13 de maio de 2017
UM PRESIDENTE A ESBRACEJAR NO PÂNTANO. James Comey, até há dias director do FBI, tornou-se um alvo a abater a partir do momento em que ousou admitir a existência de uma investigação destinada a apurar um eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa e se distanciou da inventona das escutas à Trump Tower. Como na ocasião seria demasiado escandaloso, Trump aguardou, impaciente, a primeira oportunidade para correr com ele, e julgou que as últimas revelações da controversa figura sobre os não menos controversos e-mails de Hillary Clinton seriam a oportunidade por que ansiosamente esperava. Como se viu, julgou mal, e o tiro saiu-lhe pela culatra. A «questão russa», que Trump e colaboradores consideram uma mera invenção, ganhou ainda maior exposição, e se dúvidas houvesse acerca de um possível conluio entre trumpistas e russos, com o afastamento do chefe da agência que investiga o caso passou a haver ainda mais. Só quem não quer ver consegue desvalorizar que o Presidente — cada vez mais desorientado, cada vez mais de cabeça perdida, cada vez mais desesperado — despediu quem o estava a investigar — logo nunca haverá uma explicação suficientemente boa que apague a suspeita de que Trump pretendeu, com esta medida, travar a investigação russa, como se fosse possível travar a investigação russa demitindo o chefe. Veremos o que isto vai dar, mas tudo indica que vai acabar mal. Para Trump, evidentemente, embora não só. Para mal dos nossos pecados, provavelmente também para nós.
27 de abril de 2017
O DESASTRE ANUNCIADO. Impossível ignorar o silêncio dos apoiantes de Trump, cada vez mais ensurdecedor. São tantas as asneiras, a incompetência, as mudanças de opinião, as mentiras, a ignorância mais básica sobre tudo o que importa e os exemplos de indigência mental que se torna cada vez mais difícil defendê-lo. O muro foi adiado para as calendas. A política de fronteiras e a ordem executiva que penaliza as cidades que não cumprem as exigências federais em matéria de imigração esbarraram nos tribunais. O NAFTA, Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com o México e Canadá que Trump em tempos considerou o pior acordo comercial da história, era para rasgar, agora é para ser renegociado. As despesas com as constantes deslocações de Trump ao seu clube privado na Florida, inexplicavelmente promovido — a custo zero — nalguns sites do governo, crescem diariamente sem que se perceba por que serão os contribuintes a pagar a conta. Os negócios da família montaram escritório na Casa Branca. A China passou de inimigo a abater a amigo a estimar (há por lá negócios da família a cuidar). A NATO era obsoleta, mas agora, por obra e graça ninguém sabe de quê, deixou de ser. A Rússia era amiga, agora ninguém sabe o que é. A América estava primeiro, mas três meses bastaram para atacar a Síria e o Afeganistão, a Coreia do Norte está no radar, e a aviação russa passeia-se perigosamente pelo Alasca. Para quem prometeu virar do avesso a política externa de Obama e erradicar o autodenominado Estado Islâmico (nada foi feito até agora), no mínimo é embaraçoso. Graças à incompetência dos que tentaram acabar com ele oferecendo em troca uma alternativa inventada à pressa (e bastante piorada), o tão odiado Obamacare mantém-se em vigor. As declarações de impostos do Presidente eram para ser mostradas aos eleitores, mas por razões que não foram explicadas já não vão ser mostradas. Sondagens recentes revelam que Trump é o Presidente mais impopular de sempre. Apenas 4% dos norte-americanos o considera honesto. Leram bem: quatro por cento (Obama chegou a ter 74, Bush filho 62, Clinton 61). A suspeita de conluio entre importantes figuras da campanha de Trump e a administração russa, que ainda há uns meses o Presidente elogiava (Trump nunca escondeu o seu fascínio por ditadores e aparentados), cresce de dia para dia. Sim, o Presidente conseguiu nomear o juiz Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal, embora a sua base de apoio tivesse que recorrer a um expediente controverso. Para 100 dias de Governo, que agora se assinalam, é um desastre sem precedentes. Mas o pior pode estar para vir. Afinal, Trump está sempre a demonstrar que pior é sempre possível.
7 de abril de 2017
MAIS NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Nunca dei um centavo por Trump e pela malta que o rodeia. Mas devo confessar que a pantomina em cena excedeu as minhas piores previsões. Para ajudar à barafunda, o luso-descendente Devin Nunes prestou-se ao triste papel de moço de recados para manter vivo um nado morto (a inventona das escutas de Obama a Trump), a seguir quis-nos fazer crer que prestou um grande serviço à pátria, no dia seguinte pediu desculpas aos parceiros da comissão que investiga a intromissão russa nas Presidenciais, finalmente percebeu que perdeu a confiança dos pares e agiu em conformidade. Tudo isto para nos distrair do essencial: a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa, cuja suspeita aumenta de dia para dia. Depois há um general cagarolas disposto a contar o que sabe se lhe salvarem a pele, dezenas de apartamentos vendidos a russos suspeitos de subtrair pipas de massa aos seus conterrâneos, a humilhação do Presidente e respectiva família política por não terem conseguido substituir o Obamacare por um sistema pior, e outras histórias igualmente fedorentas. Somado ao cada vez maior atrevimento da Coreia do Norte e ao pesadelo da Síria, que Trump decidiu bombardear com o mesmíssimo pretexto com que há quatro anos defendeu o contrário (e cujas consequências ninguém, até agora, conseguiu antecipar), eis que estão criadas as condições para o descrédito total de uma democracia em tempos exemplar. Felizmente que o tão odiado «sistema» funciona, pelo que Trump virá a ser, quando muito, uma espécie de Putin dos pequeninos.
23 de março de 2017
NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Se não fosse grave, a história das alegadas escutas do então Presidente Obama ao então candidato Trump seria hilariante. Como não bastasse a ausência da mais leve evidência de que tal tenha ocorrido, como se percebeu desde o início, a administração Trump inventou que os serviços secretos britânicos foram os operacionais da alegada patranha, e como é sabido, a coisa correu mal. No dia seguinte a administração Trump recuou, desfez-se em desculpas, prometeu portar-se bem dali em diante — uma cena penosa de se ver. Para cúmulo, o Presidente deitou ainda mais lenha na fogueira, dizendo que se limitou a citar a Fox News, pelo que se algo esteve mal foi a Fox, não ele. O Presidente decide com base no que dizem os media? Obviamente que a desculpa ou é estúpida, ou o Presidente decide mesmo com base no que dizem os media em que ele confia, e nesse caso seria inacreditável e ainda mais estúpido. Convém lembrar que na origem das alegadas escutas que Trump garantiu existirem estiveram duas fontes que o Presidente tem como credíveis: o Breitbart News, site de extrema-direita que se notabilizou pelas fake news (e deu ao governo o sinistro Stephen Bannon), e a Fox News, que dispensa apresentações, embora no caso em concreto até nem tenha estado mal (o Presidente tomou como um facto a opinião de um comentador entretanto despedido). Juntando o mal-amanhado episódio a tantos outros igualmente risíveis, impõe-se uma pergunta: até onde irá o delírio de Trump? Quantos sapos mais estará o Partido Republicano disposto a engolir para lhe manter o apoio? Se os republicanos tiveram razões para tentar impedir que Trump fosse nomeado candidato presidencial, mais razões têm agora para lhe travar a espiral de loucura. Quem já não percebeu que a administração Trump é uma bola de neve a rolar para o abismo?
15 de março de 2017
REAL NEWS.
1. Kellyanne Conway, assessora de Trump e propagandista dos negócios da filha do Presidente, sugeriu que pelo menos 20 por cento dos jornalistas que cobriram as presidenciais americanas deviam ser despedidos, alertou para a existência de «factos alternativos» (deu um exemplo com um massacre que nunca existiu depois de já ter atribuído a Obama uma decisão que não tomou), e mais recentemente tentou impingir-nos a ideia de que o ex-presidente espiou Trump com um microondas.
2. Steve Bannon, especialista em fake news e ao que dizem responsável pela estratégia da Casa Branca, comentou que os media deviam calar-se, e posteriormente garantiu que a relação entre os media e a Casa Branca «só vai piorar» (dois dias depois CNN, BBC e New York Times seriam proibidos de aceder a um briefing na Casa Branca).
3. Lamar Smith, congressista, recomendou aos americanos que ignorem os media e obtenham as notícias directamente do Presidente, pois só assim terão «a verdade nua e crua».
4. Donald Trump, Presidente dos EUA, já chamou aos jornalistas tudo o que há de pior. Desonestos, asquerosos, escória, inimigos, lixo, a forma mais baixa de vida, os seres humanos mais desonestos da Terra — eis algumas pérolas de que me lembro.
5. Vale a pena lembrar que os jornalistas visados pelo Presidente trabalham para a CNN, ABC, Associated Press, NBC, Washington Post, New York Times, Politico, Atlantic, New Republican, Los Angeles Times, Financial Times, e a certa altura até para a Fox News, que Trump respeita consoante os dias. Se os media citados não são credíveis (incluindo, vá lá, a Fox News), quais são, então, os media credíveis?
6. Como se percebeu desde a primeira hora, a estratégia de Trump tem sido descredibilizar os media (a última foi acusá-los de serem inimigos do povo americano), até agora razoavelmente bem-sucedida (instalar a dúvida sobre a credibilidade dos media é já uma vitória). Como se verá a seu tempo, não vai durar sempre.
7. Talvez o primeiro sinal de que já viu melhores dias sejam os «factos alternativos», que a administração jurou existirem, mas que os exemplos que foi dando liquidaram logo à nascença (não será por acaso que deixou de falar deles). As baixas causadas pelos media (demissão do conselheiro para a Segurança Nacional e afastamento do procurador-geral da comissão que investiga a interferência russa nas presidenciais) são outro sinal, a que se junta o facto de alguns media de referência terem visto crescer o número de leitores/ouvintes/espectadores, contrariando as recomendações da administração Trump e demonstrando que os leitores/ouvintes/espectadores têm cada vez maior apetência por notícias veiculadas por quem lhes garante maior rigor (leia-se os media tradicionais, mesmo com todos os defeitos).
8. «Factos alternativos» são, evidentemente, mentiras. E não é preciso andar para aí com uma lupa para ver que o Presidente foi, de longe, quem mais beneficiou com os «factos alternativos», para os quais contribui sempre que pode. O Presidente, a extrema-direita e a administração russa, que agora se vira para França e Alemanha, onde há mais trumps para eleger. Não falo de suposições, teorias da conspiração, verdades alternativas. Falo de factos a sério, contra os quais os mandarins de serviço declararam uma guerra que hão-de perder.
1. Kellyanne Conway, assessora de Trump e propagandista dos negócios da filha do Presidente, sugeriu que pelo menos 20 por cento dos jornalistas que cobriram as presidenciais americanas deviam ser despedidos, alertou para a existência de «factos alternativos» (deu um exemplo com um massacre que nunca existiu depois de já ter atribuído a Obama uma decisão que não tomou), e mais recentemente tentou impingir-nos a ideia de que o ex-presidente espiou Trump com um microondas.
2. Steve Bannon, especialista em fake news e ao que dizem responsável pela estratégia da Casa Branca, comentou que os media deviam calar-se, e posteriormente garantiu que a relação entre os media e a Casa Branca «só vai piorar» (dois dias depois CNN, BBC e New York Times seriam proibidos de aceder a um briefing na Casa Branca).
3. Lamar Smith, congressista, recomendou aos americanos que ignorem os media e obtenham as notícias directamente do Presidente, pois só assim terão «a verdade nua e crua».
4. Donald Trump, Presidente dos EUA, já chamou aos jornalistas tudo o que há de pior. Desonestos, asquerosos, escória, inimigos, lixo, a forma mais baixa de vida, os seres humanos mais desonestos da Terra — eis algumas pérolas de que me lembro.
5. Vale a pena lembrar que os jornalistas visados pelo Presidente trabalham para a CNN, ABC, Associated Press, NBC, Washington Post, New York Times, Politico, Atlantic, New Republican, Los Angeles Times, Financial Times, e a certa altura até para a Fox News, que Trump respeita consoante os dias. Se os media citados não são credíveis (incluindo, vá lá, a Fox News), quais são, então, os media credíveis?
6. Como se percebeu desde a primeira hora, a estratégia de Trump tem sido descredibilizar os media (a última foi acusá-los de serem inimigos do povo americano), até agora razoavelmente bem-sucedida (instalar a dúvida sobre a credibilidade dos media é já uma vitória). Como se verá a seu tempo, não vai durar sempre.
