6 de junho de 2003
4 de junho de 2003
Numa das crónicas reunidas sob o título "Cartas de Inglaterra", Eça de Queirós faz um retrato da nação portuguesa que vale a pena lembrar: «(...) vista de fora e de longe, tem aquele ar honesto de uma pacata casa de província, silenciosa e caiada, onde se pressente uma família comedida, temente a Deus, de bem com o regedor e com as economias dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós com um desdém manifesto. Porquê? Porque nos considera uma nação de medíocres: digamos francamente a dura palavra – porque nos considera uma raça de estúpidos». Será que o retrato do Portugal actual mudou assim tanto?
3 de junho de 2003
O professor Abdelilah Suisse disse hoje, no "Público", que a Al-Jazira tem tido um «excelente papel informativo e didáctico na mentalidade dos cidadãos árabes, tornando-se, sem dúvida, o modelo ideal da boa informação». Modelo ideal da boa informação? Foi o que ele disse. A teoria do sr. Abdelilah fez-me logo lembrar o artigo da capa da última "Spectator", que aconselho vivamente.
2 de junho de 2003
O "Público" de hoje publicou uma curiosa rectificação de Maria José Nogueira Pinto. Segundo ela, não é verdade que tenha dito que também teria fugido para o Brasil caso estivesse na mesma situação que Fátima Felgueiras, como o "Público" noticiou em primeira página. Se lhe perguntassem o que faria numa situação dessas, Maria José teria respondido assim: «a única resposta séria é talvez». E deu-se ela ao trabalho de fazer uma rectificação para nos dizer isto.
1 de junho de 2003
«Se (...) as armas [de destruição maciça] não forem encontradas, então esta guerra [do Iraque] não teve qualquer legitimidade», disse Mário Soares numa conferência. Quer isto dizer que a guerra teve legitimidade se as tais armas forem encontradas? Tudo indica que sim. Assim sendo, trata-se de uma evolução da "teoria" do dr. Soares sobre a guerra. Primeiro, era ilegítima. Depois, passa a sê-lo se forem encontradas as armas.
31 de maio de 2003
José Manuel Fernandes decidiu criticar a maneira de vestir do juiz Rui Teixeira. Como se esperaria, apanhou por tabela. Em resposta aos leitores, o director do Público voltou, porém, a insistir no que designa por "códigos de comportamento social" para justificar as suas críticas.
Depois de tudo o que lhe tem acontecido nos últimos dias, só faltava a Ferro Rodrigues ser apanhado a 200 à hora.
Maria José Nogueira Pinto acha que a senhora Fátima Felgueiras fez muito bem em se mandar para o Brasil. Se estivesse no lugar de Felgueiras, Maria José teria feito exactamente na mesma, disse ela à Rádio Renascença.
30 de maio de 2003
Definitivamente que a classe política já viu melhores dias. Ele é Paulo Pedroso detido preventivamente por suspeita de crimes de abuso sexual de menores, ele é Fátima Felgueiras fugida à Justiça, ele é Ferro Rodrigues que vai testemunhar no processo da Casa Pia, ele é João Soares e Paulo Portas que vão depor no caso Moderna. Com certeza que nenhum deles é culpado (ou suspeito, conforme os casos) até que a Justiça assim o entenda. Só que, até prova em contrário, o "tribunal" da opinião pública já decidiu que eles são culpados.
29 de maio de 2003
«A esmagadora maioria dos portugueses e dos europeus não debateu, não foi consultado, não delegou poderes no grupo de pessoas que prepararam um texto [Constituição Europeia] que, pela sua natureza, será o cume do ordenamento jurídico europeu, vinculando as constituições nacionais», alerta Pacheco Pereira na sua crónica de hoje. Um processo que, segundo ele, tem muito pouca legitimidade democrática.
José Manuel Fernandes decidiu levantar algumas questões pertinentes acerca do estado da Justiça. Só que, a dado passo, disse esta pérola: «É razoável que o juiz deste processo [Rui Teixeira], que deveria cultivar a distância e o recolhimento, apareça nas televisões, em ténis, jeans e t-shirt, deixando cair uma ou outra palavra quando devia estar calado? Não deveria um juiz, símbolo da justiça e do seu equilíbrio, cultivar uma imagem de dignidade e severidade, incompatível com a pose desportiva com que surge diariamente perante os portugueses? Se nos tribunais se continuam a utilizar togas e a respeitar um conjunto de formalidades destinadas a construir uma imagem de severidade e respeito, não entenderá este juiz que deve respeitar um mínimo de formalidade na forma como se veste sob pena de criar a imagem que este caso está nas mãos de alguém sem maturidade?»
28 de maio de 2003
Estou a reler "Cartas Inéditas de Fradique Mendes" e não resisto a citar uma passagem: «Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo seu criado: daí vem ele ter produzido uma prosa imortal. E a razão é que só os termos simples, usuais, banais, correspondendo às coisas, ao sentimento, à modalidade simples, não envelhecem.» Isto devia ser aprendido de cor por todos os escribas em geral e literatos em particular.
27 de maio de 2003
Como diria o brasileiro Mário Prata, Clara Ferreira Alves continua a encher linguiça. A última vez (que eu saiba) que nos serviu uns enchidos foi no Diário Digital. E depois queixa-se que escrever é uma actividade muito mal paga.
26 de maio de 2003
Eduardo Prado Coelho está zangado com o mundo. Mais exactamente com o pequeno mundo da Justiça, que pretende "minar o país" e "converter o PS de vítima em culpado". As angústias de Prado Coelho no "Público" de hoje.
