6 de abril de 2007

Está em marcha uma campanha destinada a desvalorizar o episódio da licenciatura do primeiro-ministro, alegando-se que o canudo nem aquece, nem arrefece. José Sócrates não é nem mais nem menos competente como primeiro-ministro pelo facto de ter, ou não ter, uma licenciatura, argumenta-se. Acontece que o caso não é esse, por muito jeito que dê que assim fosse. O problema é que, a confirmarem-se os factos divulgados pelos media, o primeiro-ministro não disse toda a verdade sobre o seu currículo académico. Pior: cometeu a imprudência de «retocar» o currículo — deixou de ser «engenheiro» e passou a designar-se «licenciado em Engenharia Civil», entre outros «retoques» — precisamente no momento em que o seu currículo académico estava a ser questionado. Assim sendo, há razões para suspeitar da forma como Sócrates obteve a licenciatura pela Independente, como há razões para o Presidente da República se preocupar com os «danos colaterais» que o caso possa causar, como deu conta o DN, embora Cavaco desminta.

4 de abril de 2007

As declarações às televisões de alguns adeptos da bola no final do Benfica-Porto mereceram alguns comentários na blogosfera. Segundo eles, não havia necessidade de estender o microfone às cavalgaduras. Ora, eu aproveito a onda para ir mais longe. Porque não acabar com as declarações de jogadores e treinadores antes e depois dos jogos? Dir-me-ão que não é possível, que há quem goste daquilo ou contratos a cumprir. Nesse caso, proponho que se crie um prémio para quem for capaz de botar faladura durante 15 segundos sem dizer um lugar-comum, e outro para quem disser algo que já não tenha dito quinhentas vezes.
Não é só o Procurador-Geral da República que tem um problema com os blogues. Vicente Jorge Silva acha que a blogosfera é uma «praga moderna que escapa ao controlo dos poderes públicos».

2 de abril de 2007

Bem pode o primeiro-ministro barafustar contra a forma como os media trataram o caso da licenciatura pela Universidade Independente que ninguém quer saber. Mais: não adianta fazer pressões junto dos media, como nos últimos dias se tornou claro e notório com a denúncia de alguns dos visados. Despromovendo-se de «engenheiro» a «licenciado em Engenharia», José Sócrates acabou a lançar ainda mais lenha para a fogueira, contribuindo para adensar as suspeitas e aguçando a curiosidade dos media. Se algum motivo tem para se queixar é de ter sido imprudente.
A propósito da licenciatura do primeiro-ministro, José Manuel Fernandes finalizou o editorial do Público do último domingo do seguinte modo: «É que, se alguma coisa ficou provada nos últimos dias, é que o telefone toca muitas vezes nas redacções e isso parece pesar em muitas escolhas editoriais. Quem está por dentro da profissão sabe porém que ainda só vemos a ponta do icebergue...» Ora, o que pretenderá JMF insinuar quando diz que «ainda só vemos a ponta do icebergue»? Que sabe mais do que fala? Se sabe, por que não diz? Porque o Público tem telhados de vidro? Não será óbvio que um director de jornal não deve, sobre esta matéria, fazer insinuações? Se tem alguma coisa a dizer, faz favor de o dizer alto e bom som. Caso contrário, é melhor que se cale.

30 de março de 2007

Tenho para mim que as más ideias — o que considero más ideias — devem morrer «às mãos» das boas ideias, nunca «às mãos» de uma lei que as censure ou proíba. Essencialmente por duas razões: porque acho que toda a gente tem direito às suas ideias e a expressá-las livremente, e porque estou convencido de que só as ideias derrotam eficazmente as ideias. O caso recente do cartaz do PNR, onde se lê «Basta de imigração» e «Portugal aos Portugueses», serve perfeitamente para ilustrar o que falo. E estou à vontade para o dizer: sou emigrante, embora não emigrante a residir em Portugal. Em vez de palavreado politicamente correcto (quando não hipócrita) e sem qualquer eficácia, invista-se mais tempo e energia tentando demonstrar aos cavalheiros do PNR (e a quem pensa como eles) que não têm razão. Pode não ser a solução, mas certamente que é um bom começo.

26 de março de 2007

O Governo português transformou o consulado de Portugal em Frankfurt em vice-consulado. Perante o facto, a Lusa publicou uma notícia com o seguinte título: Portugueses contestam alegada despromoção do Consulado de Frankfurt. Assim mesmo: alegada, como se o facto deixasse quaisquer dúvidas.
Sim, demos cabo dos belgas, e com alguns golos de encher o olho. Mas há uma coisa em que o treinador belga tem razão e de que me envergonho: o comportamento dos portugueses em Alvalade durante o hino belga. Alguém explica àqueles selvagens que já não vivemos no período das cavernas?

23 de março de 2007

Não se percebe por que razão o Público resolveu publicar uma Nota Editorial a justificar a reportagem sobre a licenciatura de Sócrates. Há dúvidas de que o assunto é notícia? Parece evidente que não. Assim sendo, porquê a explicação? Receio do primeiro-ministro? Suspeita de que os leitores não são suficientemente inteligentes de modo a julgarem por si?

22 de março de 2007

Certamente que ninguém esperava ver esclarecidas as acusações de que Valentim Loureiro é alvo, mas esperava-se que o major tivesse apresentado argumentos mais contundentes na entrevista à RTP. (Falo de contundência em termos de conteúdo, que na forma foi contundente bastante.) Valentim Loureiro embrulhou-se em demasia em explicações detalhadas sobre assuntos que ninguém conhece (e de que ninguém quer saber), e que não contribuíram em nada para a sua defesa. Pior: passou a vida a acusar a Justiça de erros processuais, e ninguém acredita que a Justiça, por mais desacreditada que esteja, tenha feito tudo mal. Resumindo, Valentim Loureiro perdeu uma excelente oportunidade para demonstrar que está inocente dos crimes (26) de que é acusado, e tudo indica que por falta de argumentos.

