11 de março de 2008

TIRO NO PÉ. O modo como Hillary Clinton considerou a possibilidade de Obama vir a ser o seu número dois demonstrou, de novo, que a ex-primeira-dama continua a tratar o seu adversário nas primárias com uma sobranceria que lhe pode sair cara. Apesar de os números há muito demonstrarem que Obama tem todas as hipóteses de bater a concorrente, Hillary insiste em agir como se a nomeação lhe pertencesse por direito divino, e que a candidatura do senador do Illinois não passa de um empecilho de que, a prazo, há-de livrar-se. Como seria de esperar, o presente envenenado com que tentou brindar o seu adversário acabou por se revelar um tiro no pé — e teve a resposta que merecia.

7 de março de 2008

MISÉRIAS. A ONU não perde uma oportunidade de expor as suas misérias. Condenar o atentado em Jerusalém? Sim, desde que a condenação inclua a incursão militar de Israel na faixa de Gaza. Como se vê, a lógica é esmagadora. Condenar os ataques do 11 de Setembro? Sim, desde que se condene a guerra do Vietname. Condenar os atentados no metro de Madrid? Sim, desde que se condene a participação da Espanha na guerra do Iraque. E por aí fora, que a lógica de não querer condenar uma coisa sem condenar a outra acaba a não condenar uma coisa, nem outra.
INTIMIDAÇÃO. Li a notícia em vários locais, mas nenhuma explicou um dado essencial. É, ou não, normal que a PSP vá às escolas recolher informação sobre a manif de amanhã? É que eu suspeito que a omissão deste detalhe não foi inocente, pois sem ele é mais fácil concluir que o Governo, através da PSP, pretende intimidar os professores, e nunca, mas nunca, concluir que se tratou de um procedimento que permita à polícia planear a segurança e/ou o trânsito, hipótese que em teoria é tão boa como a outra. E eu, confesso, duvido da tese da intimidação, por mais razões que tenha para não gostar deste Governo. Aliás, quem ganharia com a intimidação? Evidentemente que a causa de quem se manifesta, que logo poria a boca no trombone (como pôs) a denunciar o expediente e, de caminho, aproveitaria para facturar.
CONSPIRAÇÃO. Barra da Costa, «antropologistacriminologista» (foi assim que o DN o designou), revelou ao mesmo DN que o livro que acaba de publicar (Maddie, Joana e a Investigação Criminal - A Verdade Escondida) tem como objectivo «desconstruir uma aposta sistemática no clima de medo» que diz «pairar sobre as pessoas». Segundo ele, o caso Maddie em particular e os desaparecimentos de crianças em geral não passam de manobras promovidas pelos «abutres do sistema» com vista ao «controlo da população com base no terror dissimulado». O mais espantoso de tudo é que Barra da Costa, ainda segundo o DN, integrou a polícia criminal durante 30 anos. Já a publicação da Verdade Escondida, não espanta rigorosamente nada. Afinal, vender banha da cobra aos incautos é uma actividade que se pratica desde tempos imemoriais, e com resultados comprovados.

5 de março de 2008

PROFESSORES. É fácil e barato atribuir aos governos os fracassos desta ou daquela área da governação, nomeadamente os fracassos resultantes das reformas (ou falta delas), até porque razões são coisa que mais há. Mas é preciso que se diga que os fracassos se devem, sobretudo, à resistência dos abrangidos pelas reformas, por regra avessos a mudanças e prejudicados com as mudanças. Não se podem fazer reformas no ensino que vão contra os professores? Era só o que faltava. As reformas no ensino têm (ou devem ter) como fim último a melhoria do ensino e do aluno. Se implicarem mudanças dolorosas, que impliquem. Vem nos livros que o bem-estar de uns quantos não pode sobrepor-se ao bem geral. Claro que as reformas devem ser feitas com os professores, não contra os professores. Mas contra os professores, se for necessário. Claro que os professores se preocupam com a qualidade do ensino, e ninguém duvida que o queiram melhorar. Mas a prática vem demonstrando que os professores são o principal obstáculo à mudança que as reformas implicam. Nada me move contra os professores, atenção. Mas já me chateia que queiram ser eles (ou os seus representantes) a ditar as regras do que deve ser feito e como deve ser feito. Chateia-me que sejam eles a impedir reformas que todos consideram essenciais, pois eles são parte interessada — e ninguém é bom juiz em causa própria. Chateia-me que os professores se movimentem como se não fossem, também, culpados pelo que vai mal no ensino. Chateia-me que os problemas do ensino se circunscrevam aos problemas dos professores, por mais razões que eles tenham, e por mais legitimidade que lhes assista para lutar pela sua resolução. Chateia-me que o politicamente correcto impeça que se diga, com frontalidade e clareza, que as reformas no ensino passam por atingir os professores, ou parte substancial dos professores, pois ninguém acredita em reformas no ensino que não atinjam os professores. Chateia-me, por último, que não se veja que o fim único das reformas na Educação é (ou deve ser) os alunos e a qualidade do que aprendem, não os professores. A reforma do ensino é um imperativo nacional, garantem políticos e educadores. Deve, por isso, ser feita o mais rapidamente possível, custe o que custar e a quem custar. Se for necessário passar por cima dos professores, que se passe por cima dos professores. Afinal, os professores não são intocáveis, e a Educação é muito mais que os problemas dos professores.
Que o PSD «ainda não merece ser Governo», é uma evidência que só não vê quem não quer. Mas que seja o próprio líder social-democrata a admiti-lo, não deixa de ser irónico. Irónico, mas pouco sério. Afinal, Menezes, ao dizer que «não é uma autocrítica em termos pessoais» mas «uma autocrítica em termos institucionais», afasta quaisquer culpas próprias. Pior: como não bastasse, resolveu, ainda, dar lições de humildade. Ora, a única maneira de as lições de humildade surtirem algum efeito é começar-se por praticar o que se prega.

