1 de Fevereiro de 2012

ELOGIO DO CONFLITO. Presidente e Governo garantiram, à vez, que não há problema entre eles. E por que se deram a esse trabalho? Porque há, de facto, um problema entre eles, como até o mais distraído já notou. Mas será um conflito entre o Presidente e o Governo um mal em si mesmo? Depende, claro, da natureza do conflito, mas de um modo geral parece-me positivo. E quando o conflito é entre membros da mesma família política, como o caso presente, ainda me parece melhor. Claro que não é fácil perceber quando o conflito resulta de diferentes pontos de vista ou de razões, digamos, de pequena política. Mas em política o conflito é saudável, se calhar mesmo quando motivado pela pequena política. A unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues já não me lembro a que propósito. A unanimidade em política ainda é mais burra, acrescentaria eu.
ORA NEM MAIS. Um equívoco chamado «cultura»
BEM OBSERVADO. O cinema não foi inventado por juristas portugueses e, por isso, começou por ser mudo.

31 de Janeiro de 2012

INOCENTE PORQUE SIM. Mário Soares escreveu, a propósito do livro Inocente para além de qualquer dúvida, que Carlos Cruz tem vindo «a demonstrar a sua inocência». Ora, de que modo? Publicando livros onde não se espera que diga outra coisa? Publicando livros onde apenas se lê a sua versão dos factos? Publicando livros onde se apresenta como juiz em causa própria? Já disse e repeti que não sei se Cruz é culpado dos crimes de que foi acusado — e, já agora, condenado, apesar do recurso ainda correr no Tribunal da Relação de Lisboa. Mas não será evidente que os livros que ele vem publicando não demonstram coisa alguma? Muitos acham que Cruz está inocente porque se recusam a acreditar que ele foi capaz de cometer os crimes por que foi condenado, porque acham que Cruz é uma pessoa decente, porque são amigos dele e os amigos são para as ocasiões. Resumindo, acreditam na sua inocência porque sim. Já o tribunal considerou-o culpado com base em evidências mais sólidas que o porque sim. Claro que o tribunal se pode ter enganado, mas a quantidade de material que lhe passou pelas mãos e o ror de gente que o processo envolveu torna difícil acreditar na existência de um erro, muito menos numa conspiração. Haverá, quando muito, pequenos erros processuais, mas custa-me a crer que o tribunal tenha errado no essencial. Nada contra Carlos Cruz, mas acredito mais facilmente no tribunal que na versão dele. Pela simples razão de que a versão do tribunal é mais consistente, e presumo que o tribunal não tinha, à partida, interesse que o desfecho do caso fosse numa determinada direcção, como vi insinuado mas nunca fundamentado. Já a versão de Carlos Cruz é a versão de parte interessada. Por mais objectiva e distanciada que se reclame.
LEITURA A NÃO PERDER. A Mão no Poder

30 de Janeiro de 2012

UM FAIT DIVERS? Aparentemente, a petição que pede a demissão de Cavaco vai dar em nada. Por força da lei (ninguém o pode demitir), e porque a lei é para cumprir. Mas 39 mil assinaturas a pedir a demissão do Presidente da República por este ter dito o que não devia, convenhamos que não é o fait divers que alguns pretendem fazer crer. Não que eu defenda a demissão de Cavaco por causa do lamentável episódio. Mas não me venham dizer que o que disse o PR sobre a sua reforma e a petição que agora pede a sua demissão não são coisas para levar a sério. Especialmente depois de Cavaco não ter sido capaz de matar o assunto à nascença, como lhe competia, e quando finalmente condescendeu a dar explicações mais valia estar calado.
ISTO ANDA TUDO LIGADO. Como estarão lembrados, há pouco mais de uma semana a RTP promoveu uma espécie de Prós e Prós a partir de Luanda que dificilmente se distinguiria da propaganda do antigo regime, e que ditou o encerramento de um programa da RDP após um seu colaborador denunciar a tramóia. Dois ou três dias depois noticiaram-se mudanças na administração do BCP, por vontade de um dos seus maiores accionistas (a Sonangol), e o despedimento de duas dezenas de jornalistas do Sol, cujo maior accionista é, adivinharam, um grupo angolano. Isto para só falar do que veio a lume na última semana, que os casos multiplicam-se e parte deles nem chega às notícias. Como é evidente, isto não augura nada de bom.
A RTP NÃO TEM NADA A DIZER? Como se viu, foram às dezenas as críticas que nos media se ouviram sobre o Prós e Contras travestido de Reencontro que a RTP emitiu a partir de Luanda. Ora, face a este cenário, a direcção de informação da televisão pública não tem nada a dizer? Não seria de esperar que a RTP, serviço público de televisão, explicasse o critério editorial que presidiu àquilo, e que saísse em defesa da casa e de quem nela trabalha?

