23 de janeiro de 2015
EBOOKS, CAPÍTULO ENÉSINO. Gosto da capa e da contracapa, da badana e do papel, do tamanho e da forma dos caracteres, do cheiro e de os ver nas estantes — mas do que eu gosto mesmo é do que «está lá dentro». É por isso que leio eBooks há anos, é por isso que há anos escrevo sobre as vantagens — e desvantagens — dos eBooks, cuja aquisição me pareceu, desde sempre, valer a pena avaliar sem preconceitos. Não pretendo usar o meu caso para generalizar, mas a verdade é que nunca, como hoje, comprei tantos livros, apesar da oferta de eBooks ser cada vez mais diversificada (e tentadora). E também é verdade que primeiro trato de saber se existe em eBook o que pretendo comprar, que já não tenho espaço nas estantes — e o pouco que vou conquistando a outras arrumações vem sendo ocupado por livros comprados, sobretudo, nos alfarrabistas, onde estou sempre a tropeçar em preciosidades a que não resisto. E agora, se me dão licença, vou-me à História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (a ideia é impressionar os leitores), cuja leitura, lá está, dificilmente faria caso não fosse o eBook. Afinal, são quatro respeitosos volumes, para cima de 2800 páginas. Estão a ver-me com um só volume debaixo do braço sempre que tenho oportunidade de o ler por aí? E, já agora, por que não reeditar também em eBook as obras completas do Padre António Vieira? Devido à falta de espaço, provavelmente nunca as verei nas estantes. Se fosse em eBook, num só volume ou em vários, venha ele que eu compro. E quem diz Vieira (30 volumes, agora editados pelo Círculo de Leitores) diz outros clássicos, a começar pelos portugueses (Eça, Camilo, Pessoa, Cardoso Pires) ou lusófonos (Machado, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre).
19 de janeiro de 2015
CRISTINA KIRCHNER. Obviamente que não se pode extrair, para já, qualquer ilação, até porque a informação ainda é escassa. Mas foi-me completamente impossível separar esta notícia do que li, há dois anos, no Estado de São Paulo. O texto é comprido, mas vale a pena.
16 de janeiro de 2015
TEMPOS SOMBRIOS. Não ignoro que grandes facínoras cometeram crimes hediondos enquanto se deliciavam com a grande música, mas continuo convencido que a grande música torna o homem melhor. Palestrina, por exemplo, pelos Tallis Scholars. Tavener, pelo Chanticleer. Pärt, pelo Hilliard Ensemble. Lauridsen, pelo Los Angeles Master Chorale. E mais, muitos mais, que nos iluminam nestes dias de trevas, tornando o mundo um lugar mais suportável.
AI ISSO É QUE PODEMOS. O Papa Francisco disse ontem que não se pode provocar ou insultar a fé dos outros. Não posso estar mais em desacordo. Não aprecio provocações gratuitas e insultos de espécie alguma, mas se a questão é podemos, ou não, provocar e insultar, a resposta é, para mim, cristalina: podemos. Mais: mesmo tendo o cuidado de ressalvar que «matar em nome de Deus» é «uma aberração», e de considerar que a liberdade de expressão é um direito fundamental, considero perigoso o discurso do Papa. Há limites à liberdade de expressão que são ultrapassados quando se trata da religião? Discordo outra vez. Por que haveria a religião, qualquer religião, de ficar a salvo de insultos ou provocações e o resto não? E volto a discordar quando diz que a liberdade de expressão deve «exercer-se sem ofender», porque isso levar-nos-ia a que cada um definisse o que é ofensivo e o que não é — logo ao «respeitinho» (não confundir com respeito) e à autocensura. Ficou-lhe bem reconhecer que também a igreja católica pecou generosamente, mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que os tribunais existem, também, para julgar insultos e provocações, pelo que quem se sentir ofendido que recorra aos tribunais. O Papa Francisco não defende que alguém que se sinta insultado na sua fé tem o direito de matar, longe disso. Mas se ao dizer o que disse não legitima tal acto, atenua-o bastante — e de algum modo desculpa-o. E se há coisa que não merece contemplações é o terrorismo. Seja em nome de quem for.
PRÉMIOS LITERÁRIOS. Desconheço os detalhes do caso, e os detalhes poderão fazer toda a diferença. Mas num país em que até a prosa analfabeta publicada em forma de livro recebe, pelo menos, um prémio literário, é capaz de ser uma boa notícia quando lemos que o Prémio Agustina Bessa-Luís não será entregue por «falta de qualidade das obras» a concurso. Infelizmente, não acredito que este saudável princípio tenha grande futuro. Mas é pena, porque talvez não houvesse tanta mediocridade se os critérios de atribuição dos prémios literários fossem um pouco mais exigentes.
15 de janeiro de 2015
NEM TUDO FOI MAU. Dois factos positivos resultantes da tragédia francesa: a Europa começou, finalmente, a perceber que o terrorismo islâmico é um problema global, que urge resolver à escala global; e os muçulmanos moderados começaram, finalmente, a demarcar-se, de forma audível, de práticas fundamentalistas, até porque são eles as primeiras vítimas dos danos colaterais.
PARECE QUE DESTA VEZ A CULPA NÃO FOI DOS AMERICANOS. Perdoem-me a ironia, mas não resisto a confessar a minha surpresa por ainda não ter visto, uma semana após a tragédia francesa, uma só alma dizer que a culpa é dos americanos. Tirando Ana Gomes, que disse os disparates a que já nos habituou (começou por dizer que o atentado foi «também o resultado de políticas anti-europeias de austeridade», e anteontem escreveu, a propósito da edição do Charlie Hebdo onde o profeta surge na capa a lamentar o que fizeram em seu nome, que era mais uma ofensa aos muçulmanos), ainda não vi o habitual passa culpas para os americanos. Quanto ao resto, tudo como dantes. Já se vai ouvindo o tradicional «está mal, mas...», quem aponte o dedo a uma publicação que vive de excessos, provocações e insultos — logo estava mesmo a pedi-las. Não faltará quem, nos próximos tempos, tentará, de certa maneira, justificar a carnificina (explicando, contextualizando, desculpabilizando), culpando quem não tem culpa, e fazendo com que os verdadeiros culpados até pareçam as vítimas.
13 de janeiro de 2015
A SRA. LE PEN AGRADECE. Os mandantes que temos cada vez surpreendem mais, para não variar sempre pela negativa. O presidente francês, por exemplo, apressou-se a excluir a sra. Le Pen da manifestação de domingo, considerando tratar-se de uma «marcha republicana», onde ela não teria lugar. Apressou-se, enfim, a oferecer um presente à Frente Nacional, seguramente a força política que mais ganhou com a tragédia francesa e a quem Hollande, com uma decisão estúpida, fortaleceu ainda mais. Mas não se ficou por aqui o inquilino do Eliseu: fez o que pôde para que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, não fosse à manifestação, a pretexto de que não queria desviar o foco da dita para o conflito israelo-palestiniano, e que Mahmud Abbas, presidente palestiniano, também iria participar — logo iriam caminhar a poucos metros um do outro, logo isso seria um problema. A manifestação de Paris não seria uma excelente ocasião para juntar gente desavinda, mesmo que só para aparecer na fotografia? Hollande achou que não. Pobre país que tem líderes assim. Sem visão, nem estatura.
9 de janeiro de 2015
A DEMOCRACIA DE BRAÇO NO AR. «Não há rigorosamente nada que tenha sido inventado até hoje tão democrático como a comissão de trabalhadores, porque todas as pessoas votam de braço no ar.» Quem foi que disse isto, quem foi? Kim Jong-un, o extraordinário líder da Coreia do Norte? Não, senhores. Foi a dra. Raquel Varela, na Barca do Inferno de 5 de Janeiro.
7 de janeiro de 2015
FREI TOMÁS PREGADO AOS INCRÉUS. Os líderes mundiais apressaram-se, e bem, a condenar o massacre francês, garantindo que nada os fará recuar perante o terrorismo e as suas pretensões. Acontece que a realidade é outra: os atentados que têm vindo a ocorrer desde Setembro de 2001 já mudaram a nossa maneira de estar, e continuarão a mudar. Apesar da retórica, dos discursos inflamados e das boas intenções, o medo cresce cada dia que passa, e a autocensura (que alguém disse ser a pior das censuras) cresce a olhos vistos. Como escreveu Henrique Raposo, que faria ele se fosse um cronista francês «ao alcance da filha da puta da Ak-47»? Definitivamente que o Ocidente está a perder sucessivas batalhas. Resta saber se perderá a guerra.
ISTO NÃO VAI LÁ COM MEIAS TINTAS. Em Dresden, milhares de pessoas manifestaram-se recentemente por uma «Alemanha para os alemães» e contra o que consideram uma crescente islamização do país, enquanto no mesmo país outros milhares se manifestaram logo a seguir contra o «nacionalismo», considerando que os refugiados são «bem-vindos», e que o racismo e a xenofobia não têm lugar numa sociedade onde todos cabem e onde todos têm o direito de ser tratados por igual. Sondagens às presidenciais francesas dão a vitória a Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita que pretende, entre outras medidas, travar o que designa por crescente «islamização da França». Hoje mesmo aconteceu o que aconteceu. Parece-me, por isso, altura de voltar a insistir nas perguntas que faço há anos, que nunca vi cabalmente respondidas. Por que não aproveita o islamismo moderado ocasiões como esta para sair à rua a condenar o radicalismo? Por que se limitam os seus líderes a declarações avulsas sempre que há uma tragédia e só quando não conseguem fugir aos microfones? Por que se limitam a queixar-se do modo como são olhados na rua, da crescente estigmatização de que dizem, e eu acredito, estar a ser vítimas? Não percebem que a passividade, aliada a actos como o de hoje, se viram contra eles? Que só reforçam o que designam, nem sempre acertadamente, por islamofobia? Reconheço que é pouco simpático, mas nestas alturas lembro-me sempre da célebre frase inicialmente dita, salvo erro, por Oriana Fallaci, que se mantém actualíssima: se é verdade que a generalidade dos muçulmanos não é terrorista, é um facto que os terroristas são, quase sempre, muçulmanos. Convinha, por isso, tirar isto a limpo, separar as águas. Até lá, como vamos distinguir um «muçulmano bom» de um «muçulmano mau»?
31 de dezembro de 2014
O TERRORISMO E A SONY. Confesso que a reacção da Sony Pictures ao ataque informático de que foi vítima, e às ameaças que sobre ela imediatamente penderam caso exibisse, no Natal, o filme The Interview (exibição que logo cancelou e depois retomou), me surpreenderam. A Sony podia, desde o início, ter optado pela fuga para a frente. Podia ter respondido à ameaça não só mantendo o inicialmente programado, mas «enuplicando» o número de salas onde exibir o filme — coisa, de resto, que de algum modo veio a suceder, graças a quem, não tencionando ver o filme, se predispôs a fazê-lo por uma questão de princípio. Ao contrário do que possa parecer, meter o rabo entre as pernas face a chantagens ou ameaças não evita sarilhos nem perdas financeiras: aumenta consideravelmente a possibilidade de eles sucederem. Embora tardiamente, a Sony acabou por perceber que assim é. Dir-me-ão que mais vale tarde do que nunca. O problema é que nada apagará o erro cometido, e a porta que abriu em vez de fechar.
