5 de fevereiro de 2016
MUÇULMANOS. Eu sei que a pergunta é cruel, eventualmente injusta, mas como distinguir um muçulmano bom de um muçulmano mau? Percebo que os muçulmanos moderados não apreciem ser vistos com desconfiança e eventualmente marginalizados, mas há uma coisa que nunca percebi: por que nunca se vê uma manifestação de muçulmanos contra as práticas dos seus irmãos radicais sempre que elas sucedem (e sucedem demasiadas vezes), demarcando-se e condenando tais práticas? Que eu saiba, e não ando propriamente distraído, só houve uma tentativa nesse sentido — em França, logo a seguir à canificina de Novembro passado, que acabou por não ser autorizada por razões de segurança. Em vez de se lamentarem, quero acreditar que com razão, os muçulmanos precisam de fazer muito mais para dissipar a suspeita que paira sobre eles. Para bem deles, e para bem de todos.
1 de fevereiro de 2016
PARA SEMPRE. Graças a um ficheiro onde registo estas coisas, de Vergílio Ferreira li os cinco primeiros volumes de Conta-Corrente. Fora isso, há anos que repousam nas estantes Pensar, Estrela Polar, Nítido Nulo, Em Nome da Terra, Manhã Submersa, Aparição, Para Sempre, e Até ao Fim. Quase todos começados, alguns bastante adiantados, mas nenhum concluído. Como leio vários ao mesmo tempo, são incontáveis os livros em lista de espera, alguns talvez para sempre. Agora, que se anuncia a reedição da obra completa, a propósito do centenário do seu nascimento, já sei que não vou resistir a algumas que se anunciam em e-book — desde logo os restantes quatro volumes de Conta-Corrente, toda a obra ensaística, provavelmente um ou outro livro que já tenho em papel mas que, por razões práticas, prefiro em e-book. Logo a seguir a Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Cardoso Pires, Vergílio Ferreira foi dos escritores portugueses que mais me marcou, apesar de só ter lido, repito, metade dos diários. É com satisfação que leio o que sobre ele se anuncia para este ano, tanto mais que, duas décadas após a sua morte, me parece injustamente esquecido.
21 de janeiro de 2016
VIVER FAZ MAL À SAÚDE. Provavelmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não chegou a essa conclusão, mas tenho fortes razões para suspeitar que viver faz mal à saúde. Pior: é perigoso. Como sabemos pelos vários exemplos que vamos conhecendo, um tipo está sujeito a empandeirar de um momento para o outro, ou a diagnosticarem-lhe uma daquelas doenças que deprime só de pensar. É um facto que a OMS se tem esforçado para nos salvar — proibindo o excesso de sal, recomendando cortes obscenos no açúcar, advertindo que o uso excessivo de certas carnes provocam o cancro, e um ror de outras maleitas de que é bom nem falar. Mas nós, casmurros moldados por gerações de casmurros, fazemos que não ouvimos, que não sabemos, que os alarmes são conspirações da indústria alimentar — e atiramo-nos aos chouriços como uns desalmados, aos bifes como se não houvesse amanhã, e aos pastéis que vão da raia galega às praias do Algarve sem a mais leve discriminação. Resumindo, fazemos tudo ao contrário do que recomenda a santíssima OMS, continuando a praticar com fervor o princípio de que o que faz mal só pode ser bom. Se correr mal, bateremos a bota com a doença da moda. Se correr bem, esticaremos o pernil porque sim. Pelo sim, pelo não, sigamos o chouriço.