21 de março de 2007

A palermice do guarda-redes da selecção belga, que terá dito a um jornal que a estratégia da sua equipa para o jogo com Portugal passaria por lesionar Cristiano Ronaldo logo nos momentos iniciais, vai, obviamente, voltar-se contra a sua equipa. É que, após o barulho causado, já se estão a ver os belgas a ter especiais cuidados com o nosso craque, pois certamente que vão querer demonstrar que não há más intenções. Os belgas mas não só os belgas, que a equipa de arbitragem não deixará de estar de olho nos rapazes. Caso para dizer que há males que vêm por bem.
Belmiro de Azevedo acha que o Governo não foi neutro no negócio da OPA e devia ter sido. Mas, depois, esperava que o mesmo Governo «indicasse um voto óbvio de apoio à operação» da Sonae. Ou seja, esperava que fosse neutro... mas que escolhesse a Sonae.
A parte mais interessante do Prós e Contras sobre a televisão em Portugal foi, sem dúvida, aquela em que Morais Sarmento foi apanhado nas nuvens. Não, estou a falar a sério. É que esse foi o único momento que consegui assistir sem bocejar.
Artesanato

19 de março de 2007

Paulo Portas é acusado de assalto ao poder, Ribeiro e Castro de estar agarrado ao poder. Quem tem razão? Vistas as reportagens do Conselho Nacional e lido o que os jornais publicaram sobre o assunto, fiquei sem saber. Pelo meio, Maria José Nogueira Pinto garante ter sido agredida por um deputado de Viseu (que refutou alegando que «os beirões não batem em mulheres»), e peixeiradas sem conta. Os próximos capítulos prometem antecipar os detalhes do enterro do CDS.
António Lobo Antunes dizia, em entrevista ao Público, que «saber ler é tão difícil como saber escrever». A coisa soa a exagero, mas talvez seja um exagero não muito exagerado. Mas se isto se presta a algumas dúvidas, já me parece indiscutível quando ele diz que «ler é uma coisa que também se aprende», e até estou convencido de que qualquer pessoa com hábitos de leitura sabe disso por experiência própria. Indiscutível e uma verdade que apetece lembrar aos que andam para aí a dizer sem dizer que têm um problema com Lobo Antunes, embora não esclareçam qual.

16 de março de 2007

Os americanos têm planos para atacar o Irão? Seria leviano não os terem. Mas tê-los não significa que se preparem para os pôr em prática, coisa que ninguém deseja. Significa, sim, que os EUA estão preparados para essa eventualidade, o que é muito diferente. Aliás, como pressionar o Irão com alguma eficácia sem ameaças sérias em cima da mesa?

14 de março de 2007

Graças ao post de Francisco José Viegas, redescobri Rentes de Carvalho, de quem já tinha lido algumas prosas na Periférica e, depois, em Os Canhões de Navarone. Falo do Tempo Contado, um blogue que eu não sabia que existia e de onde acabo de regressar após ter lido todos os posts. Podia aconselhar vários textos lá publicados, mas este deve bastar para abrir o apetite.

12 de março de 2007

Eduardo Cintra Torres (ECT) prossegue, no Público, a cruzada contra o Governo, mais exactamente contra o que ele designa por «intervenções cirúrgicas» do Governo na RTP. Argumenta o crítico que o Telejornal deu 2 minutos e 28 segundos à posição do Governo sobre as estatísticas dos tribunais e 3 minutos e 14 segundos às posições contrárias. Como «dar os dois lados da questão era mau para o governo», concluiu, a televisão pública resolveu convidar o ministro da Justiça para o mesmo Telejornal, onde terá falado durante 6 minutos e 33 segundos. Remata ECT sobre este episódio que o «governo ficou a ganhar com o triplo do tempo e a última palavra». Ora, apesar de rigorosos na aparência (veja-se o pormenor dos segundos), os factos avançados por ECT são insuficientes. Resumir a questão ao tempo de antena a que cada um teve direito não me parece razão bastante para que se possa dizer que o Governo beneficiou, como também não me parece que a simples presença do ministro no Telejornal beneficie, por si só, o Governo — além de me parecer plenamente justificada a presença do ministro no Telejornal. Se o ministro Alberto Costa beneficiou com as explicações que deu, é coisa que não se pode aferir, apenas, pelo tempo de antena que lhe concederam. Prossegue ECT afirmando que o Notas Soltas é «o mais aviltante programa de propaganda governamental pós-moderna da actualidade», alegando que é um espaço televisivo onde «o governo dá instruções ideológicas aos seus militantes». Pior: o Notas Soltas é feito pelo «nº 2 do partido do governo», apesar de reconhecer ao dr. Vitorino «algumas opiniões genuinamente individuais». Ora, quer isto dizer que a televisão do Estado não pode ter comentadores pró-governamentais ou do partido do Governo? Será que o modelo de televisão pública só comporta comentadores políticos da oposição? Termina ECT dizendo, sem dúvida para reforçar a tese das «intervenções cirúrgicas», que o Prós & Contras desse mesmo dia «cumpria uma vez mais a sua missão cirúrgica» de apoiar o Governo ao conceder 189 minutos de antena ao ministro Correia de Campos, esquecendo-se de especificar o tempo gasto por quem se lhe opôs e repisando a tese de que o tempo é tudo o que importa — além de acusar os profissionais que fazem aquele programa de cederem às pressões do Executivo. Tudo isto para dizer que o Governo instrumentaliza a televisão sob a sua tutela, demonstrando estar disposto a tudo para alcançar esse propósito, incluindo tirar olhos. Ora, o Governo usa a RTP em seu benefício? Hoje como ontem, a resposta é: provavelmente. Aliás, há anos que ouvimos esta conversa, e não deve haver Governo que não tenha ficado com a fama de controlar a RTP — e, provavelmente outra vez, com o proveito. Ora, é precisamente este o meu ponto. Que um cidadão tenha suspeitas e as divulgue, aceita-se. Mas de um crítico de media espera-se mais, muito mais: espera-se que vá além das insinuações, e espera-se que apresente factos sólidos quando faz acusações. Pior: as críticas sobre esta matéria vêm quase sempre de gente suspeita politicamente, o que leva os cidadãos menos apaixonados pela política a encará-las com cepticismo e a reduzir-lhes a eficácia. Devo dizer, depois destas reticências, que não tenho razão alguma para defender o Governo nesta ou noutras matérias, e que o meu ponto de vista sobre este assunto não varia consoante a cor política de quem está no Governo. Devo dizer, também, que tenho plena consciência de que estou a remar contra a maré, que me vão acusar de estar ao serviço de não sei que forças, pois o normal num caso destes não é defender o que se julga estar certo mas puxar a brasa à sardinha. Digo isto sobre a tese de ECT por outras razões: porque criticar assim não custa nada; porque me chateia que se façam acusações que nunca se provam; porque me chateia que praticamente ninguém dos que discordam reaja ao que ele escreve; porque me chateia que acusações deste teor deixem quase sempre a quem acusa o estatuto de corajoso — que nem sempre merece — e o acusado sem hipótese de defesa — o que é uma injustiça.
A nova direcção do DN entrou em funções no dia em que o mesmo DN anunciava, na capa, que o Governo efectuou 2373 nomeações em dois anos. Terá sido coincidência?

8 de março de 2007

Repararam naquele momento em que o líder dos Super Dragões abandonava a PJ após ter prestado declarações e se virou para os jornalistas para lhes comunicar que não falava por causa do segredo de Justiça? Pois fiquem sabendo que são momentos como este que me fazem sentir orgulho de ser português... e viver no estrangeiro.

