9 de janeiro de 2015
A DEMOCRACIA DE BRAÇO NO AR. «Não há rigorosamente nada que tenha sido inventado até hoje tão democrático como a comissão de trabalhadores, porque todas as pessoas votam de braço no ar.» Quem foi que disse isto, quem foi? Kim Jong-un, o extraordinário líder da Coreia do Norte? Não, senhores. Foi a dra. Raquel Varela, na Barca do Inferno de 5 de Janeiro.
7 de janeiro de 2015
FREI TOMÁS PREGADO AOS INCRÉUS. Os líderes mundiais apressaram-se, e bem, a condenar o massacre francês, garantindo que nada os fará recuar perante o terrorismo e as suas pretensões. Acontece que a realidade é outra: os atentados que têm vindo a ocorrer desde Setembro de 2001 já mudaram a nossa maneira de estar, e continuarão a mudar. Apesar da retórica, dos discursos inflamados e das boas intenções, o medo cresce cada dia que passa, e a autocensura (que alguém disse ser a pior das censuras) cresce a olhos vistos. Como escreveu Henrique Raposo, que faria ele se fosse um cronista francês «ao alcance da filha da puta da Ak-47»? Definitivamente que o Ocidente está a perder sucessivas batalhas. Resta saber se perderá a guerra.
ISTO NÃO VAI LÁ COM MEIAS TINTAS. Em Dresden, milhares de pessoas manifestaram-se recentemente por uma «Alemanha para os alemães» e contra o que consideram uma crescente islamização do país, enquanto no mesmo país outros milhares se manifestaram logo a seguir contra o «nacionalismo», considerando que os refugiados são «bem-vindos», e que o racismo e a xenofobia não têm lugar numa sociedade onde todos cabem e onde todos têm o direito de ser tratados por igual. Sondagens às presidenciais francesas dão a vitória a Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita que pretende, entre outras medidas, travar o que designa por crescente «islamização da França». Hoje mesmo aconteceu o que aconteceu. Parece-me, por isso, altura de voltar a insistir nas perguntas que faço há anos, que nunca vi cabalmente respondidas. Por que não aproveita o islamismo moderado ocasiões como esta para sair à rua a condenar o radicalismo? Por que se limitam os seus líderes a declarações avulsas sempre que há uma tragédia e só quando não conseguem fugir aos microfones? Por que se limitam a queixar-se do modo como são olhados na rua, da crescente estigmatização de que dizem, e eu acredito, estar a ser vítimas? Não percebem que a passividade, aliada a actos como o de hoje, se viram contra eles? Que só reforçam o que designam, nem sempre acertadamente, por islamofobia? Reconheço que é pouco simpático, mas nestas alturas lembro-me sempre da célebre frase inicialmente dita, salvo erro, por Oriana Fallaci, que se mantém actualíssima: se é verdade que a generalidade dos muçulmanos não é terrorista, é um facto que os terroristas são, quase sempre, muçulmanos. Convinha, por isso, tirar isto a limpo, separar as águas. Até lá, como vamos distinguir um «muçulmano bom» de um «muçulmano mau»?
31 de dezembro de 2014
O TERRORISMO E A SONY. Confesso que a reacção da Sony Pictures ao ataque informático de que foi vítima, e às ameaças que sobre ela imediatamente penderam caso exibisse, no Natal, o filme The Interview (exibição que logo cancelou e depois retomou), me surpreenderam. A Sony podia, desde o início, ter optado pela fuga para a frente. Podia ter respondido à ameaça não só mantendo o inicialmente programado, mas «enuplicando» o número de salas onde exibir o filme — coisa, de resto, que de algum modo veio a suceder, graças a quem, não tencionando ver o filme, se predispôs a fazê-lo por uma questão de princípio. Ao contrário do que possa parecer, meter o rabo entre as pernas face a chantagens ou ameaças não evita sarilhos nem perdas financeiras: aumenta consideravelmente a possibilidade de eles sucederem. Embora tardiamente, a Sony acabou por perceber que assim é. Dir-me-ão que mais vale tarde do que nunca. O problema é que nada apagará o erro cometido, e a porta que abriu em vez de fechar.