25 de Janeiro de 2012

FICAMOS À ESPERA DA CURA. Há uma justiça para os ricos e uma justiça para os pobres, disse a ministra da Justiça. Disse mais: há um sem número de fraudes no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente praticados por laboratórios farmacêuticos e fornecedores de equipamentos. Nada que não se detecte a olho nu no primeiro caso, e que não se suspeite no segundo. Mas é bom que seja a ministra a dizê-lo, embora dizê-lo não baste para mudar o que quer que seja. Duvido, aliás, que a ministra consiga curar os males que apontou, como julgo ser sua intenção, mesmo genuinamente convencida de que é capaz e que a vontade nunca lhe falte.

23 de Janeiro de 2012

POBREZA DE ESPÍRITO. O Presidente da República demorou três dias a dizer aos portugueses que não foi «suficientemente claro» quando falou sobre as suas pensões de reforma. Ora, se o que disse Cavaco sobre o assunto constituiu um insulto aos portugueses, particularmente aos portugueses que recebem pensões de miséria ou estão no desemprego, vir agora dizer que não foi claro naquilo que foi claro como água, é mais um insulto aos portugueses. O Presidente achará mesmo que a generalidade dos portugueses se identifica com o seu caso, que também ele, como a generalidade dos seus concidadãos, sofreu com as medidas de austeridade impostas pelo Governo? Se acha, só posso concordar com o Alberto Gonçalves quando ele diz que «a tentativa de se aproximar do homem comum na pobreza material levou Cavaco Silva a suplantá-lo em pobreza de espírito». Isto na melhor das hipóteses, que já é suficientemente má para se imaginarem outras piores.
PROPAGANDA VERGONHOSA. O que não diria o João Gonçalves, hoje adjunto do ministro Relvas, do Prós e Contras disfarçado de Reencontro que a RTP, serviço público de televisão, se prestou a fazer a partir de Luanda. Não foi, aliás, por acaso que Pacheco Pereira, destacado militante do PSD, comparou a fantochada às práticas do Estado Novo, e Eduardo Cintra Torres, militante do PSD ou lá próximo, lhe chamou «porcaria». De facto, não me lembro de nada tão vergonhoso.
DEMOCRACIA. Provavelmente grande parte dos inquiridos não tem bem a noção do que a democracia representa, mas ainda assim preocupa que apenas 56% dos portugueses considere preferível a democracia a qualquer outra forma de governo. Pior: segundo o estudo há pouco divulgado, estes números têm vindo a baixar, e 15% dos inquiridos acham mesmo que «nalgumas circunstâncias» é preferível um governo autoritário a um sistema democrático. Porque, diz-se no estudo, os portugueses se sentem cada vez menos representados pelos partidos políticos e cada vez mais pelos «movimentos sociais de protesto». Ora, que os partidos políticos estão cada vez mais distantes dos cidadãos, é uma evidência que se nota cada vez mais e motivo de preocupação. Mas preocupante mesmo é saber que os portugueses se vêm distanciando da democracia. Ficou célebre a frase de Churchill sobre a democracia, que considerou o pior dos sistemas exceptuando todos os outros. Infelizmente, nenhum outro sistema o superou até agora. Com todos os defeitos (que são muitos), a democracia continua a ser o menos mau dos sistemas, o único que permite o que mais prezo: a liberdade, tenha ela as condicionantes que tiver.

