25 de junho de 2015
A FUMAÇA CONTINUA. Definitivamente que o futuro da Grécia só os melhores astrólogos conseguem prever. Como esta notícia bem o demonstra (os analistas financeiros não conseguiram prever o colapso do BES), só por acaso alguém acertará no desfecho do «caso» grego. Bem sei que no início da semana, meio ano depois do começo das negociações entre o Governo grego e as agora chamadas «instituições financeiras», anunciaram, como mal contida euforia, «uma base sólida» para um acordo. Reparem: mesmo que sólida, apenas uma base. Hoje constata-se que nem isso é. À semelhança das anteriores, as negociações caminham penosa e rapidamente para o ponto de partida. Haverá um desfecho, com certeza que haverá, e respectiva fotografia da praxe. Mas duvido que alguém fique bem no retrato.
24 de junho de 2015
23 de junho de 2015
O JORNALISMO ONTEM E HOJE. Provavelmente desde A Capital, de Eça de Queirós, onde roubei o título do blogue, que não me ria tanto. Falo de Enviado Especial, paródia de Evelyn Waugh a um certo jornalismo que se praticava na época (Scoop, título original, publicado pela primeira vez em 1938). Terminado o livro, atiro-me a Número Zero, romance de Umberto Eco acabadinho de sair, que leio com um permanente sorriso desde a primeira página. Apesar de separadas no tempo por quase oito décadas, um traço em comum entre estas duas obras: o mau jornalismo. Sim, o bom não se presta a romances.
22 de junho de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (27). «(...) a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.» Umberto Eco, entrevista à revista Época de 30/12/2011
18 de junho de 2015
POR CAUSA DAS TOSSES. Talvez haja algum exagero, mas Keith Jarrett não se livra da fama de ter uma relação problemática com o público. Tive ocasião de o comprovar no último concerto que vi dele, de que aqui já falei. O primeiro tema da noite terminou com um espectador a tossir mesmo em cima da última nota, que provocou uma reacção intempestiva de Jarrett, que não conseguiu conter a irritação, embora temperada com ironia. Levantou-se de imediato, foi ao microfone e disse, mais coisa, menos coisa, que há pessoas que têm uma pontaria de tal modo afinada que conseguem tossir em momentos cruciais, como foi o caso. Como pouco depois se comprovou, a irritação já vinha de trás. Como estava um dia péssimo (as ruas de Nova Iorque estavam cobertas de neve e escorregava-se por todo o lado), houve quem se atrasasse, como se notou durante a meia hora de atraso com que Jarrett decidiu, e bem, iniciar o concerto. Irritação que o levaria a dizer que os atrasados lhe mereciam um enorme respeito, pois alguns tinham feito três e mais horas de automóvel debaixo de uma tempestade para ali estar — uma alusão à pateada com que os impacientes espectadores o brindaram antes do concerto, reclamando o seu início. Mas houve mais: cavalgando a onda, falou da sua lendária má relação com o público, e apontou para o piano onde acabava de tocar um tema complexíssimo (como, aliás, todos os que tocou naquela noite) para dizer que sem o público não o teria conseguido. Lembrei-me deste episódio enquanto ouço Alfred Brendel tocar o Adagio Un Poco Mosso do Concerto para Piano #5 de Beethoven (que já ouvi dezenas de vezes e a que, por uma razão ou outra, volto sempre), onde as tosses são uma autêntica praga, e provavelmente evitáveis. É conhecido o feitio de Jarrett, que se recusa a tocar enquanto o público não estiver em completo silêncio. (Há notícias de concertos em que se recusou a tocar por esse motivo, entre os quais um concerto em Lisboa em 1981.) Como alcançou um estatuto que lhe permite dar-se a esse luxo, falo-o, e eu acho muitíssimo bem. Até porque o barulho não perturba, apenas, o concertista, mas também o público que vai lá para ouvir. E eu, confesso, detesto ser perturbado, sobretudo por barulhos facilmente evitáveis. Anuncia-se, já depois destas linhas, o fim do trio (Jarrett, Peacock, DeJohnette). Dada a idade dos seus membros, é um fim anunciado. A confirmar-se, tive o privilégio de assistir ao último concerto, de que aqui dei conta. Ficam as memórias, as gravações, a música. A grande música.
16 de junho de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (26). «Marques Mendes assessorou Efromovich através da Abreu Advogados; [António] Vitorino assessorou Neeleman através da Cuatrecasas. O que está aqui em causa não é este trabalho de mediação negocial. O problema é que estes mediadores de negócios acabam o seu trabalho às cinco e depois às nove da noite já estão a comentar a pátria nas televisões, como se fossem observadores desligados da realidade que estão a comentar. Nessa noite imprecisa, todos os gatos são pardos.» Henrique Raposo, Expresso Diário de 15/06/2015
COISAS QUE VOU LENDO (25). «Ao propor ao arguido a aceitação de outra medida em substituição da prisão preventiva, o Estado está a dizer que já não a entende necessária, adequada e proporcional. O Estado tem obrigação de saber que o arguido pode não aceitar a prisão domiciliária com pulseira electrónica. É o Estado que faz as leis. Não o arguido. Ao regressar à prisão preventiva, após recusa do arguido em aceitar a pulseira electrónica, o Estado está a dar o dito por não dito. Nem se percebe que agora se prescinda da prisão preventiva e daqui a bocado se volte a aplicá-la. Sem qualquer alteração de facto ou circunstância.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 15/06/2015
13 de junho de 2015
O INFERNO DA GRITARIA. Vi duas emissões da Barca do Inferno e fiquei vacinado. Tirando uma senhora, cujo nome não me ocorre, aquilo era uma gritaria pegada. Bem pode Raquel Varela, que o país conheceu graças a um programa de televisão onde um jovem empresário lhe arruinou uma bela teoria com uma evidência que só ela não viu, dizer que o programa foi «inovador», que há vídeos seus no dito programa «que tiveram meio milhão de visualizações», que foi visto e comentado «de norte a sul do país, em universidades e câmaras municipais». Só não viu quem não quis (as emissões estão online): aquilo, como debate, valeu zero. Também o novíssimo programa de debate da RTP, As Palavras e os Atos, é um fiasco. É ruído do princípio ao fim, ninguém deixa falar ninguém. Sabe-se de antemão o que os convidados vão dizer, o moderador fala de mais. Pior: como modelo, o programa não tem conserto. Querem um debate a sério? Copiem o Conversas à Quinta, do Observador, onde os temas são abordados de forma serena e profunda.
11 de junho de 2015
AGUARDEMOS, SENTADOS, OS RESULTADOS. PGR investiga fugas de informação no interrogatório de Sócrates
10 de junho de 2015
PARADISO. Graças à internet, possuo, desde algum tempo, Paradiso, de Lezama Lima, na língua em que foi escrito (espanhol), que estou longe de dominar. Lidas algumas dezenas de páginas, constato, apesar das dificuldades com a língua, que é um grande livro. Procurada a tradução portuguesa, não há. Só em português do Brasil. Caríssima, e difícil de arranjar. Parafraseando Almada Negreiros, «deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido». Não é caso para tanto, mas vinha mesmo a calhar uma tradução em português «sem sotaque» — e, já agora, sem Acordo Ortográfico (AO90), mas talvez seja pedir muito.
5 de junho de 2015
POBRES E MAL-AGRADECIDOS. Imaginem que ando pelas ruas a anunciar que o jornal X traz a notícia Y, e forneço as direcções do quiosque onde se pode comprar o jornal X. Imaginem agora que cobro um centavo pelo serviço a cada pessoa que informo. Devo reparti-lo com o jornal X? É isto que defende quem acha que a Google deve pagar aos jornais sempre que alguém usa o seu motor de busca para fazer uma pesquisa e a pesquisa remete para esses mesmos jornais. O ponto dos defensores desta ideia é o seguinte: como de cada vez que o motor de busca sugere as ligações exibe publicidade (pela qual a empresa proprietária é paga), não devia a Google pagar aos jornais determinada quantia por revelar que a notícia Y está no jornal X? Não tenho certezas absolutas sobre esta matéria, muito menos o que a lei, a existir, prevê para casos destes, mas a minha resposta tende a ser um rotundo não. Reparem: a questão pode ser vista ao contrário. O que muitos consideram um roubo da Google pode, igualmente, ser visto como publicidade gratuita aos jornais para onde a Google remete quem pesquisa, que dessa forma ganham leitores que doutro modo talvez não tivessem. Imaginem que a Google teria que pagar cada ligação que sugere sempre que o seu motor de busca é usado para efectuar qualquer outra pesquisa. Como a lógica é a mesma, teria, igualmente, de pagar. Assim sendo, teríamos Google? Por mim, desde que a Google me forneça os preciosos serviços que me tem fornecido até agora, pelos quais não pago um centavo, que ganhe muitíssimo dinheiro. Não me escandalizaria, aliás, que o seu motor de busca venha a ser considerado serviço público (que, na prática, já é), e a usufruir dos benefícios que o estatuto lhe confere. O Observador lembrou, por ocasião do seu primeiro aniversário, que vários dos seus textos remetem para artigos da concorrência, para os quais disponibiliza as respectivas ligações. Ora aqui está outro caso (e uma prática que se saúda). Invocando a mesma lógica, não devia o Observador pagar à concorrência sempre que a recomenda?
4 de junho de 2015
A LÓGICA QUE ME ESCAPA. Nem tudo o que reluz é ouro, como nem tudo é verdade o que se diz nos jornais, sobretudo desportivos, especialmente nesta altura do ano. Mas há meses que os jornais vêm dizendo que o Benfica e Jorge Jesus negociavam um novo contrato, que passava pelo Benfica baixar o salário ao treinador, e não vi quem o desmentisse. Ora, tendo em conta os resultados de Jorge Jesus à frente do Benfica, é normal assegurar a sua continuidade baixando-lhe o salário? A lógica aponta para o contrário, e o contrário seria manter-lhe — ou melhorar-lhe — o contrato, por melhor que ele já fosse. Caberá na cabeça de alguém que uma empresa que vê os seus lucros aumentarem substancialmente graças ao desempenho de um gestor (ou em grande parte graças a ele) «premiá-lo» baixando-lhe o salário? Confesso que não percebo. Como não percebo que a direcção «encarnada» se tenha apressado a apagar Jorge Jesus da foto do bicampeonato mal se confirmou a transferência de Jesus para o rival de Lisboa, um gesto próprio de quem não tem memória, nem princípios.