4 de março de 2008

Como esta notícia demonstra, não há-de faltar muito para que possamos ter acesso à ficha clínica uns dos outros. Aliás, a forma como a notícia foi dada é já um indício, um péssimo indício. É que o leitor que se limite a avaliar os exemplos lá apontados concluirá que se trata de coisa boa, pois só os aspectos positivos são mencionados.
Se as FARC são uma organização terrorista que luta contra o governo do seu país, é normal que Equador e Venezuela possuam, nos seus territórios, bases das FARC? A avaliar pelo que se vai vendo, parece que é. Anormal, garantem, é o ataque colombiano a uma base de guerrilheiros no Equador. Anormal e, claro, um atentado à soberania equatoriana. Já a existência de bases terroristas no Equador ou na Venezuela, dando guarida a quem atenta contra um país soberano, é coisa normal. O relativismo é assim mesmo: quando abre um olho, fecha o outro.

3 de março de 2008

29 de fevereiro de 2008

O crescente apoio dos americanos à nomeação de Barack Obama como candidato do Partido Democrático significa, antes de mais, uma coisa simples: os americanos estão fartos de políticos do passado, quer do Partido Democrático, quer do Partido Republicano. (O resto está aqui.)
Não me espanta que a jornalista Alexandra Lucas Coelho ache que a América foi «provinciana», «ignorante» e «sinistra» nos últimos 10 anos. Mas já me espanta a ignorância em que estas «evidências» assentam. (Texto disponível na versão impressa do Público.)
Aprendei, oh ignorantes!

27 de fevereiro de 2008

Consta que Siza Vieira teme uma intervenção arquitectónica no Bolhão que descaracterize a área, situação que, a acontecer, seria um «desastre». De facto, olhando para o projecto de Siza na Avenida dos Aliados, é de temer o pior. É de temer, antes de mais, que a intervenção no Bolhão lhe caia nas mãos.
Hillary Clinton tentou, no debate de ontem (Ohio), demonstrar que o seu opositor no partido é um zero em política externa. Só que, inquirida acerca do nome do sucessor de Putin, nem sequer foi capaz de se lembrar do nome do cavalheiro.

26 de fevereiro de 2008

Se todos os métodos de avaliação dos professores até agora propostos são maus, por que não apresentam os professores uma proposta de avaliação? Por que é que só se fala dos problemas dos professores — ou quase só dos problemas dos professores — quando se discutem os problemas do ensino? Estas são as perguntas que me ficaram depois do Prós e Contras sobre a Educação, precisamente as mesmas que fazia antes do debate. Pior: não vi, em todo o programa, uma única crítica dos professores que realmente tivesse substância. Já arrogância e sobranceria, foi coisa que não faltou. O Ministério da Educação tem uma política que, na prática, vai contra os professores? Provavelmente. Mas é preciso que se diga, também, que ninguém acredita em reformas no ensino que não atinjam os professores, ou parte substancial dos professores, e também é bom não perder de vista que os professores não são o fim único da Educação — mas um mero instrumento. Um instrumento importante, sem dúvida, mas um mero instrumento. O fim único das reformas na Educação é os alunos e a qualidade do ensino, coisa que se nota cada vez menos quando se discute a Educação.
Como já se tinha notado nos últimos dias e hoje demonstra esta notícia, a campanha do Partido Democrático entrou no plano inclinado. A partir de agora, e pelo menos até às primárias do Texas e Ohio, será sempre a descer. Resta saber quem ganha e quem perde com esta «estratégia», embora já haja um vencedor antecipado: John McCain.

25 de fevereiro de 2008

A questão levantada pelo provedor do Público na última crónica (ver aqui) não podia deixar de remeter-me para o meu post da última quinta. Onde dantes se lia «Os Estados Unidos ordenaram ao Governo da Sérvia que protegesse a Embaixada norte-americana em Belgrado», como então alertei, passou a ler-se «Os Estados Unidos exigiram ao Governo da Sérvia que protegesse a Embaixada norte-americana em Belgrado». Isto sem que tenha sido assinalada qualquer correcção ou dada uma explicação aos leitores, situação, no mínimo, deselegante.
Mais um inquérito que vai dar em nada.

21 de fevereiro de 2008

Abílio Fernandes, deputado do PC, pergunta no Público: «porquê a escolha para protagonista corrupto de um personagem que faz de presidente de câmara comunista?» Pergunta ainda o deputado: «será que um filme português para "fazer bilheteira" precisa de surpreender o espectador com uma situação absurda, insólita, ao arrepio da realidade?» Refere-se o ilustre ao filme Call Girl, de António-Pedro Vasconcelos, que terá cometido o «pecado» de que o acusa. Acontece que o sr. deputado, certamente por falta de prática lá no partido a que pertence, esqueceu-se de que o cineasta é livre de defender as posições que muito bem entender, mesmo as posições mais estapafúrdias, convenham ou não ao sr. deputado. Além disso, pretende o cavalheiro dizer que não há, no PC, autarcas corruptos? Se for verdade, dêem-me o cartão de militante que eu inscrevo-me já.
O «novo» slogan de Sócrates não é, apenas, uma frase copiada, ou mal copiada. O «novo» slogan de Sócrates é, sobretudo, uma frase mal representada. Enquanto o slogan de Obama é genuíno (ou, pelo menos, parece genuíno), o slogan de Sócrates soa ao que há de pior no teatro amador. Aliás, nada do que Sócrates diz soa a genuíno. Tudo parece demasiado ensaiado, demasiado forçado, demasiado previsível. Mesmo aquilo em que genuinamente acredita, isto partindo do princípio que genuinamente acredita em alguma coisa.
Onde é que o Público descobriu que os EUA «ordenaram» ao Governo sérvio que protegesse a Embaixada norte-americana em Belgrado?

19 de fevereiro de 2008

Não vislumbrei o mais leve comentário ao facto de o juiz que tem em mãos o processo de Isaltino Morais ter sido alvo de um embargo e uma multa por parte do município de que Isaltino Morais é presidente. Não, não houve pressão sobre o juiz, garante Isaltino. Até porque, acrescenta, só há pouco tomou conhecimento de que o magistrado era seu munícipe, e — vejam lá! — titular do processo que contra ele corre em tribunal. Ele há coincidências, não há dúvida que há. Coincidências, no caso, um pouco estranhas, mas as coincidências são mesmo assim: nunca foram fáceis de explicar. (A notícia está aqui, mas presumo que só para assinantes.)
Isto é capaz de ser uma boa ideia.