19 de Janeiro de 2012

UM FILME DEMASIADO VISTO. Para não variar, a história das nomeações para a empresa Águas de Portugal está pessimamente contada, e cheira a um expediente demasiado familiar. Os administradores acabadinhos de nomear são competentes? Serão, e também pertencem aos partidos que integram a coligação governamental — e ninguém acredita em coincidências. Depois há um dos nomeados que enquanto presidente de câmara mantém um contencioso com a Águas de Portugal por não ter pago alguns milhões de euros. Como conciliar os interesses do município que governa com os interesses da empresa de que agora é administrador? Se dúvidas houvesse que as nomeações se destinaram a satisfazer clientelas, este episódio acaba com elas. Evidentemente que nada disto surpreende. Mas é preciso lembrar que, neste aspecto, o actual Governo não se distingue dos anteriores, como tanto gosta de alardear. E ainda a procissão vai no adro.

17 de Janeiro de 2012

KAZANTZAKIS. Nova incursão pelos alfarrabistas, mais duas preciosidades a preços ridículos: Report to Greco, de Nikos Kazantzakis, e The Autobiography of William Butler Yeats. Agarrei-me logo ao primeiro como quem não tem mais nada para ler, e desconfio que não porei a vista noutros enquanto não o acabar. Pouco mais de uma centena de páginas bastaram para ver que é um livro a ler devagar, a saborear palavra a palavra como quem saboreia o que mais gosta. O tempo amareleceu-lhe as páginas, e a sujidade é maior que o normal nestes casos. Mas também há sublinhados e comentários nas margens, coisas que irritarão a maioria dos leitores mas que eu encaro como mais-valias.

13 de Janeiro de 2012

CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL? O Miguel Castelo Branco esqueceu-se, ao referir-se às abomináveis imagens de soldados americanos a urinar sobre cadáveres talibãs, de um detalhe importante: nas guerras de antigamente não havia máquinas fotográficas, câmaras de filmar e internet ao alcance de qualquer um — e isso, convenhamos, faz toda a diferença. Pior: confunde um episódio isolado com a América, de que demonstra ter uma visão assente nos estereótipos do costume.
MAÇONARIA. O jornalista Ferreira Fernandes publicou, há pouco, uma crónica com o seguinte título: «Hoje, os maçons escondem-se de quê?» De facto, tendo em conta que vivemos em regime democrático, onde os maçons não correm o risco de ser presos ou vítimas de patifarias, a pergunta impõe-se. Exigir que os deputados maçons e outros detentores de cargos políticos declarem a condição de maçons em nome da transparência, como alguns defendem, talvez seja um exagero, e provavelmente é ilegal. Mas não há dúvida de que esta história de amor entre a Maçonaria e o poder, ou entre uma certa Maçonaria e um certo poder, fede que tresanda. Daí que não viria mal ao mundo que os maçons detentores de cargos políticos livremente se assumam como tal. Não duvido que a maçonaria é respeitável, e não estou a ironizar. Mas como distinguir os maçons bons dos maçons maus? E porque não acabam, já agora, com o secretismo, que até hoje ninguém explicou e só gera desconfianças?
POLÍTICA E INTERESSES. Concordo com a generalidade do que disse Francisco Assis no Público de ontem, mas com uma ressalva: é evidente que existe uma direita política e uma direita dos interesses, como ele disse, como é evidente que existe uma esquerda política e uma esquerda dos interesses, como ele não disse. Esquerda e direita não se distinguem neste aspecto, pelo menos a esquerda e a direita moderadas. Talvez seja um exagero dizer que o posicionamento ideológico da maioria dos que actualmente se interessam por política funciona mais por interesse que por convicção, mas a verdade é que são cada vez mais os casos em que isso se torna evidente.