23 de dezembro de 2014
COM ELE AO LEME, É SEMPRE A DESCER. O presidente do Sporting não perde uma oportunidade para disparar sobre tudo o que mexe, a propósito de tudo e de nada. Invariavelmente, depara-se com um problema: em vez de acertar onde pretende, acaba a dar tiros nos pés. Depois de acusar os jornais (um clássico), que não lhe darão a atenção que julga merecer, diz agora que vai pedir aos associados «um reforço de confiança». Presumo que os associados responderão, na assembleia-geral a convocar para o efeito, do modo que ele deseja, e até nem me surpreenderia que de lá saísse em ombros. É que eu já vi muito boa gente (sem ironia) afirmar que Bruno de Carvalho devolveu a dignidade à instituição, logo não espantaria. Como já perceberam, eu acho precisamente o contrário. Se a linguagem de carroceiro usada a toda a hora, e um patético pedido à UEFA que de antemão se sabia destinado ao fracasso (a repetição do jogo frente ao Schalke 04, em que o Sporting foi claramente prejudicado devido a erros de arbitragem) dignificam a instituição, eu vou ali e já venho. Não sou sportinguista, mas gostaria de ver o Sporting dirigido por quem, de facto, o dignifique, e de novo sem ironia. Como os variadíssimos exemplos o vêm demonstrando, Bruno de Carvalho não é homem para isso. Pelo contrário. Colocando-se frequentemente a ridículo, ridiculariza a instituição que dirige. A assembleia-geral que aí vem, de onde espera sair entronizado, poderá resolver — ou prolongar — o problema. Aos associados, e só aos associados, caberá decidir o que julgarem melhor. Mas não será preciso dizer que quanto pior decidirem, melhor será para os seus adversários.
19 de dezembro de 2014
MOMENTO VALTER HUGO MÃE. Como já perceberam, tenho um problema com Valter Hugo Mãe, que as más línguas (e algumas boas) garantem ser bom. Ora vejam só o primeiro parágrafo da última prosa no Público:
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
12 de dezembro de 2014
TAKE ANOTHER PLANE. Alguém que não seja funcionário da TAP percebe as razões que os levará a fazer a enésima greve? Eu quase apostaria que mesmo na TAP há quem não perceba. Com certeza que os seus trabalhadores têm o direito de fazer greve. O problema é que a greve, que devia ser uma espécie de bomba atómica, que se usa apenas em situações extremas, banalizou-se, e é sempre feita pelos mesmos — pelos que geralmente têm mais benefícios que o comum dos trabalhadores, pelos mais protegidos pelas leis do trabalho. Estão preocupados com a venda da companhia? A greve não impedirá que ela seja vendida. Pelo contrário. Reforçará os motivos de quem pretende fazê-lo. Depois, era só o que faltava que fossem os grevistas e respectivos sindicatos a decidir o futuro da TAP. Ao contrário do que por vezes parece, a companhia não é de quem nela trabalha. É dos portugueses, de todos os portugueses, competindo ao Governo geri-la. Governo, já agora, que os portugueses escolheram. Goste-se, ou não. Os trabalhadores e seus representantes limitam-se a defender os seus próprios interesses, e só os seus próprios interesses. Por mais legítimos que sejam, e francamente nem isso me parecem.
A CAMINHO DA IMPUNIDADE. Vi, parcialmente, a prestação de Ricardo Salgado na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, e confirmou-se as previsões dos mais pessimistas: a culpa da hecatombe não foi dele, mas do Banco de Portugal, do Governo, do contabilista, do estado do tempo. Pior: embora tenha recusado o estatuto de vítima, assumiu-se claramente como tal. Talvez ainda pior: a avaliar pelos títulos da imprensa, sobretudo da imprensa online, Ricardo Salgado terá saído do parlamento com razões para sorrir. Mesmo que o primo Ricciardi tenha, de seguida, desdito quase tudo o que disse Salgado, e o empresário Queiroz Pereira tenha afirmado, entre outras pérolas, que Salgado «não lida maravilhosamente com a verdade», não é, seguramente, um bom sinal. Imagina-se que a justiça vai ter pela frente um osso duro de roer, e mesmo que faça um trabalho sem falhas, duvido que atinja Salgado onde realmente lhe dói. Volto, por isso, a repetir o que já aqui escrevi: como correm processos contra ele noutros países, é possível que nem tudo fique impune.
