23.11.09

O NIN DE MARCELO. Vasco Pulido Valente escreveu, há dias, que acha «inquietante» não se saber o que «pensa» Marcelo, nem o que Marcelo quer «para ele e para o país». Como logo se apressaram a dizer, o facto de Marcelo não ter «ideias para o país» é uma questão de somenos, e até nem ao próprio Vasco Pulido Valente, apesar da retórica, incomodará por aí além. Inquietante será se Marcelo chegar a líder do PSD, ou, pior, a primeiro-ministro. Não pelas ideias que não terá, mas por nunca ter demonstrado vocação para liderar um partido político ou ser primeiro-ministro. Marcelo gosta demasiado do jogo político para se deixar manietar por um cargo, por muito apetecível que seja, pois sabe melhor que ninguém que a sua margem de manobra é maior como comentador político do que teria como líder partidário ou primeiro-ministro — e como comentador político jamais será penalizado por eventuais erros como seria penalizado como líder ou primeiro-ministro.

ESPIÕES. Imperdível o livro de Luis Fernando Veríssimo que vai ser editado em Portugal no final do mês, como se pode ver por este extracto publicado no Público.

20.11.09

SÓ PARA FAZER INVEJA. Salvo problema maior, estarei, logo à noite, na primeira fila para ver o senhor da foto, que se fará acompanhar, de novo, por Gary Peacock e Jack DeJohnette. Trata-se do meu quarto concerto de Jarrett, sempre com a mesma formação, mas que volto a encarar com um entusiasmo como se fosse a primeira vez. Dizer o quê sobre Jarrett que já não tenha sido dito ou que não seja um lugar comum? Apenas lamento que nunca o tenha visto em concertos a solo (Tóquio, Colónia, Viena, Paris, Milão, Munique, Berlim, etc.), cujas gravações não me canso de ouvir.

19.11.09

JORNALISMO. Como diariamente se constata, os media passam a vida a dizer, a propósito do que interessa e do que não interessa, que nos estão a dar uma notícia em primeira mão, que tiveram acesso privilegiado (ou exclusivo) a determinado assunto, que estão a transmitir em directo um acontecimento sem que se vislumbre o que a circunstância acrescenta à notícia. Que interessa aos leitores (ouvintes, telespectadores) que determinada notícia lhes esteja a ser dada em primeira mão, em exclusivo, ou em directo? Quando é que os jornalistas deixam de falar uns para os outros e começam a falar com quem se espera que falem?

18.11.09

ESCREVER ROMANCES. De manhã escrevi a primeira frase, ao fim da tarde já ia na quarta versão, à noite abandonei-o. No dia a seguir confirmei o óbito: romance que começa assim, não se aguenta nas pernas. Pena que a «receita» não seja seguida por alguns best sellers que para aí andam.

TRÊS INQUÉRITOS, 3. Não sei se repararam que o Ministério Público instaurou três inquéritos (repito: três inquéritos) destinados a saber quem violou o segredo de justiça no caso «Face Oculta». Não me recordo de lhe ouvir dizer que o caso irá «até às últimas consequências», «doa a quem doer», mas não é preciso para se perceber que o assunto das escutas está morto e enterrado.

17.11.09

REAL E VIRTUAL. A ideia de que os media estão ao serviço dos governos, de só haver um ou outro jornal ou TV independentes que os governos tentam calar, é um argumento mais que estafado. Há jornais (e jornalistas) que fazem fretes ao Governo? (Continuar a ler aqui.)

13.11.09

LADRÃO ME CONFESSO. Não sabia que os livros de Miguel Esteves Cardoso andam por aí, ao alcance de um clique, mas o próprio Miguel encarregou-se de o revelar na sua crónica de hoje (link apenas disponível a pagantes). Assim sendo, e porque considera «uma honra» ser «pirateado», acabo de descarregar O amor é fodido. Devo acrescentar que é o primeiro livro que roubo, embora suspeite que a sensação é menos excitante do que seria caso o roubo fosse numa biblioteca e não um «roubo virtual», ainda por cima estimulado pelo próprio dono. Acrescento em minha defesa o facto de morar no estrangeiro, onde os livros portugueses são difíceis de encontrar e os portes de correio os tornam caríssimos.

