23 de outubro de 2015

AS RAZÕES DE CAVACO. Por razões que já disse, o Presidente Cavaco tomou a decisão acertada. Mas suspeito que, dizendo o que disse da coligação que por aí se vai cozinhando, afirmando que não tem consistência e apontando-lhe outros defeitos irremediáveis (uma evidência que qualquer mortal constata mas que o Presidente devia guardar para si), Cavaco vai ter que engolir o que disse. A não ser que o Governo liderado por Passos Coelho consiga «passar» no parlamento, que a coligação das esquerdas ainda não está consolidada — embora o «toque a reunir» que o discurso de Cavaco causou possa dar um empurrão decisivo. Dez dias para apresentar um governo e mais uns quantos para o levar a votos é muito tempo. Muita água passará, até lá, debaixo das pontes. Prognósticos, portanto, só no final do jogo.
CARLOS ALEXANDRE E O PODER. Por razões que me parecem óbvias, é pouco saudável que em Portugal (ou em qualquer outro país) todos os grandes processos estejam, há anos, nas mãos de um só juiz. Não tenho como aferir a competência (e imparcialidade) do juiz Carlos Alexandre. Mas não é normal (nem saudável) que todos os grandes casos passem, em Portugal, pelas mãos de um só juiz, no caso Carlos Alexandre. Tanto poder nas mãos de um só homem, não só é assustador como legitima até as mais descabeladas suspeitas.

16 de outubro de 2015

GOLPES E CONTRA-GOLPES. Defendi ontem que o Presidente da República deve chamar a governar a coligação vencedora das eleições de 4 de Novembro (PSD-CDS/PP). E que, uma vez empossada como governo, deve negociar caso a caso com a oposição o que houver a negociar. Embora os resultados eleitorais permitam outras soluções, igualmente constitucionais, esta será, como também disse, a solução natural. Mas se este cenártio não me oferece grandes dúvidas, discordo totalmente da tese de que o governo deve manter-se em gestão até novas eleições (parece que não antes de Maio do próximo ano) caso seja chumbado no parlamento. Se não me repugna que se chame golpada a uma coligação de esquerda como primeira opção de governo, um governo de gestão seria outra golpada.

15 de outubro de 2015

ASSIS E O SENSO COMUM. Desculpem a presunção, mas defendi, em privado, a solução que Francisco Assis agora defendeu em entrevista à RTP. Que, face aos resultados de 4 de Novembro, a coligação vencedora deve ser chamada a governar, e que o PS deve assumir-se como oposição. As negociações com a coligação vencedora, necessárias no actual quadro parlamentar, deverão ser feitas caso a caso, à medida das necessidades. Isto seria, para mim, a solução natural, a que melhor traduz o que ficou expresso nas urnas. Como Assis demonstrou com vários exemplos, uma coligação do PS com o Bloco e o PC (ou um governo PS com o apoio das duas forças políticas à sua esquerda) seria contranatura, previsivelmente destinada ao fracasso — e a curtíssimo prazo desastrosa para o país e para o PS. Não será só Assis, no PS, a pensar desse modo. Mas a partir do momento em que Assis deu a cara por outra solução que não a preconizada pelo chefe (e expressão ao que muitos pensarão mas não se atrevem a dizer), espera-se que mais vozes constatem o óbvio.

9 de outubro de 2015

DOS SANTOS E PECADORES. Devo dizer que não aprecio José Rodrigues dos Santos como jornalista, e como romancista ainda me haviam de pagar para o ler. Mas não contem comigo para o apedrejar no «caso» Quintanilha. Li várias notícias sobre o incidente, e não entendi bem o que se passou (pareceu-me que não passou de um mal-entendido, mas não tenho a certeza). Mas constatei que o jornalista assumiu logo o erro, e logo pediu desculpa por ele. Assim sendo, o assunto morreu ali. Estranha-se, por isso, tamanho alarido e a indignação que causou. Mais postiça que real, mas isso são outras contas.