23 de dezembro de 2014
COM ELE AO LEME, É SEMPRE A DESCER. O presidente do Sporting não perde uma oportunidade para disparar sobre tudo o que mexe, a propósito de tudo e de nada. Invariavelmente, depara-se com um problema: em vez de acertar onde pretende, acaba a dar tiros nos pés. Depois de acusar os jornais (um clássico), que não lhe darão a atenção que julga merecer, diz agora que vai pedir aos associados «um reforço de confiança». Presumo que os associados responderão, na assembleia-geral a convocar para o efeito, do modo que ele deseja, e até nem me surpreenderia que de lá saísse em ombros. É que eu já vi muito boa gente (sem ironia) afirmar que Bruno de Carvalho devolveu a dignidade à instituição, logo não espantaria. Como já perceberam, eu acho precisamente o contrário. Se a linguagem de carroceiro usada a toda a hora, e um patético pedido à UEFA que de antemão se sabia destinado ao fracasso (a repetição do jogo frente ao Schalke 04, em que o Sporting foi claramente prejudicado devido a erros de arbitragem) dignificam a instituição, eu vou ali e já venho. Não sou sportinguista, mas gostaria de ver o Sporting dirigido por quem, de facto, o dignifique, e de novo sem ironia. Como os variadíssimos exemplos o vêm demonstrando, Bruno de Carvalho não é homem para isso. Pelo contrário. Colocando-se frequentemente a ridículo, ridiculariza a instituição que dirige. A assembleia-geral que aí vem, de onde espera sair entronizado, poderá resolver — ou prolongar — o problema. Aos associados, e só aos associados, caberá decidir o que julgarem melhor. Mas não será preciso dizer que quanto pior decidirem, melhor será para os seus adversários.
19 de dezembro de 2014
MOMENTO VALTER HUGO MÃE. Como já perceberam, tenho um problema com Valter Hugo Mãe, que as más línguas (e algumas boas) garantem ser bom. Ora vejam só o primeiro parágrafo da última prosa no Público:
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
12 de dezembro de 2014
TAKE ANOTHER PLANE. Alguém que não seja funcionário da TAP percebe as razões que os levará a fazer a enésima greve? Eu quase apostaria que mesmo na TAP há quem não perceba. Com certeza que os seus trabalhadores têm o direito de fazer greve. O problema é que a greve, que devia ser uma espécie de bomba atómica, que se usa apenas em situações extremas, banalizou-se, e é sempre feita pelos mesmos — pelos que geralmente têm mais benefícios que o comum dos trabalhadores, pelos mais protegidos pelas leis do trabalho. Estão preocupados com a venda da companhia? A greve não impedirá que ela seja vendida. Pelo contrário. Reforçará os motivos de quem pretende fazê-lo. Depois, era só o que faltava que fossem os grevistas e respectivos sindicatos a decidir o futuro da TAP. Ao contrário do que por vezes parece, a companhia não é de quem nela trabalha. É dos portugueses, de todos os portugueses, competindo ao Governo geri-la. Governo, já agora, que os portugueses escolheram. Goste-se, ou não. Os trabalhadores e seus representantes limitam-se a defender os seus próprios interesses, e só os seus próprios interesses. Por mais legítimos que sejam, e francamente nem isso me parecem.
A CAMINHO DA IMPUNIDADE. Vi, parcialmente, a prestação de Ricardo Salgado na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, e confirmou-se as previsões dos mais pessimistas: a culpa da hecatombe não foi dele, mas do Banco de Portugal, do Governo, do contabilista, do estado do tempo. Pior: embora tenha recusado o estatuto de vítima, assumiu-se claramente como tal. Talvez ainda pior: a avaliar pelos títulos da imprensa, sobretudo da imprensa online, Ricardo Salgado terá saído do parlamento com razões para sorrir. Mesmo que o primo Ricciardi tenha, de seguida, desdito quase tudo o que disse Salgado, e o empresário Queiroz Pereira tenha afirmado, entre outras pérolas, que Salgado «não lida maravilhosamente com a verdade», não é, seguramente, um bom sinal. Imagina-se que a justiça vai ter pela frente um osso duro de roer, e mesmo que faça um trabalho sem falhas, duvido que atinja Salgado onde realmente lhe dói. Volto, por isso, a repetir o que já aqui escrevi: como correm processos contra ele noutros países, é possível que nem tudo fique impune.
11 de dezembro de 2014
ARRUMAR O SÓTÃO. Como terão notado, coloquei aqui uma ligação para os textos que fui publicando na minha página pessoal entre Fevereiro de 2000 e Janeiro de 2011, que designei por Desabafos. São precisamente 268 textos, que agora, por me parecerem mais fáceis de ler, reuni num blogue especialmente criado para esse fim. Relidos alguns deles, foram várias as vezes em que não me revi nas ideias que então defendi, nalguns casos no estilo, demasiadas vezes nos dois. Como nunca alterei o que foi publicado, a não ser para corrigir uma gralha ou assim, o que foi dito, está dito. Com todas as virtudes e defeitos, foi assim
5 de dezembro de 2014
A BRIGADA DO TABACO. Faz hoje 13 anos, 7 meses e 18 dias que deixei de fumar. Sou, portanto, ex-fumador, geralmente os mais intolerantes contra o tabaco e seus consumidores. Não é — nunca foi — o meu caso. Mas continua a tirar-me do sério quem insiste em dizer que os fumadores não estão suficientemente informados acerca dos perigos que correm, e por isso publicam quilómetros de prosa para os salvar, mesmo os que não querem ser salvos. Concordo que se vergaste (passe a expressão) os fumadores quando estes põem em causa os direitos dos não-fumadores, quando os segundos são obrigados a partilhar os riscos dos primeiros. Mas jamais aceitarei o argumento de que os fumadores custam caro ao serviço nacional de saúde. Porque, a irmos por aí, ter-se-ia que incluir nos argumentos uma extensa lista de produtos e de práticas que fazem mal à saúde, e, por consequência, aos bolsos dos contribuintes. A começar pelos evangelistas do antitabagismo, que, bem vistas as coisas, são um perigo para a saúde, neste caso para a saúde mental. Digo bem: saúde mental, coisa de que nunca se fala quando se fala de saúde, e que hoje em dia se resume a não fumar, a não consumir determinadas gorduras, a não comer bacalhau e outros produtos com sal a mais, a percorrer dois ou três quilómetros diários em menos de não sei quanto tempo, e a dar determinado número de quecas de forma apropriada (estou a inventar, mas para lá iremos). Escusado será dizer que um mundo assim só interessa a estes fundamentalistas, a quem desejo, caso o alcancem, que vivam eternamente.
28 de novembro de 2014
JORNALISMO DE CACA. O aparato montado para a detenção foi, aparentemente, anormal, e o facto de alguns órgãos de comunicação social terem sido avisados para testemunharem o acto é inadmissível. Mas nada disto muda o essencial. E o essencial é que José Sócrates foi constituído arguido por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, e que o juiz Carlos Alexandre considerou arriscado deixá-lo à solta enquanto aguarda julgamento — decisão, suponho, que não se toma de ânimo leve, e sem indícios seguros. Dito isto, é lamentável o circo mediático montado por alguns media, por sinal os mesmos de sempre, e vergonhoso algum «jornalismo» que por aí se pratica. É normal escrever que fulano é suspeito de práticas gravíssimas sem citar uma única fonte? Pelos vistos, a «jornalista» Felícia Cabrita e seus editores acham que sim. Não pode revelar as fontes, que pediram para não serem identificadas? Nesse caso, faz parte das regras informar-nos desse facto. Não ignoro que as fontes ditas «anónimas» servem para tudo e o seu contrário. Servem, por exemplo, para os autores das peças atribuírem a terceiros informações que eles próprios forjaram, e para as fontes realmente anónimas, sabendo-se a salvo de eventual punição, revelarem não o que sabem mas o que lhes convém que se saiba. Claro que nem tudo o que reluz é ouro, que as fontes anónimas são, por vezes, cruciais para se chegar à verdade — embora hoje em dia as fontes anónimas, que só deveriam ser usadas em casos excepcionais, banalizaram-se, e quase se tornaram a regra. Mas o ponto é que nada, absolutamente nada, dispensa o jornalista de sinalizar as fontes. Anónimas ou identificadas, credíveis ou nem por isso.
COISAS QUE VOU LENDO (17). «Não sei se somos um país muito ou pouco corrupto, mas nos últimos tempos onde a Justiça tem mexido sai uma minhoca (...). Se calhar, a Justiça passou a escavar onde antes não escavava. Se calhar, temos mais minhocas. Se calhar, a crise secou a terra e obrigou as minhocas a exporem-se mais. Sucedem-se todos os dias casos de buscas, investigações, detenções, prisões e condenações de banqueiros, políticos, altos quadros do Estado, gente poderosa que não estávamos habituados a ver a braços com a Justiça.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 28/11/2014
27 de novembro de 2014
JUSTIÇA E CALDOS DE GALINHA. Há demasiadas razões para desconfiar do funcionamento da justiça, tantas foram as falhas já demonstradas, tantas as vezes que se mostrou incapaz de fazer o que lhe compete. É triste dizê-lo, mas a justiça chegou a um ponto em que é culpada até prova em contrário, ao invés dos arguidos, que são — e bem — inocentes até prova em contrário. Será um exagero, porventura uma injustiça, mas parece-me ser esta a imagem que os cidadãos medianamente informados têm dela face aos desastres de que tem sido protagonista. Não digo que o caso José Sócrates seja mais um, mas o aparato mediático que rodeou a sua detenção (presenciada pelos media do costume), e as habituais fugas de informação (sobre as quais a Procuradoria-Geral da República anunciou um inquérito para apurar a origem e que vai dar em nada), não augura nada de bom. Por mim, confesso que não sei o que mais temer: se um ex-governante cometer os crimes de que a justiça suspeita, se uma justiça que me deixa permanentemente na dúvida.
COISAS QUE VOU LENDO (16). «[O poder judicial] Está ainda colado a metodologias tradicionais e arcaicas. Subestima o direito à informação da comunidade. Não sabe comunicar. Defende-se. Fecha-se. O segredo de justiça alomba com todas as responsabilidades de um secretismo incompatível com a sociedade de informação que é a nossa. A “Justiça” não é capaz de informar a sociedade. Supõe-se viver fora e acima dela. Nos astros. Nem está preparada para comunicar. Vive para dentro. Ignora como separar sigilo do que deve ser público. Receia a comunicação social. Só interage às ocultas. “Julgar em nome do povo” transmuda-se em fraseologia gratuita. Retórica.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 26/11/2014
21 de novembro de 2014
PODEMOS, MAS POUCO. Procurando informar-me de que fenómeno se trata, li, com toda a atenção, a entrevista que o «número dois» do Podemos concedeu ao Jornal de Notícias. Fiquei a saber, essencialmente, duas coisas de quem se propõe lutar contra os chamados «partidos do sistema»: que Juan Carlos Monedero tem por mestre o «nosso» Boaventura de Sousa Santos, e que o partido espanhol (não sei se já está formalizado como tal) se inspira nalgumas experiências da América Latina. Dito isto, considero-me esclarecido no que me parece essencial. Esclarecimento que me levaria a votar, caso fosse espanhol, nos «partidos do sistema», e sem a mais leve hesitação. Contrariamente ao que promete o poeta Alegre, não acredito em amanhãs que cantam. Bem pelo contrário. Os amanhãs que cantam terminaram, no passado, quase sempre em tragédias, e como diz a chula de não sei onde, para pior já basta assim.