18 de fevereiro de 2008

Tem razão o presidente da Associação Nacional de Municípios em demonstrar «estupefacção» face às declarações do ministro do Ambiente, que responsabiliza as autarquias pelas cheias. Afinal, quem não sabe que a culpa foi da água?
O primeiro-ministro irritou-se porque a manifestação dos professores foi à porta do PS e não devia ter sido? E desde quando os cidadãos têm que distinguir José Sócrates primeiro-ministro de José Sócrates primeiro-ministro na qualidade de presidente do PS? O motivo da irritação é outro, bem sabemos. Convinha, por isso, que Sócrates não chutasse para canto.

15 de fevereiro de 2008

Está visto que ninguém, em Portugal, sabe nada sobre Timor. Ninguém, pelo menos, com acesso aos media, e para já não falar dos próprios media. Não era preciso, mas o programa televisivo que acabo de ver, onde dois analistas comentam a actualidade semanal, confirmou o que acabo de dizer. As «análises» sobre Timor foram de tal modo pobres que nem conseguiram disfarçar a ignorância mais básica.
«Mário de Sá-Carneiro procurou fugir ao equívoco, evitar o discurso à beira do coval para não ficar irmanado com os medíocres ilustres; mas os medíocres ilustres ou os seus procuradores vingaram-se. Em vez de romperem «aos saltos e aos pinotes», como ele tinha pedido, puseram gravata preta e enterraram-no em 30 linhas de texto a uma coluna na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Mais adiante, no talhão seguinte, letra D, ergue-se o retrato do dr. Júlio Dantas em canteiro de 155 linhas de prosa florida.» José Cardoso Pires, Diário de Lisboa de 7 de Abril de 1972

14 de fevereiro de 2008

O último Prós e Contras, que só ontem tive oportunidade de ver, teve o mérito de demonstrar que a Justiça portuguesa está pior do que se imaginava. Digo bem: pior do que se imaginava. Isto apesar de os protagonistas do debate terem sido, todos eles, juristas, o mesmo que dizer que muito ficou por dizer.
Se José Sócrates nunca assinou um projecto que não fosse da sua responsabilidade e a notícia do Público é, como diz, «uma falsidade», por que razão o primeiro-ministro não processa o Público?

13 de fevereiro de 2008

A reacção da imprensa dinamarquesa face à notícia de que os serviços secretos daquele país capturaram três indivíduos que se preparavam para assassinar um dos autores das caricaturas de Maomé publicadas no diário Jyllands-Posten em Setembro de 2005 é um gesto que se saúda. Infelizmente, as consequências ficam-se pelo carácter simbólico, e só pelo carácter simbólico. Kurt Westergaard, o cartoonista que os meliantes queriam matar, explicou porquê mal soube da conspiração: «O impacto desta reacção enlouquecida irá durar o tempo que vou viver. É triste, mas tornou-se a minha condição de vida.» Perceberam? Evidentemente que só um louco repetirá semelhante «gracinha», apesar dos gestos bem-intencionados ou dos discursos grandiloquentes sobre a liberdade de expressão. Não, não é a minha opinião. É uma evidência que só não vê quem não quer.

11 de fevereiro de 2008

Muito comovente a intenção de Luís Filipe Menezes de não fazer «ataques de personalidade e carácter» ao primeiro-ministro por este ter acumulado, segundo o Público, actividades profissionais no sector privado com as funções de deputado do PS. Comovente, mas pouco convincente. Aliás, é muito estranho o comportamento de toda a Oposição sobre este caso. Será por causa dos telhados de vidro?
O PGR acredita que a simples instauração do Apito Dourado teve um feito de «moralização» do espectáculo desportivo, «independentemente do resultado» que venha a ser alcançado. Comparando as declarações do PGR com as declarações do director nacional da Judiciária sobre o processo McCann, que foram vistas como uma forma de Alípio Ribeiro preparar a opinião pública para o arquivamento do caso, terão as declarações de Pinto Monteiro a mesma intenção? Se têm, não era preciso incomodar-se. Afinal, quem não sabe como o caso vai terminar?

7 de fevereiro de 2008

Como ainda não são conhecidos os candidatos às Presidenciais dos EUA, não tenho maneira de saber em quem vou votar em Novembro. Sei, porém, uma coisa: não votarei nos Democráticos ou nos Republicanos, mas no candidato que me parecer mais capaz. Melhor: pelo rumo que as coisas estão a levar, votarei no que me parecer menos mau. E mais não digo, que os cenários estão sempre a mudar, e as análises sempre a errar.
Belmiro de Azevedo mete o nariz onde não deve? Não sei, nem me interessa. Face às notícias divulgadas pelo Público sobre o primeiro-ministro, a hipotética intromissão do proprietário em matéria editorial é, no caso, uma questão de somenos. O que importa é saber se os factos (repito: os factos) divulgados pelo Público são, ou não, verdadeiros. Essa é que é a questão. Os malabarismos que por aí vão podem criar uma cortina de fumo — mas não escondem o essencial.
O crime compensa.

6 de fevereiro de 2008

Evidentemente que isto é tudo menos uma crítica literária. Aliás, surpreende-me que haja quem se preste a estes papéis, e ainda mais quem lhes dê guarida. Surpreendeu-me, por exemplo, esta ordinarice publicada no DN, para a qual chamei a atenção em devido tempo e não vi o mais leve comentário.
Se a PSP se queixa da escassez de «espaços para fazer disparos», é legítimo concluir-se que os seus agentes não são capazes de dar um tiro? Pior: serão eles capazes de acertar, digamos, num alvo de um metro a três de distância? É que, se bem me lembro, a falta de pontaria já vem, pelo menos, do tempo de Eça de Queirós, que acusava os soldados portugueses de não a terem.
Não aprecio os métodos do bastonário dos advogados, como aqui já referi. Mas qual é o problema de José Miguel Júdice? Marinho Pinto pretende candidatar-se a Belém? E daí? Não pode? É só dor de corno, ou há mais alguma coisa?

