7 de outubro de 2015
2 de outubro de 2015
A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.
30 de setembro de 2015
FONTES E SUGADOUROS. Tudo o que nos órgãos de comunicação social é notícia com base em fontes anónimas (ou não identificadas, se preferirem) é, para mim, pouco fiável. Sabendo-se a salvo de qualquer punição (que o anonimato garante), as fontes anónimas podem dizer tudo o que lhes apetecer (verdades, meias-verdades, puras mentiras), e os jornalistas sem escrúpulos podem inventar os «factos» que muito bem lhes convier e atribuí-los a fontes anónimas. A lei de imprensa prevê, e bem, que os jornalistas possam recorrer a fontes anónimas em casos excepcionais. O problema é que os casos excepcionais se tornaram regra, e a fiabilidade da informação daí resultante nunca é escrutinada.
29 de setembro de 2015
SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO. Um juiz, personagem de Belos Cavalos (Teorema, tradução de Graça Margarido), cujo nome nunca é referido, comenta após escutar o depoimento de John Grady, figura central do livro de Cormac McCarthy: «O problema para um mentiroso é que não consegue lembrar-se do que disse.» Quem já não foi confrontado com um caso destes que ponha o dedo no ar.
11 de setembro de 2015
DESLUMBRAMENTOS DE ESTIMAÇÃO. Costumo dizer que houve três escritores fundamentais na minha vida: primeiro, Fernando Pessoa (de que li toda a poesia então publicada e talvez a maior parte da prosa); depois, Eça de Queirós (de que li praticamente tudo); a seguir, Cardoso Pires (só não li alguns textos dispersos por várias publicações que nunca foram publicados em livro, e A Cartilha do Marialva). Isto a propósito de duas boas notícias: a reedição da obra de Cardoso Pires, agora pela Relógio D’Água, e de uma editora (E-Primatur) que promete editar grandes livros, que por uma razão ou outra nunca foram editados em português. Apesar do lixo que por aí se vai publicando, cada vez mais numeroso, é gratificante saber que ainda há quem edite «por amor à camisola», quem aposte em livros e autores que não são, em princípio, um bom negócio.
10 de setembro de 2015
ISABEL DOS SANTOS. Qualquer jornalista que hoje se atreva a dizer mal de Isabel dos Santos arrisca-se a ser despedido. Porque Isabel dos Santos é proprietária do jornal onde o jornalista trabalha. Porque pode vir a sê-lo. Porque os investimentos de Isabel dos Santos onde o jornalista trabalha são de tal modo importantes que não resta aos proprietários outra saída que não seja meter a ética no bolso e o jornalista na rua. Daí que sejam cada vez menos os jornalistas que se atrevem a dar uma simples notícia onde Isabel dos Santos não sai com a imagem que certamente gostaria. Veja-se a mais recente. O Estado angolano, por acaso presidido pelo pai Eduardo dos Santos, comprou 40% de uma sociedade liderada por Isabel dos Santos. Em nome da «necessidade da realização de investimentos estratégicos», justificou. Ora, não duvidando da legalidade da transacção, esta operação merecia, no mínimo, ser conhecida com alguma profundidade. Com excepção do Observador e do Diário Económico, que se limitaram a transcrever uma notícia da Lusa, ninguém falou do assunto. É um silêncio eloquente.
PRESO POR TER CÃO, PRESO POR NÃO TER. Só Passos Coelho saberá se está a usar a doença da esposa para fins eleitorais. Como o caso pode ser visto de duas maneiras, na dúvida não o acuso. Mas se não for assim, se estiver a usar a doença da esposa para fins eleitorais, não é seguro que ganhe algo com isso. Se é provável que o gesto lhe renda dividendos por parte de quem vê a atitude como genuína, é igualmente provável que perca os de quem não vê assim. Somados os ganhos e subtraidas as perdas (na prática impossíveis de contabilizar), não é seguro, como meio mundo garante, que ganhe alguma coisa com isso.
9 de setembro de 2015
AFINAL, ANGELA MERKEL É PIOR DO QUE SE PINTA. Numa primeira fase, Angela Merkel foi aplaudida pela generalidade da esquerda, até pela mais radical. Agora, parece que Angela Merkel resolveu abrir as portas da Alemanha a 800 mil refugiados porque vê neles mão-de-obra barata — que ela, Alemanha, precisa. E que fizeram os restantes países da União Europeia? Empurrados pelo exemplo alemão, começaram por fazer vagas promessas, depois avançaram para um número ridículo de refugiados que estariam dispostos a receber — que um dia depois triplicaram e no dia seguinte «enuplicaram», e que após uma curta estadia nos seus territórios seguirão, maioritariamente, em direcção à Alemanha. Os países europeus estão a perder população? Há muito que isto é sabido, há muito que nada se move. Detesto a palavra, que hoje em dia parece remédio para toda a espécie de calamidades, mas a Europa podia, se estivesse preparada, transformar a tragédia dos refugiados em oportunidade — como, aliás, pretende fazer a Alemanha. Seria bom para a Europa, seria bom para os refugiados.
