22 de fevereiro de 2021

SALVADORES DA PÁTRIA. André Ventura é uma espécie de Trump dos pequeninos. Veio agitar o que estava calmo, despertar o que estava adormecido, criar problemas que não existiam (ou estavam adormecidos, controlados, resolvidos). Como o ex-presidente americano, Ventura está-se nas tintas para os problemas que dizem incomodá-lo, e ainda mais para quem os tem realmente. Encontrou nessa gente o seu nicho de mercado, e como bom oportunista que é, vai usá-los até onde lhe for útil. Exactamente como Trump usou, e que por esse motivo chegou ao poder e por pouco não ficou lá para sempre. O ex-presidente americano devia, aliás, servir de aviso a quem toma estes sujeitos como salvadores da pátria. Porque eles não só não salvam a pátria como ainda a afundam mais. Os americanos pagam caro o legado de Trump — a desvalorização criminosa do vírus da covid, a promoção constante do ódio ao outro, a tentativa de destruir o jornalismo que não agrada, a mentira institucional a níveis impensáveis. Isto para não falar do golpe destinado a anular a eleição que perdeu de modo inequívoco, que os salvadores da pátria são capazes de tudo para se perpetuarem no poder. Em nome dos altos desígnios da pátria, como se calcula.

8 de fevereiro de 2021

JULGAMENTOS POLÍTICOS. Donald Trump teria sido condenado no processo de destituição do ano passado caso o julgamento no Senado tivesse sido de natureza exclusivamente criminal. Trump seria condenado caso o julgamento em curso, igualmente no Senado, fosse de natureza exclusivamente criminal. A não ser que algo aconteça que não está no guião, Trump será, de novo, ilibado. Porque os factos têm, nos julgamentos políticos, pouca, ou nenhuma, importância, como já se viu no julgamento do ano passado e se verá no que hoje começa. Isto depois de no actual julgamento haver provas ainda mais consistentes — e de maior gravidade. Qualquer um que conheça as acusações e os factos em que assentam, não terá dúvidas que sobram razões para o ex-presidente ser condenado. Mas como o julgamento é político, Trump ficará, de novo, impune. Haverá uma lei qualquer que explique esta aberração. Mas suspeito que nem com uma boa dose de boa vontade se compreenderá. O segundo julgamento de Trump servirá, apenas, para enlamear ainda mais a política, e colocar a justiça ao mesmo nível.

22 de janeiro de 2021

QANON. Parece que a grande mentira está com problemas de credibilidade. Falhou, ao que se diz, o essencial, e o essencial era desencadear a «Grande Tempestade» — impedir que Biden tomasse posse como Presidente dos EUA, e que Trump se mantivesse no poder. Há devotos que se sentem defraudados e questionam a sua fé. Crentes perdidos como se fossem órfãos. E gente, muita gente, disposta a engrossar as fileiras do supremacismo branco. Porque já não haverá prisões em massa, execuções sumárias de alegados traficantes de crianças, pedófilos, praticantes de canibalismo e seguidores de Satanás, entre os quais se incluem, segundo a grande mentira, figuras proeminentes do Partido Democrático como Hillary Clinton e Barack Obama, o milionário George Soros, celebridades de Hollywood, o Papa Francisco e o Dalai Lama — o que, a ter acontecido, seria um golpe de estado, obviamente comandado pelo criminoso que ainda há pouco morava na Casa Branca. Como todas as teorias conspiratórias, também esta não passa disso. Mas como há quem as leve demasiado a sério, quando elas não se materializam pode ser uma tragédia. Foi mais ou menos o que sucedeu. Para os devotos mais fervorosos, o falhanço da QAnon foi como se lhes tivesse morrido um parente chegado, nalguns casos ainda mais trágico. Pode ser que ganhem, com isso, algum juízo. Recomendar-lhes-ia, se me pedissem um conselho, um bom livro sobre o tema, que na tradução portuguesa se chama Uma Conspiração de Estúpidos.

6 de janeiro de 2021

ASSALTO À DEMOCRACIA. Depois do assalto ao Capitólio, onde decorria o que em circunstâncias normais seria uma mera formalidade, sobram perguntas. Como conseguiram os desordeiros entrar tão facilmente no coração da democracia americana? Não deveriam as polícias estar preparadas para um cenário destes, e, por isso, evitá-lo? Não morro de amores por teorias conspirativas, mas a passividade das polícias é muito suspeita. Lamento dizê-lo, mas se os desordeiros fossem afro-americanos, teríamos visto uma reacção policial musculada. Quando ao resto, confirmou-se o que um demente desesperado é capaz de fazer. Pôr o rebanho, e no rebanho incluo cento e tal congressistas, a fazer o que fez, e mais fará se e quando quiser. Aproveito, já agora, para dizer que tinha escasso respeito pelos trumpistas. Mas hoje, depois de ver o que vi, o respeito é nenhum.

