2 de novembro de 2018

OS CRENTES DO ÓDIO. Ponto assente que o bombista da Florida é um fanático de Trump, e não me surpreenderia que seja um fanático que se limitou a fazer o que muitos gostariam de fazer — e que, apesar de as bombas não terem cumprido integralmente a sua missão, os tenham deixado a ferver de orgulho. E não me venham dizer que Cesar Sayoc é um caso isolado, porque não é. Olhando o perfil do sujeito, podia ser alguém que eu conheço — alguém que, parecendo incapaz de matar uma mosca, era homem para isso. A diferença é que o trumpista das bombas levou o fanatismo até às últimas consequências, enquanto estes que eu conheço se ficam por ódios de Facebook. Vi, como outros terão visto, quem postasse ilustrações sugerindo que teriam sido os democratas a montar o esquema das bombas. Como não disseram mais nada depois de conhecerem o autor, presumo que estejam a urdir novas teorias da conspiração — e entretanto removeram as ilustrações sem dizerem água vai, muito menos que se enganaram. Também não me convencem inteiramente as razões que explicam o trumpismo, ao qual os crentes se mantêm fiéis mesmo depois do trumpismo ter confirmado o pior. Quer-me parecer, isso sim, que o trumpismo resulta do ódio acumulado durante anos, não só contra os políticos, e que agora funciona, sobretudo, como válvula de escape. Como o ódio só gera mais ódio, desconfio que nem como catarse lhes será útil. Alguém que lhes meta a evidência nas suas pobres cabeças.

19 de setembro de 2018

O HOMEM SEM QUALIDADES. Que tenham votado Trump por estarem fartos do chamado sistema, por acharem que o sujeito era a pessoa certa ou porque merecia o benefício da dúvida, não custa entender, mesmo depois dos sinais em contrário desde o início. Mas agora, 17 meses passados, dá que pensar ver quem o defenda com o mesmo fervor, apesar de tudo o que já se passou, do que diariamente sucede, e do futuro que se adivinha. Donald Trump mente descarada e compulsivamente mais de sete vezes por dia (números do Washington Post). Rodeou-se de medíocres e oportunistas, e de um ou outro tido como sério que rapidamente perdeu a coluna vertebral. Insulta diariamente membros do seu próprio gabinete, instituições como o Departamento de Justiça e agências de segurança, e de um modo geral todos quantos não pensam como ele. Instiga o ódio entre parceiros e adversários. Zomba em público de deficientes. Embora não se assuma como tal, é claramente racista, talvez mesmo supremacista, e as mulheres ou são objectos de prazer ao alcance da mão, ou não contam. É nitidamente um ressentido, e nunca perde uma oportunidade de se vingar. Admira ditadores e outros tiranos, a quem inveja os métodos e a obediência (elogiou o ditador norte-coreano por não permitir que alguém não pense como ele). É um egomaníaco como nunca se viu, um mitómano capaz de suplantar o mais inverosímil personagem de ficção, um paranóico obstinado. Desconfia de tudo e de todos. Da comunicação social (os que lhe são hostis são «inimigos da América»), que ataca constantemente — porque assim, disse ele a uma jornalista da Fox, desacredita todos os media, pelo que quando algum publicar notícias desagradáveis acerca da sua pessoa, ninguém acredita. Da comida que lhe servem, porque tem um medo patológico de ser envenenado. É um ignorante que faz gala de o ser, um desavergonhado que só encostado à parede aceitou dizer algumas palavras simpáticas sobre o senador John McCain, a quem nunca chegará aos calcanhares. É um incompetente com provas dadas, o mais rematado imbecil, um sujeito sem escrúpulos. É, em resumo, uma criatura desprezível. Assim sendo, que qualidades terá que continuam a levar os seus apoiantes a ignorar/desvalorizar/minimizar todas estas misérias? Não me venham com a Hillary assim e Obama assado, que as alegadas trapaças de uma e as supostas patranhas de outro não explicam coisa nenhuma — e só demonstram a invariável pobreza de argumentos. Nem por que motivos foi eleito, que isso já foi mais que explicado. Digam-me, por favor, que o homem tem uma qualidadezinha, uma só para amostra — ou então que nada do que aqui enunciei tem importância. É que eu recuso-me a acreditar que os «trumpistas» não tenham vergonha e pelo menos um argumento digno desse nome.

23 de agosto de 2018

A PORCARIA FEDE QUE TRESANDA. Depois de meses a dizer que fazia questão de falar cara a cara com o procurador que investiga um eventual conluio entre a sua campanha presidencial e a administração russa, alegando nada ter a esconder e pretender pôr tudo em pratos limpos, eis que Trump vem agora dizer que talvez não seja boa ideia, pois arrisca-se a cometer perjúrio. Ora, como pode alguém meter os pés pelas mãos diante o procurador se nada fez de errado? Se quem não deve não teme, o recuo de Trump só pode significar que o sujeito deve, e teme. Como não bastasse, o advogado que até há pouco lhe consertava as avarias acaba de o incriminar, alegando que Trump comprou, por seu intermédio, o silêncio de duas mulheres que lhe terão feito uns biscates, e o ex-director de campanha vai passar o resto da vida na cadeia por obra e graça de umas falcatruas e do mais que a seu tempo veremos. Ainda pior: os sujeitos demonstram que Trump se rodeou de patifes (estou a ser benévolo), contrariando a promessa de que, uma vez Presidente, iria escolher os melhores. Temos, portanto, que o pântano instalado em Washington — de que Trump tanto falou e, uma vez Presidente, jurou drenar — atingiu um nível tal que acabará, mais tarde ou mais cedo, por engolir quem se propôs acabar com ele.

27 de julho de 2018

MORALISTAS MAS NÃO PRATICANTES. Muito instrutivo ver o que alguns católicos disseram sobre a separação das famílias dos imigrantes ilegais nas fronteiras dos EUA. Quando seria de esperar um gesto de compaixão, no mínimo, eis que os curiosos sujeitos com uma mão batem no peito e com a outra espetam a faca. Pelo menos não surpreendem, valha-os deus. Afinal, abundam exemplos de quem pratica o contrário do que prega, e conheço algumas amostras. Imaginem que os imigrantes ilegais retidos na fronteira nas circunstâncias que se conhecem são cristãos fugidos de regimes que os perseguem. Teriam as criaturas a mesma atitude? Por ser agnóstico, presto escassa atenção às andanças dos crentes, excepto quando desdenham, nalguns casos matam, de quem não pensa como eles. Mas parto invariavelmente do princípio que os crentes são, como espécimes humanos, melhores que os não-crentes, porque as religiões tornarão o homem melhor. Como a realidade diariamente desmente, um erro crasso. Que deus tenha misericórdia deles.