7 de março de 2007

«A acumulação da medicina pública com a privada é nefasta para o País», disse António Barreto ao Expresso. E nefasta porquê? Porque, segundo ele, «há muitos médicos que têm interesse em que os serviços públicos funcionem mal porque isso aumenta a possibilidade da actividade no serviço privado». Disse mais António Barreto ao semanário de Balsemão: «Geralmente [os médicos] passam a manhã no público e a tarde no privado. Não trabalham o número de horas suficiente no público, talvez metade ou um terço do que deveriam trabalhar. Operam pouco no público para operarem à tarde no privado. Com este sistema dominam a oferta e a procura.» Ora, perante estes factos, os médicos não têm nada a dizer? Preferem fazer de conta que não ouviram ou que não é nada com eles? É claro que nem todos os médicos recorrem ao expediente, como António Barreto teve o cuidado de realçar, mas até por esse motivo deviam tomar posição.

5 de março de 2007

Anda por aí um mal disfarçado ressentimento de alguns jornalistas contra a blogosfera em geral e contra alguns bloggers em particular. Parece que não se pode criticar os jornalistas, e a haver críticas só podem vir do meio — ou de alguém com provas dadas no meio. (O resto está aqui.)

2 de março de 2007

Se não estou em erro, já escrevi pelo menos duas vezes sobre o eBook (refiro-me à maquineta que permite ler livros ou outros textos em formato digital), mas apetece-me voltar ao tema. Contrariamente ao que sucedeu das outras vezes, agora para falar mal. Depois de ter elogiado o Rocket eBook e o RCA eBook, e aguardar durante meses o modelo da Sony (o Portable Reader), chegou a hora dos defeitos. Não que eu tenha mudado de opinião acerca do eBook, mas porque o tão aguardado modelo da Sony foi uma desilusão quase completa. Digo «quase completa» porque tem coisas boas, mesmo coisas muito boas, só que escassas. A primeira é a qualidade de imagem, que melhorou substancialmente. Graças a uma nova tecnologia, é possível, agora, ler sob luz intensa (do sol, por exemplo), coisa que não se podia nos anteriores modelos. A segunda é o design da maquineta (do tamanho de um livro de bolso com cento e poucas páginas, para simplificar a explicação). A terceira… bom, não há terceira. Já na parte má sobram exemplos. O primeiro de todos, e totalmente incompreensível, é a impressão de que os técnicos da Sony não olharam para os anteriores modelos e copiaram o que estava bem. Qualquer um desses modelos possibilita a leitura nocturna e possui ecrã táctil, características ausentes do modelo da Sony que fazem uma enorme diferença. Para quem não sabe do que falo, a luz interior possibilita a leitura às escuras (como nos ecrãs dos computadores), e o ecrã táctil permite operar a maquineta de forma mais intuitiva e com maior rapidez. Mas há mais defeitos: os botões que permitem «folhear» as páginas estão mal situados, obrigando o uso das duas mãos (o que não sucede nos modelos da Franklin e da RCA). Falta-lhe, também, um motor de busca capaz de pesquisar dentro de um texto, apesar de disponível no software que interage a maquineta com o computador. Há outras funcionalidades que não existem ou podiam ter sido melhoradas, mas estas são as essenciais e chegam e sobram para que se possa dizer que o Portable Reader é um modelo falhado. Falhado por causa das expectativas criadas, falhado porque os defeitos superam largamente as vantagens face aos modelos anteriores. Como leio no eBook praticamente desde o seu aparecimento, e porque cada vez encontro mais vantagens no eBook quando o comparo ao livro tradicional, acreditem que sou o primeiro a lamentar.
Significa isto que o Pedro Mexia se casou?

1 de março de 2007

O príncipe Carlos resolveu sugerir o fim da cadeia McDonald’s, a pretexto de que a comida que lá se vende faz mal à saúde. Sendo o cavalheiro um entusiasta da chamada comida biológica, compreende-se. Mas seria bom lembrar-lhe uma evidência: a McDonald’s é, apenas, a face mais visível de um certo tipo de comida que está em todo o lado, pelo que não deve ser tomada de ponta. Depois, onde nos levaria uma proibição destas? A só podermos comer o que faz bem à saúde? À recusa dos serviços de saúde em pagar os tratamentos caso a mijinha demonstre transgressão à cartilha?
Mário Bettencourt Resendes tem saudades dos tempos em que os jornalistas não eram matéria de notícia, em que o trabalho por eles desenvolvido não tinha o escrutínio que tem hoje. Cita um exemplo para ilustrar a ideia: a reportagem da CBS sobre o serviço militar de Bush que custou o emprego à autora e ao apresentador do 60 Minutes após um blogue ter revelado que os documentos exibidos pela CBS eram forjados, apesar de «todas as precauções da equipa de reportagem». Ora, como sabe Bettencourt Resendes que houve «todas as precauções da equipa de reportagem»? É um palpite? Não teria sido mais rigoroso dizer que os intervenientes no episódio da reportagem alegaram ter tomado «todas as precauções» em vez de apresentar a coisa como se de um facto inquestionável se tratasse? E o facto de um simples blogue ter descoberto a marosca que «todas as precauções» da CBS não detectaram não é, para Bettencourt, matéria relevante? Termina o cronista dizendo: «Fica a lição de que o jornalismo de investigação assenta, nestes dias, em terreno cada vez mais pantanoso, exigindo cuidados redobrados.» Ora, isso é mau?

28 de fevereiro de 2007

«Passávamos, jovens ainda, sob as árvores altas e o vago sussurro da floresta. Nas clareiras, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A brisa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Falávamos das coisas impossíveis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da floresta. Ouvíamo-las como se fossem de outros.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

27 de fevereiro de 2007

Tencionava fazer um post genial sobre a palestra do Francisco José Viegas na Rutgers, mas não me sai nada. Direi, apenas, que falou, sobretudo, de Jaime Ramos, com uma breve passagem por este admirável cronista.
Imagina-se que após aturados estudos, Vital Moreira descobriu, finalmente, a pólvora. Vai daí, achou por bem alardear tão importante feito para o destino da humanidade em geral e dos portugueses em particular. A coisa vem pormenorizada no Público de hoje, pelo que me dispenso de contar. Apenas um pequeno reparo: fosse outro o sentido do achado, e Vital Moreira não teria aberto a boca. É que a seriedade é uma coisa muito bonita — mas só se exige aos outros.
A anedota do dia.

26 de fevereiro de 2007

Estão em curso manobras destinadas a reabilitar a imagem política de Alberto João Jardim. Aliás, o próprio não se tem cansado de fazer declarações apaziguadoras, sem dúvida no intuito de passar uma imagem de moderação e bom senso. Invoca-se que o ex-presidente da Madeira fez bem em demitir-se, que a nova realidade das finanças regionais vai pôr em causa a execução de projectos com que se terá comprometido perante os eleitores. Não duvido. Mas também já disse e volto a insistir: que condições passará a ter Alberto João Jardim se for reeleito que não tinha quando se demitiu? Tirando razões de pequena política, não se vislumbra. E ainda menos se entende que o cavalheiro tenha deixado de ser, de um dia para o outro, tudo de que o acusavam, nomeadamente de práticas inaceitáveis num regime democrático. Curiosamente, alguns dos que agora o pretendem «reciclar» são os mesmos que ainda há pouco eram os seus principais críticos.
Há planos para assassinar Hugo Chávez e a «revolução pacífica bolivariana», diz um alto responsável venezuelano. Depois do alegado plano económico contra a Venezuela, prepara-se o assassinato do grande líder. Pena é que Chávez e capangas não se distingam pelas melhores razões, e que o povo que dirigem nada beneficie com tanta sabedoria.

