23 de junho de 2015
O JORNALISMO ONTEM E HOJE. Provavelmente desde A Capital, de Eça de Queirós, onde roubei o título do blogue, que não me ria tanto. Falo de Enviado Especial, paródia de Evelyn Waugh a um certo jornalismo que se praticava na época (Scoop, título original, publicado pela primeira vez em 1938). Terminado o livro, atiro-me a Número Zero, romance de Umberto Eco acabadinho de sair, que leio com um permanente sorriso desde a primeira página. Apesar de separadas no tempo por quase oito décadas, um traço em comum entre estas duas obras: o mau jornalismo. Sim, o bom não se presta a romances.
22 de junho de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (27). «(...) a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.» Umberto Eco, entrevista à revista Época de 30/12/2011
18 de junho de 2015
POR CAUSA DAS TOSSES. Talvez haja algum exagero, mas Keith Jarrett não se livra da fama de ter uma relação problemática com o público. Tive ocasião de o comprovar no último concerto que vi dele, de que aqui já falei. O primeiro tema da noite terminou com um espectador a tossir mesmo em cima da última nota, que provocou uma reacção intempestiva de Jarrett, que não conseguiu conter a irritação, embora temperada com ironia. Levantou-se de imediato, foi ao microfone e disse, mais coisa, menos coisa, que há pessoas que têm uma pontaria de tal modo afinada que conseguem tossir em momentos cruciais, como foi o caso. Como pouco depois se comprovou, a irritação já vinha de trás. Como estava um dia péssimo (as ruas de Nova Iorque estavam cobertas de neve e escorregava-se por todo o lado), houve quem se atrasasse, como se notou durante a meia hora de atraso com que Jarrett decidiu, e bem, iniciar o concerto. Irritação que o levaria a dizer que os atrasados lhe mereciam um enorme respeito, pois alguns tinham feito três e mais horas de automóvel debaixo de uma tempestade para ali estar — uma alusão à pateada com que os impacientes espectadores o brindaram antes do concerto, reclamando o seu início. Mas houve mais: cavalgando a onda, falou da sua lendária má relação com o público, e apontou para o piano onde acabava de tocar um tema complexíssimo (como, aliás, todos os que tocou naquela noite) para dizer que sem o público não o teria conseguido. Lembrei-me deste episódio enquanto ouço Alfred Brendel tocar o Adagio Un Poco Mosso do Concerto para Piano #5 de Beethoven (que já ouvi dezenas de vezes e a que, por uma razão ou outra, volto sempre), onde as tosses são uma autêntica praga, e provavelmente evitáveis. É conhecido o feitio de Jarrett, que se recusa a tocar enquanto o público não estiver em completo silêncio. (Há notícias de concertos em que se recusou a tocar por esse motivo, entre os quais um concerto em Lisboa em 1981.) Como alcançou um estatuto que lhe permite dar-se a esse luxo, falo-o, e eu acho muitíssimo bem. Até porque o barulho não perturba, apenas, o concertista, mas também o público que vai lá para ouvir. E eu, confesso, detesto ser perturbado, sobretudo por barulhos facilmente evitáveis. Anuncia-se, já depois destas linhas, o fim do trio (Jarrett, Peacock, DeJohnette). Dada a idade dos seus membros, é um fim anunciado. A confirmar-se, tive o privilégio de assistir ao último concerto, de que aqui dei conta. Ficam as memórias, as gravações, a música. A grande música.
