12 de agosto de 2019

A PORCARIA. Tirando um caso ou dois, os republicanos em funções no Congresso estão totalmente reféns de Trump. Porque ser contra Trump significa arruinar as carreiras políticas, acobardam-se de um modo nunca visto. Só quem abandonou — ou se prepara para abandonar — a vida política se atreve a desculpar o que não tem desculpa, e são menos do que seria de esperar. Escusado será dizer que em caso de impeachment uns e outros votarão contra, nem que se demonstre que Trump baleou alguém na Quinta Avenida, como em tempos se gabou de poder fazer e ficar impune. Lamento (o Partido Republicano faz falta à democracia americana), mas esta gente não tem coluna vertebral — como, aliás, os políticos em geral. E prometeram eles ajudar o idiota-em-chefe a limpar a porcaria.

16 de julho de 2019

BONIFÁCIO E AS GENERALIZAÇÕES. O que mais me impressionou no texto de Fátima Bonifácio foi ela ter dito o que disse sem fundamentar. Porque eu tinha respeito por ela, custa-me a crer que uma reputada académica não tenha melhores argumentos que o «olhómetro» e o «achómetro», traves-mestras do «pensamento» da historiadora sobre racismo e afins. O que disse Fátima Bonifácio poderia ser dito por um iletrado, e isso é que me chocou. Também não me convenceu quem veio em sua defesa, ora dizendo que ela não disse o que disse, ora dizendo que ela foi mal interpretada, ora dizendo que é uma péssima ideia impedir a liberdade de expressão (inteiramente de acordo neste ponto). O que ela disse, a propósito das quotas raciais nas universidades, e com que estou basicamente de acordo, foi claro e claramente estúpido, que só pode resultar de preconceito, ignorância, ou das duas coisas. E nenhuma delas é aceitável, ainda menos vindo de uma «intelectual consagrada», como lhe chamou o director do Público, que disse ter sido um erro publicar-lhe a prosa e eu discordo. Ainda bem que o texto foi publicado, mesmo que involuntariamente. Como demonstram inúmeros exemplos passados, calar quem pensa de forma que julgamos aberrante tem o efeito contrário do que pretende. A esquerda é, neste aspecto, igual ou pior que a direita? Honestamente, não sei. O que me parece é que um erro não se justifica com outro.

8 de julho de 2019

FACEBOOK (2). Agora que o Facebook é coisa de velho, tornei-me utilizador frequente. Porque descobri pintores cuja obra julgava conhecer praticamente na totalidade (Chagall, Kandinsky, Gauguin, Van Gogh, Picasso) e não era assim, e porque descobri outros que não conhecia ou pouco mais conhecia que os nomes (Paul Klee, Gustav Klimt, Munch, Rembrandt, Tintoretto, El Greco). Mas não foi só a pintura. Descobri quem escreve maravilhosamente, quem pensa excepcionalmente, quem fala de assuntos que me interessam que não vejo em mais lado nenhum. Tornei-me, portanto, um entusiasta, eu que tão mal falei do Facebook — e continuo a falar, embora por outros motivos. Há lá tanta coisa boa que seria estupidez ignorar, burrice não frequentar. Se grande parte do que lá há é do pior, é o preço a pagar.

3 de julho de 2019

FACEBOOK (1). As redes sociais em geral e o Facebook em particular deram voz a quem a não tinha. O resultado está à vista, e não me parece que seja surpreendente: descontando uma minoria, embora uma minoria substancial, as redes sociais vieram pôr a nu o que o homem tem de pior. Revelaram a existência de uma maioria silenciosa que esperava uma oportunidade para liquidar o próximo (como as caixas de comentários dos jornais começaram por demonstrar), apesar de no dia-a-dia nos parecer gente pacata. Publico textos online muito antes das redes sociais, e recordo-me bem dos emails recebidos só com o intuito de me insultar. Graças aos blogues, primeiro, e às redes sociais, depois, esta gente passou a manifestar-se doutra maneira, e talvez porque o que hoje dizem é mais ou menos público, há que insultar o mais grosseiramente possível. Como isto acontece geralmente no Facebook, que há quem diga ser já coisa de velhos (ver texto que publicarei em breve), talvez sejam apenas ressentidos que querem desabafar. Como agora toda a gente tem voz, ou julga ter, é possível que, despejado o veneno, acabe por passar. Como dantes se dizia do vinho, o Facebook, mas não só o Facebook, é o novo ópio do povo. Embora o povo seja aqui invocado como uma espécie de albergue espanhol, onde se diz que cabem todos.

26 de junho de 2019

O PADEIRO DE PORTALEGRE. O discurso de João Miguel Tavares (JMT) no Dia de Portugal causou embaraço à direita e à esquerda — mas, sobretudo, à esquerda. Li o texto e confesso que não percebo porquê. Antes de mais porque, sendo JMT assumidamente de direita, não escandalizaria se tivesse sido proferido por alguém de esquerda, e só não foi aplaudido pela generalidade da direita porque JMT, sendo de direita, vive à margem dos partidos, e nem a direita nem a esquerda partidárias apreciam quem pensa pela sua própria cabeça. Depois há coisas que não entendo. Inês Pedrosa, cuja ultima vez que ouvi falar dela foi a propósito de um episódio pouco edificante que metia estrelas que um determinado crítico literário atribuiu — ou ia atribuir — a um dos seus livros mas não atribuiu (ou atribuiu por pressão não sei de quem), começou por se mostrar escandalizada com a escolha de JMT para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal e se agarrar à circunstância de JMT se ter assumido como um homem comum, que ela interpretou no pior sentido do termo (o homem comum podia muito bem ser, segundo ela, o «padeiro de Portalegre»). Prosseguiu acusando-o de populista, de fazer um discurso antidemocrático, de ofender o país, e de mais umas coisas de que já não me lembro. Infelizmente, a escritora não fundamentou o que disse. Mas a sobranceria com que se aliviou deixou antever que não há nada que possa acrescentar. Está, portanto, dispensada de mais explicações, até porque suspeito que a emenda seria pior que o soneto.