22 de fevereiro de 2007

As notícias de que o Irão terá, em breve, capacidade para enriquecer urânio a uma escala industrial e a que nos dá conta do fracasso das negociações conduzidas pela União Europeia com vista a dissuadir o regime iraniano do programa nuclear são inquietantes. Claro que as negociações vão continuar, como ainda esta semana garantiu um responsável iraniano, pois qualquer palerma já percebeu que a estratégia de Teerão é queimar tempo. Escusado será dizer, também, que o envolvimento iraniano no Iraque, nomeadamente através do fornecimento de armas aos xiitas, é (mais) uma mentira americana, e que se forem encontradas armas iranianas no Iraque só podem lá ter sido postas pelos americanos com o objectivo de incriminar Ahmadinejad e, de caminho, justificar uma intervenção militar no Irão. E também será desnecessário relembrar que o facto de o regime iraniano se estar borrifando para a ONU não indigna ninguém, nomeadamente os que se indignaram quando os americanos foram para o Iraque à revelia da ONU, pois a indignação varia consoante as circunstâncias e os protagonistas. Mas o que realmente incomoda no meio disto é verificar-se que as grandes questões mundiais estão a ser encaradas à luz do pró-americanismo ou do anti-americanismo, uma irresponsabilidade que só pode acabar mal.

20 de fevereiro de 2007

O directo televisivo da chegada de Mourinho e companhia ao aeroporto de Pedras Rubras chegou a ser hilariante. Quando é que os repórteres (e quem manda neles) deixam de se comportar como fãs em histeria? Que teria Mourinho de tão importante a dizer à chegada de Londres que justificasse tanta correria para obter uma declaração? Não há pachorra para o jornalismo basbaque.
Já se sabe que a culpa será dos americanos se as coisas correrem mal ao regime de Hugo Chávez. Mas, para o caso de haver dúvidas, o presidente venezuelano já avisou: os Estados Unidos fomentam um «plano económico» contra a Venezuela. Isto no mesmo dia em que Chávez ameaçou nacionalizar supermercados, armazéns frigoríficos e matadouros caso não cumpram o regime de preços por ele imposto, um «filme» demasiado visto e que acabou mal. O problema é que a desculpa do cavalheiro é bem capaz de funcionar, pois o anti-americanismo deixou de ser um meio para se transformar num fim em si mesmo — e a História está sempre a demonstrar que não aprendemos nada com ela.
Este Holocausto será diferente

19 de fevereiro de 2007

Digam o que se disserem, faz todo o sentido a demissão de Alberto João Jardim, pois é coerente com o que tem defendido. Mas já não se percebe por que razão se recandidata. Afinal, se agora não tem condições para enfrentar a «multiplicação de novos problemas», passará a tê-las uma vez reeleito?

16 de fevereiro de 2007

Está na moda dizer que a Justiça devia ter gabinetes especializados em comunicação — ou receber formação que a habilite a lidar eficazmente com os media. Ora, não me parece. Não que não fosse útil que os profissionais da Justiça aprendessem a lidar com os media e que existissem gabinetes especializados no assunto, mas porque não me parece que é a eles que compete essa função. Não se percebe o que dizem quando falam de processos? Compete aos jornalistas descodificar e explicar aos leigos. Estou convencido, aliás, que os jornalistas ultrapassam facilmente o problema se realmente estiverem interessados em ultrapassar o problema, que a mim me parece mais de preguiça do que ou coisa.

15 de fevereiro de 2007

O Presidente da República resolveu apelar a «soluções de bom senso» na elaboração da nova lei do aborto de molde a «que possam ajudar a unir os portugueses» mas criou — ou ameaça criar — um clima contrário a essa ideia. A pretexto de que não se pode desperdiçar «a possibilidade de estabelecer consensos alargados» numa matéria que «pode ter causado rupturas na sociedade portuguesa», Cavaco acaba de deixou no ar a ameaça de veto, o que não deixa de ser uma ironia por vir precisamente de quem defende que se deve procurar «unir a sociedade portuguesa e não dividi-la ainda mais».

13 de fevereiro de 2007

Afinal, os resultados de um referendo podem ser vinculativos se a taxa de participação for igual ou superior a 50%, ao contrário do que eu julgava. O post de ontem parte, portanto, de um pressuposto errado. É o que dá escrever e publicar no momento, desconhecer ou avaliar incorrectamente os factos de que dispomos no momento de opinar. Não foi a primeira vez que me sucedeu, nem será a última. Claro que eu podia apagar o post ou fazer de conta que nada tinha acontecido, mas sou contra tais práticas. Para mim, o que foi publicado não deve ser alterado. Corrigir uma gralha ou um erro de concordância, tudo bem. Remendar uma ideia mal parida ou eliminar o que está mal feito, nem pensar. A coisa saiu mal, assumam-se as consequências. Resta-me que o essencial da ideia defendida no post se mantém intacto. Isto é, o resultado do referendo acaba, na prática, por ser vinculativo, haja ou não participação igual ou superior a 50%. Como, aliás, os preparativos para a mudança da lei já o estão a demonstrar.

12 de fevereiro de 2007

Já se sabe que o resultado de um referendo — de qualquer referendo — não tem carácter vinculativo, como agora repetem os adeptos do «não». Mas também já se sabe que o Governo não pode — nem deve — ignorar o resultado de um referendo, mesmo que ele indique o contrário do que pretende. Votaria «sim» se me fosse permitido votar, mas defenderia o mesmíssimo princípio se o resultado tivesse sido outro. Ignorar o resultado de um referendo seria o mesmo que acabar com o referendo. E não ignorar o resultado de um referendo equivale, na prática, a um vínculo ao resultado, goste-se ou não da ideia e diga a lei o que disser.
Percebe-se que o presidente da Câmara de Gaia procure todas as oportunidades para demonstrar que existe politicamente, mas dizer que os resultados do referendo sobre o aborto foram «uma enorme derrota» para o primeiro-ministro e «um cartão amarelo» à sua governação a pretexto de que a soma do absentismo e dos votos do «não» constitui 80 por cento dos portugueses, é um disparate sem nome. Luís Filipe Menezes devia saber que o pior que se pode fazer é quer transformar derrotas em vitórias, mesmo que tenha razões para isso (o que não é o caso). E devia saber, também, que a falta de fair play na hora da derrota é coisa que cai sempre mal.