4 de janeiro de 2021

O PESADELO NÃO ACABOU. Se nada mudar até lá, uma dúzia de senadores e mais de uma centena de congressistas, todos do Partido Republicado, vão quarta-feira tentar roubar a eleição de Joe Biden. Porque Trump foi vítima de fraude eleitoral, dizem eles, e porque o sujeito, apesar de derrotado, vale 74 milhões de votos. Contam, para isso, com apoiantes de Trump na rua, e alguns deles até já apelaram à violência. É a mais recente tentativa de incendiar o país e com isso destruir a democracia, desta vez com base em «alegações» e, segundo o Presidente, «rumores». Reparem: não com provas ou evidências, que dezenas de tribunais demonstraram não existir, mas com base em «alegações» e «rumores». Escrevi que é a mais recente tentativa de incendiar o país mas já houve outra, ainda mais grave: o Presidente exigiu ao responsável pela certificação dos votos presidenciais no estado da Geórgia que inventasse — ou destruísse — milhares de votos, de modo a transformar a derrota em vitória — provavelmente o crime mais grave que o Presidente cometeu até hoje. Sabia que Trump iria fazer tudo o que estiver ao seu alcance até ao seu último dia na Casa Branca (20 de Janeiro), incluindo o pior que se possa imaginar. Mas pensei que, depois da derrota em todas as frentes (nas urnas e nos tribunais), tínhamos, enfim, regressado à normalidade. Enganei-me. Nunca imaginei que a democracia americana lutasse neste momento pela sobrevivência. Como não bastasse o sujeito, que trava uma guerra de vida ou de morte unicamente para salvar a pele, cento e tal políticos eleitos preparam-se para dizer ao país que são tão maus ou piores do que ele.

23 de dezembro de 2020

TÃO BOM COMO LE CARRÉ. O episódio contado por Alexey Navalny, líder da oposição russa que há muito denuncia a corrupção na administração Putin, e que por esse motivo as secretas locais o terão tentado matar, obviamente a mando de Putin, valia o melhor Le Carré, de quem li sete romances e um livro de memórias (O Túnel de Pombos). David John Moore Cornwell, que adoptou o pseudónimo literário Le Carré quando ainda era agente dos serviços secretos britânicos, faleceu a semana passada, aos 89 anos, vítima de pneumonia; já Navalny, 44 anos, escapou, por milagre, em Agosto passado, a uma dezena de assassinos que o seguia há três anos e continua a recuperar algures na Alemanha do envenenamento de que foi vítima. Se o primeiro já estava no panteão da literatura, o segundo passou a destacar-se na já longa lista de vítimas do ditador russo — não por morrer, mas pela proeza de pôr os seus assassinos a revelar o plano, falhado, de o matar. O que Le Carré não faria com um episódio destes.

13 de dezembro de 2020

VALSINHA DOS COBARDES. Num esforço final para subverter o resultado das presidenciais americanas de 3 de Novembro, o procurador-geral do Texas, a que se juntaram 17 procuradores de outros tantos estados, 126 congressistas eleitos pelo Partido Republicano e o próprio Presidente Trump, pediu ao Supremo Tribunal que anulasse milhões de votos legítimos nos estados da Geórgia, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin, pedido que a ser bem-sucedido roubaria a vitória de Biden. Tiveram, porém, um revés: como em todos os processos anteriores movidos contra estes e outros estados, que os tribunais rejeitaram por falta de evidências, também este não apresentou evidências de irregularidades. A ser verdade que o procurador do Texas, a contas com a justiça, se prestou a esse serviço na esperança de um perdão presidencial, é da natureza humana querer salvar a pele. Mas que 18 estados e mais de uma centena de congressistas quisessem roubar a eleição «mais segura de sempre», no dizer da agência governamental responsável pela cibersegurança, diz muito onde a democracia chegou. Felizmente que as instituições, muito abanadas nos últimos quatro anos, se mantêm sólidas. Como se previa, o Supremo fez o que havia a fazer: rejeitou o pedido, porque sem ovos não se fazem omeletes. Foi mais uma derrota para Trump, talvez a maior de todas a seguir às eleições. Tendo em conta a natureza do sujeito, que jamais terá assumido uma derrota, será mais uma que não aceitará como tal. E teve ele, depois de quatro anos em que ultrapassou as piores previsões, 74 milhões de votos nas presidenciais em que disputava a reeleição. Desde que sei alguma coisa sobre a natureza humana que deixei de ter ilusões sobre ela, mas nunca pensei que me decepcionasse tanto.

3 de dezembro de 2020

DECLÍNIO E QUEDA(*). Que o Presidente Trump reclame ter sido vítima de fraude eleitoral, antes e depois das eleições, sem apresentar uma só evidência, seria mais uma mentira a juntar às milhares com que já nos brindou não fosse grave, demasiado grave. Mas que o advogado Giuliani se apresente nos tribunais alegando a mesmíssima fraude, de novo sem uma só evidência, nem para anedota serve. Como pode um advogado experiente, pago a peso de ouro, apresentar-se nos tribunais implorando que estes condenem alegadas fraudes sem nada que o demonstre, a ponto de ser humilhado pelos juízes? Só quem não está bom da cabeça, ou tem outro objectivo em mente. O Times de Nova Iorque revelou que estará em cima da mesa um perdão presidencial para Giuliani, embora o próprio desminta. Faz todo o sentido. Mas é preciso ver que um perdão presidencial, a concretizar-se, só contempla crimes federais, e Giuliani tem contas a ajustar com o estado de Nova Iorque (pelo menos). O «mayor da América», como ficou conhecido depois do 11 de Setembro de 2001, vai para a História com a imagem de um cadáver em decomposição que se viu na patética conferência de imprensa onde tentou demonstrar o indemonstrável. Assenta-lhe bem o retrato que fez por merecer. 
(*) Título da tradução portuguesa de Decline and Fall (Relógio D'Água), de Evelyn Waugh