7. Talvez o primeiro sinal de que já viu melhores dias sejam os «factos alternativos», que a administração jurou existirem, mas que os exemplos que foi dando liquidaram logo à nascença (não será por acaso que deixou de falar deles). As baixas causadas pelos media (demissão do conselheiro para a Segurança Nacional e afastamento do procurador-geral da comissão que investiga a interferência russa nas presidenciais) são outro sinal, a que se junta o facto de alguns media de referência terem visto crescer o número de leitores/ouvintes/espectadores, contrariando as recomendações da administração Trump e demonstrando que os leitores/ouvintes/espectadores têm cada vez maior apetência por notícias veiculadas por quem lhes garante maior rigor (leia-se os media tradicionais, mesmo com todos os defeitos).
8. «Factos alternativos» são, evidentemente, mentiras. E não é preciso andar para aí com uma lupa para ver que o Presidente foi, de longe, quem mais beneficiou com os «factos alternativos», para os quais contribui sempre que pode. O Presidente, a extrema-direita e a administração russa, que agora se vira para França e Alemanha, onde há mais trumps para eleger. Não falo de suposições, teorias da conspiração, verdades alternativas. Falo de factos a sério, contra os quais os mandarins de serviço declararam uma guerra que hão-de perder.
23 de fevereiro de 2017
VALE TUDO NOS NEGÓCIOS? Pode não saber mais nada, mas é inegável que Donald Trump foi — talvez ainda seja — um empresário brilhante. Eis o que todos dizem, inclusive quem não votou nele. Como já perceberam, discordo. O alegado brilhantismo de Trump assentou, essencialmente, em três pontos: desastres empresariais que se tornaram em lucrativas falências, fuga (legal, até ver) aos impostos, e muita falta de escrúpulos (3.500 processos judiciais nos últimos 40 anos por falta de pagamento a pequenos empresários, só para dar uma amostra). Práticas que não tornam, para mim, ninguém brilhante, nem sequer respeitável. Como alguns tendem a esquecer e muitos a tolerar, não vale tudo nos negócios. E quando um candidato recusa tornar pública a sua declaração de impostos (uma tradição dos candidatos presidenciais) após ter sido eleito (como prometera fazê-lo durante a campanha), não há como não desconfiar de que algo não vai bem. Somados todos estes factores, a que poderiam juntar-se outros mais, brilhante só no modo como convenceu, e continua a convencer, quem votou nele. Resta saber até quando.
10 de fevereiro de 2017
AVANÇAR ÀS ARRECUAS. Apesar da bazófia e do fogo-de-artifício, o Presidente Trump está a render-se à «realpolitik». A parte má (ou boa, depende de que lado se observa) é que Trump diz hoje uma coisa, no dia seguinte diz outra — e se alguém notar a contradição foi uma invenção dos jornalistas, essa gente desprezível. Dois exemplos só nos últimos dois dias: depois da provocação inicial, os Estados Unidos vão, afinal, respeitar o princípio de uma «China única»; a transferência da embaixada americana de Telavive para Jerusalém vai, afinal, ser estudada «muito seriamente», pois a coisa «não é fácil». É uma espécie de avançar às arrecuas, o que não deixa de ser um avanço — e convenhamos que os recuos têm sido, até ver, melhores que os avanços. O único senão é que isto lhe descobre o que há por debaixo do famoso cabelo: Trump prometeu uma coisa, e está a fazer outra. Para um «não político», que se candidatou contra o que há de pior na política, é obra. E ainda a procissão vai no adro.
26 de janeiro de 2017
PEGAR FOGO AO INCÊNDIO. Reduzir os adversários do Presidente Trump a liberais, socialistas, comunistas, esquerdistas de várias proveniências e minorias de toda a espécie, é tão redutor como dizer-se que os seus apoiantes são da extrema-direita, racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, supremacistas brancos, membros do Ku Klux Klan. Todas as generalizações são estúpidas, nalguns casos perigosas. Os eleitores de uns e de outros são americanos, que na sua grande maioria votam ora nos democráticos ora nos republicanos — e que o Presidente que nos calhou em sorte tudo tem feito para pôr uns contra os outros. Se a América está primeiro, como prometeu durante a campanha, o Presidente devia cuidar de unir os americanos em vez de tudo fazer para os dividir — fomentando o ódio e a discórdia, disparando contra quem não pensa como ele e se atreve a confrontá-lo com as suas incontáveis mentiras, criando fracturas talvez irremediáveis. Quer-me parecer que tudo isto resulta de ignorância pura e dura, de que Trump já deu mostras para todos os gostos. Mas serve-me de fraco consolo.
20 de janeiro de 2017
TOMAR NOTA. Aldous Huxley publicou, em 1931, Music at Night And Other Essays (Música na noite & outros ensaios na tradução brasileira publicada pela L&PM), excelente volume de ensaios onde se lê a páginas tantas: «Houve um tempo, não muito tempo atrás, no qual o estúpido e o inculto aspiravam a ser considerados inteligente e cultos. A corrente da aspiração mudou sua trajetória. Não é nem um pouco incomum, agora, encontrar pessoas inteligentes e cultas fazendo o melhor que podem para simular estupidez e ocultar o fato de que receberam uma educação. Vinte anos atrás, ainda era um elogio dizer sobre um homem que ele era esperto, instruído, interessado nas questões da mente. Hoje, “erudito” é um termo de abuso desdenhoso.» Não sou um observador deste «fenómeno», mas atrevo-me a dizer que as coisas melhoraram pouco de então para cá. Continua a não se perder uma oportunidade de chamar «erudito» (agora é mais «intelectual», ou «pseudo-intelectual») a quem não se fique pela rama das coisas, obviamente um insulto. Se na época o «fenómeno» se deveria à circunstância de o conhecimento não estar ao alcance de todos, hoje, que está ali ao virar da esquina, custa entender. Comparem-se, por exemplo, os políticos/governantes de hoje aos políticos/governantes das últimas décadas. Não estariam os de ontem melhor preparados que os de hoje? Olhando um pouco para trás, constata-se que o conhecimento actualmente disponível não é proporcional ao conhecimento adquirido — e pouco se evoluiu de então para cá. Por que será?
10 de janeiro de 2017
MÁRIO SOARES. Goste-se, ou não (pessoalmente não apreciei sobretudo a fase final da sua actividade política), morreu um dos principais obreiros da democracia portuguesa, a quem os portugueses devem não ter passado de uma ditadura para outra. Só por isto, que não foi pouco, merece o respeito de quem não vacila entre a democracia e outro regime qualquer, entre a liberdade e a falta dela. Mas se nesta hora também há quem verta lágrimas de ocasião e a hipocrisia atingiu níveis insuportáveis, é chocante que alguns o tentem enlamear com «evidências» de um passado que nunca teve. Acusá-lo do piorio com base em boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis (repito: boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis), é simplesmente indecente. Isto para dizer o mínimo.
5 de janeiro de 2017
OS FACTOS. Não sei se os ciberataques russos a centros vitais da política americana terão, ou não, influenciado o desfecho das Presidenciais de Novembro, muito menos se terão contribuído para a vitória de Trump e consequente derrota de Hillary. Mas há um facto impossível de ignorar: variadíssimas agências governamentais americanas, CIA e NSA à cabeça, reiteraram hoje mesmo, perante o Senado, a existência de ciberataques durante a campanha eleitoral provenientes de altos funcionários do governo russo. Bem sei que os entusiastas de pós-verdades e aldrabices afins, cada vez em maior número, hão-de acreditar na mais mirabolante das histórias que se hão-de inventar para negar a evidência, e em última análise cada um crê no que quer. Mas nem por isso os factos, até ver insubstituíveis, deixam de ser o que são.
2 de dezembro de 2016
NA MORTE DE FIDEL. Vários anos após ter lido tudo o que então tive acesso (Animal Tropical, Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e O Insaciável Homem-Aranha, que com Carne de Cão constituem o chamado Ciclo de Centro Habana), regresso a Pedro Juan Gutiérrez, agora para ler Corazón Mestizo. Devoradas algumas dezenas de páginas, o livro não desilude, apesar da minha luta constante com o espanhol. Pelo menos mais dois títulos na calha: Carne de Cão e El nido de la serpiente. E agora, para celebrar o espírito da época, vou-me ali a um puro, hecho en Nicaragua, que me garantem pedir meças aos melhores dos melhores.
22 de novembro de 2016
A PÓS-VERDADE. Nunca, como hoje, foi possível verificar os factos de forma tão rápida e eficiente, e nunca, como hoje, os factos valeram tão pouco. Veja-se, por exemplo, Donald Trump. Mentiu descaradamente durante a campanha presidencial, os jornalistas descobriram-lhe a careca, e aconteceu o quê? Rigorosamente nada. Quem o achava assim ou assado não mudou de opinião, e não foram as constantes mentiras logo descobertas que mudaram alguma coisa. Chegámos a um tempo em que uma mentira no Facebook ou uma irrelevância no Twitter têm mais credibilidade e/ou importância que o jornalismo, crucial em democracia por mais falhas que tenha. Chegámos, como agora se diz, à pós-verdade, a um tempo em que as mentiras valem tanto, se não mais, que o melhor jornalismo. Será uma fase passageira. Mas tudo indica que vai deixar estragos irremediáveis.
17 de novembro de 2016
VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Afinal, o chamado Obamacare, que Trump prometeu exterminar (agora diz ser parcialmente aproveitável), não é tão mau como parecia. Afinal, Hillary Clinton, que Trump ameaçou pôr na cadeia, é «boa pessoa», pelo que não moverá uma palha para que isso suceda. Afinal, Barack Obama, até há pouco a encarnação do demónio, «fez coisas maravilhosas durante a sua Administração». Tudo isto uma semana após ser eleito, o que desde logo levanta uma questão: o que pensará destas bruscas — e escassamente fundamentadas — mudanças de opinião quem votou nele? Achará normal? Oxalá me engane, mas desconfio que grande parte dos votantes de Trump serão as primeiras vítimas de Trump.
10 de novembro de 2016
O PIOR DOS REGIMES EXCLUÍDOS TODOS OS OUTROS. Não há, até ver, o mais pequeno sinal de que tenha havido fraude eleitoral, pelo que a vitória de Donald Trump é incontestável. Mas fosse Hillary Clinton a vencer pela margem que Trump venceu, e estaríamos a assistir à contestação dos resultados — como Trump, aliás, ameaçou durante a campanha. Contestação que poderia não ser pacífica, como a que está a ocorrer em alguns pontos do país, mesmo assim lamentável. Não gostam de Donald Trump? Eu também não. Mas é preciso não esquecer que Trump foi eleito democraticamente. Repito: democraticamente. Será, por isso, o meu presidente. Por mais que isso me custe.
26 de outubro de 2016
TAPAR O NARIZ E FAZER A CRUZINHA. Se nada mudar até lá, em Novembro votarei Hillary Clinton, porque Donald Trump está fora de questão. Devo dizer, no entanto, que o farei contrariado, e não acredito que Hillary ponha em prática uma só medida que Bernie Sanders lhe terá imposto em troca do seu apoio. Duplicar o salário mínimo? Medicare aos 55 em vez de 65? Legalização da marijuana em todos os estados? Demagogia, demagogia, demagogia. Isto para já não falar das trapalhadas em que se meteu, e quando digo trapalhadas, desvalorizo muitíssimo. Talvez eu seja pobre a pedir (e escandalize muita gente), mas se Hillary conseguir manter as coisas como estão, já não é pouco.
14 de outubro de 2016
TRÂNSFUGAS. Se Donald Trump é tão mau como muitos republicanos o pintam (e eu nunca duvidei que é), por que não votam eles na candidata do Partido Democrático? A pergunta pode parecer absurda (os fanáticos acharão sempre que os seus são melhores que os outros mesmo quando tudo indica o contrário), mas ainda me parece mais absurdo votar num candidato mau só porque é «dos nossos». Quem põe o país acima da paróquia, só pode, a meu ver, pensar deste modo. Hillary Clinton tem todos os defeitos que quiserem. Pessoalmente, acho que tem muitos. Mas comparada com Trump, até os defeitos são virtudes. A recente descolagem da candidatura de Trump por parte de algumas figuras proeminentes do Partido Republicano, por causa da «conversa de caserna», peca por tardia. Descobriram agora que o sujeito não serve? Tratando-se de quem se trata, isto é, de gente experimentada na política, não se pode dizer que tenham andado distraídos. Restam, portanto, duas hipóteses: ou aproveitaram a ocasião para se desvincularem de uma derrota anunciada, e nesse caso moveu-os o puro instinto de sobrevivência política; ou ganharam, de repente, vergonha na cara, e nesse caso não se percebe por que demoraram tanto.