5 de fevereiro de 2008

Então não querem ver que isso de o primeiro-ministro ter, no passado, assinado projectos que não lhe pertenciam e abichado uns quantos subsídios que não devia não tem importância? Os factos apurados pelo Público são, pelos vistos, irrelevantes — ou o respeitinho manda mais do que devia. Fosse o visado outro ou viessem estas notícias noutra ocasião, e teríamos sermão e missa cantada. O jornalismo, pelos vistos, tem dias. Quando não investiga, devia. Quando investiga, persegue. Não há pachorra.

4 de fevereiro de 2008

A propósito do nascimento de uma nova editora (as Edições Nelson de Matos) e da publicação de um inédito de Cardoso Pires (O Lavagante): que é feito do projecto que pretendia editar seis volumes de textos dispersos de Cardoso Pires e se ficou, até ver, pelo primeiro volume (Dispersos 1: Literatura)? A editora era a D. Quixote, e o editor era, precisamente, Nelson de Matos. Quererá ele explicar o que se passou e dizer se tem planos para editar o restante?
«Isto de os advogados, enquanto classe profissional, aparecerem a pretender liderar o discurso contra a corrupção é um tanto bizarro. E só se explica porque quem ganhou as eleições para bastonário não foi exactamente o causídico Marinho Pinto, mas António Marinho, o comentador de Justiça na TV - que, aliás, acumulou durante anos o jornalismo e o foro, profissões bem difíceis de compatibilizar no plano dos respectivos códigos éticos.» Fernando Madrinha, Expresso

1 de fevereiro de 2008

O episódio da licenciatura do primeiro-ministro tem demasiados contornos rocambolescos para se duvidar que esteja bem contado. Não admira, por isso, que continuem a surgir situações pouco abonatórias do seu carácter, como a que hoje anuncia o Público. Não sei se é ilegal o facto de José Sócrates assumir a autoria de trabalhos que, aparentemente, não lhe pertencem, e no plano moral, sabendo-se do consentimento dos seus autores, ainda tenho mais dúvidas. Já no plano ético, e considerando o que dizem os técnicos ouvidos pelo Público, tenho menos dúvidas — ou dúvidas de outra natureza. Pode ser que isto seja um mero «ataque pessoal e político» à pessoa do primeiro-ministro, como garante José Sócrates. Só que, independentemente de opiniões e intenções, factos são factos, e a reportagem do Público está cheia deles. Convinha, portanto, começar por desmenti-los, pois só assim se fundamenta a tese do «ataque pessoal e político».
«O escritor Paulo Coelho tem um blogue onde faz pirataria dos seus próprios livros. Ele confessou, ao ‘The Guardian’, que se faz passar por fã de si mesmo e, assim, ajuda a vender mais Paulo Coelho. Não é esquizofrenia mas apenas um homem com uma vida dupla: nos seus livros intruja os leitores; no blogue intruja-se a si mesmo.»

31 de janeiro de 2008

Espero que a polémica à volta das agências de comunicação, que hoje ganhou mais um protagonista (ver texto de Luís Magalhães no Público), esteja para durar. É que eu pélo-me por uma boa polémica, e uma boa polémica sempre revelará factos dificilmente abordáveis doutro modo.
A táctica parece-me excelente.

29 de janeiro de 2008

Não percebo por que se diz que a estreia da ópera de Emmanuel Nunes foi um «fiasco» só porque o público não correspondeu da forma que se esperava. Afinal, estavam à espera de quê? Que o país parasse para ver uma ópera? Não terão os seus promotores colocado a fasquia demasiado alta? Não terá sido um delírio a ideia da transmissão simultânea para não sei quantas cidades, como se a ópera fosse um jogo de futebol? Descobriram, de repente, que o povo (é melhor não falar das elites) não aprecia ópera? Será só incompetência, ou a história não está bem contada?
Evidentemente que se esperaria do bastonário dos advogados que não se ficasse por insinuações quando disse haver, em Portugal, quem ocupe «cargos relevantes no Estado» que comete crimes sem que haja forma «de lhes tocar». Afinal, Marinho Pinto não ocupa um cargo qualquer, e o facto de ser jurista deveria afastá-lo de situações que não ajudam quem pretende pôr-lhes termo. Como não bastasse, o bastonário ainda teve o desplante de dizer que falou na qualidade de «provedor do cidadão», como se o bastonário não fosse o cidadão e o cidadão o bastonário — ou como fosse possível perceber quando fala o bastonário ou quando fala o cidadão. Mas parece que o episódio, para alguns, não tem importância. Afinal, quem já não disse que os políticos são um bando de criminosos? Como se vê, a lógica do raciocínio demonstra que um erro justifica outros erros. Se outros disseram que há «cargos relevantes» a cometerem crimes sem que nada suceda, por que não pode o bastonário da Ordem dos Advogados dizer o mesmo? É aquilo que eu designo por lógica da batata, que há-de levar a que tudo acabe em nada, apesar do inquérito da Procuradoria-Geral da República e o mais que se anuncia.

28 de janeiro de 2008

Se é verdade que pouco podem fazer para alterar o actual estado de coisas, seria bom que os jornalistas lessem, ao menos, a crónica de António Barreto no Público de domingo (disponível à borla aqui). Não que Barreto tenha dito alguma coisa que já não se soubesse, mas porque explicou muito bem explicadinho como funcionam as agências de comunicação e os efeitos que elas provocam quando dão com um jornalismo que não faz o seu papel. (Recomenda-se, já agora, a coluna do provedor do leitor, que no mesmo dia abordou a questão das fontes.)

25 de janeiro de 2008

Santana Lopes tem razões para sorrir. Afinal, não é todos os dias que um político é elogiado, muito menos por Vasco Pulido Valente. (A propósito: alguém se lembra da última vez que VPV elogiou alguém?) Mas não foi só Vasco Pulido Valente que teceu elogios a Santana Lopes por este ter recusado os serviços de uma empresa de comunicação. Os elogios vieram de todo o lado, incluindo dos opositores, e há que dizer que foram merecidos. Mas já tenho algumas dúvidas quanto à bondade da recusa. Terá sido por uma questão, digamos, de ética? Ou terá sido porque o líder parlamentar do PSD viu que a recusa lhe traria dividendos políticos? Provavelmente nunca se saberá, nem isso é importante. Mas já seria interessante saber se não estamos perante um daqueles casos de unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues.
Há, em Portugal, quem ocupe «cargos relevantes no Estado» que comete crimes sem que exista forma «de lhes tocar», garantiu o bastonário da Ordem dos Advogados. Vindo de quem vem, não se duvida. Mas já se duvida que Marinho Pinto revele, em breve, casos concretos, como promete. Isto apesar do inquérito prontamente anunciado pelo Procurador-Geral da República, que, obviamente, vai dar em nada.