22 de junho de 2018

RAZÃO ANTES DO TEMPO. Resultante de uma viagem pelos EUA entre Novembro de 1959 e Maio de 1960, Italo Calvino publicou, há meio século, Um Optimista na América, onde a páginas tantas se lê sobre a sua passagem pelo Texas:

 «Uma noite estava a jantar numa villa do Sul. (...) Era um ambiente sério de homens de negócios. A conversação deteve-se (...) no tema das eleições. Um dos convivas explicava por que motivo apoiava um determinado candidato. (...) Dizia ele que nos momentos difíceis que aguardavam os Estados Unidos, era aquele homem o que convinha, porque era um tough guy, um duro, um tipo ruthless, um que não está com cerimónias. Tentei objetar que os momentos difíceis só aparecem quando não nos apercebemos de quais são os problemas dos países do mundo e ao estudo e ao empenho para resolver esses problemas se antepõem a política da força e o apoio de regimes desacreditados e policiais: já era o tempo das pessoas sensatas e reflexivas – disse eu – e não de tipos tough. Não me entendeu; sim, tudo belas coisas, dizia ele, mas antes de mais nada é preciso mostrarmos que somos os mais fortes, que temos cabeça, que não damos sinais de fraqueza. (...) Os jornalistas, os especialistas, os políticos conscientes do que está a acontecer no mundo têm um número de apoiantes ainda limitado. O futuro decerto reservará aos Estados Unidos outras más surpresas.»

Como se vê, o texto foi premonitório. Os EUA têm um tough guy na Casa Branca, e o resultado é a barafunda que se conhece. Vale-nos que o sujeito não tem um décimo do poder que julgava, embora continue a ser demasiado para que possamos estar descansados.

16 de junho de 2018

É SÓ FUMAÇA. Como, por lapso, reportou uma jornalista da Fox, Singapura foi palco de um encontro entre dois ditadores. Foi um lapso compreensível. Afinal, houve um ditador de facto, e outro que gostaria de sê-lo. Tirando a photo opportunity para mostrar aos netos e o facto de o ditador norte-coreano ter feito sentar à mesa o todo-poderoso presidente americano (um feito que, por si só, constitui uma notável vitória), nada mais saiu dali. Tudo o que houve resume-se a um documento de intenções — os americanos comprometeram-se a apoiar a segurança da Coreia do Norte (ninguém sabe como) e acabar com os jogos de guerra (que não vão, obviamente, cumprir), e os norte-coreanos terão prometido desmantelar o arsenal nuclear (que também não vão cumprir). Quem acredita que o lunático dos foguetes vai abrir mão do poder nuclear? Quem acredita que os americanos vão aliviar as sanções à Coreia do Norte? Dir-me-ão que, mesmo saindo de mãos a abanar, o encontro foi, para os americanos, melhor que nada. Possivelmente. Mas para o regime de Pyongyang, parece não haver dúvidas de que foi um tremendo sucesso, como costuma dizer o imbecil que mora na Casa Branca sempre que se gaba do que faz e do que não faz. Valha-nos que a expectativa para a cimeira de Singapura era quase nula. E quando assim é, qualquer coisa de que lá saia de positivo — ou que passe por positivo — é lucro, como disse o «nosso» Guterres, comandante de uma agremiação que hoje, face aos grandes conflitos, pouco mais faz do que contabilizar os mortos.

25 de maio de 2018

AOS SALTOS E AOS PINOTES. Não sei se Trump é culpado de tudo o que é suspeito, nomeadamente no «caso russo», embora as peças se encaixem umas nas outras a uma velocidade estonteante. Mas se não é, por que se comporta como se fosse? Se está realmente inocente, qual é o problema com a investigação do procurador-especial? Não devia o Presidente ser o primeiro a desejar que o procurador conclua rapidamente a investigação, de modo a demonstrar-se a sua inocência? O comportamento de Trump seria, de facto, estranho, não fossem as evidências de que está metido num gigantesco sarilho. A «tese» da caça às bruxas não tem ponta por onde se lhe pegue. A hipotética conspiração para o derrubar não passa de uma fantasia. E agora a suspeita de que alguém espiou a sua campanha (o «spygate») mais não é do que a enésima manobra destinada a descredibilizar a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, tal como as escutas à Trump Tower inventadas pelo congressista Devin Nunes, que uma vez mais, inventando uma espionagem com base em zero evidências, se prestou a tão triste figura. De facto, à medida que a investigação vai avançando, o desnorte do Presidente é cada vez maior, e não é caso para menos. O «caso russo» alastrou para as actividades de Trump enquanto empresário, e tudo indica que as actividades de Trump enquanto empresário são, por si só, motivo para o levar à justiça. Sim, à justiça, que a demonstrar-se o que se suspeita, não me surpreenderá que acabe no banco dos réus. Sem surpresa, a investigação está a chegar, se é que já não chegou, ao ponto onde dói mesmo. E uma vez aí, não me parece que haja expediente que lhe valha. Demitir o procurador-especial e o procurador-geral da justiça, que ele vai ameaçando fazer para avaliar possíveis consequências, servirá, quando muito, para adiar por mais algum tempo um desfecho inevitável.