9 de fevereiro de 2007

Se a memória não me falha, só uma vez me desfiz de livros. Foi há uns anos, quando a falta de espaço nas estantes me obrigou a deitar fora algumas dezenas de manuais que dantes acompanhavam os programas de computador. Mesmo tratando-se de livros que me vieram parar às mãos sem que os tivesse solicitado (e que raramente consultei), custou-me desfazer-me deles. Afinal, livros são livros, e eu tenho dificuldade em desfazer-me dos livros. Mesmo dos que me parecem maus ou inúteis, como o caso dos manuais. Mas é o que, agora, me apetece fazer com os livros que semanalmente recebo com a Sábado. Não haveria nada melhor para distribuir com a revista?

7 de fevereiro de 2007

Está visto que será um fracasso caso a investigação do Ministério Público não conclua (e demonstre) que Portugal foi local de passagem de voos da CIA com conhecimento, ou não, das autoridades portuguesas. Quando se parte da conclusão para os factos e os factos não se ajustam à conclusão previamente tirada, o resultado não pode ser outro.
«(…) seria de todo desejável saber o que é que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tem a dizer sobre a liberdade de imprensa na Madeira e a forma como ela pode ser economicamente condicionada e politicamente manipulada, independentemente de uma eventual alteração legal que impeça autarquias e regiões autónomas de serem proprietárias de órgãos de comunicação social.» Amílcar Correia, Público de hoje
Os europeus odeiam a América por causa do que ela tem de bom.

5 de fevereiro de 2007

A independência económica do jornalismo nunca passou de uma miragem, embora já tivesse melhores dias. Mas o caso da Madeira, onde o Governo local injecta milhões num jornal, é particularmente chocante. E mais chocante se torna quando Alberto João Jardim tem o descaramento de justificar o dinheiro gasto pelo Governo a que preside com a necessidade de garantir o «pluralismo ideológico» da comunicação social, argumentando que o Jornal da Madeira é um «marco dessa luta» e que é «o único que rema contra a maré». Chocante é uma maneira de dizer, que já nada choca o que vem de quem vem. Só espanta é que ainda haja quem acredite nele, embora o caso do Jornal da Madeira ajude a entender por que razão isso acontece.

2 de fevereiro de 2007

Causou alguma celeuma o facto de um movimento de cidadãos ter subscrito um documento onde se pedia a libertação do sargento Luís Gomes, argumentando-se que se pretende trazer a Justiça para a rua e que se está a entrar por um caminho perigoso. Ora, não vejo porquê. Antes de mais, como exprimir, então, o famoso direito à indignação? Depois, se a Justiça não é capaz de resistir às pressões de um pacato grupo de cidadãos, é capaz de quê? Parafraseando Churchill a propósito da política, a Justiça é demasiado importante para ser deixada, apenas, nas mãos dos técnicos da Justiça, e não deve estar acima da crítica. Era só o que faltava que os cidadãos não pudessem manifestar-se contra as decisões da Justiça sempre que o entendam, mesmo que isso provoque danos colaterais indesejáveis.

1 de fevereiro de 2007

Ser-me-á absolutamente indiferente qualquer que seja o resultado do concurso Os Grandes Portugueses, mesmo que o resultado seja a vitória de um dos cavalheiros que poucos esperariam ver na final e por quem não nutro a mais leve simpatia. Mais: acho um exagero a importância que se está a dar ao programa televisivo, e espanta-me que figuras por quem nutro um enorme respeito percam tempo com o assunto. Afinal, estamos a falar de um programa de entretenimento, e um programa de entretenimento não justifica tanto barulho. Não será assim? Como já perceberam, não é assim. Desde os que nunca se conformaram pelo facto de Salazar não integrar a lista inicial destinada a promover o concurso aos que se indignaram por o ditador integrar a lista final, passando pelos que não percebem por que razão Álvaro Cunhal integra o «top» final ou não gostaram de o lá ver devido aos bons ofícios dos comunistas, toda a gente leva a coisa a sério. Tão a sério que até fica a ideia de que abundam os que não hesitariam mudar o sentido de voto dos telespectadores caso tivessem meios para tal, coisa que certamente não envergonharia Salazar ou Cunhal e que talvez explique a popularidade de ambos.

31 de janeiro de 2007

É sempre bom ouvir Mário Soares dizer que «as mulheres devem ser tudo o que quiserem pelo seu mérito e não por serem mulheres», e que «o problema dos alter-mundialistas é que não propõem modelos» alternativos. A coisa pode ser óbvia, mas é bom que tenha sido dita por quem foi dita.
Excelente o último Prós e Contras sobre o aborto, que só hoje pude ver. Houve argumentos sérios de ambos os lados, e a generalidade dos intervenientes esteve à altura do exigido. Se contribuiu para convencer mais alguns a votar no dia 11 ou para tirar dúvidas a quem as tinha, temo bem que não tenha sido um sucesso. Por mim falo. Continuaria a votar «sim» no referendo caso pudesse votar, mas com as mesmíssimas dúvidas que tinha antes do debate.

30 de janeiro de 2007

Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever - enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.
Herberto Helder, Vida e Obra de Um Poeta (in Os Passos Em Volta)

29 de janeiro de 2007

26 de janeiro de 2007

«Mais de metade dos participantes num inquérito promovido pela Associação Académica da Universidade Beira Interior (AAUBI) respondeu que não está esclarecida sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez», diz um inquérito realizado naquela instituição de ensino que abrangeu alunos, professores e funcionários. Desconheço se foram feitos estudos idênticos noutras universidades, e se foram quais foram os resultados. Mas não custa imaginar que, a existirem, os resultados não serão muito diferentes. Ora, se na universidade é assim, como será fora dela? A não ser que haja uma explicação improvável, imagina-se que pior. Temos, assim, que as campanhas que por aí vão não esclarecem nada nem ninguém. Talvez pior: aumentam as dúvidas de quem as tem, e confundem quem já está confundido. Vejo isto por mim, que já aqui disse que votaria «sim» caso votasse no referendo de Fevereiro. Apesar de não ter lido um décimo do que se publicou nos jornais e na blogosfera, não tenho dúvida de que teria gasto melhor o meu tempo caso o tivesse investido noutra actividade. É que a demagogia e os insultos não ajudam ninguém, e desanimam qualquer um.
Existem centenas de funcionários do Fisco que acumulam o exercício da actividade pública com trabalhos realizados para o sector privado.

23 de janeiro de 2007

Dificilmente poderiam ter estado pior os convidados do Prós e Contras sobre o caso da adopção da criança. Então aquele senhor que veio do Porto fazer o enorme favor de estar ali para partilhar a sua sabedoria com o comum dos mortais, e que se embrulhou num despropósito interminável que ninguém percebeu, foi de fazer perder a paciência a um santo. Só vi a primeira parte do programa (as restantes não estavam disponíveis na internet ontem à noite), mas cheira-me que não perdi grande coisa.