23 de janeiro de 2008

Os bancos portugueses têm andado muito calados com a crise do BCP. Afinal, a ser verdade que o BCP cometeu ilegalidades, não significará isso que praticou concorrência desleal? A avaliar pelo silêncio, parece que não. Ou, se praticou, não merece a mais leve condenação. Por que será?
Duas boas notícias: o regresso de Rentes de Carvalho à blogosfera (já regressou há um mês, mas só agora me dei conta), e das crónicas de António Sousa Homem, agora no Correio da Manhã.
Provavelmente devido à controvérsia gerada à volta do cancelamento da visita do Papa à La Sapienza, passou despercebida a notícia de que um jornalista bielorrusso foi condenado a três anos de prisão por reproduzir, no jornal de que é editor, as famosas caricaturas de Maomé originalmente publicadas num jornal dinamarquês.

22 de janeiro de 2008

Só vi a primeira parte dos Prós e Contras sobre o tabaco (agora mesmo, em vídeo), e não tenciono ver o restante. Mas, pelo que vi, os fumadores (ou os que estão contra a lei do tabaco) estiveram muito mal representados. Sá Fernandes não deu uma para a caixa, e Fátima Bonifácio foi muita parra e pouca uva. Pior: passou o tempo a baixar o nível do debate, a tentar abandalhar uma discussão que devia ser séria nos modos e consistente nos argumentos, e a vender demagogia barata (passe a redundância). Isto, repito, na primeira parte, que o resto não vi. E não vi porque peixeiradas não fazem o meu género.
Diz o Público que Baptista-Bastos se desvinculou do Sindicato dos Jornalistas devido ao «silêncio desolador» que aquela agremiação tem mantido sobre o processo que lhe foi movido por Alberto João Jardim. Como aqui (e aqui) fiz referência, continuo sem entender o silêncio da blogosfera sobre este caso, sobretudo o silêncio dos jornalistas que andam pela blogosfera. (O artigo que deu azo ao processo está aqui.)

21 de janeiro de 2008

Dizer-se que o ministro da Saúde se riu com a morte do bebé de Anadia, como disse Santana Lopes, não é demagogia: é uma baixaria inqualificável. Arreiem no ministro da Saúde as vezes que quiserem e pelas razões que entenderem, que certamente oportunidades não faltarão — e motivos ainda menos. Mas descer ao nível que desceu o líder parlamentar laranja, só mesmo de quem não tem nível.

18 de janeiro de 2008

Ficou por demonstrar que a criança de Viseu morreu devido a uma falha dos serviços de saúde. Quando alguns já se preparavam para decapitar o ministro da Saúde, eis que a realidade deita por terra a tese da falha. Isto fez-me lembrar aquela novela brasileira cujo enredo gira à volta do cemitério que o manda-chuva de um lugarejo mandou construir por achar que se tratava de uma coisa prioritária, e depois o tempo vai passando sem que morra alguém que o justifique. Não, não sei se o Governo está certo ou errado quando manda fechar hospitais. Por aquilo que se vai vendo, numas vezes estará certo, noutras estará errado. Aliás, quando mais argumentos se conhecem dos que são contra e dos que são a favor, menos se percebe. O que se percebe é que há demasiados interesses em jogo, e que os interesses dos utentes são os que menos contam.
Não percebo por que motivo jornais e revistas perdem tempo com notícias acerca das vendas dos ditos. Primeiro, quem, a não ser eles, quer saber disso? Depois, quem precisa realmente desses números (os anunciantes, presumo) certamente que não se fia nas notícias. Por último, lê-se a notícia no DN e concluiu-se uma coisa, e concluiu-se outra após ler o Público (sem link). Sim, a gente sabe que cada um dá a notícia do modo que mais lhe convém e manipula o mais que pode, mesmo sabendo-se que são os mesmos os factos de ambas as notícias. Só que, assim, nunca sabemos quem fala verdade ou quem mente, o que equivale a dizer que não se acredita em ninguém. Aliás, também nunca percebi a (aparente) eficácia de se dizer «em directo», «em primeira mão» ou «em exclusivo» sempre que os jornalistas pretendem passar a ideia de que estão a dar a máxima importância ao que fazem, que foram os primeiros a chegar lá ou os únicos com acesso a informação que mais ninguém tem. Quem são os telespectadores, ouvintes ou leitores que querem saber destas coisas? Quando é que os jornalistas metem na cabeça que estão a falar para os telespectadores, ouvintes ou leitores, e não para a concorrência?
Como toda a gente já percebeu, a lei do tabaco está a tornar-se uma excepção com algumas regras. Depois dos casinos, o director-geral de Saúde anuncia que também as discotecas não precisam de cumprir a lei, naturalmente desde que (há sempre um «desde que») se verifiquem determinados requisitos. Não que me incomode que a lei do tabaco se cumpra, ou não se cumpra. O que me incomoda é que a lei só se aplique ao mexilhão.
Após aturadas pesquisas, descobri, finalmente, um local onde vendem alheiras como lá da terra, e não exagero quando digo como lá da terra. (O resto está aqui.)

Grande jogo!

17 de janeiro de 2008

E quando a gente aproveitava a paragem do comboio em Carrazedo (ou em Alvações, ou na Povoação, ou no Cruzeiro, ou no Tanha) para matar a fominha nas videiras mais próximas?

