4 de dezembro de 2015

CORREIO DA MANHA. Como é do conhecimento geral, o Correio da Manhã (e outros meios da Cofina, mas sobretudo o Correio da Manhã) tem dado largo espaço ao «caso José Sócrates» — antes de ter sido preso, quando esteve preso, e depois de ter sido libertado. Diz que é seu dever informar e esclarecer a opinião pública, que os leitores têm o direito de saber a verdade. Ora, tanto tempo e tantas manchetes depois de Sócrates ter sido constituído arguido por suspeitas várias, por que não sabemos quase nada? Para quem garante ter vindo a publicar matéria de crucial importância para os leitores perceberem o caso, a ponto de alguns dos seus jornalistas se constituírem assistentes no processo para melhor poderem informar-nos, convenhamos que é pouco. Sei que não é popular defender Sócrates, que ataquei em várias ocasiões quando foi primeiro-ministro — e está, até ver, muito bem defendido. Mas incomoda-me o vale tudo para se crucificar quem não se gosta, e irrita-me que um certo tipo de jornalismo (para não lhe chamar outra coisa) invoque o que diz ser a liberdade de imprensa para fazer linchamentos mediáticos.
QUANDO A ESMOLA É GRANDE, O POBRE DESCONFIA. Bem sei que o caso mete espiões e polícias secretas, ingredientes geralmente tratados com delicadeza e discrição — e sobre os quais sempre que há notícias o comum dos mortais nunca fica a saber onde acaba a realidade e começa a lenda, o que são meras teorias da conspiração ou conspirações a sério. Talvez por isso estranhe que o ex-espião Silva Carvalho, que ainda há pouco se deu ao luxo de dizer que o modus operandi das secretas é «90 por cento ilegal», esteja a ser tão cooperante com a justiça, que o constituiu arguido no «caso das secretas» por suspeita de crimes vários (violação do segredo de Estado, abuso de poder, acesso ilegítimo a dados pessoais e corrupção passiva). Infelizmente, ainda não vi quem esclarecesse os motivos para tanta generosidade.

30 de novembro de 2015

TERMINAR O MANDATO SEM DIGNIDADE. Fez bem o Presidente Cavaco anunciar em comunicado a indigitação de António Costa como primeiro-ministro. Poupou-nos a um discurso penoso, e poupou-se a um exercício que lhe seria ainda mais penoso. Mas com ou sem discurso, de uma coisa Cavaco já não se livra: foi, na opinião de muitíssima gente (a minha incluída), o presidente mais ridículo da democracia portuguesa. Foram vários os episódios que protagonizou que mancharam o cargo que ainda desempenha. Desde o inacreditável discurso que pôs fim à não menos inacreditável historieta das escutas, ao discurso em que ameaçou excluir de uma solução governativa dois partidos com representação parlamentar que na hora todos perceberam que não podia fazê-lo — recentemente acrescentados com um incidente com o Parlamento e com mais um lamentável discurso na tomada de posse do novo Governo. Como já é tarde para o ajudar a terminar o mandato com dignidade, como o próprio Cavaco em tempos pediu para o então Presidente Mário Soares, resta-nos a boa notícia de que deixará de ser Presidente daqui a três meses.