15 de janeiro de 2016
LUZ EM TEMPO DE TREVAS. Quatro da manhã num aeroporto deserto, primeiro dia de 2016. Retomo as aventuras de Bandini (Sonhos de Bunker Hill, Alfaguara), e avanço uma dúzia de páginas sempre com um sorriso — apesar de a ocasião não me estar de feição para sorrisos. A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Ahab), A Estrada para Los Angeles (Alfaguara), e Pergunta ao Pó (Ahab), que também li com prazer, completam o que viria a designar-se O Quarteto Bandini. Para quem não sabe, Bandini é uma espécie de alter ego de John Fante, que por sua vez inspirou o alter ego de Bukowski (Henry Chinaski) — e foi, como outros autores (Mann, Kafka, Zweig, Hemingway), muito inspirado por Hamsun, escritor norueguês até há pouco injustamente votado ao ostracismo por ter simpatizado com uma causa errada (o nazismo). Fante não é um nome incontornável da literatura norte-americana, muito menos americana, e ainda menos universal. Mas é um escritor que ainda hoje, mais de três décadas após a sua morte, nos diz infinitamente mais que alguns que o tentaram imitar ou lhes serviu de inspiração — e quase todos os que hoje andam para aí a somar prémios e palmadinhas nas costas cujo pudor me impede de nomear.
11 de janeiro de 2016
NÃO EXAGEREMOS. Se a notícia da morte de David Bowie não me parece exagerada, como disse Mark Twain a propósito da falsa notícia da sua própria morte, já me parece que os elogios ao músico inglês são manifestamente exagerados. Bowie foi um génio? Um farol? Um Messias? Se a ideia é homenageá-lo, convém poupar os disparates.
6 de janeiro de 2016
24 de dezembro de 2015
E AGORA O BANIF.
1. Perante a venda do Banif, segundo o primeiro-ministro a solução menos má, o anterior governo encolheu-se em toda a linha. A única coisa que se lhe ouviu foi que precisava de saber mais detalhes sobre o negócio com o Santander para se poder pronunciar, que tinha algumas dúvidas, e perante o anúncio de um inquérito parlamentar não manifestou a mais leve discordância. Tudo o resto foram explicações atabalhoadas, silêncios comprometedores. Se isto não é um claro assumir de culpas, vou ali e já venho. Aliás, viu-se ontem de novo, quando o PSD, num gesto humilhante que tentou passar como magnânimo, foi obrigado a abster-se para que o Orçamento Rectificativo (resultante do buraco do Banif) fosse aprovado, quando todos os outros partidos, à excepção do PS, votaram contra, incluindo o CDS-PP, ex-parceiro de coligação. Percebendo que não seriam necessários os seus votos para viabilizar o Orçamento, Partido Comunista, Bloco de Esquerda e CDS-PP deixaram que o PSD, que ainda há dias jurava nada fazer para sustentar este Governo, pagasse a conta. Para quê sujar as mãos com tão malcheiroso assunto se não havia necessidade?
2. Parece que o governador do Banco de Portugal garantiu, em 2013, que o Estado ganharia 10 por cento com o empréstimo que o mesmo Estado fez ao Banif. Como é sabido, a parte boa do Banif acaba de ser vendida ao Santander, e a parte má (ao que parece 2,255 mil milhões de euros) vai ser paga pelos contribuintes. Como o governador, por esta e por outras, não tem a dignidade de sair pelo seu próprio pé, que tal darem-lhe uma mãozinha?
3. Obviamente que os bancos não são todos iguais. Mas são cada vez mais os bancos que ontem eram seríssimos e à prova de bala e acabaram da forma que se conhece. Agora foi o Banif, ontem foi o BES, anteontem o BPN e o BPP, provavelmente amanhã será quem hoje é seríssimo e à prova de bala. Todos pelas mesmas razões: negligência, incompetência, vigarices de toda a espécie, às vezes tudo isto junto.
4. Quem é o responsável (ou responsáveis) pela hecatombe do Banif? Li várias notícias em vários jornais e não consegui vislumbrar. Vi que o banco foi para o maneta por razões várias (por causa da conjuntura, do sistema, do efeito sistémico, talvez do aquecimento global), mas responsáveis, até ver, é que não há. Se tudo correr como habitualmente, esta gente que hoje não tem nome nem rosto há-se estar, daqui a um mês, já devidamente reciclada, à frente doutra manjedoura qualquer.
5. O meu dinheiro sempre estará mais seguro no banco que debaixo do colchão, mas começo a duvidar. E não falo de investimentos, contas-poupança, produtos assim. Falo de contas à ordem, que pelo caminho que as coisas estão a levar, corro o risco de um dia passar um cheque sem fundos por me terem desviado os ditos para um esquema qualquer. Sei, apesar de tudo o que por aí vai, do que já se passou e do que estará para vir, que os bancos continuam a merecer, se não a confiança total, o benefício da dúvida. O problema é que a dúvida, num banco, já é má que chegue.
