1 de dezembro de 2021

TROPA FANDANGA. Não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, diz-se sempre que há «um caso» com as Forças Armadas (FA). Porque as FA são uma instituição respeitável; porque a excelência das FA nunca está em causa mesmo que por lá surjam casos de polícia; porque é preciso preservar a dignidade da instituição; e porque as FA prestigiam o país não sei onde nem porquê. A verdade é que é difícil não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada. Ele é o caso do furto das armas, que um soldado da GNR resolveria num abrir e fechar de olhos e o tribunal arrasta há quatro anos e meio; ele é a Força Aérea, que abastecia as messes de oficiais a um preço superior ao devido e depois repartia a diferença entre fornecedores e oficiais de alta patente; ele são os comandos que se envolveram numa rede criminosa internacional de contrabando de diamantes, ouro, estupefacientes e moeda falsa; ele são as caçadas mais ou menos clandestinas em áreas militares praticadas por empresários e altas patentes das FA. Isto só para comentar o que é público e apenas os últimos quatro anos, que o Presidente da República diz serem «casos isolados» que não põem em causa a «excelência» e a «reputação» das FA, que são, para ele, «o orgulho de Portugal». Acontece que são demasiados os «casos isolados» para que se possa falar em «excelência» e boa «reputação» das FA, como o Presidente muito bem sabe, e não escandalizará ninguém dizer-se que o prestígio das FA anda pelas ruas da amargura. As Forças Armadas não são um bando de delinquentes, que fique bem claro. O meu problema com elas é a evidente rebaldaria que por lá vai, e não gosto que me tentem vender como bom o que não é bom. Andei por lá tempo suficiente para ver demasiados «casos isolados» praticados às claras e conhecidos de todos que nunca foram notícia. Nada disto, portanto, é novidade para mim. A novidade é a sofisticação com que hoje se praticam estas e outras malfeitorias e como se tornam públicas mais facilmente do que dantes.

17 de novembro de 2021

UM HERÓI PORTUGUÊS. O vice-almirante Gouveia e Melo, até há pouco coordenador do plano de vacinação contra a covid, tornou-se uma espécie de herói nacional por ter levado a bom porto a missão que lhe foi confiada. Não pretendo retirar o mérito a quem o tem. Mas quero lembrar que o sr. vice-almirante se limitou a fazer bem o seu trabalho, e fazer bem o seu trabalho não chega, para mim, para ser um herói. Um herói é alguém que fez mais, muito mais, do que cumprir o seu dever. É alguém que foi para lá do dever e isso resultou em benefício de todos. Pelo menos era assim até há pouco. A mediocridade de quem hoje desempenha cargos públicos generalizou-se de tal modo que torna herói quem se limita a fazer bem o seu trabalho. É triste, mas é assim.

22 de outubro de 2021

O ALBERGUE DO PECADO. Trezentas mil vítimas de pedofilia praticada pela Igreja Católica, no caso a Igreja Católica francesa, que vieram juntar-se a muitos outros milhares em todo o mundo, significam que a Igreja Católica tem um problema mais grave do que se supunha. A gente vê os números que vão surgindo um pouco de todo o lado, nomeadamente de países tradicionalmente católicos, e não pode deixar de se interrogar se o que o que ainda há pouco se dizia excepção é, afinal, a regra. Salvo melhor opinião, a Igreja Católica tornou-se um albergue de frustrados sexuais, que lá encontraram acolhimento, depois encobrimento, por fim impunidade. Sim, a Igreja Católica é uma agremiação de pecadores, como gostam de lembrar quando ficam na mira da crítica. Convenhamos, no entanto, que não há água benta que chegue para tanto pecado.

19 de outubro de 2021

SOL E SOMBRA. Sigo com atenção cada novo argumento em defesa das touradas, mas continuam a não me convencer. Tirando os aficionados e os directa ou indirectamente interessados, contra os quais nada tenho, as touradas são, para mim, um espectáculo grotesco, em que o animal não tem as mesmas armas para lutar que o adversário — e, por isso, perde sempre. Também o argumento de que se trata de uma actividade que faz parte da cultura portuguesa, uma tradição com centenas ou milhares de anos, não me convence. A irmos por aqui, estaríamos hoje a ver lutas de gladiadores como no império romano (não é uma tradição portuguesa, mas serve para o caso), a praticar outras tradições entretanto banidas pelo mesmo motivo que hoje, como dantes, um fidalgo não mata o seu criado e fica impune. Não vejo, honestamente, um argumento atendível em defesa das touradas, muito menos das touradas onde o touro, torturado e exausto, é morto na arena. E não me venham com o argumento de que a proibição das touradas abre a porta à proibição da matança do porco e da galinha para a cabidela, como vi já escrito por aí. Dizer que uma coisa leva a outras é uma falácia, um «argumento» de quem os não tem.