28 de maio de 2015
SAIR OU NÃO DO ARMÁRIO. Embora considere «evidente que ninguém pode ser empurrado para fora do armário ou ser forçado a assumir a sua homossexualidade», João Miguel Tavares acha que assumir a homossexualidade em países onde ela não constitui problema é um «dever de consciência». É «lastimável que neste triste país não se consiga arranjar um único homem ou uma única mulher, do PS, do PSD, do CDS, capaz de assumir de uma vez por todas a sua homossexualidade», escreveu o jornalista no Público. Foi mais longe: «é inconcebível que a totalidade dos políticos gays portugueses continue barricada nos respectivos armários». Devo dizer que João Miguel Tavares é, para mim, dos melhores cronistas em actividade. Pela forma como escreve, pelo modo como pensa, pela substância com que fundamenta o que pensa. Foi, por isso, com surpresa que o vi defender uma ideia que me parece absurda, de que discordo absolutamente. Por que devem os gays assumir publicamente que o são? Se ninguém pede aos heterossexuais que assumam publicamente tal condição, certamente por não se considerar necessário, por que deveriam os gays assumi-lo? Confesso que não estou a ver a lógica do raciocínio. Se há gays (bissexuais, travestis, transexuais, transgéneros e sabe-se lá que mais) que se recusam a «sair do armário», qual é o problema? Tirando questões de natureza legal (o Estado precisa de saber o sexo com que cada um nasce), a sexualidade de cada um diz respeito a cada um. Se uns decidem divulgá-la (ou até gabar-se dela), o problema só diz respeito aos próprios. Se outros decidem não a divulgar (ou até escondê-la), o problema só diz respeito aos próprios. Ou há aqui qualquer coisa que me escapa, ou isto, vindo de quem vem, é inacreditável.
27 de maio de 2015
QUEM PÕE FIM A ISTO? Já aqui chamei a atenção, mas volto a insistir: a RTP, pelo menos a RTP Internacional, está a dar cabo da música portuguesa. São tantas as vezes que passa as mesmas músicas, durante semanas a fio e por vezes com intervalos que não chegam a uma hora, que mesmo a melhor música acaba por se tornar insuportável. Parece que o líder do PS pretende, se for primeiro-ministro, melhorar a «qualidade das emissões da RTP Internacional». Não sei o que isso significa (se calhar nem ele), mas eu já me contentava que acabassem com esta pouca-vergonha.
22 de maio de 2015
CANÇONETAS E OUTRAS TRETAS. Tal como a generalidade dos portugueses (presumo), e da quase totalidade dos que gostam de música (volto a presumir), estou-me absolutamente nas tintas para o eurofestival das cantigas. Tanto se me dá que a catraia que «nos representa» termine em primeiro ou em último, que o primeiro não me alegra, e o último não me entristece. Dito isto, parece que a «nossa» cantiga, que ontem foi afastada da fase final, é fracota, e está, segundo Simone de Oliveira, longe de representar a música ligeira portuguesa, segundo ela «outra coisa» (leia-se muito melhor). «Há milhares daquelas [cantigas] pela Europa toda», diz Simone, cuja cançoneta a que deu voz no presente certame foi excluída na fase de selecção nacional (se calhar a razão de Simone vem daí). Vulgaridade, na sua opinião, que só pode ser má para as cantigas, e, presumo de novo, para o país. Ora, o que me surpreende é que ainda haja quem leve a sério uma coisa mais que moribunda, que já deu o que tinha a dar pelo menos há três décadas. Quem se lembra de uma única cantiga portuguesa que tenha ido à Eurovisão? (Vá lá, a Tourada e a Desfolhada, cantada pela mesma Simone.) Quem, já agora, se lembra das cantigas que nas últimas décadas ganharam o eurofestival? O tempo, esse grande juiz, encarregou-se de as remeter para onde nunca deveriam ter saído, e nestas coisas o tempo dificilmente se engana. Definitivamente que haverá qualquer coisa que desconheço que justifica o empenho das televisões numa coisa destas. «Aquilo é um grande espetáculo de televisão», garante Simone. Será. Mas eu, honestamente, nem isso consigo ver. Quando o produto é mau, como pode o espectáculo ser bom? É o velho ditado dos ovos e das omeletas.
O INSULTO COMO ARGUMENTO. Paulo Jorge de Sousa Pinto escreveu no Público o seguinte: há um «bruaá irracional e insensato» por parte de quem se opõe ao Acordo Ortográfico (o chamado AO90), que atribui «a cegueira», «falta de informação», «má-fé», «mero preconceito», «ignorância», «temor», «preguiça», «seguidismo» e «ligeireza». Disse mais: quem se opõe ao Acordo enferma de «arrogância», «nacionalismo básico», «provincianismo serôdio», «estreiteza de vistas», «reacionarismo». Sobre o arrazoado, direi, apenas, duas coisas: há dezenas (repito: dezenas) de argumentos contra o Acordo, e até ver zero (repito: zero) argumentos a favor do Acordo. (Falo de argumentos concretos, não de abstracções.) Para não variar, Sousa Pinto não se pronunciou, em concreto, sobre um só mérito do Acordo. Falou em vagos «desafios à língua portuguesa» que o Acordo irá impedir, num «avanço imparável do inglês» a que o Acordo porá cobro (não se riam), que o Acordo não é mais do que um «aspeto menor de uma convenção». Resumindo, generalidades, e mais generalidades. Sobre os deméritos que os opositores apontam ao Acordo, o sujeito não só não se pronunciou como ainda os insultou. Ainda não foi desta que alguém alinhou dois ou três argumentos dignos desse nome. Por razões cada vez mais óbvias: não os há.
20 de maio de 2015
SE NADA MUDA, MUDAR PORQUÊ? Diz Henrique Monteiro no Expresso sobre o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, procurando desvalorizar as razões de quem se opõe, na sua opinião por «patrioterismo a mais e conhecimentos a menos»: «Continuaremos todos a falar igualzinho, podemos é escrever (...) de forma ligeiramente diferente.» Acontece que o Acordo pretendeu, antes de mais, unificar a grafia entre os falantes de língua portuguesa. Se continuarmos a escrever «de forma ligeiramente diferente», como garante o cronista, o Acordo serviu para quê? É uma espécie de fatalidade (pelos vistos sem qualquer importância), que devemos aceitar com um mero encolher de ombros?
COISAS QUE VOU LENDO (24). «As televisões (...), que andam por aí numa fúria vingadora contra o polícia de Guimarães, são as principais responsáveis pela atmosfera violenta que envolve o futebol. Sim, são as televisões que legitimaram esta cultura de ódio e de desconfiança através dos painéis que envenenam há décadas qualquer conversa sobre a bola.» Henrique Raposo, Expresso de 19/5/15
COISAS QUE VOU LENDO (23). «Enquanto dirigentes, treinadores, gestores de comunicação continuarem a trocar, todos os dias, insinuações e insultos; enquanto não proibirem e não deixarem de subsidiar claques violentas; enquanto não penalizarem adeptos criminosos; enquanto acharem normal a berraria com que se vive a paixão pelo futebol, a brutalidade, já banalizada nas ruas, crescerá mais e mais.» Pedro Tadeu, Diário de Notícias de 18/5/15
15 de maio de 2015
ALMADA E OS LIVROS QUE NUNCA LEU. Almada Negreiros angustiava-se diante a possibilidade de não conseguir ler todos os livros que gostaria face ao tempo que lhe restava de vida. Imaginem se fosse hoje, com milhares de livros ao alcance de um clique, centenas de textos imperdíveis diariamente disponibilizados na internet. Ao contrário de Almada, não vivo angustiado com os livros que nunca lerei, alguns nas estantes cá de casa. Mas é um facto que são cada vez mais os livros em formato digital que tenciono ler, e cada vez mais numerosos os textos na internet a que não resisto. A Revista Bula foi a mais recente descoberta. Mas podia falar da Babelia, das sugestões de leitura do Arts & Letters Daily, da New York Review of Books, da revista Ñ. É cada vez mais difícil escolher o que ler, porque escolher significa excluir. Não é bem um lamento. É, quando muito, um lamento de quem tem que escolher o que julga melhor entre o melhor.
COISAS QUE VOU LENDO (22). «Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo.» António Guerreiro, Público de 15/05/2015
13 de maio de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (21).
Já para a jornalista e escritora Suzanne Rodriguez-Hunter (...), o início da festança [Paris dos anos vinte] ocorreu bem antes, no jantar que Picasso ofereceu, em 1908, ao pintor Henri Rousseau, que, mesmo com 64 anos, era admirado pela geração mais jovem. Dele participaram várias pessoas, entre elas os pintores Georges Braque e Marie Laurencin, os escritores André Salmon e Guillaume Apollinaire, os americanos Gertrude Stein, seu irmão Leo e sua nova amiga (e futura amante) Alice B. Toklas. Planejaram que se reuniriam aos pés de Montmartre para aperitivos no bar Fauvet e depois subiriam a ladeira até o estúdio de Picasso, onde comeriam arroz à valenciana. Plano bom, execução desastrosa.
Realmente, até aí tudo fora bem, mas a coisa desandou: no bar, Laurencin embriagou-se e ficou inconveniente; a namorada de Picasso, Fernande Olivier, ficou desconsolada porque alguns produtos encomendados não foram entregues, saindo então com Alice Toklas para tentar encontrar alguma mercearia aberta, o que não conseguiram; na subida de Montmartre, Gertrude e Leo tiveram de carregar Laurencin, que não conseguia mais andar; Fernande barrou a entrada de Laurencin no ateliê, e Gertrude Stein disse-lhe então que, depois de carregá-la, ela teria que ser aceita, com o que Picasso concordou, mas Laurencin, já dentro do ateliê, caiu sobre uma bandeja; Appollinaire, que era amante de Laurencin, levou-a para fora e, ao que tudo indica, deu-lhe uns tabefes, fazendo-a recuperar um pouco a sobriedade; vizinhos esfomeados roubaram comida; um frequentador do famoso Lapin Agile passeou dentro do estúdio com seu burro, que bebeu bastante e comeu o chapéu de Alice Toklas; cantores de rua italianos juntaram-se à bagunça e foram expulsos por Fernande; André Salmon, também embriagado, começou a brigar com todo mundo e então estátuas começaram a ser derrubadas, para desespero de Braque, que inutilmente tentava segurá-las; um dos pintores dançou músicas religiosas espanholas e estendeu-se no chão como um Cristo crucificado; uma convidada não identificada rolou ladeira abaixo e caiu dentro de um esgoto; Rousseau adormeceu debaixo de uma vela que pingava cera derretida sobre a sua cabeça e, quando acordou, passou a tocar violino. Festa estranha, com gente esquisita.Marcelo Franco, Eterna meia-noite em Paris
12 de maio de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (20). «O cancro da mulher de Passos é propaganda?», pergunta, em título, Pedro Tadeu na sua crónica de hoje. Adivinhem a resposta.