20 de novembro de 2014
A PRIMA DA OBRA. A famosíssima peça intitulada 4'33", de John Cage, em que durante quatro minutos e trinta e três segundos não acontece rigorosamente nada, e que alguns consideram uma obra-prima, está a servir de pretexto para nova obra-prima, segundo o director de uma galeria londrina. Isto porque um artista português, João Onofre, deitou fogo a um piano na capital britânica, enquanto outro português, o pianista João Aboim, fez que tocou mas não tocou. A notícia desta performance, que o galerista considerou uma interpretação esteticamente «impressionante», é, toda ela, hilariante, com a particularidade de o humor ser involuntário. Desconheço, à hora que escrevo, o resultado da coisa, cuja estreia terá decorrido há dois dias, e quantos pianos arderam desde então. Como não vi mais notícias sobre o caso, presumo que ninguém se magoou.
BOA PERGUNTA. «(...) se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?» (Pacheco Pereira, Público de 15/11/2014)
14 de novembro de 2014
TAXAS E TAXINHAS. Definitivamente que a eleição de António Costa para a liderança do PS deixou muita gente nervosa, alguns mesmo de cabeça perdida. Taxar os turistas que chegam a Lisboa em um euro por dia (o total não ultrapassará sete euros por sete ou mais dias) fará com que eles, turistas, deixem de viajar para a capital? Só os politiqueiros «acreditam» que isso possa suceder. Como, pelos vistos, Paulo Portas, para quem a taxa matará a galinha dos ovos d’ouro, e o ministro Pires de Lima, que no parlamento protagonizou uma palhaçada inacreditável. (O ex-ministro Manuel Pinho foi demitido — e bem — por idêntica gracinha, lembram-se?) Devo dizer que António Costa não me entusiasma, como não me entusiasma a generalidade dos políticos, embora ninguém ignora que António Costa é, de longe, melhor que o seu antecessor, que me lembre o pior líder que o PS já teve. Talvez isso justifique a tosca ofensiva da coligação, com meia dúzia de governantes à cabeça, que deviam ocupar-se doutros assuntos em vez de atacar adversários com argumentos estúpidos.
13 de novembro de 2014
SALGADO E OS JULGAMENTOS PÚBLICOS. Ricardo Salgado transferiu centenas de milhões de euros para contas em paraísos fiscais quando já tinha recebido guia de marcha? Segundo uma auditoria encomendada pelo Banco de Portugal, assim foi. Perante isto, o ex-presidente do Banco Espírito Santo já veio dizer que está a ser vítima de uma «tentativa de julgamento público», e de difamação. Assim sendo, é grave? Como o veredicto não lhe será favorável, imagino que será, para ele, gravíssimo. Mas é preciso que se diga que, tirando os tribunais, que na hora da verdade ninguém sabe o que irão decidir, toda a gente sabe que há matéria para o julgar — e condenar — por vários crimes. São demasiados as evidências já conhecidas, demasiadas as fontes que as vêm tornando públicas, e se há evidências que não são inteiramente verdadeiras e fontes que não serão de fiar, a abundância de matéria credível chega e sobeja para o incriminar. E ainda a procissão vai no adro.
7 de novembro de 2014
INTERVALO LITERÁRIO. E agora, para desenjoar de Arquivos do Norte, segundo de três volumes autobiográficos de Marguerite Yourcenar, ler para crer o primeiro parágrafo da última crónica no Público de Valter Hugo Mãe, que muitos consideram um escritor, e dos bons:
«As metáforas da luz talvez expliquem porque perdemos o olhar entre candeeiros quando buscamos uma frase, uma solução para a sempre suplicante literatura. Fixamos espaços vazios, de onde se ausentam referências. Os tectos são páginas limpas cuja única palavra é candeeiro. Uma palavra que acende.»
Que tal? Confesso que fiquei todo aceso. Não fora um antiácido que mantenho por perto, e pegaria fogo a um incêndio.
«As metáforas da luz talvez expliquem porque perdemos o olhar entre candeeiros quando buscamos uma frase, uma solução para a sempre suplicante literatura. Fixamos espaços vazios, de onde se ausentam referências. Os tectos são páginas limpas cuja única palavra é candeeiro. Uma palavra que acende.»
Que tal? Confesso que fiquei todo aceso. Não fora um antiácido que mantenho por perto, e pegaria fogo a um incêndio.
5 de novembro de 2014
BONS TEMPOS. Por me parecer delicioso, aqui vai um extracto de Eterna Meia-noite em Paris, um texto de Marcelo Franco sobre os anos loucos da capital francesa publicado não sei em que edição da Revista Bula:
(…) o início da festança [anos loucos de Paris na década de 20] ocorreu bem antes, no jantar que Picasso ofereceu, em 1908, ao pintor Henri Rousseau, que, mesmo com 64 anos, era admirado pela geração mais jovem. Dele participaram várias pessoas, entre elas os pintores Georges Braque e Marie Laurencin, os escritores André Salmon e Guillaume Apollinaire, os americanos Gertrude Stein, seu irmão Leo e sua nova amiga (e futura amante) Alice B. Toklas. Planejaram que se reuniriam aos pés de Montmartre para aperitivos no bar Fauvet e depois subiriam a ladeira até o estúdio de Picasso, onde comeriam arroz à valenciana. Plano bom, execução desastrosa.
Realmente, até aí tudo fora bem, mas a coisa desandou: no bar, Laurencin embriagou-se e ficou inconveniente; a namorada de Picasso, Fernande Olivier, ficou desconsolada porque alguns produtos encomendados não foram entregues, saindo então com Alice Toklas para tentar encontrar alguma mercearia aberta, o que não conseguiram; na subida de Montmartre, Gertrude e Leo tiveram de carregar Laurencin, que não conseguia mais andar; Fernande barrou a entrada de Laurencin no ateliê, e Gertrude Stein disse-lhe então que, depois de carregá-la, ela teria que ser aceita, com o que Picasso concordou, mas Laurencin, já dentro do ateliê, caiu sobre uma bandeja; Appollinaire, que era amante de Laurencin, levou-a para fora e, ao que tudo indica, deu-lhe uns tabefes, fazendo-a recuperar um pouco a sobriedade; vizinhos esfomeados roubaram comida; um frequentador do famoso Lapin Agile passeou dentro do estúdio com seu burro, que bebeu bastante e comeu o chapéu de Alice Toklas; cantores de rua italianos juntaram-se à bagunça e foram expulsos por Fernande; André Salmon, também embriagado, começou a brigar com todo mundo e então estátuas começaram a ser derrubadas, para desespero de Braque, que inutilmente tentava segurá-las; um dos pintores dançou músicas religiosas espanholas e estendeu-se no chão como um Cristo crucificado; uma convidada não identificada rolou ladeira abaixo e caiu dentro de um esgoto; Rousseau adormeceu debaixo de uma vela que pingava cera derretida sobre a sua cabeça e, quando acordou, passou a tocar violino.
(…) o início da festança [anos loucos de Paris na década de 20] ocorreu bem antes, no jantar que Picasso ofereceu, em 1908, ao pintor Henri Rousseau, que, mesmo com 64 anos, era admirado pela geração mais jovem. Dele participaram várias pessoas, entre elas os pintores Georges Braque e Marie Laurencin, os escritores André Salmon e Guillaume Apollinaire, os americanos Gertrude Stein, seu irmão Leo e sua nova amiga (e futura amante) Alice B. Toklas. Planejaram que se reuniriam aos pés de Montmartre para aperitivos no bar Fauvet e depois subiriam a ladeira até o estúdio de Picasso, onde comeriam arroz à valenciana. Plano bom, execução desastrosa.
Realmente, até aí tudo fora bem, mas a coisa desandou: no bar, Laurencin embriagou-se e ficou inconveniente; a namorada de Picasso, Fernande Olivier, ficou desconsolada porque alguns produtos encomendados não foram entregues, saindo então com Alice Toklas para tentar encontrar alguma mercearia aberta, o que não conseguiram; na subida de Montmartre, Gertrude e Leo tiveram de carregar Laurencin, que não conseguia mais andar; Fernande barrou a entrada de Laurencin no ateliê, e Gertrude Stein disse-lhe então que, depois de carregá-la, ela teria que ser aceita, com o que Picasso concordou, mas Laurencin, já dentro do ateliê, caiu sobre uma bandeja; Appollinaire, que era amante de Laurencin, levou-a para fora e, ao que tudo indica, deu-lhe uns tabefes, fazendo-a recuperar um pouco a sobriedade; vizinhos esfomeados roubaram comida; um frequentador do famoso Lapin Agile passeou dentro do estúdio com seu burro, que bebeu bastante e comeu o chapéu de Alice Toklas; cantores de rua italianos juntaram-se à bagunça e foram expulsos por Fernande; André Salmon, também embriagado, começou a brigar com todo mundo e então estátuas começaram a ser derrubadas, para desespero de Braque, que inutilmente tentava segurá-las; um dos pintores dançou músicas religiosas espanholas e estendeu-se no chão como um Cristo crucificado; uma convidada não identificada rolou ladeira abaixo e caiu dentro de um esgoto; Rousseau adormeceu debaixo de uma vela que pingava cera derretida sobre a sua cabeça e, quando acordou, passou a tocar violino.
31 de outubro de 2014
É SÓ FUMAÇA. O Ministro dos Negócios Estrangeiros revelou que há jihadistas portugueses que pretendem regressar à pátria, e que isso, a suceder, será um problema que não sabe como resolver. Por razões que já referi, e que cinco minutos de Google bastarão para explicar, não morro de amores pelo ministro. Mas a dúvida de Machete parece-me razoável, e só a politiquice explica tanta celeuma. A eurodeputada Ana Gomes apressou-se a dizer que os jihadistas «têm de ser tratados como terroristas», julgados por actos de terrorismo nos países de origem. E como? Como vai a justiça portuguesa saber dos crimes eventualmente cometidos na Síria ou no Iraque? Vai lá investigar? E como vai saber que os jihadistas, reais ou hipotéticos, integram (ou integravam) o Estado Islâmico? Deitar-se-ão a adivinhar, ou ficar-se-ão pelo palpite? Mais que as dúvidas do ministro, que talvez deveria guardar para si, gostaria de saber como se fará, na prática, o que defende Ana Gomes. Como já não se ouve falar no assunto, desconfio que foi só fumaça.