O NÚ «PERFOMÁTICO» DE JOANA AMARAL DIAS. Estava a gente posta em sossego a contemplar a bela capa da Cristina, eis que se anuncia a libertação de José Sócrates (passou de prisão efectiva para prisão domiciliária). Só podem ser manobras de diversão para nos distrair do que realmente importa — a ex-deputada Ana Amaral Dias em pelota na capa da Cristina. Um «momento perfomático único», como escreveu João Urbano no Facebook. Somos, definitivamente, um país moderno. Mais por fora que por dentro, mas isso é outra conversa.
3 de setembro de 2015
AFINAL, ANGELA MERKEL NÃO É TÃO MÁ COMO SE PINTA. Quem diria que a sra. Merkel, ainda há um mês execrada pelo mundo em geral e pelas esquerdas em particular, seria elogiada pelo Bloco de Esquerda? Ainda por cima por causa de um tema tão «querido» às esquerdas, sobretudo às mais radicais, que se reclamam os guardiões da Humanidade?
1 de setembro de 2015
26 de agosto de 2015
A DECADÊNCIA ANUNCIADA DAS LIVRARIAS. Três livrarias que são, para mim, de referência, onde dantes uma visita resultaria em meia dúzia de títulos comprados, tornaram-se, agora, lugares onde me limito a descobrir títulos que depois compro online (sempre que são mais baratos) ou em e-book (por serem mais baratos, e porque me escasseia o espaço onde os colocar). Imagino as consequências que a generalização desta prática terá, a prazo, para as livrarias, digamos, tradicionais, e pelo que vou observando é uma prática que vai crescendo de dia para dia. Mas como não tenho vocação — nem fundos — para me tornar um benemérito, não posso ignorar o factor custo/benefício. Infelizmente para elas (e a prazo talvez para todos), as livrarias são, cada vez mais, lugares onde se expõem livros que depois se compram noutro lado. Serão as dores do progresso.
21 de agosto de 2015
COISAS QUE VOU LENDO (31). «Muitas vezes digo que, em breve, estar fora das redes sociais depois dos 40 anos será índice seguro de elegância e sucesso profissional e afetivo (claro que esse “sucesso” é relativo; a qualquer hora, o infeliz em potencial que somos todos nós poderá recair no vício de mendigar atenção pelas redes).
Mas entre os vícios que compõem essa masmorra que são as redes sociais, um dos mais risíveis é o de ter “causas do face”. Essas causas variam desde defender o modo indígena de viver (neolítico) a partir de seu Mac, combinar passeios de bike pela zona oeste da cidade para salvar o planeta, curar o mundo do mal comendo comida vegetariana ou declarar guerra à morte de crianças na África a partir de seu Android (se tiver mais grana, do seu iPhone).
Esses pequenos fragmentos da bondade contemporânea são normalmente acompanhados da crença light de que amar todo mundo é possível, mesmo que você fracasse continuamente em amar sua irmã insuportável. A capacidade para autoindulgência se tornou uma praga entre os adultos infantilizados. Se Nietzsche vivesse hoje, teria saudades do ressentimento que se revelava pueril no modo de crer num carpinteiro frágil e fracassado. Hoje, o ressentimento se sofisticou, a ponto de assumir ares da crença no próprio ego.»
Causas do Face, in A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo, de Luiz Felipe Pondé
Mas entre os vícios que compõem essa masmorra que são as redes sociais, um dos mais risíveis é o de ter “causas do face”. Essas causas variam desde defender o modo indígena de viver (neolítico) a partir de seu Mac, combinar passeios de bike pela zona oeste da cidade para salvar o planeta, curar o mundo do mal comendo comida vegetariana ou declarar guerra à morte de crianças na África a partir de seu Android (se tiver mais grana, do seu iPhone).
Esses pequenos fragmentos da bondade contemporânea são normalmente acompanhados da crença light de que amar todo mundo é possível, mesmo que você fracasse continuamente em amar sua irmã insuportável. A capacidade para autoindulgência se tornou uma praga entre os adultos infantilizados. Se Nietzsche vivesse hoje, teria saudades do ressentimento que se revelava pueril no modo de crer num carpinteiro frágil e fracassado. Hoje, o ressentimento se sofisticou, a ponto de assumir ares da crença no próprio ego.»