RIDÍCULO. E se Fernanda Câncio deixar de ser namorada do primeiro-ministro? A Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas também irá reunir-se para decidir se Câncio deve, ou não deve, ser tratada por ex-namorada de Sócrates? Claro que é relevante dizer que a jornalista é namorada de Sócrates caso a jornalista escreva/fale sobre política portuguesa, como será relevante dizer que deixou de o ser caso isso suceda e continue a escrever/falar sobre política portuguesa. Mas a Comissão da Carteira reunir-se por uma coisa destas, ainda por cima uma questão do senso comum? Por amor de deus.

12.11.09

CARPENTIER. Apesar das dificuldades com o espanhol, estou a gostar de Los pasos perdidos, do cubano Alejo Carpentier, de quem já li (e gostei) El reino de este mundo. Sei que Carpentier teve um percurso político de que eu não me orgulharia, mas não misturo alhos com bugalhos. Um bom livro não deixa de ser um bom livro por ter sido escrito por uma besta, o que não é o caso. Para quando, já agora, a reedição de Carpentier em português?

11.11.09

NÃO OLHES PARA O QUE EU FAÇO. Nada pessoal contra Manuela Moura Guedes, mas a «baixa psiquiátrica» de que está a desfrutar é um insulto aos portugueses. Estaria Manuela incapaz de apresentar o Jornal de Sexta caso o Jornal de Sexta ainda estivesse no ar? A resposta parece-me óbvia: certamente que não. A «baixa psiquiátrica», anunciada pelos jornais como coisa normal (o que é estranho), roça a provocação. Já se sabia que o atestado médico é quase tão popular como a aspirina, mas convenhamos que o esquema adoptado por Manuela não se encaixa no perfil de quem tanto diz ter-se batido pela verdade.

10.11.09

A magia acabou

9.11.09

SUSPEITAS. Que um soldado, num momento de loucura, resolva agarrar numa arma e matar a torto e a direito dizendo estar a fazê-lo em nome de Alá, compreende-se. Mas já se torna mais difícil entender quando a loucura vem de um oficial, de quem se espera que tenha a couraça mais dura e frieza em momentos de grande pressão. Ou muito me engano, ou o caso ainda vai dar muito que falar.

6.11.09

A GRANDE MÚSICA (3)

4.11.09

LIVROS. Acabadinho de me chegar o quarto volume de entrevistas à Paris Review, bem como Latin American Writers at Work, colectânea de entrevistas (e não só) a escritores latino-americanos também publicadas na Paris Review, e igualmente reunidas em forma de livro. A Tinta da China acaba, aliás, de editar «uma antologia das melhores entrevistas» à Paris Review, uma selecção de Carlos Vaz Marques que se recomendaria mesmo que fosse outra. (Ver, ainda a propósito, artigo de Salman Rushdie no Times, onde cheguei graças ao Senhor Palomar.)

3.11.09

LI E GOSTEI (8)

Countries today can choose to be prosperous. One of the most damaging myths of our times is that poor countries live in poverty because of a conspiracy of the rich countries, who arrange things so as to keep them underdeveloped, in order to exploit them. There is no better philosophy than that for keeping them in a state of backwardness for all time to come. Because today that theory is false. In the past, to be sure, prosperity depend almost exclusively on geography and power. But the internationalization of modern life — of markets, of technology, of capital — permits any country, even the smallest one with the fewest resources, if it opens out to the world and organizes its economy on a competitive basis, to achieve rapid growth.

Mario Vargas Llosa, A Fish in the Water

Os intocáveis

Pobre poeta

2.11.09

CREDIBILIDADE. O Público assumiu que tem um problema de credibilidade e «um excesso de peso ideológico». De facto, a falta de credibilidade notou-se bastante nos últimos tempos. Mas dizer-se que tem «um excesso de peso ideológico», mesmo atribuindo a constatação à «percepção pública», já me parece um exagero.

