14 de junho de 2025

MOEDAS ANDA A VER COISAS. Carlos Moedas disse estar preocupado com a violência dos movimentos extremistas de direita e de esquerda. Porque ambos são violentos, na sua opinião, formada não se sabe com que evidências. Também sou contra extremismos, de direita e de esquerda, sobretudo quando recorrem à violência. Mas não conheço, em Portugal, um só movimento de extrema-esquerda que recorra à violência para impor a sua agenda. Já na extrema-direita, conheço pelo menos seis — 1143, Ergue-te, Reconquista, Habeas Corpus, Portugal Hammerskins e Blood & Honour. Verdade que a extrema-esquerda às vezes apoia movimentos violentos com os quais se identifica ideologicamente. Mas não me consta que tenham ido além disso. O presidente da Câmara de Lisboa devia, por isso, ser mais rigoroso, ou informar-se melhor. A verdade é incomparavelmente mais importante que as simpatias políticas de cada um. Sobretudo nos tempos que correm, em que a mentira se disfarça de verdade a um ritmo assustador, corroendo os alicerces do regime que alguns sonham trocar por outro pior.

13 de junho de 2025

ASNEIRAS. O discurso de Lídia Jorge nas comemorações do Dia de Portugal deu que falar nalguns meios. Por razões que não vêm ao caso, mas todas pouco lisonjeiras. Não ouvi o discurso nem vejo motivo para ouvir. Mas anotei o que disse o historiador João Pedro Marques: o discurso estava cheio de erros factuais, no caso de natureza histórica. Como não vi quem o desmentisse, concluo que está certo. E assim sendo há que dizer que a falta de rigor num discurso solene é inadmissível, ainda por cima sendo a senhora conselheira de Estado. Não sendo historiadora, como presumo que não é, não lhe seria difícil informar-se junto de quem sabe.

1 de dezembro de 2024

DA POUCA-VERGONHA. Depois de encarcerado durante quase um ano, porque então haveria não sei que perigos de o deixar em liberdade, 10 anos depois a mesma justiça que o prendeu e acusa de 22 crimes ainda não conseguiu julgá-lo. Porque José Sócrates tem feito manobras dilatórias no sentido de adiar o julgamento e respectiva sentença, diz-se agora, e com isso escapar à condenação. Será. Mas se há — ou houve — manobras com essa finalidade, a culpa é de quem? Do acusado e potencial condenado, de quem se espera que use todos os meios ao seu alcance para não ser condenado? Ou da justiça, que não fez — ou fez mal — o seu trabalho? Leio que um tribunal considerou doloso o expediente que levou a sucessivos adiamentos. Assim sendo, está a justiça à espera de quê para agir? Devo dizer que não arrisco uma unha pelo ex-primeiro-ministro. Mas pela justiça ainda menos.

20 de novembro de 2024

O HORROR. Pelo menos três futuros ministros de Trump estão sob fogo cerrado, e não só da oposição. Um foi indicado para a Defesa sem ter qualquer experiência na área e é suspeito de ter comprado o silêncio de uma mulher que o acusa de agressão sexual; outro foi indicado para a Saúde sabendo-se de antemão que não acredita na ciência mais básica e se guia por teorias da conspiração; o último foi nomeado para a Justiça, a quem tem contas a prestar e promete usar para perseguir — e eventualmente punir — adversários políticos. E ainda o horror não começou.

18 de novembro de 2024

DOIS PESOS. A imprensa de esquerda de um modo geral e americana em particular está sob ataque da direita, radical e moderada. Porque vendeu como boa uma realidade que não existia, em parte verdadeiro. Acontece que a imprensa de direita, sobretudo de extrema direita, mente descaradamente desde o primeiro mandato de Trump, e a mais moderada divulga-lhas as mentiras sem nunca as mencionar como tal.