23 de abril de 2018

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO. Conheci um sujeito que, vendo-me a ler enquanto almoçava, me disse mais ou menos assim: «Não me lembro de alguma vez o ter visto sem um livro na mão.» O sujeito, falecido há uns anos, espantar-se-ia hoje se me visse sem o tal livro na mão, e só poderia concluir que deixei de ler ou passei a ler menos. Lembro-me deste episódio depois de ter lido que hoje, ao contrário de ontem, já não se lêem livros nos transportes públicos, que foram trocados pelos smartphones. Será. Mas é preciso ver que alguns dos smartphones carregam ebooks, que muitos, por razões de ordem prática, preferem ao papel. É o meu caso, e não serei o único. Os ebooks têm «dentro» o mesmíssimo conteúdo que os livros, e num livro interessa-me, essencialmente, o conteúdo. A Guerra e Paz que se lê em ebook não é o mesmo livro que se lê em papel? O que muda em Thomas Mann se for lido em papel? Basicamente, o ebook contém a versão digital de um livro impresso, e como já enumerei em mais de uma dezena de textos as vantagens e inconvenientes de ambos os suportes, não vou repetir-me. Como faço parte da confraria, que suponho maioritária, dos que lê vários livros ao mesmo tempo, hoje faço-me acompanhar diariamente por algumas centenas de ebooks, que sempre que posso leio no tablet e quando não posso no smartphone. Quantos farão o mesmo? Ignoro a resposta, mas quer-me parecer que serão tantos — ou mais — que os que dantes liam em papel. Ao contrário de muitos, não estou convencido de que os smartphones roubaram leitores aos livros, digamos, tradicionais, como não estou convencido de que os ebooks roubam leitores aos livros em geral. Quem lia não deixou de ler por causa dos smarthphones ou ebooks. O que mudou, e muito, foram os suportes em que se lê, embora o suporte tradicional (o papel) continue a prevalecer — e nunca, como hoje, se publicou tanto livro em papel, enquanto o mercado dos ebooks parece estagnado. Apesar dos condicionalismos (falta de espaço onde os colocar, no meu caso), continuo a comprar livros em papel, embora quase só os que não encontro em ebook. Porque o que conta, repito, é o conteúdo. E nisso em nada se distinguem.

24 de março de 2018

A ÉTICA É PARA OS OUTROS. Parece que o novo Presidente do PSD tem como primeiro objectivo perder por pouco as eleições do próximo ano. A ser verdade — por si só uma coisa extraordinária —, coloca-se, desde já, uma questão prática: Rui Rio vai, na campanha eleitoral para as legislativas e europeias de 2019, apelar ao voto para vencer, ou para perder por pouco? Suspeito que a ambição — ou falta dela — lhe vai causar dissabores a curto prazo, sobretudo com os media, que não o pouparão — e são bem conhecidas as fúrias de Rio com os media. Parece, aliás, que já começaram. O novo presidente dos sociais-democratas iniciou o mandato acusando os media de lançar uma campanha contra Elina Fraga e Salvador Malheiro, ambos vice-presidentes do partido. Agora, sobre o já ex-secretário-geral Barreiras Duarte, forçado a demitir-se após ser acusado de falsificar o currículo, Rio começou por dizer que foi um erro prontamente corrigido — mas acabou, tarde e a más horas, por aceitar o inevitável, mostrando total inépcia a gerir o caso e que a ética, afinal, não se aplica a todos. Não sendo eu militante do PSD, a questão não me diz directamente respeito. Mas como Rio se arrisca a ser primeiro-ministro, já não posso dizer que me seja totalmente indiferente. Devo dizer que sempre tive o então presidente da Câmara do Porto como arrogante e autoritário. Por aquilo que tenho visto nas últimas semanas, não será fácil mudar de opinião.

14 de março de 2018

NORMALIZAR A ABERRAÇÃO. Alguma direita portuguesa tem-se esmerado com dezenas de explicações para a vitória de Trump, na minha opinião quase todas acertadas, as menos consistentes pelo menos verosímeis. Nunca disse, porém, que a vitória de Trump se deveu, em parte, à ingerência russa, reconhecida por todas as agências americanas de segurança. (Se a ingerência foi, ou não, decisiva, nunca saberemos, mas que ela existiu, e em larga escala, só Trump e seus papagaios recusam admitir.) Agora a dita direita faz os possíveis e os impossíveis para normalizar a aberração, comparando as aventuras de Trump com as aventuras dos seus antecessores ou adversários políticos — como se fosse possível comparar as aventuras de Trump com as dos seus antecessores ou adversários políticos. Isto de querer fazer com que os «nossos» sejam melhores que os «outros» só porque são os «nossos», é mais ou menos o mesmo que pretender fazer a quadratura do círculo. Por mais voltas que se dê, por mais que se estique daqui e se encolha acolá, nunca funciona. Mais valia, por isso, que a direita se preocupasse em reparar os danos da sua própria casa. É que a vitória de Trump não foi, apenas, a vitória da direita sobre a esquerda, dos conservadores sobre os liberais. Foi, também, uma vitória sobre a direita americana tradicional, que Trump está longe de representar. A mesma direita que durante as primárias fez o que pôde para se ver livre dele, como estarão recordados — e que agora, por cobardia política, se viu forçada a engolir.

18 de fevereiro de 2018

O LAMAÇAL. Razões profissionais obrigam-me a estar ao corrente do que algumas cavalgaduras da bola vão dizendo hora sim, hora sim, nomeadamente presidentes, directores de comunicação e comentadores televisivos. Tirando excepções, todos alinham pelo mesmo diapasão, e a música é conhecida: uma cacofonia de insultos do mais baixo que há. Dantes as más notícias geralmente vinham dos hooligans, uma vez ou outra das claques. Agora vêm dos arruaceiros instalados nos gabinetes dos clubes, dos incontáveis programas de «análise» futebolística, e das omnipresentes redes sociais. Bruno de Carvalho, por exemplo, em tempos ofereceu-se para dar cursos de ética aos «dirigentes que precisem». Leram bem: ética, como se o sujeito tivesse autoridade para falar de tal coisa. Presumo que o presidente do Sporting se exclui da pouca vergonha que grassa no futebol português, mas não devia. Até nem será exagero dizer-se que Bruno de Carvalho tem sido dos que mais tem contribuído para o actual clima, embora tente ser visto como o grande moralizador. Felizmente que os adeptos dos clubes envolvidos nesta lixeira a céu aberto em que se tornou o futebol português têm sido mais sensatos e não se têm envolvido em escaramuças. Para azar das cavalgaduras, a quem dava jeito que ocorresse uma ou outra tragédia para reforçar os seus pontos de vista, os adeptos mantêm-se serenos. Esperemos, portanto, que os ditos mandantes se afundem o mais rapidamente possível no pântano em que se meteram. Para bem dos clubes que representam, para bem de quem gosta de futebol, para bem da higiene mental em geral.