Paulo Portas e Santana Lopes são os responsáveis políticos pela famosa "cabala" contra o PS, terá dito João Soares na comissão nacional dos socialistas. Segundo o "Público", que não fala de Santana Lopes (ao contrário do "Diário de Notícias"), João Soares terá ainda referido três magistrados "interessados na fragilização das instituições" e, supõe-se, do PS. Eu não acredito em nada do que diz João Soares sobre esta matéria. Mas estou curioso de saber o que é que isto vai dar.
24 de maio de 2003
"Face à reacção desadequada de Ferro Rodrigues perante esta situação [detenção de Paulo Pedroso], ficou a imagem de um líder que se atola desastradamente na primeira grande crise que teve de enfrentar e agarram-se-nos perguntas incontornáveis: a actual liderança do PS está de facto preparada para exercer o poder?", pergunta Helena Matos no "Público" de hoje.
23 de maio de 2003
"É preciso investigar e punir quem está a quebrar o segredo de justiça", disse o bastonário da Ordem dos Advogados ao Diário de Notícias de hoje. Há quantos anos andamos a ouvir isto?
22 de maio de 2003
O escritor Saramago afirmou, numa entrevista a uma rádio mexicana, que está em marcha um plano dos Estados Unidos para dominar o mundo. Plano esse que, segundo ele, "começou a ser elaborado nos anos 20 e não tem nada a ver com os atentados às Torres Gémeas de 11 de Setembro". Interrogado sobre a questão de Cuba, o autor do "Ensaio sobre a cegueira" repetiu o que tem vindo a dizer nos últimos dias: que "a revolução se distanciou de si mesma". Mas desta vez com uma ressalva: "Para que não exista algum engano, a solidariedade ao povo cubano mantém-se intacta". E quem não é solidário com o povo cubano?, interrogar-se-ão algumas almas. Infelizmente o entrevistador esqueceu-se de lhe perguntar.
21 de maio de 2003
20 de maio de 2003
Verdadeiramente impressionante o que se passou em Felgueiras (e continua a passar-se) por causa da dona Fátima, que resolveu mandar-se para o Brasil logo que soube que ia ser presa. Agora são os socialistas locais, que ameaçam formar um partido ou "um movimento independente". Até o advogado da senhora, especialista em defender criminosos famosos, parece saído de uma opereta.
"Sabia que Portugal tem 22 distritos? E que a Ditadura Militar teve início em 1923? Ou que durante o Estado Novo um dos órgãos de soberania nacional era a Assembleia Geral? Estes não são erros de um qualquer compêndio de «asneiras» de estudantes portugueses, mas sim factos constantes de um manual escolar de estudo do meio escolhido por dezenas de professores e adoptado em inúmeras escolas de Portugal", reza esta notícia no "DN" de hoje.
19 de maio de 2003
O escritor García Márquez defendeu a legalização das drogas como forma de resolver o problema da violência no seu país. "Não é possível imaginar o fim da violência na Colômbia sem a eliminação do narcotráfico", disse o Nobel de Literatura, acrescentando que "não é possível imaginar o fim do tráfico sem a legalização da droga". Depois de ter reafirmado o seu apoio ao regime cubano após os mais recentes incidentes, o autor de "Cem Anos de Solidão" regressou à lucidez.
18 de maio de 2003
Em jeito de resposta ao deputado Manuel Alegre, Vasco Pulido Valente publicou uma crónica sobre os "jotas" que vale a pena ler. Aliás, valia a pena uma discussão sobre as "jotas", embora o resultado se adivinhe confrangedor.
16 de maio de 2003
15 de maio de 2003
Segundo o Washington Post, a França vai queixar-se oficialmente ao governo dos EUA por aquilo que considera uma "campanha de desinformação organizada" dos media norte-americanos contra os franceses. Ora, não estando os media americanos nas mãos do governo, o que esperam os franceses com a queixa? Que o governo americano proíba os media de falar mal dos franceses? Decididamente que a política externa francesa, como a questão do Iraque largamente demonstrou, é verdadeiramente anedótica.
13 de maio de 2003
A ideia de construir um casino em pleno Parque Mayer como forma de recuperar aquele espaço da cidade de Lisboa gerou, desde a primeira hora, uma enorme controvérsia. Para uns, entre deixar o parque como está e construir um casino era melhor a primeira hipótese. Para outros, a construção do casino iria recuperar o espaço e revitalizar a zona. Em causa estava — pelo menos assim parecia — o futuro do Parque Mayer. Hoje, como se tem visto pelos últimos desenvolvimentos, tornou-se claro que a recuperação do Parque Mayer foi um mero pretexto. Porque o que está realmente em causa é construir um casino, seja ele no Cais de Sodré, no porto de Lisboa ou no Terreiro do Paço.
10 de maio de 2003
9 de maio de 2003
Miguel Sousa Tavares fez hoje, no "Público", uma análise impiedosa do jornalismo português. O retrato peca por exagero, mas pouco. Depois da guerra do Iraque, em que se fartou de dizer asneiras, MST voltou ao seu melhor.
8 de maio de 2003
O manifesto do dr. Soares e companhia é o tema da crónica que acabo de colocar na minha página pessoal.
7 de maio de 2003
6 de maio de 2003
O escritor José Saramago, que recentemente anunciou o seu distanciamento do regime cubano (sem que se tenha percebido o que houve de novo que o tenha feito mudar de ideias), acha que é muito importante "resgatar as vozes individuais do seio de uma voz colectiva", que às vezes pode tornar-se perigosa por anular os pensamentos pessoais. Não, não deu exemplos do que estava falar. Mas as vozes colectivas podiam ser o partido de que é militante ou os regimes comunistas presentes e defuntos, não podiam?