6 de outubro de 2021

MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (7). Tendo escrito, num obscuro jornal, acerca de não sei que problema que o apoquentava, e não tendo a reclamação surtido qualquer efeito (o mais provável é que ninguém leu), o meu amigo voltou à carga na edição seguinte com novo texto que titulou: «Terei malhado em ferro frio?» Teodorico Raposo, n’A Relíquia, também prometeu comer os fígados a um certo hércules caso o apanhasse em Lisboa, fora de portas, num sítio que ele lá sabia. Não sei por que relaciono os dois episódios, mas aqui fica a passagem: “Vagarosamente, calado, com método, o hércules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu rugi: «Bruto!» Ele ciciou: «Silêncio!» E outra vez, tendo-me ali acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nádegas, canelas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquilamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, lívido, em ceroulas, disse-lhe com imensa dignidade: — Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do túmulo do Senhor, e eu não querer dar escândalos por causa da minha tia... Mas se estivéssemos em Lisboa, fora de portas, num sítio que eu cá sei, comia-lhe os fígados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os fígados! (...) E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções de arnica.”

24 de setembro de 2021

CONTRA PORQUE SIM. Fernando Nobre, outrora uma figura estimável, voltou à ribalta pelos piores motivos. Diz o médico ter-se curado da covid com fármacos cuja eficácia ninguém confirma, entre eles a hidroxicloroquina, tratamento recomendado, entre outros, por pantomineiros como o ex-Presidente Trump e o ainda Presidente Bolsonaro. Fernando Nobre opõe-se à vacinação e ao uso de máscara, negou sempre a gravidade do vírus, e pôs em causa os testes para o detectar. Tudo isto porque, na sua opinião, as medidas adoptadas para combater a covid atropelam os direitos e liberdades consagrados na Constituição, lei fundamental que serve para quase tudo e o seu contrário. Infelizmente, não demonstrou, com factos cientificamente comprovados, a validade da sua argumentação — tal como, de resto, todos os negacionistas. Depois de nunca ter perdido uma oportunidade para insultar os políticos e diabolizar os partidos, é oportuno lembrar que o fundador da AMI se candidatou à Presidência da República em 2011. Derrotado por Cavaco Silva, e porque o PSD lhe acenou com a possibilidade de ser eleito presidente da Assembleia da República, aceitou, um mês depois de jurar nunca o fazer, ser candidato nas legislativas desse mesmo ano, mas uma derrota de contornos humilhantes impediu-o de cumprir essa ambição. Apesar de prometer exercer o cargo de deputado até ao fim da legislatura caso não fosse eleito presidente do parlamento, um mês depois renunciou ao mandato. O cidadão Fernando Nobre demonstrou, assim, que não é para levar a sério. Viu-se agora que, como médico, também não.

1 de setembro de 2021

TRAFICANTES DE LETRAS. Dada a escassa dimensão do país, o «mundo literário» português é um lugar acanhado. Toda a gente conhece toda a gente, pelo que sempre que falam mal uns dos outros em público, é só elogios. Quando um crítico (ou escritor, quase sempre as duas coisas) não aprecia um livro de um autor português contemporâneo, cai o Carmo e a Trindade. Não será por acaso que os críticos só dão três ou menos estrelas a autores estrangeiros, quase sempre falecidos, que esses não estão cá para os incomodar. Se o autor é português, raramente dão menos de quatro estrelas. (António Araújo e João Pedro George são casos à parte, e haverá mais um ou dois que não conheço.) Temos, portanto, a fiarmo-nos neste «critério», excelentes escritores portugueses no activo, que tirando dois ou três não conheço. Imagino que não será fácil mudar esta prática. Não impede, contudo, que se denuncie.

19 de agosto de 2021

UM HOMEM PERIGOSO. Setenta por cento dos brasileiros consideram que o governo de Jair Bolsonaro é corrupto. Depois de anos a fio a viver à custa do Orçamento (foi deputado federal durante quase três décadas), foi eleito Presidente do Brasil precisamente por ter prometido meter os corruptos na cadeia. Não deixaram dúvidas os votos que o puseram em Brasília: mais de 55,13% dos eleitores acreditaram que ele era o homem certo para pôr fim à roubalheira, apesar de noutras matérias nunca esconder ao que ia. Elogiou, por exemplo, a ditadura militar (devia, segundo ele, ter matado mais 30 mil brasileiros), e afirmou, entre outras barbaridades, preferir «um filho morto num acidente de viação a um filho gay» — mas nada disso o impediu de ser eleito. Agora prepara-se para fazer o que o ex-presidente Trump tentou sem sucesso: se não for reeleito no ano que vem, será porque houve fraude. Como, aliás, como tem dito e repetido, já houve fraude em 2018, que o impediu de ganhar logo à primeira volta — embora, como Trump em 2020, não tenha qualquer prova disso. Dizer que Bolsonaro é um sujeito perigoso, demasiado perigoso, é uma redundância. A dúvida é se as instituições brasileiras estão à altura do desafio.