24 de outubro de 2014
ARGUMENTOS DESPROPORCIONAIS. Já disse e repeti o que penso do conflito israelo-palestiniano. Mas há uma coisa que me tira do sério: acusar Israel de responder aos seus inimigos «de forma desproporcional», como ainda ouvi esta semana. Alguém explica por que se deve responder de forma proporcional? E o que será, já agora, responder de forma proporcional? À pedrada se se for apedrejado, e com o mesmo número de pedras? Nunca vi argumento mais tão sem pés, nem cabeça. Num conflito, valem as razões que cada um diz ter para atacar ou defender-se. Quem lhe escasseia os meios não tem, como pretende a «tese» da desproporcionalidade, mais razão que o outro, nem retira ao outro legitimidade para os usar.
23 de outubro de 2014
OU HÁ MORALIDADE, OU COMEM TODOS. O presidente da República e o primeiro-ministro enganaram os investidores do Banco Espírito Santo (BES), assegura Daniel Oliveira. Porque ambos conheciam a real situação do BES, e aconselharam outra. Não conheço as declarações dos governantes, mas acredito que o Daniel saiba do que fala. Assim sendo, é grave? Com certeza que é grave. E mentir aos portugueses sobre variadíssimas matérias sobre as quais também sabem, à partida, estar a mentir? Não será igualmente grave, talvez ainda mais grave? Mentir aos accionistas de determinado banco, que de antemão sabem os riscos que correm, é mais grave que mentir aos eleitores? Na opinião do Daniel Oliveira (e doutros mais), é mais grave. Não vou repetir o que já disse por duas ou três vezes. Se os accionistas lesados pelas mentiras dos governantes têm direito a ser ressarcidos, então a generalidade dos cidadãos também tem. Parece-me que isto chega e sobeja para demonstrar o absurdo da teoria.
22 de outubro de 2014
INCOMPATIBILIDADES. Para usar uma expressão que detesto mas muito em voga, os episódios à volta do universo Espírito Santo são, para os comentadores políticos, incontornáveis. O assunto tornou-se obrigatório para quem comenta a actualidade, e tudo indica que por muito mais tempo. Como já se viu, Miguel Sousa Tavares não tem condições para se pronunciar sobre o caso (é compadre de Ricardo Salgado) com um mínimo de isenção. Marcelo Rebelo de Sousa é amigo do banqueiro agora em desgraça, e está tudo dito. Haverá outros, mas estes são, seguramente, os mais influentes. Nada contra Miguel Sousa Tavares ou Marcelo Rebelo de Sousa, mas é preciso que isto se diga — e repita — as vezes que for preciso. A ver se alguém decide o óbvio.
15 de outubro de 2014
COLHEITA DAS VINDIMAS.
Além de meia dúzia de garrafas de origem certificada e proveniência segura, e da gastronomia capaz de ressuscitar um moribundo, nos primeiros dias do santíssimo descanso dediquei-me à colheita de Viagem a Itália, de Goethe, Através do Continente Negro (Volumes I e II), de Henry Morton Stanley, O Homem sem Qualidades (Volumes II e III), de Robert Musil, Enviado Especial, de Evelyn Waugh, O Doutor Glas, de Hjalmar Soderberg, As Maçãs Douradas, de Eudora Welty, e Vidas Perdidas, de Nelson Algren — todos encomendados com prudente antecedência, e prudentemente guardados em local seguro. Depois foram A Estrada do Tabaco, de Erskine Caldwell, A História Não Acabou, de Claudio Magris, Arquivos do Norte, de Marguerite Yourcenar, Novelas e Textos Para Nada, de Samuel Beckett, O Caminho de San Giovanni, de Italo Calvino, Portugal, Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, A Travessia, de Cormac McCarthy, Arte de Amar, de Ovídio, Sonhos de Bunker Hill, de John Fante, O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, Sapho, de Alphonse Daudet, A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo, O Ente Querido, de Evelyn Waugh, A Divina Comédia, de Dante (oferta do meu sobrinho), Confissões de Uma Liberal, de Maria Filomena Mónica (que comprei sem saber que já tinha), e Pan, de Knut Hamsun (que voltei a comprar pelo mesmo motivo). O pior é o espaço para os acomodar, cada vez mais escasso. Já faltou mais para começar a pô-los debaixo da cama.
Além de meia dúzia de garrafas de origem certificada e proveniência segura, e da gastronomia capaz de ressuscitar um moribundo, nos primeiros dias do santíssimo descanso dediquei-me à colheita de Viagem a Itália, de Goethe, Através do Continente Negro (Volumes I e II), de Henry Morton Stanley, O Homem sem Qualidades (Volumes II e III), de Robert Musil, Enviado Especial, de Evelyn Waugh, O Doutor Glas, de Hjalmar Soderberg, As Maçãs Douradas, de Eudora Welty, e Vidas Perdidas, de Nelson Algren — todos encomendados com prudente antecedência, e prudentemente guardados em local seguro. Depois foram A Estrada do Tabaco, de Erskine Caldwell, A História Não Acabou, de Claudio Magris, Arquivos do Norte, de Marguerite Yourcenar, Novelas e Textos Para Nada, de Samuel Beckett, O Caminho de San Giovanni, de Italo Calvino, Portugal, Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, A Travessia, de Cormac McCarthy, Arte de Amar, de Ovídio, Sonhos de Bunker Hill, de John Fante, O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, Sapho, de Alphonse Daudet, A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo, O Ente Querido, de Evelyn Waugh, A Divina Comédia, de Dante (oferta do meu sobrinho), Confissões de Uma Liberal, de Maria Filomena Mónica (que comprei sem saber que já tinha), e Pan, de Knut Hamsun (que voltei a comprar pelo mesmo motivo). O pior é o espaço para os acomodar, cada vez mais escasso. Já faltou mais para começar a pô-los debaixo da cama.
REGRESSO ANUNCIADO. Andei afastado das notícias nas últimas três semanas, demasiado tempo para quem vive delas. Regresso com a impressão de me ter escapado algo importante, mas talvez seja apenas um sentimento de culpa. Dediquei os últimos dias a ler incontáveis publicações atrasadas, na esperança de recuperar o tempo perdido. Terei ficado melhor informado, mas a sensação permanece.
18 de setembro de 2014
12 de setembro de 2014
ADIVINHEM DE QUEM É A CULPA. Loureiro dos Santos afirmou, no Público, que a «emergência da tentativa de restauração do califado na região Síria/Iraque resulta de dois erros estratégicos cometidos pelos EUA». Segundo ele, o primeiro é da responsabilidade de Bush (por ter invadido o Iraque), e o segundo da responsabilidade de Obama (por não ter dado o apoio militar que os insurgentes requeriam). Daniel Oliveira, no Expresso, junta-se ao coro: «(...) o “Estado Islâmico” é filho da intervenção norte-americana no Iraque.» Resumindo, nada de novo, muito menos de surpreendente. A culpa é dos americanos, dos americanos, e dos americanos. O argumento é fraquinho, para não dizer pior. Dizer-se que o fundamentalismo islâmico resulta da política externa americana é, desde logo, um facto que carece de sustentação, uma mentira que qualquer livrito de História desmente. Mas nem é preciso tanto. Qualquer pessoa mediamente informada, e que não vê apenas o que lhe convém, sabe que o fundamentalismo islâmico não nasceu ontem, muito menos do ódio à América (leia-se EUA).
LIVRARIAS. Boas notícias, más notícias, e notícias assim-assim para quem gosta de livros e livrarias. A Shakespeare & Co. da Broadway acaba de fechar. Desmontavam as últimas estantes quando lá estive, faz hoje uma semana . (Ainda me lembro da Strand da Fulton Street pouco antes de fechar e da tristeza que me causaram as estantes vazias.) Nas boas notícias, descobri a Idlewild Books, livraria especializada em literatura de viagens que hei-de explorar com mais tempo na próxima visita. Nas assim-assim, vi na McNally Jackson e na livraria da NYU uma maquineta que imprime livros enquanto o diabo esfrega um olho. A avaliar pela informação disponível e por alguns exemplares expostos, a qualidade é boa. Digo assim-assim, porque não sei bem o que isto significa. Se é bom, se é mau. Quando o mercado dos eBooks cresce de dia para dia, deparar com uma coisa destas é, no mínimo, surpreendente.
10 de setembro de 2014
A BARBÁRIE. Parece que o presidente Obama não sabe o que fazer face à escalada do jihadismo do autodenominado Estado Islâmico (escrevo antes de Obama falar aos americanos, que deverá suceder esta noite). Pelo menos foi isso que deu a entender um dia destes, quando assumiu não ter uma estratégia para enfrentar o problema. É grave? Segundo alguns, é gravíssimo. Na minha opinião, a gravidade, a existir, foi tê-lo assumido publicamente, que neste tipo de assuntos a verdade não é um bem absoluto. Depois, por que é que os americanos têm que ter uma estratégia para tudo, estar prontos a intervir em todo o lado sempre que estão em causa problemas que dizem respeito a meio mundo? Por que não se exige o mesmo aos outros países, nomeadamente da União Europeia, cujos mandantes se limitam à retórica quando são postos diante casos destes? Por que não se denunciam abertamente os países, alguns da União Europeia, que em segredo pagam resgates astronómicos pela libertação dos seus cidadãos que tiveram o azar de cair nas mãos dos jihadistas, entregando a um bando de assassinos não só o dinheiro que lhes é exigido mas o mais elementar dos princípios? Evidentemente que o problema dos jihadistas do Estado Islâmico é global, pelo que a resposta só pode ser global. Infelizmente, não se vêem passos concretos nesse sentido, nem como o jihadismo possa ser erradicado com paninhos quentes. Entretanto, decapita-se, crucifica-se e fuzila-se, e quanto mais tempo levar a encarar a realidade de frente — e a agir em conformidade — mais vítimas haverá para contar. O islão é uma religião de paz? Acho que vou rever o debate entre Christopher Hitchens e Tariq Ramadan, realizado há quatro anos precisamente com esse título. A ver se desta vez saio mais esclarecido.
NÃO SE FAZEM OMELETAS SEM OVOS. Paulo Bento já foi. Não é um desejo (nem deixa de ser), mas uma constatação. Por tudo o que se diz desde a derrota frente à Albânia (e ainda antes), falta apenas acertar as contas e fazer a mala. E porquê? Porque os resultados não têm sido brilhantes, e os resultados é que contam. Todos sabem que quando não há resultados, a primeira cabeça a rolar é a do treinador. Haja, ou não, razões para isso, e no caso de Paulo Bento não sei se haverá. A mim parece-me que o problema da selecção é outro. Tirando três ou quatro jogadores, não temos matéria-prima. Por uma vez dou razão a Miguel Sousa Tavares: se a selecção disputasse o campeonato português, acabaria em quinto ou em sexto. Vendo bem, se calhar nem isso.
5 de setembro de 2014
SEM REI, NEM ROQUE. A RTP, pelo menos a RTP Internacional, passa a maior parte do dia a promover o que há de pior na música portuguesa. É normal que uma televisão pública passe dias inteiros a promover entulho? Outra coisa, já agora, sobre a dita. Por acaso saberão quantas vezes passam, diariamente, durante meses a fio, os mesmos anúncios aos mesmos programas? Para quem não vê, eu respondo: nas três ou quatro horas diárias que tenho visto nos últimos meses chega a ultrapassar a meia dúzia. O pior é a música de qualidade (também há, também há) e um ou outro programa de divulgação cultural, que de tanto passarem se tornaram insuportáveis. A última vítima foi Cardoso Pires, cujo programa (Ler Mais, Ler Melhor, salvo erro) ouvi tantas vezes e durante tanto tempo que já conheço de cor. A RTP Internacional, como está, promove o que há de pior, e destrói o que há de melhor. Pior seria difícil.