2 de outubro de 2016
A EUTANÁSIA E A FALTA DE SERIEDADE. A discussão sobre a hipotética legalização da chamada morte assistida (ou eutanásia) mal começou e logo se puseram aos gritos. Gonçalo Portocarrero de Almada, sacerdote católico, escreveu que a eutanásia não se distingue de um homicídio, e que pouco se diferencia da que foi praticada pelos nazis. Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta, caracterizou os que pretendem pôr termo à vida por tal método como «suicidas obsessivos». Laurinda Alves, jornalista, afirmou, de modo ofensivo, que os defensores de tal prática pretendem empurrar os desesperados que querem atirar-se de uma ponte em vez de procurar impedi-los. Anteontem, José Maria Seabra Duque, subscritor de uma petição contra a legalização da morte assistida, escreveu, no Público, que os defensores da ideia pretendem a «legalização do homicídio». Como é óbvio, as questões que envolvem a morte assistida são mais vastas do que estes senhores nos querem impingir. Não é preciso torturar os miolos para constatar que há fortíssimas razões de quem defende tal prática e fortíssimas razões de quem a rejeita — que devem, umas e outras, ser discutidas com seriedade, respeitando a ideia do outro. Não tenho uma posição definitiva sobre este assunto, mas à medida que vou conhecendo o argumentário de um lado e do outro, sou, tendencialmente, a favor da morte assistida. Mesmo que os cuidados paliativos melhorem substancialmente, como todos defendem e desejam. A minha dúvida não está no princípio, mas na prática e suas variantes — que mudam de país para país, e nalguns casos me deixam dúvidas. Dada a complexidade do assunto, não espero que do debate em curso na sociedade portuguesa se conclua o que quer que seja. Mas espero que seja esclarecedor, de modo a que cada um possa, por si só, concluir o que muito bem achar. E é preciso dizer — talvez sublinhar — que ninguém será obrigado a recorrer à eutanásia caso ela venha a ser legalizada, como alguns mentirosos insinuam. «O Estado deve promover a morte dos cidadãos que queiram pôr termo à sua vida?», pergunta Seabra Duque. Como é óbvio, legalizar a morte assistida não significa promovê-la. O jurista está, portanto, a confundir, deliberadamente, quem está pouco informado, talvez porque lhe faltem argumentos melhores. Como não bastasse, ainda tem o descaramento de dizer que «os portugueses merecem um debate sério». Como se tivesse autoridade para tanto.
29 de setembro de 2016
O DEBATE. Tenho para mim que nos debates cada um vê o que quer ver, e eu não serei excepção. Mas cá vai na mesma o que vi no tão aguardado debate de segunda-feira. Donald Trump não explicou por que não torna pública a sua declaração de rendimentos (como manda a tradição dos presidenciáveis), e ainda adensou as suspeitas de que tem algo a esconder (as autoridades estão a investigar). Justificou o não pagamento dos impostos federais como um acto de inteligência da sua parte, logo quem paga impostos ao Governo só pode ser estúpido. A tentativa de explicar, pela enésima vez, o episódio sobre a nacionalidade do Presidente Obama, que a sua opositora ouviu com indisfarçável deleite, roçou o patético. Sobre a violência racial, mostrou-se preocupado com os casos de Charlotte e Chicago, onde disse, certamente não por acaso, ter negócios, que a violência perturba. Foi incapaz de explorar as (inúmeras) fraquezas da adversária, especialmente quando ela apelidou os apoiantes de Trump de «racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos» e espécimes assim, na minha opinião uma burrice de todo o tamanho. Depois gastou grande parte do tempo a justificar, quase sempre mal, as trapalhadas em que se meteu em vez de contra-atacar. Negou, por exemplo, ter apoiado a guerra do Iraque, quando há provas (repito: provas) que demonstram o contrário. Até na resistência física, que segundo ele a adversária não tem, levou por tabela. Já Hillary, por quem não nutro especial simpatia, excedeu as expectativas. Por mérito próprio, mas, sobretudo, à custa do medíocre desempenho do adversário. Mostrou-se segura no essencial (pelo menos passou essa imagem). Foram várias as vezes em que assistiu com gozo evidente às tentativas de Trump explicar o inexplicável — metendo os pés pelas mãos, esbracejando para não se afundar. Acusou o adversário em casos concretos (racismo, xenofobia, misoginia, fuga aos impostos, etc.), enquanto Trump se limitou a fazer-lhe acusações vagas e pouco fundamentadas. Foi, em resumo, um debate que Hillary ganhou em toda linha, devo dizer que com alguma surpresa. Resta saber se mudou, e de que modo, a opinião de quem vota a 8 de Novembro.
25 de setembro de 2016
TOSTÕES E MILHÕES. Concordo com a generalidade das críticas que são feitas ao juiz Carlos Alexandre, mas numa coisa parece-me certo: há sempre uns milhões (expressão dele) para salvar bancos na falência, mas não há uns tostões (novamente expressão dele) para resolver a «gritante falta de meios» no sector da justiça, sobretudo na investigação. Inquirido se a desproporção entre tostões e milhões tem por finalidade fragilizar a capacidade de investigação, o juiz chutou para canto, atribuindo a endémica falta de meios à não menos endémica escassez de recursos. Mas eu chuto à baliza: convém a quem tem poder que a justiça funcione mal. Graças aos meios de que dispõem para se defender (bons advogados, dinheiro), assim têm muitíssimo mais probabilidades de escapar aos crimes de que possam ser acusados, e os exemplos conhecidos são mais que muitos. Haverá, certamente, excepções. Mas de momento não me ocorre nenhuma.
15 de setembro de 2016
AS MELHORAS. Fernando Lima, então assessor do ex-Presidente Cavaco, passou seis anos «no sótão» da Presidência da República «sem qualquer função atribuída» (palavras do próprio). Isto porque «plantou» no Público, a coberto do anonimato e por «indicação superior» (leia-se Cavaco), que o Presidente estaria a ser vigiado pelo Governo Sócrates, o DN descobriu-lhe a careca, e o então Presidente, após uma patética comunicação ao país sobre tão malcheiroso assunto, decidiu retirar-lhe a assessoria de imprensa e mandá-lo literalmente para o sótão (sabia demais para o mandar embora). Ora, este rocambolesco episódio, cuja versão de Lima agora conhecemos (acaba de publicar um livro onde conta a sua versão do que então terá ocorrido), encerra um facto pouco referido: tendo sido afastado do cargo que exercia e remetido para outro mais ou menos inexistente (o próprio Lima admitiu que assim foi), por que se manteve como colaborador de Cavaco por mais seis anos? Dir-me-ão que não ocupava um cargo político para que pudesse demitir-se ou ser demitido. Mas um sujeito que foi muito mais que um mero funcionário, e que não teve problema em viver meio ano à sombra do erário público sem nada que o justificasse, não tem autoridade moral para vir agora armar-se em vítima. Por aquilo que vi citado, o livro agora editado só traz uma novidade, se calhar nem isso: Fernando Lima mantém a mesma coluna vertebral que não teve na altura.
12 de julho de 2016
RESCALDO APÓS O RESCALDO. Agora que toda a gente se desfez em elogios e a poeira parece ter assentado, devo dizer que não dava um tostão por Fernando Santos, até por chegar à selecção com vários jogos de castigo para cumprir numa fase em que o apuramento para o Europeu estava em risco. Como se viu, enganei-me, e aqui me penitencio. Digo mais: embora agora seja fácil dizer isto, fez bem o seleccionador em colocar a fasquia lá em cima ainda antes do início da fase final. Se as coisas podiam não ter corrido bem, qualquer aprendiz de psicólogo também saberá que só colocando a fasquia lá em cima seria possível ultrapassá-la. Depois houve Éder, que ninguém sabe por que foi seleccionado (nem depois do golo que nos valeu o caneco me convenceu), e Renato Sanches, que toda a gente incensou e não foi, para mim, mais que uma vaga promessa. As boas surpresas foram Raphael Guerreiro, um luso-francês até há pouco a jogar numa obscura equipa francesa, e Rui Patrício, que por várias vezes evitou o pior. De resto, Pepe e Ronaldo confirmaram o que deles se esperava. O primeiro porque quando não se mete em sarilhos é um gigante. O segundo por tudo o que já demonstrou, inclusive no jogo da final, onde não foi decisivo dentro do campo (saiu lesionado) mas foi decisivo fora dele. Bem sei que, somado o que tivemos de melhor, não passámos de uma selecção mediana, que se limitou a cumprir sem brilho mas com eficácia. Mas o futebol bonito, que outrora também praticámos, há muito que não é eficaz. Os jogadores e os treinadores de hoje não são contratados para jogar — e fazer jogar — bom futebol, ou um futebol, digamos, vistoso. São contratados para ganhar. Como em tempos disse Mourinho, quem aprecia arte que vá ao ballet. De facto, o futebol ao mais alto nível sacrificou a arte no altar da eficácia. Para grande pena minha, devo dizer.
1 de julho de 2016
COISAS ESTÚPIDAS. «É costume ler por aí» que a Inglaterra é «um exemplo de democracia perfeita», escreveu Pedro Tadeu no DN. E escreveu mais: o actual sistema político inglês «é formalmente tão democrático como o processo que leva os herdeiros de Kim Il Sung a mandarem na Coreia do Norte». Não sei onde o colunista costuma informar-se, mas nunca vi quem afirmasse tal coisa, muito menos de forma que diz recorrente. Exemplos do que fala vinham, por isso, a calhar, até porque não estou certo que os tem. Depois, comparar o regime inglês ao que vigora na Coreia do Norte é muito mais que desonestidade intelectual: é branquear o regime do demente que lá manda. «A democracia inglesa é exemplo para alguém?», pergunta o cronista logo no título. A responda não será tão óbvia como sugere, e até nem me consta que os ingleses se queixem. A não ser que ele ache que os ingleses são estúpidos. O que seria demasiado estúpido.
24 de junho de 2016
JORNALISMO NO CHARCO. O Correio da Manhã (CM) resolveu ameaçar quem, nas redes sociais, espalhou «boatos, calúnias e mentiras» contra o jornal a propósito de Cristiano Ronaldo, suponho que na sequência do microfone que o futebolista arremessou para um charco. Desconheço a gravidade do que foi dito para o jornal ameaçar com os tribunais, mas se chegou onde chegou, presumo que foi grave. Acontece que o CM poderá ter todos os motivos para processar quem o terá difamado, mas não tem autoridade moral para se queixar de boatos, calúnias e mentiras. Afinal, o CM vive disso, por regra impunemente. Não aplaudo o comportamento de Ronaldo — que tem, é bom não esquecer, um longo historial de problemas com o CM, que a generalidade dos media ignorou. Mas que o episódio do microfone foi um atentado à liberdade de imprensa, como diz o CM e o presidente da Comissão da Carteira de Jornalista (que estranhamente não se tem pronunciado em casos bem mais graves), vou ali e já venho. É preciso ver que o repórter que se aproximou de Ronaldo violou os regulamentos para que isso fosse possível, pelo que em matéria de atentados foi o repórter quem começou. E, já agora, violou os regulamentos porquê? Porque teria uma pergunta cujos meios justificassem os fins? Como pudemos ouvir, a pergunta foi sobre nada, pelo que a resposta só poderia ser coisa nenhuma. Um microfone afocinhado na lama no fundo de um charco acabou, assim, por se tornar uma caricatura, a meu ver bastante benévola, do «jornalismo» que se pratica no Correio da Manhã.