11 de agosto de 2021

NEM, NEM. Rui Rio é uma daquelas figuras a quem assenta bem a velha e boa expressão «nem coisa, nem sai de cima». A oposição interna no partido a que preside questiona a liderança ou falta dela? Rio convoca um congresso extraordinário, e quem se propõe substituí-lo sai de lá com o rabo entre as pernas. A cena e o resultado repetem-se pouco tempo depois, mais coisa, menos coisa. É verdade que o Presidente Marcelo, sempre apressado a dizer o que pensa sobre tudo o que o Governo faz ou não faz, condiciona, e muito, o líder da sua família política, pelo não é fácil, mesmo para um líder mais expedito, seguir outro caminho caso assim o deseje. Como outros num passado não muito distante, o líder do maior partido da oposição espera que o poder caia de maduro, pelo que a inércia será, para ele, a melhor estratégia. O problema é que o poder não cai de maduro por si só. É preciso que a alternativa o faça cair, e Rio não serve para isso. Não surpreenderá, portanto, vermos o PSD mendigar um ou dois ministérios ao partido de Ventura para viabilizar uma alternativa ao Governo Costa. Verdade que os sociais-democratas antes de Rio não eram carne, nem peixe. Em boa verdade, talvez nunca tenham sido nem uma coisa, nem outra. Mas com Rio tornaram-se uma espécie de coisa nenhuma.

28 de julho de 2021

MENTIRAS COM PERNA CURTA. Perdi a paciência para quem não deixa escapar uma oportunidade para dizer mal da imprensa dita mainstream (ou dominante), e depois fundamenta a crítica exibindo «cartazes» onde se diz cobras e lagartos de quem não se gosta, geralmente falsidades, que remetem para sites de escassa credibilidade para validar a origem da «informação» — ou simplesmente omitem a origem da «informação». Onde se informará esta gente que diz não acreditar na imprensa dominante? Como está bom de ver, o mistério tem o rabo de fora. Conheço quem não acredita na imprensa em geral mas sempre que recebe um mail anónimo onde é dito o que quer ouvir vai logo apregoar aos sete ventos o que ele diz já saber, mas agora, graças ao tal mail, tem a prova provada que a imprensa mente. Outros, talvez a maioria, dizem não se lembrar quando interrogados acerca da origem da informação. E outros «argumentos» do género, sempre toscos, sempre esfarrapados. Temos, assim, segundo estes sujeitos, que a imprensa mainstream, que tem que defender os pergaminhos pelo que diz, não é credível, mas já são credíveis mails de proveniência duvidosa com matérias quase sempre falsas ou muito difíceis de comprovar. Moral da história? Com todos os defeitos, a imprensa mainstream, e na imprensa mainstream incluo todas as plataformas informativas de referência, é a única em que podemos confiar. O resto são teorias tão mal-amanhadas que nem esse nome merecem.

14 de julho de 2021

A COR DO PODER. Há um número considerável de americanos brancos convencidos de que o poder lhes pertence por serem brancos, embora muito poucos o assumam. Tirando numa roda de amigos, onde estão à vontade para dizer as maiores barbaridades, não defendem o princípio diante mais ninguém. Porque eles sabem que não há argumentos que fundamentem o que têm como direito adquirido (os brancos são superiores às outras raças, nomeadamente aos negros), e não, como possa pensar-se, por receio da incorreção política. A eleição de Barack Obama, primeiro negro na Casa Branca, impulsionou esta gente, e não foi por acaso que os supremacistas brancos saíram do armário com a eleição de Trump, que os defendeu por acção e omissão. Afinal, os activistas pela supremacia branca são o lado visível do que dantes era quase invisível, e com Trump passaram a contar com os que dantes permaneciam no armário. Tucker Carlson, entertainer da Fox News, supremacista branco nunca assumido, exaltou a atitude de um adolescente que, na sequência dos distúrbios que se seguiram à morte de um negro às mãos de um polícia branco (já condenado a 22 anos de cadeia), veio para a rua armado de metralhadora e matou duas pessoas. Segundo Carlson, o miúdo fez o que a polícia deveria ter feito, e por isso não hesitou em chamar-lhe «patriota». Tirando a indignação de uns poucos, a afirmação do sujeito não chegou a escandalizar, e dois dias depois já não se falava do assunto. Os americanos brancos de que falo julgam que o poder lhes pertence, pelo que estão dispostos a apoiar quem se disponha a lutar, mesmo com armas de fogo, por esse «direito». Com a saída de Trump da Casa Branca, terá passado o pior. Continuam, no entanto, à espera de oportunidade para ir mais longe do que já foram. Convém, portanto, estar atento, e o mal que causaram nos últimos anos deve servir de aviso. Permanecer indiferente ao supremacismo branco nos dias que correm é demasiado arriscado. Ou então é sinónimo de cumplicidade.