7 de dezembro de 2017

PAÍS MINÚSCULO PARA TANTO EGO. Parece que há escritores portugueses que submetem as suas obras a concursos mas depois não aceitam outro resultado que não seja ganhar. Pior: atribuir o quarto lugar do Prémio Oceanos a uma autora do gabarito de Maria Teresa Horta (MTH) é, segundo Inês Pedrosa, «uma humilhação». Devo dizer que não li um único livro de MTH, mas não me gabo disso. É, ao que dizem, uma escritora estimável, e o livro a concurso também. Mas se o incidente do prémio não me afasta da sua obra, também não me aproxima. Tenho a ideia, porventura excessivamente romântica, que um escritor/criador jamais fica satisfeito com a sua obra, e que cada vez que a ela regressa lhe encontra defeitos que o embaraçam. Não será o caso de MTH, que estará convencida de que fez uma obra notável, claramente melhor que a concorrência. Ou então achará que merecia o primeiro lugar não pelo livro em si mas pela sua «já longa obra», como escreveu na carta de rejeição, onde também se lê que o fez pelo respeito que deve a si própria e aos seus leitores. É um direito que lhe assiste. Mas reza a lenda que ninguém é bom juiz em causa própria.

20 de novembro de 2017

O QUE TEM QUE SER FEITO

É possível acreditar numa coisa e no seu contrário? O Presidente Trump acha que sim. Acredita que Putin não interferiu nas presidenciais americanas, e acredita nas agências governamentais americanas que dizem precisamente o contrário. Que sentido isto fará? Para quem acredita nas suas próprias mentiras, fará todo o sentido.

Como estarão lembrados, todas as agências governamentais de inteligência garantem a intromissão russa nas presidenciais americanas, e todos os dias surgem evidências de que assim foi. Mesmo assim, Trump insiste que Putin lhe garantiu, um ror de vezes, que não interferiu, e isso parece bastar-lhe. O que é preciso, para Trump, é ultrapassar o «caso russo», porque o importante é que os EUA tenham uma boa relação com a Rússia — removendo, desde já, as sanções impostas pelo Congresso em resposta à interferência nas eleições. O resto (cada vez mais evidências de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo) não interessa para nada.

John Brennan, ex-director da CIA, acha que Trump tem, por qualquer motivo, medo do que Putin possa fazer, ou do que possa surgir da investigação sobre eventual conluio da sua campanha com Vladimir Putin — pois o comportamento de Trump só pode, segundo Brennan, dever-se a «ingenuidade, ignorância ou medo».

James Clapper, ex-diretor da NSA, considera que os líderes estrangeiros que estendem a passadeira vermelha a Trump são capazes de o manipular. «Acho que tanto os chineses como os russos pensam que podem manipulá-lo», disse Clapper — além de que negar a interferência russa nas presidenciais, como Trump continua a negar, representa, para ele, «um perigo para o país».

Temos, portanto, que só mesmo quem não quer ver não vislumbra a suspeitíssima relação entre Trump e Putin. O que haverá entre eles que explique o comportamento do Presidente americano? Eis a pergunta que muitos fazem e outros evitam fazer. Talvez nunca saibamos toda a verdade. Mas o que vamos sabendo será, a prazo, bastante para se fazer o que tem que ser feito.

12 de novembro de 2017

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS. Ricardo Salgado é acusado pelo Ministério Público, no âmbito da «Operação Marquês», de ter cometido 21 crimes. O antigo banqueiro, que garante estar inocente, veio chorar em todos os jornais o arresto da sua pensão de velhice — ficou agora, segundo ele, «praticamente com o correspondente a dois salários mínimos». Disse mais Ricardo Salgado: que lhe dói profundamente os lesados do desmoronamento do Banco Espírito Santo, que nunca subornou ninguém, que será ilibado da «monstruosidade» de que é acusado. Como diz a lei e o senso comum, Ricardo Salgado é inocente até prova em contrário. Como são inocentes até prova em contrário todos os acusados da «Operação Marquês», embora o princípio para os restantes se note bastante menos. Por obra e graça não sei de quê, não li num único jornal que lhe deu espaço para chorar a pensão e o resto que Ricardo Salgado é acusado de 21 crimes (nove por branqueamento de capitais, três por fraude fiscal qualificada, três por falsificação de documentos, três por abuso de confiança, dois por corrupção activa e uma por corrupção activa de titular de cargo político), como sempre acontece, e bem, quando falam dos outros acusados, nomeadamente José Sócrates (31 crimes), Carlos Santos Silva (33), Henrique Granadeiro (8) e Zeinal Bava (4). Por que será? A omissão não foi por acaso, pelo que a explicação tem que ser outra. Talvez alguém da Santíssima Trindade saiba alguma coisa.

6 de outubro de 2017

COISAS QUE NÃO PERCEBO. Apesar de muitos pontos comuns, cada apoiante de Trump sê-lo-á pelos seus próprios motivos. Mas se antes de ser Presidente me custou entender-lhes os motivos (e, sobretudo, a ingenuidade), hoje, oito meses volvidos, não compreendo de todo. Como defender um ignorante do mais básico? Um mentiroso compulsivo? Um comprovado incompetente? Um egomaníaco? Um indivíduo que fomenta a divisão e o ódio entre americanos? Que não diz coisa com coisa quando lhe tiram o teleponto da frente? Que é alvo de risota no mundo inteiro? Que não consegue fazer aprovar quase nada do que prometeu? Que se rodeou de lunáticos, incompetentes, aldrabões, oportunistas? Que já foi obrigado a despedir — ou aceitar a demissão — de duas dezenas de membros da sua administração em pouco mais de meio ano de governação e a manter mais dois ou três que ainda lá estão porque não têm vergonha na cara? Que pediu a prisão de Hillary Clinton por ter usado indevidamente uma conta de email e agora está rodeado de gente que fez o mesmo? Que insiste em desvalorizar a intromissão russa nas eleições só porque foi beneficiado? Que, caso venha a ser acusado na trama russa, ameaça com um auto-perdão, extensivo a quem o rodeia? Que, se pudesse, já tinha calado os media que divulgam notícias que lhe desagradam? Que, face à recente tragédia de Porto Rico, se comportou de forma miserável, sem um pingo de humanidade? Bem sei que os apoiantes de Trump se limitam a atacar os seus adversários (nunca os vejo elogiar-lhe uma decisão, uma atitude). Mas mesmo assim continua a ser um insondável mistério. Haverá algo de bom no Presidente que não estou a ver? Se há, façam o favor de me dizer o quê.

28 de setembro de 2017

PRAZERES. Depois de o ter visto no Youtube há uns anos, voltei, agora apenas em áudio, a um programa da TVE ainda do tempo em que a televisão era a preto e branco. Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Guillermo Cabrera Infante, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Salvador Dalí, Federico Fellini, Mario Benedetti, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez foram alguns dos entrevistados do programa A Fondo, que ouvi com o mesmo prazer da primeira vez. Essencialmente porque possuíam uma cultura vastíssima, experiências de vida notáveis, e tinham lido tudo o que era essencial — coisas que hoje se vêem pouco na generalidade dos escritores mais novos, como facilmente se constata nas entrevistas que dão e nos livros que escrevem.