5 de maio de 2015
ENTREGUES À BICHARADA. O primeiro-ministro defendeu que para vencer na vida é preciso, entre outras qualidades, ser exigente e metódico. E apontou um exemplo: Dias Loureiro, ex-administrador do BPN, que além de ter as qualidades que refere, é um «empresário bem-sucedido». Hoje anuncia-se que a biografia de Passos Coelho refere, a páginas tantas, que o parceiro de coligação se demitiu por SMS (a tão falada demissão «irrevogável») e não lhe atendia o telefone — isto quando PSD e CDS acabam de anunciar casório em segundas núpcias. Da oposição, as notícias são, igualmente, surpreendentes. Um jornalista escreveu que não morre de amores pelo programa económico de António Costa, e António Costa reagiu insultando o jornalista por SMS. Estamos, portando, entregues a governantes sem memória nem princípios, e a candidatos a governantes se calhar ainda piores.
COISAS QUE VOU LENDO (19). «(...) os povos que preferem a igualdade à liberdade vão produzir mais pobreza. Perante a pobreza, vão exigir ainda mais igualdade. E obterão mais pobreza. Quando descobrirem que outros povos estão a produzir riqueza, exigirão que a igualdade seja estendida a esses povos (talvez através de um “imposto global”). Obviamente, se isso fosse aceite pelos outros, todos ficariam mais pobres — mas seguramente também mais iguais, na pobreza.» João Carlos Espada, Público de 04/05/2015
28 de abril de 2015
DESCONFORTOS CONFORTÁVEIS. Se a Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP) não conseguiu evitar que a Segurança Social tenha sido invadida por «boys» do PSD e do CDS, então serve para quê? Se o objectivo da CReSAP é indicar ao Governo três nomes (os vencedores do concurso que ela própria promove) para preencher determinado cargo na administração pública e o Governo faz ouvidos de mercador (quando devia, segundo o seu presidente, escolher «aleatoriamente» um deles), por que não se demitem os seus dirigentes? O actual presidente, João Bilhim, que diz ter tomado conhecimento deste assunto pela comunicação social (um clássico), veio candidamente manifestar «muito desconforto» e «tristeza», porque sempre achou que o Governo «iria escolher em termos técnicos», e que na hora da verdade «não iam ligar à ligação política ou partidária». Apesar da surpresa (presumo) e da enorme decepção (volto a presumir), João Bilhim mantém que a entidade a que preside, curiosamente criada pelo actual Governo, acabou com os «jobs for the boys». «A CReSAP assegura com transparência, isenção, rigor e independência as funções de recrutamento e seleção de candidatos para cargos de direção superior da Administração Pública e avalia o mérito dos candidatos a gestores públicos», lê-se, na internet, logo na página de entrada. Como não assegura coisa nenhuma, volto a perguntar: para que serve a CReSAP? Serve, até ver, para que o presidente aufira um ordenado mensal ilíquido de 5.436,61 euros + 2.174,61 de despesas de representação + telemóvel com um plafond de 80 euros, e para que três vogais aufiram, no mesmo período, ordenados mensais de 4.892,96 euros + 1.957,18 de despesas de representação + telemóvel com um plafond de 80 euros. Despesas a somar a muitíssimas outras, como é bom de ver, e que acabarão na factura a pagar de quem estão a pensar.
A GRANDE MÚSICA (10).
Aconselho o registo inteiro do concerto de Jan Garbarek e a sua banda em Leverkusen. Os impacientes podem avançar para o minuto 37, onde está um dos melhores solos de contrabaixo (de Eberhard Weber) que vi até hoje. Se continuarem impacientes, vão, depois, aqui, onde podem ver um solo imperdível de Manu Katché.
Aconselho o registo inteiro do concerto de Jan Garbarek e a sua banda em Leverkusen. Os impacientes podem avançar para o minuto 37, onde está um dos melhores solos de contrabaixo (de Eberhard Weber) que vi até hoje. Se continuarem impacientes, vão, depois, aqui, onde podem ver um solo imperdível de Manu Katché.
24 de abril de 2015
LETRAS E TRETAS DA PARVÓNIA. Este texto de António Araújo (publicado quase há um ano mas actualíssimo) ilustra bem por que motivo a deputada Isabel Moreira votou o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90, para simplificar), e por que se abespinhou quando alguém, numa comissão parlamentar, a confrontou com a circunstância de defender o AO90 e escrever como se ele não existisse. Tratar a língua portuguesa como a deputada a tratou em Apátrida, ao que parece a sua primeira incursão literária, é, de facto, lamentável. Os exemplos de António Araújo são abundantes, e seria fastidioso estar aqui a repeti-los quando estão ao alcance de um clique. Já a crítica de Maria da Conceição Caleiro, que no Público considerou Apátrida «um belo e doloroso livro», e generosamente lhe atribui quatro estrelas (a escala vai de 1 a 5), fui ler para crer. «Apátrida é a vários níveis um livro surpreendente e dos mais interessantes que se publicaram em Portugal nos últimos tempos: belo, doloroso, denso, contagiante», diz Conceição Caleiro no parágrafo final. E porquê? Porque o livro está «superpovoado de marcas de subjectividade, de emoção grafada (interrupções, parêntesis, exortações); porque «dá a descobrir uma intimidade que o leitor deslumbrado e ofegante pressente ser extrema, incandescente, despudorada, recôndita, magmática, aflita, aflitiva»; porque é um «resíduo vivíssimo de um confronto surdo, de uma violência»; porque «toda esta fala é mais do lado da intensidade e da insistência do mesmo sempre outro, ou de cada vez já outro, pois é impossível a sobreposição absoluta»; porque a índole de Isabel Moreira «é por natureza apátrida, reinventada por uma causa, uma procura, um sentido, subsumida por uma ética». Resumindo e concluindo, por razões que não se percebem. A única coisa que se percebe é que Conceição Caleiro quis dizer bem, mas quanto a razões, não quis — ou não soube — explicar. Se não surpreende (a crítica literária está cheia destes malabarismos), exercícios destes acabam, invariavelmente (e talvez involuntariamente), por contrariar o que pretendem. Pois é muito bem feito.
É FAVOR TRADUZIREM. Reconheço que alguns jornalistas da área económica se esforçam por explicar aos não iniciados matérias do foro estritamente económico e financeiro sem recorrer ao economês, mas mesmo esses não conseguem evitar o vocabulário dos meios, e que só os meios entendem. O que é papel comercial? Activos? Rácios de capital? Protecção contra credores? Liquidez? Execução de títulos? Almofadas de capital? Provisões de imparidade? Provisões líquidas? Vendas a descoberto? Spreads? Haircut? Exposição da mercearia do sr. Joaquim ao talho do sr. Manuel? Na maioria dos casos, nem os melhores dicionários ajudam. Faziam bem os jornalistas da área económica evitar este palavreado, e não sendo possível escapar-lhe em alguns casos, então abram parêntesis e expliquem, em português que se entenda, o que pretendem dizer. Todos ganhariam com isso, a começar por eles.
21 de abril de 2015
DO SONHO À REALIDADE. Não sou portista, mas gostaria que o Porto tivesse ganho — ou, no mínimo, alcançado um resultado que lhe permitisse ultrapassar a eliminatória, e quem me conhece sabe que não estou a ser hipócrita. Dito isto, é preciso que se diga que o resultado na Alemanha (derrota por 6-1) não aconteceu por acaso, nem, sequer, me pareceu exagerado. Afinal, ao contrário do primeiro jogo, que o Porto venceu com todo o mérito (por 3-1), a derrota em Munique ilustra na perfeição a diferença entre o futebol de topo que se pratica em Portugal e na Alemanha. Isto apesar do Bayern nunca ter estado, como é sabido, na sua máxima força (ausência de cinco titulares nos dois jogos), apesar de o Porto também ter razões de queixa (ausência de dois titulares no jogo de hoje). As coisas são o que são, e os alemães são claramente melhores do que nós. Não só no futebol, mas isso é outra conversa.
TÍTULOS QUE ME DÃO VOLTA AO ESTÔMAGO. A todos os que migram: não vos podemos deixar morrer (Paulo Rangel, Público de 21/04/2015)
COISAS QUE ME FAZEM SORRIR. Sempre que alguém entra no seu apartamento e lhe pergunta se já leu todos os livros que lá tem (cerca de 30 mil), Umberto Eco recorda: «Há três respostas. A primeira é: "Li muitos mais". A segunda é: "Não li nenhum, senão porque os guardaria?" E a terceira é: "Não, mas tenho de os ler na próxima semana".» Entrevista ao Expresso de 17/4/2015.
17 de abril de 2015
PRESIDENCIAIS AMERICANAS, PRIMEIRO ROUND. Hillary Clinton anunciou a candidatura à presidência dos EUA, e logo ressuscitou a velha pergunta: haverá, ou não, vantagens para os EUA (ou qualquer outro país) em ter uma mulher presidente? Há muito que a questão, para mim, está respondida: como voto no candidato que considero melhor, seja de esquerda ou de direita, não vejo por que motivo haveria de mudar o critério quando o candidato é mulher. Sei que muitos votarão, nas presidenciais americanas, numa mulher por ser mulher e contra ela pelo mesmo motivo, razões que hoje em dia me são incompreensíveis. As mulheres que votam numa mulher só por ela ser mulher não se distinguem dos homens que votam contra uma mulher só por ela ser mulher. Vendo bem, considerando a longa cultura machista (que não se muda de um dia para o outro ou por decreto), talvez se distingam... mas pelas piores razões.