1 de julho de 2021


MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (6).
De longe em longe, almoço um hambúrguer num comedouro onde o ícone americano faz as honras da casa, e saio de lá a jurar que jamais voltarei. Não que o hambúrguer seja mau. O problema é o serviço, sempre pior que o anterior, e o anterior já foi mau que chegasse. Calha-me sempre um empregado que não tem ideia do que está a fazer, como se fosse o seu primeiro dia de trabalho — e às vezes é, porque o estaminé está sempre a mudar de gerência, sempre pior que a anterior. Um dia destes reincidi e bateram todos os recordes. A única criatura visível lá dentro quando me sentei ao balcão era o empregado sentado numa das mesas a limpar os talheres. Levantou-se mal me viu, e a primeira coisa que fez foi ligar a música. E que música! Louvar o Senhor a cada dois versos e aleluias a cada três — tudo isto em «brasileiro» e num volume medonho. Encomendei o hambúrguer, e quando escolhi a cerveja a copo nenhuma das torneiras deitava. «Hoje estamos mesmo sem nada», desculpou-se o empregado. De facto, notava-se bastante, e só me faltava que não houvesse cerveja em garrafa. Havia. Não a que eu queria, mas nesta altura qualquer uma servia. Imaginei que iriam fechar a baiuca no dia seguinte, e amaldiçoei a hora em que mudei de planos para o almoço. Degustei o hambúrguer desconfiado, confeccionado por alguém que não cheguei a ver e me surpreendeu pela rapidez com que o fez. Saí de lá com o cérebro em ebulição e a barriga às voltas, na iminência de uma diarreia ou pior, tanto mais que não entrou nem mais um cliente enquanto lá estive. Jurei, pela terceira vez, que jamais lá porei os pés.

19 de junho de 2021

RONALDO METEU ÁGUA. Parece-me consensual que Cristiano Ronaldo é um dos dois ou três melhores futebolistas da actualidade, se não o melhor. Qualquer apreciador de futebol lhe reconhece, como desportista e profissional, um desempenho excepcional, só ao alcance de quem é, de facto, excepcional. Pessoalmente, devo-lhe alguns momentos felizes, não só ao serviço da selecção, pelos quais agradeço. Já o desempenho como cidadão é questionável, e como figura pública, nem sempre se comporta como modelo a seguir — como muitos exigem e eu, por motivos que não cabem aqui, sempre discordei. Dito isto, o episódio da Coca-Cola, em que Ronaldo surge numa conferência de imprensa a recomendar que se beba água em vez de refrigerante, teve graça, soou bem e foi muito elogiado, mas não me comoveu. Entre outras empresas, Ronaldo é patrocinado pela Nike, várias vezes acusada, sempre com razão, de utilizar mão-de-obra escrava e infantil. Não me consta que o jogador alguma vez se tenha mostrado desagradado com tais práticas, muito menos que tenha boicotado os produtos da Nike — da qual, segundo a Der Spiegel, receberá 162 milhões de euros até 2026. Acresce que Ronaldo conhece bem as regras do universo em que se move, e não me consta que no Europeu tenham mudado. Participar num evento como o Europeu significa, à partida, aceitar as regras, pelo que se percebe mal o gesto de Ronaldo, na minha opinião irreflectido. Até porque é injusto criticar, de um modo geral, os patrocinadores, que estão lá porque foram convidados a contribuir com milhões. Não que o tenham feito por filantropismo, como é óbvio, mas porque os patrocinadores acharam um bom negócio — como achou um bom negócio quem os convidou.

14 de junho de 2021

AS MENTIRAS DE GOMES FERREIRA. José Gomes Ferreira (JGF) publicou um livro sobre História de Portugal unanimemente considerado intragável. Lidas meia dúzia de críticas e ouvido um podcast (Falando de História, para o qual chamo particular atenção), percebe-se porquê. Factos Escondidos da História de Portugal é uma mentira total. JGF (não confundir com o escritor José Gomes Ferreira, falecido em 1985) partiu para a «investigação» com ideias pré-concebidas, pelo que investigou o que se ajustava às suas ideias pondo de parte tudo o que o desviasse desse propósito — procedimento, como está bom de ver, inaceitável em qualquer investigação digna desse nome. Depois desafiou os historiadores portugueses (que acusou de estarem a mando de «agentes do Estado nomeados pelos governos» sem nunca o demonstrar) a ter a coragem de mudar o que assegurou, já se viu como, estar errado. JGF promete um segundo volume, resultante de uma «investigação» que lhe levou dois anos e meio a concluir.  Convém lembrar que Gomes Ferreira é jornalista, ao que dizem prestigiado na área da economia, segundo as más-línguas uma ciência que tem o seu quê de astrologia — e que o caso em apreço parece confirmar. Mas há mais: JGF é director-adjunto de informação da SIC, pelo que as mentiras dadas à estampa, comprovadas por quantos falaram do livro, levanta uma questão presumo que embaraçosa: o que acharão deste episódio os jornalistas da casa?