20 de junho de 2019

DESTINO MARCADO. Fiz parte de um júri que decidiu a inocência de um jovem acusado de ter agredido um agente da autoridade. Como não havia provas materiais do que estava acusado, a decisão foi remetida para um júri, que decidiu com base em factos circunstanciais. Havia, realmente, alguns factos circunstanciais considerados credíveis, mas como a dúvida persistia, o júri decidiu, por unanimidade (a decisão tinha que ser por unanimidade), pela não-culpabilidade. Reparem que a terminologia usada não previa a inocência — o arguido era culpado ou não-culpado. Acompanhei, também, neste caso por motivos profissionais, o caso do futebolista americano O. J. Simpson, acusado de matar a esposa, que foi considerado não-culpado graças a uma equipa de advogados que conseguiu pôr em causa tudo o que era evidência, incluindo um teste de ADN, até então uma prova inquestionável. Apesar de mais de cem evidências encaixarem umas nas outras como um puzzle, o júri não conseguiu considerá-lo culpado do que parecia evidente, e o tipo acabou inocentado. Tudo isto para dizer que o Presidente Trump não é, até ver, culpado do que é suspeito, apesar das inúmeras provas materiais e circunstanciais indicarem ter cometido crimes de vária espécie que a seu tempo se hão-de provar. Repito: provas materiais, não apenas circunstanciais. São tantos os esqueletos no armário e fora dele que o Presidente americano acabará, mais tarde ou mais cedo, na cadeia. Sim, acredito na justiça americana, apesar de não ter grande margem de manobra enquanto Trump estiver no poder (é a política, e não a justiça, quem decide). Mas seja durante ou depois, Trump será confrontado com os seus crimes, e pagará em conformidade. Como já estão a pagar dois colaboradores próximos e um terceiro em vias disso.

7 de junho de 2019

OBRIGADO. Peço ao sr. do talho que me avie uns pés de porco, se faz favor. O sr. vira-se para mim e diz-me que faz favor coisa nenhuma, que está ali para me servir, que é o trabalho dele. Sorrio, e mecanicamente digo obrigado. O colega interrompe o assobio. O sr. repete que ora essa, que não tenho nada que agradecer, que mais não faz que o seu dever — e desta vez seguro-me a tempo e fico-me por um sorriso de assentimento. O colega retoma o assobio. O sr. do talho faz o que tem a fazer e entrega-me os pés de porco — que eu, já esquecido dos entretantos, volto a agradecer com um obrigado. O sr. quase se exalta. Repete asperamente o que já tinha dito, para trás e para a frente, e o colega interrompe novamente o fadinho. Despeço-me com um aceno de cabeça — que o sr. do talho, para meu alívio, não terá visto como um agradecimento. Dali a pouco já tinha a cabeça na próxima etapa, o chouriço, onde mo venderiam sem dizer uma palavra — nem, sequer, um simples obrigado. É o que se chama a lei das compensações, que não sei bem o que é mas para o efeito serve perfeitamente. Muito desequilibrada, mais tarde, por uma feijoada, que costumo comer sempre que preciso de acertar contas com o estômago. Sim, a canja é óptima, sobretudo quando acrescentada à minha maneira, mas não há como uma feijoada para certos desarranjos. Talvez o remédio só funcione para estômagos delicados, género alface e tofu três dias seguidos, mas nos tempos que correm, cheios de receitas para salvar o mundo e, com sorte, o canastro, o conselho não será de desprezar. Sobretudo quando acompanhado de um tinto insuspeito, que a medicina dos magazines há muito consagrou como remédio para santos e pecadores.

19 de maio de 2019

FAKE NEWS. Numa altura em que os políticos começam a discutir o problema das chamadas fake news, e eventualmente propor legislação para lhes pôr cobro, o Parlamento russo começou por aprovar uma lei que condena, com prisão ou pesadas multas, quem, online, divulgar fake news ou fizer comentários «desrespeitosas sobre o governo», e poucos dias depois aprovou outra lei que permite ao Presidente Putin desligar a internet no país sempre que exista uma «ameaça à segurança nacional». Escusado será dizer que estas medidas servirão para que todas as notícias contra o Governo possam ser consideradas «desrespeitosas», e uma «ameaça à segurança nacional» será quando Putin quiser. Apesar das movimentações que se têm visto, ainda ninguém descobriu o remédio para as fake news, até porque o «fenómeno» não é novo. Graças às redes sociais, nomeadamente ao Facebook, multiplicaram-se astronomicamente nos últimos anos, porque o poder das fake news é enorme e muitíssimo barato. Encontrar-se-ão, quando muito, receitas que atenuem os seus efeitos, que reduzam o volume, que até ver o único remédio realmente eficaz é a censura. Sim, a censura, que os portugueses mais velhos ou sentiram na pele e abominam, ou não sentiram na pele e agora glorificam — porque a censura de Salazar e Caetano lhes mostrou um país que nunca existiu, e de que têm, naturalmente, saudades. Gostaria de estar enganado, mas as fake news só serão reduzidas à insignificância quando se preferir a verdade à «verdade» que convém. Enquanto houver quem se disposta a acreditar no que lhe interessa, haverá quem se disponha a dar-lhe o que lhe interessa. Não por passatempo, divertimento ou assim. As fake news tornaram-se uma arma de destruição maciça nas mãos de extremistas e de regimes autoritários, que as usam com grande eficácia e proveito. Urge, por isso, inventar a receita que cure a doença sem matar o doente.

