23 de janeiro de 2015
MEDITAÇÕES DE CASERNA. Tardou, mas chegou. Loureiro dos Santos considera que a culpa do fundamentalismo islâmico em actividade é dos americanos. Segundo ele, foi o Ocidente quem deu origem ao Estado Islâmico, nomeadamente «dois erros estratégicos dos Estados Unidos: a invasão do Iraque; e a insurreição na Síria». Temos, assim, que o 11 de Setembro de 2001, em que o fundamentalismo islâmico (sim, já havia) matou milhares de americanos inocentes, incluindo muçulmanos (e que deu origem à invasão do Iraque e estará na origem dos problemas na Síria), nunca existiu. Claro que Loureiro dos Santos não defende tal coisa, mas lembrar este «pequeno pormenor», arruinar-lhe-ia a sua bela teoria. Mas é caso para dizer: análises destas, até eu faria sobre física quântica.
E QUEM É QUE O IMPEDE? Marinho e Pinto publicou, no Correio da Manhã, um texto comovente. Eis um extracto:
«Eu gostava de poder discutir com um defensor da jihad, em ambiente de plena liberdade para ambos, as motivações políticas ou ideológicas da violência armada contra cidadãos indefesos e inocentes e tentar demonstrar-lhe o erro dessas opções. Em vez de o silenciar com iradas excomunhões, eu gostaria de poder ouvir tudo o que ele tivesse a dizer na defesa da sua doutrina de violência para depois eu o rebater com os meus argumentos de respeito pela dignidade da pessoa humana. No dia em que isso acontecesse, haveríamos, ao menos, de estar de acordo na escolha das armas para esse confronto: as palavras, as ideias e os argumentos em vez das bombas e das metralhadoras.»
Lido isto, não sei se hei-de rir, se hei-de chorar. É que Marinho e Pinto ou anda muito distraído, ou é de uma ingenuidade inacreditável. Desde quando os jihadistas estão interessados em discutir ideias com quem não pensa como eles? E quem não conhece as suas motivações políticas e/ou ideológicas para a violência contra cidadãos indefesos e/ou inocentes? Tirando Marinho e Pinto, não estou a ver quem. Percebo que o tenham feito eurodeputado, provavelmente mais por demérito alheio que por mérito próprio. Afinal, o eleitorado está farto de políticos, digamos, convencionais, e terá visto nele alguém fora do sistema, uma mais-valia. Como se viu, escassas semanas bastaram para ficar demonstrado que foi pior a emenda que o soneto. Espanta-me, por isso, que ainda há quem insista em ver nele o que ele manifestamente não é.
«Eu gostava de poder discutir com um defensor da jihad, em ambiente de plena liberdade para ambos, as motivações políticas ou ideológicas da violência armada contra cidadãos indefesos e inocentes e tentar demonstrar-lhe o erro dessas opções. Em vez de o silenciar com iradas excomunhões, eu gostaria de poder ouvir tudo o que ele tivesse a dizer na defesa da sua doutrina de violência para depois eu o rebater com os meus argumentos de respeito pela dignidade da pessoa humana. No dia em que isso acontecesse, haveríamos, ao menos, de estar de acordo na escolha das armas para esse confronto: as palavras, as ideias e os argumentos em vez das bombas e das metralhadoras.»
Lido isto, não sei se hei-de rir, se hei-de chorar. É que Marinho e Pinto ou anda muito distraído, ou é de uma ingenuidade inacreditável. Desde quando os jihadistas estão interessados em discutir ideias com quem não pensa como eles? E quem não conhece as suas motivações políticas e/ou ideológicas para a violência contra cidadãos indefesos e/ou inocentes? Tirando Marinho e Pinto, não estou a ver quem. Percebo que o tenham feito eurodeputado, provavelmente mais por demérito alheio que por mérito próprio. Afinal, o eleitorado está farto de políticos, digamos, convencionais, e terá visto nele alguém fora do sistema, uma mais-valia. Como se viu, escassas semanas bastaram para ficar demonstrado que foi pior a emenda que o soneto. Espanta-me, por isso, que ainda há quem insista em ver nele o que ele manifestamente não é.
