24 de março de 2015

HERBERTO HELDER, 1930-2015. Extracto de Os Passos em Volta, um dos livros da minha vida:
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.

Foi assim que me pus a escrever — enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.

20 de março de 2015

NÃO ME COMPROMETAM. Já toda a gente percebeu a estratégia de António Costa: esperar que Passos Coelho e o Governo caiam de maduros. Provavelmente não haverá melhor expediente para ganhar eleições e chegar ao poder, e daí tantas vezes dizer-se que não foi fulano quem as ganhou, mas sicrano quem as perdeu. Tirando uma argolada aqui e além (o episódio dos chineses, por exemplo), o líder do PS promete tudo em abstracto, mas nada em concreto. Sempre achei que qualquer líder do PS seria melhor que António José Seguro, e que António Costa seria, de longe, melhor do que ele. Hoje, se não tenho saudades de Seguro (não sou militante do PS, nem, sequer, simpatizante), sou forçado a admitir que António Costa saiu pior que a encomenda. É previsível que um candidato a primeiro-ministro com fortes probabilidades de ser eleito tenha um discurso de meias-tintas no que toca a promessas concretas. Mas começo a fartar-me de quem não diz ao que vem, de quem não se compromete com receio de não cumprir — ou de fazer o oposto do que prometeu. Ou, o que ainda é pior, quem vê o poder não como um meio de mudar o que julga estar mal, mas como um fim em si mesmo. Isto de considerar encerrado o caso de Passos Coelho com os impostos, quando se esperaria que não ficasse satisfeito com a informação que ficou por prestar (e, se fosse caso disso, pedisse mesmo a demissão do primeiro-ministro), pareceu-me uma esperteza saloia. Imagina-se que António Costa prefere que Passos Coelho seja, nas próximas legislativas, o alvo a abater, e não outro que o viesse substituir. O primeiro-ministro está desgastado pelo poder, e o episódio dos impostos desgastou-o ainda mais — e vai, seguramente, entrar na campanha eleitoral. Foi isto, a meu ver, o que travou o líder do PS, demonstrando que politicamente é farinha do mesmo saco.
A VITÓRIA DO ACORDO ORTOGRÁFICO. A avaliar pelo que vou lendo, parece-me definitivamente perdida a «guerra» contra o Acordo Ortográfico (AO90). Não imaginam como lamento, pelas razões que já disse e repeti. E estranho que um tão grande movimento contra tamanha aberração, que reuniu centenas de milhares de assinaturas e foi objecto de discussão no parlamento, não tenha, até ver, mudado uma vírgula, e a passagem do tempo dificultará ainda mais qualquer mudança. Os anunciados exames onde a grafia «antiga» será considerada erro, é o mais forte sinal disso mesmo. É que, a partir daí, o «acordês» será irreversível.

17 de março de 2015

É SÓ FUMAÇA. O ministro Varoufakis diz estar arrependido de abrir as portas de casa à Paris Match. Não percebo porquê. Afinal, ele são os atrasos de meia-hora a reuniões importantes (onde chega seguido pelas câmaras de televisão), ele é a fralda de fora e a gravata que não usa, ele é o cachecol marca não sei quê e as golas levantadas, ele são as calças de ganga, ele é agora o dedo do meio levantado à Alemanha (que ele diz ser uma montagem mas ninguém acredita). Resumindo, o famoso «ar descontraído» do ministro grego das Finanças não passa, afinal, de exibicionismo. Sobre o que realmente importa, até ver é só parra, e nenhuma uva. Imagino, a partir do episódio da revista francesa, o sacrifício que os parceiros na Europa farão para manter a compostura (isto é, não se rirem) quando tiverem que o aturar. Sim, dantes Varoufakis inspirava não sei bem o quê, agora tornou-se risível.
ARRUMANDO PAPÉIS. «In the Soviet Union a writer who is critical, as we know, is taken to a lunatic asylum. In the United States, he’s taken to a talk show.»
Carlos Fuentes, entrevista de 1981 à Paris Review integrada no volume Latin American Writers at Work