9 de outubro de 2024

FARTO. Das notícias cheias de gralhas, que omitem informação básica na pressa de ser o primeiro a dar a notícia. De comentadores políticos a comentar o que ainda não foi dito, nem feito, ou de que pouco ou nada se sabe. De políticos no activo comentar nas televisões e nos jornais. Das opiniões baseadas em «factos» que os factos desmentem sem que os jornalistas se dêem ao trabalho — e à obrigação — de os assinalar e corrigir. Das interrupções constantes aos entrevistados sem que haja outro motivo que não seja criar ruído. Da gritaria em que se tornaram os espaços televisivos de debates político e desportivo. Do jornalista ora na sua função, ora na função de comentador, ora nas duas ao mesmo tempo. Dos intermináveis directos sobre nada, que os políticos, por ausência de mediação jornalística, usam para dizer o que lhes convém e exploram com grande eficácia (que o diga o líder do Chega). Do jornalismo precário que se nota, e muito, no produto final. Do «jornalismo» que não se distingue do que se diz nas redes sociais que tantos jornalistas divulgam como sendo informação fiável. Do jornalismo que corre atrás do primeiro-ministro querendo saber se ele está bem disposto. Do estado a que o jornalismo chegou.

28 de setembro de 2024

PÓLVORA SECA. Desaparecida a propaganda dos Amigos de Olivença, pelo menos da minha caixa de correio, eis que o ministro da Defesa resolveu desenterrar o assunto. Começou por dizer Nuno Melo que Olivença «é portuguesa», mas no dia seguinte, diante o silêncio dos seus pares, fez uma adenda: disse-o a título pessoal, pelo «não vincula o Governo» a que pertence. Presidente e Governo recusaram comentar. Os Amigos de Olivença aproveitaram a ocasião para dizer das suas razões. A presidente da Junta da Extremadura também disse das suas: Olivença é espanhola desde 1801 e «vai continuar a ser». O constitucionalista Jorge Miranda pronunciou-se para acalmar os mais assanhados. O professor Renato Epifânio chamou a atenção para o facto de não haver, em Olivença, qualquer «movimento político-social relevante de reintegração em Portugal». Ao que parece, o episódio morrerá por aqui. Tirando meia dúzia de gatos-pingados, ninguém quer saber de Olivença, muito menos meter-se em sarilhos. A questão permanece, portanto, em banho maria, pelo que portugueses e espanhóis que lá vivem continuarão a viver como habitualmente. Antes assim.

16 de agosto de 2024

O REI VAI NU. Surpreende ver académicos conservadores sugerirem que Donald Trump deve usar as diferenças políticas para combater a sua adversária em vez de se limitar a insultá-la, uma estratégia, segundo eles, que não lhe trará um só voto. Surpreende porque eles sabem que não há diferenças políticas entre os dois. O que há é uma candidata (Kamala Harris) com um projecto político e um Trump com um projecto pessoal, agora ainda mais obcecado com a sua própria pessoa porque, com a justiça à perna em múltiplos casos, pode acabar na cadeia caso não vença. O projecto de Trump foi, desde sempre, o poder pessoal a qualquer preço, agora muito agravado com a urgência de salvar a pele. A ideia de que ele é conservador é pura fantasia. Apresenta-se como conservador mas poderia apresentar-se como liberal, posiciona-se contra o aborto mas poderia defendê-lo. O que verdadeiramente o define é a sua admiração por ditadores, como Putin e Kim Jong-un, porque inveja o poder que eles têm. Isso mesmo, o poder. Como bem sabem, aliás, os académicos de que falo, que mesmo assim se prestam aos mais toscos malabarismos para esconder que o rei vai nu.

