20 de novembro de 2015
PÉROLAS A PORCOS. Li, há uns anos, uma biografia de Modigliani (Modigliani: A Life, de Jeffrey Meyers), e fiquei a saber que o pintor italiano viveu com grandes dificuldades, morreu doente e na miséria. Choca, por isso, saber que acaba de ser vendida, por uma quantia obscena (158,3 milhões de euros), uma das suas obras (Nu Deitado). Não que me escandalize o valor da obra, até porque a pintura é uma coisa única, irrepetível. Mas é irónico ver obras de quem passou toda a espécie de dificuldades, que muitas vezes usou para pagar a renda de casa e ir às meninas, serem disputadas pelos senhores do dinheiro, que as vêem apenas como valiosos «activos». Morreria de susto o pintor caso voltasse do sítio onde está. Mas suspeito que não sem antes rir a bom rir com a parolice de alguns media norte-americanos (CBS, CNBC, Bloomberg TV e The Financial Times), que ilustraram a notícia do Nu com a reprodução censurada. Se ele se tivesse lembrado disso enquanto por cá andava, talvez não tivesse morrido na miséria.
JORNALISMO DE FACÇÃO. Instalou-se a ideia segundo a qual não há — nem pode haver — jornalismo objectivo, factual, isento. De facto, lendo com atenção o que por aí se diz e publica, nota-se bastante. Voluntariamente ou não, os jornalistas não se inibem de deixar transparecer o que lhes vai na alma, quando se esperaria que se limitassem a dar-nos o máximo de informação com o máximo de rigor e isenção possíveis. Tirando um caso ou outro, não vejo quem se rale com isto. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social não terá aqui uma palavra a dizer?
16 de novembro de 2015
O PODER E O POVO. Como disse Henry Kissinger, o poder é o maior dos afrodisíacos. Deve ser por isso que nos últimos dias assistimos, em Portugal, a manobras desesperadas dos vários quadrantes políticos. Uns desesperam para tomar o poder, outros desesperam para o manter. Se no final as coisas correrem mal, como alguns vaticinam e muitos desejam, os fornicados seremos nós. (O título deste post foi roubado a Vasco Pulido Valente, que tem um livro com esse nome.)
10 de novembro de 2015
É A DEMOCRACIA, ESTÚPIDO. Também eu desconfio de um Governo PS com o apoio parlamentar do PC e do Bloco, por tudo o que foi dito e não vou repetir. Desconfio que vai ser mau para o país, mau para o PS, e que António Costa vai ficar à mercê dos humores do PC e do Bloco. Talvez pior: o PS arrisca-se a ficar irreconhecível, talvez em cacos, e o resultado de uma eventual desintegração não se adivinha famoso. Mas daí até dizer-se que vem aí o fim do mundo, vai um abismo. Bloco e PC não podem ser automaticamente excluídos de uma solução de Governo, a pretexto de que têm divergências de fundo com o PS e com o próprio sistema político — como o Presidente da República, em mais um lamentável discurso, defendeu, ameaçando excluí-los de uma solução governativa. Ambos têm deputados eleitos, que uma vez somados aos deputados do partido que se propõe governar constituem uma maioria parlamentar capaz de viabilizar um Governo. Queiramos, ou não. Gostemos, ou não. Como disse um ilustre político, é a democracia. E eu sou, antes de tudo, um feroz defensor da democracia. Diria mais: prefiro os defeitos da democracia às virtudes de todos os outros sistemas que se conhecem.
2 de novembro de 2015
CUIDADO COM ELE. Calvão da Silva, novíssimo ministro da Administração Interna, o tal que atestou a idoneidade do então banqueiro Ricardo Salgado perante o Banco de Portugal quando o ex-dono-disto-tudo se «esqueceu» de declarar ao fisco 14 milhões de euros recebidos do construtor José Guilherme sabe-se lá por que bons ofícios prestados invocando o nobre «espírito de entreajuda e solidariedade», foi a Albufeira inteirar-se da calamidade causada pelo mau tempo, e de caminho dar uma lição de moral aos desgraçados que sofreram elevados prejuízos e aparentemente não têm quem lhes valha. Segundo ele, para os lesados que não têm seguro a calamidade de ontem «é uma lição de vida», pois devem aprender «que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro». Ter «um pequeno pé-de-meia, em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro», disse o ministro, que teceu ainda umas considerações
piedosas sobre a vítima mortal que a tempestade causou, que diz ter-se entregado «a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado». Claro que, se tudo correr conforme o previsto, o cavalheiro passará à história daqui a uma semana, quando o Governo for pró maneta. Mas, pelo sim, pelo não, seria bom recomendar-lhe prudência e recato. É que pode haver mais calamidades daqui até lá, e ele é bem capaz de fazer mais asneiras.