4 de setembro de 2014
PROCESSAR OS CONTRIBUINTES? (2). Se bem entendi, alguns accionistas do BES insistem em processar o Estado, a pretexto de que o Estado, pela boca de alguns dos seus mais altos representantes (Presidente da República à cabeça), os induziu a tomar decisões desastrosas. Já dei para este peditório, mas espanta-me que a teoria continue a fazer caminho, a ponto de o próprio Presidente da República resolver recordar o que disse sobre o BES que tanto os terá prejudicado. Alguns accionistas perderam quase tudo o que tinham? Imagino a tragédia. Mas, lamento dizê-lo, problema deles. Quem se mete nessas coisas sabe, desde o início, ao que vai, e os riscos que corre. Era só o que faltava que os contribuintes pagassem as perdas de quem jogou e perdeu.
O NOSSO HOMEM EM BRUXELAS. Talvez não chegue a Presidente da República, como será seu desejo. Mas foi graças a exercícios como este que o homem chegou onde chegou.
SERVIÇO PÚBLICO. Obrigatório o artigo do médico Manuel Pinto Coelho sobre o vírus Ébola no Público de hoje.
29 de agosto de 2014
LIVROS DE VERÃO. Depois de muita pesquisa, descobri, finalmente, um livro de Verão, ou um livro cuja leitura me parece adequada a quem vai de férias no Verão e tenciona ler alguma coisa que não lhe exija demasiado esforço. Chama-se Um ano na Provença, o autor é o inglês Peter Mayle, e desde o início (1990) que foi um sucesso de vendas. Não o recomendo por vender muito, que os sucessos de vendas geralmente são tão maus que não se recomendam. Recomendo-o porque é um livro que se lê com agrado, por ter uma boa dose de humor, por estar bem escrito, por ser infinitamente melhor que grandes coisas que por aí apregoam. Pesquisei no Google e constatei, com surpresa, que não está editado em Portugal. Como é possível?
28 de agosto de 2014
O TUDO EM UM. Depois do Parlamento Europeu, de que disse o pior e onde se mantém a embolsar uma mesada que ainda há pouco considerou escandalosa (parece que 17 mil euros), Marinho Pinto já se assumiu como candidato a deputado nas Legislativas de 2015, a Presidente da República em 2016, e a ministro da Saúde quando calhar. Como já disse e repeti, nunca lhe apreciei a mercadoria que por aí anda a vender, muito menos lhe compraria um carro em segunda mão. Definitivamente que a frontalidade e o desassombro com que diz umas verdades (que não me custa reconhecer-lhe) não bastam para ser melhor que os outros. Por aquilo que já demonstrou, não duvido que o ex-bastonário dos Advogados faria igual ou pior aos que hoje critica caso estivesse no lugar deles.
22 de agosto de 2014
ANDAM POR AÍ A VER COISAS. Li na Lusa que a PSP «identificou» duas mulheres que se faziam passar por videntes, ao que parece um crime de burla. Também parece que as sujeitas abordaram não sei quem na via pública, a quem «leram» as mãos e garantiram ter «problemas de saúde e familiares». Perturbada, a vítima terá cedido ao pedido das falsas videntes, a quem entregaram «bens no valor de cerca de dois mil euros». Acontece que algum tempo depois a vítima encontrou as suspeitas a vender numa feira, e decidiu chamar a polícia. O episódio acabou com as ditas numa esquadra, onde lhes foram apreendidos «três anéis, cinco brincos, uma medalha de um signo, um frasco de perfume, dois carrinhos de linhas, 11 dentes de alho, seis pontas de alecrim seco, uma caixa de palitos e cerca de um metro de papel higiénico». Segundo a PSP, as suspeitas fazem da burla os seus modos de vida, sendo a venda nas feiras um mero disfarce. E foi-lhes imposto o Termo de Identidade e Residência, não fossem elas fugir, sei lá, para as Seychelles. Infelizmente, nem a PSP nem a notícia esclarecem dois pequenos detalhes. Como as sujeitas se faziam passar por videntes e não são, significa que há as verdadeiras, presumo que com licença para exercer a respectiva actividade, e, presumo de novo, sem facturinha? Tudo indica que sim. Assim sendo, como vamos nós distinguir as verdadeiras das falsas na hora em que nos faltar a cabeça e sobrar o dinheiro?
O POVO DA TELEVISÃO. Obrigatório o texto de António Guerreiro no Público de hoje. Só um cheirinho: «Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e entertainers para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco.»
20 de agosto de 2014
DESABAFO. Sei que isto não interessa a ninguém, mas já ouvi dezenas de vezes o segundo movimento (Adagio un poco mosso) do que popularmente ficou conhecido por Concerto do Imperador, de Beethoven. Por vezes ouço-o duas e três vezes seguidas, e só não ouço ainda mais porque receio «gastá-lo». A versão que aqui sugiro (da London Symphony Orchestra, dirigida por Colin Davies e com Claudio Arrau no piano) não é, musicalmente, a melhor que conheço. Mas considerando a qualidade do áudio e do vídeo, deve ser do melhor que há.
19 de agosto de 2014
PROCESSAR OS CONTRIBUINTES? (1). Compreende-se que os investidores que não conseguiram escapar à queda do BES (e derivados) queiram, agora, recuperar algum. Também não me custa a crer que o Governo e os organismos que tutela não agiram como deviam, induzindo os investidores a decidir erradamente. Mas que os investidores se achem no direito de fazer com que os contribuintes paguem as aventuras em que se meteram (processar o Estado significa, caso sejam bem sucedidos, embolsar dinheiro dos contribuintes), sabendo de antemão o risco que corriam, é inadmissível. O precedente, a abrir-se, levar-nos-ia para cenários surrealistas. Por exemplo, se o Governo garante que amanhã faz sol e choveu a potes, há sempre um ingénuo que se fiou no Governo e apanhou uma molha por não ter guarda-chuva — logo tem o direito de processar o Governo e embolsar a respectiva indemnização. Se o Presidente da República jurar que os melões de Almeirim vão, este ano, ser os melhores de sempre, e os ditos não cumprem a profecia, qualquer apreciador de melões terá o direito de se sentir enganado e processar o Presidente. Os exemplos podiam continuar, mas julgo que estes bastam para demonstrar o absurdo da ideia. Depois, há a realidade que convém não esquecer. Se os governantes nem sequer se demitem (ou são demitidos) quando cometem aldrabices, como poderiam ser penalizados (ou o país por eles) por erros de avaliação? Por mais tentador que tudo isto possa ser, por mais justo que tudo isto possa parecer, o reverso da medalha é demasiado mau para que se vá por aí. Os erros políticos devem ser pagos nas urnas, e só nas urnas. Não é a solução perfeita, mas é a menos má.
13 de agosto de 2014
A SILLY SEASON JÁ NÃO É O QUE ERA. São tantas as trapalhadas (para não lhe chamar outra coisa) que diariamente se anunciam que praticamente se deixou de falar de Ricardo Salgado, o ex-dono disto tudo que será o principal responsável pela novela em cena. Digo «será» porque são tantas as notícias que a gente chega a um ponto que perde o fio à meada. Ele são heróis que passam a vilões num abrir e fechar d’olhos, contribuintes que não iam desembolsar nem um centavo mas agora já vão, polícias que emprestam dinheiro a ladrões, investidores que põem o deles ao fresco minutos antes da hecatombe por obra e graça de um espírito santo de orelha no local certo à hora certa, e hoje mesmo ficou-se a saber que os investidores que ficaram a arder ameaçam extorquir não sei quanto ao Estado (leia-se contribuintes), alegando que o Estado não fez o que devia — ou fez mal o que devia. Talvez amanhã tudo isto seja doutra maneira, que a silly season está cada vez mais imprevisível.
AINDA OS ERROS ORTOGRÁFICOS. Sinceramente, não me parece normal tanto erro ortográfico (um em cada três professores examinados deu três ou mais erros, 15% cometeram cinco ou mais) e de pontuação (40% erraram três ou mais vezes) numa prova destinada a avaliar docentes contratados pelo Estado. Mesmo considerando que outras classes profissionais também os dão, como um professor se apressou a lembrar — e a exemplificar (com razão) — com os jornalistas, assim julgando desvalorizar uma questão que não pode — nem deve — ser desvalorizada. Mas se a justificação não convence, já me parece extraordinário que a presidente de uma Escola Superior de Educação venha dizer que os erros detectados na tal prova são normais, uma vez que os professores estavam «em situação de tensão» quando fizeram os exames, e segundo ela é normal que se erre quando se está sob tensão. Como é evidente, a explicação não explica coisíssima nenhuma, muito menos vinda de quem vem. Desde quando alguém que tem de prestar provas não está sob tensão? E quem, já agora, melhor que os professores, que periodicamente examinam os seus alunos, saberá que assim é? Eis um exemplo acabado de que os professores do ensino público, contratados ou efectivos, se julgam intocáveis. Definitivamente que não há, para eles, professores incompetentes, como acontece em todos os sectores de actividade. Só isto chega para duvidar das restantes razões que juram ter.
8 de agosto de 2014
ORA AQUI ESTÁ UM POLÍTICO DIFERENTE... PARA PIOR. Conforme avisou no próprio dia em que foi eleito deputado ao Parlamento Europeu (tencionava candidatar-se às Legislativas de 2015 e/ou às Presidenciais de 2016), Marinho Pinto avisou hoje mesmo que abandonará o cargo daqui a um ano, porque considera que «os problemas nacionais são mais graves do que os europeus». «O elemento agregador da Europa não está nos ideais, nem nas políticas, mas no dinheiro», afirma o ex-bastonário dos Advogados. Como não acredita «numa organização toda construída em torno desse dinheiro», Marinho Pinto promete mudar de vida daqui a um ano. E porquê só daqui a um ano quando podia fazê-lo hoje mesmo? Infelizmente, não explicou por que vai permanecer tanto tempo num órgão que apenas se move pelo dinheiro, em que diz não acreditar. E como não explicou, a decisão presta-se às mais variadas leituras. Por exemplo, talvez lhe convenha a mesada (à volta de 17.000 euros), que em tempos considerou um exagero. Para um cavalheiro que se apresentou a sufrágio tendo como lema combater os interesses instalados e os poderosos sem escrúpulos, naturalmente considerando-se como o oposto disso tudo, a bota não bate com a perdigota. Como há muito se percebeu, Marinho Pinto chegou há dois dias à política, e logo se tornou um ilustre representante do pior que há nela. Bem pode, por mim, candidatar-se ao que lhe convier que não lhe darei uma segunda oportunidade. Aliás, por razões que dei conta no momento apropriado, nunca lhe daria, sequer, a primeira.