29.10.09

TÃO BOM QUE ELE ERA. Parece que o empresário a quem a Justiça deitou a unha era «um generoso apoiante das colectividades locais», «um homem de coração grande» que «fez muito» pela cidade que o viu nascer, e que ajudou «muitas pessoas da terra que se encontravam em situação difícil». Valerá a pena lembrar que também os traficantes que controlam as favelas do Rio de Janeiro são generosos para com as colectividades locais, que ajudam as pessoas que se encontram em dificuldades, e que os residentes os preferem às autoridades?

A GRANDE MÚSICA (2)

28.10.09

NÃO PERCEBI. José Saramago é um «mau escritor talentoso»? O que é um «mau escritor talentoso»?

VELHOS. Isto é indecente.

26.10.09

MALABARISMOS. Lembram-se do episódio da TVI, em que alguém se encostou a Marcelo e Marcelo atirou-se para o chão? Pois bem, está em marcha uma manobra idêntica na RTP. Como na bola, onde estes truques são corriqueiros, geralmente a dúvida beneficia quem está no chão, e Marcelo sabe bem como estas coisas funcionam.

EXIBICIONISMO. O Telejornal da última sexta passou uma «peça» sobre os conflitos no Rio de Janeiro antecedida de uma chamada de atenção para as condições em que ela foi produzida. Segundo o pivot, a equipa da televisão pública no Rio passou um mau bocado, e o mau bocado incluiu risco de vida. Vista a «peça» com redobrada atenção, não vislumbrei que mais-valia trouxe tão arriscado exercício, nem que informação relevante terá acrescentado. O que se viu, lamento dizê-lo, foi um exibicionismo perfeitamente escusado, que poderia ter acabado mal.

REGRESSO À VACA FRIA. Sobre a polémica saramaguiana, um excerto de Caim:

«O jardim do éden era ubérrimo em frutos, aliás não se encontrava lá outra coisa de proveito, até aqueles animais que, por natureza, deveriam alimentar-se de carne sangrenta, pois para carnívoros vieram ao mundo, haviam sido, por imposição divina, submetidos à mesma melancólica e insatisfatória dieta. O que não se sabia era donde tinham vindo as peles que o senhor fizera aparecer com um simples estalar de dedos, como um prestidigitador. De animais eram, e grandes, mas vá lá saber-se quem os teria matado e esfolado, e onde. Casualmente, havia água por ali perto, porém não era mais que um regato turvo, em nada parecido com o rio caudaloso que nascia no jardim do éden e depois se dividia em quatro braços, um que ia regar uma região onde se dizia que o ouro abundava e outro que rodeava a terra de cuche.»

Outro excerto d’A Viagem do Elefante:

«A caravana de homens, cavalos, bois e elefante foi engolida definitivamente pela bruma, nem sequer se distingue a mancha do extenso vulto do ajuntamento que formam. Vamos ter de correr para alcançá-la. Felizmente, considerando o pouco tempo que ficámos a assistir ao debate dos hércules da aldeia, o pessoal não poderá ir muito longe. Em situação de visibilidade normal ou de bruma menos parecida com puré que esta, bastaria seguir os rastos das grossas rodas do carro de bois e do carro da intendência no chão amolecido, mas, agora, nem mesmo com o nariz a roçar a terra se conseguia descobrir que por aqui passou gente.»

Ainda outro d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo:

«O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo.»

Será preciso invocar deus e o diabo para vender prosas destas? Como concluirão pelas amostras, é preciso. É que elas soam a redacção doutros tempos, e não me venham com relativismos. Discutir deus e o diabo sempre que dá à estampa um novo livro, como Saramago gosta de fazer, é puro marketing, curiosamente um produto por excelência do sistema político que Saramago tanto abomina mas que não dispensa. Do essencial quase nunca se fala, e o essencial é que as prosas de Saramago não valem um caracol.

23.10.09

O ERNESTO. Interessados na polémica saramaguiana? Então não se esqueçam do Ensaio sobre a toleima e do Ernesto.

21.10.09

BALELAS SARAMAGUIANAS. Não sei se a Bíblia é um «manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana», como diz Saramago, e se Caim poderá «incomodar os judeus», como suspeita ou deseja. Duma coisa, porém, não duvido: Saramago é melhor na promoção dos seus livros que a escrevê-los, coisa, aliás, que não é difícil. (Ler o restante aqui.)