30 de outubro de 2015
QUEM COPIOU POR QUEM? Li com atenção a peça que Kathleen Gomes escreveu, no Público, sobre o juiz que no Brasil dirige a investigação ao maior escândalo de corrupção da história do país, que já está a chamuscar a actual presidente. A dado passo, lê-se o seguinte: «Uma [das estratégias da investigação] é a fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo – reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo as figuras investigadas de travar o trabalho judicial.» Ora, isto é normal? É legal que num estado democrático a justiça promova julgamentos mediáticos? E, já agora, foi a justiça brasileira que copiou o modelo português seguido pela investigação do caso Sócrates (mas não só), ou o contrário? Não, não defendo Sócrates de coisa nenhuma. Defendo, sim, que este método, largamente praticado em Portugal, é inadmissível. Seja para o que for e para quem for.
PAZ À SUA ALMA. Se nada mudou na liturgia católica, um funeral costuma ser precedido de missa — a chamada missa de corpo presente. Foi isto que hoje me ocorreu durante a tomada de posse do novo Governo, cujo funeral segue dentro de momentos (10/11 dias, ao que parece). Ou, então, uma pantomina, com os pantomineiros a fazer de conta que era o que não era. Considerei acertada a decisão do Presidente da República de dar posse a um Governo de Passos Coelho. Mas, olhando para o que hoje nos foi dado ver, é difícil ver aquilo doutra maneira. Até o Presidente da República se comportou como num mortório. Contido e sereno, Cavaco deu mostras de já ter digerido meio elefante sem problemas de maior. Resta-lhe digerir o outro meio.
23 de outubro de 2015
AS RAZÕES DE CAVACO. Por razões que já disse, o Presidente Cavaco tomou a decisão acertada. Mas suspeito que, dizendo o que disse da coligação que por aí se vai cozinhando, afirmando que não tem consistência e apontando-lhe outros defeitos irremediáveis (uma evidência que qualquer mortal constata mas que o Presidente devia guardar para si), Cavaco vai ter que engolir o que disse. A não ser que o Governo liderado por Passos Coelho consiga «passar» no parlamento, que a coligação das esquerdas ainda não está consolidada — embora o «toque a reunir» que o discurso de Cavaco causou possa dar um empurrão decisivo. Dez dias para apresentar um governo e mais uns quantos para o levar a votos é muito tempo. Muita água passará, até lá, debaixo das pontes. Prognósticos, portanto, só no final do jogo.
CARLOS ALEXANDRE E O PODER. Por razões que me parecem óbvias, é pouco saudável que em Portugal (ou em qualquer outro país) todos os grandes processos estejam, há anos, nas mãos de um só juiz. Não tenho como aferir a competência (e imparcialidade) do juiz Carlos Alexandre. Mas não é normal (nem saudável) que todos os grandes casos passem, em Portugal, pelas mãos de um só juiz, no caso Carlos Alexandre. Tanto poder nas mãos de um só homem, não só é assustador como legitima até as mais descabeladas suspeitas.
16 de outubro de 2015
GOLPES E CONTRA-GOLPES. Defendi ontem que o Presidente da República deve chamar a governar a coligação vencedora das eleições de 4 de Novembro (PSD-CDS/PP). E que, uma vez empossada como governo, deve negociar caso a caso com a oposição o que houver a negociar. Embora os resultados eleitorais permitam outras soluções, igualmente constitucionais, esta será, como também disse, a solução natural. Mas se este cenártio não me oferece grandes dúvidas, discordo totalmente da tese de que o governo deve manter-se em gestão até novas eleições (parece que não antes de Maio do próximo ano) caso seja chumbado no parlamento. Se não me repugna que se chame golpada a uma coligação de esquerda como primeira opção de governo, um governo de gestão seria outra golpada.