EBOOKS, CAPÍTULO ENÉSINO. Gosto da capa e da contracapa, da badana e do papel, do tamanho e da forma dos caracteres, do cheiro e de os ver nas estantes — mas do que eu gosto mesmo é do que «está lá dentro». É por isso que leio eBooks há anos, é por isso que há anos escrevo sobre as vantagens — e desvantagens — dos eBooks, cuja aquisição me pareceu, desde sempre, valer a pena avaliar sem preconceitos. Não pretendo usar o meu caso para generalizar, mas a verdade é que nunca, como hoje, comprei tantos livros, apesar da oferta de eBooks ser cada vez mais diversificada (e tentadora). E também é verdade que primeiro trato de saber se existe em eBook o que pretendo comprar, que já não tenho espaço nas estantes — e o pouco que vou conquistando a outras arrumações vem sendo ocupado por livros comprados, sobretudo, nos alfarrabistas, onde estou sempre a tropeçar em preciosidades a que não resisto. E agora, se me dão licença, vou-me à História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (a ideia é impressionar os leitores), cuja leitura, lá está, dificilmente faria caso não fosse o eBook. Afinal, são quatro respeitosos volumes, para cima de 2800 páginas. Estão a ver-me com um só volume debaixo do braço sempre que tenho oportunidade de o ler por aí? E, já agora, por que não reeditar também em eBook as obras completas do Padre António Vieira? Devido à falta de espaço, provavelmente nunca as verei nas estantes. Se fosse em eBook, num só volume ou em vários, venha ele que eu compro. E quem diz Vieira (30 volumes, agora editados pelo Círculo de Leitores) diz outros clássicos, a começar pelos portugueses (Eça, Camilo, Pessoa, Cardoso Pires) ou lusófonos (Machado, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre).
19 de janeiro de 2015
CRISTINA KIRCHNER. Obviamente que não se pode extrair, para já, qualquer ilação, até porque a informação ainda é escassa. Mas foi-me completamente impossível separar esta notícia do que li, há dois anos, no Estado de São Paulo. O texto é comprido, mas vale a pena.
16 de janeiro de 2015
TEMPOS SOMBRIOS. Não ignoro que grandes facínoras cometeram crimes hediondos enquanto se deliciavam com a grande música, mas continuo convencido que a grande música torna o homem melhor. Palestrina, por exemplo, pelos Tallis Scholars. Tavener, pelo Chanticleer. Pärt, pelo Hilliard Ensemble. Lauridsen, pelo Los Angeles Master Chorale. E mais, muitos mais, que nos iluminam nestes dias de trevas, tornando o mundo um lugar mais suportável.
AI ISSO É QUE PODEMOS. O Papa Francisco disse ontem que não se pode provocar ou insultar a fé dos outros. Não posso estar mais em desacordo. Não aprecio provocações gratuitas e insultos de espécie alguma, mas se a questão é podemos, ou não, provocar e insultar, a resposta é, para mim, cristalina: podemos. Mais: mesmo tendo o cuidado de ressalvar que «matar em nome de Deus» é «uma aberração», e de considerar que a liberdade de expressão é um direito fundamental, considero perigoso o discurso do Papa. Há limites à liberdade de expressão que são ultrapassados quando se trata da religião? Discordo outra vez. Por que haveria a religião, qualquer religião, de ficar a salvo de insultos ou provocações e o resto não? E volto a discordar quando diz que a liberdade de expressão deve «exercer-se sem ofender», porque isso levar-nos-ia a que cada um definisse o que é ofensivo e o que não é — logo ao «respeitinho» (não confundir com respeito) e à autocensura. Ficou-lhe bem reconhecer que também a igreja católica pecou generosamente, mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que os tribunais existem, também, para julgar insultos e provocações, pelo que quem se sentir ofendido que recorra aos tribunais. O Papa Francisco não defende que alguém que se sinta insultado na sua fé tem o direito de matar, longe disso. Mas se ao dizer o que disse não legitima tal acto, atenua-o bastante — e de algum modo desculpa-o. E se há coisa que não merece contemplações é o terrorismo. Seja em nome de quem for.
PRÉMIOS LITERÁRIOS. Desconheço os detalhes do caso, e os detalhes poderão fazer toda a diferença. Mas num país em que até a prosa analfabeta publicada em forma de livro recebe, pelo menos, um prémio literário, é capaz de ser uma boa notícia quando lemos que o Prémio Agustina Bessa-Luís não será entregue por «falta de qualidade das obras» a concurso. Infelizmente, não acredito que este saudável princípio tenha grande futuro. Mas é pena, porque talvez não houvesse tanta mediocridade se os critérios de atribuição dos prémios literários fossem um pouco mais exigentes.