28 de julho de 2024

TRUMP PORQUE SIM. A direita pensante defende que Trump representa o falhanço da esquerda, um argumento, em parte, verdadeiro. Como Trump é um ser desprezível, mesmo para quem o apoia, espera que o argumento baste, por si só, para o defender, desobrigando-a de melhores argumentos. Como é óbvio, os erros da esquerda, mesmo os verdadeiros, não tornam Trump melhor, e corrigir os falhanços da esquerda com a direita de Trump será um falhanço maior. Não se vê quem, na direita pensante, defenda Trump pelas qualidades que terá (por aquilo que fez e não fez, por aquilo que é e não é), e como as qualidades que terá possam corrigir o falhanço da esquerda, aliás muitíssimo exagerado. Quero acreditar, ainda assim, que a direita terá motivos maiores. Mas quais? Como ainda não vi quem os mostrasse, só posso concluir que não abundam. Dizem alguns que Trump teve méritos enquanto presidente, mas não dizem quais. Além de confrangedor, tamanha escassez de argumentos talvez signifique que não os tenham. O ponto dos ditos pensantes é penalizar a esquerda a qualquer preço, e isso lhes basta. Mas não basta criticar os erros da esquerda. Há que demonstrar as virtudes da direita de um modo geral e as de Trump em particular. E as «virtudes» da direita americana devem-se, nos últimos anos, a uma personalidade chamada Trump, que levou o Partido Republicano para um terreno impensável ainda há pouco, deixando-o refém da sua exclusiva vontade, os seus membros com vergonha na cara a abandonar o partido, e os restantes a curvar a espinha enquanto sussurram pelos cantos o que Maomé não diria do toucinho. É isto o que a direita pretende?

26 de junho de 2024

JUSTIÇA. Funciona tão mal a justiça que se torna difícil tomar como sério o que faz e o que não faz. O timing escolhido para as buscas ao Ministério da Saúde, até há pouco chefiado pela agora deputada europeia Marta Temido, poder-se-á, em termos operacionais, justificar, mas quem acredita que o timing escolhido foi mera coincidência e não uma tentativa de penalizar a então candidata ao Parlamento Europeu? Quem manda na justiça continua a fazer tudo, mas tudo, para estar nas bocas do mundo, sempre pelos piores motivos, e não faz nada, mesmo nada, para mudar o que está mal. Os que lá mandam continuam a agir como se não tivessem contas a prestar aos cidadãos, apesar dos insistentes pedidos de explicações vindos de todos os lados. O «caso» da ex-ministra da Saúde é só mais um que não pode ser ignorado. Como não podem ser ignoradas as escutas em segredo de justiça divulgadas pela CNN, ainda por cima sem qualquer relevância para a investigação de que estará a ser alvo, obviamente destinadas a fragilizar a candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu depois de já o terem obrigado a demitir-se de primeiro-ministro alegando uma suspeição que ainda hoje, meio ano depois, ninguém sabe de quê. Para cúmulo, julgam os mandantes que não têm de dar explicações. Limitam-se a abrir uma investigação para «apurar a origem das fugas» sabendo de antemão que, como os casos passados o demonstram, a investigação vai dar em nada. Pelo que se passou até hoje, não tenho a menor dúvida de que a PGR está apostada em destruir, pelo menos politicamente, o ex-primeiro-ministro António Costa. Se já sabíamos que a justiça funciona mal, demonstrou agora que não hesita em intrometer-se no que não deve. Pior seria difícil.

18 de março de 2024

CHEGA. Todos os partidos políticos com assento parlamentar parecem apostados em afastar o Chega do próximo Governo. A coisa soa bem à primeira vista, mas à segunda, e apesar das aparentes boas intenções, nem tanto. Afastar o Chega do poder terá, mais cedo do que tarde, consequências nefastas para o já debilitado regime democrático. Fazendo-se de vítima, o partido de Ventura não deixará de capitalizar com a marginalização, exigindo em próximas eleições, provavelmente mais cedo do que seria desejável, os votos necessários para que não dependa de terceiros para ser governo. Não tenho varinha mágica para adivinhar o que o futuro dirá. Parece-me, contudo, que seria bom comprometê-lo de algum modo com o próximo governo, secando-lhe assim a veia do protesto — até ver a única coisa que o move e lhe valeu quatro vezes mais deputados no parlamento. Luís Montenegro partiu para a campanha eleitoral jurando que jamais faria uma coligação com o Chega. Na minha opinião, um erro monumental. Se agora lhe fica bem manter o que prometeu, parece-me caro o preço que terá de pagar. O PSD, mas, sobretudo, o país.