10 de abril de 2015
INSTALAÇÕES E CONFUSÕES. Provavelmente os transeuntes tinham escassa sensibilidade (e nulo conhecimento) acerca das coisas da arte. Mas confundir uma grua que caiu em cima de um museu, ainda por cima de arte moderna, com uma instalação artística, parece-me razoável. Afinal, um acidente numa obra distingue-se basicamente de uma instalação artística por ter sido involuntário, não planeado, ao contrário da instalação artística. Esteticamente, os dois casos parecem-me muito semelhantes, e no caso que hoje se anuncia, se calhar o acidente foi, «artisticamente» falando, mais interessante que uma instalação.
7 de abril de 2015
POST PATROCINADO PELA JOHNSON & JOHNSON. Estava o meu estômago posto em sossego após digerir arrobas de encómios a propósito da morte de Herberto Helder, eis que outra se anuncia, a de Manoel de Oliveira, pelos vistos um cineasta amado pelos portugueses de Faro a Melgaço, de Díli a Newark. Quantos portugueses terão visto os filmes de Manoel de Oliveira? Quantos, vá lá, terão visto um terço dos filmes que ele fez? Eu cá só vi dois (Amor de Perdição e outro de que já não me lembro). Mas, atenção, não me gabo disso. Limito-me a constatar uma evidência, no caso a ignorância da sua obra, de que também não me orgulho. A avaliar pelo vi, não deve haver um só português que não tenha visto, pelo menos, uma dúzia de filmes de Oliveira, especialmente os derradeiros (os menos convencionais, digamos assim, que o tornaram uma lenda ainda em vida). Como é evidente, a mentira é maior que a mais extensa longa-metragem de Oliveira, e deve-se aos meios ditos culturais, que não satisfeitos em se derreterem em loas mal ele se foi, inventaram o embuste. Conhecia mal Oliveira, mas desconfio que o cineasta não apreciaria malabarismos destes. E se há coisas a que jamais me habituarei é à hipocrisia, que em doses exageradas (foi o caso) me põe o estômago em alvoroço. Se em circunstâncias normais já dependo dos antiácidos, imaginem com fitas destas.
30 de março de 2015
FILHOS E ENTEADOS. Não sei se o livro de Sócrates (A Confiança no Mundo) foi escrito por ele, nem isso me interessa. Mas, perante as notícias que põem em causa a sua real autoria (presumo que está bom de mais para ter sido escrito por ele), ocorreu-me que tal prática, a ser verdadeira, devia ser imitada por alguns dos «nossos» escritores, que deviam encomendar os seus livros a quem os soubesse, de facto, escrever. Poupar-se-iam, assim, algumas misérias em forma de livro, críticas lisonjeiras que não se percebem, embaraços aos amigos e conhecidos que, coitados, estão obrigados a dizer bem.
27 de março de 2015
DEIXEM O HOMEM EM PAZ. Não li 90% do que se já se escreveu sobre Herberto Helder após a sua morte, e não tenciono ler 90% do que ainda está para vir. Os 10% chegaram e sobraram para me deixar à beira do vómito, apesar de ter lido alguns textos excelentes. (Este, por exemplo, e uma auto-entrevista que desconhecia.) Ana Cristina Leonardo escreveu no Facebook: «As pessoas quando morrem deviam sempre deixar uma lista das criaturas proibidas de aparecer no enterro.» Eu diria mais: deviam deixar uma lista de criaturas proibidas de falar sobre o morto, especialmente quando o cadáver ainda está quente.
24 de março de 2015
HERBERTO HELDER, 1930-2015. Extracto de Os Passos em Volta, um dos livros da minha vida:
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever — enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.
20 de março de 2015
NÃO ME COMPROMETAM. Já toda a gente percebeu a estratégia de António Costa: esperar que Passos Coelho e o Governo caiam de maduros. Provavelmente não haverá melhor expediente para ganhar eleições e chegar ao poder, e daí tantas vezes dizer-se que não foi fulano quem as ganhou, mas sicrano quem as perdeu. Tirando uma argolada aqui e além (o episódio dos chineses, por exemplo), o líder do PS promete tudo em abstracto, mas nada em concreto. Sempre achei que qualquer líder do PS seria melhor que António José Seguro, e que António Costa seria, de longe, melhor do que ele. Hoje, se não tenho saudades de Seguro (não sou militante do PS, nem, sequer, simpatizante), sou forçado a admitir que António Costa saiu pior que a encomenda. É previsível que um candidato a primeiro-ministro com fortes probabilidades de ser eleito tenha um discurso de meias-tintas no que toca a promessas concretas. Mas começo a fartar-me de quem não diz ao que vem, de quem não se compromete com receio de não cumprir — ou de fazer o oposto do que prometeu. Ou, o que ainda é pior, quem vê o poder não como um meio de mudar o que julga estar mal, mas como um fim em si mesmo. Isto de considerar encerrado o caso de Passos Coelho com os impostos, quando se esperaria que não ficasse satisfeito com a informação que ficou por prestar (e, se fosse caso disso, pedisse mesmo a demissão do primeiro-ministro), pareceu-me uma esperteza saloia. Imagina-se que António Costa prefere que Passos Coelho seja, nas próximas legislativas, o alvo a abater, e não outro que o viesse substituir. O primeiro-ministro está desgastado pelo poder, e o episódio dos impostos desgastou-o ainda mais — e vai, seguramente, entrar na campanha eleitoral. Foi isto, a meu ver, o que travou o líder do PS, demonstrando que politicamente é farinha do mesmo saco.
A VITÓRIA DO ACORDO ORTOGRÁFICO. A avaliar pelo que vou lendo, parece-me definitivamente perdida a «guerra» contra o Acordo Ortográfico (AO90). Não imaginam como lamento, pelas razões que já disse e repeti. E estranho que um tão grande movimento contra tamanha aberração, que reuniu centenas de milhares de assinaturas e foi objecto de discussão no parlamento, não tenha, até ver, mudado uma vírgula, e a passagem do tempo dificultará ainda mais qualquer mudança. Os anunciados exames onde a grafia «antiga» será considerada erro, é o mais forte sinal disso mesmo. É que, a partir daí, o «acordês» será irreversível.
17 de março de 2015
É SÓ FUMAÇA. O ministro Varoufakis diz estar arrependido de abrir as portas de casa à Paris Match. Não percebo porquê. Afinal, ele são os atrasos de meia-hora a reuniões importantes (onde chega seguido pelas câmaras de televisão), ele é a fralda de fora e a gravata que não usa, ele é o cachecol marca não sei quê e as golas levantadas, ele são as calças de ganga, ele é agora o dedo do meio levantado à Alemanha (que ele diz ser uma montagem mas ninguém acredita). Resumindo, o famoso «ar descontraído» do ministro grego das Finanças não passa, afinal, de exibicionismo. Sobre o que realmente importa, até ver é só parra, e nenhuma uva. Imagino, a partir do episódio da revista francesa, o sacrifício que os parceiros na Europa farão para manter a compostura (isto é, não se rirem) quando tiverem que o aturar. Sim, dantes Varoufakis inspirava não sei bem o quê, agora tornou-se risível.
10 de março de 2015
O PRESIDENTE DE ALGUNS PORTUGUESES. O Presidente da República tem-se distinguido por falar pouco, e mal. A última vez que abriu a boca, a propósito da embrulhada em que o primeiro-ministro se viu metido, insultou os portugueses. Passos Coelho admitiu que falhou nos impostos, que não se orgulha disso, e que não é um cidadão perfeito. E o que tem o Presidente a dizer sobre tão melindrosa matéria? Mais papista que o Papa, acha que o caso é uma questão político-partidária, pré-campanha eleitoral, um fait divers. Já estou a ver o Presidente a enfrentar os microfones para dizer, um dia destes, com o cinismo que o caracteriza, que foi mal interpretado, e que a culpa foi dos jornalistas, esses malvados, que não há maneira de perceberam o alcance das suas palavras.
COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (2). O que é uma biografia poética? Li e reli a resposta de António Cândido Franco à crítica de António Araújo (que reduziu a pó O Estranhíssimo Colosso, biografia de Agostinho da Silva editada por Cândido Franco), e fiquei sem saber. Pior: a resposta do biógrafo não desmente um só facto dos muitíssimos em que a crítica de António Araújo assentou. Se razões tivesse para torcer o nariz ao «produto» depois de ler a crítica, mais razões passei a ter após a resposta de Cândido Franco. Pelo que já aqui deixei dito, para grande pena minha.
9 de março de 2015
E DEPOIS NOTA-SE BASTANTE NOS RESULTADOS.
Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.
João Pedro George, O Observador
Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.
João Pedro George, O Observador
PARA PERCEBER MELHOR AS ESQUERDAS PORTUGUESAS.
Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma "plataforma de cidadãos" fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC--Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).
Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas "europeias". E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA - antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.
Alberto Gonçalves, Diário de Notícias
Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma "plataforma de cidadãos" fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC--Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).
Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas "europeias". E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA - antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.
Alberto Gonçalves, Diário de Notícias
4 de março de 2015
A VIDA SÃO DOIS DIAS E TRÊS MÚSICAS. Depois de há três meses ter visto Keith Jarrett e sus muchachos (Gary Peacock no baixo e Jack DeJohnette na bateria) no New Jersey Performing Arts Center (salvo erro o quarto concerto que vi deles), voltei ontem a vê-lo, no Carnegie Hall, agora a solo, numa dúzia de peças improvisadas que, por ignorância (só me ocorrem lugares-comuns), me abstenho de comentar. Daqui a uma semana será Hiromi, em Princeton, também a solo, depois de memoráveis concertos no Blue Note (com Anthony Jackson no baixo e Simon Phillips na bateria). Isto, já agora, e com o único propósito de causar inveja a eventuais melómanos, de há um ano e pouco ter visto, pela segunda vez, John McLaughlin, também no Blue Note, desta vez com Etienne Mbappé (baixo eléctrico), Gary Husband (teclados e bateria), e Ranjit Barot (bateria). Sim, admito, sem qualquer humildade, que sou um privilegiado. Mas só de me lembrar que em pleno século XXI há gente que morre, de forma atroz, só por gostar de música, apetece-me ver, daqui a três semanas, ainda no Carnegie Hall, o Kronos Quartet, naquele que seria o meu terceiro concerto — o primeiro, salvo erro, com a «nova» violoncelista (Sunny Yang). Nao fossem as contas ao final do mês, até ver mais ameaçadoras que os jihadistas, pecaria de novo, e com todo o gosto. Isto de um dia a gente ir desta para melhor (ou para pior, consoante as opiniões), e depois não ter pecados para contrapor às virtudes, não me agrada nada. Imagino que Deus, a existir (sou agnóstico), não achará graça a quem nunca pecou, muito menos que não tenha sentido de humor e não goste de música. É que, se assim for, declaro-me, desde já, ateu.
