12 de julho de 2004
9 de julho de 2004
Independentemente de se gostar mais desta ou doutra solução, é evidente que a única decisão sensata que podia ter sido tomado pelo Presidente da República face à actual crise política foi a decisão que tomou. Sensata e legítima porque a Constituição não deixa dúvidas quanto ao caminho a seguir, já não se podendo dizer o mesmo caso o presidente optasse por dissolver o Parlamento e convocasse eleições antecipadas. Não se compreende, pois, a «tempestade política» que tal decisão provocou, tanto mais que a hipótese de o PSD ser convidado a formar novo Governo foi sempre um cenário plausível. E ainda menos compreensível que o líder do PS se tenha demitido alegando uma «derrota pessoal», apesar de ter pelo PR uma «amizade de muitos anos». Pior só quando os jornalistas agem como se fossem funcionários políticos, como bem demonstrou Carlos Magno com uma arrogância e sobranceria impressionantes.
8 de julho de 2004
Eu não gosto de Alberto João Jardim. Já o disse variadíssimas vezes e por razões que expliquei. Mas não há dúvida de que ele tem razão quando diz que não há uma crise política, mas «uma instabilidade» que dura há duas semanas «por causa de alguém não gostar de outro alguém». Também nunca simpatizei com Pedro Santana Lopes, mas não convence ninguém quem diz que Pedro Santana Lopes não tem legitimidade para suceder a Durão Barroso sem que, para isso, haja eleições (no PSD ou no país). Evidentemente que toda a gente sabe qual é o verdadeiro problema: certa direita não gosta de Santana Lopes, e a esquerda quer eleições porque está convencida que as ganha. O resto é pequena política. Ou ainda mais pequena política.
Pacheco Pereira fez um retrato do português-médio que merece um caixilho. Francisco José Viegas disse umas coisas sobre Santana Lopes em que vale a pena meditar.
7 de julho de 2004
Todos os livros que emprestei até hoje fiquei sem eles. Todos — não me lembro de qualquer excepção. E fiquei sem eles por uma razão muito simples: não mos devolveram, e esqueci-me a quem os tinha emprestado. Mas, um dia, decidi cortar o mal pela raiz e não mais emprestar livros fosse a quem fosse. Não foi uma decisão fácil e custou-me várias incompreensões e inúmeros equívocos, mas nunca me arrependi de o ter feito. Cheguei, inclusive, a comprar livros para oferecer a quem mos pedia emprestados só para não ter que emprestar os meus, pois eu sabia que ia ficar sem eles. Foi mais ou menos isto o que, hoje, tentei explicar a um amigo meu que me pediu um livro emprestado, mas não me pareceu ter ficado lá muito convencido. É normal. Afinal, só quem já passou por elas ou atribui importância aos livros enquanto objectos (como é o meu caso) compreende o alcance do que estou a dizer.
5 de julho de 2004
Almoço num restaurante português. Como seria de esperar, o Portugal-Grécia domina as conversas. E todas as conversas giram à volta do mesmo: a derrota de Portugal. A derrota de Portugal que está a ser difícil de digerir, e para a qual é preciso encontrar bodes expiatórios. Scolari errou. Deco não jogou merda nenhuna. O árbitro foi um filho da puta. Portugal é o maior? Pois era.
2 de julho de 2004
A Hora da Partida
A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
1 de julho de 2004
Pedro Santana Lopes foi eleito presidente do PSD pela esmagadora maioria dos votos (98 contra 3). O actual presidente da Câmara de Lisboa sucede, assim, a Durão Barroso no cargo de presidente dos social-democratas — e poderá, em breve, tornar-se primeiro-ministro. Tudo isto em meia dúzia de dias e, aparentemente, de acordo com as regras. Mas há uma ideia que fica desta nomeação: por mais legítima que tenha sido — e nada indica o contrário —, fica a ideia de uma vitória na secretaria, e as vitórias na secretaria não se recomendam. Já os «golpes de Estado» invocados pela dra. Manuela Ferreira Leite e pelo dr. Alberto João Jardim, embora por razões distintas, são um manifesto exagero.