16 de janeiro de 2008

Farto de resmungar sem que o ouçam, Alberto João Jardim resolveu dizer que o seu lugar será «ao lado do povo madeirense» caso «o povo madeirense um dia quiser a independência». Claro que isto não significa que Jardim queira a independência, como não se cansa de dizer, e até está sempre a lembrar que foi dos que travou devaneios independentistas. O presidente da Madeira pretende, apenas, dizer que está pronto para essa eventualidade, naturalmente caso o bom povo madeirense assim o deseje. Isto, claro, falando do que parece. Falando do que é, quem acredita na novela da independência? Evidentemente que ninguém, a começar pelos madeirenses, que sobre o assunto nunca foram ouvidos ou achados — nem se lhes conhece a mais leve vontade de se tornarem independentes. Trata-se, apenas, da rotineira chantagem do líder madeirense, que nunca olhou a meios para atingir o que pretende. O problema é que a questão da independência da Madeira pode, a prazo, tornar-se realmente um problema, isto partindo do princípio que o assunto seria um problema. É que isto de andar a agitar a bandeira do separatismo por dá cá aquela palha pode acabar por criar uma real vontade de separatismo, pelo que o aviso de Alberto João Jardim, do género «não digam que não avisei», não cola. Aliás, a verificar-se um cenário de independência, Alberto João Jardim não será visto como o bombeiro que sempre nos quis fazer crer, mas como o seu primeiro instigador.
Vem aí o software que promete monitorizar os trabalhadores que ganham a vida frente ao computador — ritmo cardíaco, temperatura do corpo, movimentos, expressão facial, pressão sanguínea, frustração, stress, por aí fora. A ser verdade, e não há razão para pensar que não é, o big brother já era. (A notícia pode ser lida aqui.)

14 de janeiro de 2008

Deixei de fumar há coisa de sete anos, mas nada contra o tabaco ou contra quem fuma. Digo isto porque os ex-fumadores são, geralmente, os piores inimigos do tabaco, e os mais fundamentalistas. Feita a ressalva, devo dizer que não entendo por que razão os casinos não são abrangidos pela nova lei do tabaco, e cada vez acho mais suspeita a omissão (ou falta de clareza, não sei bem) que permite aos casinos justificar o incumprimento da lei. Aliás, as suspeitas agravam-se quando membros da Direcção-Geral de Saúde admitem que os casinos poderão ficar isentos da lei, a pretexto de que a maioria dos frequentadores dos casinos é fumador. Dêem-lhe as voltas que quiserem e invoquem as leis que quiserem que os cidadãos, nomeadamente os cidadãos que se vêem impedidos de fumar em todo o lado e não frequentam casinos, não vão entender. Nem eles, nem ninguém. O que se entende com esta excepção é que a lei é só para quem não pode ignorá-la.

11 de janeiro de 2008

Não me venham dizer que Hillary tem um problema por ser mulher, ou que, por ser mulher, tem uma tarefa mais difícil que os outros candidatos presidenciais — muito menos que necessite, por esse motivo, recorrer a expedientes pouco dignificantes (a choradeira, por exemplo) para alcançar o que pretende. Poderá, em alguns casos, ter um problema por ser mulher, mas seguramente que noutros ser mulher é um trunfo. Aliás, os especialistas dizem que Hillary venceu as primárias do New Hampshire devido, sobretudo, ao voto das mulheres.

9 de janeiro de 2008

Vital Moreira já tinha avisado: «defender o referendo é defender o insucesso do Tratado». Não surpreende, portanto, a decisão do primeiro-ministro ao não propor a ratificação do Tratado de Lisboa através do referendo, apesar de ter prometido um referendo sobre o assunto no discurso de posse como chefe do Governo. (O primeiro-ministro alega, agora, que a promessa eleitoral então feita se aplicava ao defunto Tratado Constitucional e não ao Tratado de Lisboa, um expediente que, obviamente, não colhe.) E por que razão José Sócrates decidiu não propor o referendo ao Tratado de Lisboa? Por uma razão simples e clara: teve medo que o referendo produzisse um resultado que não lhe conviesse. Bem pode o primeiro-ministro argumentar que proporia a ratificação do Tratado de Lisboa pelo referendo caso a maioria dos países europeus o fizesse que o verdadeiro motivo todos sabem qual é. Bem pode o primeiro-ministro dizer que «nada seria mais fácil e mais conveniente para o Governo do que agendar uma campanha política para um referendo» sobre um «projecto europeu que a maioria dos portugueses apoia» que o motivo está à vista de toda a gente. Mas tudo isto pode ser ainda pior do que parece, como se dá conta neste post.

8 de janeiro de 2008

Não percebo por que razão Inês Pedrosa diz ter «orgulho em escrever no jornal que se recusou a publicar a ignominiosa página de propaganda de Muhamar Khadafi», ao contrário de outros, que não terão resistido a um «chorudo pagamento». Afinal, o anúncio do presidente líbio só não passou despercebido porque foi notícia, e mesmo depois de ter sido notícia duvido que tivesse o impacto desejado. Depois, que dizer de alguns anúncios que se publicam diariamente nos jornais, incluindo no jornal onde escreve, propagandeando empresas «respeitáveis» que toda a gente sabe que não são? Não serão estes anúncios mais nefastos que a propaganda de Khadafi?

7 de janeiro de 2008

Não percebo nada de economia — nem, sequer, o mais elementar. Deve ser por isso, aliás, que não entendo como é possível um banco (o BPI) ser accionista de outro (o BCP), e os accionistas de um (o BCP) pedirem dinheiro emprestado a outro (a CGD) para comprarem acções do primeiro (o BCP). Para complicar, parece que é tudo legal. Para complicar ainda mais, a concorrência não abre a boca, as entidades que supervisionam acham normal, e os principais partidos políticos lutam entre si pelo controlo do que não lhes pertence.
Faz todo o sentido o PC perguntar «em que bases políticas e legais baseou o Governo a opção tomada de aceitar/negociar patrocínios comerciais» nos actos oficiais relacionados com o Tratado de Lisboa, querer saber se «terá havido alguma espécie de favoritismo» do Governo a algumas empresas», e «como foram seleccionadas as empresas e produtos patrocinadores».
A pior notícia do ano: acabou a crónica de António Sousa Homem no DN.
O Francisco mudou-se para o Correio da Manhã.