1. Perante a venda do Banif, segundo o primeiro-ministro a solução menos má, o anterior governo encolheu-se em toda a linha. A única coisa que se lhe ouviu foi que precisava de saber mais detalhes sobre o negócio com o Santander para se poder pronunciar, que tinha algumas dúvidas, e perante o anúncio de um inquérito parlamentar não manifestou a mais leve discordância. Tudo o resto foram explicações atabalhoadas, silêncios comprometedores. Se isto não é um claro assumir de culpas, vou ali e já venho. Aliás, viu-se ontem de novo, quando o PSD, num gesto humilhante que tentou passar como magnânimo, foi obrigado a abster-se para que o Orçamento Rectificativo (resultante do buraco do Banif) fosse aprovado, quando todos os outros partidos, à excepção do PS, votaram contra, incluindo o CDS-PP, ex-parceiro de coligação. Percebendo que não seriam necessários os seus votos para viabilizar o Orçamento, Partido Comunista, Bloco de Esquerda e CDS-PP deixaram que o PSD, que ainda há dias jurava nada fazer para sustentar este Governo, pagasse a conta. Para quê sujar as mãos com tão malcheiroso assunto se não havia necessidade?
2. Parece que o governador do Banco de Portugal garantiu, em 2013, que o Estado ganharia 10 por cento com o empréstimo que o mesmo Estado fez ao Banif. Como é sabido, a parte boa do Banif acaba de ser vendida ao Santander, e a parte má (ao que parece 2,255 mil milhões de euros) vai ser paga pelos contribuintes. Como o governador, por esta e por outras, não tem a dignidade de sair pelo seu próprio pé, que tal darem-lhe uma mãozinha?
3. Obviamente que os bancos não são todos iguais. Mas são cada vez mais os bancos que ontem eram seríssimos e à prova de bala e acabaram da forma que se conhece. Agora foi o Banif, ontem foi o BES, anteontem o BPN e o BPP, provavelmente amanhã será quem hoje é seríssimo e à prova de bala. Todos pelas mesmas razões: negligência, incompetência, vigarices de toda a espécie, às vezes tudo isto junto.
4. Quem é o responsável (ou responsáveis) pela hecatombe do Banif? Li várias notícias em vários jornais e não consegui vislumbrar. Vi que o banco foi para o maneta por razões várias (por causa da conjuntura, do sistema, do efeito sistémico, talvez do aquecimento global), mas responsáveis, até ver, é que não há. Se tudo correr como habitualmente, esta gente que hoje não tem nome nem rosto há-se estar, daqui a um mês, já devidamente reciclada, à frente doutra manjedoura qualquer.
5. O meu dinheiro sempre estará mais seguro no banco que debaixo do colchão, mas começo a duvidar. E não falo de investimentos, contas-poupança, produtos assim. Falo de contas à ordem, que pelo caminho que as coisas estão a levar, corro o risco de um dia passar um cheque sem fundos por me terem desviado os ditos para um esquema qualquer. Sei, apesar de tudo o que por aí vai, do que já se passou e do que estará para vir, que os bancos continuam a merecer, se não a confiança total, o benefício da dúvida. O problema é que a dúvida, num banco, já é má que chegue.
23 de dezembro de 2015
TRUMP E OS REPUBLICANOS. Já ouviu que o Partido Republicano correrá com Donald Trump quando chegar a «hora da verdade»? Eu já ouvi várias vezes, e até aos mais reputados analistas. Mas, por razões que expliquei noutros textos, cada vez tenho mais dúvidas. O que vi no mais recente debate entre os candidatos à nomeação republicana melhor posicionados nas sondagens confirmou as minhas dúvidas: não vi quem fosse melhor que Trump, que até facturou de novo quando assumiu, com a frontalidade que se lhe conhece (e lhe tem granjeado grande parte da simpatia), que pondera ir a votos mesmo que o Partido Republicano o rejeite, o que ainda seria pior para os republicanos — embora, a meu ver, seja um cenário improvável. Em escassos meses, a candidatura de Trump passou de um fait divers a um caso sério, que como tal deve ser encarado. Surpreender-me-ia, apesar disso, que fosse o escolhido para defrontar Hillary Clinton na recta final da campanha — isto dando de barato que Hillary será a eleita do Partido Democrata, o que ainda não é seguro. Mas se acho improvável um duelo entre Hillary Clinton e Donald Trump, duvido, para não variar, que seria, nesse caso, um passeio para Hillary Clinton, como todos garantem. Deitar foguetes antes da festa, só com a certeza que haverá mesmo festa. E eu volto a duvidar.