16 de junho de 2016
CONFUNDIR O CU COM AS CALÇAS. O massacre de Orlando levanta dois problemas óbvios: a venda de armas, e o terrorismo islâmico. Do primeiro, fala-se abertamente. Do segundo, ignora-se até o impossível de ignorar. Porque o primeiro é um assunto mais ou menos popular (e mais ou menos consensual), e o segundo coloca o dedo em dois pontos hipersensíveis: a existência do islão radical, sempre pronto a matar; e a questão da homossexualidade, que não tem lugar nessa visão do islão — e por isso deve ser exterminada. Mas parece que a matança da Florida levantou um terceiro problema, menos óbvio e raramente discutido: a existência de homossexuais muçulmanos, cuja denúncia ou «saída do armário» pagam com a vida. É um bom sinal. Com seria um bom sinal discutir a sério o papel da mulher no islão (os crimes de honra, a homofobia, o machismo generalizado), outro assunto politicamente incorrecto de que os campeões da modernidade fogem como o diabo da cruz. A questão da venda de armas nos EUA deve ser encarada a sério? Com certeza que deve, embora esteja por demonstrar a relação causa-efeito, isto é, que a proibição de vender armas contribuiria para a redução dos crimes de sangue — e é bom lembrar que não há lei que impeça que se cometam massacres como o de Orlando. Mas o islamismo radical tem, igualmente, de ser encarado de frente, até porque neste caso está amplamente demonstrada a relação causa-efeito. Dir-me-ão que a proliferação de armas na sociedade civil mata mais gente que o islão radical, e contra factos não há nada a dizer. Só que discutir as armas em vez do islão radical a propósito da matança de Orlando, é confundir o acessório com o essencial. E o essencial neste caso é que o islão radical continua a matar perante o faz-de-conta de uma larga camada de bem-pensantes, que recusam trocar as reconfortantes certezas em que vivem pela mais cruel evidência.
3 de junho de 2016
PARECE QUE VALE TUDO. Lembro-me de um jornalista ter confrontado Donald Trump com um facto aparentemente embaraçoso envolvendo um dos seus muitos negócios e de o multimilionário ter respondido: «It's business.» Por momentos, o jornalista embatucou, mas logo passou adiante — como achasse que a pergunta estava respondida, e de modo irrefutável. Ora, a resposta de Trump não me convenceu, e a satisfação (ou resignação, não percebi bem) do jornalista até me surpreendeu. Vale tudo nos negócios? Devo dizer que não me choca por aí além o vale tudo nos negócios quando se trata de alguém que não é candidato a nada. Mas como não questionar quem é candidato a um cargo político que é suspeito de nas suas actividades profissionais ter desempenhos eticamente reprováveis? Imagino que Donald Trump está cheio destes casos, e até há suspeitas de casos piores. Mas, a avaliar pelo encolher de ombros do jornalista e pelo silêncio sepulcral que o episódio causou, isto não conta para nada. Os negócios tornaram-se uma espécie de religião que ninguém questiona, muito menos descrê. Muitíssimo apropriada uma passagem de Claudio Magris em A História Não Acabou: «O empresário é personagem de todo o respeito e de central importância no âmbito da colectividade que lhe é própria; torna-se uma figura ridícula (...) se for proposto como modelo universal humano.» É onde estamos.
25 de maio de 2016
PROGNÓSTICOS A POSTERIORI. Consta que ninguém do Partido Republicano prestou a devida atenção ao «fenómeno» Trump, e o resultado está à vista: é tarde para o travar. A explicação é plausível. Mas a verdade é que não me lembro de ver ninguém (politólogo ou aparentado, independente ou politicamente comprometido) avisar atempadamente para o perigo Trump, como alguns agora tentam fazer crer, embora sem darem um único exemplo. O que se viu até há pouco foi a ausência total de qualquer análise a sério sobre a candidatura do multimilionário, a meu ver muito por culpa dos media ditos de referência, que levaram demasiado tempo a levá-lo a sério. Ninguém, absolutamente ninguém, previu que Trump chegasse onde chegou, provavelmente a começar pelo próprio. Os especialistas (assim ditos para simplificar) que agora andam por aí a dar raspanetes aos supostos incautos fazem-me lembrar o célebre futebolista que, à cautela, só fazia prognósticos no final do jogo. É que pior do que não ser capaz de acertar um prognóstico, por definição antes do jogo, só mesmo agora dizer-se que se fez (e acertou) mas ninguém sabe onde nem quando. Mas imaginemos que se tem prestado a devida atenção a Donald Trump. Teria sido diferente? Ter-se-ia evitado que chegasse onde chegou? Como não sucedeu, impossível saber. Há, no entanto, um facto que se vai demonstrando um pouco por todo o lado: apesar da proliferação de especialistas, de quem é legítimo esperar-se prognósticos mais assertivos, a política continua a ser muito imprevisível. Até para os melhores.
17 de maio de 2016
O CORREIO DA MANHÃ SEMPRE A ENOJAR. Discordo com frequência do que escreve Daniel Oliveira, como se pode ver no blogue que mantenho desde 2002. Mas subscrevo o que disse no Expresso sobre o caso Fernanda Câncio vs Correio da Manhã. Devo acrescentar que também discordo, ainda com mais frequência, de Fernanda Câncio, e repetir que respeito algumas pessoas que colaboram com o Correio da Manhã e com a Correio da Manhã TV. Dito isto, insisto no que já disse: o «jornalismo» que lá se pratica causa-me nojo. Desde o esquema que encontraram para ter acesso ao processo que envolve Sócrates e companhia (dois jornalistas constituíram-se assistentes no processo só para terem acesso a informação privilegiada, que depois divulgam violando impunemente a lei), à insistência em linchar na praça pública quem não é, segundo a justiça, suspeito de coisa nenhuma (o caso de Fernanda Câncio, com a agravante de contar com a escandalosa conivência da mesmíssima justiça), passando pela arrogância de quem lá manda (bem patente numa recente entrevista ao i). O Correio da Manhã e derivados vendem às mãos-cheias, até às elites? Também os livros e as músicas de alguns vendem muitíssimo, até às elites, e nem por isso deixam de ser a merda que são. Votos de que os que hoje aplaudem as abjecções que nos querem vender como jornalismo não sejam, amanhã, vítimas dele.
10 de maio de 2016
CONCORDAR PORQUE SIM. Deixei de prestar atenção às razões dos que se opõem ao Acordo Ortográfico de 1990 (daqui em diante o Acordo). Porque julgo conhecê-las todas, e quem as conhece sabe que não são poucas. Já a favor, mal se publica algo vou logo ver, sempre na esperança de descobrir um argumento que me tenha escapado ou algum novo que mereça atenção. Foi o que fiz com o texto de Bacelar Gouveia, no DN da semana passada. Sem surpresa, nada que já não tenha sido dito. O alfabeto aumentou de 23 para 26 letras, congratula-se o professor. Depois, «é muito boa ideia não escrever letras que não se pronunciam, até por uma razão de economia de esforços». Como «há já vários anos que a nova ortografia é utilizada nos manuais e no ensino, e há já algumas gerações de alunos que aprenderam o português na nova ortografia (...), o pai ou a mãe poderem aprender com os seus filhos (...) a nova ortografia portuguesa!», escreveu Bacelar Gouveia, exclamação incluída. E considerou «legítimas e boas as suas finalidades» (que não enunciou), «bem como muito lógicas as suas soluções» (nem um exemplo para amostra). Terminou a arenga desta maneira: «(...) as queixas, os queixumes, as lamúrias, os remoques ou as piadas vêm basicamente de dois setores: os que são mais velhos, isso se compreendendo pela sua maior dificuldade e resistência à mudança; também de uma certa elite pensante que erigiu o Acordo Ortográfico a tema e moda de discussão fundamental, à falta de capacidade para terçar armas por coisas mais substanciais que verdadeiramente interessam a Portugal». Espreitei a página dele na internet, e fiquei esmagado com tão impressionante currículo. Logo à entrada, fiquei a saber que o «cidadão empenhado» está receptivo a todos os contributos e sugestões que queiram enviar-lhe, pois acredita «que é no espaço público do diálogo e dos valores que podemos construir um mundo melhor». Assim sendo, cá vai uma sugestão: que tal terçar armas em defesa do Acordo com argumentos a sério? Talvez os opositores da pantomina sejam «basicamente» os «mais velhos» (por mera resistência à mudança) e uma «certa elite» (presumo que ociosa ou ignorante). Mas o cidadão empenhado há-de ter reparado que uns e outros o fazem com argumentos, dezenas deles. Já o professor, nem um para amostra.
6 de maio de 2016
1 de maio de 2016
A REALIDADE NÃO INTERESSA PARA NADA. Daniel Oliveira escreveu, no Expresso, que a Uber é «um recuo civilizacional», que pode ser «encontrada (...) na generalidade dos países do terceiro mundo». Dois disparates seguidos, de certo modo surpreendentes. O recuo civilizacional é uma tolice tão óbvia que dispensa comentário. Já sobre os países do terceiro mundo, Daniel Oliveira citou dois exemplos que podem, segundo ele, ser comparados à Uber: o tuk-tuk em Bombaim, e o «chapa» em Moçambique. Como é evidente, são coisas distintas, como tal não podem ser comparadas. Mas eu dou-lhe um exemplo a sério de um país «do terceiro mundo» onde o serviço é cada vez mais utilizado: os Estados Unidos da América, por acaso onde nasceu a Uber. Como deixou claro no texto, o colunista tem um problema com a Uber porque a Uber é uma «empresa multimilionária», e com a agravante de ser americana. Que a empresa se tenha tornado «multimilionária» graças ao número crescente de utilizadores, nos Estados Unidos e fora dele, não lhe interessa para nada. O que lhe interessa é o que ele pensa, a doutrina que vem na cartilha, e quando os factos não encaixam no que ele pensa é porque há um problema com os factos. Nada que já não se tenha visto antes, mas continua a surpreender que gente de todos os quadrantes políticos continue a não ver os factos como tal. Sobretudo quando se é jornalista (julgo ser o caso dele), para quem os factos devem ser intocáveis.
30 de abril de 2016
A UBER AGRADECE. Ainda que de forma involuntária, os taxistas fazem os possíveis e os impossíveis para promover a Uber. Porque se a Uber é má para eles (e até ver não há dúvida que é), só pode ser boa para os utilizadores. Se a plataforma opera dentro da legalidade ou infringe as regras, não faço ideia. Por aquilo que se vai sabendo, os tribunais têm dúvidas, as leis existentes não ajudam, os governos hesitam em tomar medidas. Uma coisa, porém, parece certa: a Uber veio para ficar. Quem dantes utilizava os táxis e experimentou a Uber não tem dúvidas em escolher a segunda. Por quase tudo. Pelas viaturas. Pela qualidade do serviço prestado. Porque não tem que aturar os estados de alma dos taxistas, mais a lendária má-criação e as não menos lendárias aldrabices. Aliás, neste aspecto a Uber já mudou alguma coisa. Baixaram drasticamente as queixas sobre os serviços prestados pelos táxis desde que a Uber começou a operar, e há sinais de que o comportamento dos taxistas tem vindo a melhorar. São boas notícias, sobretudo para os taxistas, que a competição com a Uber passa, também, por aqui. A murro e a pontapé, às vezes nas barbas da polícia (sem que esta por vezes faça o que deve), não resolverão coisa nenhuma. Pelo contrário. Perderão as poucas razões que ainda terão.
21 de abril de 2016
QUE DEUS TENHA MISERICÓRDIA DO BRASIL. Trinta e seis dos 65 deputados que integraram a comissão que votou pela abertura do processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff, o chamado impeachment, está a contas com a justiça. Há 35 partidos políticos no Brasil, 25 dos quais com representação parlamentar — e mais 20 em processo de formação. Os detentores de cargos políticos mudam de partido como quem muda de camisa. Compram-se, literalmente, votos, quase sempre com dinheiros públicos. O ónus da prova está justamente invertido: os detentores de cargos políticos são desonestos até prova em contrário. Grande parte são suspeitos, ou mesmo acusados, de corrupção. O que têm em comum Michel Temer, que assumirá a Presidência no caso de Dilma ser afastada, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e Renan Calheiros, líder do Senado? Todos apoiaram a destituição da Presidente, e todos são acusados, ou suspeitos, de corrupção. Mais de metade dos 513 deputados enfrentam processos judiciais, maioritariamente por crimes de corrupção. No passado domingo, a votação do impeachment na Câmara de Deputados foi o que se viu: uma sucessão de episódios grotescos, que fizeram rir meio mundo e embaraçaram os brasileiros com vergonha na cara. Eis o contexto em que a Presidente enfrenta um processo de destituição — por violação da lei orçamental, que terá, segundo os opositores, servido para mascarar as contas públicas de modo a criar um ambiente favorável à sua reeleição (como sucedeu), e que, provavelmente devido à sua complexidade, nenhum deputado invocou no momento da votação. Como despudoradamente dizia o presidente da Câmara dos Deputados antes de votar a favor do impeachment, «que Deus tenha misericórdia desta nação». Mas parece-me, como agnóstico, que nem a infinita misericórdia de Deus chegará para tirar o Brasil do gigantesco buraco em que se meteu.