14 de fevereiro de 2024

SINDICATOS DA DESORDEM. Por razões que me parecem óbvias, sempre olhei com desconfiança a existência de sindicatos nas polícias. Foi, por isso, sem surpresa que assisti à postura que os sindicatos têm vindo a adoptar nas últimas semanas. Em troca do que dizem ser os interesses legítimos da classe, de que não tenho motivos para duvidar, o Sindicato Nacional da Polícia, um dos 19 que representa as polícias, não só recusou cumprir os deveres que lhes estão atribuídos como ainda ameaçou boicotar as legislativas de 10 de Março caso não veja atendidos os seus desejos. Não será necessário ser visionário para intuir que mais dia, menos dia viesse a concretizar-se um cenário destes. Afinal, os sindicatos das polícias funcionam com a mesma dinâmica dos demais, e a dinâmica dos demais aplicada à PSP ou a outras forças de segurança põe em causa a segurança nacional e o Estado de Direito. É preciso ver que as polícias têm deveres que outros não têm, o primeiro de todos cumprir as missões que o Estado lhes confiou e juraram cumprir. Descumprindo esses deveres, até ver impunemente, quem quer saber das reivindicações das polícias?

17 de janeiro de 2024

O CANTO DO CISNE. Ouvidas as teorias que correm acerca do que se deve ou não fazer para acudir à crise que vai na Global Media, proprietária, entre outros, do DN, JN e TSF, não vejo como se possa encontrar uma solução satisfatória de modo a salvar, pelo menos, os títulos de referência. Como outras empresas privadas, a Global Media opera dentro das regras do mercado, e o mercado costuma corrigir com eficácia os seus próprios erros — e foram demasiados os erros cometidos pelos vários patrões que passaram pelo grupo cujo colapso agora se teme. Há vários exemplos passados que o demonstram. O desaparecimento de jornais como O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, o Diário Popular, A Capital ou O Independente não pôs em perigo a democracia, motivo agora invocado para não se deixar cair a Global Media. Depois, que solução haverá que não seja o Estado, directa ou indirectamente, a pagar a conta? E quem acha que o Estado deve, neste caso, substituir-se aos privados? Tirando os trabalhadores do grupo, que aguardam que lhes dêem o que lhes pertence, não se vê quem. Por razões óbvias, que os jornalistas sabem melhor que ninguém, não há almoços grátis, e sairia caro ao país ser o Estado pagá-los. A solução, a haver, passa pelos privados, pela compra do todo ou das partes. Privados que até ver não se vislumbram, pelo que não se antevê um final feliz para quem lá trabalha. Já se vai ser uma perda para a democracia e o jornalismo se não vencer a crise, não tenho tanta certeza.

19 de novembro de 2023

OPERAÇÃO RODA LIVRE. É sabido que a Justiça é célere a acusar, morosa a provar e desastrosa a condenar. Como o jornalista Pedro Tadeu lembrou a semana passada com uma dezena de casos, os exemplos sobejam. Qual é o problema de o presidente do parlamento pedir esclarecimentos ao Ministério Público (MP) sobre a Operação Influencer? É uma pressão inaceitável? Pressão pode ser, inaceitável é que não vejo porquê. Tudo o que se sabe até hoje é que o primeiro-ministro, que se demitiu alegando estar sob suspeitas sobre a sua pessoa, está na mira do MP, que não esclareceu os portugueses por que motivo. Não só não esclareceu como pôs a circular a transcrição de escutas telefónicas onde António Costa Silva, ministro da Economia, é identificado como sendo António Costa, primeiro-ministro — um erro grosseiro que custa a crer que tenha sido inocente. Depois, não se percebe que o MP tenha mandado prender cinco arguidos durante vários dias e pedido ao juiz de turno que lhes fosse imposta prisão preventiva, e o juiz não só não viu motivo para tanto como os libertou em troca de cauções irrisórias para quem terá cometido os crimes de que o MP suspeita. O MP não pode continuar a esconder impunemente a informação que é de interesse público, alegando o sempiterno segredo de justiça — graças ao qual, através das indispensáveis (e criminosas) fugas de informação, só ficamos a saber o que as partes querem que se saiba. Aos órgãos de soberania exige-se, antes de mais, transparência. Depois, que prestem contas. A procuradora-geral da República tarda em fazer o que já devia ter feito.