23 de fevereiro de 2015
COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (1). Demolidora a crítica de António Araújo à biografia de Agostinho da Silva recentemente editada pela Quetzal. Pelo que lá foi dito, e não vejo como possa ser desmentido, a biografia parece estar ao nível de Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, que me preparava para ler quando alguém denunciou o embuste. Como aqui dei conta, aguardava a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco) com grande expectativa. Infelizmente, ou alguém desmente António Araújo (demonstrando não serem verdadeiros os factos por ele citados), ou não vou, para grande pena minha (como já foi o caso de Pessoa), ler o livro. Diz-se que os biógrafos de um e de outro são grandes admiradores dos biografados. Imaginem se não fossem.
PROGNÓSTICO RESERVADO. Sobre a Grécia, apesar dos aparentes avanços sigo à risca o conselho de um célebre futebolista: prognósticos só no final do jogo. Mas convém lembrar uma coisa básica: a situação em que a Grécia se encontra não se deve à troika, à Europa, à sra. Merkel, ou a todos juntos. Deve-se às decisões dos seus vários governos, e à corrupção mais ou menos generalizada que não só não combateram como alegremente praticaram desde tempos imemoriais. Governos, já agora, com a mesmíssima legitimidade democrática do actual. Convém igualmente lembrar que a legitimidade do actual governo não lhe confere o direito de impor regras a quem lhe emprestou o dinheiro — regras, já agora, aceites de livre vontade por governos anteriores, igualmente eleitos. Exigir melhores condições para o pagamento da dívida significa piores condições para quem emprestou, e é bom lembrar que alguns dos credores são contribuintes. Também não aprecio que a União Europeia seja dirigida por quem tem mais poder financeiro, no caso a Alemanha. Afinal, a doutrina da União prevê que todos os países tenham pesos iguais. Mas sobra uma pergunta sobre o ódio aos alemães: por que haveriam eles de pagar os erros dos países cujos governos foram, no mínimo, incompetentes? Não imagino o desfecho do «caso» da Grécia (até ver apenas houve uma extensão de quatro meses do programa de financiamento em troca de um conjunto de propostas de reformas que deveriam ter sido apresentadas hoje mas já foram adiadas para amanhã), muito menos que solução será encontrada de modo a satisfazer todas as partes. Numa coisa, porém, estarei sempre ao lado do actual governo grego: abomino gravatas. Isto partindo do princípio de que o actual governo grego abomina gravatas, que não é uma moda que o tempo traz e o tempo leva.
17 de fevereiro de 2015
TUDO EM FAMÍLIA. «Quando Rui Pereira deixou a Administração Interna, já no segundo Governo Sócrates, iniciou mandato de nove anos como juiz do Tribunal Constitucional (TC), substituindo a sua mulher, Fernanda Palma, que acabara de cumprir os seus nove anos, tal como Maria dos Prazeres Beleza, esta também substituída no TC pelo marido, José Gabriel Queiró. Sucessão conjugal. Nos corredores em circuito fechado do poder, vasos comunicantes, as dinastias dos juristas da res publica.» Madalena Homem Cardoso, Público de 17/02/2015
14 de fevereiro de 2015
ANA GOMES E OS TIROS DE PÓLVORA SECA. Em tempos, a deputada Isabel Moreira acusou de comportamento pidesco alguém que a confrontou, numa comissão parlamentar que apreciou uma petição contra o acordo ortográfico, com uma mão cheia de incongruências (a deputada defendia o novo acordo ortográfico mas escrevia como se ele não existisse). Foi aí que tomei conhecimento da sua existência, e como então escrevi, não gostei do que vi. Mas como sempre fiz noutras ocasiões, nada me impede de sair em defesa de quem quer que seja se considerar que tem razão. É o caso na polémica com Ana Gomes. Quem já não se apercebeu que a eurodeputada passa a vida a dar tiros de pólvora seca, que invariavelmente acabam em nada? Quem já não reparou que a senhora passa a vida a pôr-se em bicos de pés, a acusar meio mundo sem que daí resulte uma só consequência? Houve corrupção no negócio que envolveu a compra de dois submarinos? É público que houve (na Alemanha houve até quem fosse condenado). Paulo Portas, então ministro da Defesa, foi corrompido? Se foi, venham evidências a sério. Não asserções absurdas, extrapolações abusivas, histórias da carochinha. Se Ana Gomes quer ser levada a sério, comece por ser séria.
13 de fevereiro de 2015
ZWEIG VINTAGE. Magnífico o livro de Stefan Zweig (O Mundo de Ontem - Recordações de um europeu), que acabo de ler. Magnífico, e muitíssimo apropriado aos tempos que correm. Gostaria, já agora, de ver em ebook a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco, lançado hoje), e a História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro, e Rui Ramos.
4 de fevereiro de 2015
ISTO É INACREDITÁVEL. Um tribunal de Coimbra anulou o despacho do Ministério da Educação que introduziu a chamada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), obrigatória para todos os professores com menos de cinco anos de serviço que queiram candidatar-se a dar aulas. Segundo a Federação Nacional dos Professores (FENPROF), o tribunal considerou que o diploma «ofende o princípio da segurança jurídica imanente da ideia de Estado de Direito Democrático, bem como a liberdade de escolha da profissão prevista na Constituição da República Portuguesa». O mesmo tribunal considerou, ainda segundo a FENPROF, que «as qualidades profissionais» dos docentes submetidos à prova «são já previamente atestadas pelos cursos de ensino superior (...) devidamente homologados», e que a prova é um obstáculo «não expectável», imposto «ao arrepio de legítimas expectativas de cidadãos que contavam ser considerados já aptos para o exercício de uma profissão». Li com a atenção o que disse a FENPROF sobre o acórdão (e li mesmo parte do acórdão, disponível aqui), e devo dizer que todo este episódio me parece estúpido. Em que é que uma prova de avaliação «ofende» os princípios do estado de direito e a liberdade de escolha da profissão? É o candidato ao emprego quem define quem está habilitado, ou não, a exercer determinada função, ou o empregador? Não haverá aqui uma inversão de papéis? Valerá a pena dizer que o empregador tem o direito de escolher quem julga capaz e excluir quem julga não ser? Que os interessados (e respectivos sindicatos que os representam) não queiram ver isso, percebe-se. Já a justiça, espera-se que seja cega — mas não por estes motivos.
3 de fevereiro de 2015
REVISÃO DA MATÉRIA DADA. Mais de um terço dos 2490 docentes do ensino público em regime de contrato temporário com o Estado que em Dezembro último se submeteram à Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidade (PACC) chumbaram, 290 pela segunda vez. Segundo o ministro da Educação, houve professores que deram vinte e mais erros de ortografia numa só frase, coisa, na sua opinião, que «não faz sentido nenhum». Os resultados revelaram ainda que quase 20% das provas registaram cinco ou mais erros de ortografia, e que foram incontáveis os erros de pontuação, nalguns casos em situações impensáveis. É bom lembrar que o objectivo da prova de avaliação é escolher os melhores professores para as escolas públicas. Uma vez que há mais candidatos que lugares a preencher, não será justo escolher os melhores? Com certeza que escolher implica excluir, neste caso os que chumbaram. Alegam os professores e quem os representa que não precisam de avaliação, que as escolas que os formaram já o fizeram. E que a prova não serve para aferir se os candidatos são, ou não, bons professores. Discordo totalmente do primeiro motivo (a realidade acaba de demonstrar que há quem não cumpra os mínimos para ensinar), e se do segundo é previsível que a prova não seja perfeita, já vimos que todas as provas têm, para os professores, defeitos irremediáveis, e que nenhuma serve para os avaliar. Devemos, por isso, ignorar os resultados que ela revelou? De maneira nenhuma. É pura demagogia (para não dizer má-fé) dizer-se, como disse a deputada Rita Rato, que o objectivo da PACC é «achincalhar os professores contratados». A prova pretende escolher os melhores e excluir os piores, e como método não conheço melhor. Tem defeitos? Imagino que tem. Não chega, por si só, para avaliar a competência dos professores? Imagino que não. Mas começa a ser insustentável a ideia de que os professores não podem ser avaliados porque já foram avaliados por quem os formou. Como é evidente, podem, e devem. Como, aliás, a última prova bem demonstrou, e os factos têm sempre razão.
O QUE É PRECISO É MAIS LENHA NA FOGUEIRA. A avaliar pelo que se vai vendo, a estratégia da defesa de Ricardo Salgado passa por revelar informação cirúrgica, e a conta-gotas. Há uma semana, foi sobre alegados encontros com o presidente da República e com o vice-primeiro-ministro, com quem terá discutido ninguém sabe o quê. (A avaliar pelo nervosismo com que Cavaco Silva enfrentou os jornalistas quando confrontado com o tema, há razões para ficar atento.) Amanhã surgirão novos detalhes envolvendo as mesmas (ou outras) figuras do regime, que manterão os media entretidos e alimentarão a fogueira por mais algum tempo, enquanto o principal incendiário, Ricardo Espírito Santo Salgado, se vai erguendo das cinzas e se mantém afastando do lume. É público e já o disse: correm investigações sobre as actividades do Espírito Santo nos Estados Unidos, Panamá, Luxemburgo, Dubai e Suíça. Pode ser que não acabem em nada, como fatalmente acabarão em Portugal, onde quando muito haverá uma ou outra prisão preventiva (nisso somos bons), que depois, por sorte, prosseguirá com acusação — e terminará, no pior dos cenários (para o arguido), em prescrição.