8 de abril de 2016
GRANDES COMEÇOS. Li, há coisa de dois anos, O Púcaro Búlgaro, do brasileiro Campos de Carvalho, a que cheguei graças a uma muito elogiosa referência de Cardoso Pires não me lembro em que livro. Descubro agora, na revista Bula, este magnífico começo de A Lua Vem da Ásia, que já tratei de adquirir. Ora leiam:
«Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.»
«Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.»
7 de abril de 2016
NO PASA NADA? Ouço, com surpresa, comentadores e jornalistas desvalorizar os «Papéis do Panamá», alegando uns que o assunto não surpreendeu, outros que o caso nem é notícia. Segundo eles, o assunto tem barbas, e o que acaba de ser revelado nada acrescenta ao que já se sabia. Ora, parecem-me visões apressadas. Se é verdade que as operações offshore agora reveladas não surpreendem ninguém, são precisos factos (repito: factos) para que se possa, se for caso disso, agir criminalmente. O que «toda a gente sabe» nunca serviu, até agora, para nada. Mas daqui em diante, com os factos já conhecidos (e os que se anunciam), se não se porá fim à bandalheira (não sou ingénuo a ponto de acreditar nesse cenário), nada ficará como dantes. Quem se meteu em alhadas, sabe agora que é muitíssimo maior o risco de ser descoberto, pelo que opta por escapulir-se para um esquema ainda mais sofisticado (e secreto), por regularizar eventuais irregularidades, ou por rezar aos santinhos para que nada lhe suceda. Resumindo, quem tencionava meter-se em aventuras pensa, agora, mais vezes. É um progresso.
5 de abril de 2016
QUEM TEM MEDO DA BANCA ESPANHOLA? Deus saberá (sou agnóstico) como me esforço para perceber os inúmeros esquemas de sacar dinheiro aos bancos (ao que parece uma actividade muito praticada em Portugal) sem que lhes sejam apresentadas garantias em caso de incumprimento, mas os esquemas são de tal modo intrincados (e tão mal explicados, mesmo pelos melhores jornalistas da área) que a maior parte das vezes só consigo saber que houve aldrabice, mas não exactamente porquê. Mas quando se diz que houve bancos que emprestaram dinheiro para investir em acções tendo as ditas como garantia, qualquer um percebe que se chegou ao puro delírio. (Dizem-me que, em troca de subornos, administradores houve que emprestaram quantias astronómicas sem quaisquer garantias, o que talvez explique, em parte, o problema.) Não acredito no alarmismo do Banco da Escócia, que ainda há pouco aconselhou os depositantes a tirar o dinheiro dos bancos — tão-pouco no Goldman Sachs, que logo veio desvalorizar o conselho. Mas como ignorar os problemas com os bancos que têm surgido um pouco por todo o lado, e que as soluções para os resolver continuem no domínio da astrologia? Fala-se agora, com a venda do Banif ao Santander (mas não só), do «perigo espanhol». Até o Presidente da República manifestou preocupação, não sei se genuína, se circunstancial. Honestamente, o «perigo espanhol» (antes o «perigo espanhol» que o perigo angolano, já agora) não me incomoda. Pelo contrário: sinto que o meu dinheiro estaria mais seguro nas mãos da banca espanhola que às ordens dos trampolineiros e seus cúmplices (leia-se supervisores) que têm administrado a banca nos últimos anos.
1 de abril de 2016
NÃO ME ESTRAGUEM O NEGÓCIO. Morais Sarmento considera que a «reacção portuguesa» à condenação de 17 activistas angolanos foi «desproporcionada». Porque também a China, com quem Portugal mantém importantes negócios, viola os direitos humanos, e os portugueses não se ralam. Sarmento tem interesses em Angola. Como advogado, pelo menos. Convém-lhe, por isso, defender o regime que o acolhe. Mas operando ele na área da justiça, esperar-se-ia uma de duas coisas: que denunciasse a farsa que foi o julgamento dos activistas, ou que estivesse calado. Assim não entendeu o ex-ministro da Presidência. Preferiu passar a mão pelo pêlo ao regime angolano, olhar pela vida dele. Como agora se diz, fica o registo para memória futura.
29 de março de 2016
TEORIAS QUE OS FACTOS DESMENTEM. Sergio Moro, juiz que preside à investigação Lava Jato, pode ter cometido erros, e tudo indica que cometeu. Mas querer torná-lo no vilão da pantomina em exibição, só mesmo por ignorância ou má fé. Acusam-no de ter uma agenda política, de querer «judicializar» a política. Não sei se terá, e se é essa a sua intenção. Sei é que este tipo de acusações já se tornou um clássico — que no final nunca se confirma. Tomáramos nós que os políticos/governantes fossem escrutinados como está, e bem, a ser escrutinado o juiz Moro. Seguramente que viveríamos num mundo em que a generalidade dos políticos/governantes serviriam melhor os que se propõem servir em vez de servirem os fins que todos sabemos.
22 de março de 2016
PARECE QUE ROUBOU POUCO. Numa coisa estão de acordo os defensores da ideia de que está em marcha, no Brasil, um golpe de Estado comandado pelo juiz Sergio Moro contra o actual Governo: Dilma Rousseff não deveria ter convidado Lula da Silva para o Governo numa altura em que o ex-presidente se arriscava a ser detido de um momento para o outro, e Lula da Silva não deveria ter aceitado o convite da Presidente porque, aceitando, pareceu uma fuga à justiça — e em política, como dizia o outro, o que parece é. Mas o episódio não é coisa pouca, como alguns querem fazer crer. «As suspeitas sobre Lula não são propriamente avassaladoras – ocultação de posse de um apartamento que ele diz ter desistido de comprar e de um banal “sítio” de férias – e francamente ridículas, se pensarmos no habitual para a escala brasileira», escreveu Rui Tavares. Vindo de quem vem, o argumento surpreende. Então Lula da Silva, a confirmarem-se as suspeitas que sobre ele recaem, não roubou o bastante para ter a justiça à perna? Bem sei que, de tão habituados à corrupção, os brasileiros só consideram ladrão o político/governante que rouba acima de determinado montante, e há ainda o peculiar argumento do «rouba, mas faz». Mas que seja um português a dizê-lo, ainda por cima um ex-deputado europeu e dirigente de um partido político, é extraordinário.
17 de março de 2016
REPÚBLICA DAS BANANAS. Muito citada por estes dias a célebre frase de Luiz Inácio Lula da Silva, textualmente mais ou menos assim: «Neste país, quando o pobre rouba, vai prá cadeia. Mas se for rico, vira ministro.» É que o ex-presidente Lula da Silva acaba de integrar o Governo de Dilma Rousseff (assumiu um cargo equivalente ao «nosso» primeiro-ministro), precisamente numa altura em que é suspeito de branqueamento de capitais e falsificação de documentos e foi pedida a sua prisão preventiva. Alçado a ministro, só o Supremo Tribunal Federal o poderá incomodar, o que é pouco provável. Como é evidente, a concretizar-se tal cenário (Lula já assumiu o cargo mas há várias acções em tribunal a pedir a nulidade da posse), o «negócio» tem todos os ingredientes para acabar mal. Para Lula, que fará adensar as suspeitas que sobre ele recaem — e, mais tarde ou mais cedo, lhe cairão em cima sob a forma de provas. E para Dilma, que acabará destituída do cargo (o processo de impeachment ganhou hoje um novo fôlego), e o mais que se verá. Enquanto a dupla cozinha a melhor forma de salvar a pele, a justiça, não isenta de críticas, vai fazendo o seu caminho (o juiz que lidera o processo acaba de divulgar escutas telefónicas de Lula com Dilma onde fica claro que a nomeação de Lula para a Casa Civil é uma fuga/obstrução à justiça). Como não bastasse, «a rua», que tem vindo a aumentar nas últimas semanas, ameaça pôr mais lenha na fogueira. Que os nossos «irmãos» me desculpem, mas isto é de mais até para os padrões brasileiros.
1 de março de 2016
TRUMP. Que Trump é um candidato fora do sistema, está dito e demonstrado. Mas está por demonstrar que um candidato fora do sistema constitui, por si só, uma mais-valia. Pesados os prós e os contras, prefiro um político experiente no mais alto cargo da Nação a um aprendiz, por definição alguém sem experência alguma. (Admito que noutros cargos de menor importância a inexperiência política possa ser benéfica, mas não neste caso.) A inexperiência política de Trump, aliada a uma colossal ignorância em questões que me parecem essenciais (e a que há que juntar uma natureza belicosa, nalguns casos incendiária), constituem, por si só, uma mistura demasiado perigosa. Queiramos, ou não, um presidente terá forçosamente que decidir em matérias sobre as quais precisa de saber o mínimo, e Trump parece-me longe de saber esse mínimo. Pelo que já deitou da boca para fora, desconhece assuntos essenciais, o que é preocupante. O politicamente incorrecto e a frontalidade, características tão apreciadas por alguns (que o manterão à frente das sondagens há meses a fio contra todas as previsões, até dos mais reputados especialistas), não são bons por si mesmos, como muitos parecem acreditar. Um candidato que instiga o ódio, faz gala de ideias racistas e xenófobas, macaqueia um deficiente, que pratica a misoginia e a demagogia, que não só defende a tortura mais ou menos em vigor como acha que se deve ir mais longe, é mau de mais para ser verdade. Pior: se for eleito, ameaça tornar-se um pesadelo — que os americanos, mas não só, pagarão caro.
29 de fevereiro de 2016
MISTURAR ALHOS COM BUGALHOS (2). Outra coisa sobre o cartaz do Bloco, sobre o qual não tenho opinião, e sendo agnóstico não me afecta: repararam que Viana se refere aos energúmenos que matam em nome de uma certa ideia de Deus como «radicais islâmicos»? Assim mesmo, entre aspas, duvidando que os homicidas são mesmo radicais islâmicos?
MISTURAR ALHOS COM BUGALHOS (1). Luís Miguel Viana comparou os protestos dos católicos contra um cartaz do Bloco de Esquerda aos protestos dos radicais islâmicos sempre que estes vêem ofendida a sua religião. «Ou bem que se pode brincar com a religião e com os seus protagonistas - sejam eles do islão, católicos ou outros - ou, então, não há qualquer legitimidade para andar a distinguir entre "radicais islâmicos" e "os sentimentos religiosos do povo português"», escreveu no DN. E pergunta o consultor de comunicação: «(...) se um jornal deve poder publicar um desenho do profeta Maomé em pose de sodomização, e se um artista deve poder publicar um Manifesto Anti-Dantas, porque é que um cartaz político não há de poder ofender sentimentos religiosos?» Como é evidente, o problema não está em brincar, irritar, provocar, ofender, o que seja. O problema está na forma como se exprime quem não gosta. Os radicais islâmicos reagem matando, os católicos protestando nos media. É, convenhamos, uma diferença e tanto. Comparar a indignação de uns com a indignação de outros, no caso radicais islâmicos e católicos, é muito mais que ignorância ou má-fé: é desonestidade intelectual.
25 de fevereiro de 2016
CLAQUES (2). Reza a lenda que «Com Fafe Ninguém Fanfe». Há, inclusive, um monumento a eternizá-la, mas como todas as lendas, também nesta não se sabe bem onde termina a verdade e começa a ficção — ou o inverso. Para não variar, existem várias versões, mas com um ponto em comum: a existência de um varapau, que alguns dizem de marmeleiro. Foi disto que me lembrei quando li que Fernando Madureira, chefe dos Super Dragões, foi a Fafe importunar um cidadão que cometeu o crime de ser pai do «gatuno» (palavreado dele ou de quem o acompanhou) que assinalou não sei que penálti que não lhe convinha. De facto, são tantos os episódios protagonizados por este sujeito sem que as autoridades tenham feito o que deviam que começo a pensar se não seria mais eficaz aplicar a justiça de Fafe em casos destes. Mas há mais notícias frescas sobre o sujeito, por alcunha o Macaco: segundo o Jornal de Notícias, Fernando Madureira e mais sete beneméritos dos Super Dragões integram uma equipa de futebol que tem por hábito espancar os adversários quando as coisas não correm bem, a ponto de já haver equipas que se recusam a jogar contra eles. Uma pesquisa no Google dá conta de incontáveis «proezas» de que Madureira é protagonista, de que o episódio de Andorra (onde contribuiu para furtar tudo o que lhe apareceu pela frente e lançar o caos na cidade), de que ainda teve a desfaçatez de se gabar num livro, demonstra bem a natureza da criatura. Como há anos que anda a fazer desacatos e a ameaçar meio mundo sem que nada lhe suceda, impõe-se a pergunta: quem o protege e porquê? As autoridades têm medo dele? Por que razão, já agora, gozam as claques da bola de especial protecção das autoridades policiais, convém lembrar que pagas pelos contribuintes, e de tanta benevolência? Ou há aqui qualquer coisa que me escapa, ou isto é impróprio de um estado direito.