8 de novembro de 2020

REGRESSO À NORMALIDADE. Esgotei o repertório sobre Trump, tantos foram os textos que escrevi contra ele. O que mais me custou nos últimos quatro anos foi ver os seus apoiantes, alguns por quem tenho respeito intelectual, mandar a decência às urtigas. Custou-me, sobretudo, ver a explicação que eu julgava coisa do passado, nunca dada mas sempre implícita: «O gajo pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta.» A grande divisão entre americanos deve-se, sobretudo, ao ainda Presidente, aos esforços constantes de pôr uns contra os outros, deitando gasolina nas fogueiras que foi ateando ou de que se foi aproveitando. Graças à vitória de Biden, o pesadelo aproxima-se, felizmente, do fim. Celebro, por isso, com grande alívio, o regresso à normalidade, e naturalmente a derrota de Trump e de tudo o que ele representa. Restam, porém, dois meses de apreensão, em que Trump continuará Presidente com plenos poderes. Que seja uma tragicomédia mais cómica que trágica.

25 de outubro de 2020

A VERDADE E A MENTIRA. Já disse e repeti que sou, politicamente, independente, por razões que também já disse e repeti. Considero-me, contudo, moderado, avesso a radicalismos de qualquer natureza, sobretudo de natureza política. Mas os tempos não estão (nunca estiveram) de feição para moderados. Hoje é tudo preto ou branco, a favor ou contra, e não há ouvidos, paciência ou tolerância para quem recusa esse quadro mental. Estamos numa espécie de regresso às cavernas do pensamento, e isso é assustador. Dizia-me alguém, apontando para um objecto, que aquilo não é mais preto, mas a cor que cada um lhe queira atribuir. É um facto que se constata quase diariamente, porque os «factos alternativos», «verdades alternativas» ou «pós-verdades» (leia-se mentiras) criam, pelo menos, a dúvida. Bem e mal informados entram, assim, no mesmo saco. A verdade e a mentira são hoje o que cada um quer que sejam, e os factos só interessam se cumprirem essa função. Chamar-lhe-iam louco a quem previsse, há dois ou três anos, uma coisa destas, o que demonstra bem que os acontecimentos são mais imprevisíveis que as profecias melhor fundamentadas.

5 de outubro de 2020

ESCOLHER A DECÊNCIA. Joe Biden não arrebata multidões, e por vezes é-me difícil não adormecer quando o ouço. Kamala Harris, candidata a vice, também não me entusiasma. Mas ambos têm, para mim, o essencial: são pessoas decentes, disputam o lugar de Trump e de Pence, e contra Trump e Pence não se pode exigir muito. A questão das presidenciais americanas de Novembro não é entre republicanos e democráticos, embora também. É, essencialmente, entre a decência e a falta dela. Reparem na quantidade de republicanos que votarão Trump em Novembro, e como alguns dão mesmo a cara pelo adversário. Verdade que sempre houve quem, liberal ou conservador, em determinado momento escolhesse o outro. Mas isso foi no tempo em que a política era a cores. Hoje é quase só preto e branco, a decência conta pouco e até se faz gala disso. É possível, contudo, travar a espiral de loucura, dando uma vitória clara ao candidato democrático antes que as coisas vão longe demais. Trump já avisou que não aceitará os resultados caso perca. Porque se perder, diz ele, foi porque houve fraude (a questão não se porá se ganhar), e agora, infectado pelo vírus que já matou mais de 210 mil norte-americanos, grande parte por culpa dele, a situação tornou-se ainda mais volátil, introduzindo um novo factor de surpresa cujo alcance ninguém parece em condições de avaliar. Votar contra Trump é, no entanto, o mínimo que se pode fazer para que não se entre por um caminho irreversível, e não me parece que seja preciso dizer que caminho será esse.

29 de setembro de 2020

UMA ESPÉCIE DE BOMBA ATÓMICA. Para quem não lê inglês, ou não tem paciência para ler um texto que demora uma boa meia hora a ler, o NY Times revelou, domingo, basicamente o seguinte: o Presidente Trump pagou 750 dólares de impostos federais no ano em que conquistou a presidência (2016), e o mesmo montante no primeiro ano na presidência (muito menos que um trabalhador por conta de outrem pertencente ao escalão mais baixo). Depois, não pagou impostos em 10 dos 15 anos anteriores, alegando mais perdas que ganhos. Diz mais o Times: o alegado sucesso de Trump nos negócios é pura ficção (uma investigação do jornal USA Today já o tinha demonstrado há mais de dois anos), e tem uma dívida de mais de 400 milhões de dólares que vai ter que pagar nos próximos quatro anos, circunstância que o coloca à mercê dos credores — todos, ou quase todos, estrangeiros, o que levanta preocupações ao nível da segurança do país. Promete mais o diário nova-iorquino sobre os impostos do Presidente, mas isto chega para dizer duas coisas: não haverá explicação de Trump ou dos seus advogados capaz de convencer que não houve aqui vigarices — e das grandes; dizer que a história do Times é falsa, como dizem Trump e os seus advogados, é fácil e barato, mas só funciona para quem for mais trumpista que Trump.