5 de maio de 2003
Ruben de Carvalho não se conforma com a vitória dos aliados no Iraque. Desta vez o bode expiatório é o vice-director do "Diário de Notícias", a quem acusa de defender a guerra com "incontido gozo", "indiferença" e "chacota". A cegueira não perdoa.
Vasco Pulido Valente afirmou que votará Mário Soares se ele se candidatar nas próximas presidenciais. Será que estava a falar a sério?
2 de maio de 2003
Hoje foi dia de ouvir três entrevistas. A Mariza, a Gabriela Canavilhas e a Ruy Duarte de Carvalho. Todas no "Pessoal e Transmissível", de Carlos Vaz Marques, na TSF. Um exemplo de como se deve conduzir uma entrevista com inteligência e serenidade.
30 de abril de 2003
Segundo a Lusa, a dirigente comunista Manuela Bernardino reafirmou, no Avante!, a solidariedade do PC ao regime cubano, apoiando o direito soberano do país de "defender a segurança dos seus cidadãos". Bernardino não tem dúvidas que está em curso "uma intensa campanha contra Cuba", cujo pretexto foram as "duras condenações de cubanos não por delitos de opinião mas porque, como os tribunais concluíram, agiam como mercenários". Palavra de honra que foi isto mesmo o que ela disse.
29 de abril de 2003
"O Presidente dos Estados Unidos resolveu homenagear numa luzida cerimónia na Casa Branca os jornalistas americanos que «cobriram» a guerra no Iraque. Mais estranhamente ainda, os jornalistas compareceram às centenas. Mas esta estranha promiscuidade entre o jornalismo e o poder político em Washington pode explicar por que é que quase todos os «media» americanos mais pareciam claques guerreiras e por que é que uma boa parte dos ditos jornalistas mais pareciam papagaios dos generais que conduziriam a guerra." Segundo Vital Moreira, mais uma vez fica provado que os americanos, neste caso concreto os jornalistas, são uma cambada de estúpidos. A arrogância intelectual deste senhor não tem emenda.
26 de abril de 2003
Concordo que a estação de televisão americana Fox News prestou um péssimo serviço ao jornalismo com a cobertura da guerra no Iraque. Mas já não reconheço qualquer autoridade ao director-geral da BBC para fazer críticas ao canal americano. Muito menos que ele tenha "autoridade" ou "legitimidade" para o fazer, como garante o Diário de Notícias, já que o comportamento da BBC na guerra do Iraque foi, também ele, uma autêntica vergonha.
24 de abril de 2003
Vicente Jorge Silva continua a destilar ressentimento anti-americano. Ou melhor, ressentimento anti-Bush, já que Vicente é dos que gosta de dizer que o seu problema é com Bush e não com os americanos. E que diz Vicente sobre o que ele designa por "Bush Boys"? O costume. Que são simplistas, fundamentalistas e pobres de espírito. Ah, esta "superioridade intelectual" de Vicente Jorge Silva.
22 de abril de 2003
Tudo serve ao senhor José Vítor Malheiros para demonstrar o seu anti-americanismo primário. Até uma tragédia envolvendo duas crianças, que se passou em Lisboa, é culpa dos americanos. A estupidez não tem limites.
Sabedor de que as mentiras sobre a Guerra do Golfo não têm consequências, o senhor Vital Moreira disse, hoje, mais uma: que os EUA "não hesitaram em utilizar armas proibidas propositadamente contra populações civis". E depois ainda teve o descaramento de dizer que "provavelmente nunca como nesta guerra [do Iraque] se investiu tanto no condicionamento da informação e na manipulação da opinião pública". Que lata, senhor Vital. Nem o ministro iraquiano da informação faria melhor.
19 de abril de 2003
Ruben de Carvalho, que não se conforma com o facto de a guerra no Iraque ter sido feita com uma "cobarde desproporção de meios" e por ter acabado da forma que se conhece, diz que houve, em Bagdad, um saque organizado "vigiado à distância por marines". E organizado por quem? Infelizmente não disse. Ficou-se apenas pelo desejo e pela mentira.
Atenção ao texto de Helena Matos no "Público" de hoje. Só um cheirinho: "Em Março, na edição portuguesa do ‘Le Monde Diplomatique’, Mário Soares (…) anunciou que o ataque ao Iraque será «com muita probabilidade, a maior tragédia do século XXI». Estamos no início do século e já estamos a fazer-lhe o balanço?"
18 de abril de 2003
Miguel Sousa Tavares, outra vez. Agora porque aparece, na sua crónica de hoje, a "chorar" os feridos de Bagdad com um exercício tão demagógico como oportunista. Porque, para ele, as vítimas inocentes são chocantes, embora nunca os mortos e desaparecidos durante o regime de Saddan lhe tenham mereceido um comentário. E foram milhares, não foram? Ah, já me esquecia. Com uma arrogância intelectual que mete dó, lá vem ele com mais um chorrilho de mentiras que tenta fazer passar por factos. Porque será que tem necessidade de recorrer sistematicamente à mentira para defender os seus pontos de vista?
16 de abril de 2003
O senhor Joaquim Fidalgo tentou fazer crer, na sua crónica de hoje no "Público", que não é anti-americano primário. Só que — vá lá saber-se porquê — a prosa demonstrou precisamente o contrário. Também o senhor Fernando Rosas insiste em ver, no Iraque, "cidades inteiras destruídas" e "milhares de vítimas civis dos bombardeamentos ou do fogo da tropa anglo-americana". Como diria Francisco José Viegas, um caso sério de dioptrias. Mas nem tudo são desgraças. A crónica de Vasco Graça Moura, por exemplo, é imperdível.