18 de dezembro de 2015
TÓQUIO, 1984. Há quem diga que este é o melhor Jarrett a solo. Se não é, é o melhor registado em vídeo que vi até hoje. (Convém lembrar que Jarrett tem concertos notáveis a solo que não foram registados em vídeo.) Jarrett em Tóquio é notável musicalmente e visualmente, o que raramente acontece. Ouçam e verão que os adjectivos não pecam por excesso.
LOST IN TRANSLATION. Soube por Vila-Matas que Grande Sertão: Veredas foi «torpemente» traduzido para inglês. Não vi a tradução, mas não me espantaria. Ora vejam só o primeiro parágrafo da obra-prima de Guimarães Rosa, que o autor catalão considera o Ulisses brasileiro:
« — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.»
Como se traduz isto para inglês? Francês? Alemão? Para outra linguagem que não seja a do sertão, pelo menos, da época?
« — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.»
Como se traduz isto para inglês? Francês? Alemão? Para outra linguagem que não seja a do sertão, pelo menos, da época?
11 de dezembro de 2015
UMA COISA NUNCA VISTA. Não vou repetir o que já disse de Donald Trump. Mas há uma coisa que não vejo dita, e parece-me oportuno salientar: Trump expõe todos os dias a mediania — para não dizer mediocridade — dos restantes candidatos presidenciais da sua área política. Que no início da corrida à nomeação do Partido Republicano tenha tido grande popularidade, compreende-se. Que a seis meses das primárias e dezenas de barbaridades depois continue a liderar as sondagens à direita, surpreende. Continuo a achar improvável que Trump ganhe a nomeação republicana, e não acredito que se candidate como independente caso falhe o objectivo. Mas que já tenha batido todos os recordes de longevidade política, que talvez nem o próprio alguma vez imaginou, é preocupante. É verdade que nunca os populistas se distinguiram por grandes sofisticações. Mas nunca se tinha visto um pantomineiro tão boçal.
4 de dezembro de 2015
CORREIO DA MANHA. Como é do conhecimento geral, o Correio da Manhã (e outros meios da Cofina, mas sobretudo o Correio da Manhã) tem dado largo espaço ao «caso José Sócrates» — antes de ter sido preso, quando esteve preso, e depois de ter sido libertado. Diz que é seu dever informar e esclarecer a opinião pública, que os leitores têm o direito de saber a verdade. Ora, tanto tempo e tantas manchetes depois de Sócrates ter sido constituído arguido por suspeitas várias, por que não sabemos quase nada? Para quem garante ter vindo a publicar matéria de crucial importância para os leitores perceberem o caso, a ponto de alguns dos seus jornalistas se constituírem assistentes no processo para melhor poderem informar-nos, convenhamos que é pouco. Sei que não é popular defender Sócrates, que ataquei em várias ocasiões quando foi primeiro-ministro — e está, até ver, muito bem defendido. Mas incomoda-me o vale tudo para se crucificar quem não se gosta, e irrita-me que um certo tipo de jornalismo (para não lhe chamar outra coisa) invoque o que diz ser a liberdade de imprensa para fazer linchamentos mediáticos.