16 de junho de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (26). «Marques Mendes assessorou Efromovich através da Abreu Advogados; [António] Vitorino assessorou Neeleman através da Cuatrecasas. O que está aqui em causa não é este trabalho de mediação negocial. O problema é que estes mediadores de negócios acabam o seu trabalho às cinco e depois às nove da noite já estão a comentar a pátria nas televisões, como se fossem observadores desligados da realidade que estão a comentar. Nessa noite imprecisa, todos os gatos são pardos.» Henrique Raposo, Expresso Diário de 15/06/2015
COISAS QUE VOU LENDO (25). «Ao propor ao arguido a aceitação de outra medida em substituição da prisão preventiva, o Estado está a dizer que já não a entende necessária, adequada e proporcional. O Estado tem obrigação de saber que o arguido pode não aceitar a prisão domiciliária com pulseira electrónica. É o Estado que faz as leis. Não o arguido. Ao regressar à prisão preventiva, após recusa do arguido em aceitar a pulseira electrónica, o Estado está a dar o dito por não dito. Nem se percebe que agora se prescinda da prisão preventiva e daqui a bocado se volte a aplicá-la. Sem qualquer alteração de facto ou circunstância.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 15/06/2015
13 de junho de 2015
O INFERNO DA GRITARIA. Vi duas emissões da Barca do Inferno e fiquei vacinado. Tirando uma senhora, cujo nome não me ocorre, aquilo era uma gritaria pegada. Bem pode Raquel Varela, que o país conheceu graças a um programa de televisão onde um jovem empresário lhe arruinou uma bela teoria com uma evidência que só ela não viu, dizer que o programa foi «inovador», que há vídeos seus no dito programa «que tiveram meio milhão de visualizações», que foi visto e comentado «de norte a sul do país, em universidades e câmaras municipais». Só não viu quem não quis (as emissões estão online): aquilo, como debate, valeu zero. Também o novíssimo programa de debate da RTP, As Palavras e os Atos, é um fiasco. É ruído do princípio ao fim, ninguém deixa falar ninguém. Sabe-se de antemão o que os convidados vão dizer, o moderador fala de mais. Pior: como modelo, o programa não tem conserto. Querem um debate a sério? Copiem o Conversas à Quinta, do Observador, onde os temas são abordados de forma serena e profunda.
11 de junho de 2015
AGUARDEMOS, SENTADOS, OS RESULTADOS. PGR investiga fugas de informação no interrogatório de Sócrates
10 de junho de 2015
PARADISO. Graças à internet, possuo, desde algum tempo, Paradiso, de Lezama Lima, na língua em que foi escrito (espanhol), que estou longe de dominar. Lidas algumas dezenas de páginas, constato, apesar das dificuldades com a língua, que é um grande livro. Procurada a tradução portuguesa, não há. Só em português do Brasil. Caríssima, e difícil de arranjar. Parafraseando Almada Negreiros, «deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido». Não é caso para tanto, mas vinha mesmo a calhar uma tradução em português «sem sotaque» — e, já agora, sem Acordo Ortográfico (AO90), mas talvez seja pedir muito.
5 de junho de 2015
POBRES E MAL-AGRADECIDOS. Imaginem que ando pelas ruas a anunciar que o jornal X traz a notícia Y, e forneço as direcções do quiosque onde se pode comprar o jornal X. Imaginem agora que cobro um centavo pelo serviço a cada pessoa que informo. Devo reparti-lo com o jornal X? É isto que defende quem acha que a Google deve pagar aos jornais sempre que alguém usa o seu motor de busca para fazer uma pesquisa e a pesquisa remete para esses mesmos jornais. O ponto dos defensores desta ideia é o seguinte: como de cada vez que o motor de busca sugere as ligações exibe publicidade (pela qual a empresa proprietária é paga), não devia a Google pagar aos jornais determinada quantia por revelar que a notícia Y está no jornal X? Não tenho certezas absolutas sobre esta matéria, muito menos o que a lei, a existir, prevê para casos destes, mas a minha resposta tende a ser um rotundo não. Reparem: a questão pode ser vista ao contrário. O que muitos consideram um roubo da Google pode, igualmente, ser visto como publicidade gratuita aos jornais para onde a Google remete quem pesquisa, que dessa forma ganham leitores que doutro modo talvez não tivessem. Imaginem que a Google teria que pagar cada ligação que sugere sempre que o seu motor de busca é usado para efectuar qualquer outra pesquisa. Como a lógica é a mesma, teria, igualmente, de pagar. Assim sendo, teríamos Google? Por mim, desde que a Google me forneça os preciosos serviços que me tem fornecido até agora, pelos quais não pago um centavo, que ganhe muitíssimo dinheiro. Não me escandalizaria, aliás, que o seu motor de busca venha a ser considerado serviço público (que, na prática, já é), e a usufruir dos benefícios que o estatuto lhe confere. O Observador lembrou, por ocasião do seu primeiro aniversário, que vários dos seus textos remetem para artigos da concorrência, para os quais disponibiliza as respectivas ligações. Ora aqui está outro caso (e uma prática que se saúda). Invocando a mesma lógica, não devia o Observador pagar à concorrência sempre que a recomenda?