10 de março de 2015

O PRESIDENTE DE ALGUNS PORTUGUESES. O Presidente da República tem-se distinguido por falar pouco, e mal. A última vez que abriu a boca, a propósito da embrulhada em que o primeiro-ministro se viu metido, insultou os portugueses. Passos Coelho admitiu que falhou nos impostos, que não se orgulha disso, e que não é um cidadão perfeito. E o que tem o Presidente a dizer sobre tão melindrosa matéria? Mais papista que o Papa, acha que o caso é uma questão político-partidária, pré-campanha eleitoral, um fait divers. Já estou a ver o Presidente a enfrentar os microfones para dizer, um dia destes, com o cinismo que o caracteriza, que foi mal interpretado, e que a culpa foi dos jornalistas, esses malvados, que não há maneira de perceberam o alcance das suas palavras.
COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (2). O que é uma biografia poética? Li e reli a resposta de António Cândido Franco à crítica de António Araújo (que reduziu a pó O Estranhíssimo Colosso, biografia de Agostinho da Silva editada por Cândido Franco), e fiquei sem saber. Pior: a resposta do biógrafo não desmente um só facto dos muitíssimos em que a crítica de António Araújo assentou. Se razões tivesse para torcer o nariz ao «produto» depois de ler a crítica, mais razões passei a ter após a resposta de Cândido Franco. Pelo que já aqui deixei dito, para grande pena minha.

9 de março de 2015

E DEPOIS NOTA-SE BASTANTE NOS RESULTADOS.

Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.

João Pedro George, O Observador
PARA PERCEBER MELHOR AS ESQUERDAS PORTUGUESAS.

Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma "plataforma de cidadãos" fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC--Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).

Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas "europeias". E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA - antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias

6 de março de 2015

4 de março de 2015

A VIDA SÃO DOIS DIAS E TRÊS MÚSICAS. Depois de há três meses ter visto Keith Jarrett e sus muchachos (Gary Peacock no baixo e Jack DeJohnette na bateria) no New Jersey Performing Arts Center (salvo erro o quarto concerto que vi deles), voltei ontem a vê-lo, no Carnegie Hall, agora a solo, numa dúzia de peças improvisadas que, por ignorância (só me ocorrem lugares-comuns), me abstenho de comentar. Daqui a uma semana será Hiromi, em Princeton, também a solo, depois de memoráveis concertos no Blue Note (com Anthony Jackson no baixo e Simon Phillips na bateria). Isto, já agora, e com o único propósito de causar inveja a eventuais melómanos, de há um ano e pouco ter visto, pela segunda vez, John McLaughlin, também no Blue Note, desta vez com Etienne Mbappé (baixo eléctrico), Gary Husband (teclados e bateria), e Ranjit Barot (bateria). Sim, admito, sem qualquer humildade, que sou um privilegiado. Mas só de me lembrar que em pleno século XXI há gente que morre, de forma atroz, só por gostar de música, apetece-me ver, daqui a três semanas, ainda no Carnegie Hall, o Kronos Quartet, naquele que seria o meu terceiro concerto — o primeiro, salvo erro, com a «nova» violoncelista (Sunny Yang). Nao fossem as contas ao final do mês, até ver mais ameaçadoras que os jihadistas, pecaria de novo, e com todo o gosto. Isto de um dia a gente ir desta para melhor (ou para pior, consoante as opiniões), e depois não ter pecados para contrapor às virtudes, não me agrada nada. Imagino que Deus, a existir (sou agnóstico), não achará graça a quem nunca pecou, muito menos que não tenha sentido de humor e não goste de música. É que, se assim for, declaro-me, desde já, ateu.