QUANDO A ESMOLA É GRANDE, O POBRE DESCONFIA. Bem sei que o caso mete espiões e polícias secretas, ingredientes geralmente tratados com delicadeza e discrição — e sobre os quais sempre que há notícias o comum dos mortais nunca fica a saber onde acaba a realidade e começa a lenda, o que são meras teorias da conspiração ou conspirações a sério. Talvez por isso estranhe que o ex-espião Silva Carvalho, que ainda há pouco se deu ao luxo de dizer que o modus operandi das secretas é «90 por cento ilegal», esteja a ser tão cooperante com a justiça, que o constituiu arguido no «caso das secretas» por suspeita de crimes vários (violação do segredo de Estado, abuso de poder, acesso ilegítimo a dados pessoais e corrupção passiva). Infelizmente, ainda não vi quem esclarecesse os motivos para tanta generosidade.
30 de novembro de 2015
TERMINAR O MANDATO SEM DIGNIDADE. Fez bem o Presidente Cavaco anunciar em comunicado a indigitação de António Costa como primeiro-ministro. Poupou-nos a um discurso penoso, e poupou-se a um exercício que lhe seria ainda mais penoso. Mas com ou sem discurso, de uma coisa Cavaco já não se livra: foi, na opinião de muitíssima gente (a minha incluída), o presidente mais ridículo da democracia portuguesa. Foram vários os episódios que protagonizou que mancharam o cargo que ainda desempenha. Desde o inacreditável discurso que pôs fim à não menos inacreditável historieta das escutas, ao discurso em que ameaçou excluir de uma solução governativa dois partidos com representação parlamentar que na hora todos perceberam que não podia fazê-lo — recentemente acrescentados com um incidente com o Parlamento e com mais um lamentável discurso na tomada de posse do novo Governo. Como já é tarde para o ajudar a terminar o mandato com dignidade, como o próprio Cavaco em tempos pediu para o então Presidente Mário Soares, resta-nos a boa notícia de que deixará de ser Presidente daqui a três meses.
21 de novembro de 2015
PARA QUE NADA FIQUE COMO DANTES. Não sei se o Presidente Hollande agiu bem quando decidiu reforçar a ofensiva militar contra o Estado Islâmico logo a seguir aos massacres de Paris, embora me tenha parecido uma reacção a quente — e as reacções a quente não costumam dar bons resultados. Mas como ainda não vi quem se opusesse ao reforço da ofensiva militar contra quem, pelo menos numa fase inicial, tem que ser contido pela via das armas, alguma coisa mudou. Claro que o facto de Hollande ser de esquerda facilita, e muito. Fosse ele de direita, e já meio mundo lhe tinha caído em cima. (Recordo que sou independente, mas em matéria de defesa geralmente alinho à direita.) Os governos ocidentais parecem acordar de um pesadelo que cresce de dia para dia, que não se vê como possa conter-se com paninhos quentes — como, por acção, mas sobretudo omissão, se tentou até agora. Governos ocidentais de direita e de esquerda, o que é uma novidade — e, na minha opinião, um progresso. Como escrevi por ocasião do 11 de Setembro de 2001, estamos diante um cenário em que é preciso matar para não morrer. Sim, não há que ter medo das palavras: matar, ou morrer. É tempo de parar de fingir que se não vê o que todos vêem. De desvalorizar o que é demasiado sério para se desvalorizar, de relativizar o que não é relativo, de justificar o injustificável. De adoptar medidas que melhor protejam os cidadãos, pagando os custos (prescindindo de algumas liberdades individuais, por exemplo) que elas terão. A matança indiscriminada de inocentes em nome de uma ideia de Deus não merece contemplações. É tempo, por isso, de agir. De forma determinada, e com eficácia. De disparar primeiro e perguntar depois se preciso for.
20 de novembro de 2015
PÉROLAS A PORCOS. Li, há uns anos, uma biografia de Modigliani (Modigliani: A Life, de Jeffrey Meyers), e fiquei a saber que o pintor italiano viveu com grandes dificuldades, morreu doente e na miséria. Choca, por isso, saber que acaba de ser vendida, por uma quantia obscena (158,3 milhões de euros), uma das suas obras (Nu Deitado). Não que me escandalize o valor da obra, até porque a pintura é uma coisa única, irrepetível. Mas é irónico ver obras de quem passou toda a espécie de dificuldades, que muitas vezes usou para pagar a renda de casa e ir às meninas, serem disputadas pelos senhores do dinheiro, que as vêem apenas como valiosos «activos». Morreria de susto o pintor caso voltasse do sítio onde está. Mas suspeito que não sem antes rir a bom rir com a parolice de alguns media norte-americanos (CBS, CNBC, Bloomberg TV e The Financial Times), que ilustraram a notícia do Nu com a reprodução censurada. Se ele se tivesse lembrado disso enquanto por cá andava, talvez não tivesse morrido na miséria.