21 de novembro de 2015

PARA QUE NADA FIQUE COMO DANTES. Não sei se o Presidente Hollande agiu bem quando decidiu reforçar a ofensiva militar contra o Estado Islâmico logo a seguir aos massacres de Paris, embora me tenha parecido uma reacção a quente — e as reacções a quente não costumam dar bons resultados. Mas como ainda não vi quem se opusesse ao reforço da ofensiva militar contra quem, pelo menos numa fase inicial, tem que ser contido pela via das armas, alguma coisa mudou. Claro que o facto de Hollande ser de esquerda facilita, e muito. Fosse ele de direita, e já meio mundo lhe tinha caído em cima. (Recordo que sou independente, mas em matéria de defesa geralmente alinho à direita.) Os governos ocidentais parecem acordar de um pesadelo que cresce de dia para dia, que não se vê como possa conter-se com paninhos quentes — como, por acção, mas sobretudo omissão, se tentou até agora. Governos ocidentais de direita e de esquerda, o que é uma novidade — e, na minha opinião, um progresso. Como escrevi por ocasião do 11 de Setembro de 2001, estamos diante um cenário em que é preciso matar para não morrer. Sim, não há que ter medo das palavras: matar, ou morrer. É tempo de parar de fingir que se não vê o que todos vêem. De desvalorizar o que é demasiado sério para se desvalorizar, de relativizar o que não é relativo, de justificar o injustificável. De adoptar medidas que melhor protejam os cidadãos, pagando os custos (prescindindo de algumas liberdades individuais, por exemplo) que elas terão. A matança indiscriminada de inocentes em nome de uma ideia de Deus não merece contemplações. É tempo, por isso, de agir. De forma determinada, e com eficácia. De disparar primeiro e perguntar depois se preciso for.

20 de novembro de 2015

PÉROLAS A PORCOS. Li, há uns anos, uma biografia de Modigliani (Modigliani: A Life, de Jeffrey Meyers), e fiquei a saber que o pintor italiano viveu com grandes dificuldades, morreu doente e na miséria. Choca, por isso, saber que acaba de ser vendida, por uma quantia obscena (158,3 milhões de euros), uma das suas obras (Nu Deitado). Não que me escandalize o valor da obra, até porque a pintura é uma coisa única, irrepetível. Mas é irónico ver obras de quem passou toda a espécie de dificuldades, que muitas vezes usou para pagar a renda de casa e ir às meninas, serem disputadas pelos senhores do dinheiro, que as vêem apenas como valiosos «activos». Morreria de susto o pintor caso voltasse do sítio onde está. Mas suspeito que não sem antes rir a bom rir com a parolice de alguns media norte-americanos (CBS, CNBC, Bloomberg TV e The Financial Times), que ilustraram a notícia do Nu com a reprodução censurada. Se ele se tivesse lembrado disso enquanto por cá andava, talvez não tivesse morrido na miséria.
JORNALISMO DE FACÇÃO. Instalou-se a ideia segundo a qual não há — nem pode haver — jornalismo objectivo, factual, isento. De facto, lendo com atenção o que por aí se diz e publica, nota-se bastante. Voluntariamente ou não, os jornalistas não se inibem de deixar transparecer o que lhes vai na alma, quando se esperaria que se limitassem a dar-nos o máximo de informação com o máximo de rigor e isenção possíveis. Tirando um caso ou outro, não vejo quem se rale com isto. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social não terá aqui uma palavra a dizer?

16 de novembro de 2015

O PODER E O POVO. Como disse Henry Kissinger, o poder é o maior dos afrodisíacos. Deve ser por isso que nos últimos dias assistimos, em Portugal, a manobras desesperadas dos vários quadrantes políticos. Uns desesperam para tomar o poder, outros desesperam para o manter. Se no final as coisas correrem mal, como alguns vaticinam e muitos desejam, os fornicados seremos nós. (O título deste post foi roubado a Vasco Pulido Valente, que tem um livro com esse nome.)

10 de novembro de 2015

É A DEMOCRACIA, ESTÚPIDO. Também eu desconfio de um Governo PS com o apoio parlamentar do PC e do Bloco, por tudo o que foi dito e não vou repetir. Desconfio que vai ser mau para o país, mau para o PS, e que António Costa vai ficar à mercê dos humores do PC e do Bloco. Talvez pior: o PS arrisca-se a ficar irreconhecível, talvez em cacos, e o resultado de uma eventual desintegração não se adivinha famoso. Mas daí até dizer-se que vem aí o fim do mundo, vai um abismo. Bloco e PC não podem ser automaticamente excluídos de uma solução de Governo, a pretexto de que têm divergências de fundo com o PS e com o próprio sistema político — como o Presidente da República, em mais um lamentável discurso, defendeu, ameaçando excluí-los de uma solução governativa. Ambos têm deputados eleitos, que uma vez somados aos deputados do partido que se propõe governar constituem uma maioria parlamentar capaz de viabilizar um Governo. Queiramos, ou não. Gostemos, ou não. Como disse um ilustre político, é a democracia. E eu sou, antes de tudo, um feroz defensor da democracia. Diria mais: prefiro os defeitos da democracia às virtudes de todos os outros sistemas que se conhecem.