4 de junho de 2021

DESTRUIR A DEMOCRACIA. O ex-presidente Trump e grande parte do Partido Republicano (PR) prosseguem a cruzada para destruir a democracia. Sim, a democracia, embora também o Partido Democrático. Não são os adversários políticos que o dizem. São destacadas figuras do próprio PR, que arriscam as suas carreiras só por dizer o elementar. A arma é a mesma de sempre: desmentir os factos comprovados todos os dias, nos casos piores repetir até à exaustão a grande mentira (a eleição de Trump foi roubada apesar de nenhuma prova e dezenas em contrário). Embora sejam a minoria do PR (mas a minoria que manda), as sondagens demonstram que há quem se dê bem com isso. Temos, assim, o que resta do PR que se conhecia resumido a meia dúzia de voluntaristas, que se recusam a engolir as patranhas do chefe e, a seu tempo, arriscam o destino da ex-número três, afastada do cargo por não alinhar na doutrina segundo a qual Trump perdeu as eleições porque foi roubado. O que resta do partido de Lincoln é um bando de cobardes, que de momento alinha com quem manda e amanhã alinhará com quem lhe suceder. Resta dizer que o outrora Grand Old Party faz falta à democracia americana.

24 de maio de 2021



MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (5). Alterno As Rotas da Seda com A Sombra da Rota da Seda, dos britânicos Peter Frankopan e Colin Thubron. Se não me atrevo a julgar o primeiro (funciona essencialmente como suporte histórico), do segundo não tenho dúvidas em dizer, mesmo tendo lido pouco mais de metade, que é um dos melhores livros de viagens que já li. Graças a Thubron, que n’A Sombra relata a viagem que fez pela China, Afeganistão, Irão, Turquia e antiga União Soviética, viajo num tempo e lugares de que pouco ou nada sabia, e de que tenho pena não ter conhecido como viajante. São poucos os escritores de viagens que captam o essencial, e ainda menos com a mestria de Thubron.

20 de maio de 2021

TRISTES FIGURAS. A número três do actual Partido Republicano, Elise Stefanik, eleita depois de afastada a antecessora (recusou calar-se diante as mentiras de Trump), falou aos jornalistas pela primeira vez nessa condição referindo-se ao ex-presidente como Presidente Trump e ao actual Presidente apenas pelo nome (Joe Biden). Isto dito e repetido para que não restassem dúvidas, e a surpresa foi que ninguém a tenha confrontado com isso. A congressista Marjorie Taylor Greene, grande entusiasta das teorias da conspiração e defensora da execução de adversários políticos, entre eles o ex-presidente Obama, comporta-se de modo inadmissível diante os adversários políticos, no caso Alexandria Ocasio-Cortez, e a direcção do partido a que pertence fez de conta que desconhecia o episódio grotesco um dia depois de toda a gente o ter visto nas televisões — talvez por não saber o que dizer, e por ter escassa autoridade moral para o fazer. São duas emergentes do novo partido Republicano, onde outrora figuras estimáveis se prestam hoje a papéis lamentáveis. Assim vai o partido de Trump, dantes conhecido como Partido Republicano.

18 de maio de 2021


Marcel Duchamp | Fonte

MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (4).
Visitei um museu onde a Fonte, de Marcel Duchamp, era a atracção principal, e no final dei-me conta de que vi tudo menos o famoso urinol. Consultei o mapa do museu e lá estava assinalado numa determinada área, provavelmente a única que me passou despercebida. Como já perceberam, não foi o urinol que me levou ao museu, no caso ao Museu de Arte de Filadélfia. Sabia de antemão que o objecto causou, desde o início, enorme celeuma, que ainda hoje, um século depois, perdura. Mas a arte dita conceptual, de que Duchamp foi um dos precursores, nunca me entusiasmou, e talvez daí o esquecimento involuntário. A arte conceptual é essencialmente uma ideia, e eu tenho dificuldade em tomar como arte uma ideia. Depois, a arte conceptual está, como alguma arte moderna, na fronteira entre o génio e o bluff — e eu, na dúvida, inclino-me para o bluff.

7 de maio de 2021


Almada Negreiros | Retrato de Fernando Pessoa

MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (3).
A psicologia, primeiro, e a filosofia, depois, levaram-me à literatura, sobretudo a Fernando Pessoa, com quem adquiri o hábito da leitura. Seguiram-se, nos portugueses, quase todo o Eça (a quem roubei o título desta série), quase todo o Cardoso Pires, e mais tarde Camilo e Herberto Helder, de quem li Os Passos em Volta pelo menos três vezes. Na literatura não portuguesa, muitos outros, de que menciono onze títulos que foram marcantes: A Montanha Mágica (Thomas Mann), Crime e Castigo (Fiodor Dostoievski), Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez), Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry), Obra ao Negro (Marguerite Yourcenar), Meridiano de Sangue (Cormac McCarthy), A Educação Sentimental (Gustave Flaubert), Ficções (Jorge Luis Borges), Pedro Páramo (Juan Rulfo), O Céu que nos Protege (Paul Bowles), e O Homem Sem Qualidades (Robert Musil). Outros houve de que já não me lembro, e alguns há que, lidos hoje, talvez não entrassem na lista. Mas como não pretendo vender nada a ninguém, cada um que chegue à sua lista — e, já agora, que a compartilhe, que eu gosto de listas. Dir-me-ão que estou a armar-me em não sei quê, mas há muito que digo o que me apetece sem receio de asneirar — e, se for caso disso, assumir as consequências.