15 de janeiro de 2015
NEM TUDO FOI MAU. Dois factos positivos resultantes da tragédia francesa: a Europa começou, finalmente, a perceber que o terrorismo islâmico é um problema global, que urge resolver à escala global; e os muçulmanos moderados começaram, finalmente, a demarcar-se, de forma audível, de práticas fundamentalistas, até porque são eles as primeiras vítimas dos danos colaterais.
PARECE QUE DESTA VEZ A CULPA NÃO FOI DOS AMERICANOS. Perdoem-me a ironia, mas não resisto a confessar a minha surpresa por ainda não ter visto, uma semana após a tragédia francesa, uma só alma dizer que a culpa é dos americanos. Tirando Ana Gomes, que disse os disparates a que já nos habituou (começou por dizer que o atentado foi «também o resultado de políticas anti-europeias de austeridade», e anteontem escreveu, a propósito da edição do Charlie Hebdo onde o profeta surge na capa a lamentar o que fizeram em seu nome, que era mais uma ofensa aos muçulmanos), ainda não vi o habitual passa culpas para os americanos. Quanto ao resto, tudo como dantes. Já se vai ouvindo o tradicional «está mal, mas...», quem aponte o dedo a uma publicação que vive de excessos, provocações e insultos — logo estava mesmo a pedi-las. Não faltará quem, nos próximos tempos, tentará, de certa maneira, justificar a carnificina (explicando, contextualizando, desculpabilizando), culpando quem não tem culpa, e fazendo com que os verdadeiros culpados até pareçam as vítimas.
13 de janeiro de 2015
A SRA. LE PEN AGRADECE. Os mandantes que temos cada vez surpreendem mais, para não variar sempre pela negativa. O presidente francês, por exemplo, apressou-se a excluir a sra. Le Pen da manifestação de domingo, considerando tratar-se de uma «marcha republicana», onde ela não teria lugar. Apressou-se, enfim, a oferecer um presente à Frente Nacional, seguramente a força política que mais ganhou com a tragédia francesa e a quem Hollande, com uma decisão estúpida, fortaleceu ainda mais. Mas não se ficou por aqui o inquilino do Eliseu: fez o que pôde para que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, não fosse à manifestação, a pretexto de que não queria desviar o foco da dita para o conflito israelo-palestiniano, e que Mahmud Abbas, presidente palestiniano, também iria participar — logo iriam caminhar a poucos metros um do outro, logo isso seria um problema. A manifestação de Paris não seria uma excelente ocasião para juntar gente desavinda, mesmo que só para aparecer na fotografia? Hollande achou que não. Pobre país que tem líderes assim. Sem visão, nem estatura.
9 de janeiro de 2015
A DEMOCRACIA DE BRAÇO NO AR. «Não há rigorosamente nada que tenha sido inventado até hoje tão democrático como a comissão de trabalhadores, porque todas as pessoas votam de braço no ar.» Quem foi que disse isto, quem foi? Kim Jong-un, o extraordinário líder da Coreia do Norte? Não, senhores. Foi a dra. Raquel Varela, na Barca do Inferno de 5 de Janeiro.
7 de janeiro de 2015
FREI TOMÁS PREGADO AOS INCRÉUS. Os líderes mundiais apressaram-se, e bem, a condenar o massacre francês, garantindo que nada os fará recuar perante o terrorismo e as suas pretensões. Acontece que a realidade é outra: os atentados que têm vindo a ocorrer desde Setembro de 2001 já mudaram a nossa maneira de estar, e continuarão a mudar. Apesar da retórica, dos discursos inflamados e das boas intenções, o medo cresce cada dia que passa, e a autocensura (que alguém disse ser a pior das censuras) cresce a olhos vistos. Como escreveu Henrique Raposo, que faria ele se fosse um cronista francês «ao alcance da filha da puta da Ak-47»? Definitivamente que o Ocidente está a perder sucessivas batalhas. Resta saber se perderá a guerra.