22 de janeiro de 2007

Consta que terá sido aberto um inquérito destinado a apurar as circunstâncias em que a cópia de um despacho da juíza Maria José Morgado foi parar à internet. A ideia, presumo, é encontrar o culpado (ou culpados), e, presumo outra vez, agir em conformidade. Não será assim? Não, não é, como todos estamos fartos de saber. Não é porque ninguém conhece o desfecho dos variadíssimos inquéritos que volta e meia se anunciam com grandes parangonas. Aliás, toda a gente sabe quem são os responsáveis pelas fugas de informação, pelo que os inquéritos mais não são do que um expediente destinado a calar as críticas fingindo que se vai fazer alguma coisa.

18 de janeiro de 2007

Já se sabia que a Justiça era incompetente, mas não se sabia que era tanto. A sentença do Tribunal de Torres Novas sobre o caso da criança adoptada por um casal do Entroncamento até pode ser inatacável do ponto de vista jurídico, mas como entender que o tribunal tenha decidido tirar uma criança aos pais adoptivos (os únicos que a criança conhece e com quem vive desde que nasceu) e entregá-la a um estranho? E como entender a decisão de punir com seis anos (?!) de cadeia um pai (mesmo que adoptivo) que se limitou a defender (como qualquer pai faria) quem trata e acolheu como filha e premiar quem a abandonou no momento em que ela mais precisava? E a criança? O que achará uma criança de cinco anos que se vê afastada de quem mais ama e nas mãos de um cavalheiro que só a Justiça conhece como pai? Não verá o Tribunal de Torres Novas que a decisão que tomou prejudica, sobretudo, quem mais devia proteger? Que raio de Justiça é esta que nem o óbvio é capaz de ver? Conseguirá dormir sem sobressaltos quem decidiu tamanha monstruosidade?

16 de janeiro de 2007

Primeiro, o problema do Iraque era por causa de Bush e dos Republicanos. Agora, é por causa de Bush, dos Republicanos e dos Democratas. Dito de outra maneira, o problema do Iraque é os americanos. Foi isso o que Daniel Oliveira escreveu no Expresso e neste post, e só espantou quem não o conhece. Afinal, o problema, para ele, sempre foi os americanos, embora só agora o tenha assumido. Nada que um psicólogo de vão de escada não seja capaz de explicar.
Quero crer que esta história está mal contada. É que, a serem verdadeiros os pressupostos em que se baseou a sentença, a criança (a vítima) foi a mais prejudicada.

12 de janeiro de 2007

Muito mais do que uma questão polícia, o aumento do contingente militar no Iraque anunciado pelo presidente Bush é uma questão militar. Mas isso pouco interessa para o caso, como se vê por aí com abundância. O que importa é criticar George W. Bush, e se ele decidisse não enviar nem mais um soldado teria sido criticado na mesma — ou talvez mais. Como se vê, vale tudo quando se trata de arrear no presidente americano. Até discorrer sobre estratégia militar, o que chega a dar vontade de rir.
Miguel Sousa Tavares insiste em desvalorizar o Apito Dourado e tentar ridicularizar a ex-companheira de Pinto da Costa. Pior: insiste que há uma cabala contra o FC Porto e seu presidente montada pelos adversários, nomeadamente o Benfica. O caso torna-se ainda mais difícil de entender quando se sabe que Sousa Tavares é licenciado em Direito, ou coisa que o valha. Será que a clubite o impede de ver o óbvio? Conhecendo-se o jornalista doutras batalhas, é evidente que não. Qual é, então, a ideia dele?, perguntar-me-ão. Responderei que isso gostaria eu de saber. Há, no entanto, uma coisa evidente: Sousa Tavares tem-se desdobrado em tentativas de desvalorizar o Apito e tudo o que possa constituir matéria de prova. Mais: para ele, os suspeitos estão inocentes, os que os acusam estão a mentir, e a existência de vítimas não passa de uma invenção. Para demonstrar tudo isso, vale tudo. Até enxovalhar a Justiça, apesar de jurar que não.

10 de janeiro de 2007

A gente lê esta notícia e fica baralhado. Procura saber os motivos e conhecer os detalhes, e depara com isto. Sou eu que percebi mal, ou está tudo doido?
Para quem não tem acesso ao Público online, eis a Nota da Direcção publicada na edição de hoje:
O caso relatado pelo provedor dos Leitores do PÚBLICO na coluna publicada na edição do passado domingo não deixou indiferente a Direcção Editorial. Em causa está uma suspeita de plágio por parte de uma jornalista da redacção do PÚBLICO num artigo editado na revista Pública de 22 de Outubro de 2006.
O provedor dos Leitores já fez, na referida coluna, a análise e julgamentos que considerou pertinentes dentro do pleno exercício das funções que o seu estatuto lhe confere. Essa exposição pública constitui já, e só por si, uma dura crítica aos métodos que são atribuídos à referida profissional para a realização do trabalho em causa. Poderíamos, por isso, dar o caso por encerrado aqui mesmo, confortados pela consciência de ser o PÚBLICO o órgão da comunicação social portuguesa que vai mais longe na prática regular da auto-análise e autocrítica e de as partilhar com os leitores.
No entanto, a Direcção Editorial considera que a suspeita em causa exige que o assunto não seja encerrado e que os padrões de exigência, transparência e auto-regulação devem aumentar e não diminuir.
Nesse sentido, foi solicitada uma reunião urgente ao Conselho de Redacção do jornal, órgão que tem como principal função a avaliação das condutas éticas e deontológicas dos jornalistas. O mesmo fez, de resto, a profissional em causa. Essa reunião vai realizar-se esta manhã e o director do jornal, que preside ao CR por inerência, vai solicitar uma tomada de posição tão rápida quanto possível.
Entretanto a Direcção Editorial do PÚBLICO compromete-se a tornar públicos todos os documentos que já foram e venham a ser elaborados sobre este caso, criando para tal um espaço especial no nosso site na internet (www.publico.pt).
A Direcção Editorial

9 de janeiro de 2007

O texto já foi publicado há uns dias, mas não perdeu actualidade. Pior: a avaliar pelas reacções (que não vi), parece ter passado despercebido.

5 de janeiro de 2007

Não é seguro que as coisas estranhas que Ana Gomes diz ter visto nos Açores tenham sido motivadas pela fé, como suspeita o presidente do Governo local, embora a comparação das «aparições» da deputada com a visão dos pastorinhos de Fátima não seja, de todo, descabida. Nem descabida, nem surpreendente. Afinal, quando se tem uma ideia pré-concebida e os factos teimam em não encaixar-se, só há dois caminhos: desistir, ou recorrer aos santinhos. Ana Gomes é das que prefere os santinhos. Pena é que eles não façam o milagre de a iluminar.