29 de abril de 2021


Keith Jarrett

MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (2).
 Na minha adolescência, a música servia para dançar ou não servia — logo era boa ou má consoante cumprisse, ou não, essa função. Julio Iglesias é o primeiro músico de que me lembro. Depois veio o rock, que naquela altura não tinha as sub-designações que hoje tem, de que me fui afastando depois de conhecer praticamente tudo dos Dire Straits e Pink Floyd, e algum rock-jazz. Comecei a ouvir música clássica pouco depois graças a um programa de rádio, o Em Órbita, que na altura passava o que designavam por música antiga, quase sempre do período barroco, ao mesmo tempo que ouvia o primeiro jazz a sério, sobretudo Keith Jarrett, de quem viria, anos depois, a assistir a concertos memoráveis, a solo e em trio. Vieram outros depois, Miles Davis e assim, e contemporâneos de várias origens. E Beethoven, na música clássica, talvez o compositor que mais aprecio, a par de Mahler, de quem um dia vi o registo da Sinfonia Nº 5 pela Lucerne Festival Orchestra dirigida por Claudio Abbado e me ficou para sempre.

23 de abril de 2021


Henri Matisse | Still Life with Asphodels

MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (1). Cheguei à pintura graças aos surrealistas, sobretudo a Dalí, suspeito que a entrada de muitos na pintura. Seguiram-se Rothko, Van Gogh, Picasso, Chagall, Bruegel e Matisse, mais ou menos por esta ordem. Hoje vejo a pintura em geral com o interesse que dantes não tinha. Da pintura antiga à Renascença, do naif ao pós-não-sei-quê. Matisse, cuja obra só nos últimos anos conheci melhor, é o mais recente assombro. Digo bem, assombro, o que melhor descreve o que sinto por Matisse.

12 de abril de 2021

O QUE SE PÔDE ARRANJAR. Face ao que foi dito ao longo dos últimos sete anos, as acusações a José Sócrates na chamada Operação Marquês revelaram-se um fiasco monumental. A ser verdade o que disse o juiz Ivo Rosa, a acusação foi de uma incompetência difícil de explicar. Recordo pelos jornais o que disse o juiz Rosa sobre os fundamentos de grande parte das acusações: «Só especulação e fantasia»; A acusação tem «pouco rigor e consistência»; «Total falta de prova»; A acusação «é pura especulação»; «A acusação não prima pelo rigor necessário»; «Apenas com recurso à criatividade e à especulação será possível sustentar uma conclusão dessa natureza». E por aí fora. Dos 31 crimes de que Sócrates era acusado pelo Ministério Público, o juiz pronunciou-o, apenas, por seis: três por branqueamento de capitais e outros tantos por falsificação de documentos. Os mais graves, de corrupção, caíram, segundo o juiz, por erros grosseiros nas acusações, e outros por terem prescrito. Dito isto, não acho que Sócrates esteja inocente, mesmo do que não foi pronunciado. Também não acredito que o juiz manipulou (deturpou, enviesou, como queiram) as provas que a acusação lhe pôs nas mãos, como já vi quem dissesse. Por mais voltas que desse, parece-me que o juiz não poderia ter feito outra coisa. Teve, além disso, a coragem de o dizer cara a cara aos portugueses. Que mais podia ter feito? Permitiam os dados de que dispunha concluir outra coisa? Não sei. O que ficou claro é que a justiça portuguesa é de grande competência a produzir julgamentos mediáticos e de grande incompetência a produzir prova nos tribunais.

6 de abril de 2021

MASSACRES NA AMÉRICA. Qualquer pessoa com senso comum percebe à vista desarmada que os massacres que têm assolado os EUA nos últimos meses se devem, antes de mais, às leis que permitem a venda e posse de armas pesadas, e depois ao clima de ódio que o ex-presidente Trump foi instalando no país nos últimos anos. Os defensores da venda e porte de armas agarram-se à Segunda Emenda da Constituição, mas a Segunda Emenda não especifica que tipo de armas se pode usar — logo pode comprar-se ou vender-se quase tudo, incluindo metralhadoras. Depois há os lobbies, à cabeça de todos a National Rifle Association, que investe fortunas nos políticos de vários quadrantes, sobretudo conservadores, tornando-os reféns dos seus interesses. Há outros motivos para os massacres quase diários, mas estes explicam quase tudo. Basta olhar para a generalidade dos países «civilizados», onde existem leis que restringem fortemente a venda e posse de armas, para constatar que há uma relação de causa-efeito. E não me venham com o argumento de que se podem comprar armas mesmo sendo o comércio ilegal. Um cidadão comum (os massacres americanos têm sido cometidos por cidadãos comuns) não teria facilmente acesso a armas pesadas caso elas fossem proibidas — de vender, de comprar, de usar. É o que diz o senso comum.