1 de maio de 2019

BOAS NOTÍCIAS. Conhecido grande parte do relatório Muller, demonstrou-se, desde já, que a generalidade dos media fez o que lhe competia. Não há, até ver, um único episódio no relatório que não tenha sido prévia e certeiramente noticiado, excepto pelos media do costume. Mas se isto não surpreende, é bom que a sociedade tenha motivos para que possa confiar na generalidade dos media, tão enxovalhados têm sido nos últimos tempos. As «fake news» e os «inimigos do povo americano», como Trump designa tudo o que seja notícia que lhe desagrada e todos os meios que considera hostis, não passam, afinal, de tentativas malsucedidas de Trump calar vozes incómodas, como os episódios do CEO da Amazon e do tablóide National Enquirer bem o demonstram. Não é preciso ir muito longe para ver que o dono da Amazon é o mesmo do Washington Post, jornal que, fazendo o que se espera que faça, não lhe tem feito a vida fácil — e quanto ao Enquirer, que deu à estampa um affair de Bezos com o objectivo de o prejudicar, demonstrou-se que Trump tinha o hábito de comprar o silêncio do pasquim sempre que este desencantava uma história que não lhe convinha, e não custa a crer que fez publicar histórias que lhe convinham usando idêntico expediente. O pior é que o relatório do procurador-especial pouco mudará na sua base eleitoral, avessa aos media e entusiasta de propaganda. Começa-me até a parecer que são bem capazes de defender Trump mesmo que o sujeito fique impune por matar alguém em plena Quinta Avenida, como sugeriu, a brincar, na campanha eleitoral, mas o ex-advogado Michael Cohen já avisou que deve ser tomado a sério.

4 de abril de 2019

PIOR SERIA DIFÍCIL. Assisti, com alguma perplexidade, ao Prós e Contras em que se debateu a eventual entrada das terapias alternativas no Serviço Nacional de Saúde, a que os médicos se opõem e os «alternativos» defendem. Um debate que se pretendia esclarecedor descambou, rapidamente, para o confronto, e cedo se percebeu de que lado estava a maioria dos presentes na plateia: do lado das terapias alternativas, vá lá saber-se porquê. Não fosse a moderadora, os médicos que se apresentaram para debater teriam saído dali apupados e humilhados. Por dizerem o óbvio que se esperava que dissessem: que não se pode pôr em pé de igualdade o que tem evidência científica com o que não tem evidência científica. Quase vinha abaixo a sala quando um médico começou por recordar isto. Quando se esperaria que os «alternativos» fossem confrontados com práticas duvidosas e aldrabices comprovadas, bem como com argumentos que merecem ser ouvidos, eis que acontece precisamente o contrário. Enalteceram, para gáudio da plateia, as proezas que juraram ter cometido, gabando-se da eficácia que os «tradicionais» não terão. Não fosse a suspeita de que os «alternativos» tomaram conta do espaço do debate, dir-se-ia que está tudo doido. Temo, porém, que o debate tenha contribuído para aumentar a confusão e a ignorância sobre as terapias ditas alternativas, ou complementares. Quem desesperadamente precisa de cuidados de saúde e ali viu uma oportunidade para se esclarecer, provavelmente saiu ainda pior do que entrou. Ironicamente, graças à televisão pública, a quem compete prestar este tipo de serviços e não soube – ou não quis – fazer o que devia. O que se viu foi tempo de antena gratuito em horário nobre para uma das partes, precisamente a parte a quem competia esclarecer todas as dúvidas que pairam sobre ela.

21 de março de 2019

SAIA UM ARGUMENTO A SÉRIO. Quem, nesta altura, depois de covardemente voltar a atacar o senador John McCain (que não está cá para se defender) e dizer outras coisas inconcebíveis, ainda apoia Donald Trump, só pode ser por um de três motivos: está mal informado (quero acreditar que seja a maioria), não quer dar o braço a torcer, ou então odeia tudo o que Trump odeia e aprecia tudo o que Trump aprecia. Gostava de estar enganado, e não estou a ironizar. Mas, se estou enganado, digam-me em quê, e porquê. Relembro que os insultos com que por vezes me brindam quando falo de Trump não são argumentos — ou são «argumentos» de quem os não tem. Gostava, de facto, de ver um argumento a sério em defesa de Trump — e, de novo, não estou a ironizar. Não consigo ver qual, mas gosto de imaginar que há, pelo menos, um argumento devidamente fundamentado. E não me venham dizer que Trump é contra o sistema, que o sistema pode ser tudo o que quiserem mas já impediu que Trump conduzisse os EUA para um regime como o de Putin, Orbán, Duterte ou Kim Jong-un, tudo gente que não se recomenda e que Trump admira e inveja. Sim, é de um regime autoritário que falo, onde Trump poderia exercer a autoridade com que sonha mas nunca terá.