10 de Janeiro de 2012

CARLOS CRUZ. Já dei para o processo Casa Pia, e para o processo Carlos Cruz em particular. Como então disse e repeti, não sei se é culpado quem a justiça julgou como tal, incluindo Carlos Cruz, provavelmente o mais inconformado com a decisão do tribunal, que considera um erro clamoroso. Mas será que o livro que vai publicar e o sítio na internet que mantém sobre o caso comprovam alguma coisa, como nos quer fazer crer? Como Carlos Cruz muito bem sabe, o que pôs na internet e no livro, parcialmente transcrito no último Expresso, não prova coisa nenhuma. O que lá está é apenas uma versão dos factos, no caso a sua própria versão, e desnecessário será dizer que a versão dos factos de quem deles é protagonista e parte interessada não pode deixar de ser vista com reserva. Quem está realmente interessado em saber o que se passou sabe bem que o mínimo a fazer é ouvir todas as partes, logo qualquer cidadão não inteiramente analfabeto sabe que o livro não prova coisa nenhuma. Isto no que aos factos diz respeito. Quando a juízos, será preciso lembrar que ninguém é bom juiz em causa própria? Claro que Carlos Cruz pode estar inocente, e se assim for estamos diante uma monstruosidade. Mas quem acredita que os três juízes (repito: três juízes) que o julgaram tenham cometido tamanha monstruosidade? E, já agora, que razões terão tido esses mesmos juízes para, segundo Cruz, não quererem absolvê-lo?
O PAÍS ÀS AVESSAS. Não sei quantos milhões investe o Estado nas universidades públicas. Mas considerando as propinas ridículas pagas pela maioria dos estudantes, devem ser rios de dinheiro. Não percebo, por isso, o comentário de Miguel Relvas quando diz orgulhar-se de a actual emigração ser protagonizada por uma «juventude bem preparada» graças a um substancial investimento do Estado nas últimas décadas. Então o ministro orgulha-se de o Estado investir milhões na formação dos jovens que depois outros países, que não investiram um centavo, irão beneficiar? Além disso, é normal o Governo de um país incentivar os seus próprios cidadãos a emigrar? Estarei a ver mal, ou o Governo deveria fazer precisamente o contrário?
PARA LER E MEDITAR. Poder & Associados

9 de Janeiro de 2012

RENTES DE CARVALHO, OUTRA VEZ. Tomei conhecimento da prosa de Rentes de Carvalho na Eito Fora, uma revista que então se publicava em Trás-os-Montes e que viria a dar origem à Periférica, também já extinta. Desde então mantive-me atento ao que dele se foi dizendo e ao que ele foi escrevendo, e logo que pude devorei-lhe os livros. Comecei Com os Holandeses, prossegui com La Coca, e tenho pena de não ter investido em mais uns quantos quando tive oportunidade. Custa a crer que um escritor desta envergadura só tenha sido descoberto pelos portugueses há meia dúzia de anos. (Rentes de Carvalho tem um blogue a que vale a pena estar atento.)

6 de Janeiro de 2012

PORTUGAL DOS PEQUENINOS. O João Gonçalves é dos que melhor escreve na blogosfera. Apesar de raramente concordar com ele, não me lembro de alguma vez discordar da forma como constrói as suas prosas. Custa-me, portanto, vê-lo, desde o final do socratismo e princípios do passismo (de que ele disse o piorio antes de se tornar adjunto do ministro Miguel Relvas, como se pode ver aqui), reduzido a meia dúzia de parágrafos semanais, quase sempre para tecer os mais rasgados elogios a quem lhe paga. Interessante como passou do 8 ao 80, da crítica mais cruel — e tantas vezes gratuita — ao panegírico mais descarado. Até um assalariado com modestíssimas funções numa modestíssima empresa não se atreveria a tanto.

5 de Janeiro de 2012

UM PECADOR CONFESSA-SE. Fernando Lima, assessor político do presidente Cavaco desde que Cavaco lhe retirou a assessoria de imprensa após um lamentável e mal contado episódio, escreveu numa revista que «uma informação não domesticada constitui uma ameaça» para os governantes. Disse mais: «Controlar o fluxo noticioso numa época de grande competição informativa é de vital importância para o êxito de qualquer iniciativa no plano politico.» A evidência apenas surpreende os ingénuos ou quem vive noutro planeta, mas não deixa de surpreender que um cavalheiro que detém um cargo político faça uma afirmação destas como se falasse da coisa mais trivial. Um detentor de um lugar político que pensa — e age, como ele já demonstrou — deste modo devia ser demitido.

