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21 de outubro de 2004

«Era uma sardinha tão grande que ia da Rotunda ao Restauras, mas ali por alturas do Parque Mayer já estava toda comida... Não fiques para aí a pedalar no ontem. Vamos às Marchas! Eu com fardas não quero nada, filha! São uns gulosos! Ó macilento, tira daqui os presuntos! Não trouxeste o arquinho, mas trouxeste o balão e é bim bão! Aquele gajo não despega os clísios de cima de mim, chá biste uma bida assim! Olha, rapariga, o Santo António já se acabou, o São João está-se a acabar, toca mas é a aproveitar! Havia de ser mas era no Porto! Levavas com o alho na fronha... Estes tipos aqui nem se sabem divertir. Sabem é encostar-se, ceboleiros duma figa! Olé... Temos pombo a arrulhar? Ó falinhas, chega-te mas é pra lá! Sai da área, rapaz, senão daqui a bocado trabalha a alcachofra e apareces todo picado em casa, oubites? Conta lá como foi da outra vez, Esmeraldina! Então, estava eu com aquela minha colega, a que trabalhava na Lapa, e não é que um decências começa a encostar-se, a encostar-se que até parecia que eu tinha visgo? Mas olha, rapariga, nem a gabardina que trazia no braço à laia de capote de toureiro lhe serviu de nada. As Marchas a passar, as Marchas a Passar, mais Graça pràqui, mais Alcântara pràcolá e o diabo do homem a esfregar-se por mim! Então, como aquela que dizia espera aí que eu já te arranjo, disse alto e bom som, que eu nestas coisas gosto sempre de avisar:
— DAQUI A BOCADO TRABALHA A ALCACHOFRA!
Ele teve assim como um estremeção. Deve ter compreendido a sorte que eu lhe preparava. É que o marmelo não podia fugir. Gente por todos os lados e, atrás, uma árvore, figura-te! Ponho a malinha encostada ao sim senhor, assim, e com a outra mão seguro na alcachofra, assim, e encosto-a à malinha, assim, para não me picar, topas? Fui-me chegando devagarinho, muito devagarinho para trás... Ó filha, até tive pena do desgraçado! Ficou todo picado e logo onde lhe fazia mais diferença!
Ó Esmeraldina, também tens cá um despacho!»

Daqui a Bocado Trabalha a Alcachofra!, de Alexandre O’Neill