24 de agosto de 2017

PROVOCAÇÕES DELIBERADAMENTE PERIGOSAS. Duvido que alguém que pratica a mentira como um desporto (o Washington Post contabilizou uma média de cinco mentiras diárias) consiga minar a credibilidade de quem quer que seja, que de um mentiroso só se espera que minta. Mas já me pareceu mais improvável que Trump consiga, com as suas constantes declarações incendiárias, criar um clima de violência contra os media de que não gosta (leia-se todos os que noticiam assuntos que lhe desagradam). Os ataques do Presidente ao que ele designa por «fake news» e inimigos da pátria são cada vez mais frequentes, cada vez mais violentos, cada vez mais perigosos — porque Trump sempre gostou de pôr todos contra todos, de instigar o ódio entre quem discorda do pensamento único (leia-se o dele). Como qualquer pessoa minimamente informada já terá percebido, nunca, como hoje, foi tão necessário um jornalismo competente e actuante, e se por vezes se cometem erros, no geral está bom e recomenda-se. Mas se continuo convencido de que Trump perderá a guerra com os media, cada vez me parece mais provável que não sem antes haver vítimas. Não vítimas resultantes de danos colaterais (chantagens, despedimentos, coisas assim), que também haverá. Falo de «vítimas a sério», resultantes de violência física, que neste momento só me espanta ainda não existirem. Trump demonstrou durante a campanha que é um sujeito perigoso, voltou a demonstrá-lo já eleito, confirmou-o nos últimos dias. Quase apostaria que, a suceder, será o primeiro a dizer que estavam mesmo a pedi-las.

15 de agosto de 2017

A MORTE SAIU À RUA. Olhando para a trajectória de Trump desde a campanha eleitoral até ao fatídico fim-de-semana passado, a reacção do Presidente aos acontecimentos de Charlottesville (fez umas vagas declarações a condenar a violência «de muitas partes» que depois, encostado à parede, corrigiu a contragosto) foi coerente com o que tem dito — e feito — até agora. Fosse o terrorismo da Virgínia (sim, o que se passou na Virgínia chama-se terrorismo) praticado por radicais islâmicos, e Trump andaria, e bem, para aí aos gritos. Como veio de onde veio, isto é, de racistas, supremacistas brancos, simpatizantes do nazismo e outros espécimes do género (tudo gente que o apoiou e com quem Trump simpatiza parcial ou mesmo totalmente), limitou-se a uma espécie de condenação burocrática e a mudar rapidamente de assunto. Claro que os acontecimentos da Virgínia, muito estimulados pela retórica de Trump e dos media de extrema-direita, podem ser um rastilho para mais violência. Mas estou convencido de que tiveram pelo menos o mérito (digamos assim) de mostrar a natureza de quem nos governa, de lançar dúvidas entre alguns dos seus crentes. Como se viu nas manifestações espontâneas que logo surgiram um pouco por todo o país, é clara a associação que se faz dos acontecimentos da Virgínia à trajectória de Trump. Quem duvida que o sujeito potencia comportamentos de ódio, terá ficado com menos dúvidas. Não é muito, mas já é alguma coisa.

8 de agosto de 2017

UM DESASTRE NUNCA VISTO. O Presidente Trump arranjou, finalmente, alguém ao seu nível. Um tal Scaramucci, a quem meia dúzia de dias de poder bastaram para demonstrar ser mais papista que o Papa. Depois de ter dito vezes sem conta amar o Presidente, coisa nunca vista talvez mesmo na Coreia do Norte, ameaçou «limpar» o gabinete presidencial, «matar» (metaforicamente, presume-se) os autores das fugas de informação — medidas que, juntamente com as declarações grosseiras à New Yorker, provocaram mais duas baixas no gabinete presidencial, que se vieram juntar ao general Flynn e a outras figuras menores, para não mencionar o despedimento de James Comey, ex-director do FBI (afastado em circunstâncias muito suspeitas), e o cada vez mais fragilizado Jeff Sessions, ministro da Justiça e procurador-geral, que depois de ter sido obrigado a afastar-se da investigação russa tem vindo a ser enxovalhado pelo Presidente sem que se perceba por que não o demite ou Sessions saia pelo próprio pé. Dez dias depois, Trump mudou a agulha, e Scaramucci já era. Agora estamos na fase do detector de mentiras, que a Casa Branca pondera usar como forma de acabar com as fugas de informação, que a concretizar-se levaria a gente que rodeia o querido líder a humilhar-se ou, se tiver coluna vertebral, a demitir-se (esperemos que o polígrafo não se aplique ao Presidente). E da Trump News, uma coisa inacreditável, própria de quem não tem um pingo de vergonha na cara e que não ocorreria nem ao jumento que manda na Venezuela. E hoje mesmo a cada vez mais atrevida Coreia do Norte, que o irresponsável que nos calhou em sorte perigosamente trata com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Tudo isto em seis meses e pouco, durante os quais a grande bandeira de Trump — acabar com o Obamacare — falhou três vezes, e o resto das medidas continuam em banho-maria ou encalhadas nos tribunais. Prognostiquei, na primeira hora, que Trump seria um desastre, e muitos pensaram que exagerei. Desculpem a presunção, mas hoje, face ao que já se conhece, se de alguma coisa me podem acusar é de ter sido excessivamente modesto.

