguém, mas já ouvi dezenas de vezes o segundo movimento (Adagio un poco mosso) do que popularmente ficou conhecido por Concerto do Imperador, de Beethoven. Por vezes ouço-o duas e três vezes seguidas, e só não ouço ainda mais porque receio «gastá-lo». A versão que aqui sugiro (da London Symphony Orchestra, dirigida por Colin Davies e com Claudio Arrau no piano) não é, musicalmente, a melhor que conheço. Mas considerando a qualidade do áudio e do vídeo, deve ser do melhor que há.
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