15 de setembro de 2020

OU O PODER, OU A CADEIA. Donald Trump sabe melhor que ninguém que se perder em Novembro pode acabar na cadeia. Resta-lhe, por isso, apostar num cenário catastrófico: ou ele, ou o apocalipse. Muito pior: interessa-lhe criar o caos para depois aparecer como o presidente da «lei e da ordem», o último slogan da sua campanha. Os manifestantes contra o racismo e a violência policial são radicais perigosos. Os seus apoiantes que os combatem, com armas de guerra e matando, são patriotas. É isto o que o sujeito diz e repete. Em vez de reconciliar os desavindos, como faria qualquer presidente, faz os possíveis para os manter desavindos. Porque suspeita, a meu ver com razão, que o caos o beneficiará em Novembro, apesar de toda a violência de que se queixa ocorrer durante o seu mandato como Presidente — logo ele ser o primeiro responsável. Escrevi ainda antes de Trump ser eleito que o sujeito era perigoso. Mas hoje, quatro anos volvidos, demonstrou-se que é mais perigoso do que eu pensava. Como sabe que os sarilhos em que entretanto se meteu podem ter um desfecho cruel caso não seja reeleito, não hesitará em fazer o que for preciso para salvar a pele. E o que for preciso, para ele, inclui o pior que possam imaginar.

2 de setembro de 2020

CALIXTOS HÁ MUITOS. A morte de 18 idosos no lar de Reguengos de Monsaraz em circunstâncias não inteiramente esclarecidas colocou, a reboque do caso, de novo na ribalta o poder local. Os jornalistas que lá foram investigar a ocorrência descobriram que José Calixto, presidente da autarquia local, ocupa pelo menos 13 cargos, incluindo o de presidente da fundação do lar onde a tragédia ocorreu, e o assunto voltou a ser questionado. Calixto, uma espécie de senhor feudal lá do sítio, ocupa todos estes cargos graças ao partido a que pertence, o PS, e os que não ocupa são ocupados por companheiros do mesmo partido. Como é sabido, as autarquias locais estão cheias de calixtos. Do PS e do PSD, mas também do PC e, talvez, do CDS. Como raramente são escrutinados (a imprensa regional vive refém das receitas das autarquias e a imprensa nacional não presta atenção às regiões), grande parte das autarquias funciona em roda livre, sem qualquer escrutínio, e quem abrir a boca contra o poder instalado arrisca perder o emprego, próprio ou de um familiar, e o jornal local o mais certo é fechar. Gostaria de pensar que este cenário só se aplica a um caso ou outro, mas sabemos que não é assim. Não creio, já agora, que a regionalização, de que se recomeçou a falar, resolveria o problema. Antes pelo contrário. Agravá-lo-ia, e muito.

23 de agosto de 2020

E VÃO DEZ. Com a prisão de Steve Bannon, acusado de fraude e desvio de dinheiro proveniente de uma agremiação filantrópica (sem ironia) que angaria fundos para construir um muro na fronteira dos EUA com o México, aumentou para 10 o número de acusados de crimes vários no círculo do chefe — alguns já a cumprir pena, outros já condenados, outros ainda em vias disso. O lunático que até há pouco comandou o Breitbart News, site da extrema-direita especializado em títulos incendiários de carácter racista, anti-semita e misógino, e que depois de corrido pelo chefe foi para a Europa pregar, sem sucesso, a revolução, e tentar, também sem sucesso, vigarizar o governo italiano com o aluguer de um mosteiro, mostrou que é humano, demasiado humano. Agora só falta o chefe, mas quem esperou até agora consegue esperar mais um tempo. Cada vez é maior a lista de vigaristas e outros patifes de que o chefe, personagem inverosímil até do mais medíocre dos romances, se rodeou para tomar o poder. Sim, o chefe de que falo, que se apressou a dizer, mal soube da prisão do arquitecto da sua campanha presidencial de 2016, que se sentia «muito mal» (recorde-se que o chefe o despediu e o despedido escreveu um livro onde disse do chefe o piorio), e que no mesmo dia manifestou simpatia por uma seita de doentes mentais que dá pelo nome QAnon (que o FBI considera fonte potencial de terrorismo doméstico), é esse mesmo que estão a pensar. Aposto que a prisão do sujeito lhe vai causar pesadelos.

18 de agosto de 2020

VIVO E DE BOA SAÚDE. Não sou ingénuo a ponto de pensar que o jornalismo e os jornalistas são um mundo de virtudes, que não cometem erros e pecados, por vezes grosseiros. Mesmo o jornalismo e os jornalistas sérios, e não me refiro ao jornalismo que se engana, corrige o erro e se penitencia. Refiro-me ao jornalismo que tem uma agenda para lá dele, que se dispõe a contar os factos de modo a construírem a narrativa que mais lhe convém. Mas também não sou ingénuo a ponto de pensar que isto é prática corrente. Muito pelo contrário. É graças ao jornalismo e aos jornalistas que em democracia sabemos o que se passa, apesar de o poder do dia, mesmo o poder democrático, fazer os possíveis e os impossíveis para mostrar o que lhe interessa e esconder o que não lhe interessa — e em alguns casos chegar a intimidar quem se atreve a incomodá-lo. Dito isto, o jornalismo e os jornalistas não são heróis. Fazem o que lhes compete fazer, embora por vezes heroicamente. Nunca foi — nunca será — fácil fazer jornalismo (diria jornalismo a sério não fosse uma redundância), porque fazer jornalismo tem custos, por vezes demasiado altos — como ser votado ao ostracismo, o despedimento, a prisão, por vezes a morte. Como jornalista num jornal despretensioso, nunca estive exposto a estes cenários. Talvez por isso admire tanto os jornalistas que arriscaram — e continuam a arriscar — fazer jornalismo apesar dos constrangimentos. Não são poucos, e é graças a eles que o jornalismo está melhor que nunca. Se os jornais estão numa agonia sem fim à vista, nunca o jornalismo esteve tão vivo, apesar de se ver obrigado a competir com o falso jornalismo que prolifera nas redes sociais que tantos levam a sério.