7 de outubro de 2015

OPINAR SOBRE O QUE NÃO SE CONHECE. Numa coisa tem Ana Gomes razão: houve, na campanha eleitoral para as legislativas, mais opinião que informação. Quanto vale o PSD na coligação vencedora? E o CDS/PP? Quantos deputados elegeram cada um? Vão formar um só grupo parlamentar? Já disse que prestei escassa atenção às eleições, mas isto devia encontrar-se facilmente em qualquer lado. Como não encontrei em lado nenhum, deduzo que não está em lado nenhum. Já a opinião, mal um político deu um pu, cinco segundos depois já os jornalistas perguntavam a alguém (comentadores, politólogos, políticos em pousio e vários eteceteras) o que pensava. Não foram poucas as vezes que os desgraçados dos «pensadores de serviço» foram obrigados a botar opinião antes mesmo de lhe avaliar o cheiro.
UM BOM TÍTULO. Joana Amaral Dias teve menos votos do que leitores da “Cristina”

2 de outubro de 2015

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.

30 de setembro de 2015

FONTES E SUGADOUROS. Tudo o que nos órgãos de comunicação social é notícia com base em fontes anónimas (ou não identificadas, se preferirem) é, para mim, pouco fiável. Sabendo-se a salvo de qualquer punição (que o anonimato garante), as fontes anónimas podem dizer tudo o que lhes apetecer (verdades, meias-verdades, puras mentiras), e os jornalistas sem escrúpulos podem inventar os «factos» que muito bem lhes convier e atribuí-los a fontes anónimas. A lei de imprensa prevê, e bem, que os jornalistas possam recorrer a fontes anónimas em casos excepcionais. O problema é que os casos excepcionais se tornaram regra, e a fiabilidade da informação daí resultante nunca é escrutinada.

29 de setembro de 2015

SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO. Um juiz, personagem de Belos Cavalos (Teorema, tradução de Graça Margarido), cujo nome nunca é referido, comenta após escutar o depoimento de John Grady, figura central do livro de Cormac McCarthy: «O problema para um mentiroso é que não consegue lembrar-se do que disse.» Quem já não foi confrontado com um caso destes que ponha o dedo no ar.

11 de setembro de 2015

DESLUMBRAMENTOS DE ESTIMAÇÃO. Costumo dizer que houve três escritores fundamentais na minha vida: primeiro, Fernando Pessoa (de que li toda a poesia então publicada e talvez a maior parte da prosa); depois, Eça de Queirós (de que li praticamente tudo); a seguir, Cardoso Pires (só não li alguns textos dispersos por várias publicações que nunca foram publicados em livro, e A Cartilha do Marialva). Isto a propósito de duas boas notícias: a reedição da obra de Cardoso Pires, agora pela Relógio D’Água, e de uma editora (E-Primatur) que promete editar grandes livros, que por uma razão ou outra nunca foram editados em português. Apesar do lixo que por aí se vai publicando, cada vez mais numeroso, é gratificante saber que ainda há quem edite «por amor à camisola», quem aposte em livros e autores que não são, em princípio, um bom negócio.