26 de janeiro de 2015
FIXEM BEM ESTE NOME: CORMAC McCARTHY. Graças a um ficheiro onde registo estas coisas, e que mantenho actualizado há décadas, de Cormac McCarthy concluí, até agora, quatro livros: Meridiano de Sangue, Nas Trevas Exteriores, Filho de Deus, e A Estrada. Leio, actualmente, Sutree, e confirmo o que pensava de McCarthy: é dos escritores mais surpreendentes que conheço. Nas estantes aguardam-me Este país não é para velhos, A Travessia, e Belos Cavalos, a que se juntarão outros mal os encontre. Não sei o que dizem os entusiastas da sua obra (ou detractores, que também haverá), muito menos os especialistas. Mas do que já li, há dois livros espantosos: Meridiano de Sangue, e A Estrada. Sutree será outro.
23 de janeiro de 2015
MEDITAÇÕES DE CASERNA. Tardou, mas chegou. Loureiro dos Santos considera que a culpa do fundamentalismo islâmico em actividade é dos americanos. Segundo ele, foi o Ocidente quem deu origem ao Estado Islâmico, nomeadamente «dois erros estratégicos dos Estados Unidos: a invasão do Iraque; e a insurreição na Síria». Temos, assim, que o 11 de Setembro de 2001, em que o fundamentalismo islâmico (sim, já havia) matou milhares de americanos inocentes, incluindo muçulmanos (e que deu origem à invasão do Iraque e estará na origem dos problemas na Síria), nunca existiu. Claro que Loureiro dos Santos não defende tal coisa, mas lembrar este «pequeno pormenor», arruinar-lhe-ia a sua bela teoria. Mas é caso para dizer: análises destas, até eu faria sobre física quântica.
E QUEM É QUE O IMPEDE? Marinho e Pinto publicou, no Correio da Manhã, um texto comovente. Eis um extracto:
«Eu gostava de poder discutir com um defensor da jihad, em ambiente de plena liberdade para ambos, as motivações políticas ou ideológicas da violência armada contra cidadãos indefesos e inocentes e tentar demonstrar-lhe o erro dessas opções. Em vez de o silenciar com iradas excomunhões, eu gostaria de poder ouvir tudo o que ele tivesse a dizer na defesa da sua doutrina de violência para depois eu o rebater com os meus argumentos de respeito pela dignidade da pessoa humana. No dia em que isso acontecesse, haveríamos, ao menos, de estar de acordo na escolha das armas para esse confronto: as palavras, as ideias e os argumentos em vez das bombas e das metralhadoras.»
Lido isto, não sei se hei-de rir, se hei-de chorar. É que Marinho e Pinto ou anda muito distraído, ou é de uma ingenuidade inacreditável. Desde quando os jihadistas estão interessados em discutir ideias com quem não pensa como eles? E quem não conhece as suas motivações políticas e/ou ideológicas para a violência contra cidadãos indefesos e/ou inocentes? Tirando Marinho e Pinto, não estou a ver quem. Percebo que o tenham feito eurodeputado, provavelmente mais por demérito alheio que por mérito próprio. Afinal, o eleitorado está farto de políticos, digamos, convencionais, e terá visto nele alguém fora do sistema, uma mais-valia. Como se viu, escassas semanas bastaram para ficar demonstrado que foi pior a emenda que o soneto. Espanta-me, por isso, que ainda há quem insista em ver nele o que ele manifestamente não é.
«Eu gostava de poder discutir com um defensor da jihad, em ambiente de plena liberdade para ambos, as motivações políticas ou ideológicas da violência armada contra cidadãos indefesos e inocentes e tentar demonstrar-lhe o erro dessas opções. Em vez de o silenciar com iradas excomunhões, eu gostaria de poder ouvir tudo o que ele tivesse a dizer na defesa da sua doutrina de violência para depois eu o rebater com os meus argumentos de respeito pela dignidade da pessoa humana. No dia em que isso acontecesse, haveríamos, ao menos, de estar de acordo na escolha das armas para esse confronto: as palavras, as ideias e os argumentos em vez das bombas e das metralhadoras.»
Lido isto, não sei se hei-de rir, se hei-de chorar. É que Marinho e Pinto ou anda muito distraído, ou é de uma ingenuidade inacreditável. Desde quando os jihadistas estão interessados em discutir ideias com quem não pensa como eles? E quem não conhece as suas motivações políticas e/ou ideológicas para a violência contra cidadãos indefesos e/ou inocentes? Tirando Marinho e Pinto, não estou a ver quem. Percebo que o tenham feito eurodeputado, provavelmente mais por demérito alheio que por mérito próprio. Afinal, o eleitorado está farto de políticos, digamos, convencionais, e terá visto nele alguém fora do sistema, uma mais-valia. Como se viu, escassas semanas bastaram para ficar demonstrado que foi pior a emenda que o soneto. Espanta-me, por isso, que ainda há quem insista em ver nele o que ele manifestamente não é.
EBOOKS, CAPÍTULO ENÉSINO. Gosto da capa e da contracapa, da badana e do papel, do tamanho e da forma dos caracteres, do cheiro e de os ver nas estantes — mas do que eu gosto mesmo é do que «está lá dentro». É por isso que leio eBooks há anos, é por isso que há anos escrevo sobre as vantagens — e desvantagens — dos eBooks, cuja aquisição me pareceu, desde sempre, valer a pena avaliar sem preconceitos. Não pretendo usar o meu caso para generalizar, mas a verdade é que nunca, como hoje, comprei tantos livros, apesar da oferta de eBooks ser cada vez mais diversificada (e tentadora). E também é verdade que primeiro trato de saber se existe em eBook o que pretendo comprar, que já não tenho espaço nas estantes — e o pouco que vou conquistando a outras arrumações vem sendo ocupado por livros comprados, sobretudo, nos alfarrabistas, onde estou sempre a tropeçar em preciosidades a que não resisto. E agora, se me dão licença, vou-me à História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (a ideia é impressionar os leitores), cuja leitura, lá está, dificilmente faria caso não fosse o eBook. Afinal, são quatro respeitosos volumes, para cima de 2800 páginas. Estão a ver-me com um só volume debaixo do braço sempre que tenho oportunidade de o ler por aí? E, já agora, por que não reeditar também em eBook as obras completas do Padre António Vieira? Devido à falta de espaço, provavelmente nunca as verei nas estantes. Se fosse em eBook, num só volume ou em vários, venha ele que eu compro. E quem diz Vieira (30 volumes, agora editados pelo Círculo de Leitores) diz outros clássicos, a começar pelos portugueses (Eça, Camilo, Pessoa, Cardoso Pires) ou lusófonos (Machado, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre).
19 de janeiro de 2015
CRISTINA KIRCHNER. Obviamente que não se pode extrair, para já, qualquer ilação, até porque a informação ainda é escassa. Mas foi-me completamente impossível separar esta notícia do que li, há dois anos, no Estado de São Paulo. O texto é comprido, mas vale a pena.
16 de janeiro de 2015
TEMPOS SOMBRIOS. Não ignoro que grandes facínoras cometeram crimes hediondos enquanto se deliciavam com a grande música, mas continuo convencido que a grande música torna o homem melhor. Palestrina, por exemplo, pelos Tallis Scholars. Tavener, pelo Chanticleer. Pärt, pelo Hilliard Ensemble. Lauridsen, pelo Los Angeles Master Chorale. E mais, muitos mais, que nos iluminam nestes dias de trevas, tornando o mundo um lugar mais suportável.
AI ISSO É QUE PODEMOS. O Papa Francisco disse ontem que não se pode provocar ou insultar a fé dos outros. Não posso estar mais em desacordo. Não aprecio provocações gratuitas e insultos de espécie alguma, mas se a questão é podemos, ou não, provocar e insultar, a resposta é, para mim, cristalina: podemos. Mais: mesmo tendo o cuidado de ressalvar que «matar em nome de Deus» é «uma aberração», e de considerar que a liberdade de expressão é um direito fundamental, considero perigoso o discurso do Papa. Há limites à liberdade de expressão que são ultrapassados quando se trata da religião? Discordo outra vez. Por que haveria a religião, qualquer religião, de ficar a salvo de insultos ou provocações e o resto não? E volto a discordar quando diz que a liberdade de expressão deve «exercer-se sem ofender», porque isso levar-nos-ia a que cada um definisse o que é ofensivo e o que não é — logo ao «respeitinho» (não confundir com respeito) e à autocensura. Ficou-lhe bem reconhecer que também a igreja católica pecou generosamente, mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que os tribunais existem, também, para julgar insultos e provocações, pelo que quem se sentir ofendido que recorra aos tribunais. O Papa Francisco não defende que alguém que se sinta insultado na sua fé tem o direito de matar, longe disso. Mas se ao dizer o que disse não legitima tal acto, atenua-o bastante — e de algum modo desculpa-o. E se há coisa que não merece contemplações é o terrorismo. Seja em nome de quem for.
PRÉMIOS LITERÁRIOS. Desconheço os detalhes do caso, e os detalhes poderão fazer toda a diferença. Mas num país em que até a prosa analfabeta publicada em forma de livro recebe, pelo menos, um prémio literário, é capaz de ser uma boa notícia quando lemos que o Prémio Agustina Bessa-Luís não será entregue por «falta de qualidade das obras» a concurso. Infelizmente, não acredito que este saudável princípio tenha grande futuro. Mas é pena, porque talvez não houvesse tanta mediocridade se os critérios de atribuição dos prémios literários fossem um pouco mais exigentes.
15 de janeiro de 2015
NEM TUDO FOI MAU. Dois factos positivos resultantes da tragédia francesa: a Europa começou, finalmente, a perceber que o terrorismo islâmico é um problema global, que urge resolver à escala global; e os muçulmanos moderados começaram, finalmente, a demarcar-se, de forma audível, de práticas fundamentalistas, até porque são eles as primeiras vítimas dos danos colaterais.