19 de fevereiro de 2016
REMÉDIOS QUE MATAM. A seguir com muita atenção o braço de ferro entre as polícias federais americanas e a Apple. As primeiras conseguiram que uma juíza obrigasse a Apple a criar um sistema operativo específico que lhe permita aceder ao telemóvel de um terrorista. A segunda respondeu que não irá acatar a decisão, alegando que, a fazê-lo, abrirá um precedente gravíssimo e de consequências terríveis (a Apple teria que criar uma espécie de chave mestra capaz de «abrir as portas» a toda a espécie de malfeitorias). Conscientes, ou não, das consequências que tal exigência traria, para resolverem um caso específico as autoridades americanas criariam, assim, um gigantesco problema de segurança à escala global, um autêntico monstro. Sim, é disso que se trata caso a Apple ceda ao que lhe exigem — o que, até ver, não irá acontecer. Até que haja sinais em contrário, não estou seguro que o senso comum acabe por prevalecer. As polícias, mesmo as mais bem preparadas, continuam, nesta matéria, perigosamente obsoletas, como tem sido amplamente demonstrado — e desconfio que os tribunais não estarão melhor. Ou então, como dirão os entusiastas das teorias da conspiração (de que não sou adepto), estarão de má-fé, coisa que honestamente não creio.
11 de fevereiro de 2016
CARREIRA E OS EMIGRANTES. Parece que Tony Carreira é muito popular nas comunidades emigrantes, que lhes compram os discos e esgotam os concertos. Assim sendo, não se pode dizer mal da sua música nem rebater as suas opiniões — como fez o incontinente ministro Santos Silva, que no calor do caso do penduricalho que o Governo francês resolveu atribuir ao cançonetista afirmou que um dos sonhos «de sociólogo era assistir a um concerto de Tony Carreira». Pelo contrário: o Governo português deve apoiar o artista, porque sendo ele popular entre os emigrantes, não o fazer é desconsiderar esses mesmos emigrantes — e reza a lenda que os emigrantes merecem todo o respeito e um par de botas. E quem assim não pensar, fogueira com ele. Ora, isto causa-me comichão na moleirinha. Não se pode gozar com os emigrantes? Dizer que a música do sujeito não me interessa (para não ir mais longe) é uma blasfémia? Era só o que faltava. Eu, que sou emigrante, devo dizer, antes de mais, que gostava que me tratassem como toda a gente (leia-se emigrante e não emigrante). Simplificando, gostava que me tratassem sem condescendência, nem paternalismo. Sem «coitadismos», nem hipocrisia. Dito isto, Tony Carreira pode protestar contra o que muito bem entender, repetir até à exaustão que o país não o merece e só será reconhecido depois de morto (onde é que eu já ouvi isto?) que não me incomoda. Infelizmente, da música que vai derramando por aí, que involuntariamente vou ouvindo, já não posso dizer o mesmo.
5 de fevereiro de 2016
MUÇULMANOS. Eu sei que a pergunta é cruel, eventualmente injusta, mas como distinguir um muçulmano bom de um muçulmano mau? Percebo que os muçulmanos moderados não apreciem ser vistos com desconfiança e eventualmente marginalizados, mas há uma coisa que nunca percebi: por que nunca se vê uma manifestação de muçulmanos contra as práticas dos seus irmãos radicais sempre que elas sucedem (e sucedem demasiadas vezes), demarcando-se e condenando tais práticas? Que eu saiba, e não ando propriamente distraído, só houve uma tentativa nesse sentido — em França, logo a seguir à canificina de Novembro passado, que acabou por não ser autorizada por razões de segurança. Em vez de se lamentarem, quero acreditar que com razão, os muçulmanos precisam de fazer muito mais para dissipar a suspeita que paira sobre eles. Para bem deles, e para bem de todos.
1 de fevereiro de 2016
PARA SEMPRE. Graças a um ficheiro onde registo estas coisas, de Vergílio Ferreira li os cinco primeiros volumes de Conta-Corrente. Fora isso, há anos que repousam nas estantes Pensar, Estrela Polar, Nítido Nulo, Em Nome da Terra, Manhã Submersa, Aparição, Para Sempre, e Até ao Fim. Quase todos começados, alguns bastante adiantados, mas nenhum concluído. Como leio vários ao mesmo tempo, são incontáveis os livros em lista de espera, alguns talvez para sempre. Agora, que se anuncia a reedição da obra completa, a propósito do centenário do seu nascimento, já sei que não vou resistir a algumas que se anunciam em e-book — desde logo os restantes quatro volumes de Conta-Corrente, toda a obra ensaística, provavelmente um ou outro livro que já tenho em papel mas que, por razões práticas, prefiro em e-book. Logo a seguir a Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Cardoso Pires, Vergílio Ferreira foi dos escritores portugueses que mais me marcou, apesar de só ter lido, repito, metade dos diários. É com satisfação que leio o que sobre ele se anuncia para este ano, tanto mais que, duas décadas após a sua morte, me parece injustamente esquecido.
21 de janeiro de 2016
VIVER FAZ MAL À SAÚDE. Provavelmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não chegou a essa conclusão, mas tenho fortes razões para suspeitar que viver faz mal à saúde. Pior: é perigoso. Como sabemos pelos vários exemplos que vamos conhecendo, um tipo está sujeito a empandeirar de um momento para o outro, ou a diagnosticarem-lhe uma daquelas doenças que deprime só de pensar. É um facto que a OMS se tem esforçado para nos salvar — proibindo o excesso de sal, recomendando cortes obscenos no açúcar, advertindo que o uso excessivo de certas carnes provocam o cancro, e um ror de outras maleitas de que é bom nem falar. Mas nós, casmurros moldados por gerações de casmurros, fazemos que não ouvimos, que não sabemos, que os alarmes são conspirações da indústria alimentar — e atiramo-nos aos chouriços como uns desalmados, aos bifes como se não houvesse amanhã, e aos pastéis que vão da raia galega às praias do Algarve sem a mais leve discriminação. Resumindo, fazemos tudo ao contrário do que recomenda a santíssima OMS, continuando a praticar com fervor o princípio de que o que faz mal só pode ser bom. Se correr mal, bateremos a bota com a doença da moda. Se correr bem, esticaremos o pernil porque sim. Pelo sim, pelo não, sigamos o chouriço.
15 de janeiro de 2016
LUZ EM TEMPO DE TREVAS. Quatro da manhã num aeroporto deserto, primeiro dia de 2016. Retomo as aventuras de Bandini (Sonhos de Bunker Hill, Alfaguara), e avanço uma dúzia de páginas sempre com um sorriso — apesar de a ocasião não me estar de feição para sorrisos. A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Ahab), A Estrada para Los Angeles (Alfaguara), e Pergunta ao Pó (Ahab), que também li com prazer, completam o que viria a designar-se O Quarteto Bandini. Para quem não sabe, Bandini é uma espécie de alter ego de John Fante, que por sua vez inspirou o alter ego de Bukowski (Henry Chinaski) — e foi, como outros autores (Mann, Kafka, Zweig, Hemingway), muito inspirado por Hamsun, escritor norueguês até há pouco injustamente votado ao ostracismo por ter simpatizado com uma causa errada (o nazismo). Fante não é um nome incontornável da literatura norte-americana, muito menos americana, e ainda menos universal. Mas é um escritor que ainda hoje, mais de três décadas após a sua morte, nos diz infinitamente mais que alguns que o tentaram imitar ou lhes serviu de inspiração — e quase todos os que hoje andam para aí a somar prémios e palmadinhas nas costas cujo pudor me impede de nomear.
11 de janeiro de 2016
NÃO EXAGEREMOS. Se a notícia da morte de David Bowie não me parece exagerada, como disse Mark Twain a propósito da falsa notícia da sua própria morte, já me parece que os elogios ao músico inglês são manifestamente exagerados. Bowie foi um génio? Um farol? Um Messias? Se a ideia é homenageá-lo, convém poupar os disparates.
6 de janeiro de 2016
24 de dezembro de 2015
E AGORA O BANIF.
1. Perante a venda do Banif, segundo o primeiro-ministro a solução menos má, o anterior governo encolheu-se em toda a linha. A única coisa que se lhe ouviu foi que precisava de saber mais detalhes sobre o negócio com o Santander para se poder pronunciar, que tinha algumas dúvidas, e perante o anúncio de um inquérito parlamentar não manifestou a mais leve discordância. Tudo o resto foram explicações atabalhoadas, silêncios comprometedores. Se isto não é um claro assumir de culpas, vou ali e já venho. Aliás, viu-se ontem de novo, quando o PSD, num gesto humilhante que tentou passar como magnânimo, foi obrigado a abster-se para que o Orçamento Rectificativo (resultante do buraco do Banif) fosse aprovado, quando todos os outros partidos, à excepção do PS, votaram contra, incluindo o CDS-PP, ex-parceiro de coligação. Percebendo que não seriam necessários os seus votos para viabilizar o Orçamento, Partido Comunista, Bloco de Esquerda e CDS-PP deixaram que o PSD, que ainda há dias jurava nada fazer para sustentar este Governo, pagasse a conta. Para quê sujar as mãos com tão malcheiroso assunto se não havia necessidade?
2. Parece que o governador do Banco de Portugal garantiu, em 2013, que o Estado ganharia 10 por cento com o empréstimo que o mesmo Estado fez ao Banif. Como é sabido, a parte boa do Banif acaba de ser vendida ao Santander, e a parte má (ao que parece 2,255 mil milhões de euros) vai ser paga pelos contribuintes. Como o governador, por esta e por outras, não tem a dignidade de sair pelo seu próprio pé, que tal darem-lhe uma mãozinha?
3. Obviamente que os bancos não são todos iguais. Mas são cada vez mais os bancos que ontem eram seríssimos e à prova de bala e acabaram da forma que se conhece. Agora foi o Banif, ontem foi o BES, anteontem o BPN e o BPP, provavelmente amanhã será quem hoje é seríssimo e à prova de bala. Todos pelas mesmas razões: negligência, incompetência, vigarices de toda a espécie, às vezes tudo isto junto.
4. Quem é o responsável (ou responsáveis) pela hecatombe do Banif? Li várias notícias em vários jornais e não consegui vislumbrar. Vi que o banco foi para o maneta por razões várias (por causa da conjuntura, do sistema, do efeito sistémico, talvez do aquecimento global), mas responsáveis, até ver, é que não há. Se tudo correr como habitualmente, esta gente que hoje não tem nome nem rosto há-se estar, daqui a um mês, já devidamente reciclada, à frente doutra manjedoura qualquer.
5. O meu dinheiro sempre estará mais seguro no banco que debaixo do colchão, mas começo a duvidar. E não falo de investimentos, contas-poupança, produtos assim. Falo de contas à ordem, que pelo caminho que as coisas estão a levar, corro o risco de um dia passar um cheque sem fundos por me terem desviado os ditos para um esquema qualquer. Sei, apesar de tudo o que por aí vai, do que já se passou e do que estará para vir, que os bancos continuam a merecer, se não a confiança total, o benefício da dúvida. O problema é que a dúvida, num banco, já é má que chegue.
1. Perante a venda do Banif, segundo o primeiro-ministro a solução menos má, o anterior governo encolheu-se em toda a linha. A única coisa que se lhe ouviu foi que precisava de saber mais detalhes sobre o negócio com o Santander para se poder pronunciar, que tinha algumas dúvidas, e perante o anúncio de um inquérito parlamentar não manifestou a mais leve discordância. Tudo o resto foram explicações atabalhoadas, silêncios comprometedores. Se isto não é um claro assumir de culpas, vou ali e já venho. Aliás, viu-se ontem de novo, quando o PSD, num gesto humilhante que tentou passar como magnânimo, foi obrigado a abster-se para que o Orçamento Rectificativo (resultante do buraco do Banif) fosse aprovado, quando todos os outros partidos, à excepção do PS, votaram contra, incluindo o CDS-PP, ex-parceiro de coligação. Percebendo que não seriam necessários os seus votos para viabilizar o Orçamento, Partido Comunista, Bloco de Esquerda e CDS-PP deixaram que o PSD, que ainda há dias jurava nada fazer para sustentar este Governo, pagasse a conta. Para quê sujar as mãos com tão malcheiroso assunto se não havia necessidade?