11 de dezembro de 2014
ARRUMAR O SÓTÃO. Como terão notado, coloquei aqui uma ligação para os textos que fui publicando na minha página pessoal entre Fevereiro de 2000 e Janeiro de 2011, que designei por Desabafos. São precisamente 268 textos, que agora, por me parecerem mais fáceis de ler, reuni num blogue especialmente criado para esse fim. Relidos alguns deles, foram várias as vezes em que não me revi nas ideias que então defendi, nalguns casos no estilo, demasiadas vezes nos dois. Como nunca alterei o que foi publicado, a não ser para corrigir uma gralha ou assim, o que foi dito, está dito. Com todas as virtudes e defeitos, foi assim
5 de dezembro de 2014
A BRIGADA DO TABACO. Faz hoje 13 anos, 7 meses e 18 dias que deixei de fumar. Sou, portanto, ex-fumador, geralmente os mais intolerantes contra o tabaco e seus consumidores. Não é — nunca foi — o meu caso. Mas continua a tirar-me do sério quem insiste em dizer que os fumadores não estão suficientemente informados acerca dos perigos que correm, e por isso publicam quilómetros de prosa para os salvar, mesmo os que não querem ser salvos. Concordo que se vergaste (passe a expressão) os fumadores quando estes põem em causa os direitos dos não-fumadores, quando os segundos são obrigados a partilhar os riscos dos primeiros. Mas jamais aceitarei o argumento de que os fumadores custam caro ao serviço nacional de saúde. Porque, a irmos por aí, ter-se-ia que incluir nos argumentos uma extensa lista de produtos e de práticas que fazem mal à saúde, e, por consequência, aos bolsos dos contribuintes. A começar pelos evangelistas do antitabagismo, que, bem vistas as coisas, são um perigo para a saúde, neste caso para a saúde mental. Digo bem: saúde mental, coisa de que nunca se fala quando se fala de saúde, e que hoje em dia se resume a não fumar, a não consumir determinadas gorduras, a não comer bacalhau e outros produtos com sal a mais, a percorrer dois ou três quilómetros diários em menos de não sei quanto tempo, e a dar determinado número de quecas de forma apropriada (estou a inventar, mas para lá iremos). Escusado será dizer que um mundo assim só interessa a estes fundamentalistas, a quem desejo, caso o alcancem, que vivam eternamente.
28 de novembro de 2014
JORNALISMO DE CACA. O aparato montado para a detenção foi, aparentemente, anormal, e o facto de alguns órgãos de comunicação social terem sido avisados para testemunharem o acto é inadmissível. Mas nada disto muda o essencial. E o essencial é que José Sócrates foi constituído arguido por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, e que o juiz Carlos Alexandre considerou arriscado deixá-lo à solta enquanto aguarda julgamento — decisão, suponho, que não se toma de ânimo leve, e sem indícios seguros. Dito isto, é lamentável o circo mediático montado por alguns media, por sinal os mesmos de sempre, e vergonhoso algum «jornalismo» que por aí se pratica. É normal escrever que fulano é suspeito de práticas gravíssimas sem citar uma única fonte? Pelos vistos, a «jornalista» Felícia Cabrita e seus editores acham que sim. Não pode revelar as fontes, que pediram para não serem identificadas? Nesse caso, faz parte das regras informar-nos desse facto. Não ignoro que as fontes ditas «anónimas» servem para tudo e o seu contrário. Servem, por exemplo, para os autores das peças atribuírem a terceiros informações que eles próprios forjaram, e para as fontes realmente anónimas, sabendo-se a salvo de eventual punição, revelarem não o que sabem mas o que lhes convém que se saiba. Claro que nem tudo o que reluz é ouro, que as fontes anónimas são, por vezes, cruciais para se chegar à verdade — embora hoje em dia as fontes anónimas, que só deveriam ser usadas em casos excepcionais, banalizaram-se, e quase se tornaram a regra. Mas o ponto é que nada, absolutamente nada, dispensa o jornalista de sinalizar as fontes. Anónimas ou identificadas, credíveis ou nem por isso.
COISAS QUE VOU LENDO (17). «Não sei se somos um país muito ou pouco corrupto, mas nos últimos tempos onde a Justiça tem mexido sai uma minhoca (...). Se calhar, a Justiça passou a escavar onde antes não escavava. Se calhar, temos mais minhocas. Se calhar, a crise secou a terra e obrigou as minhocas a exporem-se mais. Sucedem-se todos os dias casos de buscas, investigações, detenções, prisões e condenações de banqueiros, políticos, altos quadros do Estado, gente poderosa que não estávamos habituados a ver a braços com a Justiça.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 28/11/2014
27 de novembro de 2014
JUSTIÇA E CALDOS DE GALINHA. Há demasiadas razões para desconfiar do funcionamento da justiça, tantas foram as falhas já demonstradas, tantas as vezes que se mostrou incapaz de fazer o que lhe compete. É triste dizê-lo, mas a justiça chegou a um ponto em que é culpada até prova em contrário, ao invés dos arguidos, que são — e bem — inocentes até prova em contrário. Será um exagero, porventura uma injustiça, mas parece-me ser esta a imagem que os cidadãos medianamente informados têm dela face aos desastres de que tem sido protagonista. Não digo que o caso José Sócrates seja mais um, mas o aparato mediático que rodeou a sua detenção (presenciada pelos media do costume), e as habituais fugas de informação (sobre as quais a Procuradoria-Geral da República anunciou um inquérito para apurar a origem e que vai dar em nada), não augura nada de bom. Por mim, confesso que não sei o que mais temer: se um ex-governante cometer os crimes de que a justiça suspeita, se uma justiça que me deixa permanentemente na dúvida.