3 de Janeiro de 2012

MUDAM-SE OS TEMPOS. Se bem me lembro, Alexandre Soares dos Santos, patrão da Jerónimo Martins, prometia, há pouco, não transferir a sede das suas empresas para o estrangeiro, por razões que então considerou patrióticas. Lembram-se das duas ou três entrevistas televisivas que ele deu há uns meses que tantos elogios lhe valeram? Uma simples pesquisa no Google basta para as encontrar, e vale a pena revê-las. Não sei se a transferência da Jerónimo Martins para a Holanda levanta questões de natureza legal, como esta notícia sugere. Sei, porém, uma coisa: são cada vez mais as grandes e médias empresas portuguesas a transferirem as suas sedes para o estrangeiro, e só estrangeiros malucos ou mal informados, como ainda há pouco dizia Medina Carreira, investirão em Portugal. Assim vamos.
FAÇAM O FAVOR DE LER. Sem honra nem glória

30 de Dezembro de 2011

LAMENTÁVEL. A notícia já é velha, mas a questão permanece actual: havia necessidade de dobrar o Equador para português do Brasil? Imagino que os distribuidores (ou lá quem foi) pretenderam, com o expediente, atingir um público mais vasto, mas quem já viu uma telenovela brasileira dobrada para português de Portugal? Sim, duvido que o expediente conquiste maior audiência, e escusado será dizer que uma telenovela brasileira dobrada em português de Portugal soaria ridícula, logo um mau negócio. Dobrar é mais ou menos como traduzir para pior, pelo que a ficção só deve ser traduzida ou dobrada para outra língua quando for mesmo necessário. A ficção deve ser vista (lida, ouvida) no original, e apenas deve ser traduzida ou dobrada quando se destina a um público que desconhece a língua em que foi filmada (escrita, gravada). Como é evidente, não é o caso de Equador. A dobragem foi não só desnecessária como lamentável.
HERÓIS DA TRETA. Já não há pachorra para tanto herói que todos os dias nos chegam pelas televisões cujo «heroísmo» se resume ao simples facto de terem feito o trabalho que lhes competia e deles se espera. Heróis são os que arriscam a vida em prol dos outros, de causas nobres ou julgadas como tal, que protagonizam situações excepcionais para salvar os outros sem que seja essa a sua função. Não um qualquer acto banal, geralmente «inventado» pelas televisões, que depois exploram até à obscenidade.

28 de Dezembro de 2011

BULAS. Recomendaram-me que tomasse determinado medicamento para determinada doença. Lida a bula, para quem não sabe o papelinho que acompanha os medicamentos onde se explica tudo e mais alguma coisa (tem outros significados que para aqui não interessam), tudo o que lá se diz sobre o modo como deve ser administrado é por «suspensão oral». Não diz se deve ser tomado com líquidos ou sem líquidos, se de manhã ou à noite, antes ou após as refeições. Deve ser tomado por «suspensão oral», e o resto não interessa. Fui ver ao dicionário o que significa tal coisa, mas confesso que fiquei na mesma. Presumo que se pretende dizer que deve ser tomado pela boca. (Nos Estados Unidos, pelo menos no local onde resido, os frasquinhos de comprimidos vendidos por receita médica vêm com a indicação expressa de que devem ser tomados pela boca, não vá alguém metê-los sabe-se lá onde e o farmacêutico ficar em trabalhos.) Mas se a ideia é mesmo dizer que os medicamentos receitados devem ser tomados pela boca, porquê utilizar uma expressão que não se entende? Terá sido apenas descuido, ou a ideia é impressionar os pategos?

26 de Dezembro de 2011

GAFFES. Confesso que ando a ficar um bocado cansado das gaffes, ou das asneiras que passam por gaffes. O primeiro-ministro aconselhou os professores sem trabalho a emigrar quando se esperaria que lhes desse esperança para não o fazerem? Foi uma gaffe. Tempos antes o secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo aconselhou os jovens a fazer o mesmo? Foi uma gaffe. O ex-chefe do Governo e dos socialistas afirmou que honrar os compromissos é coisa de crianças? Foi uma gaffe. Um deputado do PS diz que se está «marimbando para os credores»? Foi uma gaffe. Sempre que os nossos políticos dizem o que não devem, não pensam o que dizem ou dizem o que pensam por não pensarem o que dizem, lá vem a explicação: foi uma gaffe. Ora, é preciso dizer que os episódios enunciados não foram gaffes, deturpações ou descontextualização do que disseram, como geralmente os visados procuram fazer crer. Foram asneiras, por sinal asneiras das grandes, que demonstram bem o que lhes vai nas cabecinhas. Não me parece necessário um Freud para constatar a evidência.