20 de outubro de 2023

FOG OF WAR. Foi Clausewitz quem terá cunhado a expressão «fog of war» (nevoeiro de guerra), que usou para descrever a incerteza no campo de batalha (as capacidades do inimigo, as condições meteorológicas, o movimento das tropas, a falta de informação, etc.) que dificulta, e muito, a tomada de decisões e pode levar a julgamentos errados. Quase dois séculos depois, e apesar de os mecanismos para apurar os factos terem evoluído bastante, cá estamos nós, após mais um episódio do conflito israelo-palestiniano, em pleno «fog of war». Porque não se vê a maior parte do que se passa no terreno, porque as partes envolvidas tentam passar o que lhes convém, porque a informação e a desinformação são armas de guerra. Como não bastasse, os media, incluindo os media ditos de referência, tomam partido, confundem mais que esclarecem, dão como provados «factos» que não existem, omitem e distorcem de modo a servir as suas agendas, e fazem passar por factos o que são meras opiniões — as opiniões dos jornalistas e de quem lhes paga os salários. Quem foi o autor — ou autores — do ataque a um hospital da Faixa de Gaza, de que terão resultado, segundo o Hamas, centenas de mortos, ou «algumas dezenas», segundo a France-Presse? O Hamas e a Jihad Islâmica acusam Israel. Israel diz que foi um acidente provocado pelo lançamento mal sucedido de um rocket da Jihad Islâmica (grupo que compartilha com o Hamas o objectivo de destruir Israel), e apresentou o que diz serem provas. Quem fala verdade? Quem mente? Há que dizer que o Hamas é uma organização terrorista, e que Israel, goste-se ou não de quem o governa, é um estado de direito, um país democrático — e eu sou contra o terrorismo e por quem se guia pelos valores que eu defendo. Ao contrário do que vejo (nunca vi tantas certezas sobre um assunto tão complexo), não tenho uma visão fechada sobre a origem e o desenrolar do conflito israelo-palestiniano. Parece-me, no entanto, que a solução de dois Estados independentes a viverem em paz lado a lado, que por duas vezes esteve perto de se concretizar e os fanáticos de ambos os lados fizeram abortar, seria a melhor para israelitas e palestinianos. Infelizmente, o 7 de Outubro de 2023 destruiu anos de negociações e colocou a discórdia entre Israel e a Palestina no ponto zero. Resta esperar que o conflito não vá mais longe do que já foi.

24 de setembro de 2023

PANTEÃO OU NÃO. A melhor forma de homenagear um escritor é lê-lo. Para isso há que publicar-lhe a obra, divulgá-la, e estudá-la se for caso disso. Eça de Queiroz não só está entre os nossos maiores escritores como entre os maiores da língua portuguesa. Considerando que no Panteão estão algumas figuras consideradas menores, não escandalizaria que Eça fosse para o Panteão. Mas será que Eça apreciaria a ideia? Com certeza que ir ou não ir para o Panteão não acrescenta ou diminui a grandeza da obra. Também não será por aí que será mais lido, mais divulgado, mais estudado. Por que insistem, então, no Panteão? Eis um mistério que talvez nem Eça conseguisse explicar.

30 de agosto de 2023

UM PÉSSIMO EXEMPLO. Não contem comigo para a beatificação da coitada que terá sido sexualmente abusada por um superior hierárquico, no caso o presidente da federação espanhola de futebol. Quem não viu que o beijo de Rubiales a Hermoso surgiu no calor dos festejos de um título mundial e que a vítima começou por desvalorizar? Quem não viu que o agressor pediu imediatamente desculpa? Claro que o sujeito teve um comportamento censurável, mas sendo o momento de grande euforia, a que sempre se juntam doses de irracionalidade, desculpas devidas e assunto encerrado. Não foi assim. De um fogacho passou-se a um incêndio, confundiu-se a estrada da Beira com a beira da estrada, e um bode expiatório veio mesmo a calhar. É um facto que vigora uma cultura machista no desporto feminino, onde há comportamentos abusivos e mesmo casos de polícia. Mas o caso do beijo não é um bom exemplo, muito menos motivo para um auto-de-fé.