PARECE QUE DESTA VEZ A CULPA NÃO FOI DOS AMERICANOS. Perdoem-me a ironia, mas não resisto a confessar a minha surpresa por ainda não ter visto, uma semana após a tragédia francesa, uma só alma dizer que a culpa é dos americanos. Tirando Ana Gomes, que disse os disparates a que já nos habituou (começou por dizer que o atentado foi «também o resultado de políticas anti-europeias de austeridade», e anteontem escreveu, a propósito da edição do Charlie Hebdo onde o profeta surge na capa a lamentar o que fizeram em seu nome, que era mais uma ofensa aos muçulmanos), ainda não vi o habitual passa culpas para os americanos. Quanto ao resto, tudo como dantes. Já se vai ouvindo o tradicional «está mal, mas...», quem aponte o dedo a uma publicação que vive de excessos, provocações e insultos — logo estava mesmo a pedi-las. Não faltará quem, nos próximos tempos, tentará, de certa maneira, justificar a carnificina (explicando, contextualizando, desculpabilizando), culpando quem não tem culpa, e fazendo com que os verdadeiros culpados até pareçam as vítimas.
13 de janeiro de 2015
A SRA. LE PEN AGRADECE. Os mandantes que temos cada vez surpreendem mais, para não variar sempre pela negativa. O presidente francês, por exemplo, apressou-se a excluir a sra. Le Pen da manifestação de domingo, considerando tratar-se de uma «marcha republicana», onde ela não teria lugar. Apressou-se, enfim, a oferecer um presente à Frente Nacional, seguramente a força política que mais ganhou com a tragédia francesa e a quem Hollande, com uma decisão estúpida, fortaleceu ainda mais. Mas não se ficou por aqui o inquilino do Eliseu: fez o que pôde para que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, não fosse à manifestação, a pretexto de que não queria desviar o foco da dita para o conflito israelo-palestiniano, e que Mahmud Abbas, presidente palestiniano, também iria participar — logo iriam caminhar a poucos metros um do outro, logo isso seria um problema. A manifestação de Paris não seria uma excelente ocasião para juntar gente desavinda, mesmo que só para aparecer na fotografia? Hollande achou que não. Pobre país que tem líderes assim. Sem visão, nem estatura.
9 de janeiro de 2015
A DEMOCRACIA DE BRAÇO NO AR. «Não há rigorosamente nada que tenha sido inventado até hoje tão democrático como a comissão de trabalhadores, porque todas as pessoas votam de braço no ar.» Quem foi que disse isto, quem foi? Kim Jong-un, o extraordinário líder da Coreia do Norte? Não, senhores. Foi a dra. Raquel Varela, na Barca do Inferno de 5 de Janeiro.
7 de janeiro de 2015
FREI TOMÁS PREGADO AOS INCRÉUS. Os líderes mundiais apressaram-se, e bem, a condenar o massacre francês, garantindo que nada os fará recuar perante o terrorismo e as suas pretensões. Acontece que a realidade é outra: os atentados que têm vindo a ocorrer desde Setembro de 2001 já mudaram a nossa maneira de estar, e continuarão a mudar. Apesar da retórica, dos discursos inflamados e das boas intenções, o medo cresce cada dia que passa, e a autocensura (que alguém disse ser a pior das censuras) cresce a olhos vistos. Como escreveu Henrique Raposo, que faria ele se fosse um cronista francês «ao alcance da filha da puta da Ak-47»? Definitivamente que o Ocidente está a perder sucessivas batalhas. Resta saber se perderá a guerra.
ISTO NÃO VAI LÁ COM MEIAS TINTAS. Em Dresden, milhares de pessoas manifestaram-se recentemente por uma «Alemanha para os alemães» e contra o que consideram uma crescente islamização do país, enquanto no mesmo país outros milhares se manifestaram logo a seguir contra o «nacionalismo», considerando que os refugiados são «bem-vindos», e que o racismo e a xenofobia não têm lugar numa sociedade onde todos cabem e onde todos têm o direito de ser tratados por igual. Sondagens às presidenciais francesas dão a vitória a Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, partido de extrema-direita que pretende, entre outras medidas, travar o que designa por crescente «islamização da França». Hoje mesmo aconteceu o que aconteceu. Parece-me, por isso, altura de voltar a insistir nas perguntas que faço há anos, que nunca vi cabalmente respondidas. Por que não aproveita o islamismo moderado ocasiões como esta para sair à rua a condenar o radicalismo? Por que se limitam os seus líderes a declarações avulsas sempre que há uma tragédia e só quando não conseguem fugir aos microfones? Por que se limitam a queixar-se do modo como são olhados na rua, da crescente estigmatização de que dizem, e eu acredito, estar a ser vítimas? Não percebem que a passividade, aliada a actos como o de hoje, se viram contra eles? Que só reforçam o que designam, nem sempre acertadamente, por islamofobia? Reconheço que é pouco simpático, mas nestas alturas lembro-me sempre da célebre frase inicialmente dita, salvo erro, por Oriana Fallaci, que se mantém actualíssima: se é verdade que a generalidade dos muçulmanos não é terrorista, é um facto que os terroristas são, quase sempre, muçulmanos. Convinha, por isso, tirar isto a limpo, separar as águas. Até lá, como vamos distinguir um «muçulmano bom» de um «muçulmano mau»?
31 de dezembro de 2014
O TERRORISMO E A SONY. Confesso que a reacção da Sony Pictures ao ataque informático de que foi vítima, e às ameaças que sobre ela imediatamente penderam caso exibisse, no Natal, o filme The Interview (exibição que logo cancelou e depois retomou), me surpreenderam. A Sony podia, desde o início, ter optado pela fuga para a frente. Podia ter respondido à ameaça não só mantendo o inicialmente programado, mas «enuplicando» o número de salas onde exibir o filme — coisa, de resto, que de algum modo veio a suceder, graças a quem, não tencionando ver o filme, se predispôs a fazê-lo por uma questão de princípio. Ao contrário do que possa parecer, meter o rabo entre as pernas face a chantagens ou ameaças não evita sarilhos nem perdas financeiras: aumenta consideravelmente a possibilidade de eles sucederem. Embora tardiamente, a Sony acabou por perceber que assim é. Dir-me-ão que mais vale tarde do que nunca. O problema é que nada apagará o erro cometido, e a porta que abriu em vez de fechar.
23 de dezembro de 2014
COM ELE AO LEME, É SEMPRE A DESCER. O presidente do Sporting não perde uma oportunidade para disparar sobre tudo o que mexe, a propósito de tudo e de nada. Invariavelmente, depara-se com um problema: em vez de acertar onde pretende, acaba a dar tiros nos pés. Depois de acusar os jornais (um clássico), que não lhe darão a atenção que julga merecer, diz agora que vai pedir aos associados «um reforço de confiança». Presumo que os associados responderão, na assembleia-geral a convocar para o efeito, do modo que ele deseja, e até nem me surpreenderia que de lá saísse em ombros. É que eu já vi muito boa gente (sem ironia) afirmar que Bruno de Carvalho devolveu a dignidade à instituição, logo não espantaria. Como já perceberam, eu acho precisamente o contrário. Se a linguagem de carroceiro usada a toda a hora, e um patético pedido à UEFA que de antemão se sabia destinado ao fracasso (a repetição do jogo frente ao Schalke 04, em que o Sporting foi claramente prejudicado devido a erros de arbitragem) dignificam a instituição, eu vou ali e já venho. Não sou sportinguista, mas gostaria de ver o Sporting dirigido por quem, de facto, o dignifique, e de novo sem ironia. Como os variadíssimos exemplos o vêm demonstrando, Bruno de Carvalho não é homem para isso. Pelo contrário. Colocando-se frequentemente a ridículo, ridiculariza a instituição que dirige. A assembleia-geral que aí vem, de onde espera sair entronizado, poderá resolver — ou prolongar — o problema. Aos associados, e só aos associados, caberá decidir o que julgarem melhor. Mas não será preciso dizer que quanto pior decidirem, melhor será para os seus adversários.
19 de dezembro de 2014
MOMENTO VALTER HUGO MÃE. Como já perceberam, tenho um problema com Valter Hugo Mãe, que as más línguas (e algumas boas) garantem ser bom. Ora vejam só o primeiro parágrafo da última prosa no Público:
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
«Nas imagens de Paula Rego, nestes colectivos de gente estranha, há muitas vezes uma espécie de baile para começar ou já terminado. Chegamos àquelas histórias cedo demasiado e ou demasiado tarde. Vemos como a corte parece falhar, invariavelmente. A meninas noivas estão prontas para os rituais de dois. Elas encaram-nos como se postas numa montra oferecidas à nossa capacidade de amar. Elas são asperamente amorosas. Aguardam-nos sem prometer, apenas severamente atrapalhadas na educação para a sensualidade. As meninas da gravura parecem pedir-me que as tire daquele quarto estranho. Que as tome como quem sobe alguém para um muro. Estão afundadas na imagem e querem ascender ao assento do muro. Eu sou enorme diante delas. Prefiro quase explicar-lhes que devem esperar o tempo da infância. Mas como convencer da validade da infância uma criança velha? Uma criança que envelheceu impossivelmente, talvez já muito mais do que eu.»
Leiam, já agora, os dois primeiros parágrafos da crónica anterior, ainda no Público, para que não se pense que foi um momento de infelicidade, ocasional falta de inspiração, uma excepção:
«O Outono acontece a Genebra como uma excentricidade amorosa. A cidade ajardinada assiste ao nevoeiro do lago tingindo as árvores como se crianças ou os apaixonados decidissem o mundo.
As copas são garridas, coisas entusiasticamente pintadas a mexer com o céu. Novelos de lã verde, amarela, vermelha, há até uma árvore azulada, ou roxa de uma maneira intermédia, a fazer intensamente o ruído de uns pássaros que não consegui ver.»
Não será caso para alistar-me no ISIS ou aderir à Al-Qaeda, até porque sou incapaz de matar uma mosca — e para matar uma mosca seria preciso apanhá-la. Mas que me apetece dizer que a prosa de Mãe roça o analfabetismo, lá isso apetece. António Lobo Antunes disse uma vez que lhe apetecia começar logo a corrigir sempre que se deparava com uma prosa de Saramago. É um episódio que me vem à memória sempre que leio a prosa de Mãe, embora no caso de Mãe talvez não bastasse. Vendo bem, a prosa de Saramago ficaria aceitável com umas emendas. Já a de Mãe, não estou a ver como.