15 de outubro de 2015
ASSIS E O SENSO COMUM. Desculpem a presunção, mas defendi, em privado, a solução que Francisco Assis agora defendeu em entrevista à RTP. Que, face aos resultados de 4 de Novembro, a coligação vencedora deve ser chamada a governar, e que o PS deve assumir-se como oposição. As negociações com a coligação vencedora, necessárias no actual quadro parlamentar, deverão ser feitas caso a caso, à medida das necessidades. Isto seria, para mim, a solução natural, a que melhor traduz o que ficou expresso nas urnas. Como Assis demonstrou com vários exemplos, uma coligação do PS com o Bloco e o PC (ou um governo PS com o apoio das duas forças políticas à sua esquerda) seria contranatura, previsivelmente destinada ao fracasso — e a curtíssimo prazo desastrosa para o país e para o PS. Não será só Assis, no PS, a pensar desse modo. Mas a partir do momento em que Assis deu a cara por outra solução que não a preconizada pelo chefe (e expressão ao que muitos pensarão mas não se atrevem a dizer), espera-se que mais vozes constatem o óbvio.
14 de outubro de 2015
9 de outubro de 2015
DOS SANTOS E PECADORES. Devo dizer que não aprecio José Rodrigues dos Santos como jornalista, e como romancista ainda me haviam de pagar para o ler. Mas não contem comigo para o apedrejar no «caso» Quintanilha. Li várias notícias sobre o incidente, e não entendi bem o que se passou (pareceu-me que não passou de um mal-entendido, mas não tenho a certeza). Mas constatei que o jornalista assumiu logo o erro, e logo pediu desculpa por ele. Assim sendo, o assunto morreu ali. Estranha-se, por isso, tamanho alarido e a indignação que causou. Mais postiça que real, mas isso são outras contas.
7 de outubro de 2015
OPINAR SOBRE O QUE NÃO SE CONHECE. Numa coisa tem Ana Gomes razão: houve, na campanha eleitoral para as legislativas, mais opinião que informação. Quanto vale o PSD na coligação vencedora? E o CDS/PP? Quantos deputados elegeram cada um? Vão formar um só grupo parlamentar? Já disse que prestei escassa atenção às eleições, mas isto devia encontrar-se facilmente em qualquer lado. Como não encontrei em lado nenhum, deduzo que não está em lado nenhum. Já a opinião, mal um político deu um pu, cinco segundos depois já os jornalistas perguntavam a alguém (comentadores, politólogos, políticos em pousio e vários eteceteras) o que pensava. Não foram poucas as vezes que os desgraçados dos «pensadores de serviço» foram obrigados a botar opinião antes mesmo de lhe avaliar o cheiro.
2 de outubro de 2015
A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.
30 de setembro de 2015
FONTES E SUGADOUROS. Tudo o que nos órgãos de comunicação social é notícia com base em fontes anónimas (ou não identificadas, se preferirem) é, para mim, pouco fiável. Sabendo-se a salvo de qualquer punição (que o anonimato garante), as fontes anónimas podem dizer tudo o que lhes apetecer (verdades, meias-verdades, puras mentiras), e os jornalistas sem escrúpulos podem inventar os «factos» que muito bem lhes convier e atribuí-los a fontes anónimas. A lei de imprensa prevê, e bem, que os jornalistas possam recorrer a fontes anónimas em casos excepcionais. O problema é que os casos excepcionais se tornaram regra, e a fiabilidade da informação daí resultante nunca é escrutinada.
29 de setembro de 2015
SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO. Um juiz, personagem de Belos Cavalos (Teorema, tradução de Graça Margarido), cujo nome nunca é referido, comenta após escutar o depoimento de John Grady, figura central do livro de Cormac McCarthy: «O problema para um mentiroso é que não consegue lembrar-se do que disse.» Quem já não foi confrontado com um caso destes que ponha o dedo no ar.
11 de setembro de 2015
DESLUMBRAMENTOS DE ESTIMAÇÃO. Costumo dizer que houve três escritores fundamentais na minha vida: primeiro, Fernando Pessoa (de que li toda a poesia então publicada e talvez a maior parte da prosa); depois, Eça de Queirós (de que li praticamente tudo); a seguir, Cardoso Pires (só não li alguns textos dispersos por várias publicações que nunca foram publicados em livro, e A Cartilha do Marialva). Isto a propósito de duas boas notícias: a reedição da obra de Cardoso Pires, agora pela Relógio D’Água, e de uma editora (E-Primatur) que promete editar grandes livros, que por uma razão ou outra nunca foram editados em português. Apesar do lixo que por aí se vai publicando, cada vez mais numeroso, é gratificante saber que ainda há quem edite «por amor à camisola», quem aposte em livros e autores que não são, em princípio, um bom negócio.
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