2. Parece que o governador do Banco de Portugal garantiu, em 2013, que o Estado ganharia 10 por cento com o empréstimo que o mesmo Estado fez ao Banif. Como é sabido, a parte boa do Banif acaba de ser vendida ao Santander, e a parte má (ao que parece 2,255 mil milhões de euros) vai ser paga pelos contribuintes. Como o governador, por esta e por outras, não tem a dignidade de sair pelo seu próprio pé, que tal darem-lhe uma mãozinha?
3. Obviamente que os bancos não são todos iguais. Mas são cada vez mais os bancos que ontem eram seríssimos e à prova de bala e acabaram da forma que se conhece. Agora foi o Banif, ontem foi o BES, anteontem o BPN e o BPP, provavelmente amanhã será quem hoje é seríssimo e à prova de bala. Todos pelas mesmas razões: negligência, incompetência, vigarices de toda a espécie, às vezes tudo isto junto.
4. Quem é o responsável (ou responsáveis) pela hecatombe do Banif? Li várias notícias em vários jornais e não consegui vislumbrar. Vi que o banco foi para o maneta por razões várias (por causa da conjuntura, do sistema, do efeito sistémico, talvez do aquecimento global), mas responsáveis, até ver, é que não há. Se tudo correr como habitualmente, esta gente que hoje não tem nome nem rosto há-se estar, daqui a um mês, já devidamente reciclada, à frente doutra manjedoura qualquer.
5. O meu dinheiro sempre estará mais seguro no banco que debaixo do colchão, mas começo a duvidar. E não falo de investimentos, contas-poupança, produtos assim. Falo de contas à ordem, que pelo caminho que as coisas estão a levar, corro o risco de um dia passar um cheque sem fundos por me terem desviado os ditos para um esquema qualquer. Sei, apesar de tudo o que por aí vai, do que já se passou e do que estará para vir, que os bancos continuam a merecer, se não a confiança total, o benefício da dúvida. O problema é que a dúvida, num banco, já é má que chegue.
23 de dezembro de 2015
TRUMP E OS REPUBLICANOS. Já ouviu que o Partido Republicano correrá com Donald Trump quando chegar a «hora da verdade»? Eu já ouvi várias vezes, e até aos mais reputados analistas. Mas, por razões que expliquei noutros textos, cada vez tenho mais dúvidas. O que vi no mais recente debate entre os candidatos à nomeação republicana melhor posicionados nas sondagens confirmou as minhas dúvidas: não vi quem fosse melhor que Trump, que até facturou de novo quando assumiu, com a frontalidade que se lhe conhece (e lhe tem granjeado grande parte da simpatia), que pondera ir a votos mesmo que o Partido Republicano o rejeite, o que ainda seria pior para os republicanos — embora, a meu ver, seja um cenário improvável. Em escassos meses, a candidatura de Trump passou de um fait divers a um caso sério, que como tal deve ser encarado. Surpreender-me-ia, apesar disso, que fosse o escolhido para defrontar Hillary Clinton na recta final da campanha — isto dando de barato que Hillary será a eleita do Partido Democrata, o que ainda não é seguro. Mas se acho improvável um duelo entre Hillary Clinton e Donald Trump, duvido, para não variar, que seria, nesse caso, um passeio para Hillary Clinton, como todos garantem. Deitar foguetes antes da festa, só com a certeza que haverá mesmo festa. E eu volto a duvidar.
18 de dezembro de 2015
TÓQUIO, 1984. Há quem diga que este é o melhor Jarrett a solo. Se não é, é o melhor registado em vídeo que vi até hoje. (Convém lembrar que Jarrett tem concertos notáveis a solo que não foram registados em vídeo.) Jarrett em Tóquio é notável musicalmente e visualmente, o que raramente acontece. Ouçam e verão que os adjectivos não pecam por excesso.
LOST IN TRANSLATION. Soube por Vila-Matas que Grande Sertão: Veredas foi «torpemente» traduzido para inglês. Não vi a tradução, mas não me espantaria. Ora vejam só o primeiro parágrafo da obra-prima de Guimarães Rosa, que o autor catalão considera o Ulisses brasileiro:
« — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.»
Como se traduz isto para inglês? Francês? Alemão? Para outra linguagem que não seja a do sertão, pelo menos, da época?
« — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieiram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tido de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o que aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá — fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.»
Como se traduz isto para inglês? Francês? Alemão? Para outra linguagem que não seja a do sertão, pelo menos, da época?
11 de dezembro de 2015
UMA COISA NUNCA VISTA. Não vou repetir o que já disse de Donald Trump. Mas há uma coisa que não vejo dita, e parece-me oportuno salientar: Trump expõe todos os dias a mediania — para não dizer mediocridade — dos restantes candidatos presidenciais da sua área política. Que no início da corrida à nomeação do Partido Republicano tenha tido grande popularidade, compreende-se. Que a seis meses das primárias e dezenas de barbaridades depois continue a liderar as sondagens à direita, surpreende. Continuo a achar improvável que Trump ganhe a nomeação republicana, e não acredito que se candidate como independente caso falhe o objectivo. Mas que já tenha batido todos os recordes de longevidade política, que talvez nem o próprio alguma vez imaginou, é preocupante. É verdade que nunca os populistas se distinguiram por grandes sofisticações. Mas nunca se tinha visto um pantomineiro tão boçal.
4 de dezembro de 2015
CORREIO DA MANHA. Como é do conhecimento geral, o Correio da Manhã (e outros meios da Cofina, mas sobretudo o Correio da Manhã) tem dado largo espaço ao «caso José Sócrates» — antes de ter sido preso, quando esteve preso, e depois de ter sido libertado. Diz que é seu dever informar e esclarecer a opinião pública, que os leitores têm o direito de saber a verdade. Ora, tanto tempo e tantas manchetes depois de Sócrates ter sido constituído arguido por suspeitas várias, por que não sabemos quase nada? Para quem garante ter vindo a publicar matéria de crucial importância para os leitores perceberem o caso, a ponto de alguns dos seus jornalistas se constituírem assistentes no processo para melhor poderem informar-nos, convenhamos que é pouco. Sei que não é popular defender Sócrates, que ataquei em várias ocasiões quando foi primeiro-ministro — e está, até ver, muito bem defendido. Mas incomoda-me o vale tudo para se crucificar quem não se gosta, e irrita-me que um certo tipo de jornalismo (para não lhe chamar outra coisa) invoque o que diz ser a liberdade de imprensa para fazer linchamentos mediáticos.
QUANDO A ESMOLA É GRANDE, O POBRE DESCONFIA. Bem sei que o caso mete espiões e polícias secretas, ingredientes geralmente tratados com delicadeza e discrição — e sobre os quais sempre que há notícias o comum dos mortais nunca fica a saber onde acaba a realidade e começa a lenda, o que são meras teorias da conspiração ou conspirações a sério. Talvez por isso estranhe que o ex-espião Silva Carvalho, que ainda há pouco se deu ao luxo de dizer que o modus operandi das secretas é «90 por cento ilegal», esteja a ser tão cooperante com a justiça, que o constituiu arguido no «caso das secretas» por suspeita de crimes vários (violação do segredo de Estado, abuso de poder, acesso ilegítimo a dados pessoais e corrupção passiva). Infelizmente, ainda não vi quem esclarecesse os motivos para tanta generosidade.
30 de novembro de 2015
TERMINAR O MANDATO SEM DIGNIDADE. Fez bem o Presidente Cavaco anunciar em comunicado a indigitação de António Costa como primeiro-ministro. Poupou-nos a um discurso penoso, e poupou-se a um exercício que lhe seria ainda mais penoso. Mas com ou sem discurso, de uma coisa Cavaco já não se livra: foi, na opinião de muitíssima gente (a minha incluída), o presidente mais ridículo da democracia portuguesa. Foram vários os episódios que protagonizou que mancharam o cargo que ainda desempenha. Desde o inacreditável discurso que pôs fim à não menos inacreditável historieta das escutas, ao discurso em que ameaçou excluir de uma solução governativa dois partidos com representação parlamentar que na hora todos perceberam que não podia fazê-lo — recentemente acrescentados com um incidente com o Parlamento e com mais um lamentável discurso na tomada de posse do novo Governo. Como já é tarde para o ajudar a terminar o mandato com dignidade, como o próprio Cavaco em tempos pediu para o então Presidente Mário Soares, resta-nos a boa notícia de que deixará de ser Presidente daqui a três meses.
21 de novembro de 2015
PARA QUE NADA FIQUE COMO DANTES. Não sei se o Presidente Hollande agiu bem quando decidiu reforçar a ofensiva militar contra o Estado Islâmico logo a seguir aos massacres de Paris, embora me tenha parecido uma reacção a quente — e as reacções a quente não costumam dar bons resultados. Mas como ainda não vi quem se opusesse ao reforço da ofensiva militar contra quem, pelo menos numa fase inicial, tem que ser contido pela via das armas, alguma coisa mudou. Claro que o facto de Hollande ser de esquerda facilita, e muito. Fosse ele de direita, e já meio mundo lhe tinha caído em cima. (Recordo que sou independente, mas em matéria de defesa geralmente alinho à direita.) Os governos ocidentais parecem acordar de um pesadelo que cresce de dia para dia, que não se vê como possa conter-se com paninhos quentes — como, por acção, mas sobretudo omissão, se tentou até agora. Governos ocidentais de direita e de esquerda, o que é uma novidade — e, na minha opinião, um progresso. Como escrevi por ocasião do 11 de Setembro de 2001, estamos diante um cenário em que é preciso matar para não morrer. Sim, não há que ter medo das palavras: matar, ou morrer. É tempo de parar de fingir que se não vê o que todos vêem. De desvalorizar o que é demasiado sério para se desvalorizar, de relativizar o que não é relativo, de justificar o injustificável. De adoptar medidas que melhor protejam os cidadãos, pagando os custos (prescindindo de algumas liberdades individuais, por exemplo) que elas terão. A matança indiscriminada de inocentes em nome de uma ideia de Deus não merece contemplações. É tempo, por isso, de agir. De forma determinada, e com eficácia. De disparar primeiro e perguntar depois se preciso for.
20 de novembro de 2015
PÉROLAS A PORCOS. Li, há uns anos, uma biografia de Modigliani (Modigliani: A Life, de Jeffrey Meyers), e fiquei a saber que o pintor italiano viveu com grandes dificuldades, morreu doente e na miséria. Choca, por isso, saber que acaba de ser vendida, por uma quantia obscena (158,3 milhões de euros), uma das suas obras (Nu Deitado). Não que me escandalize o valor da obra, até porque a pintura é uma coisa única, irrepetível. Mas é irónico ver obras de quem passou toda a espécie de dificuldades, que muitas vezes usou para pagar a renda de casa e ir às meninas, serem disputadas pelos senhores do dinheiro, que as vêem apenas como valiosos «activos». Morreria de susto o pintor caso voltasse do sítio onde está. Mas suspeito que não sem antes rir a bom rir com a parolice de alguns media norte-americanos (CBS, CNBC, Bloomberg TV e The Financial Times), que ilustraram a notícia do Nu com a reprodução censurada. Se ele se tivesse lembrado disso enquanto por cá andava, talvez não tivesse morrido na miséria.
JORNALISMO DE FACÇÃO. Instalou-se a ideia segundo a qual não há — nem pode haver — jornalismo objectivo, factual, isento. De facto, lendo com atenção o que por aí se diz e publica, nota-se bastante. Voluntariamente ou não, os jornalistas não se inibem de deixar transparecer o que lhes vai na alma, quando se esperaria que se limitassem a dar-nos o máximo de informação com o máximo de rigor e isenção possíveis. Tirando um caso ou outro, não vejo quem se rale com isto. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social não terá aqui uma palavra a dizer?
16 de novembro de 2015
O PODER E O POVO. Como disse Henry Kissinger, o poder é o maior dos afrodisíacos. Deve ser por isso que nos últimos dias assistimos, em Portugal, a manobras desesperadas dos vários quadrantes políticos. Uns desesperam para tomar o poder, outros desesperam para o manter. Se no final as coisas correrem mal, como alguns vaticinam e muitos desejam, os fornicados seremos nós. (O título deste post foi roubado a Vasco Pulido Valente, que tem um livro com esse nome.)