COISAS QUE VOU LENDO (16). «[O poder judicial] Está ainda colado a metodologias tradicionais e arcaicas. Subestima o direito à informação da comunidade. Não sabe comunicar. Defende-se. Fecha-se. O segredo de justiça alomba com todas as responsabilidades de um secretismo incompatível com a sociedade de informação que é a nossa. A “Justiça” não é capaz de informar a sociedade. Supõe-se viver fora e acima dela. Nos astros. Nem está preparada para comunicar. Vive para dentro. Ignora como separar sigilo do que deve ser público. Receia a comunicação social. Só interage às ocultas. “Julgar em nome do povo” transmuda-se em fraseologia gratuita. Retórica.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 26/11/2014
21 de novembro de 2014
PODEMOS, MAS POUCO. Procurando informar-me de que fenómeno se trata, li, com toda a atenção, a entrevista que o «número dois» do Podemos concedeu ao Jornal de Notícias. Fiquei a saber, essencialmente, duas coisas de quem se propõe lutar contra os chamados «partidos do sistema»: que Juan Carlos Monedero tem por mestre o «nosso» Boaventura de Sousa Santos, e que o partido espanhol (não sei se já está formalizado como tal) se inspira nalgumas experiências da América Latina. Dito isto, considero-me esclarecido no que me parece essencial. Esclarecimento que me levaria a votar, caso fosse espanhol, nos «partidos do sistema», e sem a mais leve hesitação. Contrariamente ao que promete o poeta Alegre, não acredito em amanhãs que cantam. Bem pelo contrário. Os amanhãs que cantam terminaram, no passado, quase sempre em tragédias, e como diz a chula de não sei onde, para pior já basta assim.
20 de novembro de 2014
A PRIMA DA OBRA. A famosíssima peça intitulada 4'33", de John Cage, em que durante quatro minutos e trinta e três segundos não acontece rigorosamente nada, e que alguns consideram uma obra-prima, está a servir de pretexto para nova obra-prima, segundo o director de uma galeria londrina. Isto porque um artista português, João Onofre, deitou fogo a um piano na capital britânica, enquanto outro português, o pianista João Aboim, fez que tocou mas não tocou. A notícia desta performance, que o galerista considerou uma interpretação esteticamente «impressionante», é, toda ela, hilariante, com a particularidade de o humor ser involuntário. Desconheço, à hora que escrevo, o resultado da coisa, cuja estreia terá decorrido há dois dias, e quantos pianos arderam desde então. Como não vi mais notícias sobre o caso, presumo que ninguém se magoou.
BOA PERGUNTA. «(...) se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?» (Pacheco Pereira, Público de 15/11/2014)
14 de novembro de 2014
TAXAS E TAXINHAS. Definitivamente que a eleição de António Costa para a liderança do PS deixou muita gente nervosa, alguns mesmo de cabeça perdida. Taxar os turistas que chegam a Lisboa em um euro por dia (o total não ultrapassará sete euros por sete ou mais dias) fará com que eles, turistas, deixem de viajar para a capital? Só os politiqueiros «acreditam» que isso possa suceder. Como, pelos vistos, Paulo Portas, para quem a taxa matará a galinha dos ovos d’ouro, e o ministro Pires de Lima, que no parlamento protagonizou uma palhaçada inacreditável. (O ex-ministro Manuel Pinho foi demitido — e bem — por idêntica gracinha, lembram-se?) Devo dizer que António Costa não me entusiasma, como não me entusiasma a generalidade dos políticos, embora ninguém ignora que António Costa é, de longe, melhor que o seu antecessor, que me lembre o pior líder que o PS já teve. Talvez isso justifique a tosca ofensiva da coligação, com meia dúzia de governantes à cabeça, que deviam ocupar-se doutros assuntos em vez de atacar adversários com argumentos estúpidos.
13 de novembro de 2014
SALGADO E OS JULGAMENTOS PÚBLICOS. Ricardo Salgado transferiu centenas de milhões de euros para contas em paraísos fiscais quando já tinha recebido guia de marcha? Segundo uma auditoria encomendada pelo Banco de Portugal, assim foi. Perante isto, o ex-presidente do Banco Espírito Santo já veio dizer que está a ser vítima de uma «tentativa de julgamento público», e de difamação. Assim sendo, é grave? Como o veredicto não lhe será favorável, imagino que será, para ele, gravíssimo. Mas é preciso que se diga que, tirando os tribunais, que na hora da verdade ninguém sabe o que irão decidir, toda a gente sabe que há matéria para o julgar — e condenar — por vários crimes. São demasiados as evidências já conhecidas, demasiadas as fontes que as vêm tornando públicas, e se há evidências que não são inteiramente verdadeiras e fontes que não serão de fiar, a abundância de matéria credível chega e sobeja para o incriminar. E ainda a procissão vai no adro.
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