2 de novembro de 2015

CUIDADO COM ELE. Calvão da Silva, novíssimo ministro da Administração Interna, o tal que atestou a idoneidade do então banqueiro Ricardo Salgado perante o Banco de Portugal quando o ex-dono-disto-tudo se «esqueceu» de declarar ao fisco 14 milhões de euros recebidos do construtor José Guilherme sabe-se lá por que bons ofícios prestados invocando o nobre «espírito de entreajuda e solidariedade», foi a Albufeira inteirar-se da calamidade causada pelo mau tempo, e de caminho dar uma lição de moral aos desgraçados que sofreram elevados prejuízos e aparentemente não têm quem lhes valha. Segundo ele, para os lesados que não têm seguro a calamidade de ontem «é uma lição de vida», pois devem aprender «que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro». Ter «um pequeno pé-de-meia, em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro», disse o ministro, que teceu ainda umas considerações piedosas sobre a vítima mortal que a tempestade causou, que diz ter-se entregado «a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado». Claro que, se tudo correr conforme o previsto, o cavalheiro passará à história daqui a uma semana, quando o Governo for pró maneta. Mas, pelo sim, pelo não, seria bom recomendar-lhe prudência e recato. É que pode haver mais calamidades daqui até lá, e ele é bem capaz de fazer mais asneiras.

30 de outubro de 2015

QUEM COPIOU POR QUEM? Li com atenção a peça que Kathleen Gomes escreveu, no Público, sobre o juiz que no Brasil dirige a investigação ao maior escândalo de corrupção da história do país, que já está a chamuscar a actual presidente. A dado passo, lê-se o seguinte: «Uma [das estratégias da investigação] é a fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo ­– reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo as figuras investigadas de travar o trabalho judicial.» Ora, isto é normal? É legal que num estado democrático a justiça promova julgamentos mediáticos? E, já agora, foi a justiça brasileira que copiou o modelo português seguido pela investigação do caso Sócrates (mas não só), ou o contrário? Não, não defendo Sócrates de coisa nenhuma. Defendo, sim, que este método, largamente praticado em Portugal, é inadmissível. Seja para o que for e para quem for.
PAZ À SUA ALMA. Se nada mudou na liturgia católica, um funeral costuma ser precedido de missa — a chamada missa de corpo presente. Foi isto que hoje me ocorreu durante a tomada de posse do novo Governo, cujo funeral segue dentro de momentos (10/11 dias, ao que parece). Ou, então, uma pantomina, com os pantomineiros a fazer de conta que era o que não era. Considerei acertada a decisão do Presidente da República de dar posse a um Governo de Passos Coelho. Mas, olhando para o que hoje nos foi dado ver, é difícil ver aquilo doutra maneira. Até o Presidente da República se comportou como num mortório. Contido e sereno, Cavaco deu mostras de já ter digerido meio elefante sem problemas de maior. Resta-lhe digerir o outro meio.

23 de outubro de 2015

AS RAZÕES DE CAVACO. Por razões que já disse, o Presidente Cavaco tomou a decisão acertada. Mas suspeito que, dizendo o que disse da coligação que por aí se vai cozinhando, afirmando que não tem consistência e apontando-lhe outros defeitos irremediáveis (uma evidência que qualquer mortal constata mas que o Presidente devia guardar para si), Cavaco vai ter que engolir o que disse. A não ser que o Governo liderado por Passos Coelho consiga «passar» no parlamento, que a coligação das esquerdas ainda não está consolidada — embora o «toque a reunir» que o discurso de Cavaco causou possa dar um empurrão decisivo. Dez dias para apresentar um governo e mais uns quantos para o levar a votos é muito tempo. Muita água passará, até lá, debaixo das pontes. Prognósticos, portanto, só no final do jogo.
CARLOS ALEXANDRE E O PODER. Por razões que me parecem óbvias, é pouco saudável que em Portugal (ou em qualquer outro país) todos os grandes processos estejam, há anos, nas mãos de um só juiz. Não tenho como aferir a competência (e imparcialidade) do juiz Carlos Alexandre. Mas não é normal (nem saudável) que todos os grandes casos passem, em Portugal, pelas mãos de um só juiz, no caso Carlos Alexandre. Tanto poder nas mãos de um só homem, não só é assustador como legitima até as mais descabeladas suspeitas.