21 de julho de 2017

AS OBSESSÕES FAZEM MAL À SAÚDE. O Presidente Trump e o Partido Republicano têm um plano claríssimo face aos cuidados de saúde: acabar com o Affordable Care Act, o chamado Obamacare. Não corrigir o que não está bem no plano (até o Partido Democrático concorda que há coisas que não estão bem), o que seria expectável, mas pura e simplesmente acabar com ele. Vai daí, após sete anos em que se limitaram a criticá-lo sem nada fazer para o melhorar, eis que inventaram um plano à última hora para mostrar que havia alternativa ao Obamacare. O resultado é conhecido: não chegou a ser votado pela Câmara dos Representantes, de maioria republicana, por não haver os votos necessários. Reformulado, o Trumpcare 2.0 foi, de seguida, enviado ao Senado, também de maioria republicana, e o resultado foi conhecido há três dias: não chegou a ser votado, por se saber, à partida, que iria ser chumbado. Pior: em desespero, o Presidente apelou aos republicanos para revogar o Obamacare, e quanto a um novo plano para o substituir, depois se verá. Como seria de esperar, os republicanos mostram-se reticentes, e o resultado não é difícil de adivinhar: Trump falhará pela terceira vez. Se a posição de alguns sectores republicanos é coerente com os princípios que defendem, já o Presidente demonstrou toda a sua ignorância em matéria governativa quando prometeu, durante a campanha (e já depois de tomar posse), que substituiria o Obamacare enquanto o diabo esfrega um olho. Ao contrário do que supunha (e não só ele), governar um país não é o mesmo que dirigir uma empresa, ou um conjunto de empresas, e a incompetência para governar o país, aliada à ignorância arrogante, vai custar-nos caríssimo. A famosa capacidade negocial do Presidente, em tempos tão elogiada, revelou-se outra falácia, porque a política e os negócios são, para o bem e para o mal, dois mundos diferentes, por vezes incompatíveis. Resta-nos o tão odiado «sistema», sem o qual já estaríamos ao nível de uma república das bananas. Pior: provavelmente estaríamos a assistir às piores práticas russas de Putin, que Trump tanto admira. E que consistem, já agora, em liquidar opositores, quem se atreve a revelar a corrupção e toda a espécie de vigarices instaladas no Kremlin.

29 de junho de 2017

ESCÂNDALO NA PARÓQUIA. A ventosidade intestinal que Salvador Sobral sugeriu durante o concerto para as vítimas de Pedrógão Grande escandalizou a pátria do Minho ao Algarve, da Calheta a Caracas, talvez mesmo os Amigos de Olivença. Curiosamente, a pátria não costuma escandalizar-se quando vê os jogadores da «selecção de todos nós» dizer, com todas as letras, palavrões de toda a espécie, como ainda ontem se viu frente ao Chile. Convenhamos que o comentário de Salvador, uma «inconveniência» de que o próprio diz não se orgulhar (e que, para mal dos seus pecados, terá praticado outras vezes), não foi muito elegante. Mas a dor de corno que logo veio ao de cima, a pretexto da moral e dos bons costumes, também não cheirou lá muito bem. Sim, a vitória de Salvador no festival das cantigas não agradou a todos, especialmente a uns quantos profissionais do ramo, que agora aproveitaram a ocasião para o dizer sem o dizer. Como não aprecio moralismos hipócritas, sobretudo de quem nada tem para mostrar, quase lamento que Salvador não tenha ido mais longe.

14 de junho de 2017

ISTO NÃO É SOBRE TRUMP. Tirando quem se espera fazê-lo, geralmente pago para isso, ainda não vi quem defendesse o Presidente Trump. Com argumentos dignos desse nome, evidentemente. Atacar os seus adversários, por vezes de forma rasteira e mentirosa, não basta para o defender. Há que dizer que Trump é bom nisto, faz bem aquilo — e fundamentar o que se diz. Confrange, de facto, o deserto argumentativo, que só pode significar que Trump é pior do que se pinta. A maioria dos trumpistas foi desertando para mais amenas paragens. Uns por oportunismo, outros porque se sentirão embaraçados pelo que vêem, outros ainda porque não aguentam tanta mentira (nove por dia, em média, segundo o Washington Post). Depois há os que assobiam para o lado, os que entraram em negação, quem o defende porque sim e outros casos perdidos. Rasgar o acordo sobre o clima, com base em pressupostos que não se percebem, valeu-lhe o desagrado universal. Até a filha e o genro, cuja opinião Trump terá em conta, foram notoriamente contra, deixando o Presidente cada vez mais à mercê dos lunáticos que o rodeiam, das suas próprias obsessões e fantasmas. Agora estamos nas gravações das conversas entre o Presidente e o ex-director do FBI, que Trump ameaça ter mas que ninguém sabe se tem, e se tem que novidade trarão — uma comédia do pior se não estivesse em causa intimidar quem decidiu enfrentá-lo. Amanhã outra coisa virá, que nesse aspecto o Presidente nunca desilude: está sempre pronto a surpreender-nos, cada vez pelos piores motivos. Resta saber até quando o partido que o suporta estará disposto a ignorar as bandeiras vermelhas que todos os dias se levantam, a fazer o pino para o defender, a suicidar-se com ele.

17 de maio de 2017

TRUMP VAI ESCREVENDO O SEU PRÓPRIO EPITÁFIO. Duvido que alguma vez se demonstre a existência de conluio entre o governo russo e a campanha de Trump, até porque o que há, até ver, são meras suspeitas. Mas que as ligações perigosas de alguns membros de topo da campanha de Trump ao governo russo são mais que muitas (já vai em 17 membros), não há dúvida que são. O que terá levado Trump a esperar 18 dias para afastar o general Flynn depois de saber que o então conselheiro de Segurança mentiu ao vice-Presidente e o mais que não sabemos? Esteve à espera que os media, no caso o Washington Post, denunciassem o caso para que já não lhe fosse possível escondê-lo? O que terá levado Trump a elogiar o Presidente Putin e a desvalorizar a comprovada interferência russa nas presidenciais americanas mesmo depois de membros do seu gabinete terem acusado a Rússia de não cumprir, na Síria, o que prometeu? O que terá levado Trump a encontrar-se, quase em segredo, com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros e o embaixador russo em Washington, com quem partilhou, tudo indica que de modo indevido, informação reservada, como o próprio acabou por confirmar depois de ter mandado desmentir? Que mais haverá para que Trump insista em defender a administração russa contra todas as evidências? Que ligações terá o Presidente à Rússia para que a investigação em curso o perturbe assim tanto? Terá o general Flynn, agora obrigado a depor no Senado (e com sérias hipóteses de acabar na cadeia), alguma história para contar que embarace o Presidente? Terá Vladimir Putin na sua posse matéria capaz de chantagear Trump e destruí-lo politicamente? Como se vê, sobram perguntas, e escasseiam respostas. Algumas terão resposta nos próximos tempos, outras talvez nunca. Creio, no entanto, que se conhecerá o bastante para se vir a demonstrar que a fumaça corresponde, de facto, a um incêndio que vem alastrando a um ritmo alarmante, e desse modo agir em conformidade. E agir em conformidade significa abrir um processo de destituição, que neste momento me parece que é só uma questão de saber quando.