20 de fevereiro de 2019

TÁ PRETA, A COISA. A investigação do procurador Muller a um eventual conluio entre a campanha de Donald Trump e a administração russa já demonstrou várias coisas, mas, sobretudo, que Trump se rodeou de gente que não se recomenda, nalguns casos de autênticos canalhas. Não há, até ver, um único colaborador próximo do Presidente que saia bem na fotografia, e quem se rodeia de gente assim, não deve ser muito melhor. Nunca duvidei que Trump acabará mal — acredito na justiça, mesmo com erros e imperfeições. Mas agora, que se anuncia uma investigação aos negócios de Trump-empresário, que aparentam ter relação com Trump-político, a coisa vai ser pior do que eu imaginava. Não acredito que as suspeitas que andam no ar (lavagem de dinheiro, ligações ao crime organizado, irregularidades de toda a espécie) sejam meros pretextos para o liquidar politicamente — e até já há factos a comprovar que as suspeitas são demasiado sérias para que possam ser ignoradas. O tempo não dirá tudo, mas dirá o bastante para que Trump acabe como acabaram — ou vão acabar — alguns dos seus compinchas. É só encaixar as peças umas nas outras, embora não queira com isto dizer que será fácil e o desfecho esteja para breve (anunciam-se novidades para a próxima semana, mas é melhor aguardar). São tantos os indícios de malfeitorias e os rabos-de-palha que só um milagre lhe permitirá terminar o mandato. Isto para não falar em cenários piores, muito piores, que apenas surpreenderão os «básicos» do sujeito ou os mais distraídos.

11 de fevereiro de 2019

SEM VERGONHA. Vejo quem diariamente acuse este e aquele, geralmente no Facebook, de cometer toda a espécie de tropelias sem a mínima evidência — ou, pelo menos, sem sinalizar a origem da informação. Geralmente socorrem-se de manipulações, distorções, situações tiradas do contexto, do diz-que-disse, da mentira pura e dura. Às vezes é só uma imagem, um cartaz onde alguém escreveu uma acusação cuja credibilidade não se dão à maçada de aferir desde que sirva de arma de arremesso contra adversários ou inimigos. Imaginem que alguém faz um cartaz (ou escreve um texto, ou manipula um vídeo) acusando estes pantomineiros de patifarias que não cometeram. Como reagiriam? Talvez isso lhes arejasse aquelas pobres cabeças — e, quem sabe, lhes servisse de emenda.

23 de janeiro de 2019

É SIMPLES. Ou Trump está a colaborar com Putin de forma ingénua e até bem-intencionada, difícil de acreditar mas possível. Ou então está a colaborar de forma consciente (em benefício próprio e de Putin), o cenário mais provável. No primeiro caso, Trump é um perigo para os EUA, e deve ser removido quanto antes. No segundo, não basta removê-lo: tem que pagar por isso. Não simplifico o que será um assunto complexo. As coisas são assim mesmo, simples, e sobram evidências que o demonstram. Difícil, aliás, imaginar opacidade mais transparente, passe a contradição.

22 de dezembro de 2018

MEA CULPA. Depois do que se passou nos últimos dias, devo dizer que a minha opinião sobre Trump é pior do que dantes. Trump garantiu que o ISIS na Síria tinha sido derrotado (mentira), e que as tropas americanas lá instaladas iriam, por isso, regressar (outra mentira). Foi, no plano externo, mais um alinhamento com o amigo Putin, e no plano interno, a gota d'água que terá levado à demissão do secretário da Defesa — que sobre este assunto não terá sido ouvido nem achado. Cometeu, além disso, a proeza de ficar sozinho, deixando aliados e adversários primeiro de boca aberta, depois seriamente preocupados. Cada vez mais encurralado pelas aventuras em que se meteu, começo a pensar se Trump já não estará a negociar a resignação em troca de impunidade. Seria, parece-me, o melhor que poderia fazer. Antes que já nem com isso se safe.

7 de dezembro de 2018

HUMILHADO MAS POUCO OFENDIDO. Se Trump percebeu alguma coisa do que foi dito na catedral de Washington sobre George Bush, só pode sentir-se humilhado. Os valores do ex-Presidente exaltados por todos os oradores demonstraram, por contraste, mesmo que involuntariamente, tudo o que Trump não é. Infelizmente, não será agora que o ainda inquilino da Casa Branca irá mudar de ideias — e, sobretudo, de comportamento. Trump continuará a ser um homem só, doentiamente só, em luta constante contra os seus próprios fantasmas — e agora, presumo, com os esqueletos prestes a sair do armário. Já disse um cento de vezes que o sujeito vai acabar mal. Só não esperava que demorasse tanto.

16 de novembro de 2018

TROPA FANDANGA. Suspeito que a tragicomédia de Tancos é só mais um caso nas Forças Armadas, que a serem investigadas a fundo dariam, suspeito de novo, uma novela a sério. Sim, é preciso preservar a dignidade da instituição, e fica bem aos políticos em geral e aos governantes em particular dizer bem das Forças Armadas. Mas eu, que por lá andei ano e meio, por sinal na mesma área do furto das armas, conheci o bastante para desconfiar, desde o desvio de arrobas de carne do quartel para a despensa de um sargento (que presenciei) a outros esquemas mais espirituosos (que só inalei). Quem, no final da tropa, não sabia onde arranjar um par de botas, uma camisa ou umas calças, que na hora de passar à peluda era preciso devolver? Claro que todos sabiam. Vendiam-se numa feira lá perto, à vista de toda a gente, ao lado de caralhotas de Almeirim e rabichas de Alcanena. E como lá iam parar? Eis uma pergunta meramente retórica. É por estas e por outras que me doem as cruzes sempre que alguém me vem dizer que as Forças Armadas são uma instituição respeitável. Têm medo que façam um golpe de Estado? Honestamente, e tendo em conta os últimos desenvolvimentos, duvido que tenham competência. Basta reparar nos detalhes de Tancos. Aquilo foi de um amadorismo a roçar o embaraçoso, e se fosse apenas ficção, dir-se-ia que era de tal modo inverosímil que ninguém lhe pegaria — ou então foi uma situação de tal modo corriqueira que só por acaso acabou nos jornais, o que ainda é pior. Depois seguiu-se o jogo das escondidas, em que meio mundo encobriu outro meio. Claro que as Forças Armadas não são um antro de corruptos ou de incompetentes. Também por isso seria bom que a história do paiol acabasse em pratos limpos.