17 de março de 2021

PARA QUE CONSTE. Quarenta por cento das mortes por covid-19 nos Estados Unidos teriam sido evitadas se o então presidente Trump tivesse encarado o problema como devia. Comparados os números dos EUA com os restantes países do G7 (grupo que integra as sete maiores economias do mundo do qual os EUA faz parte), 180 mil vidas poderiam ter sido poupadas se Trump tivesse feito o que lhe competia. Em vez disso, preferiu atacar a comunidade científica, minimizar a gravidade da doença, espalhar teorias conspiratórias, promover medicamentos sem eficácia comprovada, e desvalorizar medidas como o uso de máscaras e distanciamento social. É o que diz, preto no branco, o estudo assinado por mais de três dezenas de investigadores provenientes dos EUA, Reino Unido e Canadá publicado na revista Lancet. Trump foi responsável directo e indirecto por milhares de mortes, e não foi por desconhecimento. Trump conhecia a gravidade do problema, e chegou a dizê-lo em privado. Daí que, à cautela (e pela calada), se vacinou logo que pôde. Instado pelas actuais autoridades sanitárias a recomendar a vacina aos seus apoiantes (mais de metade está renitente em tomá-la), Trump respondeu dando uma no cravo, outra na ferradura. Sim, a vacina é óptima, mas a liberdade de não a tomar também é óptima. Recomendar agora a vacina sem qualquer hesitação seria admitir erros passados, e não está no ADN de Trump admitir erros passados. Nem que isso poupe a vida dos seus.

22 de fevereiro de 2021

SALVADORES DA PÁTRIA. André Ventura é uma espécie de Trump dos pequeninos. Veio agitar o que estava calmo, despertar o que estava adormecido, criar problemas que não existiam (ou estavam adormecidos, controlados, resolvidos). Como o ex-presidente americano, Ventura está-se nas tintas para os problemas que dizem incomodá-lo, e ainda mais para quem os tem realmente. Encontrou nessa gente o seu nicho de mercado, e como bom oportunista que é, vai usá-los até onde lhe for útil. Exactamente como Trump usou, e que por esse motivo chegou ao poder e por pouco não ficou lá para sempre. O ex-presidente americano devia, aliás, servir de aviso a quem toma estes sujeitos como salvadores da pátria. Porque eles não só não salvam a pátria como ainda a afundam mais. Os americanos pagam caro o legado de Trump — a desvalorização criminosa do vírus da covid, a promoção constante do ódio ao outro, a tentativa de destruir o jornalismo que não agrada, a mentira institucional a níveis impensáveis. Isto para não falar do golpe destinado a anular a eleição que perdeu de modo inequívoco, que os salvadores da pátria são capazes de tudo para se perpetuarem no poder. Em nome dos altos desígnios da pátria, como se calcula.

8 de fevereiro de 2021

JULGAMENTOS POLÍTICOS. Donald Trump teria sido condenado no processo de destituição do ano passado caso o julgamento no Senado tivesse sido de natureza exclusivamente criminal. Trump seria condenado caso o julgamento em curso, igualmente no Senado, fosse de natureza exclusivamente criminal. A não ser que algo aconteça que não está no guião, Trump será, de novo, ilibado. Porque os factos têm, nos julgamentos políticos, pouca, ou nenhuma, importância, como já se viu no julgamento do ano passado e se verá no que hoje começa. Isto depois de no actual julgamento haver provas ainda mais consistentes — e de maior gravidade. Qualquer um que conheça as acusações e os factos em que assentam, não terá dúvidas que sobram razões para o ex-presidente ser condenado. Mas como o julgamento é político, Trump ficará, de novo, impune. Haverá uma lei qualquer que explique esta aberração. Mas suspeito que nem com uma boa dose de boa vontade se compreenderá. O segundo julgamento de Trump servirá, apenas, para enlamear ainda mais a política, e colocar a justiça ao mesmo nível.