13 de maio de 2017

UM PRESIDENTE A ESBRACEJAR NO PÂNTANO. James Comey, até há dias director do FBI, tornou-se um alvo a abater a partir do momento em que ousou admitir a existência de uma investigação destinada a apurar um eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa e se distanciou da inventona das escutas à Trump Tower. Como na ocasião seria demasiado escandaloso, Trump aguardou, impaciente, a primeira oportunidade para correr com ele, e julgou que as últimas revelações da controversa figura sobre os não menos controversos e-mails de Hillary Clinton seriam a oportunidade por que ansiosamente esperava. Como se viu, julgou mal, e o tiro saiu-lhe pela culatra. A «questão russa», que Trump e colaboradores consideram uma mera invenção, ganhou ainda maior exposição, e se dúvidas houvesse acerca de um possível conluio entre trumpistas e russos, com o afastamento do chefe da agência que investiga o caso passou a haver ainda mais. Só quem não quer ver consegue desvalorizar que o Presidente — cada vez mais desorientado, cada vez mais de cabeça perdida, cada vez mais desesperado — despediu quem o estava a investigar — logo nunca haverá uma explicação suficientemente boa que apague a suspeita de que Trump pretendeu, com esta medida, travar a investigação russa, como se fosse possível travar a investigação russa demitindo o chefe. Veremos o que isto vai dar, mas tudo indica que vai acabar mal. Para Trump, evidentemente, embora não só. Para mal dos nossos pecados, provavelmente também para nós.

27 de abril de 2017

O DESASTRE ANUNCIADO. Impossível ignorar o silêncio dos apoiantes de Trump, cada vez mais ensurdecedor. São tantas as asneiras, a incompetência, as mudanças de opinião, as mentiras, a ignorância mais básica sobre tudo o que importa e os exemplos de indigência mental que se torna cada vez mais difícil defendê-lo. O muro foi adiado para as calendas. A política de fronteiras e a ordem executiva que penaliza as cidades que não cumprem as exigências federais em matéria de imigração esbarraram nos tribunais. O NAFTA, Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com o México e Canadá que Trump em tempos considerou o pior acordo comercial da história, era para rasgar, agora é para ser renegociado. As despesas com as constantes deslocações de Trump ao seu clube privado na Florida, inexplicavelmente promovido — a custo zero — nalguns sites do governo, crescem diariamente sem que se perceba por que serão os contribuintes a pagar a conta. Os negócios da família montaram escritório na Casa Branca. A China passou de inimigo a abater a amigo a estimar (há por lá negócios da família a cuidar). A NATO era obsoleta, mas agora, por obra e graça ninguém sabe de quê, deixou de ser. A Rússia era amiga, agora ninguém sabe o que é. A América estava primeiro, mas três meses bastaram para atacar a Síria e o Afeganistão, a Coreia do Norte está no radar, e a aviação russa passeia-se perigosamente pelo Alasca. Para quem prometeu virar do avesso a política externa de Obama e erradicar o autodenominado Estado Islâmico (nada foi feito até agora), no mínimo é embaraçoso. Graças à incompetência dos que tentaram acabar com ele oferecendo em troca uma alternativa inventada à pressa (e bastante piorada), o tão odiado Obamacare mantém-se em vigor. As declarações de impostos do Presidente eram para ser mostradas aos eleitores, mas por razões que não foram explicadas já não vão ser mostradas. Sondagens recentes revelam que Trump é o Presidente mais impopular de sempre. Apenas 4% dos norte-americanos o considera honesto. Leram bem: quatro por cento (Obama chegou a ter 74, Bush filho 62, Clinton 61). A suspeita de conluio entre importantes figuras da campanha de Trump e a administração russa, que ainda há uns meses o Presidente elogiava (Trump nunca escondeu o seu fascínio por ditadores e aparentados), cresce de dia para dia. Sim, o Presidente conseguiu nomear o juiz Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal, embora a sua base de apoio tivesse que recorrer a um expediente controverso. Para 100 dias de Governo, que agora se assinalam, é um desastre sem precedentes. Mas o pior pode estar para vir. Afinal, Trump está sempre a demonstrar que pior é sempre possível.

7 de abril de 2017

MAIS NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Nunca dei um centavo por Trump e pela malta que o rodeia. Mas devo confessar que a pantomina em cena excedeu as minhas piores previsões. Para ajudar à barafunda, o luso-descendente Devin Nunes prestou-se ao triste papel de moço de recados para manter vivo um nado morto (a inventona das escutas de Obama a Trump), a seguir quis-nos fazer crer que prestou um grande serviço à pátria, no dia seguinte pediu desculpas aos parceiros da comissão que investiga a intromissão russa nas Presidenciais, finalmente percebeu que perdeu a confiança dos pares e agiu em conformidade. Tudo isto para nos distrair do essencial: a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa, cuja suspeita aumenta de dia para dia. Depois há um general cagarolas disposto a contar o que sabe se lhe salvarem a pele, dezenas de apartamentos vendidos a russos suspeitos de subtrair pipas de massa aos seus conterrâneos, a humilhação do Presidente e respectiva família política por não terem conseguido substituir o Obamacare por um sistema pior, e outras histórias igualmente fedorentas. Somado ao cada vez maior atrevimento da Coreia do Norte e ao pesadelo da Síria, que Trump decidiu bombardear com o mesmíssimo pretexto com que há quatro anos defendeu o contrário (e cujas consequências ninguém, até agora, conseguiu antecipar), eis que estão criadas as condições para o descrédito total de uma democracia em tempos exemplar. Felizmente que o tão odiado «sistema» funciona, pelo que Trump virá a ser, quando muito, uma espécie de Putin dos pequeninos.