3 de janeiro de 2007

A acreditar na maioria dos comentários que se lêem por aí, o problema não foi a execução de Saddam. O problema foi o vídeo que registou o acontecimento — que não devia ter sido feito, que não devia ter sido divulgado, ou que não devia ter sido divulgado da forma como foi. Tivesse a coisa sido feita discretamente, e não se teria falado um décimo sobre o assunto. Aliás, nem era preciso tanto. Bastaria que não metesse americanos para nem um pio se ouvir.
Pode-se discordar da pena de morte; pode-se criticar a forma como a execução de Saddam ocorreu; pode-se criticar o vídeo oficial e o pirata; pode haver dúvidas acerca de como o julgamento decorreu — mas será que nada distingue «os invisíveis assassínios políticos no tempo de Saddam» das imagens «captadas à socapa em estilo de reportagem», como diz Vicente Jorge Silva? Falamos da mesma coisa quando falamos da execução de Saddam e dos assassínios políticos por ele ordenados? Haja decoro!
Rui Ramos no Público de hoje: «É curioso ver os mesmos que declararam a democracia de tipo ocidental imprópria para o Médio Oriente a exigirem agora a abolição da pena capital no Iraque.»

29 de dezembro de 2006

«— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?» Herberto Helder, Os passos em Volta

28 de dezembro de 2006

«(…) in Aracataca, where we lived, I'd never had the chance to see ice. And once the banana company commissioner received some frozen snapper. And I was struck by those red snappers that looked like rocks, so I asked my grandfather. And my grandpa, who always explained everything to me, said they looked like rocks because they were frozen. And I asked him what "frozen" meant, and he took me by the hand and took me to the commissioner and asked them to open up a box of frozen snapper, and I got to discover ice. And of course, when I had to decide between dromedary and ice, I stayed with ice because, from a literary standpoint, it was much more suggestive. What's incredible now is that all of One Hundred Years of Solitude started from that all-so-simple image.» Gabriel García Márquez, entrevista a Ernesto González Bermejo (1971)

27 de dezembro de 2006

O presidente do FC Porto passou a noite de Natal numa instituição de solidariedade social com os sem-abrigo, com quem terá dividido o bacalhau. A responsável pela instituição, para quem Pinto da Costa «surpreendeu toda a gente» ao permanecer no local durante algumas horas e por ter estado «muito tempo a conversar» com os sem-abrigo, não teve a mais leve dúvida acerca do gesto do dirigente desportivo: «Ficámos todos surpreendidos. Nós sabemos que ele [Pinto da Costa] tem aquele lado humano, mas, mesmo eu, que o conheço tão bem, fiquei surpreendida quando ele disse que queria ficar», disse à Lusa. Eça de Queirós escreveu que há quem dê dinheiro aos pobres para que a caridade venha no jornal, e que para «alcançar o louvor» do dito «os homens praticam todas as acções — mesmo as boas». Não será o caso de Pinto da Costa. Mas quando a esmola é grande, o pobre desconfia.

26 de dezembro de 2006

VELHICE (1). A gente descobre que está a ficar velho quando começa a acordar à hora a que dantes se deitava.

22 de dezembro de 2006

Ana Gomes insiste na ideia de que Portugal serviu de escala a aviões de transporte ilegal de prisioneiros rumo a Guantánamo. Pior: segundo ela, o actual Governo terá ocultado informações (ou prestado informações erradas) sobre o caso à comissão a que pertence. E com base em que factos fez Ana Gomes as acusações? Até ver, com base em nada e coisa nenhuma. Como os dados que lhe forneceram não se encaixam na conclusão previamente tirada, os dados só podem estar errados — ou, então, alguém está a mentir. Imagine-se o que seria caso o actual Governo não fosse do partido a que pertence, e nem seria preciso o Governo Santana Lopes. Razão teve o PS em despachá-la para o Parlamento Europeu, embora não se tenha livrado de embaraços.

20 de dezembro de 2006

Que Miguel Sousa Tavares ache o Apito Dourado um embuste ou uma mera guerra entre clubes, cada um acredita no que quer. Que a única coisa que lhe ocorra é desdenhar de Carolina Salgado e resumir o que ela disse no livro a dor de corno, é lá com ele. Mas que chegue a ponto de ridicularizar o espancamento de um ex-vereador, parece-me que nem os Super Dragões se atreveriam a tanto.

18 de dezembro de 2006

A decisão da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) sobre o caso Cintra Torres/RTP foi, no mínimo, infeliz. Das peripécias que se seguiram à divulgação da decisão, então, nem se fala. Mas o caso propriamente dito — a questão de saber se é verdade que o Governo fez pressão junto da televisão pública por causa dos incêndios, como afirmou o crítico do Público — não merecia passar para segundo plano. Houve, ou não, ingerência governamental na RTP? A coisa vai morrer assim, com a palavra de um contra a palavra de outros? Bem sei que a ERC não encontrou «indícios» de que tenha havido ingerência governamental, mas isso não garante que não tenha havido. Como não garante que tenha havido ingerência governamental o simples facto de Cintra Torres o escrever. Pode ser que quando a poeira assentar e for conhecido o desenlace dos processos judiciais anunciados por alguns jornalistas da RTP ao colunista se conheçam novos detalhes. Sim, é bom não perder de vista que não é só o Governo que está em causa, como chega a parecer pelo que se lê por aí. Há jornalistas acusados por Cintra Torres de terem sido alvo de pressões (e, supõe-se, de a elas terem cedido) que importa saber se são culpados ou não.

15 de dezembro de 2006

A avaliar por aquilo que vem nos jornais, e que ainda não vi desmentido, a Judiciária do Porto não esteve à altura do Apito Dourado. Isto para dizer o mínimo dos mínimos e não correr o risco de estar a ser injusto para com aquela polícia — ou de me mandarem prender. É que os indícios — fugas de informação, denúncias de que um subinspector terá sido obrigado a aposentar-se para evitar males maiores — demonstram que há mais que motivos para dúvidas, e não deve ser por acaso que já se fala que o Apito vai mudar para a delegação de Lisboa. Assim sendo, sobra, para já, uma evidência: a Judiciária do Porto caiu no descrédito. Pior: é um perigo.

14 de dezembro de 2006

Parece que o procurador-geral da República ficou «estupefacto» quando soube que o juiz Carlos Teixeira foi perseguido por causa do Apito Dourado. «Quando um magistrado do Ministério Público é perseguido, o próprio Estado fica em causa», disse Pinto Monteiro ao Correio da Manhã. De facto, assim é. E ainda mais preocupante se torna quando se constata que o procurador-geral da República só tomou conhecimento do caso há meia dúzia de dias, e através dos jornais.