15 de abril de 2003
Na sua cruzada contra os americanos, o senhor Vital Moreira voltou a mentir. Diz ele, na sua crónica de hoje no "Público", que a tropa americana demonstrou falta de escrúpulos, como "se mostrou na fria utilização de bombas de fragmentação contra mercados populares". Percebe-se que as vítimas civis do lado iraquiano, que ele diz lamentar (palavra de honra), façam jeito ao senhor Vital. Mas daí a dizer-se que os americanos atingiram propositadamente civis, só mesmo quem tem falta de escrúpulos.
14 de abril de 2003
O nosso prémio Nobel da Literatura manifestou "decepção" face ao regime de Fidel Castro. "Cuba (...) perdeu a minha confiança, destruiu as minhas esperanças e defraudou as minhas expectativas", escreveu Saramago num artigo de opinião publicado no "El País". Sem dúvida o acontecimento do dia. E caso para dizer: aleluia!
12 de abril de 2003
Miguel Sousa Tavares resolveu baixar as armas e apelar ao rigor dos factos. Palavra de honra que foi isto o que ele fez na crónica de ontem no "Público". Isto depois de passar as últimas semanas a distorcer os factos e a dizer que era propaganda tudo o que não lhe convinha. E, para ilustrar o "rigor dos factos", começou por dizer que só viu "uma dúzia de civis festejando a sua «libertação» junto aos ingleses" e "algumas dezenas de iraquianos festejando o derrube da estátua de Saddam". Enfim, "meia dúzia de oportunistas". Mais adiante, porém, lá acabou por reconhecer que terão sido milhares, como também reconheceu "que a guerra foi conduzida com o máximo de eficácia e, salvo alguns incidentes de passagem, com o mínimo de danos civis colaterais." Eu confesso que estou espantado. Apesar de a "dúzia de civis" se ter transformado, numa questão de parágrafos, em milhares, sempre é um avanço. A que se deverá tamanha mudança? Um súbito golpe de lucidez? Uma tentativa de não ficar do lado errado da história?
11 de abril de 2003
10 de abril de 2003
O vice-presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação afirmou, no "Público" de hoje, o seguinte: "Os dirigentes dos EUA sonharam, divulgaram e venderam que os iraquianos iriam aplaudir os soldados americanos. Acaso podem agora dar o braço a torcer?" Acontece que, como se sabe, os iraquianos aplaudiram os soldados americanos. Acaso pode o senhor Domingos Lopes dar o braço a torcer?
9 de abril de 2003
Robert Fisk está a ficar cada vez mais desesperado. Até parece que é ele que está a perder a guerra. Vejam só a crónica de ontem no "Independent".
8 de abril de 2003
Tornou-se moda falar mal da CNN. Só que, às vezes, os argumentos não convencem, como não convencem os argumentos de Vítor Malheiros, no "Público" de hoje. Então a comparação da CNN à televisão estatal iraquiana só mesmo de quem não sabe do que fala (o que não é o caso) ou de quem pretende enganar os incautos (o que parece ser o caso). Convém dizer que eu não aprecio a CNN. Mas, compará-la à tv iraquiana, é pura demagogia. Nada inocente, aliás.
7 de abril de 2003
Prémio ministro iraquiano da informação: Isabel do Carmo, que escreveu no "Público" de hoje uma pérola de antologia. Aqui fica um cheirinho: "O regime de Sadam era execrável, como muitos no mundo, mas antes do bloqueio (…) era um país com educação, saúde e comunicações gratuitas, um regime laico, com escolas mistas". Mais outro: "O Papa e muitos dos chefes da Igreja Católica tomaram uma posição histórica, inequívoca, que rompe com atitudes do passado e que temos todos de homenagear; líderes de outras religiões perderam uma boa ocasião de falar".
5 de abril de 2003
Manuel Alegre acha que, na guerra do Iraque, "o inimigo já não é Saddam, é o próprio povo iraquiano". E depois acrescenta: "já se noticiam prisões de civis e a eventualidade da sua transferência para Guantánamo". Porque será que todos os que são contra a guerra precisam de deturpar os factos e de recorrer à mentira?
4 de abril de 2003
Miguel Sousa Tavares, que resolveu desfiar o currículo guerreiro no "Público" de hoje e dizer que a limpeza étnica e as valas comuns no Kosovo foram uma invenção dos americanos, acha que a guerra é cobarde porque existe "uma desproporção dos meios em presença". Fica, portanto, a sugestão para que, a partir de agora, se distribuam equitativamente os meios bélicos pelas diversas facções em disputa sempre que haja uma guerra.
Villaverde Cabral está desancantado com o Governo de Lula da Silva. Porque, diz ele, os governos de esquerda, uma vez no poder, usam sempre políticas conservadoras. Por que será?
3 de abril de 2003
A França, que acha que a intervenção americana no Iraque é ilegal mas depois deixa usar o seu espaço aéreo para que aviões britânicos e americanos bombardeiem o regime iraquiano, veio ontem, pela terceira vez após o início da guerra no Iraque, pôr-se em bicos de pés. "Os franceses não devem enganar-se de adversário. Perante o regime cruel e ditatorial de Saddam Hussein a França situa-se no campo do direito e da paz. Na guerra isto conduz a França situar-se no campo dos seus aliados, as democracias", diz Dominique de Villepin em entrevista a uma televisão francesa. Isto depois de o mesmo ministro ter defendido, em finais de Março, "uma relação renovada de confiança e proximidade” com os EUA. “Porque foram construídos sobre uma base de valores comuns, os Estados Unidos e a França têm uma vocação para renovar uma cooperação estreita e solidária", disse ele. E porque Paris "compreende o imenso traumatismo de que os EUA foram vítimas" no 11 de Setembro de 2001 e "partilha a sua determinação total em combater o terrorismo por todo o mundo e sem hesitações". Palavra de honra que foi isto o que ele disse.