22 de Dezembro de 2011

REINALDO ARENAS. Vargas Llosa escreveu sobre Antes que anochezca (em português Antes que Anoiteça) que foi um dos mais comoventes testemunhos sobre a opressão e a rebeldia jamais escritos em língua espanhola. Terminado o livro, uma espécie de autobiografia que finaliza com a carta enviada aos amigos antes de pôr termo à vida, não sei bem o que dizer. As cenas de sexo pareceram-me excessivas, mas foi, seguramente, um dos livros que mais me impressionou.

20 de Dezembro de 2011

NÃO ESQUECER. A crónica de Jorge Marmelo no Público de hoje (apenas disponível a pagantes), onde chama a atenção para o tão esquecido Rodrigues Miguéis, levou-me a repescar um extracto de Estranha Vida e Morte do Professor Reineta em tempos aqui publicado, que reza assim:

«Lembro perfeitamente o nosso primeiro encontro na Pátria amada, longos anos antes. [O Professor Reineta] era então um homem público em evidência e ocupava posições de alta responsabilidade política e cultural. Parlamentar e orador de recursos, eu tinha-o ouvido discursar algumas vezes fora e dentro do Congresso da República, onde ficou lembrado, entre outras coisas, pelo discurso de nove ou dez horas que pronunciou para salvar o governo do seu partido — a noite inteira, até chegarem da província os deputados que lhe dariam a maioria —, e a respeito do qual um velho líder da Oposição, famoso pelo seu humor, teve este comentário: «O que eu mais admiro no meu colega não é a capacidade oratória: é a capacidade da bexiga!»

19 de Dezembro de 2011

A MEDIOCRIDADE QUE NOS GOVERNA. O primeiro-ministro em funções sugere que os professores desempregados emigrem para os países que deles necessitem, nomeadamente Angola e Brasil. O secretário de Estado da Juventude do mesmo Governo em tempos aconselhou os jovens desempregados a emigrar. Na oposição, Pedro Nuno Santos, deputado socialista, sugeriu que Portugal deve suspender o pagamento da dívida, porque se está «marimbando para os credores». José Sócrates, antigo chefe do Governo e dos socialistas, afirmou um mês antes que «pagar a dívida é uma ideia de criança», embora posteriormente tenha assegurado que não foi bem isso o que disse. Infelizmente, não é de gaffes que falo, mas de coisas que lhes vão nas cabecinhas. Temos, portanto, um Governo que em vez de tudo fazer para que os portugueses vivam bem no seu próprio país os aconselha a emigrar, e o principal partido da oposição a produzir disparates atrás de disparates. Provavelmente temos os políticos que merecemos, mas custa ver tanta mediocridade a gerir os destinos do país.

15 de Dezembro de 2011

A JUSTIÇA QUE TEMOS (2). A ministra da Justiça pode ser incompetente, pode ter um problema com os advogados, pode estar de má-fé e tudo o mais que quiserem. Mas quem a vê acusar mais de um milhar de advogados de burlarem o Estado em meio milhão de euros sem factos que o comprovem? Os advogados terão razões de queixa da ministra, mas dizer que Paula Teixeira da Cruz está a promover uma «campanha difamatória» contra eles e pedir a sua demissão por a ministra se ter limitado a citar uma auditoria que detectou irregularidades praticadas por mais de um milhar de advogados é o que se chama uma fuga para a frente. Não seria normal os advogados pedirem à ministra (ou à Procuradoria-Geral da República, visto que os nomes terão sido para lá enviados) que divulgasse os nomes dos prevaricadores, para que os advogados assim pudessem acabar com as suspeitas que inevitavelmente pendem sobre todos e defenderem o seu bom nome? Ou será que não há advogados desonestos? Bem sei que compete à ministra (ou aos tribunais) provar as acusações e não aos suspeitos demonstrar que estão inocentes, mas também julgo saber que só um demente se atreveria a fazer acusações deste quilate sem factos que o demonstrem. Os suspeitos de irregularidades acham que estão inocentes? Resolvem o caso nos tribunais. Exigir o afastamento da ministra após este episódio é uma manobra, no mínimo, suspeita, e só dá razão a quem supostamente a não tem.