Causas do Face, in A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo, de Luiz Felipe Pondé
17 de agosto de 2015
VARGAS LLOSA SOBRE DONALD TRUMP.
Artigo originalmente publicado no El País e em Portugal reproduzido pelo Expresso.
14 de agosto de 2015
ANA DE AMSTERDAM. Não li o livro, mas li grande parte (senão a maioria) dos textos lá publicados. Pedro Mexia, um dos nossos melhores prosadores (parece que também dos nossos melhores poetas, mas essa faceta conheço mal), deu-lhe cinco estrelas no Expresso. Considerando a quantidade de estrelas que no Expresso (e restante imprensa dita de referência) se dão a qualquer mediocridade, acrescentaria mais uma.
13 de agosto de 2015
PRESIDENCIAIS AMERICANAS (3). Tal como em 2008, quando disputou com Obama a nomeação do Partido Democrático, Hillary Clinton volta a explorar a sua condição de mulher. Desta vez porque o candidato Donald Trump cuspiu umas baboseiras sobre as mulheres, que dizem mais dele que das mulheres. Há uma guerra do Partido Republicano contra as mulheres? Hillary diz que há. E quem acredita? Como é óbvio, nem ela. Mas crê que isso lhe dará votos, nomeadamente do eleitorado feminino, na minha opinião um erro. Seguramente que haverá quem vote nela por ser mulher. Mas não duvido que haverá quem não vote pela mesmíssima razão. Assim sendo, quem pesa mais? Que eu saiba, não há estudos que indiquem esta ou aquela tendência. Que os machos tendem a votar nos machos, e que as fêmeas tendem a votar nas fêmeas. Parece-me, por isso, pouco sério o argumento da guerra contra as mulheres, e de duvidosa eficácia. Como alguém que pensa pela sua própria cabeça (gabo-me de pertencer ao clube, para o bem, e para o mal), quando chegar a hora votarei, como sempre, no candidato que me parecer melhor — ou no que me parecer menos mau, no caso de nenhum deles me entusiasmar. Sempre foi assim, sempre assim será.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS (2). Disse em privado que gostaria de ver Donald Trump disputar a nomeação pelo Partido Republicano às Presidenciais Americanas de 2016. Porque assim iria debater com os restantes candidatos, e porque aí ficaria a nu a nulidade do sujeito. Assim sucedeu no debate da semana passada. Mas, surpreendentemente, nada mudou. O sujeito continua a liderar as sondagens no campo republicano, apesar das diatribes praticamente diárias. Se é um facto que a procissão ainda vai no adro, não deixa de ser preocupante.
7 de agosto de 2015
PRESIDENCIAIS AMERICANAS (1). Algumas notas sobre o debate de ontem entre os candidatos que as sondagens dizem melhor posicionados para disputar as presidenciais americanas de 2016 pelo Partido Republicano. Estiveram bem Ben Carson (uma agradável surpresa) e Mark Rubio, exactamente por esta ordem. Na parte má, Donald Trump mostrou, sem surpresa, toda a vacuidade que lhe vai na cabeça. E a política externa resumiu-se praticamente ao Irão, quando seria de esperar que a questão cubana também fosse abordada (provavelmente os jornalistas da Fox entenderam não abordar o assunto porque Obama sairia a ganhar). Por último, o formato do debate (30 segundos para responder a cada uma das perguntas e mais uns quantos para rebater eventuais acusações) só deu para sound bites, que os candidatos traziam muito bem ensaiados. Terá sido um sucesso como espectáculo de televisão, mas em termos de substância foi de uma superficialidade confrangedora.
4 de agosto de 2015
REFERENDAR O ACORDO? Sou, desde sempre, por razões que me fartei de explicar, contra o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, daqui em diante apenas Acordo. Qualquer iniciativa para o travar será, em princípio, bem-vinda. Mas daí até reclamar-se um referendo sobre o Acordo, tenho dúvidas. Estarão os portugueses interessados em tão abstrusa matéria? Que importância darão ao assunto a ponto de irem às urnas dizer «sim» ou «não»? Palpita-me que os adversários do Acordo suspeitam que, diante um referendo, os portugueses tenderão a dizer «não» — logo defendem um referendo. Se for o caso, devo dizer que o expediente não me alegra. Porque isso será, no mínimo, pouco sério, e para falta de seriedade já me bastam os que defendem o Acordo sem um argumento digno desse nome. Há argumentos fortíssimos contra o Acordo, e nenhum (repito: nenhum) a favor. Promovam-se debates a sério ao mais alto nível, e deixem que as evidências — ou falta delas — se imponham por si.
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