13 de dezembro de 2006

Miguel Sousa Tavares diz que o livro de Carolina Salgado «é um dejecto de ressabiamentos e vinganças pessoais», e que o conteúdo do dito apenas ilustra «o carácter da senhora». Sobre o principal visado no livro (Pinto da Costa) e a natureza das acusações que lhe são feitas, o jornalista limita-se a dizer que são matéria que «a justiça terá de apurar», e que só aos protagonistas compete responder. Ora, custa-me a digerir a indignação de Miguel Sousa Tavares contra a dona Carolina (que se limitou a acusar Pinto da Costa de crimes vários e a dizer-se cúmplice de alguns deles) e que só tenha criticado ao de leve Pinto da Costa — e, apenas, pelo facto de este ter promovido a senhora a «uma espécie de primeira dama do FC Porto». Sendo Miguel Sousa Tavares adepto confesso do clube presidido por Pinto da Costa, será que os argumentos aduzidos na crónica do jornal A Bola enfermam, apenas, de clubite aguda? É que arrear na dona Carolina, mesmo por todas as razões que possa haver (e parece que há), não custa nada, e a forma como Sousa Tavares o fez até deixou a ideia de que tem um problema com as origens (humildes, suponho) da senhora. Mas, pelos vistos, já custa mais arrear em quem tem outro poder de fogo, mesmo que haja fortes motivos para isso e não sobeje ao visado argumentos para se defender.

11 de dezembro de 2006

As revelações dos últimos dias a propósito dos futebóis colocam Portugal ao nível de uma república das bananas. É provável que nem tudo o que se diz seja como se diz, mas adivinha-se que há mais episódios por contar — e que a verdade seja ainda pior. Aliás, duvido que haja um só português que se tenha surpreendido com os últimos acontecimentos, pois há anos que andamos a ouvir acusações iguais ou piores — e ninguém acredita que, no caso em apreço, haja fumo sem fogo. Mas o pior nem é isso: o pior é o papel dos agentes da Justiça, que vão da aselhice à impotência, da incompetência à promiscuidade. Muito mais do que razões para não acreditarmos nela, a Justiça tem vindo a dar-nos motivos para termos medo dela.

7 de dezembro de 2006

A invasão do Iraque pela tropa americana foi decidida porque havia indícios credíveis (repito: indícios credíveis) de que o regime de Bagdade possuía armas de destruição maciça. Lembro-me perfeitamente das críticas de alguns políticos e das reservas de alguns países quanto à oportunidade de invadir o Iraque, mas não me lembro de ninguém pôr em causa a existência desses indícios. Isto para começar. Depois, a invasão não foi decidida pelo presidente Bush, que não tem poderes para isso. A decisão foi tomada pelo Congresso, com os votos dos Republicanos e dos Democratas, o que levanta a questão de saber se Bush, esse idiota, também enganou os Democratas — além dos demais países que se juntaram aos americanos na coligação, entre os quais aquele de que é primeiro-ministro Tony Blair, esse outro idiota. Em matéria de mentiras, estamos, portanto, conversados. Mas quando se procura combater estas «mentiras» com inverdades, passa a ser demais. E mais chocante se torna quando elas vêm de quem tem responsabilidades nos jornais que se apresentam como de referência, de quem se esperaria que se movesse pelo rigor dos factos e tudo fizesse para evitar a mentira. Falo de António José Teixeira, director do DN, mas podia ser doutros. É que dizer-se que Bush «mentiu» sobre a existência de armas de destruição maciça e que o presidente americano «sabia que estava a mentir» é faltar à verdade, pois isso é uma suposição e não um facto. Dir-me-ão que um editorial é, por regra, um artigo de opinião, e eu concordo. Acontece que a afirmação em causa não aparece no texto como sendo uma opinião, no caso uma opinião do director do DN, mas como um facto. E ninguém acredita que um jornalista tão experimentado como António José Teixeira tenha cometido um erro destes por ingenuidade ou descuido.

6 de dezembro de 2006

Qual é o problema de os árbitros de futebol serem obrigados a declarar os rendimentos? Porque são, como diz Paulo Costa, «os únicos agentes do universo do futebol a apresentar uma declaração desse género»? E daí? Quem não deve não teme, não é? O protesto contra a lei que os obriga a declarar o que ganham só podia, por isso, deixar a ideia de que têm algo a esconder, mesmo que assim não seja. Pela natureza da actividade que desenvolvem e pelas suspeitas de que são alvo, seria bom que os árbitros tomassem especiais cuidados e não se metessem em manobras que só os vão descredibilizar.
Ó dra. Ana Gomes, não terá havido aqui mão da CIA?
Ai se os mandarins da TLEBS vêem isto.
«(…) a TLEBS tem um pretérito de palavrosa confusão teórica, um presente de escandalosa deficiência pedagógica e um futuro que só pode ser um lindo enterro.»
Quem terá sido o chico-esperto que inventou a campanha da Galp? E, já agora, quem a autorizou?

5 de dezembro de 2006

Se Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa acham realmente que devia haver julgamento do caso Camarate não teria sido necessário esperar mais um aniversário (e pela «confissão» do sr. Esteves) para o vir dizer. Uma vergonha para a democracia que o caso tenha acabado da forma como acabou, a haver, é o facto de estes senhores (e todos os políticos em geral) terem levado anos a descobrir que «ninguém compreende que tudo esteja por esclarecer», e que só agora se tenham lembrado de pedir um julgamento.
Segundo António Vilarigues, «assiste-se a uma permanente e bem elaborada campanha (…) de branqueamento do regime de Salazar e Caetano» destinada a «reescrever a história de Portugal no século XX». O mais recente episódio desta campanha, acrescenta, é a criação de um museu em Santa Comba com o propósito de fazer «a propaganda do fascismo». Ora, a ser verdade que se pretende criar o museu, não se vê que isso legitime a ditadura de Salazar e Caetano e as patifarias do Estado Novo. Se o sr. Vilarigues está realmente preocupado com o «branqueamento do regime de Salazar e Caetano», parece-me que devia aplaudir iniciativas que visam dar a conhecer melhor tais figuras e suas práticas. Não é evitando falar do passado que se evitam futuros que ninguém quer.
Pena é que o princípio não se aplique a todos quantos foram eleitos democraticamente.
Fazer-nos bem a todo o custo

1 de dezembro de 2006

Como bem notaram alguns, a deputada Luísa Mesquita parece ter descoberto a pólvora. Trinta e dois anos depois de ter aderido ao Partido Comunista e onze anos após desempenhar o cargo de deputada na Assembleia da República, a militante do PC descobriu que o partido a que pertence descarta sem cerimónias quem deixou de lhe interessar ou quem não pensa segundo a cartilha em vigor. Caso para perguntar: onde terá ela andado aquando dos casos João Amaral, Carlos Brito, Alfredo Barroso ou Carlos Sousa? Sim, porque não me lembro de a ver protestar, o que só pode significar que concordou, ou calou. De maneira que, agora, que a coisa lhe tocou pela porta, mais valia que não se queixasse.