13 de Dezembro de 2011

A JUSTIÇA QUE TEMOS (1). A ministra da Justiça diz que mais de um milhar de advogados cobraram indevidamente ao Estado português qualquer coisa como 3,5 milhões de euros. O bastonário dos advogados diz que a auditoria em que as alegadas falcatruas foram detectadas se baseia em informação «falsa» ou «manipulada». Temos, portanto, que um deles mente, se é que não mentem os dois. Se outra vantagem não tem a guerra que há muito se declarou entre Paula Teixeira da Cruz e Marinho Pinto, ao que parece mais por razões pessoais que institucionais ou políticas, pelo menos revela aos cidadãos um expediente que, não sendo surpreendente, jamais passaria de mera suspeita. Isto, claro, partindo do princípio que não há fumo sem fogo, e com a certeza de que os eventuais prevaricadores jamais serão punidos.
SOBRE A CISÃO NO BLOCO. Um estalinista, um anarquista e um trotskista chegam cada um a sua casa e encontram os seus companheiros na cama com um camarada. Qual é a sua reacção? O estalinista mata-os aos dois, o anarquista pergunta se se pode juntar a eles e o trotskista escreve uma declaração de 20 páginas a justificar uma cisão organizacional.
LEITURAS RECOMENDADAS. Cadastro é currículo e Isaltino 10, Justiça 0

9 de Dezembro de 2011

CHOVER NO MOLHADO. Para eventuais interessados ou adversários das maquinetas de leitura electrónica, os chamados e-book readers, transporto diariamente comigo quase todo o Eça, grande parte de Camilo e Machado de Assis, praticamente todas as entrevistas da Paris Review e várias obras do Padre António Vieira, Mark Twain, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Charles Darwin, Euclides da Cunha e outros. Resumindo, transporto diariamente comigo mais de duas centenas de livros, embora o número se pudesse multiplicar quase até ao infinito. Para os adversários da maquineta, que são muitos e bons, expliquem-me lá uma coisa: seria isto possível com edições em papel? Não, não me parece uma questão de somenos, como já ouço por aí. Que leitor não apreciará a mera possibilidade de transportar diariamente consigo os livros que lhe apetecer, como há muito sucede com a música, que já ninguém dispensa? Também os velhinhos LPs e os envelhecidos CDs continuam ao alcance de quem se interessa por eles, tal como continuarão ao alcance dos interessados os livros em papel, que só desaparecerão quando se tornarem uma minoria que não justifique a edição em papel. Como já disse variadíssimas vezes (ando a escrever sobre e-books desde a pré-história), os livros em papel só desaparecerão quando os leitores assim o quiserem. Tão simples como isso. Como presumo que a maioria os prefere em papel, a notícia da morte do livro tal como o conhecemos é francamente exagerada.

8 de Dezembro de 2011

LUIZ PACHECO. Luiz Pacheco foi um grande escritor? Foi um escritor medíocre? Como praticamente só li o que dele se disse e meia dúzia de entrevistas, por sinal quase todas imperdíveis, não faço a mais leve ideia. Sei é que sempre lhe apreciei o desassombro, a frontalidade e a provocação, segundo alguns a sua principal virtude. Aguardo, por isso, com impaciência Puta que Os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, acabadinho de sair para as livrarias. Como resido no estrangeiro, infelizmente vai levar algum tempo até que me chegue às mãos. Mas não perderá pela demora.

6 de Dezembro de 2011

ESTOU A LER (5). Descobri num alfarrabista Travels with a Donkey in the Cévennes, um livrinho que relata uma viagem de Stevenson e da jumenta Modestine pelo sul de França em finais do século XIX que aconselho sem reservas. Embora não esteja ao alcance de toda a gente, também aconselho uma visita à Chatham Bookseller, um alfarrabista que soube aliar a exiguidade do espaço à qualidade do que lá vende, e onde há sempre música (geralmente ópera) que, por si só, é um convite a lá ir.
OLHA A NOVIDADE. Administradores hospitalares ligados ao PS substituídos por gestores do PSD e CDS