30 de julho de 2020

O GÉNIO DO MAL. Falhada a tentativa de multiplicar os protestos violentos resultantes do assassinato de um afro-americano por um polícia branco, de modo a legitimar uma intervenção federal musculada, o Presidente americano repetiu a receita, desta vez enviando agentes federais para algumas cidades onde os protestos ainda decorrem. Como Trump pretendia, a situação não só piorou como alastrou a outras cidades (onde os protestos já tinham acalmado) — todas, por sinal, e não por coincidência, dominadas pelo Partido Democrático. O ponto de Trump é abrir caminho à tomada de medidas excepcionais que possam inviabilizar as presidenciais de Novembro em locais tradicionalmente dominados pelos democráticos — accionando mecanismos que dificultarão o acesso dos eleitores às urnas, generalizando as suspeitas de fraude, criando o caos a que só ele, Presidente, poderá pôr fim. Como todas as sondagens indicam que perderá em Novembro, incluindo as sondagens dos «amigos» da Fox News e muito por culpa da forma criminosa como lidou — e continua a lidar — com a pandemia de coronavírus, resta-lhe, a seu ver, este caminho. Pelos vários crimes de que é suspeito, por enquanto sem acusação formal por Trump ser quem é, o Presidente corre o risco de acabar na cadeia caso não seja reeleito. Sim, na cadeia, e só surpreenderá quem anda muito distraído. Donald Trump está, por isso, disposto a fazer tudo o que for preciso para vencer, e o tudo incluirá não só a sujeira a que já nos habituou mas outros esquemas mais preocupantes — e, pior, muito perigosos. Oxalá me engane.

17 de julho de 2020

A TERRA NÃO É REDONDA. Os americanos discutem pelo menos há três meses se as máscaras são, ou não são, uma forma eficaz de evitar a propagação do coronavírus. Não porque a comunidade científica tenha dúvidas, mas porque uns quantos indivíduos, emulando o idiota que mora na Casa Branca, decidiram não usar máscara porque sim, politizando um assunto consensual entre os especialistas — e, se virmos bem, do senso comum. (O idiota mudou o comportamento nos últimos dias, numa tentativa, tardia, de acertar o passo, até porque grande parte dos seus apoiantes está a apanhar por tabela.) Estamos, portanto, à mercê dos sujeitos que não usam máscara, mesmo em situações em que a lei os obriga. Porque a obrigatoriedade da máscara viola os direitos dos sujeitos, dizem eles, e os direitos dos sujeitos podem, pelos vistos, violar os direitos dos outros — dos que a usam e não querem ser infectados, e porque ter direitos pressupõe ter deveres. Tudo isto porque o idiota-em-chefe fez os possíveis e os impossíveis para instalar a dúvida no rebanho, sempre predisposto a acreditar no que ele diz e a engolir as suas patranhas. A ignorância (ou cegueira, ou o que for) impede-os de enxergar o que está diante o nariz, e o resultado está à vista: comparado como o resto do mundo, os EUA estão, nesta matéria, ao nível do terceiro mundo. Fosse eu um homem de fé e estaria a rezar para que o idiota apanhasse um susto a sério, embora duvide que aprendesse alguma coisa com isso.

26 de junho de 2020

MODINHA DOS COBARDES. Tirando os dois ou três do costume, os congressistas republicanos não abrem a boca sobre o comportamento de Trump. Nem para apoiar, nem para condenar. Quando seria de esperar que se pronunciassem sobre as acções do Presidente, até porque foram eleitos para dizer o que pensam sobre as acções do Presidente, os sujeitos permanecem mudos e quietos, e fogem dos jornalistas como o diabo foge da cruz. Mesmo dos jornalistas amigos da Fox News, da Breitbart e da One America. «O último tuíte? Não vi.»; «Vi mas já não me lembro.»; «Não costumo prestar atenção aos tuítes do sr. Presidente.». Etc. etc. Se isto não é cobardia, e não só cobardia política, então é o quê? Os republicanos com assento nas duas câmaras do Congresso são cúmplices de Trump, de quem não se atrevem a discordar por medo de perder o emprego. É verdade que nos últimos dias alguns se afastaram de Trump quando Trump defendeu que o antecessor devia ser julgado por traição (não apresentou qualquer evidência que fundamentasse a acusação) e quando acusou um manifestante de 75 anos, de novo sem fundamento, de ser membro da Antifa. Mas isso não explica o silêncio a que se devotaram, e ainda menos a cumplicidade activa diante as poucas-vergonhas do Presidente. Isto para não falar da coluna vertebral, que a generalidade dos políticos não tem — e os republicanos são, de momento, o melhor exemplo.