4 de junho de 2015
A LÓGICA QUE ME ESCAPA. Nem tudo o que reluz é ouro, como nem tudo é verdade o que se diz nos jornais, sobretudo desportivos, especialmente nesta altura do ano. Mas há meses que os jornais vêm dizendo que o Benfica e Jorge Jesus negociavam um novo contrato, que passava pelo Benfica baixar o salário ao treinador, e não vi quem o desmentisse. Ora, tendo em conta os resultados de Jorge Jesus à frente do Benfica, é normal assegurar a sua continuidade baixando-lhe o salário? A lógica aponta para o contrário, e o contrário seria manter-lhe — ou melhorar-lhe — o contrato, por melhor que ele já fosse. Caberá na cabeça de alguém que uma empresa que vê os seus lucros aumentarem substancialmente graças ao desempenho de um gestor (ou em grande parte graças a ele) «premiá-lo» baixando-lhe o salário? Confesso que não percebo. Como não percebo que a direcção «encarnada» se tenha apressado a apagar Jorge Jesus da foto do bicampeonato mal se confirmou a transferência de Jesus para o rival de Lisboa, um gesto próprio de quem não tem memória, nem princípios.
28 de maio de 2015
SAIR OU NÃO DO ARMÁRIO. Embora considere «evidente que ninguém pode ser empurrado para fora do armário ou ser forçado a assumir a sua homossexualidade», João Miguel Tavares acha que assumir a homossexualidade em países onde ela não constitui problema é um «dever de consciência». É «lastimável que neste triste país não se consiga arranjar um único homem ou uma única mulher, do PS, do PSD, do CDS, capaz de assumir de uma vez por todas a sua homossexualidade», escreveu o jornalista no Público. Foi mais longe: «é inconcebível que a totalidade dos políticos gays portugueses continue barricada nos respectivos armários». Devo dizer que João Miguel Tavares é, para mim, dos melhores cronistas em actividade. Pela forma como escreve, pelo modo como pensa, pela substância com que fundamenta o que pensa. Foi, por isso, com surpresa que o vi defender uma ideia que me parece absurda, de que discordo absolutamente. Por que devem os gays assumir publicamente que o são? Se ninguém pede aos heterossexuais que assumam publicamente tal condição, certamente por não se considerar necessário, por que deveriam os gays assumi-lo? Confesso que não estou a ver a lógica do raciocínio. Se há gays (bissexuais, travestis, transexuais, transgéneros e sabe-se lá que mais) que se recusam a «sair do armário», qual é o problema? Tirando questões de natureza legal (o Estado precisa de saber o sexo com que cada um nasce), a sexualidade de cada um diz respeito a cada um. Se uns decidem divulgá-la (ou até gabar-se dela), o problema só diz respeito aos próprios. Se outros decidem não a divulgar (ou até escondê-la), o problema só diz respeito aos próprios. Ou há aqui qualquer coisa que me escapa, ou isto, vindo de quem vem, é inacreditável.
27 de maio de 2015
QUEM PÕE FIM A ISTO? Já aqui chamei a atenção, mas volto a insistir: a RTP, pelo menos a RTP Internacional, está a dar cabo da música portuguesa. São tantas as vezes que passa as mesmas músicas, durante semanas a fio e por vezes com intervalos que não chegam a uma hora, que mesmo a melhor música acaba por se tornar insuportável. Parece que o líder do PS pretende, se for primeiro-ministro, melhorar a «qualidade das emissões da RTP Internacional». Não sei o que isso significa (se calhar nem ele), mas eu já me contentava que acabassem com esta pouca-vergonha.