6 de agosto de 2014
COISAS NOJENTAS. Desde quando é normal (e permitido) exibir, nos media, fotografias de vítimas menores, no caso uma criança de dois anos? No Correio da Manhã, provavelmente desde sempre. Voltou a hoje a fazê-lo com a notícia de que um tribunal decidiu entregar o pequeno Daniel à guarda do pai, após um episódio grotesco protagonizado pela própria mãe. Pelo menos na edição online, que à outra não tenho acesso.
5 de agosto de 2014
MAIS UNS TROCOS PARA O PEDITÓRIO DOS PROFESSORES. Resido e trabalho num país onde a formação académica e o currículo não bastam para que a entidade patronal, pública ou privada, dispense de examinar, se assim o entender e pelos métodos que julgue adequados, quem pretende contratar. As provas suplementares (chamo-lhe assim para simplificar) destinam-se a escolher o candidato com o perfil que julguem adequado, e parece-me um procedimento normal. Talvez mais do que normal: como nunca vi quem questionasse estes métodos, que certamente terão os seus defeitos, é um não assunto. Como é sabido, sempre que em Portugal um organismo público impõe — ou pretende impor — estas regras, cai logo o Carmo e a Trindade. Porque os candidatos já estão certificados pelas universidades, argumenta-se, daí que mais ninguém deve fazer avaliações suplementares caso os pretenda contratar. Como já perceberam, falo, essencialmente, dos professores do ensino público, que volta e meia invocam este argumento para se esquivarem às avaliações — e no caso de lhes faltar argumentos para se esquivarem às avaliações põem os métodos em causa, alegando erros de toda a espécie. Admitem, quando muito, que as entidades patronais façam avaliações desde que sejam eles, professores, a ditar as regras. O Ministério da Educação pretende, com as avaliações, escolher os melhores e dispensar os restantes? Sabendo-se que há professores a mais no ensino público, parece-me um método justíssimo. A minha única discordância é não assumi-lo com frontalidade, mesmo que os custos políticos lhe saiam caríssimos.
4 de agosto de 2014
COISAS QUE VOU LENDO (15). «A detenção para interrogatório de um banqueiro trouxe ao de cima a questão da justiça para pobres e da justiça para ricos. A destes é acelerada ou lenta conforme os seus interesses. A daqueles é lenta ou acelerada conforme a agenda do Ministério Público e juiz. Os pobres são detidos a toda a hora. Os outros, quando o poder os abandona e se tornam fracos. (...) Há a justiça dos fracos e a dos fortes. As dissimetrias são patentes em toda a vida social. Transversais. Nascem no berço da vida. Findam no leito da morte.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 4/8/2014
1 de agosto de 2014
A GUERRA CONTINUA A DIZIMAR O JORNALISMO. Nunca tive uma opinião definitiva sobre o conflito israelo-palestiniano (chego a pensar que sou o único), e como toda a gente, lamento a carnificina em curso. Mas também lamento o «jornalismo de causas», que só vê o que lhe convém e esconde o que não lhe convém, deixando quem não percebe bem o que se passa ainda a perceber menos. Relatam que há centenas de vítimas inocentes, geralmente mulheres e crianças, e não há como duvidar. E combatentes do Hamas (ou doutras forças que se opõem a Israel)? Não terá morrido ninguém? Segundo o dito «jornalismo», nem um. Estranha pontaria a do exército israelita.
31 de julho de 2014
AVISO AOS INCAUTOS. Um dia destes resolvi experimentar uma massagem chinesa (chamo-lhe assim porque não sei como se designa), daquelas feitas na rua montado num cavalete. Olhei para a tabela de preços e, desconfiado, escolhi a mais básica, ao que o massagista logo insistiu para que eu escolhesse outra, segundo ele muito melhor, segundo a tabela de preços a custar o dobro. Como foram várias as vezes que me magoou, impossível relaxar durante o exercício — coisa, suponho, ser o objectivo do dito. Saí de lá não sei se na mesma, mas aliviado por não me ter escangalhado o esqueleto — e não sem uma última insistência para que eu fizesse o que me recomendava, que segundo ele me deixaria como novo. Vendo bem, não se pode exigir muito mais de um serviço que me custou doze dólares mais gorjeta, que o sujeito recolheu sem me olhar, nem me agradecer. Serviu-me, ao menos, de lição, e convenhamos que lições por este preço não são fáceis de arranjar.
29 de julho de 2014
COISAS QUE VOU LENDO (14). «Se Ricardo Salgado abre a boca, metade do regime parte o pescoço ao cair das escadas. As suas contas bancárias até podem ficar a zeros – enquanto ele tiver memória, continuará a ser um dos homens mais poderosos do país.» João Miguel Tavares, Público de 29/07/2014.
25 de julho de 2014
DESPROPORÇÃO DE ARGUMENTOS. Como sabe quem acompanha o conflito israelo-palestiniano, sempre que uns e outros se confrontam os israelitas matam mais que os palestinianos, graças aos meios que os primeiros têm de sobra, e aos segundos lhes falta. Enquanto os palestinianos fazem duas ou três vítimas mortais, os israelitas fazem duas ou três centenas. É a famosa desproporção de meios, que muitos usam como argumento para acusar um dos lados (Israel), como se possuir mais meios que o adversário lhe retire razão — e, por consequência, quem os não tem passe a tê-la. Como é óbvio, o argumento não tem pés, nem cabeça. É popular junto de quem, sobre tão delicado assunto, tem ideias definitivas, geralmente pré-concebidas, mas não explica — nem deslegitima — coisíssima nenhuma. Imaginem, já agora, que a desproporção de meios era ao contrário. Alguém duvida que Israel já tinha sido varrido do mapa?
A JUSTIÇA E O EX-DONO DISTO TUDO. Agora que Ricardo Salgado parece ter caído em desgraça, a justiça decidiu deitar-lhe a unha para lhe fazer umas perguntas sobre burlas, abusos de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. Mais: decidiu constituí-lo arguido no âmbito do caso «Monte Branco», e obrigá-lo a depositar uma caução de três milhões de euros para aguardar julgamento em liberdade. Perante isto, impõe-se, desde já, uma pergunta: terá a justiça descoberto, de repente, que havia indícios de crimes que ainda há seis meses não havia? Honestamente, duvido. Regozijemo-nos, contudo, com os últimos desenvolvimentos, apesar de ser mais que provável que tudo termine da forma do costume.
24 de julho de 2014
DESCULPAS DE MAU PAGADOR. Gostei da metáfora («dores de crescimento») com que o presidente da TAP caracterizou os actuais problemas da empresa. Gostei, mas não me comovi. Afinal, a TAP está a operar acima das suas possibilidades, vendeu viagens que não pode efectuar. Fernando Pinto diz que o fornecedor não cumpriu os prazos previstos para a entrega de não sei quantas aeronaves que a TAP lhe terá adquirido — razão, sublinha, a que a TAP «é totalmente alheia». Como é evidente, a história não acaba aqui. O problema da TAP com os fornecedores não serve de desculpa para o espectáculo em cena, e o espectáculo em cena diz-nos que foram cancelados 50 voos em apenas quatro dias. Sobra, portanto, uma pergunta: como podia a TAP vender viagens sem estarem asseguradas as condições para as efectuar? Eis, a meu ver, a questão, ou a primeira questão. Estivessem as vítimas de cancelamentos e atrasos habituados a reclamar o que têm direito, e neste preciso momento a TAP estaria a desembolsar indemnizações atrás de indemnizações cujas consequências podiam ser-lhe fatais.
22 de julho de 2014
SE NÃO HÁ PROBLEMA, TALVEZ HAJA UM PROBLEMA. Depois do primeiro-ministro e outros membros do Governo, ontem foi a vez do Presidente da República garantir que o Banco Espírito Santo (BES) e o sistema bancário em geral está sólido e recomenda-se. Evidentemente que quando tanta gente importante nos vem dizer que não há problema com o BES e com o sistema bancário em geral, estamos, de facto, com um problema. Estas manobras recordam-me o célebre repórter que em Bagdade garantia, em directo para a TV, que a tropa americana não tinha entrado na cidade, enquanto o que se passava atrás dele (viaturas militares americanos a passar) atestavam o contrário do que garantia.
À ATENÇÃO DAS EDITORAS PORTUGUESAS. Dei uma vista de olhos pelos principais sites portugueses que vendem livros online e não encontrei uma só edição em português de William Ospina, escritor colombiano de quem leio as últimas páginas do excelente El país de la canela. Estão à espera de quê as editoras portuguesas para deitar mãos à obra?
18 de julho de 2014
CHAMAR OS BOIS PELOS NOMES. Pedro Braz Teixeira defendeu anteontem que os principais responsáveis do GES e do BES devem ser levados a tribunal. «Entendo que seria muito benéfico para o interesse público que houvesse uma acusação conjunta do Ministério Público, do Banco de Portugal e da CMVM», disse o investigador, sugerindo que lhe «parece evidente que uma acusação conjunta daria muito mais força à acusação». Ontem, João Vieira Pereira escreveu no Expresso: «Chegámos a um ponto que não basta saber de quem é a culpa. É preciso que os culpados respondam pelo que fizeram.» Não sei no que isto vai dar, mas não será preciso ser profeta para adivinhar que acabará em nada caso a justiça entenda haver matéria criminal e agir em conformidade. Saúda-se, no entanto, que se comece a dizer o óbvio. E o óbvio é que há demasiados indícios (para não dizer provas) de práticas criminosas que não podem deixar a justiça indiferente. Como algumas empresas com a marca Espírito Santo têm sede noutros países (Luxemburgo e Suíça, por exemplo), e há notícias de que estão a ser investigadas nesses mesmos países, pode ser que daí venha alguma coisa.
JOÃO UBALDO RIBEIRO, 1941-2014.
«Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.» Mesa farta para todos
«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» Veja de 18 de Maio de 2005
«Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966 para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve — este ingerido em Caracas, embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo, a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto por dentro, e não por fora.» Mesa farta para todos
«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» Veja de 18 de Maio de 2005
JORNALISMO DE CACA. Precisamente no dia em que o exército israelita decidiu fazer uma incursão terrestre em Gaza, por razões que não cabem neste texto, pelo menos um jornalista da nossa praça veio defender a ideia de que alguém mandou abaixo um avião na Ucrânia para desviar a atenção do conflito israelo-palestiniano. A ideia é um bocado amalucada, mas presumo que há quem acredite. As teorias da conspiração têm sucesso garantido, sobretudo junto de quem pouco ou nada sabe sobre os assuntos lá abordados, e nem o facto de nunca se confirmarem demove os entusiastas. Como em tempos escrevi, há quem esteja disposto a perder duas e mais horas a inteirar-se de uma teoria da conspiração, mas não tem meia hora para se inteirar dos factos. Tudo porque as teorias da conspiração são mais interessantes que os factos, que para esta gente só atrapalham.