2 de Dezembro de 2011

CONTRA A MARÉ. Não sou grande entusiasta do fado, como já disse variadíssimas vezes. Também não estou a ver o que o país, e o fado, ganharão com o facto de a cançoneta ter sida considerada património da humanidade. Tirando o momentâneo fervor patriótico, que terá consolado o ego a muita gente, não se vislumbra que outra utilidade possa ter. Pelo contrário. Lido e ouvido o que se disse, constata-se que afectou os neurónios de muito boa gente. A fadista Mariza, por exemplo, defendeu que o fado deve ser leccionado nas escolas. Não esclareceu se deve ser matéria obrigatória, mas imagino que sim, e seguramente que não estará sozinha nesta sua pretensão. Curiosamente, grande parte dos entusiastas do fado não são grandes apreciadores de música, como se pode verificar por aquilo que ouvem. Não haverá uma relação de causa-efeito, mas também não me parece uma questão de somenos. Afinal, a aparente contradição levanta uma pequena pergunta: como é possível gostar de tão grande música (como o fado será), e depois gostar de música que não vale um caracol? Sim, o fado faz parte da cultura portuguesa, cantou — e continua a cantar — os grandes poetas da Pátria, e tudo mais que quiserem. Mas o fado também é música, e como tal deve ser julgada. Aliás, não sou entusiasta do fado essencialmente por causa da música, que me parece demasiado primitiva, insuportavelmente repetitiva, e previsível para lá do razoável.

29 de Novembro de 2011

HACKERS. Aceder ilegalmente aos computadores do Ministério da Administração Interna ou da Assembleia da República, divulgando dados pessoais de agentes da PSP no primeiro caso e no segundo tornando o site do Parlamento temporariamente inacessível, são, evidentemente, motivos de alarme. Mas o mais preocupante é constatar-se que os mais sofisticados (e seguros) sistemas informáticos de todo o mundo estão ao alcance de hackers, os cientistas malucos (e perigosos) dos tempos modernos, e não se vislumbrar como evitar que isso suceda. Alguns queixam-se de que quem manda nos países é quem tem o livro de cheques, e até há casos recentes de regimes democráticos em que os governos carecem de legitimidade eleitoral, coisa impensável ainda há dois ou três anos. Mas perigoso mesmo é estarmos nas mãos desta gente, que a coberto do anonimato e da mais que provável impunidade é capaz das maiores patifarias.
PROTESTOS INCONSEQUENTES. Para não variar, os sindicatos disseram que a greve geral foi um êxito (falaram que teve a adesão de um terço dos portugueses), e o Governo disse que apenas mobilizou 10 por cento dos funcionários públicos (um fracasso, portanto). Como é evidente, ambos mentiram. Toda a gente sabe que os números reais são outros, e que distam consideravelmente dos números de uns e de outros. Mas imaginemos que os sindicatos têm razão, que a greve foi um sucesso. E foi um sucesso porquê? Por nela terem participado, segundo eles, um número considerável de trabalhadores? A avaliar pelo que disseram, assim é. Temos, portanto, que o sucesso de uma greve se mede pelo número de participantes, não por alcançar o que aí se reivindica. Como se voltou a demonstrar, os sindicatos vivem cada vez mais longe de quem representam, e que as suas reivindicações se revelem, à partida, inconsequentes, é coisa que não os rala. Resta dizer que todos perdem com isso. Perdem os trabalhadores, perdem os sindicatos, perde o País.

25 de Novembro de 2011

COISAS QUE FAZEM BEM À ALMA



Por razões que não interessam para o caso, acabo de rever a excelente entrevista que Julio Cortázar concedeu ao extinto programa A Fondo, da TVE, onde também já vi outras entrevistas notáveis (Borges, Rulfo, Carpentier, Onetti e outros) que, graças ao YouTube e a quem as lá pôs, continuam ao alcance de um clique. Escusado dizer que recomendo, e não só aos mais entusiastas dos livros. (Deixo a ligação apenas para a primeira de 14 partes, que uma vez lá as restantes são de fácil acesso.)

23 de Novembro de 2011

DA COLUNA VERTEBRAL. Nada contra quem, na blogosfera, passou os últimos anos a disparar em tudo o que mexia, e agora, por via de uma sinecura qualquer, mais parecem caniches amestrados, sempre com a língua de fora e prontos a dobrar a espinha. O Governo anterior fazia tudo mal? O actual faz tudo bem? Segundo os cavalheiros, assim é. Tratando-se de pessoas com uma cultura geralmente acima da média, a coisa dá que pensar. Não seria de esperar que fossem os primeiros a mostrar alguma independência de espírito? Resta a consolação de ficarmos a saber o que os move, e desejar-lhes que nunca a espinha lhes doa.