12 de dezembro de 2014
TAKE ANOTHER PLANE. Alguém que não seja funcionário da TAP percebe as razões que os levará a fazer a enésima greve? Eu quase apostaria que mesmo na TAP há quem não perceba. Com certeza que os seus trabalhadores têm o direito de fazer greve. O problema é que a greve, que devia ser uma espécie de bomba atómica, que se usa apenas em situações extremas, banalizou-se, e é sempre feita pelos mesmos — pelos que geralmente têm mais benefícios que o comum dos trabalhadores, pelos mais protegidos pelas leis do trabalho. Estão preocupados com a venda da companhia? A greve não impedirá que ela seja vendida. Pelo contrário. Reforçará os motivos de quem pretende fazê-lo. Depois, era só o que faltava que fossem os grevistas e respectivos sindicatos a decidir o futuro da TAP. Ao contrário do que por vezes parece, a companhia não é de quem nela trabalha. É dos portugueses, de todos os portugueses, competindo ao Governo geri-la. Governo, já agora, que os portugueses escolheram. Goste-se, ou não. Os trabalhadores e seus representantes limitam-se a defender os seus próprios interesses, e só os seus próprios interesses. Por mais legítimos que sejam, e francamente nem isso me parecem.
A CAMINHO DA IMPUNIDADE. Vi, parcialmente, a prestação de Ricardo Salgado na comissão parlamentar de inquérito ao caso BES/GES, e confirmou-se as previsões dos mais pessimistas: a culpa da hecatombe não foi dele, mas do Banco de Portugal, do Governo, do contabilista, do estado do tempo. Pior: embora tenha recusado o estatuto de vítima, assumiu-se claramente como tal. Talvez ainda pior: a avaliar pelos títulos da imprensa, sobretudo da imprensa online, Ricardo Salgado terá saído do parlamento com razões para sorrir. Mesmo que o primo Ricciardi tenha, de seguida, desdito quase tudo o que disse Salgado, e o empresário Queiroz Pereira tenha afirmado, entre outras pérolas, que Salgado «não lida maravilhosamente com a verdade», não é, seguramente, um bom sinal. Imagina-se que a justiça vai ter pela frente um osso duro de roer, e mesmo que faça um trabalho sem falhas, duvido que atinja Salgado onde realmente lhe dói. Volto, por isso, a repetir o que já aqui escrevi: como correm processos contra ele noutros países, é possível que nem tudo fique impune.
11 de dezembro de 2014
ARRUMAR O SÓTÃO. Como terão notado, coloquei aqui uma ligação para os textos que fui publicando na minha página pessoal entre Fevereiro de 2000 e Janeiro de 2011, que designei por Desabafos. São precisamente 268 textos, que agora, por me parecerem mais fáceis de ler, reuni num blogue especialmente criado para esse fim. Relidos alguns deles, foram várias as vezes em que não me revi nas ideias que então defendi, nalguns casos no estilo, demasiadas vezes nos dois. Como nunca alterei o que foi publicado, a não ser para corrigir uma gralha ou assim, o que foi dito, está dito. Com todas as virtudes e defeitos, foi assim
5 de dezembro de 2014
A BRIGADA DO TABACO. Faz hoje 13 anos, 7 meses e 18 dias que deixei de fumar. Sou, portanto, ex-fumador, geralmente os mais intolerantes contra o tabaco e seus consumidores. Não é — nunca foi — o meu caso. Mas continua a tirar-me do sério quem insiste em dizer que os fumadores não estão suficientemente informados acerca dos perigos que correm, e por isso publicam quilómetros de prosa para os salvar, mesmo os que não querem ser salvos. Concordo que se vergaste (passe a expressão) os fumadores quando estes põem em causa os direitos dos não-fumadores, quando os segundos são obrigados a partilhar os riscos dos primeiros. Mas jamais aceitarei o argumento de que os fumadores custam caro ao serviço nacional de saúde. Porque, a irmos por aí, ter-se-ia que incluir nos argumentos uma extensa lista de produtos e de práticas que fazem mal à saúde, e, por consequência, aos bolsos dos contribuintes. A começar pelos evangelistas do antitabagismo, que, bem vistas as coisas, são um perigo para a saúde, neste caso para a saúde mental. Digo bem: saúde mental, coisa de que nunca se fala quando se fala de saúde, e que hoje em dia se resume a não fumar, a não consumir determinadas gorduras, a não comer bacalhau e outros produtos com sal a mais, a percorrer dois ou três quilómetros diários em menos de não sei quanto tempo, e a dar determinado número de quecas de forma apropriada (estou a inventar, mas para lá iremos). Escusado será dizer que um mundo assim só interessa a estes fundamentalistas, a quem desejo, caso o alcancem, que vivam eternamente.
28 de novembro de 2014
JORNALISMO DE CACA. O aparato montado para a detenção foi, aparentemente, anormal, e o facto de alguns órgãos de comunicação social terem sido avisados para testemunharem o acto é inadmissível. Mas nada disto muda o essencial. E o essencial é que José Sócrates foi constituído arguido por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, e que o juiz Carlos Alexandre considerou arriscado deixá-lo à solta enquanto aguarda julgamento — decisão, suponho, que não se toma de ânimo leve, e sem indícios seguros. Dito isto, é lamentável o circo mediático montado por alguns media, por sinal os mesmos de sempre, e vergonhoso algum «jornalismo» que por aí se pratica. É normal escrever que fulano é suspeito de práticas gravíssimas sem citar uma única fonte? Pelos vistos, a «jornalista» Felícia Cabrita e seus editores acham que sim. Não pode revelar as fontes, que pediram para não serem identificadas? Nesse caso, faz parte das regras informar-nos desse facto. Não ignoro que as fontes ditas «anónimas» servem para tudo e o seu contrário. Servem, por exemplo, para os autores das peças atribuírem a terceiros informações que eles próprios forjaram, e para as fontes realmente anónimas, sabendo-se a salvo de eventual punição, revelarem não o que sabem mas o que lhes convém que se saiba. Claro que nem tudo o que reluz é ouro, que as fontes anónimas são, por vezes, cruciais para se chegar à verdade — embora hoje em dia as fontes anónimas, que só deveriam ser usadas em casos excepcionais, banalizaram-se, e quase se tornaram a regra. Mas o ponto é que nada, absolutamente nada, dispensa o jornalista de sinalizar as fontes. Anónimas ou identificadas, credíveis ou nem por isso.
COISAS QUE VOU LENDO (17). «Não sei se somos um país muito ou pouco corrupto, mas nos últimos tempos onde a Justiça tem mexido sai uma minhoca (...). Se calhar, a Justiça passou a escavar onde antes não escavava. Se calhar, temos mais minhocas. Se calhar, a crise secou a terra e obrigou as minhocas a exporem-se mais. Sucedem-se todos os dias casos de buscas, investigações, detenções, prisões e condenações de banqueiros, políticos, altos quadros do Estado, gente poderosa que não estávamos habituados a ver a braços com a Justiça.» Pedro Sousa Carvalho, Público de 28/11/2014
27 de novembro de 2014
JUSTIÇA E CALDOS DE GALINHA. Há demasiadas razões para desconfiar do funcionamento da justiça, tantas foram as falhas já demonstradas, tantas as vezes que se mostrou incapaz de fazer o que lhe compete. É triste dizê-lo, mas a justiça chegou a um ponto em que é culpada até prova em contrário, ao invés dos arguidos, que são — e bem — inocentes até prova em contrário. Será um exagero, porventura uma injustiça, mas parece-me ser esta a imagem que os cidadãos medianamente informados têm dela face aos desastres de que tem sido protagonista. Não digo que o caso José Sócrates seja mais um, mas o aparato mediático que rodeou a sua detenção (presenciada pelos media do costume), e as habituais fugas de informação (sobre as quais a Procuradoria-Geral da República anunciou um inquérito para apurar a origem e que vai dar em nada), não augura nada de bom. Por mim, confesso que não sei o que mais temer: se um ex-governante cometer os crimes de que a justiça suspeita, se uma justiça que me deixa permanentemente na dúvida.
COISAS QUE VOU LENDO (16). «[O poder judicial] Está ainda colado a metodologias tradicionais e arcaicas. Subestima o direito à informação da comunidade. Não sabe comunicar. Defende-se. Fecha-se. O segredo de justiça alomba com todas as responsabilidades de um secretismo incompatível com a sociedade de informação que é a nossa. A “Justiça” não é capaz de informar a sociedade. Supõe-se viver fora e acima dela. Nos astros. Nem está preparada para comunicar. Vive para dentro. Ignora como separar sigilo do que deve ser público. Receia a comunicação social. Só interage às ocultas. “Julgar em nome do povo” transmuda-se em fraseologia gratuita. Retórica.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 26/11/2014
21 de novembro de 2014
PODEMOS, MAS POUCO. Procurando informar-me de que fenómeno se trata, li, com toda a atenção, a entrevista que o «número dois» do Podemos concedeu ao Jornal de Notícias. Fiquei a saber, essencialmente, duas coisas de quem se propõe lutar contra os chamados «partidos do sistema»: que Juan Carlos Monedero tem por mestre o «nosso» Boaventura de Sousa Santos, e que o partido espanhol (não sei se já está formalizado como tal) se inspira nalgumas experiências da América Latina. Dito isto, considero-me esclarecido no que me parece essencial. Esclarecimento que me levaria a votar, caso fosse espanhol, nos «partidos do sistema», e sem a mais leve hesitação. Contrariamente ao que promete o poeta Alegre, não acredito em amanhãs que cantam. Bem pelo contrário. Os amanhãs que cantam terminaram, no passado, quase sempre em tragédias, e como diz a chula de não sei onde, para pior já basta assim.
20 de novembro de 2014
A PRIMA DA OBRA. A famosíssima peça intitulada 4'33", de John Cage, em que durante quatro minutos e trinta e três segundos não acontece rigorosamente nada, e que alguns consideram uma obra-prima, está a servir de pretexto para nova obra-prima, segundo o director de uma galeria londrina. Isto porque um artista português, João Onofre, deitou fogo a um piano na capital britânica, enquanto outro português, o pianista João Aboim, fez que tocou mas não tocou. A notícia desta performance, que o galerista considerou uma interpretação esteticamente «impressionante», é, toda ela, hilariante, com a particularidade de o humor ser involuntário. Desconheço, à hora que escrevo, o resultado da coisa, cuja estreia terá decorrido há dois dias, e quantos pianos arderam desde então. Como não vi mais notícias sobre o caso, presumo que ninguém se magoou.
BOA PERGUNTA. «(...) se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?» (Pacheco Pereira, Público de 15/11/2014)
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