20.10.09

LI E GOSTEI (7)

A gala mais memorável de todas foi a que os venezianos prepararam para a visita de Henrique III de França, em 1574 — um evento que, embora sem particulares consequências políticas, ficou de tal forma gravado na memória da cidade que é quase sempre incluído nas listas de datas importantes de Veneza. Palladio desenhou arcos triunfais de boas-vindas, que Tintoretto e Veronese decoraram, e Henrique III (na altura com 23 anos) foi transportado pela cidade num barco impulsionado por 400 remadores eslavos, com uma escolta de 14 galés. Durante a travessia da laguna, a frota foi acompanhada por uma enorme balsa, onde vidreiros criavam objectos de vidro para recreação d'EI- Rei ao lado de uma fornalha que mais parecia um monstro marinho gigantesco a vomitar fogo pelas mandíbulas e narinas — em breve se lhe juntou uma segunda armada de barcos com curiosas decorações, fantasiosos ou simbólicos, repletos de golfinhos e deuses marinhos ou adornados com ricas tapeçarias. Em Veneza, o palácio que dá pelo nome de Ca’Foscari, e que fica no Grande Canal, foi especialmente preparado para a visita real. Ornamentaram-no com pano de ouro, tapeçarias orientais, mármores raros, sedas, veludos e pórfiro. Os lençóis eram bordados a seda carmesim. Os quadros, adquiridos ou encomendados especialmente para a ocasião, eram da autoria de Giovanni Bellini, Ticiano, Paris Bordone, Tintoretto e Veronese. Para o banquete principal, que teve lugar na gigantesca Câmara do Grande Conselho do Palácio dos Doges, suspenderam-se temporariamente as leis sumptuárias, e as mulheres mais belas de Veneza lá apareceram com trajes de um branco deslumbrante, «adornadas», como nos diz certo historiador, «com jóias e pérolas de grande tamanho, não só ao pescoço, mas também sobre o penteado e as capas que traziam pelos ombros». Da ementa constavam 1200 pratos, mil convidados comeram em baixela de prata, e as mesas estavam decoradas com estátuas de papas, doges, deuses, virtudes, animais e mores, todas feitas de açúcar, desenhadas por um arquitecto eminente e moldadas por um boticário talentoso. Quando Henrique III pegou no seu guardanapo de pregas elaboradas, descobriu que o mesmo também era feito de açúcar. Quando a refeição se aproximou do seu término, serviram-se 300 tipos diferentes de bombons, e depois do jantar El-Rei assistiu à primeira ópera representada em Itália. Quando Henrique III saiu finalmente para a noite, descobriu que uma galé de que lhe haviam apresentado as partes componentes no início da noite fora montada durante o banquete no cais em frente: a galé foi lançada à laguna aquando da sua saída do palácio, juntamente com um canhão de sete toneladas que os venezianos fundiram entre a sopa e o suflê.
Segundo alguns historiadores, o pobre e jovem rei, que se vestia de forma muito simples e gostava de passear anónimo por cidades desconhecidas, nunca mais voltou a ser o mesmo e viveu o resto da vida num perpétuo deslumbramento.


Jan Morris, Veneza

19.10.09

EU NÃO LIGO A ESSAS COISAS. Concordo que o caso Maitê Proença não tem importância, e também me parece evidente que exigir-lhe desculpas, ou que lhe proíbam a entrada em Portugal, ainda é mais ridículo que o vídeo. Escusavam era de andar para aí a escrever quilómetros de prosa a dizer que o caso não tem importância, pois isso demonstra que se dá importância ao que se diz não ter importância.

CONSPIRAÇÃO. O pior é se o bruxo não deixa.

LINKS. No Pocinho, por Rentes de Carvalho, e Dramas de que a ONU não cuida, por Ferreira Fernandes.