16 de outubro de 2015

GOLPES E CONTRA-GOLPES. Defendi ontem que o Presidente da República deve chamar a governar a coligação vencedora das eleições de 4 de Novembro (PSD-CDS/PP). E que, uma vez empossada como governo, deve negociar caso a caso com a oposição o que houver a negociar. Embora os resultados eleitorais permitam outras soluções, igualmente constitucionais, esta será, como também disse, a solução natural. Mas se este cenártio não me oferece grandes dúvidas, discordo totalmente da tese de que o governo deve manter-se em gestão até novas eleições (parece que não antes de Maio do próximo ano) caso seja chumbado no parlamento. Se não me repugna que se chame golpada a uma coligação de esquerda como primeira opção de governo, um governo de gestão seria outra golpada.

15 de outubro de 2015

ASSIS E O SENSO COMUM. Desculpem a presunção, mas defendi, em privado, a solução que Francisco Assis agora defendeu em entrevista à RTP. Que, face aos resultados de 4 de Novembro, a coligação vencedora deve ser chamada a governar, e que o PS deve assumir-se como oposição. As negociações com a coligação vencedora, necessárias no actual quadro parlamentar, deverão ser feitas caso a caso, à medida das necessidades. Isto seria, para mim, a solução natural, a que melhor traduz o que ficou expresso nas urnas. Como Assis demonstrou com vários exemplos, uma coligação do PS com o Bloco e o PC (ou um governo PS com o apoio das duas forças políticas à sua esquerda) seria contranatura, previsivelmente destinada ao fracasso — e a curtíssimo prazo desastrosa para o país e para o PS. Não será só Assis, no PS, a pensar desse modo. Mas a partir do momento em que Assis deu a cara por outra solução que não a preconizada pelo chefe (e expressão ao que muitos pensarão mas não se atrevem a dizer), espera-se que mais vozes constatem o óbvio.

9 de outubro de 2015

DOS SANTOS E PECADORES. Devo dizer que não aprecio José Rodrigues dos Santos como jornalista, e como romancista ainda me haviam de pagar para o ler. Mas não contem comigo para o apedrejar no «caso» Quintanilha. Li várias notícias sobre o incidente, e não entendi bem o que se passou (pareceu-me que não passou de um mal-entendido, mas não tenho a certeza). Mas constatei que o jornalista assumiu logo o erro, e logo pediu desculpa por ele. Assim sendo, o assunto morreu ali. Estranha-se, por isso, tamanho alarido e a indignação que causou. Mais postiça que real, mas isso são outras contas.

7 de outubro de 2015

OPINAR SOBRE O QUE NÃO SE CONHECE. Numa coisa tem Ana Gomes razão: houve, na campanha eleitoral para as legislativas, mais opinião que informação. Quanto vale o PSD na coligação vencedora? E o CDS/PP? Quantos deputados elegeram cada um? Vão formar um só grupo parlamentar? Já disse que prestei escassa atenção às eleições, mas isto devia encontrar-se facilmente em qualquer lado. Como não encontrei em lado nenhum, deduzo que não está em lado nenhum. Já a opinião, mal um político deu um pu, cinco segundos depois já os jornalistas perguntavam a alguém (comentadores, politólogos, políticos em pousio e vários eteceteras) o que pensava. Não foram poucas as vezes que os desgraçados dos «pensadores de serviço» foram obrigados a botar opinião antes mesmo de lhe avaliar o cheiro.
UM BOM TÍTULO. Joana Amaral Dias teve menos votos do que leitores da “Cristina”

2 de outubro de 2015

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.