4 de janeiro de 2008

Ontem, na Sábado, Pacheco Pereira «meteu-se» com o JN. Não é a primeira vez que o faz, como quem o lê regularmente saberá. E o que fez o JN perante acusações tão graves como esta e esta? Até ver, nada e coisa alguma. A postura do JN tem sido ficar calado e caladinho, presume-se que por uma de duas razões: porque não atribui importância ao que diz Pacheco Pereira, o que ninguém acredita; ou porque o JN tem esqueletos no armário, e acha melhor calar-se.
Em mais uma manifestação de anti-americanismo primário e com a sobranceria a que já nos habituou sempre que fala dos americanos, Daniel Oliveira considera «medieval» o processo de nomeação dos candidatos à Presidência dos EUA. E «medieval» porquê? Infelizmente, não explicou. É que, se explicasse, teria deixado à vista que o método dos americanos é bem mais democrático do que o método utilizado, por exemplo, em Portugal, o que certamente não lhe convinha. Um sistema que oferece aos militantes a possibilidade de designarem o candidato do partido a que pertencem em vez de lhe ser imposto por quem nele manda, como acontece em Portugal e no partido do Daniel, parece-me infinitamente melhor, chame-lhe o ilustre os nomes que quiser. Aliás, há razões para estar ao lado dos americanos sempre que o cavalheiro fala mal deles. É que o Daniel é contra os americanos sempre pelas piores razões, ou por razões que só ele (ou a seita a que pertence) entende como más.
Não percam o Cáucaso (assim mesmo) do Iowa visto pelo vice-presidente do Instituto Transatlântico Democrático. Só um cheirinho: «Rudy Giuliani, o popular antigo Mayor de Nova Iorque que - muito embora tenha obtido um muito modesto sexto lugar, com apenas 3% dos votos - é já apontado pela generalidade dos analistas como o Candidato Republicano com mais hipóteses de vencer o candidato rival Democrata nas eleições de 4 de Novembro». Depois desta brilhante análise, onde a «generalidade dos analistas» garantem que um pré-candidato com um resultado miserável no Iowa é o que se apresenta «com mais hipóteses de vencer o candidato rival Democrata», vale a pena, também, visitar o site do IDT para se perceber melhor esta organização. É que, segundo os seus responsáveis, configura-se de «fulcral importância para a sociedade portuguesa a monitorização dos passos que levarão à eleição do próximo Presidente dos Estados Unidos da América», razão pela qual «se juntam os ingredientes necessários à criação de um elevado nível de pertinência».

3 de janeiro de 2008

Bem sei que a ASAE se presta a anedotas e ódios de estimação, mas a desculpa do seu principal responsável por fumar onde não devia é mais que esfarrapada. Pior: é inadmissível. Primeiro, porque o expediente cheira a esperteza saloia; depois, porque aproveitou a aparente falta de clareza da lei para prevaricar; por último, porque em vez de admitir o erro ainda nos quer tomar por parvos. Evidentemente que o único caminho que lhe resta é demitir-se, ou ser demitido. Isto, claro, se tivesse vergonha na cara, e se estivéssemos num país onde as regras se cumprem.

2 de janeiro de 2008

Se António-Pedro Vasconcelos «tem o raro mérito de produzir filmes de que o público gosta e que são sucessos de bilheteira», como diz Rui Moreira no Público, porque há-de o cineasta necessitar de apoios do Estado? Diz mais o Presidente da Associação Comercial do Porto sobre as benesses do Estado: os subsídios ao cinema devem ser atribuídos por «critérios políticos», e não «através de critérios pretensamente estéticos». Ora, o que quer ele dizer exactamente com os «critérios políticos»?
«O caso Maddie deixou mal os nossos polícias e os jornais ingleses», diz o Pedro Mexia. Ora, e os jornais portugueses? Não se portaram os jornais portugueses tão mal ou pior que os ingleses? Não andaram os jornais portugueses a defender teses que, afinal, não se confirmaram?

28 de dezembro de 2007

Nada surpreendente a posição de Vital Moreira face à eventualidade de um referendo ao Tratado de Lisboa. Surpreendente só os argumentos e, vá lá, a frontalidade com que os defende, embora os argumentos por si só não convençam ninguém, e a frontalidade também possa ser vista como falta de vergonha. Acha o professor de Coimbra que «defender o referendo é defender o insucesso do Tratado», pois está convencido de que o documento será rejeitado caso haja referendo. Avança, ainda, outro motivo: a mobilização dos partidários do «não» dar-lhes-ia um peso «desproporcionado» no conjunto dos votantes. Temos, assim, que o cavalheiro é contra o referendo porque o resultado não lhe convém, um gesto que se saúda pela frontalidade mas que demonstra bem a sua (pouca) estima pela democracia. Depois, Vital Moreira acha que, a haver referendo, os partidários do «não» teriam um peso «desproporcionado». Ora, como sabe ele que os partidários do «não» teriam um peso «desproporcionado»? Possui algum mecanismo que lhe permita saber antecipadamente os resultados do referendo, ou leu nos astros?
Alguém acredita que isto vai dar alguma coisa?

26 de dezembro de 2007

Há uma lista de pessoas a abater na noite portuense, garantiram, há meses, seguranças e polícias ao Correio da Manhã. Por aquilo que se vê, não se duvida. (O resto está aqui.)
O espírito natalício

21 de dezembro de 2007

Inquirido sobre o que necessita um escritor para se tornar um grande romancista, Faulkner respondeu desta forma: «Ninety-nine percent talent... ninety-nine percent discipline... ninety-nine percent work. He must never be satisfied with what he does. It never is as good as it can be done. Always dream and shoot higher than you know you can do. Don’t bother just to be better than your contemporaries or predecessors. Try to be better than yourself. An artist is a creature driven by demons. He doesn’t know why they choose him and he’s usually too busy to wonder why. He is completely amoral in that he will rob, borrow, beg, or steal from anybody and everybody to get the work done». Esta célebre tirada do não menos célebre escritor americano integra o segundo volume de entrevistas à Paris Review agora editado e que leio com enorme prazer.
Pacheco Pereira, na Sábado, a propósito das notícias sobre a operação Noite Branca: «(...) o Jornal de Notícias parece ser um jornal do Cazaquistão, tal é a ignorância do que se passa à sua volta. Mas não é, é mesmo do Porto e esse é que é o problema: é do Porto e cala.»
Visto o segundo episódio de O Caminho Faz-se Caminhando, apetece-me fazer dois reparos. Primeiro, as filmagens tresandam a amadorismo (as imagens tremem com frequência, volta e meia vêem-se os operadores de câmara, alguns enquadramentos não lembram ao diabo); depois, não há pachorra para tanto nariz empinado da Clara Ferreira Alves.