2 de junho de 2020

O INCENDIÁRIO. Donald Trump nunca perde uma oportunidade de atirar mais lenha para a fogueira do ódio. Agora devido aos distúrbios de Minneapolis resultantes da morte de um afro-americano sob custódia policial, que rapidamente alastraram a dezenas de outras cidades. Em tom de desafio, o Presidente começou por escrever, no Twitter, que mandaria disparar contra os «bandidos» que se envolvessem em distúrbios, nos dias seguintes prosseguiu de igual modo, e ontem insultou os governadores que, na sua opinião, não estão a fazer o que devem de molde a pôr fim à violência. Como não bastasse, montou circo na Casa Branca, e depois, numa igreja lá perto, insultou quem quis apoiar, embora imagine que os evangélicos e outras pessoas de fé sejam mais inteligentes do que Trump supõe. Em vez de fazer os possíveis e os impossíveis para acalmar os ânimos e pôr fim à violência que varre o país, como seria de esperar de um chefe de Estado, o Presidente ameaçou com ainda mais violência. Trump não é, obviamente, o único responsável pela violência racial. Mas é-o, em grande medida, por acção e omissão. Acusar a esquerda radical pelos distúrbios (não havia evidências até à hora a que escrevo) sem dizer uma única palavra sobre a direita radical (há indícios de supremacistas brancos infiltrados nas manifestações), é pôr mais água na fervura. Valha a verdade que não se esperaria outra coisa do «valentão» que mora na Casa Branca, que cobardemente correu para o bunker mal lhe cheirou a pólvora (ele é mais pólvora retórica). Afinal, a única preocupação do sujeito é ser reeleito em Novembro, e para que isso suceda os fins justificam os meios. Como está convencido, talvez com razão, que o clima de confronto o beneficia, dispõe-se a tudo para que isso aconteça. Afinal, há quem se reveja nos comportamentos do Presidente, mesmo nos comportamentos mais censuráveis. Depois há o racismo, o supremacismo branco e outros ismos, que com Trump no poder nuns casos ganharam fôlego, noutros saíram da clandestinidade — para gozo, lamento dizê-lo, da maioria que o apoia.

14 de maio de 2020

OS FACTOS NÃO INTERESSAM. Vi num canal de televisão um repórter confrontar um «popular» com os factos e este responder-lhe que os factos não interessam. A surpresa foi a candura com que o sujeito o disse, como se fosse óbvio e a coisa mais natural do mundo. Ironicamente, nunca como hoje tivemos tanta informação e tantas formas de verificar a sua credibilidade. Mas a grande maioria (creio que é a maioria) só está disponível para acreditar no que lhe convém, pelo que os factos só interessam se cumprirem essa função. Estamos, por isso, num ponto que nunca julguei possível: depois dos «factos alternativos», que pretendiam demonstrar que havia «outros factos» para além dos factos propriamente ditos, os factos não interessam. A «verdade» é o que cada um quer ouvir, e tudo o resto são «fake news». Milhões de pessoas a dizer que a Terra não é redonda não a tornam plana. Mas é assustador.

7 de maio de 2020

AI BRASIL. Quem acompanha, mesmo que por alto, o que politicamente se passa nos EUA e no Brasil, chega a ser reconfortante ver o que se passa nos EUA, por comparação com o Brasil um país a funcionar normalmente. Apesar dos malabarismos de Bolsonaro serem em tudo parecidos com os de Trump, a realidade no terreno mostra que se é preocupante nos EUA é aterradora no Brasil. Não só por causa do modo criminoso como ambos estão a lidar com o coronavírus, mas porque o presidente brasileiro chega a participar numa manifestação onde se pede a dissolução do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e como não fosse bastante o regresso dos militares ao poder. Tudo porque o clã Bolsonaro (o Presidente e os filhos Carlos e Eduardo, respectivamente vereador e deputado) é alvo de toda a espécie de suspeitas, incluindo de crimes de sangue, cujo desfecho se adivinha explosivo. À hora a que escrevo, o ex-ministro da Justiça, demissionário por discordar do afastamento do director-geral da Polícia Federal, alegadamente por se recusar a pôr o Presidente ao corrente das investigações que envolvem os filhos e aliados (e já substituído por um amigo da família), depõe na Polícia Federal sobre o caso, de que diz ter provas. A ser verdade o que diz o ex-ministro Sergio Moro, e a confirmarem-se as suspeitas de que o clã Bolsonaro é suspeito, o Brasil caminha para um no impeachment ou pior. O ministro da Defesa fez saber, nos últimos dias, que as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia, ao lado da lei, da ordem e da liberdade. Como suspeito que o aviso foi mais para dentro que para fora, tenho dúvidas.

25 de abril de 2020

É SIMPLES. Não há comemoração oficial do 25 de Abril de 74 que não esteja envolta em polémica. Este ano por causa do coronavírus, que desaconselha ajuntamentos e alguns não querem ver na Assembleia da República alegando este motivo, e outros querem por outros motivos. O problema, como sempre, é a data que se pretende comemorar, que uns querem, outros não. Já dei para este peditório pelo menos uma dezena de vezes. O 25 de Abril de 74 pôs fim a uma ditadura, e como abomino ditaduras, é motivo para comemorar. É verdade que a coisa ia dando para o torto, mas o 25 de Novembro de 75, outra data a comemorar, evitou o pior, e o pior seria nova ditadura. Isto, 25 de Abril e 25 de novembro, são, para mim, datas essenciais, como tal comemoráveis. O resto são detalhes.