16.10.09

DE COITADA A COITADINHA. A catraia do vídeo resolveu desculpar-se, mas aproveitou a boleia para dizer que não percebe a «falta de sentido de humor das pessoas» (leia-se portugueses), o que equivale a dizer, de novo, que os portugueses são umas bestas, pois não conseguem descortinar a subtileza humorística da boçal criatura. Não percebe, nem admira que não perceba. Afinal, quem é capaz de uma fita daquelas e de ainda se rir da proeza dificilmente perceberá o que quer que seja. Diz Miguel Sousa Tavares que os portugueses reagiram de forma «provinciana» e «saloia», que «somos um povo sem capacidade de humor e autocrítica», e que «só um povo com complexos é que se sente melindrado com uma coisa destas». Acontece que Miguel Sousa Tavares anda de amores com a donzela (dizem os jornais), e os portugueses sabem bem, apesar da burrice, como os amores cegam qualquer um.

15.10.09

A GRANDE MÚSICA (1)

14.10.09

POST CHATO E COMPRIDO. Algumas notas sobre o recente Prós e Contras: 1) José Manuel Fernandes não conseguiu fundamentar, de forma convincente, a notícia do Público sobre as escutas. Pior: visivelmente irritado, o ex-director do jornal da Sonae revelou ter aceitado ir ao programa na condição de o tema das escutas ser, apenas, «uma nota de rodapé» («negócio» prontamente desmentido por Fátima Campos Ferreira), deixando a ideia de que não teria aceite o convite caso soubesse que o tema iria ser abordado da forma que foi abordado. E por que não queria ele discutir o assunto da forma que foi discutido? Como ficou demonstrado no decorrer do debate, porque não tinha substância que fundamentasse a notícia; 2) O director do Expresso, que se fartou de meter os pés pelas mãos e se revelou perito em dar uma no cravo e outra na ferradura, reconheceu que a notícia do Público carecia de sustentação, e chegou mesmo a admitir que a dita não tinha pés nem cabeça. Monteiro insistiu e voltou a insistir em quem (e com que intenção) enviou o e-mail às redacções, como se isso fosse mais importante que o e-mail propriamente dito. Depois de grande parte do tempo a interromper toda a gente a propósito de tudo e de nada, introduzindo ainda mais ruído em já tão ruidoso debate, o director do Expresso terminou a sua intervenção a dar lições de jornalismo, nomeadamente ao director do Diário de Notícias, a quem acusou de não ter currículo e procurou diminuir por vir do jornalismo desportivo; 3) A forma como o e-mail foi obtido pelo Diário de Notícias, e se devia, ou não, ter sido divulgado, gerou uma discussão longa e cansativa, chegando a ficar a impressão de que a forma como ele chegou às redacções (do DN e do Expresso, pelo menos) era mais importante que o seu conteúdo; 4) Os jornalistas deram uma péssima imagem do jornalismo que temos. Pior: talvez a imagem corresponda ao jornalismo que temos. A peixeirada que reinou na segunda parte, e que se terá prolongado para lá do final do programa, foi a triste constatação de que o chamado «jornalismo de referência» não merece confiança.

13.10.09

COITADA. Não me parece que o vídeo de que tanto se fala seja uma ofensa a Portugal e aos portugueses. Pelo contrário. A fita é uma ofensa à inteligência dos brasileiros, os quais a donzela tratou como se fossem atrasados mentais.

12.10.09

PERDEDORES. Elisa Ferreira fez os possíveis e os impossíveis para não ser eleita para a Câmara do Porto. Primeiro foi a promessa de ir a Bruxelas dar o nome e voltar, depois disse que o Parlamento Europeu é um «trampolim inconfessável» e uma «gamela», finalmente insinuou que Rui Rio tinha «o apoio de seis milhões de benfiquistas». O resultado só podia ser a estrondosa e merecida derrota.

BOAS NOTÍCIAS, MÁS NOTÍCIAS. Quatro boas notícias sobre as autárquicas: as derrotas de Ana Gomes, Elisa Ferreira, Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres. As primeiras porque trataram de assegurar que as suas carreiras políticas não ficariam em risco quando se candidataram às câmaras de Sintra e do Porto, os segundos por razões que todos sabemos. As más notícias dizem que Isaltino Morais ganhou, e que ganhou por margem folgada. Isaltino, recorde-se, acaba de ser condenado a sete anos de cadeia por corrupção (repito: corrupção), e duvido que haja um só único eleitor que não saiba disso. Talvez a coisa se explique como diz o André Abrantes Amaral: «Há muitos anos que os tribunais fazem pouco dos cidadãos. Agora recebem o troco.» De facto, a (eventual) falta de concorrência à altura não explica tudo.