ISTO NÃO VAI LÁ COM MEIAS TINTAS. Em Dresden, milhares de pessoas manifestaram-se recentemente por uma «Alemanha para os alemães» e contra o que consideram uma crescente islamização do país, enquanto no mesmo país outros milhares se manifestaram logo a seguir contra o «nacionalismo», considerando que os refugiados são «bem-vindos», e que o racismo e a xenofobia não têm lugar numa sociedade onde todos cabem e onde todos têm o direito de ser tratados por igual. Sondagens às presidenciais francesas dão a vitória a Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita que pretende, entre outras medidas, travar o que designa por crescente «islamização da França». Hoje mesmo aconteceu o que aconteceu. Parece-me, por isso, altura de voltar a insistir nas perguntas que faço há anos, que nunca vi cabalmente respondidas. Por que não aproveita o islamismo moderado ocasiões como esta para sair à rua a condenar o radicalismo? Por que se limitam os seus líderes a declarações avulsas sempre que há uma tragédia e só quando não conseguem fugir aos microfones? Por que se limitam a queixar-se do modo como são olhados na rua, da crescente estigmatização de que dizem, e eu acredito, estar a ser vítimas? Não percebem que a passividade, aliada a actos como o de hoje, se viram contra eles? Que só reforçam o que designam, nem sempre acertadamente, por islamofobia? Reconheço que é pouco simpático, mas nestas alturas lembro-me sempre da célebre frase inicialmente dita, salvo erro, por Oriana Fallaci, que se mantém actualíssima: se é verdade que a generalidade dos muçulmanos não é terrorista, é um facto que os terroristas são, quase sempre, muçulmanos. Convinha, por isso, tirar isto a limpo, separar as águas. Até lá, como vamos distinguir um «muçulmano bom» de um «muçulmano mau»?
31 de dezembro de 2014
O TERRORISMO E A SONY. Confesso que a reacção da Sony Pictures ao ataque informático de que foi vítima, e às ameaças que sobre ela imediatamente penderam caso exibisse, no Natal, o filme The Interview (exibição que logo cancelou e depois retomou), me surpreenderam. A Sony podia, desde o início, ter optado pela fuga para a frente. Podia ter respondido à ameaça não só mantendo o inicialmente programado, mas «enuplicando» o número de salas onde exibir o filme — coisa, de resto, que de algum modo veio a suceder, graças a quem, não tencionando ver o filme, se predispôs a fazê-lo por uma questão de princípio. Ao contrário do que possa parecer, meter o rabo entre as pernas face a chantagens ou ameaças não evita sarilhos nem perdas financeiras: aumenta consideravelmente a possibilidade de eles sucederem. Embora tardiamente, a Sony acabou por perceber que assim é. Dir-me-ão que mais vale tarde do que nunca. O problema é que nada apagará o erro cometido, e a porta que abriu em vez de fechar.
23 de dezembro de 2014
COM ELE AO LEME, É SEMPRE A DESCER. O presidente do Sporting não perde uma oportunidade para disparar sobre tudo o que mexe, a propósito de tudo e de nada. Invariavelmente, depara-se com um problema: em vez de acertar onde pretende, acaba a dar tiros nos pés. Depois de acusar os jornais (um clássico), que não lhe darão a atenção que julga merecer, diz agora que vai pedir aos associados «um reforço de confiança». Presumo que os associados responderão, na assembleia-geral a convocar para o efeito, do modo que ele deseja, e até nem me surpreenderia que de lá saísse em ombros. É que eu já vi muito boa gente (sem ironia) afirmar que Bruno de Carvalho devolveu a dignidade à instituição, logo não espantaria. Como já perceberam, eu acho precisamente o contrário. Se a linguagem de carroceiro usada a toda a hora, e um patético pedido à UEFA que de antemão se sabia destinado ao fracasso (a repetição do jogo frente ao Schalke 04, em que o Sporting foi claramente prejudicado devido a erros de arbitragem) dignificam a instituição, eu vou ali e já venho. Não sou sportinguista, mas gostaria de ver o Sporting dirigido por quem, de facto, o dignifique, e de novo sem ironia. Como os variadíssimos exemplos o vêm demonstrando, Bruno de Carvalho não é homem para isso. Pelo contrário. Colocando-se frequentemente a ridículo, ridiculariza a instituição que dirige. A assembleia-geral que aí vem, de onde espera sair entronizado, poderá resolver — ou prolongar — o problema. Aos associados, e só aos associados, caberá decidir o que julgarem melhor. Mas não será preciso dizer que quanto pior decidirem, melhor será para os seus adversários.