19 de dezembro de 2007

Não estava à espera de uma reacção corporativa, coisa com que raramente simpatizo. Mas também não esperava um silêncio tão ensurdecedor, nomeadamente dos jornalistas que andam pela blogosfera, após a notícia de que Alberto João Jardim resolveu processar Baptista-Bastos por causa deste artigo de opinião. Não merece reparo a atitude do presidente da Madeira? Ninguém se indigna? É normal? Confesso que isto me envergonha.

17 de dezembro de 2007

Uma coisa é certa: quanto mais azeda se torna a guerra das polícias, mais evidente se torna a incompetência que por lá vai. Não será por acaso que o PGR resolveu nomear uma «equipa especial» coordenada por uma magistrada de Lisboa, embora a operação da Judiciária do Porto na madrugada de domingo demonstre que o timing da nomeação não podia ter sido pior. Aliás, eu era capaz de jurar que ainda há pouco o director da PJ do Porto admitiu que «a noite do Porto está sem controlo» e, por isso, «é de temer tudo». E que o porta-voz do Comando Metropolitano do Porto da PSP confessou que a situação no Porto «pode piorar nos próximos tempos», e que tem consciência de que as autoridades nem tudo podem fazer. Sim, haverá falta de meios, descoordenação entre as polícias, ausência de comunicação entre quem manda, uma guerra norte-sul. Mas a incompetência está lá, não vale a pena esconder.
Onde é que o DN descobriu que Las Vegas vai ter um museu para homenagear a máfia? Desde quando um museu tem por missão única e exclusiva homenagear o que quer que seja? O Museu do Holocausto também será para homenagear o Holocausto? É só estupidez, ou há ali má-fé? Já agora, o que deu ao Expresso para se dizer orgulhoso do «papel de Portugal na Europa e no mundo nestes últimos seis meses»?
Baptista-Bastos foi processado por Alberto João Jardim por causa deste artigo de opinião.
Para quem, como eu, está farto dos «coitadinhos dos professores», recomendo a crónica de João Miranda no DN.
Ora bem.

14 de dezembro de 2007

Uma desilusão a nova livraria portuguesa, pelo menos a versão em linha. Uma pesquisa por Vázquez Montalbán, Francisco Coloane e Bioy Casares resultou em cinco títulos do primeiro, e em nenhum do segundo e terceiro. Comparativamente, a Bertrand registou 12, 4 e 6. Na FNAC, uma procura por Vila-Matas deu 11 a 0 à Byblos, e Rubem Fonseca venceu por 16 a 2. Para uma livraria que se apresenta como a maior e mais sofisticada, é pouco. Aguardo, agora, o preço dos portes para o estrangeiro, à hora a que escrevo ainda não disponíveis em linha e obscenos nas fnacs e bertrands. Aliás, não percebo por que são tão caros os portes de correio. É que eu já fiz algumas encomendas na defunta Byblos Art Net (alguma relação com a actual?), e os portes custavam metade.

13 de dezembro de 2007

Impossível ficar indiferente à reportagem sobre o Opus Dei que a Sábado publicou a semana passada. Ele são chicotes, cintos «com espigões de arame», autoflagelação, o diabo (salvo seja) — além do celibato e de os seus membros não poderem conviver com pessoas do sexo oposto, ir ao cinema, ao teatro ou ao futebol, ou de só poderem ler certos livros mediante autorização de «conselheiros». Mas o mais impressionante é constatar-se que os membros da «obra» são, por regra, pessoas instruídas, com plena consciência dos seus actos. Talvez por ser ateu (ou agnóstico, não sei bem), tenho dificuldade em compreender que ainda existam, nos países que tomamos por civilizados, criaturas com acesso generalizado ao conhecimento que se mortificam em nome do que julgam uma vida de santidade, ou lá o que é. Aliás, duvido que o deus por quem se sacrificam, a existir, aprecie tais práticas.
O Maradona limpou o cu à mística. A Rititi não duvida que noventa por cento dos problemas da Humanidade se resolveriam com um par de quecas semanais.

12 de dezembro de 2007

É preciso não esquecer que os atentados de ontem, de que resultaram dezenas de mortos (entre os quais vários funcionários da ONU), foram cometidos pela Al-Qaeda. É preciso não esquecer, também, que o primeiro atentado foi ao pé do Tribunal Constitucional de Argel, e o segundo frente às instalações do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados. «Não há dúvida de que o alvo foram as Nações Unidas», disse António Guterres à BBC. De facto, não há dúvida. Já quanto aos atentados não fazerem «qualquer sentido», como também disse Guterres, bem pelo contrário. Basta olhar para o historial da Al-Qaeda para ver que fazem todo o sentido.
«(...) há mais de 60 anos que o Brasil não dá cumprimento ao acordo [ortográfico] anterior e há perto de vinte que se vive sem o acordo de 1990. Em tantas décadas, acaso o português de Portugal se tornou uma bizarria?»

11 de dezembro de 2007

«Não beba o rótulo, beba o vinho», recomenda Mike Steinberger na Slate. Isto, diz ele, porque até os mais reputados enófilos têm dificuldade em não ser influenciados pelo rótulo quando o rótulo impõe respeito, e já Eça dizia que «é o rótulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho» (crónica O Salão, incluída no volume Ecos de Paris). Ora, este saudável princípio devia aplicar-se a tudo em geral, e às artes em particular. Imaginemos os filmes a serem vistos sem se conhecerem os realizadores, a pintura a ser apreciada sem se conhecerem os seus autores, e a música a ser ouvida sem nada se saber da sua proveniência. Imaginemos, agora, as conclusões a que se chegaria, bem como os argumentos para as fundamentar. Havia de ser bonito.