24 de abril de 2020

O MATA-BICHO. Para quem pensa que Trump bateu no fundo, o sujeito demonstra diariamente, agora nos briefings sobre o coronavírus, que o fundo não tem fim à vista. Não fosse trágico (e criminoso), os malabarismos do sujeito seriam apenas hilariantes, talvez embaraçosos para os mais crentes. Ontem sugeriu tratar o vírus injectando desinfectante, raios ultravioleta e o mais que não percebi (não é fácil percebê-lo mesmo quando fala do que sabe), levando a comunidade científica, que Trump ostensivamente despreza, a demarcar-se de imediato, dizendo com todas as letras que a sugestão de Trump foi irresponsável e perigosa. Depois de ter recomendado um remédio usado para combater a malária como sendo eficaz para combater o vírus (mesmo depois de ter sido rejeitado pelos médicos), o idiota vem agora com a mezinha que promete matar o bicho. Que mais será preciso para accionar a 25ª Emenda da Constituição e correr com ele da Casa Branca? Que mais será preciso para demonstrar que o sujeito não está bom da cabeça? E onde estão os republicanos, incluindo os que terão coluna vertebral? Quando deixarão eles de se esconder debaixo das secretárias?

11 de abril de 2020

UM MAL NUNCA VEM SÓ. O presidente Trump procura, desesperadamente, livrar-se das culpas que lhe cabem, apesar de todos sabermos como ele ignorou, criminosamente, os avisos do seu próprio governo. Sabemos hoje que Trump ignorou informação dos serviços de intelligence, em Novembro e Dezembro do ano passado (as «secretas» alertaram-no para o facto de o coronavírus estar a espalhar-se rapidamente na região chinesa de Wuhan, avisando para uma situação potencialmente catastrófica), e já em Janeiro e Fevereiro deste ano o seu próprio gabinete alertou-o para uma provável pandemia, que poria em risco a saúde e a vida de milhões de norte-americanos. Como também sabemos, Trump dizia, por essa altura, já com mortos no terreno, que o coronavírus não passava de um simples vírus como tantos outros e aconselhava os seus concidadãos a viver como habitualmente, queixando-se de que tudo o que se dizia não passava de uma mistificação criada pelos opositores, um exagero dos media destinado a lesar-lhe a reputação. Agora, depois de mais de quase 19.000 mortos só nos EUA, Trump insiste em vender-nos um medicamento que lhe foi impingido pela Fox News e que os médicos rejeitam (provocando uma escassez no mercado para quem dele necessita, porque Trump comprou 29 milhões de unidades), e acusa a Organização Mundial de Saúde (OMS) de não o ter alertado a tempo, apesar de Trump ter continuado com a mesma bazófia já depois de a OMS ter declarado a pandemia. Como já vimos noutras situações, imagino que Trump sairá incólume de mais esta, senão mesmo por cima, porque a OMS, o bode expiatório caído do céu, não vai entrar em guerra com ele, logo ficará a suspeita que foi a OMS a culpada. E porque, lamento dizê-lo, a sua base de apoio já demonstrou vezes sem conta que come tudo o que ele diz, mesmo as mais rematadas mentiras. Dirão alguns que não perco uma oportunidade para atacar o sujeito. Pelas oportunidades que deixo passar, acho um exagero. A verdade é que Trump não perde uma oportunidade para falhar miseravelmente. Nem sequer é capaz de mostrar empatia com quem sofre, o mais elementar princípio de qualquer ser humano.

26 de fevereiro de 2020

AVENTURAS PERIGOSAS. Um professor escreveu, no Público, a propósito do caso Marega, que «a máscara [de André Ventura] vai caindo e mostrando o racista, xenófobo, oportunista e populista» que ele é. O problema é que o deputado do Chega sobe fortemente nas sondagens à medida que vai deixando cair «a máscara», como diz o professor, embora me pareça que Ventura nunca tenha escondido ao que vem. Também não acho que os media lhe dêem demasiada atenção, como se diz por aí. Dando-lhe espaço, os media evitam que a cartilha passe apenas pelas redes sociais, onde se dizem as maiores barbaridades impunemente e sem contraditório. Fazer de conta que Ventura não existe é pior que dar-lhe exposição, mesmo que demasiada. Como se viu com a reacção do sujeito à proposta da deputada Joacine Katar Moreira (o deputado do Chega disse que Joacine devia ser devolvida à origem, Guiné-Bissau, quando esta defendeu que Portugal devia devolver às ex-colónias o património que será das ex-colónias), o sujeito usou o caso para estimular os seus apoiantes e simpatizantes e promover a agenda que, com grande sentido de oportunidade, resolveu abraçar, apesar de pouco tempo antes pensar o contrário — e isto é demasiado sério para se ficar por discussões de Facebook e afins. O racismo existe, e em vez de Ventura o reconhecer e combater (como se esperaria de um deputado), há que alimentá-lo para servir a sua cruzada. Joacine Katar Moreira, já agora, começou por ser um desastre, e agora tornou-se um embaraço até para quem não votou nela. Mas nada disso justifica a «ironia» com que Ventura resolveu brindá-la. O líder do Chega sabia bem como a suposta «ironia» seria interpretada pelos seus apoiantes e simpatizantes, e por isso não hesitou em usá-la. Como não hesitou em dizer que não viu insultos racistas a Marega quando toda a gente viu o contrário.