1 de abril de 2003
José Rodrigues dos Santos "não consegue controlar a sua excitação bélica, por vezes infantil: faz perguntas como se fosse o Sr. Sabichão e gesticula, de pé em frente ao ecrã de plasma, como se fosse um arrumador de automóveis. Num rebanho de cabras vê iraquianos de joelhos rendendo-se em massa." É a Guerra na Televisão de Eduardo Cintra Torres, no "Público" de hoje.
Tal como Vital Moreira, Vicente Jorge Silva está preocupado pelo facto de "os principais editorialistas dos chamados jornais de referência portugueses" se terem destacado "pelo seu apoio militante à guerra no Iraque". E dá algumas explicações para o fenómeno: "A primeira é a vulnerável situação financeira da maior parte dos órgãos de comunicação social, que favorece a apatia e a domesticação das redacções — temendo pela segurança dos postos de trabalho — face ao protagonismo autista dos seus directores. A segunda é a tendência tradicional para o oficiosismo e o colaboracionismo com o poder que caracteriza os tempos difíceis — tempos de guerra, tempos de incerteza económica e de angústia social relativamente ao futuro." Está visto que Vicente Jorge Silva não consegue perceber que haja quem não pense como ele. E, como não percebe, quem não pensa como ele só pode estar ao serviço do capital ou do poder. Sem dúvida que o pior cego é o que não quer ver.
31 de março de 2003
"De Bagdad, chegou-nos uma reportagem num hospital, onde entraram civis vítimas de um míssil americano. Sentado numa cama está um miúdo de uns quatro anos. Tem a cabeça ligada. Chora desalmadamente. Porquê? Pelo terror da explosão? Pelas dores do ligeiro ferimento? Pela falta da mãe? Não sabemos. Mas o que vemos é que não há ali nenhum familiar, nenhum enfermeiro, nenhum médico para sossegar a criança. Porque é preciso que o miúdo chore: em volta dele, a poucos centímetros da cama, estão dez fotógrafos e repórteres de TV armados de câmaras assustadoras. Deles, vemos apenas a parte de baixo do corpo e os equipamentos em volta da cintura, tal e qual como Spielberg representou os adultos em "ET"." Eduardo Cintra Torres no "Público" de hoje.
29 de março de 2003
Miguel Sousa Tavares resolveu insinuar que as armas de destruição maciça eventualmente encontradas no Iraque podem ter sido lá colocadas pelos americanos. E depois garantiu que nada distingue a CNN da televisão iraquiana, como se ele não soubesse que há um abismo entre ambas. Tudo isto no "Público" de ontem, e só vem confirmar que não tem problemas em recorrer à mentira para defender os seus pontos de vista. Mais nojento só o facto de não se ver, por parte dos nossos cronistas, quem se atreva a criticá-lo. Razão que me leva a perguntar: quem têm medo de Miguel Sousa Tavares?
27 de março de 2003
O escritor moçambicano Mia Couto acha que "os povos dos países pequenos" têm "uma arma de construção maciça: a capacidade de pensar." Bonito, não é? Quer isto dizer que mais de 70 por cento dos americanos (que apoiam a intervenção no Iraque) não tem capacidade de pensar? Parece que sim. O que eu acho extraordinário é que esta gente "culta" e "inteligente" continue a insinuar que os americanos são burros, embora, depois, se fiquem pelas insinuações. Não há dúvida que a mistura de preconceitos com a estupidez impede qualquer um de pensar.
O senhor Artur Costa, cronista do "Jornal de Notícias", não conseguiu disfarçar o gozo que lhe deu saber que o poderio militar americano no Iraque está a enfrentar dificuldades. Não há nada como ser claro.
26 de março de 2003
"Se tivesse havido uma atitude colectiva dos países ocidentais mais coesa, que tivesse posto uma ameaça monolítica diante de Saddam Hussein e que tivesse reforçado os meios antes da guerra para o fazer ceder (...), o mais provável é que se pudesse ter desarmado o Iraque sem o recurso à guerra". Assim fala José Cutileiro em entrevista ao "Diário de Notícias".
25 de março de 2003
Na sequência de uma notícia publicada no "Expresso" de 8 de Março, sob o título "Você vai ser deportado" e que abaixo transcrevo na íntegra, entendi enviar ao semanário do dr. Balsemão um pedido de correcção. Como tudo indica que o destino da prosa foi o caixote do lixo e porque acho que a notícia em causa merece correcção, aqui fica a minha carta e a transcrição da notícia:
A minha carta: A estória que o senhor Ruben Eiras contou na última edição do "Expresso" («Você vai ser deportado») não tem pés nem cabeça. Diz Ruben Eiras que uma cidadã americana "de origem hispânica" foi deportada para o seu país de origem (o México) "por causa dos dois filhos - também cidadãos americanos - não saberem falar inglês". Ora isto é um perfeito absurdo. Desde quando é que um cidadão americano pode ser deportado? E, já agora, deportado para onde? Como se dúvidas houvesse que não sabe do que está a falar, Ruben Eiras começa por dizer que a referida senhora "é cidadã americana", mas depois acrescenta que "está legalizada". Ora não se conhecem cidadãos americanos que não estejam legalizados. Ou se é cidadão americano ou não se é. Provavelmente Ruben Eiras confundiu o estatuto de cidadão americano com o de residente estrangeiro (possuidor de um documento que lhe permite viver e trabalhar nos EUA, o chamado "cartão verde").