30 de junho de 2004
Ia escrever um «post» absolutamente genial sobre a vitória de Portugal frente à Holanda, mas o maradona (com minúscula) antecipou-se. De maneira que só quero acrescentar uma coisa: viram o que Figo jogou neste jogo? Não há dúvida que Scolari é um mestre a gerir os recursos humanos e com uma capacidade mobilizadora impressionante. E mais outra coisa: já lá vão quase cinco horas após o Portugal-Holanda e ainda não vi comentários do Francisco e do Joel. O que se passa?
29 de junho de 2004
O PS quer eleições porque, havendo-as, está convencido que as ganha. Parte do PSD quer um congresso, porque um congresso pode afastar o indesejado Santana Lopes. Os outros (PC e Bloco) querem eleições antecipadas, e não vale a pena explicar porquê. Perante isto, dizem-me que está de regresso a grande política. Exactamente, a grande política, embora cheire à légua (e mal) outra coisa. Além disso, contando que, amanhã, a selecção ganhe à Holanda, quem quer saber de política?
28 de junho de 2004
Espero que não necessitemos das grandes penalidades para ganhar os dois próximos jogos. Mas, se necessitarmos, faço votos para que o Postiga não repita a proeza — ou a «folha-seca», como lhe chamou o Francisco. Concordo que o penálti de Postiga foi bom e bonito, mas está provado que raramente se consegue fazer bem e bonito. Daí que, numa situação daquelas, basta-me que se procure fazer bem para me pôr os nervos em franja.
Luiz Felipe Scolari tem levado a água ao seu moinho, ao nosso moinho. Graças aos jogadores que tem às suas ordens e a toda a máquina que o rodeia — mas, também, ao apoio dos portugueses, a quem não se tem cansado de agradecer e de pedir o apoio. Mas Scolari insiste, também, que tudo tem corrido bem graças a Deus e à Senhora de Caravaggio, o que deu azo a comentários jocosos que só não foram mais longe porque as coisas têm corrido bem. Ora, eu não percebo porquê. Mesmo sendo um ateu convicto (ou agnóstico, ainda não me dei ao cuidado de saber qual é a diferença), custa-me que não se respeite as crenças de cada um. Custa-me, sobretudo, que se ignore que a crença pode mover montanhas, como inúmeros exemplos têm demonstrado. Deixem lá o sr. Scolari manifestar o que pensa acerca da fé e praticá-la como bem entender. Além de ser um assunto que merece respeito, só nos pode beneficiar. E quando digo beneficiar quero dizer a todos nós, crentes ou não.
A coisa pode cheirar a folclore, mas não deixa de ser um indício de que as coisas já estiveram melhor. Estou a referir-me ao pedido de desculpas de Ferreira Torres aos magistrados que o condenaram a três anos de prisão (embora suspensa) e à perda do mandato de presidente da Câmara do Marco, a quem resolveu insultar. «Sou mais sério do que as pessoas que me julgaram» e «tenho mais poder do que aqueles juízes», disse Ferreira Torres após uma «grandiosa e inesperada recepção popular». Dias depois, corrigiu o tiro: «Tenho muita honra em ter sido julgado por este colectivo de juízes, pela correcção com que fui tratado e a que não estava habituado», acrescentando que os insultos aos juízes resultaram do «estado de cansaço da viagem e pela emotividade do momento, motivada por tão grandiosa e inesperada recepção popular.» Comovente. Muito comovente.
27 de junho de 2004
25 de junho de 2004
O Filipe Moura acha que «a selecção nacional não é o país», mas «somente uma equipa de futebol». Ora, não é bem assim. Goste-se ou não da ideia — e o Filipe Moura tem o direito de não gostar da ideia —, o povo português acha (e até já o demonstrou variadíssimas vezes) que a selecção nacional é o país, mesmo os que ligam pouco à bola. De modo que não sei quem é mais ridículo e provinciano: se os portugueses que hasteiam a bandeira à porta de casa, se quem pensa que tal prática é ridícula e provinciana.
O jogo de ontem deu-me cabo dos nervos. Mas o que me ia matando foi aquele penálti do Postiga. Não, não achei nada genial. O que eu achei é que Postiga arriscou muito, talvez demasiado. O que estaria a dizer-se agora de Postiga caso tivesse falhado e o falhanço tivesse ditado a eliminação de Portugal?
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