2 de novembro de 2018

OS CRENTES DO ÓDIO. Ponto assente que o bombista da Florida é um fanático de Trump, e não me surpreenderia que seja um fanático que se limitou a fazer o que muitos gostariam de fazer — e que, apesar de as bombas não terem cumprido integralmente a sua missão, os tenham deixado a ferver de orgulho. E não me venham dizer que Cesar Sayoc é um caso isolado, porque não é. Olhando o perfil do sujeito, podia ser alguém que eu conheço — alguém que, parecendo incapaz de matar uma mosca, era homem para isso. A diferença é que o trumpista das bombas levou o fanatismo até às últimas consequências, enquanto estes que eu conheço se ficam por ódios de Facebook. Vi, como outros terão visto, quem postasse ilustrações sugerindo que teriam sido os democratas a montar o esquema das bombas. Como não disseram mais nada depois de conhecerem o autor, presumo que estejam a urdir novas teorias da conspiração — e entretanto removeram as ilustrações sem dizerem água vai, muito menos que se enganaram. Também não me convencem inteiramente as razões que explicam o trumpismo, ao qual os crentes se mantêm fiéis mesmo depois do trumpismo ter confirmado o pior. Quer-me parecer, isso sim, que o trumpismo resulta do ódio acumulado durante anos, não só contra os políticos, e que agora funciona, sobretudo, como válvula de escape. Como o ódio só gera mais ódio, desconfio que nem como catarse lhes será útil. Alguém que lhes meta a evidência nas suas pobres cabeças.

19 de setembro de 2018

O HOMEM SEM QUALIDADES. Que tenham votado Trump por estarem fartos do chamado sistema, por acharem que o sujeito era a pessoa certa ou porque merecia o benefício da dúvida, não custa entender, mesmo depois dos sinais em contrário desde o início. Mas agora, 17 meses passados, dá que pensar ver quem o defenda com o mesmo fervor, apesar de tudo o que já se passou, do que diariamente sucede, e do futuro que se adivinha. Donald Trump mente descarada e compulsivamente mais de sete vezes por dia (números do Washington Post). Rodeou-se de medíocres e oportunistas, e de um ou outro tido como sério que rapidamente perdeu a coluna vertebral. Insulta diariamente membros do seu próprio gabinete, instituições como o Departamento de Justiça e agências de segurança, e de um modo geral todos quantos não pensam como ele. Instiga o ódio entre parceiros e adversários. Zomba em público de deficientes. Embora não se assuma como tal, é claramente racista, talvez mesmo supremacista, e as mulheres ou são objectos de prazer ao alcance da mão, ou não contam. É nitidamente um ressentido, e nunca perde uma oportunidade de se vingar. Admira ditadores e outros tiranos, a quem inveja os métodos e a obediência (elogiou o ditador norte-coreano por não permitir que alguém não pense como ele). É um egomaníaco como nunca se viu, um mitómano capaz de suplantar o mais inverosímil personagem de ficção, um paranóico obstinado. Desconfia de tudo e de todos. Da comunicação social (os que lhe são hostis são «inimigos da América»), que ataca constantemente — porque assim, disse ele a uma jornalista da Fox, desacredita todos os media, pelo que quando algum publicar notícias desagradáveis acerca da sua pessoa, ninguém acredita. Da comida que lhe servem, porque tem um medo patológico de ser envenenado. É um ignorante que faz gala de o ser, um desavergonhado que só encostado à parede aceitou dizer algumas palavras simpáticas sobre o senador John McCain, a quem nunca chegará aos calcanhares. É um incompetente com provas dadas, o mais rematado imbecil, um sujeito sem escrúpulos. É, em resumo, uma criatura desprezível. Assim sendo, que qualidades terá que continuam a levar os seus apoiantes a ignorar/desvalorizar/minimizar todas estas misérias? Não me venham com a Hillary assim e Obama assado, que as alegadas trapaças de uma e as supostas patranhas de outro não explicam coisa nenhuma — e só demonstram a invariável pobreza de argumentos. Nem por que motivos foi eleito, que isso já foi mais que explicado. Digam-me, por favor, que o homem tem uma qualidadezinha, uma só para amostra — ou então que nada do que aqui enunciei tem importância. É que eu recuso-me a acreditar que os «trumpistas» não tenham vergonha e pelo menos um argumento digno desse nome.

23 de agosto de 2018

A PORCARIA FEDE QUE TRESANDA. Depois de meses a dizer que fazia questão de falar cara a cara com o procurador que investiga um eventual conluio entre a sua campanha presidencial e a administração russa, alegando nada ter a esconder e pretender pôr tudo em pratos limpos, eis que Trump vem agora dizer que talvez não seja boa ideia, pois arrisca-se a cometer perjúrio. Ora, como pode alguém meter os pés pelas mãos diante o procurador se nada fez de errado? Se quem não deve não teme, o recuo de Trump só pode significar que o sujeito deve, e teme. Como não bastasse, o advogado que até há pouco lhe consertava as avarias acaba de o incriminar, alegando que Trump comprou, por seu intermédio, o silêncio de duas mulheres que lhe terão feito uns biscates, e o ex-director de campanha vai passar o resto da vida na cadeia por obra e graça de umas falcatruas e do mais que a seu tempo veremos. Ainda pior: os sujeitos demonstram que Trump se rodeou de patifes (estou a ser benévolo), contrariando a promessa de que, uma vez Presidente, iria escolher os melhores. Temos, portanto, que o pântano instalado em Washington — de que Trump tanto falou e, uma vez Presidente, jurou drenar — atingiu um nível tal que acabará, mais tarde ou mais cedo, por engolir quem se propôs acabar com ele.