23 de março de 2017

NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Se não fosse grave, a história das alegadas escutas do então Presidente Obama ao então candidato Trump seria hilariante. Como não bastasse a ausência da mais leve evidência de que tal tenha ocorrido, como se percebeu desde o início, a administração Trump inventou que os serviços secretos britânicos foram os operacionais da alegada patranha, e como é sabido, a coisa correu mal. No dia seguinte a administração Trump recuou, desfez-se em desculpas, prometeu portar-se bem dali em diante — uma cena penosa de se ver. Para cúmulo, o Presidente deitou ainda mais lenha na fogueira, dizendo que se limitou a citar a Fox News, pelo que se algo esteve mal foi a Fox, não ele. O Presidente decide com base no que dizem os media? Obviamente que a desculpa ou é estúpida, ou o Presidente decide mesmo com base no que dizem os media em que ele confia, e nesse caso seria inacreditável e ainda mais estúpido. Convém lembrar que na origem das alegadas escutas que Trump garantiu existirem estiveram duas fontes que o Presidente tem como credíveis: o Breitbart News, site de extrema-direita que se notabilizou pelas fake news (e deu ao governo o sinistro Stephen Bannon), e a Fox News, que dispensa apresentações, embora no caso em concreto até nem tenha estado mal (o Presidente tomou como um facto a opinião de um comentador entretanto despedido). Juntando o mal-amanhado episódio a tantos outros igualmente risíveis, impõe-se uma pergunta: até onde irá o delírio de Trump? Quantos sapos mais estará o Partido Republicano disposto a engolir para lhe manter o apoio? Se os republicanos tiveram razões para tentar impedir que Trump fosse nomeado candidato presidencial, mais razões têm agora para lhe travar a espiral de loucura. Quem já não percebeu que a administração Trump é uma bola de neve a rolar para o abismo?

15 de março de 2017

REAL NEWS.

1. Kellyanne Conway, assessora de Trump e propagandista dos negócios da filha do Presidente, sugeriu que pelo menos 20 por cento dos jornalistas que cobriram as presidenciais americanas deviam ser despedidos, alertou para a existência de «factos alternativos» (deu um exemplo com um massacre que nunca existiu depois de já ter atribuído a Obama uma decisão que não tomou), e mais recentemente tentou impingir-nos a ideia de que o ex-presidente espiou Trump com um microondas.

2. Steve Bannon, especialista em fake news e ao que dizem responsável pela estratégia da Casa Branca, comentou que os media deviam calar-se, e posteriormente garantiu que a relação entre os media e a Casa Branca «só vai piorar» (dois dias depois CNN, BBC e New York Times seriam proibidos de aceder a um briefing na Casa Branca).

3. Lamar Smith, congressista, recomendou aos americanos que ignorem os media e obtenham as notícias directamente do Presidente, pois só assim terão «a verdade nua e crua».

4. Donald Trump, Presidente dos EUA, já chamou aos jornalistas tudo o que há de pior. Desonestos, asquerosos, escória, inimigos, lixo, a forma mais baixa de vida, os seres humanos mais desonestos da Terra — eis algumas pérolas de que me lembro.

5. Vale a pena lembrar que os jornalistas visados pelo Presidente trabalham para a CNN, ABC, Associated Press, NBC, Washington Post, New York Times, Politico, Atlantic, New Republican, Los Angeles Times, Financial Times, e a certa altura até para a Fox News, que Trump respeita consoante os dias. Se os media citados não são credíveis (incluindo, vá lá, a Fox News), quais são, então, os media credíveis?

6. Como se percebeu desde a primeira hora, a estratégia de Trump tem sido descredibilizar os media (a última foi acusá-los de serem inimigos do povo americano), até agora razoavelmente bem-sucedida (instalar a dúvida sobre a credibilidade dos media é já uma vitória). Como se verá a seu tempo, não vai durar sempre.

7. Talvez o primeiro sinal de que já viu melhores dias sejam os «factos alternativos», que a administração jurou existirem, mas que os exemplos que foi dando liquidaram logo à nascença (não será por acaso que deixou de falar deles). As baixas causadas pelos media (demissão do conselheiro para a Segurança Nacional e afastamento do procurador-geral da comissão que investiga a interferência russa nas presidenciais) são outro sinal, a que se junta o facto de alguns media de referência terem visto crescer o número de leitores/ouvintes/espectadores, contrariando as recomendações da administração Trump e demonstrando que os leitores/ouvintes/espectadores têm cada vez maior apetência por notícias veiculadas por quem lhes garante maior rigor (leia-se os media tradicionais, mesmo com todos os defeitos).

8. «Factos alternativos» são, evidentemente, mentiras. E não é preciso andar para aí com uma lupa para ver que o Presidente foi, de longe, quem mais beneficiou com os «factos alternativos», para os quais contribui sempre que pode. O Presidente, a extrema-direita e a administração russa, que agora se vira para França e Alemanha, onde há mais trumps para eleger. Não falo de suposições, teorias da conspiração, verdades alternativas. Falo de factos a sério, contra os quais os mandarins de serviço declararam uma guerra que hão-de perder.

23 de fevereiro de 2017

VALE TUDO NOS NEGÓCIOS? Pode não saber mais nada, mas é inegável que Donald Trump foi — talvez ainda seja — um empresário brilhante. Eis o que todos dizem, inclusive quem não votou nele. Como já perceberam, discordo. O alegado brilhantismo de Trump assentou, essencialmente, em três pontos: desastres empresariais que se tornaram em lucrativas falências, fuga (legal, até ver) aos impostos, e muita falta de escrúpulos (3.500 processos judiciais nos últimos 40 anos por falta de pagamento a pequenos empresários, só para dar uma amostra). Práticas que não tornam, para mim, ninguém brilhante, nem sequer respeitável. Como alguns tendem a esquecer e muitos a tolerar, não vale tudo nos negócios. E quando um candidato recusa tornar pública a sua declaração de impostos (uma tradição dos candidatos presidenciais) após ter sido eleito (como prometera fazê-lo durante a campanha), não há como não desconfiar de que algo não vai bem. Somados todos estes factores, a que poderiam juntar-se outros mais, brilhante só no modo como convenceu, e continua a convencer, quem votou nele. Resta saber até quando.

10 de fevereiro de 2017

AVANÇAR ÀS ARRECUAS. Apesar da bazófia e do fogo-de-artifício, o Presidente Trump está a render-se à «realpolitik». A parte má (ou boa, depende de que lado se observa) é que Trump diz hoje uma coisa, no dia seguinte diz outra — e se alguém notar a contradição foi uma invenção dos jornalistas, essa gente desprezível. Dois exemplos só nos últimos dois dias: depois da provocação inicial, os Estados Unidos vão, afinal, respeitar o princípio de uma «China única»; a transferência da embaixada americana de Telavive para Jerusalém vai, afinal, ser estudada «muito seriamente», pois a coisa «não é fácil». É uma espécie de avançar às arrecuas, o que não deixa de ser um avanço — e convenhamos que os recuos têm sido, até ver, melhores que os avanços. O único senão é que isto lhe descobre o que há por debaixo do famoso cabelo: Trump prometeu uma coisa, e está a fazer outra. Para um «não político», que se candidatou contra o que há de pior na política, é obra. E ainda a procissão vai no adro.