23 de fevereiro de 2015

COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (1). Demolidora a crítica de António Araújo à biografia de Agostinho da Silva recentemente editada pela Quetzal. Pelo que lá foi dito, e não vejo como possa ser desmentido, a biografia parece estar ao nível de Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, que me preparava para ler quando alguém denunciou o embuste. Como aqui dei conta, aguardava a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco) com grande expectativa. Infelizmente, ou alguém desmente António Araújo (demonstrando não serem verdadeiros os factos por ele citados), ou não vou, para grande pena minha (como já foi o caso de Pessoa), ler o livro. Diz-se que os biógrafos de um e de outro são grandes admiradores dos biografados. Imaginem se não fossem.
PROGNÓSTICO RESERVADO. Sobre a Grécia, apesar dos aparentes avanços sigo à risca o conselho de um célebre futebolista: prognósticos só no final do jogo. Mas convém lembrar uma coisa básica: a situação em que a Grécia se encontra não se deve à troika, à Europa, à sra. Merkel, ou a todos juntos. Deve-se às decisões dos seus vários governos, e à corrupção mais ou menos generalizada que não só não combateram como alegremente praticaram desde tempos imemoriais. Governos, já agora, com a mesmíssima legitimidade democrática do actual. Convém igualmente lembrar que a legitimidade do actual governo não lhe confere o direito de impor regras a quem lhe emprestou o dinheiro — regras, já agora, aceites de livre vontade por governos anteriores, igualmente eleitos. Exigir melhores condições para o pagamento da dívida significa piores condições para quem emprestou, e é bom lembrar que alguns dos credores são contribuintes. Também não aprecio que a União Europeia seja dirigida por quem tem mais poder financeiro, no caso a Alemanha. Afinal, a doutrina da União prevê que todos os países tenham pesos iguais. Mas sobra uma pergunta sobre o ódio aos alemães: por que haveriam eles de pagar os erros dos países cujos governos foram, no mínimo, incompetentes? Não imagino o desfecho do «caso» da Grécia (até ver apenas houve uma extensão de quatro meses do programa de financiamento em troca de um conjunto de propostas de reformas que deveriam ter sido apresentadas hoje mas já foram adiadas para amanhã), muito menos que solução será encontrada de modo a satisfazer todas as partes. Numa coisa, porém, estarei sempre ao lado do actual governo grego: abomino gravatas. Isto partindo do princípio de que o actual governo grego abomina gravatas, que não é uma moda que o tempo traz e o tempo leva.

14 de fevereiro de 2015

ANA GOMES E OS TIROS DE PÓLVORA SECA. Em tempos, a deputada Isabel Moreira acusou de comportamento pidesco alguém que a confrontou, numa comissão parlamentar que apreciou uma petição contra o acordo ortográfico, com uma mão cheia de incongruências (a deputada defendia o novo acordo ortográfico mas escrevia como se ele não existisse). Foi aí que tomei conhecimento da sua existência, e como então escrevi, não gostei do que vi. Mas como sempre fiz noutras ocasiões, nada me impede de sair em defesa de quem quer que seja se considerar que tem razão. É o caso na polémica com Ana Gomes. Quem já não se apercebeu que a eurodeputada passa a vida a dar tiros de pólvora seca, que invariavelmente acabam em nada? Quem já não reparou que a senhora passa a vida a pôr-se em bicos de pés, a acusar meio mundo sem que daí resulte uma só consequência? Houve corrupção no negócio que envolveu a compra de dois submarinos? É público que houve (na Alemanha houve até quem fosse condenado). Paulo Portas, então ministro da Defesa, foi corrompido? Se foi, venham evidências a sério. Não asserções absurdas, extrapolações abusivas, histórias da carochinha. Se Ana Gomes quer ser levada a sério, comece por ser séria.

13 de fevereiro de 2015

ZWEIG VINTAGE. Magnífico o livro de Stefan Zweig (O Mundo de Ontem - Recordações de um europeu), que acabo de ler. Magnífico, e muitíssimo apropriado aos tempos que correm. Gostaria, já agora, de ver em ebook a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco, lançado hoje), e a História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro, e Rui Ramos.