10 de setembro de 2015

ISABEL DOS SANTOS. Qualquer jornalista que hoje se atreva a dizer mal de Isabel dos Santos arrisca-se a ser despedido. Porque Isabel dos Santos é proprietária do jornal onde o jornalista trabalha. Porque pode vir a sê-lo. Porque os investimentos de Isabel dos Santos onde o jornalista trabalha são de tal modo importantes que não resta aos proprietários outra saída que não seja meter a ética no bolso e o jornalista na rua. Daí que sejam cada vez menos os jornalistas que se atrevem a dar uma simples notícia onde Isabel dos Santos não sai com a imagem que certamente gostaria. Veja-se a mais recente. O Estado angolano, por acaso presidido pelo pai Eduardo dos Santos, comprou 40% de uma sociedade liderada por Isabel dos Santos. Em nome da «necessidade da realização de investimentos estratégicos», justificou. Ora, não duvidando da legalidade da transacção, esta operação merecia, no mínimo, ser conhecida com alguma profundidade. Com excepção do Observador e do Diário Económico, que se limitaram a transcrever uma notícia da Lusa, ninguém falou do assunto. É um silêncio eloquente.
PRESO POR TER CÃO, PRESO POR NÃO TER. Só Passos Coelho saberá se está a usar a doença da esposa para fins eleitorais. Como o caso pode ser visto de duas maneiras, na dúvida não o acuso. Mas se não for assim, se estiver a usar a doença da esposa para fins eleitorais, não é seguro que ganhe algo com isso. Se é provável que o gesto lhe renda dividendos por parte de quem vê a atitude como genuína, é igualmente provável que perca os de quem não vê assim. Somados os ganhos e subtraidas as perdas (na prática impossíveis de contabilizar), não é seguro, como meio mundo garante, que ganhe alguma coisa com isso.

9 de setembro de 2015

AFINAL, ANGELA MERKEL É PIOR DO QUE SE PINTA. Numa primeira fase, Angela Merkel foi aplaudida pela generalidade da esquerda, até pela mais radical. Agora, parece que Angela Merkel resolveu abrir as portas da Alemanha a 800 mil refugiados porque vê neles mão-de-obra barata — que ela, Alemanha, precisa. E que fizeram os restantes países da União Europeia? Empurrados pelo exemplo alemão, começaram por fazer vagas promessas, depois avançaram para um número ridículo de refugiados que estariam dispostos a receber — que um dia depois triplicaram e no dia seguinte «enuplicaram», e que após uma curta estadia nos seus territórios seguirão, maioritariamente, em direcção à Alemanha. Os países europeus estão a perder população? Há muito que isto é sabido, há muito que nada se move. Detesto a palavra, que hoje em dia parece remédio para toda a espécie de calamidades, mas a Europa podia, se estivesse preparada, transformar a tragédia dos refugiados em oportunidade — como, aliás, pretende fazer a Alemanha. Seria bom para a Europa, seria bom para os refugiados.
O NÚ «PERFOMÁTICO» DE JOANA AMARAL DIAS. Estava a gente posta em sossego a contemplar a bela capa da Cristina, eis que se anuncia a libertação de José Sócrates (passou de prisão efectiva para prisão domiciliária). Só podem ser manobras de diversão para nos distrair do que realmente importa — a ex-deputada Ana Amaral Dias em pelota na capa da Cristina. Um «momento perfomático único», como escreveu João Urbano no Facebook. Somos, definitivamente, um país moderno. Mais por fora que por dentro, mas isso é outra conversa.

3 de setembro de 2015

AFINAL, ANGELA MERKEL NÃO É TÃO MÁ COMO SE PINTA. Quem diria que a sra. Merkel, ainda há um mês execrada pelo mundo em geral e pelas esquerdas em particular, seria elogiada pelo Bloco de Esquerda? Ainda por cima por causa de um tema tão «querido» às esquerdas, sobretudo às mais radicais, que se reclamam os guardiões da Humanidade?

26 de agosto de 2015

A DECADÊNCIA ANUNCIADA DAS LIVRARIAS. Três livrarias que são, para mim, de referência, onde dantes uma visita resultaria em meia dúzia de títulos comprados, tornaram-se, agora, lugares onde me limito a descobrir títulos que depois compro online (sempre que são mais baratos) ou em e-book (por serem mais baratos, e porque me escasseia o espaço onde os colocar). Imagino as consequências que a generalização desta prática terá, a prazo, para as livrarias, digamos, tradicionais, e pelo que vou observando é uma prática que vai crescendo de dia para dia. Mas como não tenho vocação — nem fundos — para me tornar um benemérito, não posso ignorar o factor custo/benefício. Infelizmente para elas (e a prazo talvez para todos), as livrarias são, cada vez mais, lugares onde se expõem livros que depois se compram noutro lado. Serão as dores do progresso.