JORNALISMO DE FACÇÃO. Instalou-se a ideia segundo a qual não há — nem pode haver — jornalismo objectivo, factual, isento. De facto, lendo com atenção o que por aí se diz e publica, nota-se bastante. Voluntariamente ou não, os jornalistas não se inibem de deixar transparecer o que lhes vai na alma, quando se esperaria que se limitassem a dar-nos o máximo de informação com o máximo de rigor e isenção possíveis. Tirando um caso ou outro, não vejo quem se rale com isto. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social não terá aqui uma palavra a dizer?
16 de novembro de 2015
O PODER E O POVO. Como disse Henry Kissinger, o poder é o maior dos afrodisíacos. Deve ser por isso que nos últimos dias assistimos, em Portugal, a manobras desesperadas dos vários quadrantes políticos. Uns desesperam para tomar o poder, outros desesperam para o manter. Se no final as coisas correrem mal, como alguns vaticinam e muitos desejam, os fornicados seremos nós. (O título deste post foi roubado a Vasco Pulido Valente, que tem um livro com esse nome.)
10 de novembro de 2015
É A DEMOCRACIA, ESTÚPIDO. Também eu desconfio de um Governo PS com o apoio parlamentar do PC e do Bloco, por tudo o que foi dito e não vou repetir. Desconfio que vai ser mau para o país, mau para o PS, e que António Costa vai ficar à mercê dos humores do PC e do Bloco. Talvez pior: o PS arrisca-se a ficar irreconhecível, talvez em cacos, e o resultado de uma eventual desintegração não se adivinha famoso. Mas daí até dizer-se que vem aí o fim do mundo, vai um abismo. Bloco e PC não podem ser automaticamente excluídos de uma solução de Governo, a pretexto de que têm divergências de fundo com o PS e com o próprio sistema político — como o Presidente da República, em mais um lamentável discurso, defendeu, ameaçando excluí-los de uma solução governativa. Ambos têm deputados eleitos, que uma vez somados aos deputados do partido que se propõe governar constituem uma maioria parlamentar capaz de viabilizar um Governo. Queiramos, ou não. Gostemos, ou não. Como disse um ilustre político, é a democracia. E eu sou, antes de tudo, um feroz defensor da democracia. Diria mais: prefiro os defeitos da democracia às virtudes de todos os outros sistemas que se conhecem.
2 de novembro de 2015
CUIDADO COM ELE. Calvão da Silva, novíssimo ministro da Administração Interna, o tal que atestou a idoneidade do então banqueiro Ricardo Salgado perante o Banco de Portugal quando o ex-dono-disto-tudo se «esqueceu» de declarar ao fisco 14 milhões de euros recebidos do construtor José Guilherme sabe-se lá por que bons ofícios prestados invocando o nobre «espírito de entreajuda e solidariedade», foi a Albufeira inteirar-se da calamidade causada pelo mau tempo, e de caminho dar uma lição de moral aos desgraçados que sofreram elevados prejuízos e aparentemente não têm quem lhes valha. Segundo ele, para os lesados que não têm seguro a calamidade de ontem «é uma lição de vida», pois devem aprender «que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro». Ter «um pequeno pé-de-meia, em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro», disse o ministro, que teceu ainda umas considerações
piedosas sobre a vítima mortal que a tempestade causou, que diz ter-se entregado «a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado». Claro que, se tudo correr conforme o previsto, o cavalheiro passará à história daqui a uma semana, quando o Governo for pró maneta. Mas, pelo sim, pelo não, seria bom recomendar-lhe prudência e recato. É que pode haver mais calamidades daqui até lá, e ele é bem capaz de fazer mais asneiras.
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