Nada disto teria qualquer importância se a estória não tivesse por objectivo demonstrar onde chegou o suposto "delírio securitário" dos americanos. Como induz os leitores em erro e atribui aos americanos atitudes que eles não têm, parece-me que se impõe uma correcção.
A notícia: Sábado, 22 de Fevereiro de 2002. Aterro em Atlanta por volta das 19h30. Dirigia-me pela primeira vez aos EUA em trabalho, para cobrir a «Training Conference 2003», o maior evento de formação do mercado norte-americano. No aeroporto, depois de a minha documentação ser analisada, sou remetido para a secção de controlo da imigração. Dez minutos mais tarde sou atendido. O funcionário, branco e de cabeça rapada, indaga-me outra vez sobre a minha profissão e os objectivos da viagem. Pergunta-me se o EXPRESSO é um jornal português e respondo-lhe que sim, mostro-lhe o meu cartão de jornalista. É então que ele me informa, com um sorriso cínico, que vou ser «deportado». Atónito, pergunto-lhe porquê. «Porque você não possui o visto especial para jornalistas estrangeiros exercerem a sua profissão em território americano», responde-me secamente. Ignorava a existência desta norma. Pergunto-lhe se não há hipóteses de revisão da situação. Ele vai falar com o superior sobre o caso. Entretanto, observo o ambiente à minha volta. Dou-me conta de que todos os franceses e alemães que vieram no voo são «passados a pente fino». Atrás de mim, está uma senhora de origem hispânica, dos seus 40 anos, a chorar convulsivamente. Conta-me que foi assistir aos últimos dias de vida do pai, residente no México. Grávida de seis meses e acompanhada pelos dois filhos, com seis e cinco anos de idade, é cidadã americana, está legalizada, mas vai ser deportada. Por causa dos dois filhos - também cidadãos americanos - não saberem falar inglês. Mostra-me a documentação e verifico que é verdade. Vivem num gueto hispânico nos EUA. Entretanto, o funcionário regressa. Comunica-me que a decisão é irreversível: vou ser mesmo deportado. Peço-lhe para contactar a embaixada americana em Portugal. Nega. Fico estupefacto. O funcionário de cabeça rapada informa-me de que terei de passar a noite na prisão devido a já não existirem voos para Paris. Completamente sozinho entre quatro paredes metálicas, com um banco em alumínio sem colchão, soçobro e choro. Passada meia hora vejo a maçaneta rodar. Era o funcionário de cabeça rapada, a dar-me a boa notícia de que afinal havia voo para mim. Vou regressar a Lisboa e sair do abismo paranóico em que os EUA caíram.
A minha carta: A estória que o senhor Ruben Eiras contou na última edição do "Expresso" («Você vai ser deportado») não tem pés nem cabeça. Diz Ruben Eiras que uma cidadã americana "de origem hispânica" foi deportada para o seu país de origem (o México) "por causa dos dois filhos - também cidadãos americanos - não saberem falar inglês". Ora isto é um perfeito absurdo. Desde quando é que um cidadão americano pode ser deportado? E, já agora, deportado para onde? Como se dúvidas houvesse que não sabe do que está a falar, Ruben Eiras começa por dizer que a referida senhora "é cidadã americana", mas depois acrescenta que "está legalizada". Ora não se conhecem cidadãos americanos que não estejam legalizados. Ou se é cidadão americano ou não se é. Provavelmente Ruben Eiras confundiu o estatuto de cidadão americano com o de residente estrangeiro (possuidor de um documento que lhe permite viver e trabalhar nos EUA, o chamado "cartão verde").
Nada disto teria qualquer importância se a estória não tivesse por objectivo demonstrar onde chegou o suposto "delírio securitário" dos americanos. Como induz os leitores em erro e atribui aos americanos atitudes que eles não têm, parece-me que se impõe uma correcção.
A notícia: Sábado, 22 de Fevereiro de 2002. Aterro em Atlanta por volta das 19h30. Dirigia-me pela primeira vez aos EUA em trabalho, para cobrir a «Training Conference 2003», o maior evento de formação do mercado norte-americano. No aeroporto, depois de a minha documentação ser analisada, sou remetido para a secção de controlo da imigração. Dez minutos mais tarde sou atendido. O funcionário, branco e de cabeça rapada, indaga-me outra vez sobre a minha profissão e os objectivos da viagem. Pergunta-me se o EXPRESSO é um jornal português e respondo-lhe que sim, mostro-lhe o meu cartão de jornalista. É então que ele me informa, com um sorriso cínico, que vou ser «deportado». Atónito, pergunto-lhe porquê. «Porque você não possui o visto especial para jornalistas estrangeiros exercerem a sua profissão em território americano», responde-me secamente. Ignorava a existência desta norma. Pergunto-lhe se não há hipóteses de revisão da situação. Ele vai falar com o superior sobre o caso. Entretanto, observo o ambiente à minha volta. Dou-me conta de que todos os franceses e alemães que vieram no voo são «passados a pente fino». Atrás de mim, está uma senhora de origem hispânica, dos seus 40 anos, a chorar convulsivamente. Conta-me que foi assistir aos últimos dias de vida do pai, residente no México. Grávida de seis meses e acompanhada pelos dois filhos, com seis e cinco anos de idade, é cidadã americana, está legalizada, mas vai ser deportada. Por causa dos dois filhos - também cidadãos americanos - não saberem falar inglês. Mostra-me a documentação e verifico que é verdade. Vivem num gueto hispânico nos EUA. Entretanto, o funcionário regressa. Comunica-me que a decisão é irreversível: vou ser mesmo deportado. Peço-lhe para contactar a embaixada americana em Portugal. Nega. Fico estupefacto. O funcionário de cabeça rapada informa-me de que terei de passar a noite na prisão devido a já não existirem voos para Paris. Completamente sozinho entre quatro paredes metálicas, com um banco em alumínio sem colchão, soçobro e choro. Passada meia hora vejo a maçaneta rodar. Era o funcionário de cabeça rapada, a dar-me a boa notícia de que afinal havia voo para mim. Vou regressar a Lisboa e sair do abismo paranóico em que os EUA caíram.