27 de julho de 2018

MORALISTAS MAS NÃO PRATICANTES. Muito instrutivo ver o que alguns católicos disseram sobre a separação das famílias dos imigrantes ilegais nas fronteiras dos EUA. Quando seria de esperar um gesto de compaixão, no mínimo, eis que os curiosos sujeitos com uma mão batem no peito e com a outra espetam a faca. Pelo menos não surpreendem, valha-os deus. Afinal, abundam exemplos de quem pratica o contrário do que prega, e conheço algumas amostras. Imaginem que os imigrantes ilegais retidos na fronteira nas circunstâncias que se conhecem são cristãos fugidos de regimes que os perseguem. Teriam as criaturas a mesma atitude? Por ser agnóstico, presto escassa atenção às andanças dos crentes, excepto quando desdenham, nalguns casos matam, de quem não pensa como eles. Mas parto invariavelmente do princípio que os crentes são, como espécimes humanos, melhores que os não-crentes, porque as religiões tornarão o homem melhor. Como a realidade diariamente desmente, um erro crasso. Que deus tenha misericórdia deles.

22 de junho de 2018

RAZÃO ANTES DO TEMPO. Resultante de uma viagem pelos EUA entre Novembro de 1959 e Maio de 1960, Italo Calvino publicou, há meio século, Um Optimista na América, onde a páginas tantas se lê sobre a sua passagem pelo Texas:

 «Uma noite estava a jantar numa villa do Sul. (...) Era um ambiente sério de homens de negócios. A conversação deteve-se (...) no tema das eleições. Um dos convivas explicava por que motivo apoiava um determinado candidato. (...) Dizia ele que nos momentos difíceis que aguardavam os Estados Unidos, era aquele homem o que convinha, porque era um tough guy, um duro, um tipo ruthless, um que não está com cerimónias. Tentei objetar que os momentos difíceis só aparecem quando não nos apercebemos de quais são os problemas dos países do mundo e ao estudo e ao empenho para resolver esses problemas se antepõem a política da força e o apoio de regimes desacreditados e policiais: já era o tempo das pessoas sensatas e reflexivas – disse eu – e não de tipos tough. Não me entendeu; sim, tudo belas coisas, dizia ele, mas antes de mais nada é preciso mostrarmos que somos os mais fortes, que temos cabeça, que não damos sinais de fraqueza. (...) Os jornalistas, os especialistas, os políticos conscientes do que está a acontecer no mundo têm um número de apoiantes ainda limitado. O futuro decerto reservará aos Estados Unidos outras más surpresas.»

Como se vê, o texto foi premonitório. Os EUA têm um tough guy na Casa Branca, e o resultado é a barafunda que se conhece. Vale-nos que o sujeito não tem um décimo do poder que julgava, embora continue a ser demasiado para que possamos estar descansados.

16 de junho de 2018

É SÓ FUMAÇA. Como, por lapso, reportou uma jornalista da Fox, Singapura foi palco de um encontro entre dois ditadores. Foi um lapso compreensível. Afinal, houve um ditador de facto, e outro que gostaria de sê-lo. Tirando a photo opportunity para mostrar aos netos e o facto de o ditador norte-coreano ter feito sentar à mesa o todo-poderoso presidente americano (um feito que, por si só, constitui uma notável vitória), nada mais saiu dali. Tudo o que houve resume-se a um documento de intenções — os americanos comprometeram-se a apoiar a segurança da Coreia do Norte (ninguém sabe como) e acabar com os jogos de guerra (que não vão, obviamente, cumprir), e os norte-coreanos terão prometido desmantelar o arsenal nuclear (que também não vão cumprir). Quem acredita que o lunático dos foguetes vai abrir mão do poder nuclear? Quem acredita que os americanos vão aliviar as sanções à Coreia do Norte? Dir-me-ão que, mesmo saindo de mãos a abanar, o encontro foi, para os americanos, melhor que nada. Possivelmente. Mas para o regime de Pyongyang, parece não haver dúvidas de que foi um tremendo sucesso, como costuma dizer o imbecil que mora na Casa Branca sempre que se gaba do que faz e do que não faz. Valha-nos que a expectativa para a cimeira de Singapura era quase nula. E quando assim é, qualquer coisa de que lá saia de positivo — ou que passe por positivo — é lucro, como disse o «nosso» Guterres, comandante de uma agremiação que hoje, face aos grandes conflitos, pouco mais faz do que contabilizar os mortos.