22 de janeiro de 2021

QANON. Parece que a grande mentira está com problemas de credibilidade. Falhou, ao que se diz, o essencial, e o essencial era desencadear a «Grande Tempestade» — impedir que Biden tomasse posse como Presidente dos EUA, e que Trump se mantivesse no poder. Há devotos que se sentem defraudados e questionam a sua fé. Crentes perdidos como se fossem órfãos. E gente, muita gente, disposta a engrossar as fileiras do supremacismo branco. Porque já não haverá prisões em massa, execuções sumárias de alegados traficantes de crianças, pedófilos, praticantes de canibalismo e seguidores de Satanás, entre os quais se incluem, segundo a grande mentira, figuras proeminentes do Partido Democrático como Hillary Clinton e Barack Obama, o milionário George Soros, celebridades de Hollywood, o Papa Francisco e o Dalai Lama — o que, a ter acontecido, seria um golpe de estado, obviamente comandado pelo criminoso que ainda há pouco morava na Casa Branca. Como todas as teorias conspiratórias, também esta não passa disso. Mas como há quem as leve demasiado a sério, quando elas não se materializam pode ser uma tragédia. Foi mais ou menos o que sucedeu. Para os devotos mais fervorosos, o falhanço da QAnon foi como se lhes tivesse morrido um parente chegado, nalguns casos ainda mais trágico. Pode ser que ganhem, com isso, algum juízo. Recomendar-lhes-ia, se me pedissem um conselho, um bom livro sobre o tema, que na tradução portuguesa se chama Uma Conspiração de Estúpidos.

6 de janeiro de 2021

ASSALTO À DEMOCRACIA. Depois do assalto ao Capitólio, onde decorria o que em circunstâncias normais seria uma mera formalidade, sobram perguntas. Como conseguiram os desordeiros entrar tão facilmente no coração da democracia americana? Não deveriam as polícias estar preparadas para um cenário destes, e, por isso, evitá-lo? Não morro de amores por teorias conspirativas, mas a passividade das polícias é muito suspeita. Lamento dizê-lo, mas se os desordeiros fossem afro-americanos, teríamos visto uma reacção policial musculada. Quando ao resto, confirmou-se o que um demente desesperado é capaz de fazer. Pôr o rebanho, e no rebanho incluo cento e tal congressistas, a fazer o que fez, e mais fará se e quando quiser. Aproveito, já agora, para dizer que tinha escasso respeito pelos trumpistas. Mas hoje, depois de ver o que vi, o respeito é nenhum.

4 de janeiro de 2021

O PESADELO NÃO ACABOU. Se nada mudar até lá, uma dúzia de senadores e mais de uma centena de congressistas, todos do Partido Republicado, vão quarta-feira tentar roubar a eleição de Joe Biden. Porque Trump foi vítima de fraude eleitoral, dizem eles, e porque o sujeito, apesar de derrotado, vale 74 milhões de votos. Contam, para isso, com apoiantes de Trump na rua, e alguns deles até já apelaram à violência. É a mais recente tentativa de incendiar o país e com isso destruir a democracia, desta vez com base em «alegações» e, segundo o Presidente, «rumores». Reparem: não com provas ou evidências, que dezenas de tribunais demonstraram não existir, mas com base em «alegações» e «rumores». Escrevi que é a mais recente tentativa de incendiar o país mas já houve outra, ainda mais grave: o Presidente exigiu ao responsável pela certificação dos votos presidenciais no estado da Geórgia que inventasse — ou destruísse — milhares de votos, de modo a transformar a derrota em vitória — provavelmente o crime mais grave que o Presidente cometeu até hoje. Sabia que Trump iria fazer tudo o que estiver ao seu alcance até ao seu último dia na Casa Branca (20 de Janeiro), incluindo o pior que se possa imaginar. Mas pensei que, depois da derrota em todas as frentes (nas urnas e nos tribunais), tínhamos, enfim, regressado à normalidade. Enganei-me. Nunca imaginei que a democracia americana lutasse neste momento pela sobrevivência. Como não bastasse o sujeito, que trava uma guerra de vida ou de morte unicamente para salvar a pele, cento e tal políticos eleitos preparam-se para dizer ao país que são tão maus ou piores do que ele.

23 de dezembro de 2020

TÃO BOM COMO LE CARRÉ. O episódio contado por Alexey Navalny, líder da oposição russa que há muito denuncia a corrupção na administração Putin, e que por esse motivo as secretas locais o terão tentado matar, obviamente a mando de Putin, valia o melhor Le Carré, de quem li sete romances e um livro de memórias (O Túnel de Pombos). David John Moore Cornwell, que adoptou o pseudónimo literário Le Carré quando ainda era agente dos serviços secretos britânicos, faleceu a semana passada, aos 89 anos, vítima de pneumonia; já Navalny, 44 anos, escapou, por milagre, em Agosto passado, a uma dezena de assassinos que o seguia há três anos e continua a recuperar algures na Alemanha do envenenamento de que foi vítima. Se o primeiro já estava no panteão da literatura, o segundo passou a destacar-se na já longa lista de vítimas do ditador russo — não por morrer, mas pela proeza de pôr os seus assassinos a revelar o plano, falhado, de o matar. O que Le Carré não faria com um episódio destes.