10 de novembro de 2015
É A DEMOCRACIA, ESTÚPIDO. Também eu desconfio de um Governo PS com o apoio parlamentar do PC e do Bloco, por tudo o que foi dito e não vou repetir. Desconfio que vai ser mau para o país, mau para o PS, e que António Costa vai ficar à mercê dos humores do PC e do Bloco. Talvez pior: o PS arrisca-se a ficar irreconhecível, talvez em cacos, e o resultado de uma eventual desintegração não se adivinha famoso. Mas daí até dizer-se que vem aí o fim do mundo, vai um abismo. Bloco e PC não podem ser automaticamente excluídos de uma solução de Governo, a pretexto de que têm divergências de fundo com o PS e com o próprio sistema político — como o Presidente da República, em mais um lamentável discurso, defendeu, ameaçando excluí-los de uma solução governativa. Ambos têm deputados eleitos, que uma vez somados aos deputados do partido que se propõe governar constituem uma maioria parlamentar capaz de viabilizar um Governo. Queiramos, ou não. Gostemos, ou não. Como disse um ilustre político, é a democracia. E eu sou, antes de tudo, um feroz defensor da democracia. Diria mais: prefiro os defeitos da democracia às virtudes de todos os outros sistemas que se conhecem.
2 de novembro de 2015
CUIDADO COM ELE. Calvão da Silva, novíssimo ministro da Administração Interna, o tal que atestou a idoneidade do então banqueiro Ricardo Salgado perante o Banco de Portugal quando o ex-dono-disto-tudo se «esqueceu» de declarar ao fisco 14 milhões de euros recebidos do construtor José Guilherme sabe-se lá por que bons ofícios prestados invocando o nobre «espírito de entreajuda e solidariedade», foi a Albufeira inteirar-se da calamidade causada pelo mau tempo, e de caminho dar uma lição de moral aos desgraçados que sofreram elevados prejuízos e aparentemente não têm quem lhes valha. Segundo ele, para os lesados que não têm seguro a calamidade de ontem «é uma lição de vida», pois devem aprender «que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro». Ter «um pequeno pé-de-meia, em vez de o gastar a mais aqui ou além, paga um prémio de seguro», disse o ministro, que teceu ainda umas considerações
piedosas sobre a vítima mortal que a tempestade causou, que diz ter-se entregado «a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado». Claro que, se tudo correr conforme o previsto, o cavalheiro passará à história daqui a uma semana, quando o Governo for pró maneta. Mas, pelo sim, pelo não, seria bom recomendar-lhe prudência e recato. É que pode haver mais calamidades daqui até lá, e ele é bem capaz de fazer mais asneiras.
30 de outubro de 2015
QUEM COPIOU POR QUEM? Li com atenção a peça que Kathleen Gomes escreveu, no Público, sobre o juiz que no Brasil dirige a investigação ao maior escândalo de corrupção da história do país, que já está a chamuscar a actual presidente. A dado passo, lê-se o seguinte: «Uma [das estratégias da investigação] é a fuga de depoimentos e provas para a imprensa e a ampla exposição mediática do processo – reforçada pela disseminação nas redes sociais –, garantindo o apoio da opinião pública e impedindo as figuras investigadas de travar o trabalho judicial.» Ora, isto é normal? É legal que num estado democrático a justiça promova julgamentos mediáticos? E, já agora, foi a justiça brasileira que copiou o modelo português seguido pela investigação do caso Sócrates (mas não só), ou o contrário? Não, não defendo Sócrates de coisa nenhuma. Defendo, sim, que este método, largamente praticado em Portugal, é inadmissível. Seja para o que for e para quem for.
PAZ À SUA ALMA. Se nada mudou na liturgia católica, um funeral costuma ser precedido de missa — a chamada missa de corpo presente. Foi isto que hoje me ocorreu durante a tomada de posse do novo Governo, cujo funeral segue dentro de momentos (10/11 dias, ao que parece). Ou, então, uma pantomina, com os pantomineiros a fazer de conta que era o que não era. Considerei acertada a decisão do Presidente da República de dar posse a um Governo de Passos Coelho. Mas, olhando para o que hoje nos foi dado ver, é difícil ver aquilo doutra maneira. Até o Presidente da República se comportou como num mortório. Contido e sereno, Cavaco deu mostras de já ter digerido meio elefante sem problemas de maior. Resta-lhe digerir o outro meio.
23 de outubro de 2015
AS RAZÕES DE CAVACO. Por razões que já disse, o Presidente Cavaco tomou a decisão acertada. Mas suspeito que, dizendo o que disse da coligação que por aí se vai cozinhando, afirmando que não tem consistência e apontando-lhe outros defeitos irremediáveis (uma evidência que qualquer mortal constata mas que o Presidente devia guardar para si), Cavaco vai ter que engolir o que disse. A não ser que o Governo liderado por Passos Coelho consiga «passar» no parlamento, que a coligação das esquerdas ainda não está consolidada — embora o «toque a reunir» que o discurso de Cavaco causou possa dar um empurrão decisivo. Dez dias para apresentar um governo e mais uns quantos para o levar a votos é muito tempo. Muita água passará, até lá, debaixo das pontes. Prognósticos, portanto, só no final do jogo.
CARLOS ALEXANDRE E O PODER. Por razões que me parecem óbvias, é pouco saudável que em Portugal (ou em qualquer outro país) todos os grandes processos estejam, há anos, nas mãos de um só juiz. Não tenho como aferir a competência (e imparcialidade) do juiz Carlos Alexandre. Mas não é normal (nem saudável) que todos os grandes casos passem, em Portugal, pelas mãos de um só juiz, no caso Carlos Alexandre. Tanto poder nas mãos de um só homem, não só é assustador como legitima até as mais descabeladas suspeitas.
16 de outubro de 2015
GOLPES E CONTRA-GOLPES. Defendi ontem que o Presidente da República deve chamar a governar a coligação vencedora das eleições de 4 de Novembro (PSD-CDS/PP). E que, uma vez empossada como governo, deve negociar caso a caso com a oposição o que houver a negociar. Embora os resultados eleitorais permitam outras soluções, igualmente constitucionais, esta será, como também disse, a solução natural. Mas se este cenártio não me oferece grandes dúvidas, discordo totalmente da tese de que o governo deve manter-se em gestão até novas eleições (parece que não antes de Maio do próximo ano) caso seja chumbado no parlamento. Se não me repugna que se chame golpada a uma coligação de esquerda como primeira opção de governo, um governo de gestão seria outra golpada.
15 de outubro de 2015
ASSIS E O SENSO COMUM. Desculpem a presunção, mas defendi, em privado, a solução que Francisco Assis agora defendeu em entrevista à RTP. Que, face aos resultados de 4 de Novembro, a coligação vencedora deve ser chamada a governar, e que o PS deve assumir-se como oposição. As negociações com a coligação vencedora, necessárias no actual quadro parlamentar, deverão ser feitas caso a caso, à medida das necessidades. Isto seria, para mim, a solução natural, a que melhor traduz o que ficou expresso nas urnas. Como Assis demonstrou com vários exemplos, uma coligação do PS com o Bloco e o PC (ou um governo PS com o apoio das duas forças políticas à sua esquerda) seria contranatura, previsivelmente destinada ao fracasso — e a curtíssimo prazo desastrosa para o país e para o PS. Não será só Assis, no PS, a pensar desse modo. Mas a partir do momento em que Assis deu a cara por outra solução que não a preconizada pelo chefe (e expressão ao que muitos pensarão mas não se atrevem a dizer), espera-se que mais vozes constatem o óbvio.
14 de outubro de 2015
9 de outubro de 2015
DOS SANTOS E PECADORES. Devo dizer que não aprecio José Rodrigues dos Santos como jornalista, e como romancista ainda me haviam de pagar para o ler. Mas não contem comigo para o apedrejar no «caso» Quintanilha. Li várias notícias sobre o incidente, e não entendi bem o que se passou (pareceu-me que não passou de um mal-entendido, mas não tenho a certeza). Mas constatei que o jornalista assumiu logo o erro, e logo pediu desculpa por ele. Assim sendo, o assunto morreu ali. Estranha-se, por isso, tamanho alarido e a indignação que causou. Mais postiça que real, mas isso são outras contas.
7 de outubro de 2015
OPINAR SOBRE O QUE NÃO SE CONHECE. Numa coisa tem Ana Gomes razão: houve, na campanha eleitoral para as legislativas, mais opinião que informação. Quanto vale o PSD na coligação vencedora? E o CDS/PP? Quantos deputados elegeram cada um? Vão formar um só grupo parlamentar? Já disse que prestei escassa atenção às eleições, mas isto devia encontrar-se facilmente em qualquer lado. Como não encontrei em lado nenhum, deduzo que não está em lado nenhum. Já a opinião, mal um político deu um pu, cinco segundos depois já os jornalistas perguntavam a alguém (comentadores, politólogos, políticos em pousio e vários eteceteras) o que pensava. Não foram poucas as vezes que os desgraçados dos «pensadores de serviço» foram obrigados a botar opinião antes mesmo de lhe avaliar o cheiro.
2 de outubro de 2015
A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.
30 de setembro de 2015
FONTES E SUGADOUROS. Tudo o que nos órgãos de comunicação social é notícia com base em fontes anónimas (ou não identificadas, se preferirem) é, para mim, pouco fiável. Sabendo-se a salvo de qualquer punição (que o anonimato garante), as fontes anónimas podem dizer tudo o que lhes apetecer (verdades, meias-verdades, puras mentiras), e os jornalistas sem escrúpulos podem inventar os «factos» que muito bem lhes convier e atribuí-los a fontes anónimas. A lei de imprensa prevê, e bem, que os jornalistas possam recorrer a fontes anónimas em casos excepcionais. O problema é que os casos excepcionais se tornaram regra, e a fiabilidade da informação daí resultante nunca é escrutinada.
29 de setembro de 2015
SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO. Um juiz, personagem de Belos Cavalos (Teorema, tradução de Graça Margarido), cujo nome nunca é referido, comenta após escutar o depoimento de John Grady, figura central do livro de Cormac McCarthy: «O problema para um mentiroso é que não consegue lembrar-se do que disse.» Quem já não foi confrontado com um caso destes que ponha o dedo no ar.
11 de setembro de 2015
DESLUMBRAMENTOS DE ESTIMAÇÃO. Costumo dizer que houve três escritores fundamentais na minha vida: primeiro, Fernando Pessoa (de que li toda a poesia então publicada e talvez a maior parte da prosa); depois, Eça de Queirós (de que li praticamente tudo); a seguir, Cardoso Pires (só não li alguns textos dispersos por várias publicações que nunca foram publicados em livro, e A Cartilha do Marialva). Isto a propósito de duas boas notícias: a reedição da obra de Cardoso Pires, agora pela Relógio D’Água, e de uma editora (E-Primatur) que promete editar grandes livros, que por uma razão ou outra nunca foram editados em português. Apesar do lixo que por aí se vai publicando, cada vez mais numeroso, é gratificante saber que ainda há quem edite «por amor à camisola», quem aposte em livros e autores que não são, em princípio, um bom negócio.
10 de setembro de 2015
ISABEL DOS SANTOS. Qualquer jornalista que hoje se atreva a dizer mal de Isabel dos Santos arrisca-se a ser despedido. Porque Isabel dos Santos é proprietária do jornal onde o jornalista trabalha. Porque pode vir a sê-lo. Porque os investimentos de Isabel dos Santos onde o jornalista trabalha são de tal modo importantes que não resta aos proprietários outra saída que não seja meter a ética no bolso e o jornalista na rua. Daí que sejam cada vez menos os jornalistas que se atrevem a dar uma simples notícia onde Isabel dos Santos não sai com a imagem que certamente gostaria. Veja-se a mais recente. O Estado angolano, por acaso presidido pelo pai Eduardo dos Santos, comprou 40% de uma sociedade liderada por Isabel dos Santos. Em nome da «necessidade da realização de investimentos estratégicos», justificou. Ora, não duvidando da legalidade da transacção, esta operação merecia, no mínimo, ser conhecida com alguma profundidade. Com excepção do Observador e do Diário Económico, que se limitaram a transcrever uma notícia da Lusa, ninguém falou do assunto. É um silêncio eloquente.
PRESO POR TER CÃO, PRESO POR NÃO TER. Só Passos Coelho saberá se está a usar a doença da esposa para fins eleitorais. Como o caso pode ser visto de duas maneiras, na dúvida não o acuso. Mas se não for assim, se estiver a usar a doença da esposa para fins eleitorais, não é seguro que ganhe algo com isso. Se é provável que o gesto lhe renda dividendos por parte de quem vê a atitude como genuína, é igualmente provável que perca os de quem não vê assim. Somados os ganhos e subtraidas as perdas (na prática impossíveis de contabilizar), não é seguro, como meio mundo garante, que ganhe alguma coisa com isso.
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