24 de março de 2003
23 de março de 2003
A RTP (só vi a RTP) abriu o telejornal de hoje com imagens de soldados americanos capturados durante os combates no Iraque. Tratam-se de imagens "exibidas sem qualquer pudor" pelo governo iraquiano”, advertia a voz "off" da peça. Sem qualquer pudor? E onde está o pudor da RTP ao exibir estas imagens?
O coração de Miguel Sousa Tavares balança entre o desejo de "um desastre que puna merecidamente esta aventura [do Iraque] e fique como lição para o futuro" e "o milagre de uma guerra rápida e relativamente indolor". Compreensível? Vindo de quem vem, sem dúvida que é. MST regressou ao "Público" para nos dizer, ainda, que basta olhar para a cara de George W. Bush para constatar que nela "se inscreve de forma impressionante uma singular e devastadora estupidez". Ou seja, MST regressou aos raciocínios primários e à conversa de taberna.
20 de março de 2003
Impressionante a "leitura" que as diversos forças políticas fizeram do discurso do presidente da República. Como Jorge Sampaio não disse rigorosamente nada de relevante, o discurso acabou por agradar a Governo e oposição, talvez mais ao primeiro do que aos segundos. Uns viram no discurso de Sampaio uma condenação explícita à decisão do governo quanto ao Iraque; outros um enorme "sentido de Estado" e "um apelo à serenidade". É claro que também houve quem se prestasse a fazer interpretações abusivas do discurso de Sampaio (ele nunca disse que a guerra era ilegítima, por exemplo, como Alberto Martins nos quis fazer crer no "Jornal 2"), colocando na boca do presidente coisas que ele nem sequer insinuou. O que só vem demonstrar que as razões dos que são contra a intervenção dos americanos no Iraque assentam invariavelmente em mentiras.
19 de março de 2003
18 de março de 2003
"(…) o que fez precipitar a declaração de guerra de domingo à noite nos Açores não foi nenhuma revelação de existência de armas proibidas. Foi, pelo contrário, a crescente probabilidade de se provar definitivamente que elas não existem". Assim fala Vital Moreira no "Público" de hoje. Mas há mais disparates, que o senhor Vital é um reconhecido especialista em disparates. Estão todos aqui.
Nestes tempos conturbados, em que toda a espécie de argumentos primários serve para "analisar" tudo e mais alguma coisa, vale a pena lembrar o que Vasco Pulido Valente escreveu no "Diário de Notícias" de 13 de Setembro de 2002: "Há um século que a América anda a cometer erros sem nome. Resolveu a I Guerra Mundial e ditou largamente as condições de paz. Sem ela, na II Guerra, o Exército Vermelho teria chegado à Mancha. Durante trinta anos defendeu o Ocidente e uma larga parte do planeta da expansão soviética. E, no fim, ganhou, acabando com o mito do socialismo, “real” ou virtual. Pior ainda: espalhou a sua cultura popular pela terra inteira, subverteu a ética sexual com uma revolução única na história e, na ciência e tecnologia, deixou toda a gente para trás. Fora isso, é rica, forte e livre. Coisas destas não se desculpam. A “Europa” não lhe desculpa a sua decadência. Os pobres não lhe desculpam a sua pobreza. As civilizações arcaicas não lhe desculpam o seu atraso. A América acabou por se tornar no bode expiatório da miséria humana. Tirando a América não existem responsáveis: nem o Islão, nem o racismo, nem o tribalismo, nem o ódio étnico, nem os cleptocratas que governam África. Nada e ninguém."
17 de março de 2003
A tão comentada camisola de lã envergada pelo professor Freitas do Amaral durante o discurso na Aula Magna tem, afinal, uma explicação. "Sou muito friorento e, além disso, aos fins-de-semana, procuro não usar gravata", justificou o próprio em entrevista ao "Expresso". E, para acalmar os mais susceptíveis, Freitas revelou que até usava gravata — mas por baixo da camisola. Não direi que isto foi o que de mais importante foi dito na entrevista ao semanário de Balsemão. A verdade, porém, é que não me lembro de mais nada.
14 de março de 2003
Certamente por me terem confundido com algum membro do comité central do partido, acabei de receber da CGTP uma moção destinada a fazer greve ao trabalho por cinco minutos. Dizem eles que "os trabalhadores não querem a guerra, porque ela põe em causa a liberdade e a democracia" (a do Iraque, presumo). E depois condenam "a postura belicista dos EUA e a sua tentativa de agressão militar levada a cabo contra o povo (reparem, contra o povo) do Iraque", fazem versos ("A guerra é a guerra. Todos dizem não a desejar… Só que uns – como Bush e Durão – estão desejosos de a iniciar!") e outras coisas certamente interessantes mas que não consegui entender. Infelizmente isto deixou-me uma pequena dúvida de natureza capitalista: quem é que paga os cinco minutos de greve ao trabalho? O senhor Chirac? Saddam? Sim, porque não deverão ter sido os patrões portugueses que criaram a situação do Iraque para explorarem os trabalhadores.