7 de fevereiro de 2020

A FARSA DOS COBARDES. Confirmou-se a farsa anunciada: o Senado americano, de maioria republicana, fez ouvidos de mercador (recusou-se a ouvir testemunhas cruciais que poderiam ter mudado o desfecho do processo de impugnação), e depois votou pela não destituição do presidente Trump. Quem não viu que Trump tentou chantagear o presidente ucraniano só pode ter sido porque não quis ver — e quem acha que o crime de que foi acusado não foi motivo bastante para o afastar da presidência jamais encontrará motivo bastante. Quem tomou conhecimento das evidências que foram surgindo viu que a acusação é cristalina e devidamente fundamentada, pelo que insistir que não houve nada, só quem está mal-informado ou mente descaradamente. As acusações que são feitas a Donald Trump não são matéria de opinião: são factos comprovados por testemunhas credíveis e às quais poderiam juntar-se outras mais que os republicanos não quiseram ouvir, porque os republicanos no Senado sabiam que as testemunhas iriam prejudicar Trump e eles, senadores republicanos, têm medo de Trump. Preocupados com os lugares que vão disputar em próximas eleições, os senadores republicanos preferiram acobardar-se a levar com a ira com que Trump iria brindá-los caso se atrevessem a contrariá-lo, como já se viu com o senador Mitt Romney, que teve a coragem de votar segundo a sua consciência e já está a pagar as consequências. É a democracia, dirão, o pior regime excluindo todos os outros. Sim, é a democracia no que tem de pior. É o regime que hoje se combate abertamente, que tem vindo a ser minado por ditadores e candidatos a ditadores diante a impotência de uns, a indiferença de outros e o aplauso geral de quem vê o mundo a preto e branco, dos que acreditam em soluções simples para problemas complicados e que por isso alimentam os evangelistas do ressentimento e os pregadores do ódio.

31 de janeiro de 2020

OS BOIS PELOS NOMES. Talvez por ser independente, nunca percebi os motivos de tanto ódio ao ex-presidente Obama. Tudo de que o acusam e é verdadeiro (a maior parte das acusações são falsidades) não me parece bastante para tanto ódio, extensivo, também, à ex-primeira dama. Que não se goste de Obama, é normal. Que se pense politicamente de modo contrário, normalíssimo. Que se pertença a uma força política que se lhe opõe, faz parte de uma democracia saudável. Mas odiar, confesso que não vejo porquê. A não ser porque Obama é negro (ou de cor, ou afro-descendente, ou afro-americano), e como não fosse bastante, não foi uma tragédia eleger um presidente negro. Sim, tanto ódio não fundamentado só pode ser racismo, neste caso de brancos contra negros (também há de negros contra brancos), essa praga que ainda nenhum remédio foi capaz de erradicar. Claro que, tirando os supremacistas brancos, que os há mais do que parece, a maioria dos racistas não se assume como tal. Porque nalguns casos a lei o impede, por ser publicamente condenável, pela correcção política, por mera cobardia. Mas, sobretudo, porque não têm um único argumento que sustente a superioridade de uma raça sobre outra.

15 de janeiro de 2020

A FARSA. Com que argumentos pode um tribunal, mesmo que meramente político, rejeitar o testemunho de alguém que teve conhecimento directo sobre o que está a ser julgado? Até à hora em que escrevo, nem um para amostra. Mas o Senado americano decidiu, mesmo assim, que o julgamento de Donald Trump não terá testemunhas, porque os republicanos mandam no Senado e não querem que o povo americano saiba o que realmente se passou. Os republicanos com assento no Senado querem, apenas, inocentar o Presidente, e quaisquer factos que contrariem esse desígnio não interessam. Escusado será dizer que um julgamento que não permite a audição de testemunhas, ainda por cima testemunhas cruciais, com conhecimento directo do sucedido e prontas a dizer o que sabem, não é um julgamento: é uma farsa, um insulto à inteligência do comum dos mortais. Se isto é possível num país tão elogiado pela eficácia do seu sistema de freios e contrapesos, mas que não consegue punir crimes políticos mesmo com provas para todos os gostos, rezem aos santinhos pela democracia.

10 de janeiro de 2020

JOACINE E O OPORTUNISMO. Posso estar enganado, mas o Livre viu nas características pessoais de Joacine Moreira (mulher, negra, gaga) uma oportunidade de eleger um deputado que de outro modo não conseguiria, e Joacine percebeu que estava a ser um instrumento desse jogo — ou então aproveitou o jogo para impor as suas regras, reclamando que venceu as eleições graças à sua pessoa e só a ela. Mas não é isto o que aqui me traz. A gaguez da senhora merecia, por si só, um debate — que ninguém quer, mas que valia a pena fazer. Porque suspeito que é necessário ter uma altura mínima para ingressar na Marinha, que os obesos (espero que não seja ofensivo chamar obesos a quem tem excesso de peso) não se metem a praticar ballet e que quem não joga futebol não se candidata a ponta-de-lança do Real Madrid, suspeito, igualmente, que nunca terá passado pela cabeça de Joacine candidatar-se ao festival da canção — e todas estas obviedades mereciam reflexão. Mas como dizer isto sem ser logo considerado racista, misógino, preconceituoso? Como se viu pelas reacções de desagrado aquando da tomada de posse de Joacine, é praticamente impossível. O que foi visto por uns como puro circo (foi penoso de ver o assessor vestido de mulher), foi visto por outros como um momento corajoso, talvez mesmo histórico. Escusado será dizer que cenas destas só contribuem para debilitar ainda mais a já tão debilitada democracia, e que apenas servem para dar munições a trumps e bolsonaros. A Esquerda rala-se tanto com o acessório que esquece o essencial. E o essencial são as causas de todos, ou as causas da maioria, que hoje, por não se sentir representada, vai caindo nos braços de quem ainda ontem era o inimigo.