25 de maio de 2018

AOS SALTOS E AOS PINOTES. Não sei se Trump é culpado de tudo o que é suspeito, nomeadamente no «caso russo», embora as peças se encaixem umas nas outras a uma velocidade estonteante. Mas se não é, por que se comporta como se fosse? Se está realmente inocente, qual é o problema com a investigação do procurador-especial? Não devia o Presidente ser o primeiro a desejar que o procurador conclua rapidamente a investigação, de modo a demonstrar-se a sua inocência? O comportamento de Trump seria, de facto, estranho, não fossem as evidências de que está metido num gigantesco sarilho. A «tese» da caça às bruxas não tem ponta por onde se lhe pegue. A hipotética conspiração para o derrubar não passa de uma fantasia. E agora a suspeita de que alguém espiou a sua campanha (o «spygate») mais não é do que a enésima manobra destinada a descredibilizar a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, tal como as escutas à Trump Tower inventadas pelo congressista Devin Nunes, que uma vez mais, inventando uma espionagem com base em zero evidências, se prestou a tão triste figura. De facto, à medida que a investigação vai avançando, o desnorte do Presidente é cada vez maior, e não é caso para menos. O «caso russo» alastrou para as actividades de Trump enquanto empresário, e tudo indica que as actividades de Trump enquanto empresário são, por si só, motivo para o levar à justiça. Sim, à justiça, que a demonstrar-se o que se suspeita, não me surpreenderá que acabe no banco dos réus. Sem surpresa, a investigação está a chegar, se é que já não chegou, ao ponto onde dói mesmo. E uma vez aí, não me parece que haja expediente que lhe valha. Demitir o procurador-especial e o procurador-geral da justiça, que ele vai ameaçando fazer para avaliar possíveis consequências, servirá, quando muito, para adiar por mais algum tempo um desfecho inevitável.

23 de abril de 2018

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO. Conheci um sujeito que, vendo-me a ler enquanto almoçava, me disse mais ou menos assim: «Não me lembro de alguma vez o ter visto sem um livro na mão.» O sujeito, falecido há uns anos, espantar-se-ia hoje se me visse sem o tal livro na mão, e só poderia concluir que deixei de ler ou passei a ler menos. Lembro-me deste episódio depois de ter lido que hoje, ao contrário de ontem, já não se lêem livros nos transportes públicos, que foram trocados pelos smartphones. Será. Mas é preciso ver que alguns dos smartphones carregam ebooks, que muitos, por razões de ordem prática, preferem ao papel. É o meu caso, e não serei o único. Os ebooks têm «dentro» o mesmíssimo conteúdo que os livros, e num livro interessa-me, essencialmente, o conteúdo. A Guerra e Paz que se lê em ebook não é o mesmo livro que se lê em papel? O que muda em Thomas Mann se for lido em papel? Basicamente, o ebook contém a versão digital de um livro impresso, e como já enumerei em mais de uma dezena de textos as vantagens e inconvenientes de ambos os suportes, não vou repetir-me. Como faço parte da confraria, que suponho maioritária, dos que lê vários livros ao mesmo tempo, hoje faço-me acompanhar diariamente por algumas centenas de ebooks, que sempre que posso leio no tablet e quando não posso no smartphone. Quantos farão o mesmo? Ignoro a resposta, mas quer-me parecer que serão tantos — ou mais — que os que dantes liam em papel. Ao contrário de muitos, não estou convencido de que os smartphones roubaram leitores aos livros, digamos, tradicionais, como não estou convencido de que os ebooks roubam leitores aos livros em geral. Quem lia não deixou de ler por causa dos smarthphones ou ebooks. O que mudou, e muito, foram os suportes em que se lê, embora o suporte tradicional (o papel) continue a prevalecer — e nunca, como hoje, se publicou tanto livro em papel, enquanto o mercado dos ebooks parece estagnado. Apesar dos condicionalismos (falta de espaço onde os colocar, no meu caso), continuo a comprar livros em papel, embora quase só os que não encontro em ebook. Porque o que conta, repito, é o conteúdo. E nisso em nada se distinguem.

24 de março de 2018

A ÉTICA É PARA OS OUTROS. Parece que o novo Presidente do PSD tem como primeiro objectivo perder por pouco as eleições do próximo ano. A ser verdade — por si só uma coisa extraordinária —, coloca-se, desde já, uma questão prática: Rui Rio vai, na campanha eleitoral para as legislativas e europeias de 2019, apelar ao voto para vencer, ou para perder por pouco? Suspeito que a ambição — ou falta dela — lhe vai causar dissabores a curto prazo, sobretudo com os media, que não o pouparão — e são bem conhecidas as fúrias de Rio com os media. Parece, aliás, que já começaram. O novo presidente dos sociais-democratas iniciou o mandato acusando os media de lançar uma campanha contra Elina Fraga e Salvador Malheiro, ambos vice-presidentes do partido. Agora, sobre o já ex-secretário-geral Barreiras Duarte, forçado a demitir-se após ser acusado de falsificar o currículo, Rio começou por dizer que foi um erro prontamente corrigido — mas acabou, tarde e a más horas, por aceitar o inevitável, mostrando total inépcia a gerir o caso e que a ética, afinal, não se aplica a todos. Não sendo eu militante do PSD, a questão não me diz directamente respeito. Mas como Rio se arrisca a ser primeiro-ministro, já não posso dizer que me seja totalmente indiferente. Devo dizer que sempre tive o então presidente da Câmara do Porto como arrogante e autoritário. Por aquilo que tenho visto nas últimas semanas, não será fácil mudar de opinião.

14 de março de 2018

NORMALIZAR A ABERRAÇÃO. Alguma direita portuguesa tem-se esmerado com dezenas de explicações para a vitória de Trump, na minha opinião quase todas acertadas, as menos consistentes pelo menos verosímeis. Nunca disse, porém, que a vitória de Trump se deveu, em parte, à ingerência russa, reconhecida por todas as agências americanas de segurança. (Se a ingerência foi, ou não, decisiva, nunca saberemos, mas que ela existiu, e em larga escala, só Trump e seus papagaios recusam admitir.) Agora a dita direita faz os possíveis e os impossíveis para normalizar a aberração, comparando as aventuras de Trump com as aventuras dos seus antecessores ou adversários políticos — como se fosse possível comparar as aventuras de Trump com as dos seus antecessores ou adversários políticos. Isto de querer fazer com que os «nossos» sejam melhores que os «outros» só porque são os «nossos», é mais ou menos o mesmo que pretender fazer a quadratura do círculo. Por mais voltas que se dê, por mais que se estique daqui e se encolha acolá, nunca funciona. Mais valia, por isso, que a direita se preocupasse em reparar os danos da sua própria casa. É que a vitória de Trump não foi, apenas, a vitória da direita sobre a esquerda, dos conservadores sobre os liberais. Foi, também, uma vitória sobre a direita americana tradicional, que Trump está longe de representar. A mesma direita que durante as primárias fez o que pôde para se ver livre dele, como estarão recordados — e que agora, por cobardia política, se viu forçada a engolir.