Miguel Sousa Tavares voltou a asneirar. Desta vez porque Durão Barroso, ao afirmar que o Governo português estará ao lado dos EUA mesmo sem o aval da ONU, "quebrou a solidariedade institucional com o Presidente da República" e "pôs Portugal a falar a duas vozes". E desde quando houve, sobre a questão do Iraque, "solidariedade institucional" entre Governo e presidente da República? E porquê Portugal a duas vozes, se toda a gente sabe que é a voz do Governo que conta em matéria de política externa? Em nome do que julga ser a verdade, tudo serve a MST para a cruzada contra os americanos. Mesmo a mentira mais descarada.
13 de março de 2003
"Ninguém melhor do que nós, europeus, sabe que a Europa unida é uma ficção". E que, "enquanto entidade política viável, comparável a uma nação (...), é uma casca de noz, sem noz nenhuma dentro". Adivinhem lá quem disse isto? Eduardo Lourenço, pois claro. E, uma vez mais, se ele o diz, quem sou eu para duvidar? É claro que já tenho dúvidas de que a Europa seja "mais rica" de "que espaço algum (incluindo o dos Estados Unidos) em matéria de «savoir faire», de imaginação e de energia intelectual e vital". Mas recomendo na mesma a crónica de Eduardo Lourenço, no "Público" de hoje.
Não me revejo totalmente no que diz Pacheco Pereira acerca da comunicação social. Mas, tirando isso, assino por baixo a crónica de hoje no "Público".
Goste-se ou não do conteúdo (eu gosto, mas nem sempre estou de acordo), A Coluna Infame é o blog português mais bem escrito. Alguém tem dúvidas?
Querem ver onde chegaram os preconceitos e a descarada deturpação dos factos por parte de alguns dos nossos cronistas? Pois bem, é só ler a crónica de Artur Costa no "Jornal de Notícias".
12 de março de 2003
Absolutamente lamentáveis as crónicas de António José Teixeira, no "Diário de Notícias", e de Adolfo Perez Esquivel, no "Expresso On-line". Valha-nos o bom senso de Francisco Sarsfield Cabral e de Mário Bettencourt Resendes, ambos no "DN". E ainda a crónica de Vasco Graça Moura. Absolutamente demolidora.
10 de março de 2003
Miguel Sousa Tavares acha que o presidente Bush vai atacar "o Iraque em nome de Deus" E porquê? Porque Bush terminou o discurso sobre o "Estado da União" dizendo: "Deus abençoe os Estados Unidos da América". Nem mais. Miguel Sousa Tavares ignora que os discursos de fundo dos presidentes americanos terminam desta forma, que o "God Bless America" final é mais uma tradição de que uma questão religiosa. E, como ignora, a "análise" só podia resultar num disparate grosseiro. E depois que se queixe se alguém lhe disser que a sua postura anti-americana resulta da ignorância.
7 de março de 2003
6 de março de 2003
Será impressão minha, ou o "Público" está a deixar a concorrência (leia-se "Diário de Notícias") a milhas? Não, não é só pela oportuníssima publicação do "dossier" sobre Estaline. É pela aposta que tem vindo a fazer na substância e, sobretudo, na contextualização dos grandes temas do momento. Parabéns! Já agora, votos de que o seu concorrente directo não caia de uma forma irremediável.
"(...) as ideias sempre se revelaram mais perigosas do que os interesses, tendo morto muito mais pessoas nos últimos 200 anos do que o "imperialismo"", diz Pacheco Pereira na sua crónica de hoje.
5 de março de 2003
"A Europa que desculpabiliza ditaduras é a falsificação de uma Europa digna, séria e justa. É a Europa que prefere perder a sua liberdade de consciência à coragem de defrontar a iniquidade." A ler com atenção a crónica de Francisco José Viegas, no "Jornal de Notícias".
A rapaziada do Blog de Esquerda resolveu dar-me uma cotovelada. Deve ser por isso que os leitores do meu blog aumentaram consideravelmente. Bem hajam. Contribuições em numerário também são bem vindas.
4 de março de 2003
O presidente francês reafirmou, domingo, que "há uma alternativa à guerra" no Iraque. E qual? Bom, não disse. Na segunda, além de reafirmar o objectivo do seu país em eliminar as armas de destruição maciça na posse do Iraque (afinal parece que o presidente francês sempre acredita que Saddam tem armas de destruição maciça), disse que "o Iraque deve fazer mais, cooperar mais e mais activamente". Quer isto dizer que o Iraque não está a cooperar como devia? Parece que sim. Onde está, então, a lógica que sustenta o prolongamento das inspecções?
3 de março de 2003
Segundo a Lusa, para o prof. Freitas do Amaral são necessários, entre outros, os seguintes passos para "evitar a guerra": "exigir o respeito pelo direito internacional" e "apoiar firmemente as figuras mundiais que não aceitam a guerra". Se todas estas exigências se cumprirem, diz ele, não haverá guerra. Infelizmente não esclareceu a que direito internacional se refere. Se ao direito internacional que os americanos supostamente violaram (ou violarão, que a guerra ainda não começou), se ao direito internacional que Saddam Hussein viola há anos na maior das impunidades. Infelizmente também não disse que figuras mundiais que não aceitam a guerra se deve apoiar. O senhor Le Pen? Saddam Hussein? Um mistério.
2 de março de 2003
O dr. Soares, que nos últimos dias se tem distinguido por abrir a boca por tudo e por nada, tem dúvidas que os EUA sejam uma verdadeira democracia. Mas já não duvida que a luta contra o terrorismo "não se pode fazer praticando actos terroristas piores que aqueles que se querem condenar". E quem pretende cometer actos terroristas piores que aqueles que se querem condenar? Os americanos, evidentemente. O dr. Soares ultrapassou os limites da decência.
1 de março de 2003
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