19 de dezembro de 2014
MOMENTO VALTER HUGO MÃE. Como já perceberam, tenho um problema com Valter Hugo Mãe, que as más línguas (e algumas boas) garantem ser bom. Ora vejam só o primeiro parágrafo da última prosa no Público:
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
12 de dezembro de 2014
TAKE ANOTHER PLANE. Alguém que não seja funcionário da TAP percebe as razões que os levará a fazer a enésima greve? Eu quase apostaria que mesmo na TAP há quem não perceba. Com certeza que os seus trabalhadores têm o direito de fazer greve. O problema é que a greve, que devia ser uma espécie de bomba atómica, que se usa apenas em situações extremas, banalizou-se, e é sempre feita pelos mesmos — pelos que geralmente têm mais benefícios que o comum dos trabalhadores, pelos mais protegidos pelas leis do trabalho. Estão preocupados com a venda da companhia? A greve não impedirá que ela seja vendida. Pelo contrário. Reforçará os motivos de quem pretende fazê-lo. Depois, era só o que faltava que fossem os grevistas e respectivos sindicatos a decidir o futuro da TAP. Ao contrário do que por vezes parece, a companhia não é de quem nela trabalha. É dos portugueses, de todos os portugueses, competindo ao Governo geri-la. Governo, já agora, que os portugueses escolheram. Goste-se, ou não. Os trabalhadores e seus representantes limitam-se a defender os seus próprios interesses, e só os seus próprios interesses. Por mais legítimos que sejam, e francamente nem isso me parecem.
A CAMINHO DA IMPUNIDADE. Vi, parcialmente, a prestação de Ricardo Salgado na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, e confirmou-se as previsões dos mais pessimistas: a culpa da hecatombe não foi dele, mas do Banco de Portugal, do Governo, do contabilista, do estado do tempo. Pior: embora tenha recusado o estatuto de vítima, assumiu-se claramente como tal. Talvez ainda pior: a avaliar pelos títulos da imprensa, sobretudo da imprensa online, Ricardo Salgado terá saído do parlamento com razões para sorrir. Mesmo que o primo Ricciardi tenha, de seguida, desdito quase tudo o que disse Salgado, e o empresário Queiroz Pereira tenha afirmado, entre outras pérolas, que Salgado «não lida maravilhosamente com a verdade», não é, seguramente, um bom sinal. Imagina-se que a justiça vai ter pela frente um osso duro de roer, e mesmo que faça um trabalho sem falhas, duvido que atinja Salgado onde realmente lhe dói. Volto, por isso, a repetir o que já aqui escrevi: como correm processos contra ele noutros países, é possível que nem tudo fique impune.
11 de dezembro de 2014
ARRUMAR O SÓTÃO. Como terão notado, coloquei aqui uma ligação para os textos que fui publicando na minha página pessoal entre Fevereiro de 2000 e Janeiro de 2011, que designei por Desabafos. São precisamente 268 textos, que agora, por me parecerem mais fáceis de ler, reuni num blogue especialmente criado para esse fim. Relidos alguns deles, foram várias as vezes em que não me revi nas ideias que então defendi, nalguns casos no estilo, demasiadas vezes nos dois. Como nunca alterei o que foi publicado, a não ser para corrigir uma gralha ou assim, o que foi dito, está dito. Com todas as virtudes e defeitos, foi assim
5 de dezembro de 2014
A BRIGADA DO TABACO. Faz hoje 13 anos, 7 meses e 18 dias que deixei de fumar. Sou, portanto, ex-fumador, geralmente os mais intolerantes contra o tabaco e seus consumidores. Não é — nunca foi — o meu caso. Mas continua a tirar-me do sério quem insiste em dizer que os fumadores não estão suficientemente informados acerca dos perigos que correm, e por isso publicam quilómetros de prosa para os salvar, mesmo os que não querem ser salvos. Concordo que se vergaste (passe a expressão) os fumadores quando estes põem em causa os direitos dos não-fumadores, quando os segundos são obrigados a partilhar os riscos dos primeiros. Mas jamais aceitarei o argumento de que os fumadores custam caro ao serviço nacional de saúde. Porque, a irmos por aí, ter-se-ia que incluir nos argumentos uma extensa lista de produtos e de práticas que fazem mal à saúde, e, por consequência, aos bolsos dos contribuintes. A começar pelos evangelistas do antitabagismo, que, bem vistas as coisas, são um perigo para a saúde, neste caso para a saúde mental. Digo bem: saúde mental, coisa de que nunca se fala quando se fala de saúde, e que hoje em dia se resume a não fumar, a não consumir determinadas gorduras, a não comer bacalhau e outros produtos com sal a mais, a percorrer dois ou três quilómetros diários em menos de não sei quanto tempo, e a dar determinado número de quecas de forma apropriada (estou a inventar, mas para lá iremos). Escusado será dizer que um mundo assim só interessa a estes fundamentalistas, a quem desejo, caso o alcancem, que vivam eternamente.
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