22 de agosto de 2023

COMIDAS. Quando havia rusgas diárias da ASAE a confiscar galheteiros com azeite sem rótulo de origem e maçãs que não obedeciam aos desmandos da União Europeia temi que a gastronomia dos nossos avós tivesse os dias contados. Felizmente, enganei-me. As feiras gastronómicas que hoje se fazem por todo o lado demonstram não só que não morreu como ressuscitaram outras comidas quase extintas. Mas nada contra a feijoca embrulhada em repolho ou a posta de congro com ovos de formiga. Cada um come o que gosta e o que pode. Como sou mais feijoadas e arrozes, cabritos e bacalhaus, regozijo-me com o renovado interesse na nossa comida. Com certeza que algumas receitas não farão bem a ninguém. Mas isso não deverá ser motivo para o poder meter o nariz no prato de cada um. Se o Estado se preocupa com a saúde dos portugueses, alerte-os para as maleitas que possa haver e deixe que cada um decida por si.

12 de julho de 2023

TRUMPISTAS. Tirando excepções, há três espécies de apoiantes de Trump: os que votam no candidato do Partido Republicano mesmo que ele seja uma besta; os que não estão informados sobre quem votam e por isso acreditam ser verdadeiras incontáveis mentiras e plausíveis as teorias mais absurdas; e os que, estando informados, votam na criatura porque a criatura sente um indisfarçável prazer em insultar os adversários que eles, por medo ou pudor, não se atrevem. O ex-presidente americano está acusado de ter cometido mais de sete dezenas de crimes, e é suspeito de muitos mais. Como diz a lei e o senso comum, está inocente até prova em contrário, prerrogativa que os apoiantes de Trump não concedem aos seus adversários, que geralmente tratam por criminosos mesmo sem existirem suspeitas minimamente fundamentadas. É vê-los por aí a dizer que os adversários são pedófilos que matam criancinhas para lhes beber o sangue, a jurar que a Covid nunca existiu e a vacina foi inventada para nos controlar, e de um modo geral a papaguear toda a espécie de teorias de modo a alimentar o ódio que sentem por quem não é como eles. Já os não informados e os que se dizem informados, os primeiros repetem as mentiras da seita porque pertencem à seita, e os segundos alternam a indigência com a boçalidade. O que mais espanta neste cenário grotesco é que passaram seis anos para o conhecer por dentro e por fora de modo a concluir, sem esforço, que o sujeito é imprestável. Pior: se nos quatro anos em que foi presidente foi pior que se antevia, não será difícil imaginar o que nos espera se for reeleito. Será um milagre que o consiga. Mas também seria um milagre em 2016, e a verdade é que, perante a surpresa geral, o milagre aconteceu.

13 de junho de 2023

QUE ASSIM SEJA. Donald Trump foi sexta-feira acusado pela justiça americana de ter cometido 37 crimes devido a posse ilegal de documentos classificados (sobre armamento nuclear, operações militares, potenciais vulnerabilidades dos EUA e outros segredos de Estado) e posterior recusa em devolvê-los. A ser condenado, a lei prevê décadas de prisão. Isto depois de já ter sido acusado, em Abril, de ter cometido 34 crimes de falsificação de documentos de modo a comprar o silêncio de uma actriz porno e a encobrir outros crimes de modo a não ser prejudicado na corrida à Casa Branca em 2016; e de ter sido condenado a pagar cinco milhões de dólares por agressão sexual. Faltam ainda as acusações que hão-de vir da Georgia (tentativa de mudar os resultados eleitorais a seu favor) e de Washington DC (invasão do Senado para impedir que os resultados eleitorais das Presidenciais de 2021 fossem oficializados). Como se costuma dizer, Trump é inocente até prova em contrário. E está a ser vítima de «caça às bruxas», uma novela por ele inventada para consumo da seita e à custa da qual tem embolsado milhões. Mas se fosse um cidadão comum o acusado de estar metido nestas alhadas, estaria, seguramente, em prisão preventiva. A acusação formal, conhecida hoje num tribunal de Miami (onde esteve formalmente detido), confirmou os crimes de que é acusado, acrescentou as medidas de coação, e ficou-se a saber que Trump se declarou «não culpado». O futuro dirá o desfecho. Mas a abundância de provas e a gravidade dos crimes de que é acusado não deixam margem para dúvidas: não vai acabar bem para ele. Assim sendo, que assim seja.