16 de julho de 2014
FUNERAL SEGUE DENTRO DE MOMENTOS. Parece que os novos administradores do Banco Espírito Santo (BES) são pessoas sérias e competentes. Conheço de ouvir falar, nem sempre bem, mas admito que sejam. Acontece que todo o produto ou serviço que neste momento leve — ou tenha levado — o nome Espírito Santo, foi chão que deu uvas. O que vier depois do BES será outra coisa, que o nome caiu de tal modo na lama que jamais se levantará. Ao contrário do que sucedeu no passado, em que o BES era uma marca de confiança até para os mais desconfiados, agora qualquer produto ligado à família é para desconfiar. Como as últimas notícias bem o demonstram (as acções do BES continuam a cair a pique mesmo depois de anunciada a nova administração, que deveria acalmar os mercados), aos mercados não bastam pessoas sérias e competentes. É preciso que haja resultados, e neste momento só um milagre os trará. Depois, há histórias por contar e factos por apurar, pelo que o caminho nos próximos tempos será sempre a descer. Resta saber se até ao abismo final.
Karajan, para além do bem e do mal (1989-2014). Um belo texto do João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos.
14 de julho de 2014
COISAS QUE VOU LENDO (13). «Em Portugal, morrem por ano cerca de três mil pessoas por negligência médica ou, para usar um termo brando, por "evento adverso". A Deco calcula que 60% dos portugueses receiam ser vítimas de erros médicos e que 58% já se queixaram formalmente dos ditos. Não é preciso ser sobredotado para perceber que um simples dia de greve reduz em 1/365 semelhante flagelo, que um mês e pouco de greve reduziria o flagelo em 10% e que uma greve permanente e ininterrupta acabaria com o flagelo de vez.» Alberto Gonçalves, Diário de Notícias de 13/7/2014
9 de julho de 2014
ARTISTAS SEM OBRA. Imaginem que um cidadão comum não praticante das artes enforca a bandeira portuguesa, e o enforcamento é notícia em tudo que é media. Teria sido absolvido pelo juiz caso alguém lhe movesse um processo? Quase apostaria que não. Mas quando um artista (hesito em pôr-lhe aspas) comete idêntica proeza, o tribunal responde absolvendo-o, alegando liberdade de expressão e de criação artística — ambas garantidas pela Constituição. O mais curioso é que, tirando o cadafalso onde enforcou a bandeira, não se lhe conhece uma única obra. Curioso é como quem diz, que hoje em dia artistas sem obra é corriqueiro.
SOPHIA E O ACORDÊS. Li com atenção, que me lembre pela primeira vez, um texto que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para o Expresso, oportunamente republicado por aquele jornal a propósito da transferência dos restos mortais da poetisa para o Panteão, e que termina de forma que vale a pena recordar: «A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.» Lido o texto, constato que a prosa foi convertida para o novo Acordo Ortográfico, na minha opinião abusivamente, e sem que alguém explicasse porquê. Duvido que Sophia concordasse com a «actualização» da grafia caso estivesse entre nós. Infelizmente, não vi quem se indignasse. A começar pelos que lhe estão mais próximos.
3 de julho de 2014
CLARA E OS EMBUSTES. Por falar em Clara Ferreira Alves (CFA) e em ideias pré-concebidas, na mesma edição do Expresso onde publicou o provincianismo chique assinou uma entrevista a Carlos Cruz, a cumprir uma pena de prisão por abuso sexual de menores. Para começo de conversa, CFA afirma logo no preâmbulo: «Estou convencida, pela leitura do processo e do acórdão, de que não devia ter sido condenado. O que torna a prisão da Carregueira uma brutalidade e uma negação de justiça pelo Estado português.» E foi-o repetindo ao longo da entrevista, nomeadamente quando pergunta ao entrevistado: «Ele [juiz Rui Teixeira] parece ser alguém que gosta de dar nas vistas. Fazia-se fotografar de moto, no género aventura, sem perceber que um juiz não faz aquela figura nos tablóides.» Infelizmente, CFA não demonstrou por que está convencida da inocência de Carlos Cruz, muito menos avançou qualquer argumento que apontasse nesse sentido. Como escrevi quando foi conhecido o desfecho do caso, não sei se Carlos Cruz é culpado, ou inocente. Sei, todos sabemos, que foi condenado por vários juízes e pelo menos dois tribunais, e que o processo passou por demasiadas mãos para que a tese da conspiração ou assim seja uma hipótese a considerar — ou que tenha sido, como alguns garantem, um erro judiciário. Ao que parece, CFA terá evidências que outros não têm, mas infelizmente resolveu guardá-los para ela. É pena, em primeiro lugar, para Carlos Cruz, para quem qualquer ajuda seria, decerto, bem-vinda. Depois, uma entrevista que pretende demonstrar a visão da entrevistadora sobre determinado assunto (no caso coincidente com a do entrevistado), não é bem uma entrevista: é um embuste.
CLARA E O PROVINCIANISMO CHIQUE. Dificilmente haverá coisa mais chique do que ir a Nova Iorque e falar mal de Nova Iorque, e aproveitar a boleia para gozar com os americanos, essa gente primitiva e estúpida. Ele são os «restaurantes de BBQ com cheiro a óleo refrito e a restos de anteontem» e «a bacon queimado e carne fumada», ele é a «cerveja requentada e sarro nos copos», ele é «o tipo de casais que acham que podem ter uma conversa romântica num sítio daqueles [sports bars] enquanto devoram um quilo de batatas fritas», «do estilo que mistura cocktails com rabos de lagosta e ketchup». Foi o que fez Clara Ferreira Alves, a que ainda juntou outra coisa que fica sempre bem nas ocasiões em que, talvez por razões profissionais, se é obrigado a falar de futebol: fingir que não se percebe nada, que não se conhecem os nomes dos jogadores, que futebol é coisa de gente pouco letrada. A receita (uma mistura de estereótipos, lugares-comuns, ideias pré-concebidas, superioridade moral e intelectual e o mais que ignoro) é conhecida, e com sucesso garantido em certos meios. O mais interessante é que Clara Ferreira Alves é uma jornalista dos meios culturais, pelo que seria de esperar um pouco menos de ignorância. Sim, ignorância, que não estou a ver outra coisa que se lhe possa chamar.
2 de julho de 2014
1 de julho de 2014
HIROMI (2). Acho que já aqui deixei uma ligação para este vídeo, mas não faz mal repeti-la. Foi gravado em Tóquio, há coisa de dois anos, no Blue Note local. Anteontem, no Blue Note de Nova Iorque, desfrutei desta e doutras músicas, um ano e pouco após tê-la visto no mesmo local com o mesmo trio (Anthony Jackson, no baixo, e Simon Phillips, na bateria). Falo de Hiromi, cujo concerto não hesito em designar como designei o primeiro: soberbo.
OS RESSENTIDOS DA BOLA. Há anos que Manuel José se vem pondo a jeito sempre que é necessário escolher um novo seleccionador, não vá alguém não o escolher por mera distracção. Verdade que quando abre a boca nem sempre entra mosca ou sai asneira, de que agora acusa Ronaldo, a propósito do que Ronaldo afirmou durante o Mundial. Mas só um cego não vê que Portugal deve a Ronaldo ter ido ao Mundial. Não só a ele, com certeza, mas sobretudo a ele. Merecia, por isso, mais respeito, sobretudo de quem vive do futebol e para o futebol. Ao contrário de Manuel José, cujo currículo se resume a relativos sucessos em países do terceiro mundo, Ronaldo tem dado a Portugal provavelmente o que Portugal não merece. Seria bom, portanto, não o julgar pelos defeitos, que as virtudes são infinitamente maiores. Pela minha parte, moderado entusiasta de futebol, inclusive da selecção, só tenho uma coisa a dizer: obrigado, Ronaldo.
UMA QUESTÃO PESSOAL. Diz-se que nada distingue António Costa de António José Seguro em termos ideológicos — ou programáticos, ou estratégicos, ou tudo isso junto. Ora, se pouco ou nada distingue o PS do PSD, por que haveria de existir tão grande diferença entre ambos? Como alguém já escreveu, a diferença entre Costa e Seguro é, essencialmente, entre quem está politica e pessoalmente mais preparado para dirigir o PS. Sim, também é, e de que maneira, uma questão de pessoas, um claramente mais competente que o outro. Onde está o mal que isto se diga com todas as letras?
27 de junho de 2014
BALANÇO DEFINITIVAMENTE PROVISÓRIO. Seguramente que já se fizeram, à hora a que escrevo, todos os balanços, oficiais e não oficiais, sobre o desempenho da selecção no Mundial do Brasil. Olhados por alto, há, para já, um bode expiatório mais ou menos consensual, e que vem mesmo a calhar: Jorge Mendes, o empresário de meio mundo que conta no mundo da bola. É previsível que nas próximas horas aparecem alguns mais, e daqui a uma semana talvez cheguem à meia dúzia. Porque é urgente arranjar bodes expiatórios em quem possamos descarregar as frustrações por não termos conseguido o que os «especialistas» (com aspas e sem aspas) e «quase todo o mundo» (com aspas e sem aspas) nos convenceram estar ao nosso alcance. Nada contra a ideia de que Jorge Mendes, ao que parece «proprietário» de quase toda a selecção, treinador incluído, é um dos responsáveis pelo alegado desastre, que se virmos bem se calhar nem é tanto assim. Mas nesse caso teremos que olhar também para os sucessos que os futebolistas de Mendes alcançam nos clubes onde jogam e nalgumas selecções ainda a competir, onde pontificam alguns dos «seus» jogadores. Sim, porque se ele é culpado quando as coisas correm mal, também terá algum mérito quando as coisas correm bem. Longe de mim ser um desmancha-prazeres, mas se há coisas que não aprecio é histórias mal contadas, juízos precipitados, bodes expiatórios para acudir às frustrações imediatas. Cá para mim, a nossa maior tragédia na bola é não sermos realistas, não admitirmos que há outros melhores do que nós. Como é evidente, ter o melhor jogador do mundo não basta para termos a melhor selecção do mundo. Sonhar é óptimo quando os sonhos resultam agradáveis. Mas chocar de frente com a realidade também tem as suas virtudes.
24 de junho de 2014
SOMOS OS MAIORES, NÃO ÉRAMOS? Não será preciso lembrar que os que ainda ontem colocavam a selecção nos píncaros são os mesmos que agora, conhecida a hecatombe frente à Alemanha e o medíocre desempenho frente aos EUA, a crucificam sem dó, nem piedade. Mas também é preciso lembrar outra evidência: as expectativas à volta da selecção foram criadas, essencialmente, pelos media, sobretudo pelas televisões. Na ânsia de audiências, fizeram directos a toda a hora para ouvir os palpites dos transeuntes e dos vendedores de pirolitos, foram subindo a fasquia de dia para dia até atingir níveis impensáveis, e quando um ou outro desmancha-prazeres aconselhou prudência e caldos de galinha, fizeram ouvidos de mercador. Se tudo corresse bem, nada haveria a dizer. Como correu mal, começou a caça aos culpados, reais e inventados, que o assunto também rende. De uma coisa, porém, podem estar certos: os media sairão isentos de culpas, pois se alguém lhas apontar, dirão que se limitaram a fazer o que deviam. É por estas e por outras que assino por baixo o que disse Estrela Serrano.