18 de fevereiro de 2018

O LAMAÇAL. Razões profissionais obrigam-me a estar ao corrente do que algumas cavalgaduras da bola vão dizendo hora sim, hora sim, nomeadamente presidentes, directores de comunicação e comentadores televisivos. Tirando excepções, todos alinham pelo mesmo diapasão, e a música é conhecida: uma cacofonia de insultos do mais baixo que há. Dantes as más notícias geralmente vinham dos hooligans, uma vez ou outra das claques. Agora vêm dos arruaceiros instalados nos gabinetes dos clubes, dos incontáveis programas de «análise» futebolística, e das omnipresentes redes sociais. Bruno de Carvalho, por exemplo, em tempos ofereceu-se para dar cursos de ética aos «dirigentes que precisem». Leram bem: ética, como se o sujeito tivesse autoridade para falar de tal coisa. Presumo que o presidente do Sporting se exclui da pouca vergonha que grassa no futebol português, mas não devia. Até nem será exagero dizer-se que Bruno de Carvalho tem sido dos que mais tem contribuído para o actual clima, embora tente ser visto como o grande moralizador. Felizmente que os adeptos dos clubes envolvidos nesta lixeira a céu aberto em que se tornou o futebol português têm sido mais sensatos e não se têm envolvido em escaramuças. Para azar das cavalgaduras, a quem dava jeito que ocorresse uma ou outra tragédia para reforçar os seus pontos de vista, os adeptos mantêm-se serenos. Esperemos, portanto, que os ditos mandantes se afundem o mais rapidamente possível no pântano em que se meteram. Para bem dos clubes que representam, para bem de quem gosta de futebol, para bem da higiene mental em geral.

7 de dezembro de 2017

PAÍS MINÚSCULO PARA TANTO EGO. Parece que há escritores portugueses que submetem as suas obras a concursos mas depois não aceitam outro resultado que não seja ganhar. Pior: atribuir o quarto lugar do Prémio Oceanos a uma autora do gabarito de Maria Teresa Horta (MTH) é, segundo Inês Pedrosa, «uma humilhação». Devo dizer que não li um único livro de MTH, mas não me gabo disso. É, ao que dizem, uma escritora estimável, e o livro a concurso também. Mas se o incidente do prémio não me afasta da sua obra, também não me aproxima. Tenho a ideia, porventura excessivamente romântica, que um escritor/criador jamais fica satisfeito com a sua obra, e que cada vez que a ela regressa lhe encontra defeitos que o embaraçam. Não será o caso de MTH, que estará convencida de que fez uma obra notável, claramente melhor que a concorrência. Ou então achará que merecia o primeiro lugar não pelo livro em si mas pela sua «já longa obra», como escreveu na carta de rejeição, onde também se lê que o fez pelo respeito que deve a si própria e aos seus leitores. É um direito que lhe assiste. Mas reza a lenda que ninguém é bom juiz em causa própria.

20 de novembro de 2017

O QUE TEM QUE SER FEITO

É possível acreditar numa coisa e no seu contrário? O Presidente Trump acha que sim. Acredita que Putin não interferiu nas presidenciais americanas, e acredita nas agências governamentais americanas que dizem precisamente o contrário. Que sentido isto fará? Para quem acredita nas suas próprias mentiras, fará todo o sentido.

Como estarão lembrados, todas as agências governamentais de inteligência garantem a intromissão russa nas presidenciais americanas, e todos os dias surgem evidências de que assim foi. Mesmo assim, Trump insiste que Putin lhe garantiu, um ror de vezes, que não interferiu, e isso parece bastar-lhe. O que é preciso, para Trump, é ultrapassar o «caso russo», porque o importante é que os EUA tenham uma boa relação com a Rússia — removendo, desde já, as sanções impostas pelo Congresso em resposta à interferência nas eleições. O resto (cada vez mais evidências de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo) não interessa para nada.

John Brennan, ex-director da CIA, acha que Trump tem, por qualquer motivo, medo do que Putin possa fazer, ou do que possa surgir da investigação sobre eventual conluio da sua campanha com Vladimir Putin — pois o comportamento de Trump só pode, segundo Brennan, dever-se a «ingenuidade, ignorância ou medo».

James Clapper, ex-diretor da NSA, considera que os líderes estrangeiros que estendem a passadeira vermelha a Trump são capazes de o manipular. «Acho que tanto os chineses como os russos pensam que podem manipulá-lo», disse Clapper — além de que negar a interferência russa nas presidenciais, como Trump continua a negar, representa, para ele, «um perigo para o país».

Temos, portanto, que só mesmo quem não quer ver não vislumbra a suspeitíssima relação entre Trump e Putin. O que haverá entre eles que explique o comportamento do Presidente americano? Eis a pergunta que muitos fazem e outros evitam fazer. Talvez nunca saibamos toda a verdade. Mas o que vamos sabendo será, a prazo, bastante para se fazer o que tem que ser feito.