9.10.09

NOBEL DA TRETA. O que é que Barack Obama fez, até agora, pela paz no Mundo? Ou estou a ver mal, ou o que fez não passou dos discursos e das boas intenções. O Iraque continua. O Afeganistão complicou-se. Guantânamo continua por fechar. Nada mudou com o Irão. Obama acaba de se recusar a receber o Dalai Lama, que me conste não em nome da paz. Como se vê, a falta de currículo em matéria de paz e derivados é flagrante e notável, e não deve ter sido por acaso que o prémio causou tanta surpresa. Votei em Obama nas Presidenciais, como já disse e repeti. Mas o Nobel da Paz que lhe foi atribuído desvaloriza o simbolismo do prémio e ridiculariza quem lho atribuiu.

8.10.09

NOBEL DA LITERATURA. A avaliar pela ausência de comentários praticamente um dia depois do anúncio, nomeadamente nos blogues da especialidade, o Nobel da Literatura deste ano foi, de novo, uma surpresa. Uma surpresa a ponto de ninguém — ou quase ninguém — conhecer a premiada, o que à partida não significa que o prémio foi mal entregue. Aguardemos o que vai ser dito nos próximos dias sobre Herta Müller, que a Academia sueca considerou uma escritora que «pinta as paisagens dos desfavorecidos», deixando a ideia de que o critério foi, outra vez, mais político que literário.

RULFO E CARPENTIER. Não imaginam as voltas que eu dei, recentemente, em busca de edições portuguesas de Alejo Carpentier e Juan Rulfo. Na FNAC da Santa Catarina disseram-me que nunca ouviram falar, mas depois lá descobriram Rulfo (esgotado) na base de dados. Na Leitura disseram-me o que eu já sabia: só tinham em espanhol, e só o escritor mexicano. Dois alfarrabistas garantiram-me que nunca ouviram falar (parece que já não há alfarrabistas como antigamente), e na Lello informaram-me, de memória, que ambos estavam, há muito, fora do mercado, e duvidaram que eu conseguisse encontrar qualquer um deles mesmo no mais remoto alfarrabista. Conhecida a realidade, pelos vistos há muito detectada, pergunto: os editores portugueses andam distraídos, ou não há leitores para Rulfo e Carpentier?

POLÍTICOS. O João Gonçalves diz que os políticos «que andam o ano todo de carro com motorista» deviam experimentar os transportes públicos «às horas a que as pessoas "normais" os têm de apanhar» em vez de andarem para aí a «armar ao pingarelho». Como julgo a maioria, subscrevo. Subscrevo, e acrescento: os políticos que passam a vida arredados dos eleitores (quase todos) e, de repente, porque há eleições, se vêem na rua aos beijos e abraços, fingindo que amam o «povo» mas de que logo se «desinfectam» mal termine a campanha, deviam ser recebidos pelos eleitores com o gesto imortalizado por Bordalo Pinheiro.

7.10.09

PENSAMENTO DO DIA. Há sempre quem não perdoe que um sujeito de direita se interesse mais por James Joyce e Balzac do que pelo Dow Jones e o NASDAQ.

6.10.09

TRADUÇÕES. Lida uma dezena de páginas de A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, editado pela Porto Editora, considerei pôr de parte a tradução portuguesa e optar pela língua em que foi escrito. Por uma razão simples: a tradução roça o miserável. Aliás, só levei o livro até ao fim porque quis ver até onde iam os disparates — que são inúmeros, e quase sempre grosseiros. Pior: a língua portuguesa chega a ser atropelada por erros de palmatória. A coisa torna-se suspeita logo na capa e na contracapa, onde se diz, em inglês, que o livro foi premiado com um Pulitzer, sem que se vislumbre por que não foi dito em português. Diz-se, em nota editorial, que tradutor e editor «acordaram manter a tradução sem qualquer tipo de formatação gráfica especial que possa comprometer a fluidez do discurso das personagens». Seja, mas eu falo de erros básicos, não de subtilezas. Falo de coisas inacreditáveis, e para as quais não vejo explicação aceitável.