20 de junho de 2014
OS SRS. DEPUTADOS PERDERAM A VERGONHA. Afinal, os srs. deputados, incluindo os que sustentam o actual governo (PSD e CDS), nunca tiveram dúvidas acerca da decisão do Tribunal Constitucional (TC) que repõe os cortes salariais impostos pelo Governo, apesar de solicitarem uma aclaração ao mesmíssimo TC sobre o mesmíssimo assunto. Segundo o Expresso, mal foi conhecida a decisão do TC, os deputados trataram logo de agir, isto é, de repor os seus próprios salários auferidos antes da decisão governamental. «No mesmo dia em que os deputados da maioria falavam grosso ao TC», diz o Expresso, «(...) o mesmo PSD e CDS davam luz verde a que o Parlamento repusesse de imediato (...) os salários dos deputados e dos funcionários parlamentares.» Assim ficou demonstrado que os srs. deputados não precisam de aclarações quando estão em causa os superiores interesses deles próprios. A única coisa de que talvez precisem é de vergonha na cara.
UM PAÍS EXTRAORDINÁRIO. O extraordinário não é Mota Pinto renunciar a todos os cargos políticos caso assuma a presidência do Conselho de Administração do BES. O extraordinário é isto ser notícia.
COISAS QUE VOU LENDO (11). «Dialética é um dizer que não, outro, que sim, e no fim ganhar aquele que for mais importante na firma. É um conceito antigo, eu ia dizer que remonta a Sócrates não fosse o receio de que o Correio da Manhã aproveite e faça manchete: "Sócrates roubou a dialética ao grego Zenão de Eleia!» Ferreira Fernandes, DN de 20/6/2014
17 de junho de 2014
ODIAR A FIFA PARA ESCONDER O RESTO. A FIFA tem todos os defeitos que lhe apontam, e provavelmente alguns mais que não sabemos. Mas daí até dizer-se que as regras que impôs ao Brasil para organizar o Mundial em curso «consagra zonas de não aplicação da lei nacional em anéis de dois quilómetros em volta dos estádios, onde vigora um rigoroso monopólio (...) dos patrocinadores oficiais», que «beneficiarão de isenção total de impostos», como escreveu José Manuel Pureza, e responsabilizar a FIFA por estas barbaridades, vai um abismo. Que se saiba, o governo brasileiro candidatou-se a organizar o evento, e para o conseguir teve de preencher determinados requisitos e de se comprometer com determinado caderno de encargos. Se há regras impostas pela FIFA que são autênticas barbaridades (não duvido que haja), seguramente que a culpa não é do organismo que superintende o futebol mundial, por mais ódio que se lhe tenha. Como é óbvio, a culpa é do governo que se candidatou à organização do Mundial, e do Governo actualmente em funções — que podia, em última instância, desistir de organizá-lo. Chamando os bois pelos nomes, a culpa foi de Lula da Silva, e depois de Dilma Rousseff. Porque foram eles, e só eles, que aceitaram as condições de que meio mundo agora se queixa, especialmente os que tentam, por omissão, branquear as decisões dos que são, afinal, os primeiros responsáveis.
13 de junho de 2014
INCOMPETÊNCIAS E TRAPALHADAS. Palavra de honra que eu gostava de saber quanto vão custar aos contribuintes as sucessivas trapalhadas com o leilão dos «Mirós», de que o Estado, através de empresas especialmente criadas para o efeito, se propôs vender para recuperar algum (dizem-me que 35 milhões de euros) do que meteu no banco de Oliveira e Costa e sus muchachos. É que, por este andar, a receita da eventual venda das 85 obras do pintor catalão vai inteirinha para os advogados que trabalham nas trapalhadas jurídicas em curso e no mais que há-de vir. Vendo bem, se calhar nem para isso dará, que em trapalhadas já demonstrámos vezes sem conta que são umas atrás das outras — e isso, naturalmente, tem custos. Isto partindo do princípio que é de trapalhadas que se trata, e quando digo trapalhadas quero dizer, apenas, incompetência. Incompetência, já agora, que dá de comer a muita gente, e para não variar paga pelos mesmos de sempre.
11 de junho de 2014
NOTÍCIAS DE TRAMPA. Bruno de Carvalho chegou há dois dias ao dirigismo desportivo como uma espécie de salvador da moral e bons costumes, mas cada vez que abre a boca (e deus sabe que é raro o dia que não abre), é um fedor que tresanda. O futebol profissional é um mundo de aldrabões e de vigaristas. É frequentado por gente que não se recomenda. Cheira mal, muito mal. Excepto quando envolve a sua excelentíssima pessoa e seus finíssimos métodos, está bom de ver. Valha-nos que o Sporting, apesar de fraquito de bola nos últimos anos, não deixa de ser uma instituição respeitável mesmo quando dirigido por moralistas de vão de escada e justiceiros de taberna, que de moral e justiça só enxergam o que lhes convém — e a caca que eles próprios produzem.
9 de junho de 2014
CONCLUSÕES PRECIPITADAS. Miguel Sousa Tavares afirmou, no Expresso, que os dois terços dos portugueses que não votaram nas Europeias contribuíram, com a ausência das urnas, para que os extremistas «tenham ganho uma força acrescida face ao voto dos outros». É um cenário possível, mas não único. Quem lhe garante que os abstencionistas votariam, caso fossem às urnas, nos partidos, digamos, «do sistema», e não reforçariam ainda mais os extremistas? Decidir não ir as urnas é, de certa maneira, um protesto. Resta, portanto, saber até onde os abstencionistas iriam caso protestassem nas urnas.
5 de junho de 2014
TRUQUES ORTOGRÁFICOS. Comentando para o Observador os erros ortográficos detectados em cartazes de pelo menos duas empresas (a Olá e a Imaginarium), a linguista Susana Valdez sugeriu um truque para evitar o que considera «um dos erros gramaticais mais comuns em português»: «colocar a frase na negativa», por razões que explicou mas não entendi. Como de língua pouco mais sei que o essencial, se calhar nem isso, recomendaria um truque mais simples: usar um corrector ortográfico decente. Se não resultar, então é usar um que nunca falha: aprender gramática.
OS ERROS DA OLÁ. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra, mas a campanha em curso (no Facebook, onde haveria de ser?) contra os gelados Olá (parece que já há outra empresa), por ter distribuído uns cartazes com erros ortográficos, devia dar origem a outra, ainda mais veemente, contra os erros ortográficos na generalidade da imprensa (sobretudo nas suas versões online) e na legendagem das televisões. Não falo de gralhas, que por vezes se confundem com erros ortográficos. Falo de verdadeiros erros de ortografia, alguns de palmatória, que no meu tempo de instruçāo primária me dariam, na melhor das hipóteses, o direito a escrever cada um deles umas dezenas de vezes.
A EMBRULHADA. Consta que Winston Churchill, que qualquer aprendiz de político gosta de citar, terá dito mais ou menos isto: «Por mais absorto que um general esteja na elaboração das suas estratégias, às vezes é importante ter o inimigo em consideração.» (A citação foi roubada do livro Conservadorismo, o mais recente de João Pereira Coutinho.) É o que me apetece dizer de António José Seguro, que de tão entretido com o novo brinquedo (as directas, que ainda há pouco não apreciava e ninguém, a começar por ele, sabe como funcionam), não se dá conta no que se meteu. O expediente do líder do PS é mesmo o que parece: destina-se a prolongar-se no poder, e a dificultar a vida aos adversários. Não é bonito de ver, mas quando os actores são maus, não se espera que o filme seja melhor. Ou Seguro não vive neste mundo (já demonstrou várias vezes que não vive) e não percebe que o que está em causa deve ser tratado com clareza e celeridade, ou percebe muito bem e agarra-se a formalismos para se manter no poder. Escusado será dizer que a estratégia penaliza, antes de mais, o PS, e que Seguro sairá mal desta história. Mesmo num (improvável) cenário de se ver confirmado como líder.
4 de junho de 2014
MARINHO DEMAGOGO PINTO. Marinho Pinto ainda agora chegou à política e já lançou mão do que nela há de pior. Mal foi eleito para o Parlamento Europeu (PE), admitiu candidatar-se às Legislativas, e logo a seguir às Presidenciais. Sobre o PE, tudo o que disse até agora é que achava um exagero a mesada dos deputados (parece-me que 10.000 euros), vencimento que promete gastar «da melhor maneira possível». Sim, o ex-bastonário da Ordem dos Advogados é um homem frontal, chama os bois pelos nomes e aparenta nada temer — valores cada vez mais escassos e que naturalmente aprecio. Mas Marinho Pinto também é um populista, um demagogo, um produto criado pelos media para os media, o que já me desagrada. A candidatura ao Parlamento Europeu foi, para ele, uma espécie de teste ao que vale em termos eleitorais. O resto — a Europa, o cargo que irá desempenhar, o que se propõe fazer ou desfazer — não interessa para nada.
30 de maio de 2014
A EMENDA SÓ PODE SER MELHOR QUE O SONETO. Goste-se, ou não, do PS, a eventual candidatura de António Costa à liderança do PS é uma boa notícia para o país (sim, ainda tenho uma costela romântica). Para já, pouco mais se sabe que se mostrou disponível para se candidatar, e que o actual líder já veio acenar com os estatutos para lhe travar a ambição. Como é evidente, o argumento não vai longe. Quer Seguro queira, quer não queira, haverá eleições antecipadas no PS. A não ser que António Costa recue, como já fez outras vezes, mas nesse caso seria, para ele, um suicídio político. Se não recuar, tudo indica que só um percalço de maior o impedirá de vencer. É uma constatação, mas também um desejo. Afinal, angustia saber que uma espécie de não sei quê sem nada dentro possa, um dia, ser primeiro-ministro, pelo que afastar essa possibilidade é, por si só, positivo. Como já vimos noutros filmes, às vezes nem é preciso ganhar eleições para que isso suceda. Basta que o adversário as perca.
DOS RATOS, E DOS HOMENS. Como seria de esperar, os ratos começam a abandonar o navio. Em apenas 24 horas vi, pelo menos, três socialistas a descolar da actual liderança, e ainda a procissão vai no adro. Adivinha-se que nos próximos dias serão às dezenas, talvez às centenas, a não ser que mudem o filme em exibição. São o que eu designo por espécimes para todas as estações. Se o vento sopra do Norte, deslocam-se para Sul. Se sopra do Sul, deslocam-se para o Norte. É a natureza humana em todo o esplendor.
28 de maio de 2014
SÓ MAIS UMA COISA SOBRE A ABSTENÇÃO. É mais que sabido que os resultados das eleições se prestam às mais variadas leituras — logo a que cada um faça a que mais lhe convém. Mas será razoável dizer-se que a coligação governamental teve uma derrota estrondosa, e que, por mérito próprio ou demérito alheio, o PS teve uma vitória idem? Quatro pontos de diferença entre os dois justificam, no máximo, que se fale de um traque, e mesmo assim com algum comedimento. Afinal, a coligação governamental perdeu por pouco, o PS ganhou por pouco — e ambos perderam milhares de votos para quem conta ainda menos.
A PORTELA CHEGA, AFINAL, PARA AS ENCOMENDAS. Cento e trinta e tal voos a mais que o normal na Portela em apenas dois dias por causa da final da Liga dos Campeões? Mas a Portela já não estava saturada quando, há dois ou três anos, se discutia acaloradamente a urgência de um novo aeroporto não sei onde? Ou percebi mal, ou estamos diante mais um caso em que os factos insistem em estragar as mais belas teorias.
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