22 de maio de 2015
CANÇONETAS E OUTRAS TRETAS. Tal como a generalidade dos portugueses (presumo), e da quase totalidade dos que gostam de música (volto a presumir), estou-me absolutamente nas tintas para o eurofestival das cantigas. Tanto se me dá que a catraia que «nos representa» termine em primeiro ou em último, que o primeiro não me alegra, e o último não me entristece. Dito isto, parece que a «nossa» cantiga, que ontem foi afastada da fase final, é fracota, e está, segundo Simone de Oliveira, longe de representar a música ligeira portuguesa, segundo ela «outra coisa» (leia-se muito melhor). «Há milhares daquelas [cantigas] pela Europa toda», diz Simone, cuja cançoneta a que deu voz no presente certame foi excluída na fase de selecção nacional (se calhar a razão de Simone vem daí). Vulgaridade, na sua opinião, que só pode ser má para as cantigas, e, presumo de novo, para o país. Ora, o que me surpreende é que ainda haja quem leve a sério uma coisa mais que moribunda, que já deu o que tinha a dar pelo menos há três décadas. Quem se lembra de uma única cantiga portuguesa que tenha ido à Eurovisão? (Vá lá, a Tourada e a Desfolhada, cantada pela mesma Simone.) Quem, já agora, se lembra das cantigas que nas últimas décadas ganharam o eurofestival? O tempo, esse grande juiz, encarregou-se de as remeter para onde nunca deveriam ter saído, e nestas coisas o tempo dificilmente se engana. Definitivamente que haverá qualquer coisa que desconheço que justifica o empenho das televisões numa coisa destas. «Aquilo é um grande espetáculo de televisão», garante Simone. Será. Mas eu, honestamente, nem isso consigo ver. Quando o produto é mau, como pode o espectáculo ser bom? É o velho ditado dos ovos e das omeletas.
O INSULTO COMO ARGUMENTO. Paulo Jorge de Sousa Pinto escreveu no Público o seguinte: há um «bruaá irracional e insensato» por parte de quem se opõe ao Acordo Ortográfico (o chamado AO90), que atribui «a cegueira», «falta de informação», «má-fé», «mero preconceito», «ignorância», «temor», «preguiça», «seguidismo» e «ligeireza». Disse mais: quem se opõe ao Acordo enferma de «arrogância», «nacionalismo básico», «provincianismo serôdio», «estreiteza de vistas», «reacionarismo». Sobre o arrazoado, direi, apenas, duas coisas: há dezenas (repito: dezenas) de argumentos contra o Acordo, e até ver zero (repito: zero) argumentos a favor do Acordo. (Falo de argumentos concretos, não de abstracções.) Para não variar, Sousa Pinto não se pronunciou, em concreto, sobre um só mérito do Acordo. Falou em vagos «desafios à língua portuguesa» que o Acordo irá impedir, num «avanço imparável do inglês» a que o Acordo porá cobro (não se riam), que o Acordo não é mais do que um «aspeto menor de uma convenção». Resumindo, generalidades, e mais generalidades. Sobre os deméritos que os opositores apontam ao Acordo, o sujeito não só não se pronunciou como ainda os insultou. Ainda não foi desta que alguém alinhou dois ou três argumentos dignos desse nome. Por razões cada vez mais óbvias: não os há.
20 de maio de 2015
SE NADA MUDA, MUDAR PORQUÊ? Diz Henrique Monteiro no Expresso sobre o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, procurando desvalorizar as razões de quem se opõe, na sua opinião por «patrioterismo a mais e conhecimentos a menos»: «Continuaremos todos a falar igualzinho, podemos é escrever (...) de forma ligeiramente diferente.» Acontece que o Acordo pretendeu, antes de mais, unificar a grafia entre os falantes de língua portuguesa. Se continuarmos a escrever «de forma ligeiramente diferente», como garante o cronista, o Acordo serviu para quê? É uma espécie de fatalidade (pelos vistos sem qualquer importância), que devemos aceitar com um mero encolher de ombros?
COISAS QUE VOU LENDO (24). «As televisões (...), que andam por aí numa fúria vingadora contra o polícia de Guimarães, são as principais responsáveis pela atmosfera violenta que envolve o futebol. Sim, são as televisões que legitimaram esta cultura de ódio e de desconfiança através dos painéis que envenenam há décadas qualquer conversa sobre a bola.» Henrique Raposo, Expresso de 19/5/15
COISAS QUE VOU LENDO (23). «Enquanto dirigentes, treinadores, gestores de comunicação continuarem a trocar, todos os dias, insinuações e insultos; enquanto não proibirem e não deixarem de subsidiar claques violentas; enquanto não penalizarem adeptos criminosos; enquanto acharem normal a berraria com que se vive a paixão pelo futebol, a brutalidade, já banalizada nas ruas, crescerá mais e mais.» Pedro Tadeu, Diário de Notícias de 18/5/15
Subscrever:
Mensagens (Atom)