4 de fevereiro de 2015

ISTO É INACREDITÁVEL. Um tribunal de Coimbra anulou o despacho do Ministério da Educação que introduziu a chamada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), obrigatória para todos os professores com menos de cinco anos de serviço que queiram candidatar-se a dar aulas. Segundo a Federação Nacional dos Professores (FENPROF), o tribunal considerou que o diploma «ofende o princípio da segurança jurídica imanente da ideia de Estado de Direito Democrático, bem como a liberdade de escolha da profissão prevista na Constituição da República Portuguesa». O mesmo tribunal considerou, ainda segundo a FENPROF, que «as qualidades profissionais» dos docentes submetidos à prova «são já previamente atestadas pelos cursos de ensino superior (...) devidamente homologados», e que a prova é um obstáculo «não expectável», imposto «ao arrepio de legítimas expectativas de cidadãos que contavam ser considerados já aptos para o exercício de uma profissão». Li com a atenção o que disse a FENPROF sobre o acórdão (e li mesmo parte do acórdão, disponível aqui), e devo dizer que todo este episódio me parece estúpido. Em que é que uma prova de avaliação «ofende» os princípios do estado de direito e a liberdade de escolha da profissão? É o candidato ao emprego quem define quem está habilitado, ou não, a exercer determinada função, ou o empregador? Não haverá aqui uma inversão de papéis? Valerá a pena dizer que o empregador tem o direito de escolher quem julga capaz e excluir quem julga não ser? Que os interessados (e respectivos sindicatos que os representam) não queiram ver isso, percebe-se. Já a justiça, espera-se que seja cega — mas não por estes motivos.

3 de fevereiro de 2015

REVISÃO DA MATÉRIA DADA. Mais de um terço dos 2490 docentes do ensino público em regime de contrato temporário com o Estado que em Dezembro último se submeteram à Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidade (PACC) chumbaram, 290 pela segunda vez. Segundo o ministro da Educação, houve professores que deram vinte e mais erros de ortografia numa só frase, coisa, na sua opinião, que «não faz sentido nenhum». Os resultados revelaram ainda que quase 20% das provas registaram cinco ou mais erros de ortografia, e que foram incontáveis os erros de pontuação, nalguns casos em situações impensáveis. É bom lembrar que o objectivo da prova de avaliação é escolher os melhores professores para as escolas públicas. Uma vez que há mais candidatos que lugares a preencher, não será justo escolher os melhores? Com certeza que escolher implica excluir, neste caso os que chumbaram. Alegam os professores e quem os representa que não precisam de avaliação, que as escolas que os formaram já o fizeram. E que a prova não serve para aferir se os candidatos são, ou não, bons professores. Discordo totalmente do primeiro motivo (a realidade acaba de demonstrar que há quem não cumpra os mínimos para ensinar), e se do segundo é previsível que a prova não seja perfeita, já vimos que todas as provas têm, para os professores, defeitos irremediáveis, e que nenhuma serve para os avaliar. Devemos, por isso, ignorar os resultados que ela revelou? De maneira nenhuma. É pura demagogia (para não dizer má-fé) dizer-se, como disse a deputada Rita Rato, que o objectivo da PACC é «achincalhar os professores contratados». A prova pretende escolher os melhores e excluir os piores, e como método não conheço melhor. Tem defeitos? Imagino que tem. Não chega, por si só, para avaliar a competência dos professores? Imagino que não. Mas começa a ser insustentável a ideia de que os professores não podem ser avaliados porque já foram avaliados por quem os formou. Como é evidente, podem, e devem. Como, aliás, a última prova bem demonstrou, e os factos têm sempre razão.
O QUE É PRECISO É MAIS LENHA NA FOGUEIRA. A avaliar pelo que se vai vendo, a estratégia da defesa de Ricardo Salgado passa por revelar informação cirúrgica, e a conta-gotas. Há uma semana, foi sobre alegados encontros com o presidente da República e com o vice-primeiro-ministro, com quem terá discutido ninguém sabe o quê. (A avaliar pelo nervosismo com que Cavaco Silva enfrentou os jornalistas quando confrontado com o tema, há razões para ficar atento.) Amanhã surgirão novos detalhes envolvendo as mesmas (ou outras) figuras do regime, que manterão os media entretidos e alimentarão a fogueira por mais algum tempo, enquanto o principal incendiário, Ricardo Espírito Santo Salgado, se vai erguendo das cinzas e se mantém afastando do lume. É público e já o disse: correm investigações sobre as actividades do Espírito Santo nos Estados Unidos, Panamá, Luxemburgo, Dubai e Suíça. Pode ser que não acabem em nada, como fatalmente acabarão em Portugal, onde quando muito haverá uma ou outra prisão preventiva (nisso somos bons), que depois, por sorte, prosseguirá com acusação — e terminará, no pior dos cenários (para o arguido), em prescrição.